O dízimo no Antigo Testamento

A palavra dízimo, tanto no original hebraico do AT quanto no original grego do NT significa “décima parte”. A começar pela própria etimologia da palavra, não se pode ignorar seu significado mais amplo.

Na cosmovisão absolutamente pendular de nossa mentalidade contemporânea ocidental, corremos o risco de pender sempre para extremos ao analisar circunstâncias que estão sendo exploradas em outro extremo.

Pertinente à primeira Aliança, da qual os gentios não fizeram parte, o dízimo fazia parte do pacto entre Deus e o povo de Israel. Cada judeu era obrigado pela lei levítica a pagar três dízimos de sua propriedade (1) um dízimo para os levitas; (2) um para o uso do templo e as grandes festas; e (3) um para os pobres da terra.

É óbvio que a finalidade única dos dízimos não era o churrasco coletivo, pois se assim o fosse, todos os serviços do tabernáculo, bem como do templo deveriam ser realizados por escravos, o que não era certamente o caso.

Somos alvos de tentações cada vez mais lúgubres. Se por um lado tentados a dar vazão à volúpia pelo enriquecimento quando submetidos a discursos de manipuladores da boa fé do povo; por outro as mesmas tentações se nutrem de nossa idolatria “maamônica”, nos levando a concluir que o contribuir financeiramente em uma igreja é coisa pra tolos manipulados, ou no mínimo ingênuos. Pra quem ama o dinheiro as duas são perfeitamente cabíveis. Tais idólatras são bem servidos pelas duas propostas. “Dê e terás mais” ou “Não dê, todos querem seu dinheiro”. As duas vertentes do mesmo rio levam incautos a buscarem cada vez mais para si mesmos e para os seus, ao mesmo tempo em que: ou excitam suas consciências a contribuírem avidamente sob a chama da ganância, ou as desobrigam de contribuir, sob o manto da lucidez intelectual.

Cientes de que o dízimo era um postulado da Antiga Aliança, sabemos que a Nova Aliança também requer contribuições que não visem a auto-satisfação de quem contribui. Contribuir primariamente para gastar consigo mesmo e com os seus, é, no mínimo falta de percepção do que a própria noção de contribuição significa.

Há dois tipos de ignorância endêmica no povo evangélico: aquela que encabresta levando o manipulado a enxergar Deus como se fosse um banco, e aquela que carrega de obscurantismo uma mente que se disfarça em lucidez, mas que na realidade esconde seus verdadeiros motivos funestos.

Ainda acredito, porém não sem dificuldade, que uma geração que ignore a própria significância dos termos mais simples, possa um dia entender questões que ultrapassem a superficialidade.

Everson Spolaor

É o dízimo uma prática cristã?

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AVISO AOS NAVEGANTES; Como todo artigo, este busca provocar o pensar do leitor e não instrui-lo sobre como agir. Todavia, em assunto tão delicado vale fazer uma ressalva: Se você tem a prática de entregar um percentual dos seus ingressos regularmente na sua igreja local; se você faz isso com alegria e pureza de coração; se com isto está esperando absolutamente nada em troca, então nada mude. Se sua igreja local, no exercício da sua mais plena liberdade decidiu – com a anuência de seus membros – que é importante cada um dos seus membros entregarem uma certa parcela fixa de forma regular para a manutenção dos seus programas e você faz isso de forma feliz, livre e desinteressada: nada mude.

O dízimo se presta hoje e desde tempos longícuos para uma interpretação simplista e de tendências dominantes de uma classe sobre outra. Dito em outras palavras, lhe é dito ao membro da comunidade que se dizimar Deus vai lhe abençoar e caso contrário, o devorador tomará conta.

Obviamente que o texto usado é Malaquias 3:10. A interpretação dada, limita a leitura apenas a esses textos e não consegue observar (talvez porque não lhe é conveniente) os textos a seguir: O povo não mais enxergava diferença entre o ímpio e o justo; prosperavam uns tanto quanto os outros. Quando por fim há uma separação entre os que temiam ao Senhor dos que não (v.16) não há menção sequer ao dizimo, apenas a promessa de que “Então vocês verão novamente a diferença entre o justo e o ímpio, entre os que servem a Deus e os que não o servem” (v.17) O problema que Malaquias levanta não é a questão do dízimo em si, mas da falta de obediência. (v.6,7) o dízimo, neste texto, é apenas um sintoma nesse problema todo. Havia um pacto que estava sendo quebrado por parte do povo judeu e a manifestação dessa quebra era a falta de mantimento na assim chamada casa de Deus. E é justamente o retorno ao pacto que Deus está cobrando.

Ai você está lendo e está dizendo, ou eu não estou entendendo coisa nenhuma ou esse cara está falando o mesmo que eu acredito. Avancemos.

É bem provável que Malaquias estivesse esperando a mesma reação que o povo teve no tempo de Ezequias uns trezentos anos antes (2Crô.32:2ss) mas a análise clara dele é que o povo se afastou de Deus e o grita de todas as formas possíveis.

Há uma base legal para o que Malaquias está reivindicando. Simplesmente você não pode sair por ai interpretando qualquer coisa esquecendo a base legal já que isso é forçar o texto a dizer coisas que ele não diz e por conseqüência, levar as pessoas a crerem em coisas que Deus não referenda (tanto positivas como negativas)

Deuteronômio 26

Talvez a mais simples de ver e de achar paralelos é a de Deuteronômio 26.

Via de regra separamos este capítulo no versículo 16 dando início à exortação à obediência como se fosse uma coisa separada da anterior. Mas na realidade são quatro engrenagens da mesma peça: a declaração de conformidade com a vontade de Deus (v.3;5-10a) a entrega das primícias (v.1,2,4,10b,11) a entrega dos dízimos (v.12-15) e a confirmação do pacto de obediência com suas consequências (v.16-19).

O paralelo surge porque Malaquias começa reclamando que o povo se tem desviado e desobedecido (exatamente onde Deut.26 termina) e por consequência, diz Malaquias, o povo não tem se mostrado fiel nos dízimos (a penúltima parte de Deut.26) a colheita não tem sido boa, as pragas têm invadido os plantios e não há então do que tirar as primícias (a segunda parte de Deut.26) com o que chegam a uma declaração de que “é inútil servir a Deus. O que ganhamos quando obedecemos aos seus preceitos e ficamos nos lamentando diante do Senhor dos Exércitos?” que é uma antítese à primeira parte de Deut.26

Assim como a imagem que se forma na retina é invertida, porém o cérebro recebe esta informação e a transforma novamente em imagem direita, precisamos ver que Malaquias está trazendo à memória coletiva a repetição da Lei (Deuteronômio significa repetição ou segunda lei) Começa com os sintomas até chegar na causa. Deus não falhou, o povo sim. Logo, o povo deve voltar-se a Deus e é essa a mensagem de Malaquias usando de modo magistral o dizimo como aferidor sintomático como quando usamos um termómetro para conferir a temperatura do corpo.

Mas, há um detalhe que escapa. Talvez por inocência, talvez por ignorância ou talvez por falta de escrúpulos mesmo. Deut.26:12 diz “Quando tiverem separado o dízimo de tudo quanto poruziram no terceiro ano, o ano do dízimo, entreguem-no ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que possam comer até saciar-se nas cidades de vocês”

O detalhe que se perde é este de “no terceiro ano“. Já analisaremos os outros, mas este é importante. Alguns que se depararam com isto já me comentaram “ah, mas isso era por conta de que a produção era anual, mas agora o ganho é mensal” e eu me pergunto: o que tem a ver batatas com trilhos de trem.

