Respostas a inquietações científicas e religiosas

A religião tem sido atacada de diversas maneiras e por inúmeras frentes no implacável
combate que impregna a história humana. Munidos de hermenêuticas próprias construídas a
partir de postulados científicos e empunhando a bandeira da modernidade, muitos céticos se
lançam vorazmente na tentativa de destroçar qualquer indício de crença religiosa. Espadas são
desembainhadas em lutas quixotescas que se embrenham por batalhas inexistentes
alimentadas por suas próprias ilusões bélicas.

O que tais tentativas parecem não se dar conta é que a ciência e a religião jamais foram
inimigas e jamais estiveram em trincheiras opostas. Na verdade, muito do que se diz da
religião tem sua razão de existir. A interpretação que se dá aos processos, porém, parece
carecer de legitimidade.

A religião, assim como a política e a ciência, tem sido um instrumento de opressões, abusos e
malignidades dos mais variados tipos. Vitimas de interesses escusos e manipuladas por
consciências inescrupulosas, tanto a religião como a política ou até mesmo a ciência se
constituem como instrumentos nas mãos de uma sociedade maligna. Como já disse Ulysses
Guimarães: “O poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder. O homem é
o grande poluidor, da natureza, do próprio homem, do poder.” Parafraseando poderíamos
afirmar que a ciência (que foi utilizada para o desenvolvimento de armas de destruição em
massa, como a bomba atômica, as armas químicas etc), a política (que em nossos dias parece
ter se tornado sinônimo de corrupção) ou até mesmo a religião (que tem sido um meio de
manipulação das massas), não corrompem o homem, mas sim é o homem quem corrompe a
ciência, a política e a religião.

O ser humano é o principal corruptor e manipulador dos meios que dispõe para dar vazão a
suas cobiças, seus intentos, suas demências e suas volúpias. Se as classes dominantes se
utilizam da religião para seus próprios intentos malignos, não deixam de lado a política e a
ciência.

O período chamado “Idade das Trevas”, foi, sem dúvida um tempo de obscurecimento da
razão e teve como seu principal protagonista a religião. Esta, instrumentalizada pelas classes
dominantes, se utilizou da boa fé do povo para chegar a seus propósitos maculados.
Com a derrocada das “Trevas”, a partir do surgimento do Iluminismo, instala-se uma nova
esperança para a humanidade. Se o obscurantismo de tempos passados tinha cedido espaço
ao raiar de novos horizontes, agora acreditava-se que finalmente a humanidade seria elevada
às esferas da justiça, igualdade e fraternidade. A liberdade científica surgia com toda a
imponência e as promessas de melhorias da vida social e humanitária eram cada vez mais
vociferadas por seus proponentes.

A história nos mostra que no século XX, auge da emancipação da mente humana das rédeas
funestas da religião, o homem, feliz em suas descobertas, foi encontrado ébrio e cambaleante
em suas próprias vaidades e soberania. Como todos sabem, a racionalidade humana, a
iluminação do intelecto e os avanços científicos não puderam impedir as duas grandes guerras
mundiais do século XX. Milhões foram dizimados, manchando as páginas da história como
nenhum outro período anterior o fez. O florescimento da ciência, que muito ajudou a
humanidade em questões de saúde e bem estar social, também proporcionou oportunidade
para a concretização das destruições em massa e das barbáries que até hoje arrepiam até os
menos sensíveis. Além disso, o boom da revolução industrial, que prometia cada vez mais
condições dignas para a vida humana, não impediu o processo de massacre nas fábricas e a
mecanização humana. Charles Chaplin retrata brilhantemente este fenômeno no filme:
“Tempos Modernos”. O homem foi substituído pelas máquinas e o processo de
industrialização relegou às “sarjetas” da vida o operário desvalorizado.

A religião, já fora dos holofotes e da mira dos seus algozes, não pôde ser culpada por
tamanhas opressões e mostrou não se constituir o gatilho que promovia as misérias sociais. Se
os séculos XIX e XX foram o período do coroamento da razão e do destronamento da
divindade, foram também os séculos da destruição em massa e da disseminação da esclerose
social. A religião não era mais a mão que regia os destinos da humanidade, porém a sociedade
continuava amargar suas misérias de forma cruel, violenta e numa progressão exponencial. Se
por um lado a mão do homem moderno apagava as últimas centelhas das fogueiras
inquisitoriais; por outro a mesma mão colhia ali as brasas incandescentes para acender os
fornos crematórios de Auschwitz.

A religião não é inimiga da ciência, pois seu escopo é outro. A Religião objetiva o “sagrado”; a
ciência o profano (comum). O sagrado é o totalmente outro, o transcendente, aquele que foge
à apreensão exaustiva da mente humana. Enquanto a ciência se ocupa do que pode ser
experimentado, observado, estudado e compreendido, a religião permeia o eterno, fala do
inefável, se lança no numinoso, se prostra diante do intocável. A ciência trilha um caminho, a
religião outro. São paralelos, embora às vezes seus olhares se entrecruzem, logo se
abandonam novamente para perscrutar suas próprias sendas.

No âmbito social, a religião consolida os laços familiares, reúne os pares em volta da mesa,
incentiva a solidariedade, a amabilidade, o atendimento aos carentes e necessitados.
Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá são alguns exemplos da religião em ação, lutando
pelas causas sociais, se doando em favor dos menos favorecidos. Abraham Heschel, destacado
líder religioso, posicionou o sentimento religioso ao lado das questões sociais e humanitárias
caminhando lado a lado com Martin Luther King. A eugenia que se apropriou do ferramental
científico e no século XX foi o dínamo para uma ideologia demente de superioridade racial, não
foi suficiente para apagar a chama da luta pela igualdade e liberdade que moveu o coração de
um religioso como Heschel pelas ruas do Alabama.

