Quando o símbolo se torna mais importante que a coisa simbolizada

Há uma sensação estranha quando a gente começa a perceber que algo ainda está de pé… mas já não sustenta mais nada.

Tudo continua no lugar. Os gestos são os mesmos. As palavras também. E, ainda assim, parece oco. Como se estivéssemos lidando com uma estrutura preservada… sem o que a fazia viva.

O problema é que símbolos sobrevivem bem ao tempo. Melhor do que a realidade que eles apontam.

E talvez por isso seja tão difícil perceber quando a inversão acontece.

O Antigo Testamento não esconde esse momento. Sacrifícios sendo feitos. Festas acontecendo. Tudo aparentemente certo. E, ainda assim, rejeitado. Não por erro na execução, mas porque aquilo já não correspondia a nada. O símbolo permaneceu. A vida que ele deveria expressar tinha desaparecido.

Isso não ficou lá atrás.

Hoje, por exemplo, é 21 de abril. O país para. O nome é lembrado. Tiradentes volta à superfície por um dia. Mas o que exatamente permanece ali? A memória viva… ou apenas o símbolo que atravessou o tempo? Porque é possível preservar a figura… e perder completamente aquilo que ela representava

A gente ainda sabe repetir formas. Sabe organizar ritos. Sabe manter práticas. O problema começa quando essas coisas passam a funcionar sozinhas. Quando deixam de apontar… e passam a ocupar o lugar.

O dízimo, por exemplo, nasce dentro de um mundo muito específico. Terra, colheita, templo, levitas. Um sistema inteiro que dava sentido àquilo. Fora desse ambiente, ele até pode continuar existindo — mas já não é a mesma coisa. E, ainda assim, há quem se agarre a ele como se fosse suficiente. Como se cumprir um percentual resolvesse algo mais profundo.

A ceia vai por outro caminho. Não pesa. Não exige. Mas também, muitas vezes, já não carrega o que deveria. O gesto está ali. O pão, o cálice. Mas quase sem memória. Quase sem corpo. Uma encenação leve demais para o que um dia foi denso.

E então a gente começa a perceber que o problema não está exatamente nas práticas.

Está no fato de que elas continuam… mesmo quando já não dizem mais nada.

E isso engana.

Porque dá a sensação de continuidade. De fidelidade. De que tudo ainda está no lugar. Quando, na verdade, o símbolo já não está apontando para nada além de si mesmo.

Deus nunca pareceu incomodado com símbolos.

Mas há momentos em que ele simplesmente se recusa a aceitar símbolos vazios.

Talvez porque, nesse ponto, eles deixam de revelar.

E passam a esconder.

E quando isso acontece, o mais perigoso não é perder o símbolo.

É preservá-lo.

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.