Explico-me. Por favor, dê uma olhada honesta sobre Deuteronômio 14:22-29. O texto é muito claro como para lhe dar volta. Vai parecer até tonto tentar explicar ele porque é muito diáfano.

v.22 A ordem dada é para separar o dízimo de tudo que for produzido anualmente.

v.23 A ordem é para comer esse dízimo no local que o Senhor escolheria como habitação

v.24-25 Se for longe demais, troque por metal que é mais fácil de transportar

v.26a Com esse dinheiro, compre o que quiser: Bois, ovelhas, vinho ou outra bebida fermentada ou qualquer outra coisa que você desejar.

v.26b Com suas famílias, comam e alegrem-se na presença do Senhor.

Ou seja, deixa traduzir por se não ficou claro: é uma poupança para o churrasco do final de ano com direito a vinho e cerveja (A NTLH tem uma tradução formosa sobre esse texto) Uma grande festa para celebrar o Senhor da Vida. É uma festa plural, harmoniosa, alegre.

O versículo 27 encerra isso dizendo “E não se esqueçam dos levitas…”

Talvez que alguém pudesse se fazer de bobo, não entender direito como é isso de “não se esquecer dos levitas” então a Lei (uma coisa que nem o próprio Jesus pode mudar, logo você também não pode por mais que queira) diz assim a seguir:

“28 Ao final de cada três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano, armazenando-os em sua própria cidade, 29 para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que o SENHOR o seu Deus, os abençoes em todo o trabalho das suas mãos”

Antes que alguém pule, já ví a promessa no final, não sou cego. Mas cego é quem não enxerga o terceiro ano. Ou, se quiser ser legalista, 1/3 do recebido seja quinzenal, mensal, trimestral, anual. Aplique como quiser, mas nunca vai dar 10% de tudo quanto você ganha.

Assim como no amor (ame seu próximo como a si mesmo) no dízimo bíblico o que vem primeiro é o churrasco, você, sua família, seus queridos. Isso é feito por três (alguns diriam dois) anos consecutivos. Depois disso, aquilo mesmo que você ia usar para seu churrasco anual, o dividirá entre quatro grupos de pessoas: os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas.

Simplificando: Sim, o levita recebia 1/4 de 1/3 de 1/10 da produção que é bem diferente do que certas pessoas incitam a ser feito.

Coloquemos um exemplo: Digamos que nos últimos três anos você ganhou (diferença entre investimento e retorno) R$ 12.000 A cada ano, você então separou R$ 1.200 (10% de 12.000) para comprar carne bovina, ovina, vinho, cerveja e outras coisas que você gosta, fatias húngaras, torta holandesa, um bom café, etc. se juntou com outras famílias amigas na capital do seu estado e fez uma festa. Só que no final do período não haverá festa; esses R$ 1.200 serão distribuídos entre três grupos da sua cidade: o levita (se ainda houvessem), os estrangeiros (isso inclui os muçulmanos, budistas e outros que por ventura não estejam indo bem na vida), a viúva (que é criticada na cidade porque é nova mas não casa) e o órfão (que a falta do que fazer, pratica pequenos furtos para sobreviver).  Se fosse em partes iguais, você doaria R$ 300,00 para cada grupo: 1200/4

Os levitas como tais não estão mais entre nós. (Precisaria ser descendente da tribo de Levi e o culto no templo ser restabelecido) mas concedamos o ponto de que se possa corresponder aos que lideram nas igrejas locais e não tem outra ou nenhuma profissão.

Para facilitar a coisa, digamos que a congregação é composta de famílias cuja média de ingressos anuais é R$ 12.000. E que esta congregação decidiu que vai praticar o dízimo bíblico (coisa que não estou incentivando porque a Lei chega até o Cristo). Mas concedamos o ponto apenas como um exercício mental. Digamos ainda que essas famílias pertencem a um de quatro grupos formados para garantir que haja um fluxo regular (já que se é para sermos bíblicos, os primeiros três anos são para a festa e o quatro é para recolher-se e entregar o dízimo)

Já pensou em quantas famílias deveria ter essa igreja? Pois é, pelo menos 200 famílias na condição de ganhar R$ 12.000 no ano. Com cinquenta famílias em cada grupo, cada grupo se juntaria para fazer um churrasco no valor de R$ 60.000 e – por conta do escalonamento – haveria uma contribuição anual de R$ 15.000 (60/4) que divididos os doze meses daria um salário pastoral de R$ 1.250,00. Os outros R$ 45.000 anuais seriam distribuídos entre as viúvas, os órfãos e os estrangeiros.

É obvio que estou levando as coisas ao limite. E é mais obvio ainda que não estou fazendo apologética pela implantação do dízimo bíblico. Mas já basta de essa enganação de dizer que dar 10% de seus ingressos tem alguma coisa a ver com o dízimo bíblico.

Antes de Deuteronômio

Alguns vão citar Números 18:21 e Levítico 27:30ss vamos a eles.

As duas citações são importantes porque são anteriores à repetição da Lei. (Ou à segunda Lei) Em Levítico 27:30, diz que todos os dízimos da terra pertencem ao Senhor por serem consagrados a ele e essa consagração é fática. Ou seja, não precisa você consagrar que já lhe pertence ao Soberano. A consagração por parte da pessoa entra aqui como reconhecimento de uma coisa que já é assim. Seria bom entrar nos detalhes, mas não é o foco.

Posteriormente em Números (e é importante frisar posteriormente) os dízimos são entregues aos levitas “21 Dou aos levitas todos os dízimos em Israel como retribuição pelo trabalho que fazem ao servirem na Tenda do Encontro” Este pacto é irrevogável (v.19) mas ele está suspenso. Não há levitas nem tenda de encontro. Nem sequer há o Templo que seria o substituto. Obvio que isso é campo para os escatólogos. Não é meu caso. Baste dizer que somos “Nação santa, real sacerdócio” (1Pedro 2:9) e que “A Lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não sua realidade.” (Heb.10:1a)

Mas, tanto Números como Levítico são anteriores a Deuteronômio.

Deuteronômio legisla sobre as leis gerais pronunciadas nessas duas passagens.

Logo, se sua interpretação do dizimo não concorda com a Deuteronômio, há alguma coisa que não fecha nessa linha lógica. E como já provamos que Malaquias é um espelho reverso de Deuteronômio 26 e este está amarrado com Deuteronômio 14, não pode pegar apenas um dos versículos e sim o pacote inteiro.

Mas antes de avançar, deixe-me repetir: Se sua congregação local, no livre exercício da sua vontade decide que cada um vai contribuir com certa quantia mensal, não peca. Agora, se dizem que isso é o dizimo bíblico, cuidado, faltou apego à escritura.

Melquisedeque

Obvio que não se pode falar em dízimos sem falar em Melquisedeque. Até o momento, só ouço falar dele como modelo para dar os dízimos. Abrão entregou os dízimos a Melquisedeque e logo – sendo ele o pai da fé – quem é você para não dar seu dízimo?

É mais uma dessas armadilhas montadas apenas para criar culpa e medo. A culpa e o medo não são bons conselheiros. Basicamente inibem seu cérebro de funcionar corretamente e você entra em modo pânico. Então, se você é um bom pastor, vai querer ensinar ao seu povo sobre Melquisedeque e como nele Levítico 27:30 e Números 18:21 são revertidas. Se você começar a estudar sobre ele, é uma questão de tempo até perceber que a Lei é apenas um parêntesis protetor, um aio ou tutor, apenas um andaime que seria retirado posteriormente.

Mas vamos devagar.