O papel da religião não é o de desenhar um mundo ilusório para entorpecer a mente do fiel,
mas sim carregar de esperanças um coração que se amarga constantemente pelo desencanto
do mundo moderno. O iluminismo tentou apagar do coração humano a luz do encanto pela
vida. Como disse Christopher Nash (Myth and Modern Literature) “O que é chamado de
Iluminismo, foi, na realidade o escurecimento, porque pretendia a extinção da natural,
primordial mítica luz interior do homem.” Enquanto a modernidade encarcerava o ser humano
na aridez da luta incansável pelo temporal e lançava mais uma vez a sociedade na
desesperança de um mundo bélico que a razão não foi suficiente para contornar, os suspiros
nostálgicos de um coração outrora iluminado por um porvir glorioso que modificava os
caminhos do presente e os preenchia com alegria e colorido, eram novamente sentidos em
meio ao deserto.

Se por um lado a ciência presenteia o homem com o progresso, o desenvolvimento, os
avanços no campo da saúde; por outro pode ser um instrumento que furta-lhe a vida quando o
impede de dar respostas aos anseios mais interiores de suas buscas existenciais e de sentido.
Somos a sociedade do desencanto, da perda de valores, da violência, da falta de respostas, do
esfacelamento das relações, da plasticidade dos encontros, dos amores fluídos (Zygmunt
Bauman). Se a religião foi considerada o ópio do povo, a ciência produziu seus próprios ópios
para substituir o vazio da existência humana. Cresce assustadoramente o número de
alucinógenos no cotidiano, em uma sociedade cada vez mais “iluminada” pelos cachimbos da
desilusão e pelas fagulhas das tragédias.

A segurança dos conhecimentos científicos é questionada no desenrolar da história da própria
ciência. Apesar de trazer convicções importantes para a construção social, as descobertas de
cada época são, muitas vezes, antagônicas a descobertas de períodos anteriores. Exemplos
deste fenômeno são claros e elucidativos. Até 1990 os cientistas criam que os dinossauros
tinham sido extintos por um vulcão, a partir daí se começou a propagar ideias de que um
asteroide teria sido a causa de tal catástrofe. Até 2014 a ciência acreditava que o homem de
Neandertal era inferior intelectualmente ao Homo Sapiens sendo esta a causa do seu
desaparecimento. Já em 2014 descobertas arqueológicas revelaram que o Homo Sapiens não
era de forma alguma mais inteligente que o homem de Neandertal. A ciência já afirmou que o
Neandertal não tinha habitado juntamente com a espécie humana, mas recentemente
descobriu-se que isto era uma falácia. Até 2003 os cientistas diziam que os seres humanos
tinham 100.000 genes, mas depois se descobriu que temos por volta de 19.000 a 20.000. Até o
século XX muitos médicos achavam que a sangria curava quase qualquer doença; hoje esta
afirmação se faz absurda no meio científico. Amostras como estas revelam que os
conhecimentos científicos que outrora traziam segurança a seus proponentes, em gerações
posteriores se mostraram mitológicos e até infantis. As seguranças de muitas afirmações
científicas hodiernas poderão se mostrar totalmente incoerentes e frágeis na geração
posterior. Muitas teorias científicas, como por exemplo a que propõe as causas do surgimento
do Universo carecem de fatos pela própria incapacidade da repetição de tais fenômenos. Fica
evidente que a fé se mostra um elemento de propriedade não exclusiva da religião.

Assim, a religião, ao se propor a lidar com as questões sociais, não oferece resignação,
alienação ou paralisia à energia social; pelo contrário, ressignifica a existência humana,
lançando âncoras no transcendente, procura transformar o presente com o amor, altruísmo,
cultivo de valores importantes para o convício social e busca pela sobriedade das relações
humanas. Quando estabelece suas bases no eterno, a religião propõe um presente
responsável e valorizado, pois as ações que aqui são feitas se refletirão no infinito.

As respostas a uma sociedade contemporânea infectada pela ansiedade, depressão e stress
não advém de uma única fonte, mas sim de uma pluralidade de experiências do humano, das
quais a religião, com certeza constitui-se como parte significativa.

Morando em uma casa remendada.

Ninguém quer morar em uma casa cheia de remendos. O processo é simples, uma goteira aqui, uma rachadura acolá, um muro com defeito, enfim em algum momento o remendo, o conserto se faz necessário.

Mas ninguém quer que o remendo seja visto. Geralmente gastamos muito com a estética final da casa. O remendo é então sempre feito de forma tal que possamos -em algum momento- cobrir ele de tal forma que pareça que a casa nunca teve rachaduras.

Na vida pessoal também é assim. Não queremos que ninguém perceba nossos remendos. Basicamente queremos aparentar perfeição e não erros estruturais, rachaduras no caráter, ou simples imperfeições goteiras na vida espiritual.

Almejar ser como Deus pode ser coisa boa, aparentar a perfeição dele nem tanto.

Acontece que na nossa vida, os reparos estruturais (os essenciais) apenas podem ser feitos pelo próprio criador. É claro que em se tratando do criador, o reparo dele vai ser o melhor de todos os que possam ser feitos.

Mas cá entre nós, se o reparo é uma ação de Deus, não seria interessante que seja visto? Não é por acaso fruto da sua graça? Não é ali justamente que reside sua gloria em mostrar que é possível restaurar o caído? Não é exatamente isso que o mundo precisa ver? A ação de Deus restaurando o que o Pecado tem estragado?

Então, talvez seja melhor morar em uma casa remendada pelo Senhor que uma construída pela gente apenas para inglês ver.

Confissão, arrependimento, culpa e remorso

Dizem – acho que brincando – que uma religião é uma crença que te ajuda a tirar a culpa que uma outra religião colocou.

Brincadeiras à parte, é comum no meio cristão confundirmos culpa com remorso, remorso com arrependimento, arrependimento com confissão e confissão com coisa do capeta. Em algumas situações isso é perfeitamente compreensível, já que mais de mil anos de obrigatoriedade confessional nos colocou do outro lado do tatame. Mas vamos separar os grãozinhos e tentar melhor entender essa questão.

