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O “eu” Cristão e a política

Há um ditado que diz: “Política, Religião e Futebol não se discutem”. Sobre política e religião, não acredito que seja verdade tal afirmação! Primeiro, porque todos os assuntos podem e devem ser matéria de debate, reflexão e troca de percepções, a não ser, é claro, sobre os que são do nível da preferência pessoal. Segundo, porque falando ou não do tema “política” estamos todos absolutamente inseridos num contexto onde a mesma determina a maneira em que as relações sociais, comerciais, religiosas se darão, e isso afeta inclusive os que não se posicionam politicamente.

A política trata dos direitos e os deveres dos cidadãos da sociedade, além de abarcar a maneira como se administra o bem público em favor da sociedade. É da política o desafio de transformar impostos e demais riquezas do país em qualidade de vida (saúde, educação, transporte, segurança, saneamento, entretenimento etc).

Uma pergunta se torna pertinente neste momento: qual deve ser a relação de um seguidor de Jesus com a política?

Essa resposta precisa passar por alguns tópicos:

1) Estado laico. Uma vez que “não” estamos falando de administrar a política da nova terra (que será a ideal), mas sim da velha terra (que está sob influência do pecado), precisamos entender que o estado precisa ser neutro em relação à religiosidade e assim deve governar para todos e não para um grupo específico. Exemplo 1: Se tenho direito de pôr uma Bíblia nas escolas, as demais religiões também podem reivindicar o direito de ter seus “livros sagrados” no mesmo espaço da Bíblia. Exemplo 2: Se as comunidades cristãs possuem liberdade para celebrarem sua fé, as demais religiões também devem ter seus espaços reservados e protegidos pelo estado (ou pela Constituição).

2) Todas as leis do país devem ser amplamente discutidas. Sobre legalização disso ou daquilo, proibições e regras, é preciso que se paute sempre em favor do que seja amoroso e do que promova a qualidade de vida! Não há como fugir dos temas complexos (pena de morte, aborto, legalização das drogas, etc), não há respostas prontas, não há um modelo infalível, é preciso construir uma sociedade justa, equilibrada e isso não virá senão através de muita discussão levando em conta a cultura e a situação emergencial do povo que se pretende governar. Vale lembrar que num mundo onde há maldade humana, por vezes somos levados a tomar decisões pelo menos pior e não pelo ideal.

3) É preciso uma compreensão apocalíptica não distorcida. Há muitos que por saberem que os últimos dias serão terríveis, se acomodam, sentam na cadeira e ficam num estado de “espera da morte e ressurreição”. Não votam, não acreditam em melhorias, não lutam por nada, não se mobilizam na direção de nada nem de ninguém, se tornam “crentes zero à esquerda” (politicamente falando). Mas, Jesus disse que felizes são os que tem fome e sede de justiça, que deveríamos amar, Tiago disse que deveríamos cuidar dos órfãos e das viúvas, a igreja de Jerusalém buscava promover amplamente a justiça social distribuindo suas posses a quem necessitasse. Portanto, embora saibamos que os sinais do fim já estejam aparecendo, nós somos dos que não descansarão até verem o oprimido ser restaurado e transformado em sua situação, não descansarão até verem o amor e a justiça reinando! Acredito que, dadas as devidas proporções, devemos admitir que o fim, os escândalos, os sinais apocalípticos estão muito próximos, porém, nosso compromisso é com a promoção de toda forma de bem possível.

4) Cristão político sim, mas político cristão jamais! O cristão político é aquele que em sendo seguidor de Jesus procurará fazer o que for melhor para todos, mantendo a ética, o amor, combinando aquilo que se vive (amor ao próximo) com o desenvolvimento e a criação de políticas públicas que viabilizem a qualidade de vida. Já o político cristão é a instituição da religiosidade na política, é a defesa de um grupo buscando privilégios especiais em detrimento dos demais grupos sociais, é a luta em favor de seus guetos religiosos. O cristão político governa pra todos tendo o amor como a base de suas decisões, o político cristão governa para os grupos que lhes são de interesse particular, promovendo uns em detrimento de outros.