Melquisedeque é uma viagem no tempo. É uma fenda sideral por assim dize-lo. Tudo o que sabemos de Melquisedeque está claro, mas nada do que sabemos parece ser suficiente. Gênesis 14:17-24; Salmos 110 e Hebreus 7

Abrão (o nome ainda não tinha sido trocado) após lutar ao lado do rei de Sodoma, entrega os dízimos de tudo o que lhe correspondia a Melquisedeque ou ao Rei da Paz, Rei da Justiça como pode ser traduzido o nome. Este rei da cidade de Salem (Jerusalem) abençoa Abrão e aceita os dízimos mas não tem ascendência nem descendência.

Depois temos o Salmo profético 110 em que o alvo da profecia (que entendemos ser Jesus o Cristo) é (não será) sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque. Ou seja, livre, sem linhagem, abençoador do pai da fé, eterno.

Mas há um detalhe – sempre esses detalhes – que o livro de Hebreus (7:4-10) ressalta com maestria: “9 pode-se dizer que Levi, que recebe os dízimos, entregou-os por meio de Abraão, 10 pois, quando Melquisedeque se encontrou com Abraão, Levi ainda não havia sido gerado” e é aí onde o parêntesis da Lei se encerra nesse quesito.

Conclusões

Insisto que se você tem a prática de entregar uma certa quantia ou percentual para sua igreja local, o faça com alegria, liberdade e liberalidade.

Todavia, o meu problema é que chamamos essa prática de dízimo e por cima dizemos que é bíblico. O dízimo bíblico é uma outra coisa geralmente desconhecida.

Se os argumentos que lhe tem levado a dar 10% do seu salário tem a ver com culpa ou medo, então é bem provável que não sejam argumentos válidos e talvez nem bíblicos.

Já o argumento honesto é bem-vindo: “Temos tais e quais gastos e temos concordado em contribuir com 8% de nosso ordenado para a igreja local”

Fique com este texto:

“Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.”  2 Cor 9:7

E sobre este assunto não esqueça de

“Como justos, recuperem o bom senso e parem de pecar; pois alguns há que não tem conhecimento de Deus; digo isso para vergonha de vocês” 1Cor.15:34

Vote melhor: Não vote num messias.

Tempo de eleições se presta para a manifestação da mais pura das imbecilidades: A espera por um messias.

Antes que abandone a leitura, deixe-me lhe dizer que não estou com isto desacreditando do Messias Jesus ou alguma coisa parecida mas sim enfatizar que é tosco esperar por uma única pessoa que salve a nação. Se formos ver era isso mesmo o que se esperava de Jesus no seu tempo e os seus próprios discípulos não entenderam que se tratava de um outro tipo de Reino e não um sujeito ao padrão terreno. Neste sentido, até ele mesmo teve que ‘desconstruir’ a ideia de um Messias terreno.

Mas voltando no nosso assunto; independente se você polariza para esquerda ou para direita, no fundo, espera por um ‘Salvador da Pátria’. Alguém que vai botar ordem e progresso onde -aparentemente- só há desmando e atraso. Esta ideia de um ‘Salvador da Pátria’, se junta com a outra de ‘Isto só acontece no Brasil’. É mais ou menos um sentimento de inferioridade coletivo associado ao ‘complexo de Gabriela’: nascemos errado, logo sempre seremos errados. Duas falacias separadas apenas por uma vírgula.

Brasil não nasceu errado. E mesmo se tivesse nascido, não está por isso condenado a estar errado o resto da sua existência. O mesmo se aplica aos outros países das ex colônias hispano-portuguesas assim como às holandesas, britânicas, francesas.

Se o problema está na gênesis da nação, logo, apenas quem pudesse mudar esse inicio é que poderia mudar as coisas. Já se o problema está no coletivo inferiorizado, apenas alguém que pudesse mudar a identidade essencial do povo como um todo é que teria as chances necessárias para mudar a atual situação. É por isso que – ao meu ver – esperar por um messias (de esquerda, direita, centro) é tolice. Na realidade está mais para um auto-engano ou cândido desconhecimento que outra coisa.

Pode ser desconhecimento por se ignorar os procederes necessários a uma democracia, suas negociações intrínsecas, seus diálogos necessários. E não me refiro com isto ao aproveitamento sistemático da máquina democrática por assim dizê-lo. Me refiro a que -na mesa da democracia- o diálogo e a negociação são essenciais. Logo, ao esperar por um ‘Salvador da Pátria’ se espera em realidade por alguém que com pulso firme coloque as coisas no eixo. Sim, é verdade que as coisas estão fora de eixo. Sim, é verdade que o Estado tem sido tomado por assalto. E sim, é verdade que isso não acontece apenas na ‘Pátria amada’, acontece também na ‘Terra dos Livres’ assim como na ‘Pátria Livre’ das estepes siberianas. Todavia, nada disso justifica o sacrifico da democracia. Muito pelo contrario, é a atual situação a que clama por uma democracia forte. Talvez com revisões, mas mais forte. Talvez uma democracia mais chegada ao povo comum, ao empresário local, ao dono de casa, à chefe de família, mas democracia no fim das contas.

Pode ser auto-engano. Mas não qualquer coisa, um auto-engano bem orquestrado com intervenção de um forte viés de negação da própria realidade. Um engodo de tal tamanho que nos parece ser real. Por exemplo, é bem provável que lhe falte coragem para fazer as mudanças na sua vida pessoal que lhe levaria a trilhar um caminho diferente (não necessariamente melhor, isso o tempo vai dizer). Faltando essa coragem no âmbito pessoal, é de se entender a necessidade de um ‘Salvador da Pátria’. É uma simples inversão da ideia de que ‘a culpa é dos outros’ ao colocar ‘a responsabilidade em apenas um’. Pensa-se que se há um único homem com responsabilidade e valor suficientes, as coisas vão se encaixar. Se adiciona a isso o lance do ‘caráter’… fulano é integro. Na verdade você não faz ideia do caráter do fulano, apenas precisa acreditar em alguma imagem que a mídia ou o marketing vendem, isso se junta com sua inabilidade no mundo democrático, se soma à letargia e pronto, temos a receita pronta para um ‘Homem de Deus’ (de esquerda, direita ou centro) que vai salvar o mundo.

Veja se isso não se repete nos filmes que assiste, nos times de futebol, no banco da sua escolha, na escola que escolhe para os seus filhos…. sempre há a ideia de que um único lance, um único jogador, um único mocinho, uma única peça vai solucionar o todo quando o o todo é -por natureza- caótico.

Então que rumo tomar? Se não há messias, se o simples fato de associar as soluções dos problemas à escolha correta ou errada de uma única pessoa já está errada, o que fazer? Como atacar o caos com uma única bala? Porque eu não sei se reparou, mas você sim tem uma única bala (marcada) a cada quatro anos e o caos é enorme. Como um simples votante pode pôr isso tudo ao vento e arejar a coisa de vez?

Voto em branco ou nulo é suicídio. É jogar à roleta russa com o pais. É uma irresponsabilidade tamanho casa pois o que conta é o total de votos válidos. Logo, para alguém responsável é uma opção inviável.

Perguntar ao seu xamã, pajé, pastor, padre, agiota, em quem vai votar, é mais tolo ainda, já que o cara não tem uma bolinha de cristal para saber o certo ou errado. Ele está tão confuso, angustiado e cansado como você.

Colocar todos os candidatos numa sacola e sortear é melhor do que a pergunta porque pelo menos não passa vergonha. É menos irresponsável porque pelo menos é a ‘sorte’ a que decide. Mas serve apenas como ponto de partida, para as próximas eleições você vai ter que voltar às raízes.