Remorso é uma inquietação, um estado de abatimento. Pode indicar culpa mas também apenas medo de ser pego. Sentir remorso não é sinal de saúde espiritual mas falta de remorso pode ser um mau sinal.

A culpa indica responsabilidade por um ato feito ou por uma omissão que causou dano a outrem. Ela pode ser real ou não. Pode ser sentida ou não. Pode ser objetiva ou não. Seja como for, culpa mal tratada é um desastre já que ela acaba condicionando pensamentos e condutas que se ela não existisse seriam diferentes.

Nem o remorso nem a culpa podem ser o motivo de uma pessoa seguir Jesus. Elas são, com certeza, o motivo para muitas pessoas terem uma religiosidade, se maltratarem, judiarem os outros e – com certeza – não serem felizes. Todavia, em Jesus as duas coisas encontram uma saída se bem que são apenas antessalas de uma coisa bem melhor. A culpa real, por exemplo, vai achar seu desague no arrependimento pois de outra forma apenas alimenta um remorso e estagna a vida da pessoa. Isso nos leva a pensar nas outras duas palavrinhas.

Pense em arrependimento. O que é? Temos a tendência de pensar que se trata de um sentimento. Inclusive achamos que sem um sentimento o arrependimento é impossível. É verdade que toda nossa vida de decisões passa pelo emocional e que quando ele adoece precisa ser cuidado como uma perna, a garganta, o coração…. mas a caminhada ao arrependimento não necessariamente principia pelo emocional, pode ser também por uma profunda convicção trazida por um novo conhecimento ou por ficar sabendo das consequências dos nosso atos. Ai sim não é estranho cair em prantos. Apenas friso que a ausência ou não do emotivo não é razão para medir o arrependimento. Então o que é?

Arrependimento é mudança de conduta. Não é apenas o sentir-se mal com alguma coisa feita ou deixada de fazer. Não se trata de sentir culpa sobre um assunto. Se trata de mudar uma conduta por ter tido uma inapropriada. É por exemplo aquele homem que deixa de trair, a mulher que deixa de cobiçar, o adolescente que deixa de mentir, a sogra que deixa de se meter, o comerciante que deixa de praticar o abuso nos preços, é o governante que passa a ser decente, a mãe que passa a respeitar a pessoa do filho, enfim, acho que já pegaram a ideia.

Mas nos falta um bloco que – ao meu ver – é o essencial. Sem este bloco a casa da mudança espiritual de cabeça não consegue se estabelecer. Sem este bloco o perdão não é liberado. Eu sei o que parece, mas me acompanhe um pouco mais.

Quando deixamos como raça entrar o pecado no mundo, ele se tornou senhor deste mundo. O lugar onde ele mais reina, é no coração do homem cegando-o para toda realidade espiritual. Tudo nesta criação caída conspira contra a vida espiritual que Deus nos quer dar. É por isso que a vitória da cruz de Jesus é tão cosmologicamente impactante pois subverte a ordem estabelecida pelo pecado.

Nesse sentido há um bastião a ser derrubado: o orgulho humano. Nada contra o homem ser seguro de si. Mas não seguro apenas em si mesmo ou por seus próprios meios. É claro que o ser humano é capaz de chegar muito longe alicerçado em si mesmo, tem o espirito do eterno nele por enquanto, então vai chegar longe. Mas para atingir a eternidade, a porta de entrada é a morte. O ensaio da morte é a confissão.

O arrependimento pode até ser conveniente. O remorso pode até ser de alguma forma benéfico impedindo novas condutas erradas. A culpa pode levar a pessoa ser e se sentir melhor em um circulo virtuoso, mas apenas a confissão libera o perdão. Apenas a confissão derruba o ser humano eliminando o pequeno rei que mora no seu coração.

Confessar nada mais é do que concordar com a opinião que Deus tem sobre nossos pensamentos, crenças, condutas, caminhos, etc. É descobrir que Deus é verdadeiro até na opinião que ele tem de nós. É reconhecer que todo homem é mentiroso. É se render perante a torrentosa graça dele.

O perdão de Deus para a vida do homem individual (e com isso a graça renovadora dele na vida da pessoa) vem não a partir do remorso ou da culpa e nem sequer do arrependimento. Vem a partir da confissão. Não interessa se você sente ou não que uma coisa condenada na Bíblia é pecado. Apenas confesse isso. Deixe isso agir. Com certeza se isso que a Bíblia condena (de forma específica, genérica ou apenas como exemplo) faz parte da sua conduta, a sua consciência sera renovada, seu espirito será capacitado para um arrependimento; isto é, para uma mudança de raiz do seu agir. Ai sim, é bem provável que chore e se lamente por anos viver em vaidade longe do Senhor.

Com isso em mente, releia 1 João 1:9. Se confessarmos … ele perdoa. Apenas isso. Pecado confessado, pecado perdoado. O resto é consequência…

1 João 18 Se declaramos que não temos pecado algum enganamos a nós mesmos, 
e a verdade não está em nós. 9 Se confessarmos os nossos pecados, 
Ele é fiel e justo para nos perdoar todos os pecados e nos purificar 
de qualquer injustiça10 Se afirmarmos que não temos cometido pecado, 
nós o fazemos mentiroso, e sua Palavra não está em nós.

 

Você celebra a páscoa?

Há muitos cristãos que acreditam piamente que o que se encerra hoje é a celebração da páscoa.

É verdade que a comemoração dos judeus é verdadeiramente a páscoa. Está certo em celebrarmos a data deles? Sim, se você conseguisse celebrar o Ramadã morando ou estando sob influencia muçulmana, a resposta é sim. Ou seja, não é uma festa de origem cristã, ela em si mesma não lhe diz à cristandade. Portanto, não é uma festa nossa assim como não o é o Natal que é uma apropriação da festa pagã do “Sol Invictus” do tempo dos romanos. (Mais sobre isso aqui)

Porém, ficando claro que é uma festa que não é da nossa origem, uma segunda análise nos leva exatamente na direção contrária. O que se celebrava na páscoa? A liberação que havia de vir ainda. Ou seja, naqueles dias da primeira páscoa se escolhia e preparava o cordeiro durante os dias anteriores. Por quatro dias, ele era preservado e todos na casa sabiam o que estava se preparando. Imagino que a sensação deveria ser similar à que sentimos perto do Natal no mundo cristão ou do Ramadã no mundo muçulmano. Ou seja, grande e aberta expectativa.

