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A Trindade na política

Religião e política parecem trilhar caminhos comuns muitas vezes. A paixão que despertam, a ganância que as tenta, o poder que as convida e as barbáries que podem produzir, são reveladas no processo histórico de forma escancarada. Porém, apesar de muitos caminhos em comum, há um único elemento imprescindível para o estabelecimento, construção e sustentação de ambas – o sagrado.

Sem o sagrado não se tem religião nem política. Este, que assume variadas configurações nas mais diversas expressões religiosas da humanidade, se mostra mais uniforme e definível na política.

Não é de estranhar que, em época de eleições, o sagrado exerce enorme força nos muitos discursos inflamados em busca de adeptos. Seguindo o pensamento de Rudolfo Otto de que o sagrado é mysterium, tremendum et facinans (misterioso, tremendo e fascinante), pode-se observar que as forças de atração e repulsão estão em constante tensão em relação ao sagrado no plano político.

Assim como no Cristianismo, o sagrado político se configura de forma triúna. São três os que compõem a sacralidade. Embora distintos, são inseparáveis. As campanhas políticas exaltam, louvam, ou condenam o sagrado de forma veemente. Mas no fim, todas acabam cedendo à adoração que lhe cabe e prometem adorná-lo, cuidar dele, prestar-lhe culto, atenção e melhorias pelo tempo em que tiverem o privilégio de tocá-lo.

A trindade sacrossanta da política sofre o sacrilégio de ver seus nomes tomados em vão inúmeras vezes, sem o mínimo de escrúpulos ou temor. Ela assume três nomes benditos: Educação, Segurança e Saúde. Nenhum pretendente ao ofício pode ousar dar vazão a suas preleções sem invocar a trindade. Ela é a pedra fundamental sobre a qual se constroem os templos suntuosos da máquina administrativa do poder, e se estabelece como alvo do louvor e centro da prédica de todo aquele que aspira subir os degraus do sucesso.

Uma história faz-se necessária para a compreensão dos fatos. Conta-se que um dia houve uma catástrofe. O inimaginável ocorreu e causou um desastre sem precedentes. Ninguém sabe o porquê de tamanha eficácia das forças malévolas no processo de oposição à trindade, mas constatou-se que, em algum momento lúgubre da história antiga, houve uma desavença e desequilíbrio entre os três elementos que compõem a santíssima trindade.

A Educação, enlouquecida, partiu repentinamente e agressivamente em direção à Saúde. Esta, indefesa e já moribunda, gritava desesperadamente por socorro enquanto era golpeada brutalmente até a morte. Amedrontada por tal atrocidade, a Educação fugiu em direção às fronteiras do país. A Segurança, por sua vez, sentindo remorso por não ter podido acudir sua fiel amiga Saúde no momento em que mais precisava, partiu furiosamente em busca da Educação. No caminho, atirou aleatoriamente diversas vezes para descarregar sua ira. O resultado de tais disparos deixou um rastro de sangue por seu caminho. Finalmente a Educação foi interceptada e, na fúria, acabou sendo assassinada pela Segurança. Esta, tentou ocultar o cadáver, mas foi seguida pela população revoltada por tantas mortes inocentes e acabou sendo linchada em praça pública.

“Três cadáveres num mesmo dia. Que tragédia!”, noticiavam os jornais em letras garrafais. Constituíram uma comissão para decidir o que fazer com os defuntos e, após muita discussão, resolveram construir três belos túmulos no maior cemitério do país. Os sepulcros foram milimetricamente calculados e posicionados lado a lado formando um monumento impressionante.

Desde aquele dia, coisas estranhas andaram acontecendo. De tempos em tempos, um espírito (alguns dizem ser maligno, outros, benigno) sopra sobre os túmulos levantando os corpos apodrecidos. Estes saem de seus jazigos e despertam emoções das mais diversas na população. As autoridades, acionadas pelo povo, parecem não tomar atitudes, mas, pelo menos, demonstram concordar com uma coisa: este espírito colabora com o momento.

No cemitério, coisas sinistras também são observadas. Um dos túmulos, certa vez, amanheceu pichado. Não se podia entender os escritos. Chamaram os linguistas mais capazes, mas ninguém pode decifrar a frase. Chegaram à conclusão de que algum estudante mal formado teria arriscado algum pensamento. Outros suspeitam de algum professor frustrado, talvez um proponente de alguma revolução ortográfica. O certo é que não havia muitas pistas, mas uma seta indicava para uma escola, que de tão velha, tinha perdido as primeiras duas letras da palavra escola no seu letreiro. Para conter gastos, ou por qualquer outro motivo escuso, preferiram deixar como estava.

Outro túmulo também passou por uma experiência estranha. Sangue parecia brotar do chão. Levaram para análise. Nunca divulgaram os resultados. Há murmúrios de todos os tipos, mas na realidade todos parecem temer dizer definitivamente algo. Alguém desavisado foi até o local para coletar mais amostras, mas, quando estava agachado, escutou zumbir algo rente à sua cabeça. Deitou no solo e se arrastou rapidamente para longe do local. Tentaram entrevistá-lo, mas se recusou a dar entrevistas. Dizem que contou a um amigo que enquanto rasgava suas roupas se arrastando pelo chão, viu um cartãozinho de uma empresa que prometia proteção particular. O autor da façanha nunca mais foi visto e chegaram a comentar sua morte. O fato é que o caso foi arquivado.

O mais estranho de todos foi o que aconteceu com o terceiro túmulo. Muitos se recusam a falar, outros fazem o sinal da cruz ao mencionar. Dizem que volta e meia, no calar da noite, uma fumacinha sai de dentro do túmulo por um orifício na lateral. Os boatos começaram a se espalhar e uma tv alternativa instalou uma câmera escondida no cemitério. As imagens foram exibidas antes de serem confiscadas. Turvas e arrepiantes, era possível ver, de vez em quando, a fumacinha saindo. As autoridades se mobilizaram, montaram um esquema de segurança e depois apagaram o caso. Hoje ninguém fala muito neste episódio, mas o coveiro, que é uma pessoa meio mística, disse que um dia, andando próximo a este túmulo, encontrou metade de um charuto. Pintaram o túmulo de branco para espantar qualquer coisa ruim e há quem nem passe perto do desgraçado.

Os túmulos continuam lá, ora aparentemente abandonados, ora adornados com flores belíssimas.

Deus ajude o Brasil.