Me explico: Para mim a solução não passa por um messias ou uma consulta aos seus iguais ou um sorteio. A solução para o caos é adicionar caos à equação e para isso é necessário voltar à raiz da democracia. Não há necessidade de novas leis nem nada. Apenas saber o seguinte: Quando Solon -pai da democracia- inventou esse lance do povo ter o poder, o fez sobre bases representativas e -olha só- um candidato eleio podia ocupar um determinado posto apenas uma única vez na vida. Olha que beleza, quando este homem inventou o lance, conhecia muito bem a natureza humana e sabia que ia dar errado. Por isso, colocou o melhor contrapeso já inventado: você só pode ser guardião do templo da Deusa X por cinco anos uma única vez na vida. Pronto… Seja bom ou ruim, em cinco anos sai e parte para outra.

Obvio que não dá para mudar as leis de um pais para se atentar a isso. Vão surgir um monte de pseudo-defensores da democracia dizendo que se o povo quer o fulano de novo no poder, porque não colocá-lo. Mas a minha proposta é: Nunca vote na mesma pessoa duas vezes para o mesmo cargo. Parece tolo mas pense um momento comigo: as coisas estão como estão porque nós -o povo- as colocamos assim. (Obvio que uma boa teoria da conspiração acalma a consciência) As pessoas (e em especial certas empresas disfarçadas de partidos políticos) se perpetuam na teta da mãe pátria, apenas porque nós -o povo- os mantemos lá. Ai o que acontece se os candidatos não se elegem? a própria pseudo-empresa vai ter que achar outros candidatos pra preencher a vaga. Aos olhos deles, a culpa não é do povo que pensou por conta própria (ao final das contas, eles entendem que o povo não pensa pois se pensassem não teriam sobrevida) e sim do candidato. Isso vai levar a um desarranjo institucional interno e criar as condições para que um candidato mais apto (leia-se: com melhor capacidade de engano) surja e seja posto. Até lá, quem entrou no poder (Senado, Deputados, Presidencia, Camara dos Comuns, Sociedade de Futebol de Chapinha) vai -por uma questão de pura vaidade- tentar mostrar serviço. Para a próxima rodada, ele pode que seja ou não re-eleito -isso não interessa ao método proposto- mas o sistema como um todo melhora porque não há mais certeza sobre a manutenção da situação já que o povo pensa e usa a única bala que tem para matar o parasita e permitir que algum raio de luz ilumine a pilha de esterco na que nos metemos.

Perdendo a vez

Dizem que se colocamos um sapo em água fria e aos poucos vamos aquecendo ela, ele morre fervido sem sequer perceber o que está acontecendo. Não fui atrás da veracidade científica disto mas – como em tantas outras situações – pegarei apenas o conceito popular bem conhecido para tratar de coisas mais profundas. Um outro dia vemos se é verdade ou não que os batráquios morrem fervidos aos poucos sem perceber.

O fato é que a igreja (não a sua congregação local apenas, mas todas e cada uma das congregações cristãs locais) se está desfazendo. Em um sentido isso é bom porque houve uma tentativa de reconstrução ao longo dos últimos quinhentos anos de um certo “catedralicismo” evangélico na tentativa de emular inconscientemente (ou não) o lugar do qual saímos.

Todavia, há um outro sentido que é preocupante. Básicamente a igreja não mais se congrega. Ela pode até se juntar de vez em tanto… uma vez por semana, uma vez por mês… mas não se congrega. Os processos evolutivos volitivos são deixados de lado por uma busca de certa “espontaneidade” que nada mais é do que uma fina camada de verniz sob a qual se esconde uma procrastinação generalizada e – vista de certa distância até poderiamos falar de uma “procrastinação harmônica” já que a mesma atinge todos e cada um dos nichos evangélicos.

Em conjunto, consideramos o fato de congregar-se como limitador, castrador, desmotivador quando na realidade é apenas no ato de congregar-se que o discípulo pode crescer. Obvio que não digo com isso que há momentos de estar sozinho ou de retiro ou de reencontro com certas essencialidades individuais. Mas meu foco é o desleixo com o que tratamos o ato da congregação

Para alguns, congregar-se é ir no culto de domingo à noite. Para falar a verdade, acho que a maior parte das pessoas – se consultadas – falariam que se congregar-se trata-se disso. Para quem não se congrega, para quem não participa ativamente da construção da identidade local, sair do sofá e ir a um culto domingo à noite, realmente é um avanço. Só que a vida cristã não tem a ver com micro-avanços e sim com uma mudança na raiz da vida, isto é, na forma de pensar, de ser.

Há uma ideia que parece boa permeando as nossas congregações: somos todos parte da mesma e única igreja. Se bem isso é uma verdade teológica visceral, ela apenas dissimula nosso completo desleixo com a construção da identidade particular. O equivalente é mais ou menos como dizer que somos todos seres humanos e por isso não há necessidade de construirmos famílias.

Tenho convivido com três meios evangélicos diversos e conheço mais três de forma indireta (por meio de amigos, conhecidos etc). De primeira mão conheço os batistas, os presbiterianos e os pentecostais. Indiretamente conheço os menonitas, os irmãos livres e os metodistas e um grupo neo-pentecostal. Tirando os neo-pentecostais da equação (por conta de ser o foco apenas a prosperidade financeira/emocional/terrena da pessoa) os outros grupos me merecem especial atenção porque – observando-os – vejo uma degradação paulatina, lenta e constante do tecido evangélico.

Todos os meios sérios de construção da identidade evangélica local enfrentam o mesmo problema: o povo não mais se congrega, quando se congrega o faz simbólicamente e o símbolo (o culto) é esvaziado do seu propósito principal que é apenas a exposição da palavra de diferentes formas (pregação, louvor, adoração, esclarecimento do funcionamento local).

Lembro que nos tempos do seminário a gente debatia se o anuncio das atividades da igreja deveria ir antes ou depois da mensagem; no inicio, no meio ou no fim do culto. Temia-se naquela época – e com razão – cair no ativismo. Contudo, a igreja em funcionamento ao longo da semana é uma necessidade fundamental dela. Ninguém espera que você esteja presente a todos os cultos, seria mais ou menos como esperar que você engolisse o cardápio inteiro que um restaurante está oferecendo. Mas em lugar de mostrar as atividades da igreja como tal, o pêndulo tem-se movido ao extremo contrário, ao ponto de achar até pecaminoso participar de alguma atividade da igreja fora do culto. O equilíbrio então – para mim – está em entender que se trata apenas de um cardápio e que é responsabilidade do membro (sim do membro e não do pastor) manter uma alimentação espiritual saudável. Quase com certeza no seu estomago o Strogonoff ganha de uma boa salada de brócolis com chuchu sem sal. Mas é quase uma certeza que um culto de domingo com uma boa equipe de louvor, um banco aconchegante, uma boa iluminação, um ar condicionado e uma pregação suave ganham de 1000 a 1 do evangelismo na rua, da ajuda social, ou do ministério de oração da igreja.

Aos poucos, a igreja local vai se desconstruindo. Lastreado num conceito teológico bom (somos todos parte de uma mesma, única e grande igreja) transvestimos nossa incapacidade chamando-a de liberdade e – como pastores – abandomanos o posto, jogamos a culpa nos membros, na instituição, no momento e a coisa toda degringola.

Neste inicio do século XXI há necessidade sim de reforçar as identidades locais. O “neoliberalismo” teológico apenas ajuda para ir tornando a água fria em água morna e matando -aos poucos- a vitalidade da igreja. Ai a pergunta do poeta se torna bem oportuna “Como pode um peixe vivo, viver fora d’agua fria?”