No final do quarto dia, ele era abatido (Ex12:6). Lembro meu vó abatendo um carneiro. Eles morrem em silêncio. Em todas as casas haveria um certo silêncio naquela mesma hora. Talvez um certo murmurio suave e um tanto solene enquanto se explica aos mais novos o que está acontecendo e como isso é uma preparação do que haveria de vir.

Parte desse sangue serviria para marcar o batente da porta. Num claro sinal público de comprometimento pela fé no que haveria de acontecer. (Ex12:7)

Depois começaria a outra parte da celebração. O churrasco (Ex12:8), o jantar. Quem nunca comeu ou comeu e não gostou não tem noção de como é gostoso um churrasco de carne de carneiro (meio adocicada) acompanhada com ervas amargas. É uma delicia ao palato. Quem nunca esteve numa churrascaria gaucha de verdade (não as imitações paulistas) não sabe o como é gostoso comer não apenas a carne, mas também todas as outras partes do animal. Uma verdadeira festa de sabores.

Comento estes detalhes culinários apenas para trazer à tona um fato que geralmente não associamos com as celebrações religiosas judaicas: São uma baita festa. Os povos semíticos são povos expressivos e as celebrações tem música, dança e, claro, por ser uma festa judia iniciada em solo egípcio, tinha cerveja e da boa não das feitas com arroz e/ou cereais não maltados, eles usavam a melhor cevada disponível na região. Ao final das contas a saúde de adultos e infantes dependia disso. (Veja mais aqui)

Assim como a entrega dos dízimos, a festa das colheitas e tantas outras, a celebração da páscoa era exatamente isso, uma grande e ousada festa. Temos o costume infernal de solenizar tudo. Talvez pela herança dos conquistadores, talvez por achar que existe alguma diferença entre o sagrado e o criado, ou talvez por não nos sentirmos relaxados de fato na presença do Criador, quem sabe?

O cheiro do churrasco na brasa no ar, a noite caindo e as sensações se juntando. Havia expectativa, ansiedade, alegria e tristeza. Tudo junto. Mais ou menos como a morte do único parente rico e muito bem querido e respeitado em uma família pobre. Os sentimentos se misturam, não tem jeito.

Havia expectativa por ser a primeira vez que iria a acontecer o que estava por acontecer. Tristeza porque iam deixar tudo o que tinham conhecido como realidade nos últimos quatrocentos e trinta anos. Alegria, porque ao fim seriam libertos e ansiedade porque o que estava por acontecer, se escapava da mão deles.

A festa era de cunho divino no sentido que tinha sido uma idealização de YHWH transmitida a Moisés. A própria celebração era realizada com componentes culturais próprios. A abrangência do sacrifício era para todos os escolhidos e apenas para eles (Ex12:3,45). A participação era -como todas as celebrações do antigo testamento- pela fé já que a pessoa poderia se abster de crer e deixar de pintar o batente da porta, por exemplo. A realização prática era na família e, se ela for pequena, junto com a família do vizinho numa demonstração particular de fé comunitária.

Então a noite foi ficando escura. Algumas músicas foram parando. Algumas risadas diminuindo. Após a meia noite (Ex12:29) os primeiros gritos foram se ouvindo. As primeiras frases de arrependimento ditas em pranto foram sendo ouvidas. Em todas as casas onde a marca de sangue no batente da porta não tinha sido feita, o anjo do Senhor entrou e matou o filho mais velho não apenas das pessoas, mas dos animais. Em todas as casas no Egito havia um filho morto (Ex.12:30)

Nessa mesma madrugada, o Egito manda os judeus – sua grande e barata mão de obra – ao deserto. A liberação que uns poucos esperavam, pela qual muitos clamavam, mas que de fato a maioria não desejava que se concretiza-se estava sendo finalmente realizada. (Ex.12:31-33)

Deus era fiel ao seu próprio plano. Deus não tinha esquecido da sua promessa. Deus não tinha abandonado seu povo como muitos achavam. Deus, continuava sendo O Soberano. A fé não era mais necessária pois estava claro até para o mais obstinado descrente que Deus era quem mandava no pedaço. Não se tratava mais de crer que um dia a salvação chegaria, era obvio e manifesto que o lance estava acontecendo ali e nesse momento.

cruz-vazia

Uns 1400 anos depois um outro cordeiro morreria. Um judeu de origem humilde. Um carpinteiro de profissão. Ele falava que a salvação da qual muitos falavam, poucos acreditavam e menos pessoas ainda esperavam de fato que se concretiza-se, dependia dele. Especificamente da morte dele.

A morte de Jesus o Cristo se dá justamente na celebração da páscoa. Ele morre e aqueles que ouvem hoje sua mensagem e depositam a fé nele (pois pode-se ouvir, entender, concordar mas não se render) são salvos. A ressurreição dele (que celebramos todo domingo) apenas nos lembra de que ele prometeu voltar da morte e também prometeu um dia vir buscar os seus. Logo, se se mostrou poderoso para cumprir a primeira promessa (muito mais difícil de cumprir do que a segunda por se tratar dele mesmo) é capaz de cumprir a segunda.

Então, meu querido, que páscoa você celebra? A dos ovinhos de chocolate e das frases feitas? A de evitar comer certos tipos de comida? A do recolhimento vazio? A do tempo do Êxodo? O apostolo Paulo tem uma frase muito linda sobre este momento.

