Há alguns assuntos que, ao longo dos anos, se tornaram praticamente proibidos dentro da igreja. Um deles é o julgamento. Basta alguém citar “não julgueis, para que não sejais julgados”, e parece que toda a conversa termina ali. Como se Jesus tivesse proibido qualquer forma de discernimento, qualquer forma de correção, qualquer forma de disciplina.
O problema é que a igreja acabou absorvendo muito mais da cultura ao seu redor do que imagina. Passamos a chamar de amor aquilo que a Escritura jamais chamou. Um amor que nunca confronta, nunca corrige, nunca chama ao arrependimento. Um amor que apenas acolhe. Mas esse não é o amor bíblico. O amor de Deus jamais é irresponsável. Ele é paciente, misericordioso e cheio de graça. Mas justamente por amar, ele também corrige.
Por isso a pergunta não é se a igreja pode julgar. A pergunta é outra: quem a igreja deve julgar?
Paulo responde de maneira surpreendente. “Pois que me importa julgar os de fora?” E, antes que alguém tire uma conclusão precipitada, ele mesmo explica. Quando escreveu para não se associarem com pessoas devassas, avaras, idólatras, maldizentes, bêbadas ou roubadoras, não estava falando dos que pertencem ao mundo. Porque, se fosse assim, diz ele, “seria necessário sair do mundo”.
Essa observação muda completamente a discussão.
O problema nunca foi conviver com pecadores. Se fosse esse o problema, Jesus jamais teria se sentado à mesa com publicanos e prostitutas. A igreja não foi enviada para fugir do mundo, mas para anunciar Cristo ao mundo.
Então de quem Paulo está falando?
Daquele que se diz irmão.
Daquele que deseja ser reconhecido como membro do corpo de Cristo, participa da comunhão da igreja, mas decidiu permanecer em rebeldia contra Cristo sem qualquer arrependimento.
A diferença não está na gravidade do pecado. Está na verdade da comunhão.
Porque o perdido normalmente sabe que está perdido.
O autoenganado acredita que encontrou a Cristo enquanto continua caminhando na direção oposta.
É justamente esse autoengano que a igreja não pode confirmar.
Mas para entendermos isso precisamos voltar um pouco.
Em Mateus 18, Jesus apresenta o caminho da disciplina. Se teu irmão pecar contra ti, vai falar com ele. Sozinho. Se ele ouvir, ganhaste teu irmão. Se não ouvir, leve testemunhas. Se ainda assim não ouvir, diga à igreja. Somente depois de percorrido todo esse caminho é que Jesus diz para tratá-lo como gentio e publicano.
Perceba que, desde o início, o objetivo nunca foi expulsar alguém.
O objetivo sempre foi ganhar o irmão.
A disciplina é o último recurso quando todas as tentativas de restauração fracassaram.
À primeira vista, parece um problema pessoal. Um irmão pecou contra outro irmão. Mas apenas à primeira vista.
Porque o Novo Testamento vai revelar que nenhum pecado dentro da igreja é apenas um problema entre duas pessoas.
Quando Saulo perseguia os cristãos, Jesus não perguntou: “Por que persegues a minha igreja?”
Perguntou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”
A agressão contra o corpo foi tratada como uma agressão contra a própria cabeça.
Mais tarde, o próprio Paulo desenvolverá essa verdade. A igreja é o corpo de Cristo. Se um membro sofre, todos sofrem. Se um membro adoece, o corpo inteiro adoece. “Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?” E aos coríntios ele escreve como quem sente “dores de parto” por aqueles irmãos.
Então a disciplina deixa de ser um conflito entre duas pessoas.
Ela passa a ser uma questão do próprio corpo de Cristo.
Quando um membro adoece, o restante do corpo não pode fingir que nada aconteceu. Também não pode amputá-lo por conveniência. O corpo mobiliza tudo o que possui para restaurá-lo.
É exatamente isso que acontece em 1 Coríntios 5.
A igreja estava orgulhosa de uma tolerância que Paulo considera incompatível com o evangelho. Um homem vivia publicamente em pecado, recusava-se ao arrependimento, e a igreja continuava tratando aquilo como se fosse apenas uma expressão da graça.
Paulo reage.
Não porque aquele homem estivesse além da graça.
Mas porque a igreja estava usando a graça para confirmar uma mentira.
Então ele ordena que aquele homem seja afastado da comunhão.
Esse talvez seja um dos textos mais duros do Novo Testamento.
Mas somente até lermos o motivo.
O objetivo não é destruí-lo.
Não é preservar a imagem da igreja.
Não é demonstrar superioridade moral.
É para que ele desperte.
É para que deixe de viver no pior estado espiritual possível: acreditar-se unido a Cristo enquanto rejeita, deliberadamente, o senhorio de Cristo.
A disciplina não rompe a comunhão.
Ela apenas torna visível uma ruptura que já aconteceu no coração.
Mas a história não termina aí.
Anos depois, escrevendo novamente aos coríntios, Paulo manda fazer o movimento inverso. Agora é tempo de consolar. É tempo de confirmar o amor. É tempo de receber novamente aquele irmão, para que não seja consumido por excessiva tristeza.
Independentemente de se tratar exatamente da mesma pessoa ou de outro caso, o princípio permanece idêntico.
O mesmo apóstolo que mandou afastar agora manda restaurar.
Porque o objetivo nunca foi perder alguém.
Foi sempre recuperá-lo.
É por isso que Hebreus afirma que Deus corrige a quem ama.
Não corrige porque deixou de amar.
Corrige justamente porque ama.
Talvez o maior erro da igreja contemporânea seja separar essas duas coisas.
Há igrejas que falam tanto de graça que abandonaram a disciplina.
Há igrejas que falam tanto de disciplina que esqueceram a graça.
O evangelho não permite nenhum desses extremos.
A igreja não disciplina porque se considera melhor.
Disciplina porque entende que um membro doente compromete todo o corpo.
E restaura porque entende que aquele mesmo membro continua sendo alvo do amor de Cristo.
No fim das contas, a marca do cristão nunca foi a perfeição.
Também não é o conhecimento bíblico, os dons espirituais ou a reputação.
A marca do cristão é o arrependimento.
Enquanto existe arrependimento, existe comunhão.
Quando ele desaparece, a igreja ama o suficiente para corrigir.
E, quando ele reaparece, ama o suficiente para restaurar.
É assim que Cristo trata o seu corpo. E é assim que o corpo de Cristo deve aprender a cuidar de si mesmo.