Minha mãe – forjada no discipulado de um pastor russo que escapou da imbecilidade bolchevique – é da opinião que a igreja apenas pode florecer sob pressão. Que não há nada que substitua uma perseguição para – ao final das contas – revelar a verdadeira igreja. Pelo que entendo os diamantes são feitos assim também: carvão sob alta pressão.

Congregar-se, então, é para mim uma questão de vitalidade. Ou a igreja local tem vida e se congrega ou ela apenas é um simulacro de igreja. Não pode ser que a igreja do século XIX tenha-se tornado tão cega, surda e muda e que apenas almeje uma boa pregação. Não pode ser que os pastores tenham perdido tanto assim o foco que não mais chorem, sofram e vivenciem dores de parto pela formação da identidade do Cristo na igreja local. Ou vai me dizer que um reflexo da luz – mesmo não sendo a luz completa – não deveria de se parecer com a luz? É obvio que sim! A igreja local do Cristo vivo deve – de mais de uma forma – refletir Ele e apenas Ele. Este “deve” aqui não se trata de ações compulsórias imposta por uma cúria que quer se evadir das suas responsabilidades pessoais mas sim de demonstração da essencialidade vital da congregação local.

Por outro lado, a vida é sofrimento. Sem crise não há mudança. Sem sofrimento não há vida porque sem sofrimento não há escolhas apenas porque “em time que está ganhando, não se mexe” e – como não sabemos se uma decisão nos leva à vitória ou à derrota, preferimos o marasmo do que o risco, a morte do que a vida. Congregar-se é sofrer. É arriscar-se a amar e não ser amado, a se entregar sem receber nada em troca, a se dedicar e sentir que é o único, a chamar e observar que quase ninguém responde, a conclamar e ver que quase ninguém atende. Nada mais parecido com o chamado de Jesus. A oração de São Francisco resume assim “É perdoando que se é perdoado e morrendo que se vive” mas isso é apenas um resumo parcial da ideia original.

Congregar-se é responder afirmativamente ao chamado universal de Deus para os cristãos. E são apenas os cristãos que podem responder. O outro, o de fora, nem ouve o chamado, não se inquieta com a coisa local, não sofre. O outro precisa primeiro passar pela Cruz, mas não pelo lado de baixo, pela frente ou pela parte de trás da cruz, precisa estar crucificado juntamente com Cristo… plenamente morto. Porque se Cristo morreu e ressurgiu, assim também a porta de entrada para a vida cristã, é a cruz e nada mais do que a cruz. Só assim que pode passar a enxergar a realidade de um mundo que se perde e de uma igreja local que cada vez mais opta (de forma consciente ou não) por abandonar o seu posto.

Você é um membro de uma igreja local e não sente falta de congregar-se? Acha que é bobagem institucional?

Você pastoreia uma congregação e não sente falta de mostrar na prática (e não a esmo) como suas ovelhas podem servir congregando-se não sob desafios ou projetos mas sob o cajado do Cristo? Não consegue enxergar que as ovelhas precisam de você?

Bom, o único caminho é o da cruz (Gál.2:20). Apenas naquela posição (de braços abertos, impotente de abraçar) e naquela altura (onde pode ver por cima de outras cabeças mas os outros vem seu vexame intimo) e naquela condição (de ir morrendo cada vez mais um pouco) é que seus olhos espirituais podem ser abertos e se arrepender do seu pecado.

Estamos morrendo aos poucos. Sem perceber. Sem querer. Pecando. Abandonando o posto.

Pr.Esteban Daniel Dortta

Trabalho como castigo divino

Estava ouvindo o radio hoje cedo e o pessoal tentava tecer um argumento bastante interessante. Se tratava de que, ao impedir o homem de trabalhar por meio de planos assistencialistas, o que se estava de fato fazendo, era impedir o homem -quanto individuo- de cumprir o castigo divino de trabalhar.

Colocando à parte o fato de que sim, concordo em que há um mundo de pessoas que se valem de planos assistencialistas para não se esforçarem e de que do outro lado da corda (aquele que cria estas “oportunidades”) se encontram aqueles que lhes interessa ter essa massa de manobra cativa, pobre, semi-analfabeta, constantemente dependente; colocando à parte isso como dizia, a analise me fez lembrar que há pessoas que pensam piamente que o trabalho (do latim tripalium) seria um castigo divino.

O problema com essa ideia é que não tem sustento no relato bíblico e que era esse justamente o âmago do argumento do radialista. Para tanto usava o já bem conhecido texto de Gênesis 3:19 “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão, até que voltes ao solo, pois da terra foste formado; porque tu és pó e ao pó da terra retornarás!”

O que me tem surpreendido é o imenso número de cristãos evangélicos acreditando que nesse texto se condena o homem a trabalhar.  E digo que me surpreende porque – supostamente – os evangélicos são “o povo da Biblia”.

A coisa é bem simples: Gênesis 2:15 diz “E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.” Ou seja, é simples: Deus fez (trabalhou) o universo formou o homem e o colocou (sim, sei, sem que o próprio homem pedisse) para cuidar da criação antes da queda. As coisas novas em Gênesis 3:19 são: O cansaço, a frustração diária, a morte mas o trabalho, isso é anterior.

Resumindo: O trabalho faz parte do plano original do Senhor e é exatamente por isso que dignifica o homem.

Melhorando o argumento do radialista: Impedir o homem de trabalhar para ganhar seu sustento, tira do homem a dignidade que o próprio Eterno lhe quer dar.

História da Igreja Cristã

Durante as últimas semanas temos trabalhado colocando alguns eventos relevantes da história da igreja cristã sobre uma linha histórica. É obvio que ela não é – nem conseguiria ser – uma linha exaustiva contendo todos os fatos e nem sequer talvez contenha aqueles que você ache relevantes.

Todavia, é um trabalho dinâmico, pois semana após semana acrescentamos coisas, e é colaborativo, já que várias pessoas contribuem com a mesma. Sinta-se à vontade para nos corrigir e mandar-nos seu ponto de vista. O projeto tem mais um ano pela frente ainda.

A ideia é pendurar alguns fatos da história secular junto com alguns da história cristã. Dessa forma, quem observa a linha pode encaixar as duas linhas e obter um panorama geral.

Caso queira ver esta mesma informação em tela cheia, use e compartilhe este atalho: https://goo.gl/ghMnaj

Respostas a inquietações científicas e religiosas

A religião tem sido atacada de diversas maneiras e por inúmeras frentes no implacável
combate que impregna a história humana. Munidos de hermenêuticas próprias construídas a
partir de postulados científicos e empunhando a bandeira da modernidade, muitos céticos se
lançam vorazmente na tentativa de destroçar qualquer indício de crença religiosa. Espadas são
desembainhadas em lutas quixotescas que se embrenham por batalhas inexistentes
alimentadas por suas próprias ilusões bélicas.

O que tais tentativas parecem não se dar conta é que a ciência e a religião jamais foram
inimigas e jamais estiveram em trincheiras opostas. Na verdade, muito do que se diz da
religião tem sua razão de existir. A interpretação que se dá aos processos, porém, parece
carecer de legitimidade.

A religião, assim como a política e a ciência, tem sido um instrumento de opressões, abusos e
malignidades dos mais variados tipos. Vitimas de interesses escusos e manipuladas por
consciências inescrupulosas, tanto a religião como a política ou até mesmo a ciência se
constituem como instrumentos nas mãos de uma sociedade maligna. Como já disse Ulysses
Guimarães: “O poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder. O homem é
o grande poluidor, da natureza, do próprio homem, do poder.” Parafraseando poderíamos
afirmar que a ciência (que foi utilizada para o desenvolvimento de armas de destruição em
massa, como a bomba atômica, as armas químicas etc), a política (que em nossos dias parece
ter se tornado sinônimo de corrupção) ou até mesmo a religião (que tem sido um meio de
manipulação das massas), não corrompem o homem, mas sim é o homem quem corrompe a
ciência, a política e a religião.

O ser humano é o principal corruptor e manipulador dos meios que dispõe para dar vazão a
suas cobiças, seus intentos, suas demências e suas volúpias. Se as classes dominantes se
utilizam da religião para seus próprios intentos malignos, não deixam de lado a política e a
ciência.

O período chamado “Idade das Trevas”, foi, sem dúvida um tempo de obscurecimento da
razão e teve como seu principal protagonista a religião. Esta, instrumentalizada pelas classes
dominantes, se utilizou da boa fé do povo para chegar a seus propósitos maculados.
Com a derrocada das “Trevas”, a partir do surgimento do Iluminismo, instala-se uma nova
esperança para a humanidade. Se o obscurantismo de tempos passados tinha cedido espaço
ao raiar de novos horizontes, agora acreditava-se que finalmente a humanidade seria elevada
às esferas da justiça, igualdade e fraternidade. A liberdade científica surgia com toda a
imponência e as promessas de melhorias da vida social e humanitária eram cada vez mais
vociferadas por seus proponentes.

A história nos mostra que no século XX, auge da emancipação da mente humana das rédeas
funestas da religião, o homem, feliz em suas descobertas, foi encontrado ébrio e cambaleante
em suas próprias vaidades e soberania. Como todos sabem, a racionalidade humana, a
iluminação do intelecto e os avanços científicos não puderam impedir as duas grandes guerras
mundiais do século XX. Milhões foram dizimados, manchando as páginas da história como
nenhum outro período anterior o fez. O florescimento da ciência, que muito ajudou a
humanidade em questões de saúde e bem estar social, também proporcionou oportunidade
para a concretização das destruições em massa e das barbáries que até hoje arrepiam até os
menos sensíveis. Além disso, o boom da revolução industrial, que prometia cada vez mais
condições dignas para a vida humana, não impediu o processo de massacre nas fábricas e a
mecanização humana. Charles Chaplin retrata brilhantemente este fenômeno no filme:
“Tempos Modernos”. O homem foi substituído pelas máquinas e o processo de
industrialização relegou às “sarjetas” da vida o operário desvalorizado.

A religião, já fora dos holofotes e da mira dos seus algozes, não pôde ser culpada por
tamanhas opressões e mostrou não se constituir o gatilho que promovia as misérias sociais. Se
os séculos XIX e XX foram o período do coroamento da razão e do destronamento da
divindade, foram também os séculos da destruição em massa e da disseminação da esclerose
social. A religião não era mais a mão que regia os destinos da humanidade, porém a sociedade
continuava amargar suas misérias de forma cruel, violenta e numa progressão exponencial. Se
por um lado a mão do homem moderno apagava as últimas centelhas das fogueiras
inquisitoriais; por outro a mesma mão colhia ali as brasas incandescentes para acender os
fornos crematórios de Auschwitz.

A religião não é inimiga da ciência, pois seu escopo é outro. A Religião objetiva o “sagrado”; a
ciência o profano (comum). O sagrado é o totalmente outro, o transcendente, aquele que foge
à apreensão exaustiva da mente humana. Enquanto a ciência se ocupa do que pode ser
experimentado, observado, estudado e compreendido, a religião permeia o eterno, fala do
inefável, se lança no numinoso, se prostra diante do intocável. A ciência trilha um caminho, a
religião outro. São paralelos, embora às vezes seus olhares se entrecruzem, logo se
abandonam novamente para perscrutar suas próprias sendas.

No âmbito social, a religião consolida os laços familiares, reúne os pares em volta da mesa,
incentiva a solidariedade, a amabilidade, o atendimento aos carentes e necessitados.
Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá são alguns exemplos da religião em ação, lutando
pelas causas sociais, se doando em favor dos menos favorecidos. Abraham Heschel, destacado
líder religioso, posicionou o sentimento religioso ao lado das questões sociais e humanitárias
caminhando lado a lado com Martin Luther King. A eugenia que se apropriou do ferramental
científico e no século XX foi o dínamo para uma ideologia demente de superioridade racial, não
foi suficiente para apagar a chama da luta pela igualdade e liberdade que moveu o coração de
um religioso como Heschel pelas ruas do Alabama.

O papel da religião não é o de desenhar um mundo ilusório para entorpecer a mente do fiel,
mas sim carregar de esperanças um coração que se amarga constantemente pelo desencanto
do mundo moderno. O iluminismo tentou apagar do coração humano a luz do encanto pela
vida. Como disse Christopher Nash (Myth and Modern Literature) “O que é chamado de
Iluminismo, foi, na realidade o escurecimento, porque pretendia a extinção da natural,
primordial mítica luz interior do homem.” Enquanto a modernidade encarcerava o ser humano
na aridez da luta incansável pelo temporal e lançava mais uma vez a sociedade na
desesperança de um mundo bélico que a razão não foi suficiente para contornar, os suspiros
nostálgicos de um coração outrora iluminado por um porvir glorioso que modificava os
caminhos do presente e os preenchia com alegria e colorido, eram novamente sentidos em
meio ao deserto.

Se por um lado a ciência presenteia o homem com o progresso, o desenvolvimento, os
avanços no campo da saúde; por outro pode ser um instrumento que furta-lhe a vida quando o
impede de dar respostas aos anseios mais interiores de suas buscas existenciais e de sentido.
Somos a sociedade do desencanto, da perda de valores, da violência, da falta de respostas, do
esfacelamento das relações, da plasticidade dos encontros, dos amores fluídos (Zygmunt
Bauman). Se a religião foi considerada o ópio do povo, a ciência produziu seus próprios ópios
para substituir o vazio da existência humana. Cresce assustadoramente o número de
alucinógenos no cotidiano, em uma sociedade cada vez mais “iluminada” pelos cachimbos da
desilusão e pelas fagulhas das tragédias.

A segurança dos conhecimentos científicos é questionada no desenrolar da história da própria
ciência. Apesar de trazer convicções importantes para a construção social, as descobertas de
cada época são, muitas vezes, antagônicas a descobertas de períodos anteriores. Exemplos
deste fenômeno são claros e elucidativos. Até 1990 os cientistas criam que os dinossauros
tinham sido extintos por um vulcão, a partir daí se começou a propagar ideias de que um
asteroide teria sido a causa de tal catástrofe. Até 2014 a ciência acreditava que o homem de
Neandertal era inferior intelectualmente ao Homo Sapiens sendo esta a causa do seu
desaparecimento. Já em 2014 descobertas arqueológicas revelaram que o Homo Sapiens não
era de forma alguma mais inteligente que o homem de Neandertal. A ciência já afirmou que o
Neandertal não tinha habitado juntamente com a espécie humana, mas recentemente
descobriu-se que isto era uma falácia. Até 2003 os cientistas diziam que os seres humanos
tinham 100.000 genes, mas depois se descobriu que temos por volta de 19.000 a 20.000. Até o
século XX muitos médicos achavam que a sangria curava quase qualquer doença; hoje esta
afirmação se faz absurda no meio científico. Amostras como estas revelam que os
conhecimentos científicos que outrora traziam segurança a seus proponentes, em gerações
posteriores se mostraram mitológicos e até infantis. As seguranças de muitas afirmações
científicas hodiernas poderão se mostrar totalmente incoerentes e frágeis na geração
posterior. Muitas teorias científicas, como por exemplo a que propõe as causas do surgimento
do Universo carecem de fatos pela própria incapacidade da repetição de tais fenômenos. Fica
evidente que a fé se mostra um elemento de propriedade não exclusiva da religião.