O orgulho de vocês não é bom. Vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada?
Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado.
Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade.
1 Coríntios 5:6-8

Então não se trata de celebrarmos a festa judaica ou a europeia. Se trata de celebrarmos a morte e ressurreição do amado. Mas não uma celebração como evento isolado da vida. Está mais para uma celebração por causa da nova vida que nele temos.

Que presente dar?

Época natalina se presta para sorrir, desejar uma vida melhor e dar presentes.

É claro que a data não tem como coincidir com o nascimento de Jesus de fato, é o solstício de inverno no hemisfério norte (21/dez) e coincide com a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti  ou o nascimento do sol não conquistado, invicto. Mas isso não interessa agora até porque não vamos mudar a realidade de que no mundo “cristianizado” celebramos natal no 25 de dezembro e ponto.

O fato é que surge a pergunta: Que presente comprar? Que presente dar?

Há aqueles que tem uma tendência de comprar uma coisa cara, como se o valor do presente refletisse – de alguma forma – o valor dado à pessoa numa salada de valores e não-valores capaz de deixar qualquer um louco.

Há os outros que por incapacidade de decidir, não conseguem dar presentes e para piorar criticam e condenam quem assim o faz.

E tem aqueles outros que dão coisas que eles mesmos gostariam de receber numa total prática pseudo amorosa de hedonismo não confessado.

A prova de que não sabemos presentear é o cartão de crédito.

Primeiro, quem amamos não precisa presente (não pare de ler, por favor, não desanime…rs) Ou seja, as pessoas que amamos e que nos amam (pois não há amor em apenas um sentido) não precisam de presente para manter a amizade. Então o cartão de crédito -se usado neste caso- deve ser com mesura de outra forma, meses ao fio lembraremos da inutilidade de ter comprado um presente caro para quem já temos no coração.

Segundo, aquele que não se ama não requer presente. Não é um presente caro ou um elogio que vão conquistar o coração do chefe ou a aprovação do cônjuge.  Isso porque quando damos um presente além das forças, todo mundo sabe que estamos mendigando alguma coisa, de outro jeito há um monte de coisas que requerem da nossa atenção. Então, nada de entrar em dividas para agradar um fulano que não se agrada de você.

Tá, então não damos presentes?

Faça como quiser, seja livre, mas se for dar um presente, dê apenas porque gosta, ama e conhece a pessoa. Nada mais lindo que receber aquele carinho – que pode ou não ser materializado – da pessoa amada. Vale mais tomar café junto com o amigo várias vezes durante o ano do que não ter dinheiro nem para o café por ter dado aquele presente caro completamente à toa.

Presentes apenas mostram o quando conhecemos a pessoa que irá receber-lo e serão completamente inúteis para quem não gosta da gente.

Dê a si próprio. Conce-da-se ao outro. Gaste tempo com quem ama. Perdoe. Viva livre. Ame. Não é esse por acaso o exemplo de Jesus o Rei?

Conflito de lealdades

“…E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá enterrar meu pai…” (Lucas 9.59 ARC).

É quase impossível viver sem conflitos; de uma forma ou de outra, sempre vamos nos deparar com situações conflitantes (em menor ou maior grau)…

Todas as vezes que nos posicionamos em relação a uma decisão pessoal, sempre precisaremos enfrentar idéias e opiniões contrárias (sejam nossas decisões certas ou erradas); sempre haverá algo ou alguém que se apresentará como impedimento ou oposição com relação a nossa decisão…

Geralmente não queremos desapontar alguns, outras vezes não queremos decepcionar outros; é ai que se apresenta o “conflito de lealdades” para por a prova nossa decisão por seguir a Jesus (que é muito diferente de seguir uma doutrina ou uma denominação religiosa)…

O homem da referida passagem não queria desapontar Jesus e (também) não queria magoar o próprio pai. Nossa lealdade a Jesus Cristo deve ser exclusiva e totalmente superior a todas as demais não importando o que falem ou pensem a nosso respeito…

Quando nos depararmos com um “conflito de lealdades” entre Jesus e tantas outras que porventura possam haver (pai, mãe, irmãos etc…), não podemos titubear nem um só segundo em nossa decisão por seguir a Jesus, custe o que custar e haja o que houver!.

Pense nisso!.

Khristós Voskrés! Cristo ressuscitou!

709d666d-1f48-4519-ab7f-dfce23803448Uma das experiências que mais saudades me deixou foi a de pastorear interinamente uma igreja de origem eslava. Durante dois anos e meio eu fui transportado para uma forma de fé mais singela, rica e profunda. Singela porque por conta da guerra que tinham deixado para trás esta comunidade tinha tido que se despir de certas coisas não essenciais à fé cristã. Rica porque por conta da necessidade imposta pela migração o que poderia ter sobejado de um certo orgulho nacional tinha sido esmagado vendo-se forçados a abrir-se para a realidade da experiência existencial humana em formas que de outra forma talvez levasse muito mais tempo. E profunda, porque nessas escolhas que tiveram que fazer, conseguiram manter sua identidade não apenas eslava mas como eslavos cristãos re-arraigados em terras brasileiras.Talvez apenas um outro migrante para entender porque isso é profundo.

De todas as práticas que eles tinham a da saudação durante o domingo de ressurreição é a que mais lembro. Nesse dia eles se comprimentam dizendo “Cristo ressucitou!” ao que o interlocutor responde “Em verdade ressuscitou!”. Essa mesma forma poderia ser usada no primeiro culto matutino, ou no almoço do domingo de ressurreição. Lamentavelmente durante minha estância lá eu não soube apreciar a riqueza cultural disso e cometí o mesmo erro dos missionários que se internam nas tribos indígenas e tentam lhe mudar a cultura.

Como na sua cultura local a ressurreição de Jesus o Cristo é lembrada? Qual o impacto disso na sua vida pessoal? Como os da sua casa sabem que esse é o evento mais importante desde a criação do mundo?

