Pseudo milagres que levam a pseudo conversões

O milagre que leva à conversão é o da intervenção divina objetiva na história do ser humano. O milagre que leva à conversão é aquele que revela o Cristo.
O centurião viu (no meio das trevas) que Jesus era verdadeiramente justo. Lc.23:44-49

Nestes tempos de absoluto relativismo em que vivemos, parece ser que passamos a chamar de milagre qualquer coisa que assemelhe intervenção do divino no humano ao passo que chamamos de conversão qualquer coisa que se pareça com mudança de conduta sem a necessária mudança de mente.

A existência ou não de Deus não pode ser provada. 

Esse “não pode” é em dois sentidos. “Não pode” porque cientificamente é impossível e “não pode” porque se provada fosse, a fé seria inútil. Tornar-se-ia uma tolice pensar diferente, já que seria como negar a existência do sol: ou seja, ninguém poderia dizer que Deus não existe e viver de costas para Ele.

Dito em outras palavras, a liberdade humana (tão essencial para o amor – pois sem liberdade não há escolha e o amor não é um sentimento e sim uma decisão) ficaria cerceada e seria – de fato – impossível amar Deus assim como não podemos amar o Sol e outras coisas cuja existência é um fato objetivo aos olhos de todo ser humano.

Muitos acham que Deus faz milagres para provar sua existência.

Há os que oram pedindo que Deus se manifeste de uma forma sobrenatural para um parente ou amigo. Pensam que dessa forma – com a existência de Deus impossível de ser negada – o ser amado se renderia definitivamente a Deus e passaria a ser um discípulo de Jesus.

Há também os que oram para que Deus se lhes manifeste de alguma forma sobrenatural e a partir dai – com a existência de Deus provada no foro mais subjetivo e íntimo – se comprometeriam a servi-lo, seguindo Jesus.

Há aqueles que contam historias que exigem ser interpretadas como sendo manifestações sobrenaturais, quando na realidade para o observador alheio ao fato (o que o torna mais objetivo) ou melhor conhecedor de alguns assuntos pelo treinamento científico, não passa de um fato inverossímil ou inócuo e a interpretação do mesmo como uma manifestação sobrenatural se lhe torna impossível e o que conta a historia se torna digno de chacota.

Em qualquer caso, a premissa é errada. Se Deus é “provável” então não há espaço para o amor e seria um caso de mera imbecilidade não lhe servir.

Se pensa comumente que a conversão é uma mudança de conduta.

Em certo sentido isso é verdade. Ou seja, quem anda com Jesus, mais tarde ou mais cedo muda sua conduta. O problema é que a mudança de conduta por via do esforço pessoal pode ser obtida por outros meios que não os da rendição intima ao Cristo. Essas mudanças não são necessariamente ruins para a vida social e nem para a pessoa. Veja por exemplo a enorme contribuição que clinicas de recuperação ou os alcoólicos anônimos prestam à sociedade e ao individuo em particular.

No mesmo patamar se encontram uma miríada de igrejas (grandes e pequenas) que incentivando a interpretação parcial da escritura levam cada um dos seus integrantes a esperar pelo sobrenatural e como o sobrenatural não chega o sobrenatural é substituído pela imitação e esta imitação prova ser imitação ao ser sempre o pseudo sobrenatural similar em todos seus aspectos à experiência do outro integrante do grupo com o qual ele é aceito pelo restante do grupo e visto como mais um ser especial. Do ponto de vista social, isso não é ruim de todo. Há várias pessoas que foram tiradas de vidas devastadas por esse tipo de ritual, só que – por não ser real objetivamente falando – não é muito distinto daquele praticado pelo vudu ou arcaicas e longínquas tribos indígenas ou  a macumbaria trazida da áfrica.

É por essas e outras que falo que pseudo milagres levam a pseudo conversões. O meu problema não é com a multidão enganada (se bem que muitos gostam deste engano) mas sim com os enganadores. Esta corja crescente de vazios espirituais que se dizem pastores, apóstolos, bispos e quanto outro nome possa ser usado ou inventado para serem tidos pela plebe cada vez mais negligenciada como intermediários entre o divino e o humano.

Conversão é mudança de mente.

Claro, sempre haverá aquele que diga que metanoia (do grego meta – além e noia – compreensão, razão, entendimento) é estar além do entendimento. Certo. Mas quando vemos essa palavra sendo usada, sempre vemos que ela quer dizer simplesmente pensar diferente. Já me tomarei o tempo um outro dia para discorrer sobre esse pensar diferente. Baste por enquanto só dizer que sem mudança de mente, não há conversão.

Então o que que há quando miles se não milhões de pessoas se reúnem semana após semana e contam de milagres acontecendo no meio deles? Não são milagres? Não são pessoas sinceras? Não são conversões?

Bem, para o bem da própria verdade, a maior parte do tempo não são milagres de fato e sim um autossugestionamento coletivo que se explica facilmente por nossa necessidade intrínseca de sermos aceitos por um grupo ao mesmo tempo que não somos como “os daquele outro grupo”.

Sobre a sinceridade, bem, sim, acredito que muitos sejam sinceros. Porém receio que os mais velhos há tempo detectaram que estão vivendo uma mentira e os que não detectaram, estão alienados quase com certeza, pois é impossível alguém viver tanto tempo respirando ar enrarecido e não almejar pela verdade. Penso que são (ou foram) sinceros no desejo de procurar pelo divino mas esta sinceridade não é requisito suficiente para rejeitar o erro e se lançar ao abismo da fé. É por isso que tão facilmente se tornam presa destes carniceiros oportunistas instruídos pelo próprio ventre.

Finalmente, sobre serem conversões, não, não são conversões. Em ledo engano se encontra quem acha que por haverem melhorias pessoais e sociais trata-se de conversões. São apenas ajustes necessários para conseguir a aceitação pelo grupo, nem mais nem menos, pois pseudo milagres levam a pseudo conversões.

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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.