Assim, a religião, ao se propor a lidar com as questões sociais, não oferece resignação,
alienação ou paralisia à energia social; pelo contrário, ressignifica a existência humana,
lançando âncoras no transcendente, procura transformar o presente com o amor, altruísmo,
cultivo de valores importantes para o convício social e busca pela sobriedade das relações
humanas. Quando estabelece suas bases no eterno, a religião propõe um presente
responsável e valorizado, pois as ações que aqui são feitas se refletirão no infinito.

As respostas a uma sociedade contemporânea infectada pela ansiedade, depressão e stress
não advém de uma única fonte, mas sim de uma pluralidade de experiências do humano, das
quais a religião, com certeza constitui-se como parte significativa.

Morando em uma casa remendada.

Ninguém quer morar em uma casa cheia de remendos. O processo é simples, uma goteira aqui, uma rachadura acolá, um muro com defeito, enfim em algum momento o remendo, o conserto se faz necessário.

Mas ninguém quer que o remendo seja visto. Geralmente gastamos muito com a estética final da casa. O remendo é então sempre feito de forma tal que possamos -em algum momento- cobrir ele de tal forma que pareça que a casa nunca teve rachaduras.

Na vida pessoal também é assim. Não queremos que ninguém perceba nossos remendos. Basicamente queremos aparentar perfeição e não erros estruturais, rachaduras no caráter, ou simples imperfeições goteiras na vida espiritual.

Almejar ser como Deus pode ser coisa boa, aparentar a perfeição dele nem tanto.

Acontece que na nossa vida, os reparos estruturais (os essenciais) apenas podem ser feitos pelo próprio criador. É claro que em se tratando do criador, o reparo dele vai ser o melhor de todos os que possam ser feitos.

Mas cá entre nós, se o reparo é uma ação de Deus, não seria interessante que seja visto? Não é por acaso fruto da sua graça? Não é ali justamente que reside sua gloria em mostrar que é possível restaurar o caído? Não é exatamente isso que o mundo precisa ver? A ação de Deus restaurando o que o Pecado tem estragado?

Então, talvez seja melhor morar em uma casa remendada pelo Senhor que uma construída pela gente apenas para inglês ver.

Confissão, arrependimento, culpa e remorso

Dizem – acho que brincando – que uma religião é uma crença que te ajuda a tirar a culpa que uma outra religião colocou.

Brincadeiras à parte, é comum no meio cristão confundirmos culpa com remorso, remorso com arrependimento, arrependimento com confissão e confissão com coisa do capeta. Em algumas situações isso é perfeitamente compreensível, já que mais de mil anos de obrigatoriedade confessional nos colocou do outro lado do tatame. Mas vamos separar os grãozinhos e tentar melhor entender essa questão.

Remorso é uma inquietação, um estado de abatimento. Pode indicar culpa mas também apenas medo de ser pego. Sentir remorso não é sinal de saúde espiritual mas falta de remorso pode ser um mau sinal.

A culpa indica responsabilidade por um ato feito ou por uma omissão que causou dano a outrem. Ela pode ser real ou não. Pode ser sentida ou não. Pode ser objetiva ou não. Seja como for, culpa mal tratada é um desastre já que ela acaba condicionando pensamentos e condutas que se ela não existisse seriam diferentes.

Nem o remorso nem a culpa podem ser o motivo de uma pessoa seguir Jesus. Elas são, com certeza, o motivo para muitas pessoas terem uma religiosidade, se maltratarem, judiarem os outros e – com certeza – não serem felizes. Todavia, em Jesus as duas coisas encontram uma saída se bem que são apenas antessalas de uma coisa bem melhor. A culpa real, por exemplo, vai achar seu desague no arrependimento pois de outra forma apenas alimenta um remorso e estagna a vida da pessoa. Isso nos leva a pensar nas outras duas palavrinhas.

Pense em arrependimento. O que é? Temos a tendência de pensar que se trata de um sentimento. Inclusive achamos que sem um sentimento o arrependimento é impossível. É verdade que toda nossa vida de decisões passa pelo emocional e que quando ele adoece precisa ser cuidado como uma perna, a garganta, o coração…. mas a caminhada ao arrependimento não necessariamente principia pelo emocional, pode ser também por uma profunda convicção trazida por um novo conhecimento ou por ficar sabendo das consequências dos nosso atos. Ai sim não é estranho cair em prantos. Apenas friso que a ausência ou não do emotivo não é razão para medir o arrependimento. Então o que é?

Arrependimento é mudança de conduta. Não é apenas o sentir-se mal com alguma coisa feita ou deixada de fazer. Não se trata de sentir culpa sobre um assunto. Se trata de mudar uma conduta por ter tido uma inapropriada. É por exemplo aquele homem que deixa de trair, a mulher que deixa de cobiçar, o adolescente que deixa de mentir, a sogra que deixa de se meter, o comerciante que deixa de praticar o abuso nos preços, é o governante que passa a ser decente, a mãe que passa a respeitar a pessoa do filho, enfim, acho que já pegaram a ideia.

Mas nos falta um bloco que – ao meu ver – é o essencial. Sem este bloco a casa da mudança espiritual de cabeça não consegue se estabelecer. Sem este bloco o perdão não é liberado. Eu sei o que parece, mas me acompanhe um pouco mais.

Quando deixamos como raça entrar o pecado no mundo, ele se tornou senhor deste mundo. O lugar onde ele mais reina, é no coração do homem cegando-o para toda realidade espiritual. Tudo nesta criação caída conspira contra a vida espiritual que Deus nos quer dar. É por isso que a vitória da cruz de Jesus é tão cosmologicamente impactante pois subverte a ordem estabelecida pelo pecado.

Nesse sentido há um bastião a ser derrubado: o orgulho humano. Nada contra o homem ser seguro de si. Mas não seguro apenas em si mesmo ou por seus próprios meios. É claro que o ser humano é capaz de chegar muito longe alicerçado em si mesmo, tem o espirito do eterno nele por enquanto, então vai chegar longe. Mas para atingir a eternidade, a porta de entrada é a morte. O ensaio da morte é a confissão.

O arrependimento pode até ser conveniente. O remorso pode até ser de alguma forma benéfico impedindo novas condutas erradas. A culpa pode levar a pessoa ser e se sentir melhor em um circulo virtuoso, mas apenas a confissão libera o perdão. Apenas a confissão derruba o ser humano eliminando o pequeno rei que mora no seu coração.

Confessar nada mais é do que concordar com a opinião que Deus tem sobre nossos pensamentos, crenças, condutas, caminhos, etc. É descobrir que Deus é verdadeiro até na opinião que ele tem de nós. É reconhecer que todo homem é mentiroso. É se render perante a torrentosa graça dele.

O perdão de Deus para a vida do homem individual (e com isso a graça renovadora dele na vida da pessoa) vem não a partir do remorso ou da culpa e nem sequer do arrependimento. Vem a partir da confissão. Não interessa se você sente ou não que uma coisa condenada na Bíblia é pecado. Apenas confesse isso. Deixe isso agir. Com certeza se isso que a Bíblia condena (de forma específica, genérica ou apenas como exemplo) faz parte da sua conduta, a sua consciência sera renovada, seu espirito será capacitado para um arrependimento; isto é, para uma mudança de raiz do seu agir. Ai sim, é bem provável que chore e se lamente por anos viver em vaidade longe do Senhor.

Com isso em mente, releia 1 João 1:9. Se confessarmos … ele perdoa. Apenas isso. Pecado confessado, pecado perdoado. O resto é consequência…

1 João 1
…8 Se declaramos que não temos pecado algum enganamos a nós mesmos, 
e a verdade não está em nós. 9 Se confessarmos os nossos pecados, 
Ele é fiel e justo para nos perdoar todos os pecados e nos purificar 
de qualquer injustiça. 10 Se afirmarmos que não temos cometido pecado, 
nós o fazemos mentiroso, e sua Palavra não está em nós.

 

Você celebra a páscoa?

Há muitos cristãos que acreditam piamente que o que se encerra hoje é a celebração da páscoa.

É verdade que a comemoração dos judeus é verdadeiramente a páscoa. Está certo em celebrarmos a data deles? Sim, se você conseguisse celebrar o Ramadã morando ou estando sob influencia muçulmana, a resposta é sim. Ou seja, não é uma festa de origem cristã, ela em si mesma não lhe diz à cristandade. Portanto, não é uma festa nossa assim como não o é o Natal que é uma apropriação da festa pagã do “Sol Invictus” do tempo dos romanos. (Mais sobre isso aqui)

Porém, ficando claro que é uma festa que não é da nossa origem, uma segunda análise nos leva exatamente na direção contrária. O que se celebrava na páscoa? A liberação que havia de vir ainda. Ou seja, naqueles dias da primeira páscoa se escolhia e preparava o cordeiro durante os dias anteriores. Por quatro dias, ele era preservado e todos na casa sabiam o que estava se preparando. Imagino que a sensação deveria ser similar à que sentimos perto do Natal no mundo cristão ou do Ramadã no mundo muçulmano. Ou seja, grande e aberta expectativa.

No final do quarto dia, ele era abatido (Ex12:6). Lembro meu vó abatendo um carneiro. Eles morrem em silêncio. Em todas as casas haveria um certo silêncio naquela mesma hora. Talvez um certo murmurio suave e um tanto solene enquanto se explica aos mais novos o que está acontecendo e como isso é uma preparação do que haveria de vir.

Parte desse sangue serviria para marcar o batente da porta. Num claro sinal público de comprometimento pela fé no que haveria de acontecer. (Ex12:7)

Depois começaria a outra parte da celebração. O churrasco (Ex12:8), o jantar. Quem nunca comeu ou comeu e não gostou não tem noção de como é gostoso um churrasco de carne de carneiro (meio adocicada) acompanhada com ervas amargas. É uma delicia ao palato. Quem nunca esteve numa churrascaria gaucha de verdade (não as imitações paulistas) não sabe o como é gostoso comer não apenas a carne, mas também todas as outras partes do animal. Uma verdadeira festa de sabores.

Comento estes detalhes culinários apenas para trazer à tona um fato que geralmente não associamos com as celebrações religiosas judaicas: São uma baita festa. Os povos semíticos são povos expressivos e as celebrações tem música, dança e, claro, por ser uma festa judia iniciada em solo egípcio, tinha cerveja e da boa não das feitas com arroz e/ou cereais não maltados, eles usavam a melhor cevada disponível na região. Ao final das contas a saúde de adultos e infantes dependia disso. (Veja mais aqui)

Assim como a entrega dos dízimos, a festa das colheitas e tantas outras, a celebração da páscoa era exatamente isso, uma grande e ousada festa. Temos o costume infernal de solenizar tudo. Talvez pela herança dos conquistadores, talvez por achar que existe alguma diferença entre o sagrado e o criado, ou talvez por não nos sentirmos relaxados de fato na presença do Criador, quem sabe?

O cheiro do churrasco na brasa no ar, a noite caindo e as sensações se juntando. Havia expectativa, ansiedade, alegria e tristeza. Tudo junto. Mais ou menos como a morte do único parente rico e muito bem querido e respeitado em uma família pobre. Os sentimentos se misturam, não tem jeito.

Havia expectativa por ser a primeira vez que iria a acontecer o que estava por acontecer. Tristeza porque iam deixar tudo o que tinham conhecido como realidade nos últimos quatrocentos e trinta anos. Alegria, porque ao fim seriam libertos e ansiedade porque o que estava por acontecer, se escapava da mão deles.

A festa era de cunho divino no sentido que tinha sido uma idealização de YHWH transmitida a Moisés. A própria celebração era realizada com componentes culturais próprios. A abrangência do sacrifício era para todos os escolhidos e apenas para eles (Ex12:3,45). A participação era -como todas as celebrações do antigo testamento- pela fé já que a pessoa poderia se abster de crer e deixar de pintar o batente da porta, por exemplo. A realização prática era na família e, se ela for pequena, junto com a família do vizinho numa demonstração particular de fé comunitária.

Então a noite foi ficando escura. Algumas músicas foram parando. Algumas risadas diminuindo. Após a meia noite (Ex12:29) os primeiros gritos foram se ouvindo. As primeiras frases de arrependimento ditas em pranto foram sendo ouvidas. Em todas as casas onde a marca de sangue no batente da porta não tinha sido feita, o anjo do Senhor entrou e matou o filho mais velho não apenas das pessoas, mas dos animais. Em todas as casas no Egito havia um filho morto (Ex.12:30)

Nessa mesma madrugada, o Egito manda os judeus – sua grande e barata mão de obra – ao deserto. A liberação que uns poucos esperavam, pela qual muitos clamavam, mas que de fato a maioria não desejava que se concretiza-se estava sendo finalmente realizada. (Ex.12:31-33)

Deus era fiel ao seu próprio plano. Deus não tinha esquecido da sua promessa. Deus não tinha abandonado seu povo como muitos achavam. Deus, continuava sendo O Soberano. A fé não era mais necessária pois estava claro até para o mais obstinado descrente que Deus era quem mandava no pedaço. Não se tratava mais de crer que um dia a salvação chegaria, era obvio e manifesto que o lance estava acontecendo ali e nesse momento.

cruz-vazia

Uns 1400 anos depois um outro cordeiro morreria. Um judeu de origem humilde. Um carpinteiro de profissão. Ele falava que a salvação da qual muitos falavam, poucos acreditavam e menos pessoas ainda esperavam de fato que se concretiza-se, dependia dele. Especificamente da morte dele.

A morte de Jesus o Cristo se dá justamente na celebração da páscoa. Ele morre e aqueles que ouvem hoje sua mensagem e depositam a fé nele (pois pode-se ouvir, entender, concordar mas não se render) são salvos. A ressurreição dele (que celebramos todo domingo) apenas nos lembra de que ele prometeu voltar da morte e também prometeu um dia vir buscar os seus. Logo, se se mostrou poderoso para cumprir a primeira promessa (muito mais difícil de cumprir do que a segunda por se tratar dele mesmo) é capaz de cumprir a segunda.

Então, meu querido, que páscoa você celebra? A dos ovinhos de chocolate e das frases feitas? A de evitar comer certos tipos de comida? A do recolhimento vazio? A do tempo do Êxodo? O apostolo Paulo tem uma frase muito linda sobre este momento.

O orgulho de vocês não é bom. Vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada?
Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado.
Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade.
1 Coríntios 5:6-8

Então não se trata de celebrarmos a festa judaica ou a europeia. Se trata de celebrarmos a morte e ressurreição do amado. Mas não uma celebração como evento isolado da vida. Está mais para uma celebração por causa da nova vida que nele temos.