Nos tempos que correm está cada vez mais de moda abandonar a congregação, abandonar a forma evangélica recebida, abandonar ritos e por ai vai. Argumentos são utilizados para justificar isso. O mais comum é o de dizer que somos livres para não nos congregar. Ou seja, como se congregar-se fosse um peso, uma carga, uma obrigação. É instigante no meu calo cerebral a pergunta de porque essa mesma liberdade não pode ser usada para o obvio: congregar-se para identificar-se. A única resposta que me aparece é de que se trata nada mais do que um subproduto da anarquia individualista que tem tomado conta da sociedade e – por consequência – dos mais pós-modernos “líderes” que nada mais são do que núvens sem água levadas para lá e para cá sem conteúdo; árvores desarraigadas impedidas de dar frutos dignos do reino.

“Khristós Voskrés!” (Cristo ressucitou) resume um legado eslavo para uma igreja que se adaptou no tempo mas não perdeu a essencia da mensagem. O primeiro dia da semana (que vale a pena lembrar não é a segunda-feira como o mundo rendido ao dinheiro nos quer fazer pensar) é de um especial significado para a igreja. Não que os outros dias não tenham, mas nivelar por baixo não faz mais do que mesmerizar a coisa simplificando – no melhor estilo Hitleriano – em lugar de aprofundar. Tanto se contarmos os dias da semana da criação literalmente ou – como muitos de nós – alegoricamente, vemos que o evento criativo de Deus se inicia num domingo (se este domingo demorou 24h ou se foram longos milénios, tanto faz). A ressurreição de Jesus o Cristo se dá também num domingo. Há um novo começo, uma nova realidade se abrindo para a humanidade.

Talvez não sejamos plenamente cientes de quão profunda é esta verdade nem quão necessário e urgente é o resgate da sua essência cristã. Eu acho que Romanos 5:18 resume bem ao dizer “…por um único ato de justiça…”. Essa tríade de morte-estadia no túmulo-ressurreição é “um único ato de justiça”. Geralmente temos a tendência de comparar este “único ato” com o ato de Adão citado no mesmo versículo. Mas o lance é bem maior pois ele vem argumentando que apenas Deus é justo e que o homem é injusto em sua essência desde o inicio da epistola.

Sente raiva de essa ideia? Acha que ser cristão é tolo? Pensa que deveriamos suavizar isso? A resurreição de Cristo está para você em um nível menos importante do que o Natal, a virada do ano ou seu aniversário? Pensa no mais profundo do seu ser que o homem pode chegar a ser justo se se esforça e ninguem atrapalha? Talvez – e só talvez – ainda não tenha entendido o básico da fé cristã.

Eu estou entre aqueles que acha que a fé cristã está desvirtuada ali mesmo onde deveria ser exaltada. A igreja tem se extraviado nestes ultimos anos com uma celeridade espantosa. A seriedade teológica tem dado lugar à insegurança da crença e à falta de identidade local e isso não porque estejamos indo para uma unificação benéfica da fé cristã, mas porque estamos abandonando a mesma fé que dizemos professar. A geração que está vindo ai, sente na alma que não vale mais nada ter algum tipo de identidade seja esta cultural, filosófica, racial, etc. Isso também se aplica para a fé cristã. Não que seja uma exclusividade da nossa era. Isso já aconteceu durante o oscurantismo e acontece hoje de forma inversa mas igualmente devastadora.

Quem é você? Se é cristão, é cristão mesmo? Ou seja, acredita de fato que Jesus ressurgiu? Se não, não seria o momento de re-avaliar sua vida?

 

http://www.monergismo.com/textos/credos/credoniceno.htm

Cristo, nosso cordeiro pascoal foi crucificado

Pensar na pascoa é, para muitas pessoas, sinónimo de festa, ovos de chocolates, reencontro com a familia. Eu acho que isso tudo tem seu valor e que deve ser feito, mas despe a páscoa do seu verdadeiro significado original. Uma segunda coisa é indagar se é possível para um cristão celebrar a páscoa.

A pascoa como tal nada mais é do que uma festa judia (e judaizante) na que se celebra o Pessach, ou seja, a passagem do anjo da morte na terra do egito pouco antes da liberação do povo judeu. No sentido de liberação, nada mais apropriado do que concordar com o apóstolo Paulo de que “Cristo nosso cordeiro pascoal já foi sacrificado” (1Co.5:7) já que -de fato- Jesus o Cristo é nosso grande libertador. Nada se compara a ele e e nele que o Pessach tem seu significado realizado por completo.

Porém, a sociedade tem gradativamente desvirtuado esta verdade simples. Para falar a verdade a sociedade não está nem ai para o significado da pascoa ou do natal. O problema é que a igreja institucionalizada (grande ou pequena) gosta de se prostituir atras da ideia de que tem que “atrair” as pessoas. Se Jesus fosse um produto, uma coisa a ser vendida, eu até concordaria. Nada mais apropriado e justo do que engabelar seu cliente falando coisas que ele quer ouvir, lhe dando aquilo que ele quer obter, para o seu produto ser mais vendido e com isso engrandecer os lucros de quem vende.

Das dias grandes datas cristãs – o natal e a pascoa- é com certeza a páscoa e não o natal a que celebramos em data mais certa. Porém, tanto uma como outra se presta parta conchavos politico-econômicos. O que atrai para o Cristo tem que ser o próprio Cristo. E – se possível – crucificado. Ao menos era isso o que ele pretendia ao relembrar da serpente erguida por Moises no deserto. Logo, se era isso que ele queria, para que eu me meter com isso?

No se trata de coelhos, se trata de um cordeiro. Não se trata de chocolate e sim de sangue. E não se trata de muita vida e sim de morte. Paulo escrevendo aos corintios faz a mesma menção na ceia (que lembremos: Jesus celebrou a sua última ceia justamente durante a pascoa) ao dizer: “Todas as vezes que beberdes deste calice… a morte do Senhor anunciais até que ele venha”. E ele mesmo quando no inicio da carta diz qual era sua mensagem fala: “anunciar a Cristo, e este crucificado”

Sim, claro que sei que a vitória na cruz é essencial à fé cristã; mas isso é no domingo.  Sexta e sábado celebramos – sim, celebramos – a morte de Jesus. Ao final das contas é por conta desta morte que você e eu não temos que pagar pelos nossos próprios pecados.