Assim sendo, encerro dizendo que um cristão maduro sempre será consciente nas urnas, não se acomodará com o mal estabelecido, mas ampliará sempre que possível a voz da discussão daquilo que seja a boa reforma na maneira de governar para/pelo/com o povo e não tratará com menos mérito a política visto que o que interfere na vida das pessoas também interfere em sua vida. Devemos orar pelos governantes conforme Paulo, devemos pagar impostos conforme Jesus e devemos espalhar as boas obras para que o mundo as veja e glorifique ao Pai que está no céu.

A Santidade do Amor

A despeito de toda tradição popular que beatifica os que lideraram grandes instituições religiosas ou que contribuíram significativamente para algum setor da sociedade, nos despojemos um pouco, por ora nessa reflexão, dos quesitos que levaram homens e mulheres como Machado de Assis, Pelé, João Paulo II, Toquinho, Martin Luther King Jr. e Madre Tereza, dentre outros, à posição de “santidade” à eles conferida. A razão do meu pedido é a mais simples: quando gastamos tempo demais enaltecendo certos personagens da história, de alguma forma acabamos por nos colocar numa posição inferior, de incapacidade, de infinita pecaminosidade enquanto os exaltamos à inacessibilidade, inatingibilidade e os pintamos assentados nos tronos celestiais.

Certamente, o processo de santificação nada tem a ver com a capacidade de reproduzir os mesmos atos heroicos dos tais, nem mesmo assumir suas personalidades, que são por vezes tão distintas da nossa, ainda que sejam admiráveis e dignas de citação. Quando do Verbo escutamos “sejam perfeitos como o Pai celestial de vocês é perfeito” ou “sejam santos como eu sou santo” ou ainda “eu sou a luz do mundo… vocês são a luz do mundo”, estamos diante da declaração do que nos tornamos quando somos inseridos Nele e ao mesmo tempo é um convite amável ao desafio de viver na máxima intensidade, aquilo que o Verbo possui em sua essência mais profunda: o amor!

Sim, o Verbo é amar. Quem ama conhece Aquele a quem o Verbo disse “somos um”. Podemos dizer que ser santo, ou santificar-se, significa correr à passos largos na direção da prática do amor. Ser amor, fazer amor, pensar amor, manifestar amor! É ser encharcado pelo amor de tal maneira que, tudo o que tem haver com o amor tenha a ver conosco.

Isso de forma alguma anula quem somos, pelo contrário nos aperfeiçoa, nos completa, nos abrilhanta em tudo! Em amor não corremos o risco de nos perder, pelo contrário, no amor nos encontramos, nos desvendamos, nos calibramos, nos tornamos tal qual éramos nos pensamentos do Verbo quando recebemos Dele o “façamos o homem”. Nas intencionalidades do Criador, quanto mais somos amor mais perto estamos da vida, quanto mais nos distanciamos do amor, mais perto estamos da morte!

Todas as leis se resumem no “ame”, as parábolas do Verbo sempre ensinaram o amor por meio do perdão, do acolhimento, da compaixão, da empatia; as profecias mais severas eram pura expressão do amor que avisa as consequências da obediência ou desobediência ao Eterno, pois quem “avisa amigo (amoroso) é”; a decoração do universo é uma poesia de amor aos seres humanos, o instinto messiânico do animal/mãe para com o filhote é a impressão do amor sacrificial como pedagogia do amor Divino; o amor está no cheiro, no gosto, no tato, no tempo, no espaço, nas oportunidades, nas possibilidades, na vida e na morte! Você leu corretamente; a morte é expressão de amor visto que nela o imperfeito não está eternizado, o pecado não arraigado para sempre, a destruição não está imposta como ponto final na história, isso é amor!

Visto que assim é e assim se faz, amar é o caminho natural e coerente para todo aquele que compreendeu o sentido do universo, pra quem percebeu o propósito da vida! Amar é o dom que Deus dá a quem não se acorrenta pelo egoísmo, ódio, indiferença e violência; embora até estes em alguma instância sejam capazes de experimentar o amor que é fruto da graça e do aviso Divino do caminho a seguir.