Então, para que sujar uma mensagem tão especial com ideias vindas do paganismo? Para que prostituir a mensagem? Para que desvirtuar o que é grandioso? Eu lhe direi: Para não sermos engolidos pela concorrência. Tudo tem se transformado numa luta imbecil por números. Não há mais vida. Apenas os números importam. Pastores jovens são massacrados e trucidados apenas por esta simples e diabólica ideia: Sua igreja precisa ser grande.

Paremos de brincar com fogo. Abandonemos de forma prática essa afronta. Passemos para a minoria, façamos eco da nossa eleição em Cristo. E paremos de ensinar aos nossos filhos e netos que está bem se prostituir nas ideias contanto “mais alguém seja alcançado”. Ninguém alcança ninguém, apenas o Espirito Santo convence de pecado, justiça e juízo. Sem isso, nada feito.

Qual é a importância da Escola Bíblica

Em uma simples palavra: nenhuma

A escola bíblica é um daqueles projetos que são bons na origem mas quando se institucionalizam esmagam os que dele se utilizam.

Ela tem se prestado, por exemplo, para medir o grau de espiritualidade ou maturidade dos membros de uma igreja, tem servido para empoderar fracos e sustentar orgulhosos. Mas não poderíamos falar isso de qualquer outro projeto de uma igreja local?

O projeto em sua origem é bom: ensinar às crianças analfabetas da Inglaterra não apenas  a ler e escrever, mas também a ter uma vida social melhor ajustada (se bem que os desajustados – ao meu ver – era a população adulta que tinha esquecido de zelar pelos menores). Este modelo se estandardizou e se propagou por toda Europa e depois pelos Estados Unidos e foi absorvido pelas igrejas de liturgia livre e as de liturgia rígida. (Ou igrejas históricas ou não históricas, como queira chama-las). Em resumo, virou moda.

Rios de dinheiro tem sidos investidos em manter este projeto funcionando e não são poucas as pessoas que tem dedicado a vida ao mesmo. Então o que está errado?

Bom, achar que isso é igreja. Ou seja, é o mesmo que está errado com os cultos de domingo ou com as reuniões nas casas ou os jantares ou as campanhas de evangelização ou o encaminhamento formal de missionários.  Nada disso vale absolutamente nada quando nos evita de olhar para dentro de nós e ver nossa própria carência do Cristo resurreto no âmago das nossas vidas.

A estas alturas, você deve de se estar perguntando, “então, por que razão você insiste tanto na escola bíblica?. Por que não melhor fecha essa matraca e nos deixa quietos na nossa zona de conforto?”

Bem, meu querido, junte-se a nós para saber a razão. Brincadeira, basicamente é o seguinte: A Escola Bíblica (assim como qualquer outro projeto) carece de importância em si mesma. Ela é importante apenas para conectar vivências disseminando a identidade da igreja local. Sim, você leu certinho, eu assumo formalmente que a identidade de uma igreja local é construida a partir do pensar, sofrer e viver juntos. E tem mais: mais cedo ou mais tarde, se o caminho está sendo bem trilhado, esta identidade local nos deve levar – como grupo e não apenas como soma de indivíduos – à nova identidade que temos em Cristo e isso é responsabilidade de cada geração até que ele volte.

Então, chame seu encontro para ler a Bíblia e descobrir o Cristo (João 5:39-40) por qualquer e faça-o em qualquer dia, mas se não é para conhecer mais Jesus, não faça nada. Estará perdendo seu tempo enganando a si mesmo e tentando enganar aos outros.

Beijo grande no coração

Jesus e a Igreja

Evangelho de João

Jesus e a Igreja

João 13:1-17:26

    1. Introdução

A maior parte do tempo confundimos local de reunião com igreja e instituição eclesiâstica com igreja. É claro que não vejo problemas em utilizar os termos de forma intercambiavel quando vamos explicar para um cidadão aonde estamos indo ou o que é que faz esse grupo de pessoas em um local. Ou seja, você não vai dizer para seu vizinho leigo que está indo para o “local de reunião” ou coisa assim. Você está indo para a igreja, oras.

Me refiro ao que realmente acreditamos ser a igreja. Se bem igreja significa simplesmente assemblêia, ou – literalmente – chamados para fora, o relacionamento entre fé e igreja é indisolúvel. A prova mais simples disso é a que encontramos em Mateus 16:13-20. Na confissão de Pedro há várias coisas contidas: 1) é uma revelação dada por Deus. 2) é uma declaração de fé distinta em essência do que o povo pensava sobre o próprio Cristo (“Tu és o Cristo o filho do Deus vivo”). 3) É sobre essa fé que Jesus construiria sua igreja.

Esse resumo, não destoa nem um pouco com o que encontramos em João 13:1-17:26. É uma passagem extensa, mas há uma unicidade no texto inteiro. Ou seja, o trecho tanto como assunto e como evento forma uma unidade que – nas suas nuances – enriquece o panorama geral.

Os dois grandes assuntos que se repetem en cada parte deste extenso bloco podemos ressumi-los assim: Jesus está se preparando para voltar ao Pai, a fé em ser Jesus enviado pelo pai é essencial para fazer parte deste grupo. A palavra “igreja” não aparece no trecho escolhido assim como não aparece a palavra “trindade” em lugar nenhum da Biblia; porém, ao avançarmos pelo texto observamos que é da igreja (e da trindade) que o texto trata.

    1. Estrutura

Diferentemente dos outros blocos, as reações externas são inexistentes neste. Isso se deve ao fato de estarmos nos adentrando a um momento particular na vida de Jesus e unicamente seus discípulos.