Assim sendo, amar é o propósito de viver! Sem amor nenhuma boa decisão possui significado nem recebe estrutura capaz de se sustentar no fogo da provação na avaliação das obras, com amor todas as boas decisões ganham tal sustentação! Em amor o suicídio de si mesmo pelo outro é heroico, sem amor ainda que entregue meu corpo para ser queimado não terá sido mais do que um sacrifício de tolo. Em amor toda oferta é bem vinda, sem amor toda entrega se torna vã e religiosamente vazia.

Santo é quem ama! Santificado está aquele que encarnou o amor nas múltiplas dimensões da existência. Não há maior amor ou santidade do que dar a vida pelos irmãos! Negar-se, substituir-se pelo outro por amor, escolher andar mais lentamente por estar carregando alguém nos ombros, interceder junto à uma autoridade por causas que não trazem benefícios a si mesmo, ajudar alguém oferecendo de si voluntariamente além daquilo que se podia sendo este alguém incapaz de lhe retribuir de alguma forma!

O verdadeiro santo não exalta a si mesmo pois o amor, que é a base de seu ser, só se interessa na promoção das qualidades do outro; tal ser amadurecido no amor não busca uma posição de status, poder, influência gananciosa, sua busca é por servir cada vez mais os de perto e os de longe, os amigos e os que se fazem seus inimigos, os fáceis e os difíceis, os cultos e os ignorantes; é uma vocação que não está condicionada ao tempo e ao espaço, é uma consciência que está iluminada pela eternidade!

Encerro aqui, dizendo que ser santo é amar, e que amar é possível a todos os homens que se submetem conscientemente ou por uma intuição da graça de Deus Àquele que essencialmente é amor. Santo não é aquele que a sociedade confere tal título, aliás o ente amoroso e santificado nem busca sair do anonimato de forma que nem mesmo sua mão direita sabe o que a esquerda está fazendo. Certamente por acidente, alguns santos foram registrados nos anais da história e suas trajetórias são bem conhecidas por todos. O fato é que maior do que os santos documentados, são os santos que estão gravados na memórias dos que por eles foram amados! Os santos aguardam a coroa da Justiça que não é fabricada por mãos artesanais humanas, mas sim por Aquele que supera os séculos e que sonda os corações! Santifiquemo-nos pois e transformemos o mundo das pessoas amando-as intensamente!

O Belo e a Verdade

Há um senso comum sobre aquilo que é belo e há claramente uma consciência universal sobre aquilo que é verdade. Jamais ouvi de alguém olhar para um pôr do sol e achá-lo “feio”; tampouco ouvi sobre nenhuma civilização humana onde a vida não fosse um valor a ser preservado! O belo é belo mesmo que ele se manifeste através de alguém que tente se profissionalizar na produção da feiura. A verdade é verdade mesmo quando é dita na boca de alguém que mentiu antes e mentiu depois! O belo está em toda parte: na música, nas cores, na arte, nos contornos, nas variedades, nas culturas, nas preferências, na natureza. O melhor telescópio consegue captar o belo para além do planeta terra; o melhor microscópio o faz nos “nano-seres” e nossos olhos comuns não ficam isentos e alheios à toda beleza existente na existência. A verdade, aquela que está intacta, aquela libertadora, aquela que é e será para sempre também está espalhada por toda parte. Há quem deseja limitá-la, há os que acham que a detém, há os que cobram direitos autorais por ela, mas no final das contas a verdade é, ela é viva, ela transforma, ela conduz pessoas que nem se dão conta de sua vitalidade. A verdade está em toda parte, detecte-a e se permita inundar por ela. O belo e a verdade se fazem presentes; há quem prefira o feio e a mentira; mas alguém que prova do belo e da verdade encherga o suficiente para dizer: “Ah! Quão maravilhosa existência! Hoje eu sei o que é viver”!