Outra coisa distinta é que o bloco é composto quase que unicamente de discursos e orações de Jesus. Por conta disso, os dialogos ficam reduzidos a uns poucos parágrafos mas que são essenciais para o desenvolvimento do texto.

O capítulo 13 é distinto de tudo o que Jesus já fez no resto do evangelho. Faltava uma ilustração clara de que o Mestre e Senhor veio para servir e que era isso que esperava dos seus discípulos. Esta atitude dos primeiros 17 versículos do capítulo 13, tem ecos no restante do bloco, em particular quando pensamos na ideia de identidade. Ou seja, quem é o Cristo? Qual a sua relação com o Criador? O que é que ele espera dos seus discípulos? Por que?

    1. O paradigma da identidade

Não há resposta cabível para todas essas perguntas sem a resposta que o próprio Jesus dá ao dizer “Quem me vê, vê o Pai (14:9)” e “Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (13:34b,35) e “… Se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês lavei-lhes os pés, vocês devem lavar os pés uns dos outros” (13:14) e também “Como o Pai me amou, assim eu os ameu; permaneçam no meu amor. Sevocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como teno obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço” (15:9,10) e não poderia faltar “Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem” (13:17) e “Tenho lhes dito estas palavras para que minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (15:11). Mas há também a identidade com consequências negativas: “Se o mundo os odeia, tanham em mente que antes me odiou. … Se me perseguiram, também perseguirão vocês… Aquele que me odeia, também odeia meu Pai.” (15:18, 20b, 23)

As referências dadas não são exaustivas porém nos permite vislumbrar uma harmonia fantástica no bloco. Mas veja o diálogo entre Jesus e Tomé em 14:5-14 sobre a equivalencia entre Jesue e o Pai ou o 14:15ss em que Jesus fala de enviar o Espirito quando voltar ao Pai, mas diz logo no 18: “Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês” com o que fica claro que há uma identidade entre Pai, Jesus e o Espirito.

Em resumo, há uma relação de identidade entre Deus Pai, Jesus e os seus discípulos. Seguindo a leitura do texto, vemos que essa identidade é extensiva ao Espirito Santo: João 16:14-15. Esta relação de identidade é tão estreita que conhecer um, implica em conhecer os outros e rejeitar um é rejeitar os outros. Não é à toa que Paulo em II Cor.5:17 fala que estar em Cristo é pertencer a uma nova ordem, a uma nova criação que não pertence a este mundo por mais que esteja nele.

E tem mais, estar identificado com Cristo é estar identificado com o Espirito e sua obra como está relatado em 15:26-27. Todavía o texto mais claro quanto à identidade, está em 17:22 “Dei-lhes a glória que me deste, parq que eles sejam um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste”

    1. A essencialidade da fé na encarnação

Veja os seguintes versículos: 13:3, 14:4-5, 17:27, 17:8b, 17:25. O que vincula todos eles? O fato de ser Jesus enviado pelo Pai. Para muitos basta com ter uma fé… qualquer tipo de fé, em praticamente qualquer coisa por mais aberrante que seja para que consideremos aquela pessoa como nosso irmão ou irmã.

Se bem somos irmãos como raça e devemos amor, carinho, respeito, cuidado e genuino interesse por cada ser criado, não devemos misturar as coisas e achar que qualquer um é nosso irmão eterno. Jesus faz uma distinção clara nisto ao dizer “Não estou rogando pelo mundo, mas por aqueles que me deste, pois são teus” (’17:9b) Ou, se fica mais claro, João 1:12-13 “Contudo, aos que o recebera, aos que creram no seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus

Essa fé em que o Cristo é vindo do Pai, cumpre sua missão e volta para o Pai é essencial à igreja. Dito em outras palavras: quando não há fé nesse fato, estamos na presença de outra coisa e não da igreja pois a essência da igreja é a fé no fato do Cristo ser exatamente quem ele disse ser.

Por extensão, qualquer pregação que promova uma imagem de Cristo diferente desta, não é uma pregação cristã, já que para ser cristão, é nescessário justamente a fé no Cristo – isto é – no enviado.

Por se fosse pouco, é impossível ao ser humano natural entender, aceitar e muito menos se identificar com o Cristo sem a intervenção do alto. João 16:7-11 é muito forte para silencia-lo com achismos secundários: “… é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselhieiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juizo. Do pecado, porque os homens não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; e do juizo, porque o principe deste mundo já está condenado

Me interessa enfatizar neste ponto o convencimento do pecado. O pecado aqui é não crer em Cristo. No contexto em que encontramos este trecho, não se trata de uma crença histórica, isto é, não se trata de crer que existiu um homem na galileia chamado Jesus que fez milagres e foi morto. Nem se trata sequer de crer que ele ressucitou já que para os primeiros leitores do evangelho isso não era novidade ne fato assustador. Crer aqui é depositar a fé na encarnação do Cristo. Isso é essencial e não vem por mérito ou esforço humano, mas sim pela intervenção sobrenatural do Espirito Santo na criação.

    1. A oração e seus frutos

A igreja – e não o individuo – é atendida em suas preces. Convenhamos que isso não é muito ortodoxo que digamos. Temos a impressão que a oração é um lance individual. Porém, se observamos a criação, tudo é pareado. Nada há que exista em si mesmo. Até aquelas plantas que portam seus dois gêneros, tem dois gêneros. Os animais que podem mudar de sexo segundo a ocasião fazem exatamente isso: mudam o sexo ou suas funcionalidades.

O individualismo é um subproduto do pecado. A morte social, isto é, a separação do meu irmão de raça acontece não por outra razão básica do que o pecado original. A igreja é uma nova ordem, uma nova criação. Como tal volta ao paradoxo original da criação do ser humano: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou” Gen 1:27

O que encontramos no bloco? Bom várias referências a que a oração será atendida, só que sempre vinculada à fé na encarnação do Cristo: 14:13; 15:16; 16:23-24, 26

É em certo sentido, parecido com Mateus 6:33 “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas