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Artigos que falam sobre a vida comum, em sociedade.

Faltam lideres, caramba!

Março 2015 – Visões comparadas sobre Liderança
29-março-2015. Esteban D.Dortta, Pr.

Miqueias, Lucas 10:12

Introdução: Liderança é uma daquelas palavras que não é fácil de ser definida. Ou seja, todos nós achamos que sabemos o que é liderança, líder, liderados, mas na hora de colocar no papel, esbarramos com um monte de conceitos que não sempre representam aquilo que o nosso próximo pensa sobre o assunto. Por exemplo, alguns definem liderança como “a arte de comandar pessoas, atraindo seguidores e influenciando de forma positiva mentalidades e comportamentos.” outros ficam com uma tentativa de expressão tão sucinta e reduzida que se limitam a enumerar sinônimos como o dicionario priberam: “Comando, direção, hegemonia” e também há quem diga que liderança “É a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum.

Independente da definição que adotemos, mais ou menos todos nós entendemos que um líder é quem leva outros para um objetivo, independente de se o objetivo é bom ou ruim. Pelo fim obtido (que não necessariamente é o fim expresso pelo líder) pode se determinar se um líder é bom ou não. Assim, podemos citar Martin Luther King que reuniu milhares de pessoas numa manifestação pelo fim do preconceito e a discriminação racial pronunciando um dos discursos mais conhecidos da história recente: Eu tenho um sonho. Ou Mahatma Gahandi por exemplo que incorporou os princípios da revolução pacífica promovendo grandes mudanças não só na india como na Inglaterra, a commonwealth e por extensão o mundo todo.

O que você me diria de uma pessoa que reverteu os efeitos de uma guerra devastadora no seu país associados a um grande declínio financeiro mundial, acabando com o desemprego, elevando o PIB em 22%, desenvolvendo a industria e malha viária a patamares nunca vistos; tudo isso em quase quatro anos e sem inflação?

Este homem não só eliminou o emprego (cumprindo assim suas promessas de campanha) senão que manteve o homem do campo no campo – em tempos em que a ideia era exatamente a contraria – e aumentou a produção industrial a níveis tão por cima do padrão que ao final de quatro anos de mandato havia falta de mão de obra. Os efeitos destes quatro anos foram tão bem solidificados que 10 anos depois da subida dele ao poder, o ganho médio do trabalhador havia aumentado em 15% isso sem levar em conta a melhoras na paga por hora extra.

Fora as melhoras financeiras, ele trouxe para seu povo uma melhora generalizada na qualidade de vida promovendo a mobilidade social expandindo grandemente programas de treinamento vocacional e oferecendo incentivos generosos para um maior avanço de trabalhadores qualificados. Não só a paga melhorou, como notáveis melhorias nas condições de trabalho, na saúde, segurança, investimento nos esportes, nas artes em geral e turismo.

(http://inacreditavel.com.br/wp/como-hitler-enfrentou-o-desemprego/)

Já sabe de quem estamos falando?

Isso tudo pavimentou o caminho para que a Alemanha nazista de Adolf Hitler nos levasse a uma das maiores catástrofes mundiais da que se tem memória em que uma das nações mais cultas e – por conta das melhorias antes mencionadas – mais ricas e bem abastadas no final dos anos 1930 se achasse no livre direito de pisar a liberdade alheia.

Quero ilustrar com isto que há lideres em tudo quanto é lugar com os mais variados propósitos e com os mais diversos resultados. Pessoas cultas de dentro e fora da Alemanha se deixaram seduzir por um líder encantador que evocava sonhos de grandeza ao passo que não escondia seus pontos de vista que por sua vez achavam eco no povo germânico. É por isso que nesse caso bem claro da história, lideres e liderados são responsáveis pelas suas escolhas e o resultado dos seus atos.

Há na nossa sociedade uma visão distorcida de que uma liderança só é boa se produz bons, volumosos e visíveis resultados imediatos. Por outro lado, e como contrapartida, vejo que para muitas pessoas não interessa muito se os meios são estranhos ou pouco claros contanto o fim perseguido seja louvável. Isso se aplica tanto à vida social, politica, eclesiástica, empresarial. Como se isso fosse pouco, levamos como sociedade a separação entre vida civil e vida espiritual tão longe que não entendemos por que algumas coisas simplesmente não funcionam.

Se (e preciso frisar esse ‘Se’) Se e tão somente se, acreditamos no que Jesus acredita sobre a Igreja de que é sal e luz para a sociedade, precisamos voltar às bases para trilharmos um caminho diferente.

Proponho então uma leitura rápida do livro de Miqueias. Ele inicia falando de tres reis: Jotão, Acaz e Eszequias:

I) Três Reis, Três sociedades

Estamos na época do reino dividido. Dez tribos ao norte (Israel) e duas ao sul (Judá). Há três reis de Judá que Miqueias menciona: Jotão, Acaz e Ezequias. Ver de uma só vez a vida desses três lideres me parece de suma importância, já que há uma relação direta entre a vida pessoal do líder e as consequências no seu reinado.

A) Jotão. (2Cro.27; 2Reis 15:32-38) Em 777 A.C. ele herda um reino sobre trilhos. Uzias, seu pai, tinha conseguido uma expansão territorial, econômica, cultural e religiosa como nunca antes se tinha visto no reino do sul. Pode se dizer que havia paz e estabilidade. Seu reino havia durado 52 anos e é quando ele morre que Isaias 6:1 recolhe a frase “O ano em que morreu o rei Uzias” como inicio de um lamento pelas dúvidas sobre o futuro da nação … Enfim, Jotão herdou um reino estabilizado. Ele construiu algumas cidades, fortes, torres e reconstruiu a porta norte do tempo de Salomão. As duas frases que mais me chamam a atenção do reinado dele são as seguintes: “Ele fez tudo o que o SENHOR aprova, tal como seu pai, mas ao contrário deste, não entrou no templo do SENHOR” e “O povo, contudo, prosseguiu em suas práticas corruptas”. Claro, para os amantes das frases formulísticas tem a clássica: “Jotão tornou-se cada vez mais poderoso, pois andava firmemente segundo a vontade do SENHOR, o seu Deus

B) Acaz. (2Cro.28; 2Reis 16). Filho de Jotão e neto de Uzias, herda um reino de paz estável (52 anos de Uzias mais 16 anos de Jotão) mas não aprendeu nem com o pai nem com o avô nem com o seu antepassado Davi a servir o Senhor. Durante os dezesseis anos que durou seu reinado só fez tolice.

O texto bíblico registra que “Ao contrário de Davi, seu predecessor, não fez o que o Senhor aprova. Ele andou nos caminhos dos reis de Israel e fez ídolos de metal para adorar os baalins. Queimou sacrifícios no vale de Ben-Hinom e chegou até a queimar seus filhos em sacrifício, imitando os costumes detestáveis das nações que o Senhor havia expulsado de diante dos israelitas. Também ofereceu sacrifícios e queimou incenso nos altares idólatras, no alto das colinas e debaixo de toda árvore frondosa” (2Cro.28:1-4) A insensatez de Acaz, trouxe o abandono por parte de Deus. Parece que enquanto a liderança ainda buscava ao Senhor, ele ainda permanecia perto. Mas quando mais ninguém quer estar com Deus, ele também abandona seu próprio povo: “Por isso o Senhor, o seu Deus, entregou-o nas mãos do rei da Síria. Os arameus o derrotaram, fizeram muitos prisioneiros entre o seu povo e os levaram para Damasco. Israel também lhe infligiu grande derrota.” (2Cro.28:5). Voltarei sobre isso sobre o final desta explanação.

As coisas poderiam ter parado por ai, mas “Acaz apanhou algumas coisas do templo do Senhor, do palácio real e dos líderes e ofereceu-as ao rei da Assíria, mas isso não adiantou. Mesmo nessa época em que passou por tantas dificuldades, o rei Acaz tornou-se ainda mais infiel ao Senhor.” (2Cro.28:21-22) Ler 2Reis 16:10-12 (Construção de um altar em substituição ao que o Senhor tinha instruído a construir)

C) Ezequias. Filho de Acaz, Neto de Jotão. Ele herda um reino devastado pela guerra que o inconsequente do seu pai tinha provocado com seu pecado. Obviamente que não era o filho mais velho de Acaz pois esse tinha sido queimado em sacrifício a um deus pagão. Provavelmente tinha conhecido seu avô Jotão. Dele assim como do seu avô temos o nome da mãe o que me faz supor que haviam mulheres sábias e prudentes por trás destes grandes homens.

O resumo da vida de Ezequias é simples: “Ele fez o que o Senhor aprova, tal como tinha feito Davi, seu predecessor.” (2Cro.29:2) Diferentemente do seu avô Jotão, não há um “porém” depois do resumo.

Era o que chamaríamos hoje de um líder pró-ativo. “No primeiro mês do primeiro ano de seu reinado, ele reabriu as portas do templo do Senhor e as consertou. Convocou os sacerdotes e os levitas, reuniu-os na praça que fica no lado leste e disse: “Escutem-me, levitas! Consagrem-se agora e consagrem o templo do Senhor, o Deus dos seus antepassados. Retirem tudo o que é impuro do santuário. Nossos pais foram infiéis; fizeram o que o Senhor, o nosso Deus, reprova e o abandonaram. Desviaram o rosto do local da habitação do Senhor e deram-lhe as costas …” (2Cro. 29:3-6)

Ele se destaca porque não só promove a reinstituição da páscoa como também procura a comunhão com o resto da casa de Israel. O texto está cheio de ricos detalhes que nos provocam à ousadia e à liberalidade espiritual.

No mais amplo sentido teológico da palavra eleição, estes três faziam parte da escolha que Deus tinha feito em Davi. Os três são da casa real de Davi e herdeiros diretos da promessa dada a ele em que não ia faltar herdeiro seu que ocupasse o trono. Menciono isto porque no contexto de liderança em que estamos falando, é esta ( a liderança ) o último bastião. O povo com facilidade ia atrás dos deuses da própria terra. Se deixavam seduzir e se vendiam por qualquer coisa. Caída a liderança, não restava mais nada. Porém, como mencionei, voltarei sobre isto sobre o final da exposição.

Vale por enquanto dizer que há um relacionamento íntimo entre liderança e liderados que se aplica às democracias, regimes autoritários, igrejas, ditaduras, família, fila de supermercado…

Mas qual é a relação entre liderança e liderados? Quais os princípios que regem esta tensão? Pode existir uma liderança extremamente saudável em um povo completamente corrupto? Há liderados emocionalmente e/ou espiritualmente doentes que possam escolher uma liderança justa, compassiva, ética?

II) A decadência dos lideres denuncia a falência moral e espiritual dos liderados.

A) Tem um refrão espanhol que diz: “A falta de pan buenas son las tortas

(http://cvc.cervantes.es/lengua/refranero/ficha.aspx?Par=58064&Lng=0)

Que poderíamos traduzir assim: “Na ausência de pão, a gente se contenta com bolo de fubá”

Temos a tendência social de nos contentar com lideres de pouca monta. Na realidade, parece que é uma tendência da nossa cultura, procurar alguém que saibamos (ou suspeitemos) que tem o teto de vidro, comprometidos, corruptos ou que ainda está sendo processados pela justiça. Me parece que dessa forma, talvez inconscientemente imaginamos que ele não nos pode cobrar coisa nenhuma. Desse jeito, enquanto uns fazem de conta que lideram, outros se fazem de liderados e juntos acabam com a nação, a escola, a família, a igreja, o que for …

B) Por outro lado e como uma certa consequência do exposto no ponto anterior, os candidatos a serem líderes também vêm em apresentações de moral cada vez mais rala, com passados cada vez mais pesados e a roubalheira (monetária, moral, espiritual) se torna cada vez pior. Não que não hajam líderes sadios mas tal vez por conta dessa saúde, não lhes convida sujar-se com esta ou tal outra situação. Por conta disso, quem é bom, não entra no jogo e quem é mais ou menos acaba por se enredar no jogo da vida. Isso se aplica à vida política, às grandes igrejas como instituições, ao moço que gostaria de estabelecer uma relação com a “filha de fulano” mas que a falta de índole da família vai lhe comprometer a prole e por ai vai…

C) O resultado do relacionamento conspícuo entre um liderado que não quer escolher um líder mais elevado por medo a ser cobrado e um líder que não tem como oferecer coisa melhor porque corre o risco de não ser escolhido, temos um povo que não tem mais senso de destino nem desejo integro de melhora. Quando fala, o liderado aparenta que quer uma certa coisa boa, mas como este discurso é vazio de poder (por se encontrar ancorado em uma vida imprópria e terrena e não nos valores eternos do reino) só consegue se queixar e murmurar. É por isso que na hora do vamos ver, escolhe deputado desonesto, pastor cafajeste, juiz sem-vergonha, marido promiscuo, mulher mentirosa.

D) Aos poucos e quase sem perceber, as sociedades vão se corrompendo. É que nem a história do sapo: quando colocado em uma panela com água quente, ele pula na hora, mas se colocado em uma panela com água à temperatura ambiente e o fogo é acesso, ele morre escaldado sem perceber. Vamos para o bueiro de pouco em pouco cantando vitória, fazendo de conta que reclamamos e dizendo “Está tudo bem, o que é que tem? Todo o mundo rouba, porque eu não?”.

O que fazer então? Como sonhar com uma família melhor, uma igreja mais ousada, um estado mais transparente uma vida mais saudável se esta tensão parece não de desfazer? Lá se vão 20, 40, 60, 80 anos de história recente conhecida de forma direta e indireta pelo nosso povo, mas é sempre a mesma coisa. Tem jeito de melhorar?

III) Assim como a liderança se perde aos poucos, também ela se constrói aos poucos.

A) Sou portador de más notícias: Não há soluções mágicas nem rápidas. Acho que todos nós, em especial o povo evangélico, gostaria de solucionar isso com uma oração de domingo à noite. Uma “oração forte” como o povo costuma dizer. Como muito com uma campanha ou um jejum de 39 dias, uma ida ao monte, enfim, uma solução mágica. Terceirizar a responsabilidade é mais do mesmo. Ou seja, se acreditamos piamente que por orar as coisas vão melhorar e oramos, já cumprimos e “nossa parte”, logo – se as coisas não funcionam – a culpa é da “outra parte”, ou seja, de Deus.

B) Estamos onde estamos por causa das nossas decisões. Temos o conjugue que temos por conta das nossas decisões. Estamos na igreja que estamos e temos o pastor que temos, por conta dos nossos desejos supridos. Usufruímos do presidente, governador, senadores, deputados e juízes que temos, por conta dos nossos silêncios, palavras, atitudes, faltas de atitudes, votos ou não votos da nossa prática democrática que começa na mesa de casa com nossos filhos, amigos e parentes.

C) Não podemos almejar coisas melhores se o discurso é infernal. Ou seja, se falamos uma coisa e fazemos outra. Se escrevemos com a mão e apagamos com o cotovelo. Assim como o melhor conselho para ir à luta é saber não só o tamanho, as habilidades o poder e a disposição de guerra do inimigo, como também conhecer a si mesmo; é mister que reconheçamos o papo infernal quando sai da nossa boca. Papo infernal, é aquele que não é uma posição de fé, de expressão de coisas a serem construídas, de reconhecimento das limitações circunstanciais ou existenciais. O papo infernal é aquele queixume constante sobre a situação sem nada contribuir para a construção do novo. O papo infernal, é o que desconhece o poder do Cristo para construir – a partir da palavra dita – coisas novas. O papo infernal, é aquele treinamento neurolinguístico ao que submetemos nossos filhos, membros de igreja, correligionários de partido político, colegas de serviço e sócios desconstruindo sistematicamente com palavras as ânsias de vida que brotam de qualquer ser criado à imagem e semelhança de Deus garantindo assim que a próxima geração encontrará maiores dificuldades que as nossas perante os mesmos problemas.

D) Se um líder nasce ou se faz não sei. Se é uma arte ou uma ciência, também não sei. Só sei que líderes não brotam do nada nem florescem no vácuo. Esperar por uma solução mágica ou imediata para a desgraça espiritual e a decadência moral é um processo abortivo de resultados garantidos. É – como diz o bolero – “ter perdido o medo à dor, é lutar contra nada na manhã”. A teologia triunfalista não se distingue do pensamento positivo pois ambas duas acham que a partir da minha atitude pessoal as coisas mudam. O certo é que a palavra do Senhor quando pronunciada por sua Assembleia coloca ordem na criação. Ou seja, a identificação do ser humano com a verdade eterna do Deus vivo nos seus pensamentos, conduta, desejos, ações, torna viva e palpável a palavra do criador e por conta disso a ordem entra no caos. A paz é disseminada. A transparência é vista como coisa boa e em resumo, o Reino de Deus interfere na terra que jaz no maligno.

Isso quer dizer que na hora em que falamos com nossos filhos, conjugues, colegas, correligionários e utilizamos essa bagagem espiritual de forma espontânea, nos transformamos em construidores da nova realidade divina.

Assim como a pergunta do soldado para Paulo e Silas ecoa pela história dizendo “Que devo fazer para ser salvo?” assim deve estar fervilhando em seu coração hoje “Que posso fazer pela nossa situação?”

IV) A Igreja presença salvadora de Deus em cada canto.

Novamente, não há soluções mágicas nem rezas miraculosas. A única a ser feita, é o plano original de Deus: que a palavra dele saia e se espalhe pela sociedade.

A) Repare na vida de Odede: 2Cro.28:9-11. Ele estava no lado ruim da história. Sua nação (Israel) tinha se convertido à idolatria. Desde o rei até o mais simples dos súditos estavam entregues a qualquer forma de idolatria e não se importavam em servir a Deus. Quando Peca, rei de Israel vá lutar contra Acaz, rei de Judá, e o vence trazendo 200.000 prisioneiros, é Odede que se interpõe. Com que o faz? Lanças? Espadas? Monta algum tipo de protesto público? Faz uma paralisação? Não. Mesmo sendo esses mecanismos que dependendo da situação podem e devem ser usados, Odede conhecia outra ferramenta: A palavra de Deus dita. Humanamente ele estava fazendo a coisa errada na hora errada no local errado.

B) Assim como Igreja não são as quatro paredes do local de reunião, falar a palavra de Deus não é ficar recitando o pai nosso ou os salmos ou os provérbios dia após dia tornando-se um chato social. Odede pôde falar as palavras que eram necessárias, por estar vendo a realidade desde um outro ponto de vista; por estar em harmonia com o principio criador (ou anti caos) de Deus. Falar a palavra de Deus é mais uma vida em prol dos princípios de Deus que ter uma conduta intachável dentro desses princípios. É mais uma luta constante por exaltar a ordem de Deus contraria ao caos circundante – que é louvado pela esmagadora maioria da sociedade em que se vive – do que ser exemplo constante de ordem e estabilidade. Falar a palavra de Deus é imitar Cristo quando somos humilhados permanecendo de bico fechado contra as injustiças que nos são feitas não retribuindo mal por mal. Falar a palavra de Deus é manter a esperança firme em que em algum momento, o Deus de ordem e paz se fará presente e mesmo no meio do caos ou a partir do mesmo promoverá uma nova criação.

C) Ajudamos a nossa igreja, a nossa família, a nossa sociedade, o nosso bairro e o nosso país a ter melhores líderes, na medida em que assumimos nosso papel de liderança em cada posto que ocupamos. Não imagine que a sociedade não nos vê. Ela sim nos vê e nos julga. Talvez por isso é que nos tenhamos mimetizado tanto nos últimos anos ao ponto tal que não mais nos parecemos com nada. Estamos tão camuflados, tão misturados, tão superficiais, tão irreverentes, tão desgraçados que em nada mais nos distinguimos do mundo. A pregação do mundo entra e avassala a igreja com uma facilidade tremenda. Com inaudita facilidade temos abandonado nosso posto, preferindo o vento da aceitação pública. Temos vendido nossa primogenitura a troco de bananas e a maior parte dos nossos jovens, adolescentes e crianças não sabem mais nem sequer o básico da vida cristã.

D) Temos acreditado no discurso preparado no colo do Diabo que diz que você não pode falar nada nem criticar nada pois antes têm que ter uma vida imaculada. Há duas coisas a dizer sobre isto: 1) A critica tem que estar baseada na palavra cheia de autoridade do Senhor que é criador e chama as coisas que não são como se já fossem e 2) Ninguém pode ter uma vida imaculada e se a tivesse, Cristo seria desnecessário. É por isso que as palavras de Miqueias ao respeito do seu novo reino se tornam relevantes demais: “Farei dos que tropeçam um remanescente e dos dispersos, uma nação forte. O Senhor reinará sobre eles no monte Sião, daquele dia em diante e para sempre” (Miq. 4:7)

E) Não se trata então de nos trancafiarmos num templo durante duas horas por semana para cantarolar algumas músicas, ler um texto sagrado e esperar que alguém nos diga alguma coisa que nos incentive para enfrentar a segunda feira, o cônjuge, o serviço ou a morte. Nem também sermos os chatos incorrigíveis que só falam de Bíblia e não sabem nada sobre a operação lava-jato, o próximo rebaixamento do Corinthians (ou alguém tem dúvidas sobre isso) ou a misteriosa manutenção do preço da gasolina quando o barril do petróleo caiu para menos da metade do valor em poucas semanas no mundo afora. Trata-se então, de experimentar o Deus vivo no aeroporto, no shopping, na praça, no serviço, na intimidade com a família ou num Show de Maria Bethania e ai, como chuva calma, como o suave orvalho matutino, ir derramando da paz e da ordem que nem sequer nossas são e sim do criador.

Conclusão: Nossa sociedade está carente de boa liderança. Estamos indo para o bueiro moral e espiritual a passos largos. Não sou um daqueles saudosistas que pensa que todo tempo passado foi melhor. Também não sou um neurótico que constrói castelos no ar imaginando que arrebentar tudo e construir uma nova sociedade sem nada do antigo seria o ideal. Muito menos sou um psicótico para morar dentro deste castelo isolando-me da realidade que nos golpeia dia após dia por diferentes meios

Apenas me considero um cristão critico que vê que a mesma sequência de eventos se repetem ao longo do devenir histórico de várias sociedades e entendo que cabe à nossa geração pronunciar as palavras e tomar as atitudes (assim, nessa ordem: palavras seguidas de atitudes) que promovam o reino de justiça, fidelidade e humildade que o Senhor está construindo já e agora. Entendo também que nos cabe instruir à seguinte geração neste mesmo intuito da mesma forma em que Adão e Eva instruíram a Caim, Abel e Sete e na mesma forma em que o povo foi instruído (Deut. 6:6-7) a repetir “a palavra” aos filhos. Não que isso nos garanta que os filhos vão conseguir ou querer seguir a trilha deixada, mas sim enfatizar que é essa nossa responsabilidade.

No meu entender, só assim podemos a longo prazo ter esperança de lideres mais sábios e mais sujeitos à palavra de Deus dentro e fora da Igreja de Cristo.

Concluo pois relembrando o que o Senhor opina sobre a seara e os obreiros. Sobre a coisa a ser feita e quem a faz. Sobre o Rei, o reino e seus príncipes:

A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da plantação que mande obreiros para fazerem a colheita.“ Lucas 10:2

Faltam lideres, caramba! by Igreja Pequena on Mixcloud

REFORMA PROTESTANTE – 497 ANOS

2Lendo alguns biógrafos que relatam o período da Reforma, começamos dizendo que somos “frutos” (espiritual/intelectual) daquilo que denominamos REFORMA PROTESTANTE. Abraçamos suas ideias (não todas) e as entendemos que essas se deram como um marco na história da igreja. Marco tal que desembocou em inúmeras micro reformas até os dias de hoje.

A Reforma Protestante deve seu legado histórico à iniciativa de Martin Lutero e suas noventa e cinco teses estacadas na porta de sua capela no dia 31 de outubro de 1517 – início de um protesto contra as indulgências que prometiam ao povo uma garantia de pecados perdoados antes mesmo que fossem cometidos. Praticamente um comércio salvífico não escriturístico; um meio ilegal para arrecadação de dinheiro usando um discurso de ameaças infernais e cravando sobre o povo um regime de obras, tudo pelas mãos de ferro da igreja imperante.

Mas Lutero ousou ser um mensageiro de Cristo. Sua vida como um todo e seus estudos o levaram profundamente a querer entender o Novo Testamento. É a partir de sua trajetória que hoje temos consciência dos pilares da reforma: Sola Scriptura; Solus Christus; Sola Gratia; Sola Fide; Soli Deo Gloria. Essas numa tentativa de retornar a Bíblia como fonte da revelação divina e prática dos homens.

Não quero aqui biografar acontecimentos passados, quero apenas elencar rapidamente o que esses pilares deveriam ser para nós cristãos pós-modernos, nós que sobrevivemos às mudanças, perspectivas e paradigmas do séc. XX e nos erguemos por meio do engajado evangelicalismo da década de 70. Minha pergunta é: Como devemos, em nosso atual contexto, refletir esses pontos enaltecidos pela Reforma? Respondo desde já que nossa resposta deve ser bíblica. Quero aqui elencar apenas três desses pilares.

Sola Scriptura – Quem já leu sobre o movimento iluminista e pós-iluminista sabe que um grande embate se formou em torno dos dogmas (autoridade) e doutrinas da igreja romana e reformada. Sabe-se que a busca das tradições humanas sobrepujou as Escrituras enquanto palavra de Deus escrita aos homens.

Quase dois séculos antes, Lutero se levantou arguindo contra a igreja católica romana no princípio contrário, ou seja, em outras palavras, Lutero queria uma verificação nas Escrituras daquilo que a Igreja estava realizando e prometendo. Ele exigiu uma volta as Escrituras Sagradas. Enquanto o séc. XX, fonte de todo desaguar dos séculos anteriores, exigiu o descrédito da Bíblia em prol das ciências naturais, o período da Reforma elevou-a ao topo de todo conhecimento e razão para o ser humano.

Portanto, quando falamos de Sola Scriptura, falamos da volta ao texto e seu contexto macro, o que pressupõe a fuga de todas as abstrações do texto real. Nada nela, nenhuma sílaba deve ser alterada para especulações e por tradições dos homens (aqui admito que todos nós vamos ao texto debaixo de tradições e pré-conceitos; o importante é sempre voltarmos ao texto antes de validarmos nossa razão e abstração) . Tudo nela deve ser levado em consideração; todos os etas (e, gr.), ou seja, cada partícula conectiva entre um versículo e outro, cada argumento e contra argumento, cada til de toda Escritura deve ser levado a sério. O apelo ao todo das Escrituras, tudo o que a compõe e seu contexto, devem ter primazia quando houver tradução e interpretação.

Sola Scriptura nos leva, consequentemente, ao Solus Christus.

Solus Christus – O evangelho, enquanto mensagem de boas notícias, vem nos revelar que somente Jesus é o Senhor universal. Essa é a verdadeira intenção desse slogan. A Reforma trouxe sobre esse ponto a denuncia aos mediadores que estavam sendo postos, potencialmente, no nível de Jesus Cristo. Um exemplo: Os santos ou os ossos dos santos eram venerados e, também, um meio de obter indulgências. Para esse contexto mercadejante, Lutero combateu acertadamente utilizando princípios do corpus paulino. Isso não quer dizer (meu ponto de vista) que tenha interpretado corretamente os textos paulinos que utilizou.

Mas, Solus Christus tem a nos dizer que o Jesus de Nazaré se tornou o Messias de Deus e proporcionou a Ele toda glória que a raça humana não lhe deu por direito. Isso quer dizer que esse slogan fala mais sobre uma verdade a respeito do Messias de Deus do que uma verdade sobre você e eu e nossa salvação. Fala, num contexto político, sobre um Rei que é universalmente superior a qualquer rei ou césares posto no trono e, indo além, Ele, Jesus Cristo, detém toda autoridade e poder em relação às autoridades humanas. Para finalizar essa reivindicação, devemos lembrar que ela foi utilizada no primeiro século como o evangelho que era superior ao do imperador romano da época. Isso tem haver com Jesus Kyrios, o Senhor do mundo, maior que todo reino ou império e que está acima de todos.

Outro aspecto do Solus Christus é o ponto em que Deus condenou, na carne de Jesus, todo pecado da humanidade que ofusca sua glória na criação, iniciando por meio de Sua ressurreição uma nova criação pautada no Christus Victor (Cristo vitorioso) – mais utilizado por Paulo do que o Cristo da expiação. Assim, nossa esperança vem da vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte.

Solus Christus nos leva, prioritariamente, ao Soli Deo Gloria.

Soli Deo Gloria – A verdade dessa afirmação é que somente ao Deus YHWH seja toda glória pelos séculos dos séculos, amém. Nada mais pode produzir glória ao Deus de toda criação do que uma humanidade refletindo Sua imagem e semelhança. Por meio de Jesus Cristo (Solus Christus), a humanidade agora pode ser redimida e será no fim das contas. Podemos, com toda certeza, afirmar que Deus é glorificado quando, por meio de Cristo, seu povo lhe rende glória dentre as nações.

A graça e o poder da mensagem do evangelho (Sola Gratia), aliada a fé (Sola Fide) mediante o Espírito Santo (alguns teólogos modernos trabalham o Sola Gratia em conjunto com Solo Spiritu, realidade na literatura paulina), produz uma nova humanidade, àquela desejada desde o gêneses; uma nova humanidade colocada sob um novo pacto/aliança, onde o pecado e o cosmos estão debaixo, uma vez por todas, da autoridade de Deus e seu Cristo. Uma vez que as alianças judaicas culminaram no novo pacto, na pessoa de Jesus, Deus é glorificado por Sua justiça que completa o plano de salvação lidando com o mal no mundo e elevando a humanidade caída a uma criação exaltada.

Desse modo, nessa breve exposição que fizemos acima, retomamos o Sola Scriptura para confessarmos que somente ela pode nos avivar, após a conversão por meio da pregação do evangelho, numa caminhada onde abraçamos as histórias e experiências de fé daquele tempo, povo, e convergimos ao nosso tempo – como fez Lutero – num processo de adaptação e direcionamento das verdades reveladas.

Reavemos o Solus Christus – contido em toda a Escritura – para trazer à memória aquilo que nos traz esperança. Que a história de Jesus de Nazaré, aquele que foi crucificado e ressuscitado dentre os mortos pelo mesmo Deus de Israel que o vindicou como Messias; o Senhor de todas as coisas o qual todo joelho se dobrará e toda língua confessará (judeus e gentios) que Ele é Senhor, que essa história seja para nós conversão (experiência de fé) e vocação (encarnação das obras/sofrimento de Cristo).

Isso porque, produzirá glória a Deus Pai – Soli Deo Gloria – como o grito de desespero de toda a criação que aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus; assim, seremos nesta geração os personagens dessa maravilhosa trama onde Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo já venceram e trouxeram esse vitória para o centro da nossa história.

Odeio política! Mas sou a favor do “direito de todo ser humano ter direito”.

Rafael de CamposGosto de associar alguns temas com imagens. Política é um desses temas. Nessa reflexão nos foi proposto escrever sobre “política e o cristão”. Mas como muitos brasileiros, me identifico com outras questões. No entanto, farei um esforço para debater algumas ideias sobre “direito humano”.

            Vamos iniciar com a imagem da “torre de Babel”. Um povo construindo uma cidade e uma grande torre para alcançar os céus dos céus. Um povo de uma só língua querendo encontrar nas nuvens as prosperidades de suas maquinações. Um povo com o mesmo propósito, o de intentar contra aquele que rege toda a Terra. Um povo querendo concentração de poder, glória e riqueza em suas mãos. Um povo querendo ser onipotente, ajuntados em uma mesma cidade para realizar qualquer desígnio que seu coração proponha. Essas são algumas das imagens que minha mente desenha ao ler a narrativa de Gênesis 11. 1-9. Mas YHWH achou melhor não ser assim; talvez por saber que onde “corações” e “línguas” se reúnem, com mesmas iniciativas, sempre advogam arrogantemente seus desígnios acima dos desígnios de Deus. Confusão e dispersão foram a iniciativa de YHWH.

            Essa realidade não mudou muito de lá para cá. Somos um povo que ainda se reúne para maquinar “boas” intenções, bons cultos, bons projetos, bom governo, boas leis, etc., sempre com objetivos pessoais ou mútuos. Há quem diga que foi de Babel que se formou os povos espalhados sobre a face do planeta Terra. Cada nação, povo e língua. Gente de todas as cores e raças, jeitos e trejeitos, culturas e leis diversas.

            Surge uma pergunta: será que “Babel” não foi o protótipo do que veio a ser as nações? Não sei a resposta para essa pergunta, no entanto, penso que Deus sempre chama a si mesmo para olhar e averiguar os desígnios do ser humano em cada nação espalhada pelo globo. Imagino-o também confundindo e dispersando a humanidade quanto aos seus próprios interesses.

            Deixando a imagem da torre, me identifico com as palavras de Foucault (Microfísica do poder), quando diz que o problema da arte de governar, desde o séc. XVI é no nível do “governo de nós mesmos”, o “governo da conduta das pessoas” e o “governo dos Estados”. Ou seja, como ser governado? Por quem ser governado? Até que ponto? Todos nós desejamos um “futuro governo” cabível às nossas pretensas sugestões do que são ou não propostas a se apoiar ou, se são ou não dignas de serem implantadas em nosso país. Mas entendo que o problema não é sermos apoiados em nossas sugestões ou, até mesmo, apoiar aquele que compartilha com nossas sugestões de um governo justo; e sim que, isso tem haver com um problema de governo intrínseco.

            A imagem de Babel é apenas um exemplo daquilo que entendo, teologicamente, ser a raiz do problema da humanidade: governar a si mesmo após a Queda. Consequentemente, governar as pessoas, uma nação, o que seja o menor desempenho governamental, nunca teremos como resultado o ideal. Podemos falar a mesma língua, termos as mesmas intenções e convicções, sempre teremos confusão e dispersão. A grande tentativa é buscar o melhor diante de todas as opções que buscam o ideal, o bem comum a todos. Digo isso por entender a pluralidade existente em todos os âmbitos e estâncias de uma nação. Isso toca, na minha compreensão, nos direitos que servem – ou deveriam servir – os seres humanos.

            Os direitos humanos propõem um tipo/estilo de vida vivido num ambiente/espaço esperado por todos em virtude, simplesmente, de sua humanidade. Por que somos seres humanos esperamos ser resguardados em nossa condição tal. Isso diz respeito a inúmeros direitos de ordem universal, civil, econômico, etc. (isso olhando para os direitos considerados gerais). Cabe dizer que os direitos de todo ser humano são “guardados” por leis que são tidas justas e receptíveis a todos (cf. Os cristãos e os desafios contemporâneos – John Stott).

            Analisando e seguindo pela linha teológica tradicional e conservadora, refletir direitos humanos é remontar à criação do homem; é se apoiar, historicamente, àquilo que certo “deísta” (Thomas Paine) escreveu: “[…] chegaremos ao tempo em que o homem veio da mão do seu Criador. O que ele era na época? Homem. Homem era o seu elevado e único título e um maior não lhe pode ser dado” (Os cristãos e os desafios contemporâneos). Como criaturas, parte de uma mesma família humana, temos os direitos à humanidade desde o princípio. Não os buscamos, não adquirimos esses direitos; eles estão em nós e nos expressam.

            Voltemos ao governo de nós mesmo proposto pela Queda. A “Queda” de toda humanidade torna o que éramos naquilo que não somos e, consequentemente, passamos a ser “isso” por essência. Vivenciamos a desumanização e suas agregações por milênios. Os direitos que nos pertenciam intrinsicamente, hoje precisamos buscá-los, entendê-los, racionaliza-los, lutarmos e apropria-los ao bem comum.

Não raras exceções, encontramos gente que deseja, pelo bem maior, descobrir um caminho que defenda e abrigue as pessoas, pautados por leis que reagem contra abusos, discriminação, racismo, desumanização etc., priorizando as inter-relações humanas e, de certa forma, demonstrando os limites disso tudo. Entendo que todo crime contra a humanidade transparece as nossas próprias atitudes e limitações egoisticamente desenfreadas. Somos indisciplinados, orgulhosos, avarentos, sedentos por sangue, controladores, invejosos, autodestrutivos, (…), pioneiros do mal contra nós mesmos e, com tudo isso, enaltecemos nossa escabrosa humanidade depravada e rebelde.

            O problema é que sempre impomos ao outro, no mesmo padrão, as deturpações de nossa mente, de nossa “raça humana”. Assim, generalizamos e repassamos, desde sempre, a barbárie como um circulo vicioso sem fim. Parece uma antropologia “supra real” o que escrevi acima, mas isso pode ser visto nas atrocidades descabidas do “ser humano”: genocídios, torturas, perseguições, casamentos de contrato, guerras e assassínios em massa, exploração de crianças, mulheres, idosos e deficientes; roubalheiras sem fim, fome, julgamentos injustos, falta de liberdades e de expressão (religiosa), falta de educação e cuidados básicos de saúde, desmatamentos; isso expondo alguns dos problemas de desumanidade.

            Com isso, não quero dizer que não há esperança para nós. Devemos sempre nos lembrar desse “pano de fundo” que nos assombra e que, por vez, nos acostumamos como sendo normal. Como cristão preciso assumir que existe um jeito certo de lidar com a humanidade e seus direitos. Como cristão preciso, também, olhar para a bondade de um Criador que não nos deixa, a nós mesmos, acabarmos de vez com nossa humanidade. Um Criador que não nos deixa mergulhados no mal. Por isso, sempre haverá gente boa tentando fazer coisas boas. Sempre haverá pessoas movidas pela bondade (graça comum) em prol da humanidade.

            Minha proposta sobre os direitos humanos é sim um olhar e retorno para os preceitos bíblicos. Não como imposição da religião cristã, mas como uma luz, entre muitas sugeridas, em meio aos conflitos e lutas por justiça e por direito. Já há tempos optamos e concordamos com a laicidade; fomos precursores no apoio a um Estado separado da Religião e, é assim que devemos manter. Se assim está fincado, não devemos exigir que “o governo deva impor o cristianismo”; nem também que o “governo exclua a religião cristã” (Cf. Política segundo a Bíblia – Wayne Grudem).

A Bíblia como livro da fé em tono do Cristo é um livro universalmente conhecido, mas não imposto como regra universal. Mas podemos elencar que dela três palavrinhas resumem a cosmovisão acerca do ser humano: “dignidade, igualdade e responsabilidade” (Os cristãos e os desafios contemporâneos). Embasados nelas, devemos garantir uma resposta que se fixe ao compromisso exigido por essas palavras. Lembrando, também, que não podemos fazer dos direitos humanos direitos ilimitados, mas comprometidos com os direitos de todos. Um exemplo é exigir dignidade além da dignidade do outro; ou exigir uma igualdade que infrinja os termos de igualdade do outro. Podemos resumir que “em toda ação que consideramos correto praticar devemos também considerar que essas não infrinjam os próprios direitos humanos que procuramos defender”.

Meu “olhar”, portanto, volta-se a um tratamento responsivo e não inventariado sobre a humanidade que nos é comum. Como tais, todos “compartilhamos da glória e da tragédia de sermos humanos” e, assim, não temos o direito de desumanizar qualquer um que seja imagem de Deus enquanto criaturas.

Há um desconforto entre os cristãos com programas de direitos humanos, especificamente os direitos dos homossexuais. Concordo que esse não é o tema mais importante da pauta de um governante, principalmente quando economia, educação e saúde devem ser prioridades superiores, pois atingem a todos. Minha leve opinião sobre o assunto, enquanto direitos, é que os mesmos princípios que envolvem a “dignidade, igualdade e responsabilidade” não devem ser negligenciados a estes.

A sociedade cristã eleva tanto seu posicionamento contrário às uniões de pessoas do mesmo sexo que, agindo desse modo, favorecem as comunidades LGBT a uma transformação da prática homossexual em uma idolatria desenfreada frente à heterossexualidade (Cf. Homossexualidade – Perspectivas Cristãs – Cobb; obs.: não concordo com basicamente 90% do posicionamento do teólogo do processo).

Tanto Stott quanto Cobb compreendem que o relacionamento sexual entre homossexuais nunca será pleno como o vaginal, principalmente por não poderem gerar seus próprios filhos. Sobre o assunto, concordamos que a procriação seria o ideal no relacionamento sexual, no entanto, nem todos os casais procriam seguindo o ideal. Sexualmente, ninguém consegue alcançar o ideal, o que corrobora com a nossa condição humana “normal”. A completude gerada na união de dois corpos sempre será finita e desproporcional àquilo que foi planejado e é chamado de “natural”.

Outra questão é que o sexo (não apenas para a procriação) é também meio de companheirismo e intimidade. Essa assertiva é psicologicamente comprovada para todas as manifestações sexuais. Essa intimidade, de forma negativa, sempre foi corrompida mediante a promiscuidade, a luxúria e inúmeras perversidades. O que quero dizer é que, assim como há homossexuais depravados também há heterossexuais na mesma condição. Ambos fazem de sua sexualidade o seu “ventre”. Todos são atingidos essencialmente pelo distanciamento do ideal.

A grande problemática é que fizemos das pessoas nossos inimigos. C. S. Lewis diz que “antigamente matavam-se os homens maus, hoje eliminam-se os elementos antissociais” (A abolição do homem). Lutamos contra a vida por causa da sexualidade e afins. Lutamos contra a homossexualidade como algo demoníaco ou uma doença genética (psicologia antiga), sendo que se os problemas fossem esses, R. R. Soares/Benny Hinn e outros curandeiros cristãos dariam conta em nome de Deus. Prefiro entender como uma condição fora do ideal para procriação, o que não isenta o companheirismo e afetividade adquirida por eles. John Stott diz que “precisamos ser sensíveis ao fato de que estamos lidando com as emoções das pessoas, sua identidade sexual e seus sonhos de encontrar amor e aceitação”.

Surge a questão: Politicamente devo impor minha fé e realidade cristã em detrimento dos direitos que nos iguale? Acho que não! Esse não é o nosso papel enquanto igreja; seriamos ditadores se impuséssemos uma realidade e experiência cristã como regra de fé a todos. O mesmo acontece do ponto de vista contrário. O lobby gay deve ser uma realidade a ser encarada e engolida por todos? Não! Aqui diferencio o lobby gay dos outros gays que refutam os direitos exigidos por esse partido intransigente. Sou pela causa da igualdade e dignidade enquanto movidos pela responsabilidade daquilo que exigem.

Posso condenar a prática homossexual e mesmo assim conviver bem no meio de uma nação pluralista em seu modo de pensar e de agir legalmente. Isso desde que meus pensamentos e ações sejam respeitados enquanto direitos iguais.

            Portanto, finalizo afirmando que a prática homo afetiva é pecado, mas que mesmo desaprovando, não tenho a liberdade de desumanizar quem o é ou, aqueles que nela se envolvem; que não sou a favor das minorias e suas exigências por leis que destoam das leis igualitárias. Entendido como igreja, penso que nossa realidade e fé podem ser oferecidas a todos, levando em consideração que nem todos, por escolha, optarão a seguir e viver a fé cristã. Assim, todos nós seres humanos convivemos numa realidade social democrática. Resumo e concordo com um sociólogo que diz: “Democracia é pluralidade de interesses e de discursos aprendendo a conviver. Dentre esses muitos discursos, os das igrejas protestantes deve ser mais um, o discurso da ciência, outro, da arte outro, e assim sucessivamente, mas sem que nenhum deles acalente pretensões de construir uma torre para tomar os céus de assalto” (Novas perspectivas sobre o protestantismo brasileiro).

Cristão e política: Entre a alienação e a manipulação

Cresci em uma comunidade de batistas livre-pensadores (se é que isso pode existir) em que as premissas de liberdade, igualdade e fraternidade -se bem não eram mencionadas com essas palavras nem nessa ordem- estavam no âmago da existência social.

Desde cedo soube que se bem Engel, Marx e Lenin (que não são um grupo de rock grunge para os desavisados) eram compatíveis com a teologia da restauração do ser humano, não o eram o marxismo-leninismo como doutrina e muito menos o stalinismo como sonho de consumo das classes oprimidas. Ao mesmo tempo, também ficava claro que um estado voltado para a extrema direita em que alguns poucos escolhidos a dedo eram os que podiam ter alguma chance de sucesso e que dava rédea solta e descabida a uma forma doentia de capitalismo cruel que auto justificava sua existência, não era a esperança prática de um mercado que ao final das contas é formado por gente.

Isso tudo, estava reforçado pela presença pensante de minha dupla dinâmica de pais que tinham nascido na pós guerra e crescido durante a guerra fria. Tinham visto ser a própria democracia do pais esmagada pela presença ditatorial de uma direita moralista que teve sua chegada auspiciada por uma esquerda sublevada pelos desejos revolucionários desnecessários (ao meu ver) em um pais de longa tradição democrática e plenamente livre. Aliás, vale salientar que meu pais é o único latino-americano formado sobre bases laicas logo na sua primeira constituição o que faz ressaltar ainda mais a pretendida revolução.

Atravessei minha infância, então, com um medo danado de uma explosão atômica acabar com as praias mais lindas que existem sobre a face da terra, de sermos varridos pelos soviéticos (sim, naquele tempo da pre-historia, existia um pais que se chamava União de Repúblicas Socialistas Soviéticas) e com uma raiva visceral pela ingerência americana em solos orientais (O nome do meu pais é Republica Oriental del Uruguay, por isso o ‘orientais’). Ou seja, não sobrava ninguém. Eram os charruas contra o resto.

Ai chega a democracia que – ó coincidência – parece que chega simultaneamente e de forma sequencialmente ordeira ao resto do continente. Quando vemos a história, parece que entramos e saímos desses momentos mais ou menos juntos. Tipo assim, desde os tempos de Colombo que estas Américas andam mais ou menos de mãos dadas ou pelo menos, aquela parte que vá de Tierra del Fuego hasta el Rio Bravo del Norte.

Trago à memoria, Winston Churchill – primeiro ministro britânico durante a segunda guerra mundial – que dizia que a democracia não é a forma ideal de governo, mas é a melhor que conhecemos. E lembro também dos grandes momentos da democracia brasileira (sem consultar o Google, que conste) como Juscelino Kubitschek de Oliveira, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e por ai vai. Quem me lê e está atento à lista, já presume certa tendência. Todavia minha tendência é pela boa ventura do Brasil e não por uma certa vertente política. Mas deixa te mostrar como chego lá.

Conheço o Brasil desde 1981, mas cheguei para morar em 1995. Acompanhei muito meu pai pelas suas viagens pelo Brasil então conheço muitos becos e recantos e desde cedo me acostumei com o lance de entender uma cultura que não era a minha. Então quando cheguei, já cheguei amando, curtindo, deleitando-me nessa vasta cultura brasileira.

Todavia, o grande choque veio da constatação da apatia politica (em que a grande massa parece estar imersa) e o voo rasante de alguns abutres eleitoreiros. Para piorar a cena, alguns – assim chamados – pastores e lideres espirituais transferiam à grei suas próprias preferencias políticas pessoais e quando não, impunham esta opção por diversas vias de extorsão psico-morais-espirituais como se de algum projeto divino se trata-se. Não saem da minha memória placas e cartazes, outdoors e outros meios massivos dizendo que a igreja x vota em fulano.

Do outro lado da cena evangélica, estavam os pastores que se entendiam humildemente como tais por causa de uma vocação divina. Eles entendiam que o povo tinha que ficar livre para votar em quem melhor entendia sem a influência do púlpito. Só que em lugar de gastar alguns minutos explicando o porquê desta atitude, pairava no ar a ideia de que ali, dentro daquelas quatro paredes, o mundo não era politico; ali não havia problemas como quem seria melhor candidato para presidente, deputado, prefeito, vereador; ali era a redoma intocável de um povo apolítico que só fora do expediente espiritual se permitia talvez esboçar algumas interrogantes práticas (como “em quem votarei para xxxx?”) que acabavam sendo respondidas quase sempre por sorteio do menos feio, o menos pior, ou o mais espalhafatoso.

Então há ao meu ver dois extremos bem nítidos na vivencia politica evangélica brasileira: A alienação e a manipulação. As duas posturas mamam de uma crendice popular muito bem alicerçada e muito bem nutrida por descuido pastoral seletivo voluntário. Esta crendice é a de que a voz do pastor local é quase que a voz e Deus. Se ele fala que devo votar em Ciclano, então é em Ciclano que vou votar e se ele – seja por seu exemplo pessoal ou por sua falta de interesse, por arrogância ou por pura ignorância, medo, ou o que for – comete alienação constante das coisas politicas, então eu vou me alienar.

Considero a manipulação uma ferramenta diabólica forjada nas bigornas do próprio inferno. Mas entendo que a alienação é tão ruim ou pior que a manipulação porque deixa ao “Deus dará” uma coisa que deveria ser pensada, orada, conversada. Por conta disso e em última instância, o pais é levado pelos manipulados que em lugares de fieis livres pensantes se transforam em massa de manobra de uma corja desgraçada de corruptos, corruptores e corruptíveis que enxergam no palanque nada mais do que oportunidades de se enriquecer de forma rápida e muitas vezes ilícitas às custas (e nas costas) do próprio povo que deveria servir.

Então o que fazer? Quais são as garantias? Como sei que vou acertar? Qual é o candidato que Deus quer? Qual o candidato evangélico que devo apoiar? Como escolho bem um candidato?

Bem, para inicio de conversa, você não tem garantias nenhuma de que vai acertar até porque o que é acertar? O pais muda muito no período em que eles estão no poder e muitas vezes é exatamente isso que o pais precisa: mudanças. Segundo, Deus ama a liberdade e é exatamente isso que ele quer para o ser humano então não há um candidato A, B ou C que o Criador prefira na sua magnifica vontade. Terceiro quem lhe disse que deve votar em um candidato evangélico?

Então, como proceder ao final de contas? Lá vai uma coisa que detesto fazer, uma receita de bolo para ser bem sucedido. Depois escreverei alguma coisa contra receitas de bolo, mas lá vamos nós no embalo das próximas eleições com uma receitinha básica:

  1. Erradica a ideia da redoma cristã evangélica.
  2. Deixa para atrás a perversão do almejo de um estado teocrático. Visa alvos maiores e abrangentes.
  3. Sonha com uma democracia forte e transparente em que os candidatos sejam trocados livremente pela vontade do povo em espaços curtos mas não curtíssimos.
  4. Apoia (durante o período de governo) os projetos que valorizem a construção de uma sociedade mais estável e com melhores oportunidades para seus cidadãos.
  5. Asiste um jornal de verdade (há alguns nas televisão aberta que valem a pena) e presta atenção não só nos escândalos da farra política mas também nos grandes projetos do pais. Uma vez ou outra, ouve a Voz do Brasil. Em especial o Jornal do Senado e o Jornal do Judiciário (dois minutos cada)
  6. Discute não só os candidatos mas os projetos que estão sendo apresentados.
  7. Escolhe com antecedência teus candidatos (principalmente Presidente e Senadores) e acompanha eles durante a campanha mas não fique só com um. Observe os outros candidatos e não tenha medo de mudar se for preciso.
  8. Fica atento aos debates e tenta conhecer mais de perto a forma de pensar não só do teu candidato mas dos outros. Lembra que é bem provável que um debate será o mais perto que consigas chegar do teu candidato e seu pensamento. Foge do que mente. Se és homem, chama uma mulher para detectar o mentiroso.
  9. Cai fora do curral e muda de igreja se teu pastor quer te obrigar a votar em este ou aquele candidato.
  10.  Vota com responsabilidade e vigor. É serio, o destino da nação está em tuas mãos e ao meu ver, só um voto responsável te dá direito de dizer “esses políticos – que eu coloquei lá – só estão fazendo isto e aquilo outro” ou dito de outra forma: não votou, não opine.

Seja que descambemos para a alienação ou para o voto de curral, em qualquer dos dois casos estaremos, com certeza, deixando de lado o que de mais precioso temos: a liberdade de pensamento. O bom voto, é o voto consciente e estudado.

A Trindade na política

Religião e política parecem trilhar caminhos comuns muitas vezes. A paixão que despertam, a ganância que as tenta, o poder que as convida e as barbáries que podem produzir, são reveladas no processo histórico de forma escancarada. Porém, apesar de muitos caminhos em comum, há um único elemento imprescindível para o estabelecimento, construção e sustentação de ambas – o sagrado.

Sem o sagrado não se tem religião nem política. Este, que assume variadas configurações nas mais diversas expressões religiosas da humanidade, se mostra mais uniforme e definível na política.

Não é de estranhar que, em época de eleições, o sagrado exerce enorme força nos muitos discursos inflamados em busca de adeptos. Seguindo o pensamento de Rudolfo Otto de que o sagrado é mysterium, tremendum et facinans (misterioso, tremendo e fascinante), pode-se observar que as forças de atração e repulsão estão em constante tensão em relação ao sagrado no plano político.

Assim como no Cristianismo, o sagrado político se configura de forma triúna. São três os que compõem a sacralidade. Embora distintos, são inseparáveis. As campanhas políticas exaltam, louvam, ou condenam o sagrado de forma veemente. Mas no fim, todas acabam cedendo à adoração que lhe cabe e prometem adorná-lo, cuidar dele, prestar-lhe culto, atenção e melhorias pelo tempo em que tiverem o privilégio de tocá-lo.

A trindade sacrossanta da política sofre o sacrilégio de ver seus nomes tomados em vão inúmeras vezes, sem o mínimo de escrúpulos ou temor. Ela assume três nomes benditos: Educação, Segurança e Saúde. Nenhum pretendente ao ofício pode ousar dar vazão a suas preleções sem invocar a trindade. Ela é a pedra fundamental sobre a qual se constroem os templos suntuosos da máquina administrativa do poder, e se estabelece como alvo do louvor e centro da prédica de todo aquele que aspira subir os degraus do sucesso.

Uma história faz-se necessária para a compreensão dos fatos. Conta-se que um dia houve uma catástrofe. O inimaginável ocorreu e causou um desastre sem precedentes. Ninguém sabe o porquê de tamanha eficácia das forças malévolas no processo de oposição à trindade, mas constatou-se que, em algum momento lúgubre da história antiga, houve uma desavença e desequilíbrio entre os três elementos que compõem a santíssima trindade.

A Educação, enlouquecida, partiu repentinamente e agressivamente em direção à Saúde. Esta, indefesa e já moribunda, gritava desesperadamente por socorro enquanto era golpeada brutalmente até a morte. Amedrontada por tal atrocidade, a Educação fugiu em direção às fronteiras do país. A Segurança, por sua vez, sentindo remorso por não ter podido acudir sua fiel amiga Saúde no momento em que mais precisava, partiu furiosamente em busca da Educação. No caminho, atirou aleatoriamente diversas vezes para descarregar sua ira. O resultado de tais disparos deixou um rastro de sangue por seu caminho. Finalmente a Educação foi interceptada e, na fúria, acabou sendo assassinada pela Segurança. Esta, tentou ocultar o cadáver, mas foi seguida pela população revoltada por tantas mortes inocentes e acabou sendo linchada em praça pública.

“Três cadáveres num mesmo dia. Que tragédia!”, noticiavam os jornais em letras garrafais. Constituíram uma comissão para decidir o que fazer com os defuntos e, após muita discussão, resolveram construir três belos túmulos no maior cemitério do país. Os sepulcros foram milimetricamente calculados e posicionados lado a lado formando um monumento impressionante.

Desde aquele dia, coisas estranhas andaram acontecendo. De tempos em tempos, um espírito (alguns dizem ser maligno, outros, benigno) sopra sobre os túmulos levantando os corpos apodrecidos. Estes saem de seus jazigos e despertam emoções das mais diversas na população. As autoridades, acionadas pelo povo, parecem não tomar atitudes, mas, pelo menos, demonstram concordar com uma coisa: este espírito colabora com o momento.

No cemitério, coisas sinistras também são observadas. Um dos túmulos, certa vez, amanheceu pichado. Não se podia entender os escritos. Chamaram os linguistas mais capazes, mas ninguém pode decifrar a frase. Chegaram à conclusão de que algum estudante mal formado teria arriscado algum pensamento. Outros suspeitam de algum professor frustrado, talvez um proponente de alguma revolução ortográfica. O certo é que não havia muitas pistas, mas uma seta indicava para uma escola, que de tão velha, tinha perdido as primeiras duas letras da palavra escola no seu letreiro. Para conter gastos, ou por qualquer outro motivo escuso, preferiram deixar como estava.

Outro túmulo também passou por uma experiência estranha. Sangue parecia brotar do chão. Levaram para análise. Nunca divulgaram os resultados. Há murmúrios de todos os tipos, mas na realidade todos parecem temer dizer definitivamente algo. Alguém desavisado foi até o local para coletar mais amostras, mas, quando estava agachado, escutou zumbir algo rente à sua cabeça. Deitou no solo e se arrastou rapidamente para longe do local. Tentaram entrevistá-lo, mas se recusou a dar entrevistas. Dizem que contou a um amigo que enquanto rasgava suas roupas se arrastando pelo chão, viu um cartãozinho de uma empresa que prometia proteção particular. O autor da façanha nunca mais foi visto e chegaram a comentar sua morte. O fato é que o caso foi arquivado.

O mais estranho de todos foi o que aconteceu com o terceiro túmulo. Muitos se recusam a falar, outros fazem o sinal da cruz ao mencionar. Dizem que volta e meia, no calar da noite, uma fumacinha sai de dentro do túmulo por um orifício na lateral. Os boatos começaram a se espalhar e uma tv alternativa instalou uma câmera escondida no cemitério. As imagens foram exibidas antes de serem confiscadas. Turvas e arrepiantes, era possível ver, de vez em quando, a fumacinha saindo. As autoridades se mobilizaram, montaram um esquema de segurança e depois apagaram o caso. Hoje ninguém fala muito neste episódio, mas o coveiro, que é uma pessoa meio mística, disse que um dia, andando próximo a este túmulo, encontrou metade de um charuto. Pintaram o túmulo de branco para espantar qualquer coisa ruim e há quem nem passe perto do desgraçado.

Os túmulos continuam lá, ora aparentemente abandonados, ora adornados com flores belíssimas.

Deus ajude o Brasil.

Novo credo cristão

(Aviso aos navegantes, isto aqui é uma ironia)

De tempos em tempos a igreja tem se deparado com a necessidade de sintetizar sua fé. Isto, é colocar de lado as diferenças e escolher o caminho comum; definir o que é ortodoxo e o que não é; descartar aquilo que desvincula para manifestar aquilo que une.

Assim temos o Credo Apostólico usado oficialmente pela primeira vez no ano 390 em Milão. Temos também o Credo Niceno definido no conclio da cidade de Niceia em 325. E finalmente podemos mencionar o Credo Atanasiano que se firma com Carlos Magno (742-814)para fins de instrução mas que não sabemos ao certo a origem.

Todos eles têm o mesmo propósito: Estabelecer o que é crença cristã e definir o que não é. Veja como por exemplo, podemos concordar facilmente com o Credo Apostólico a continuação:

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo. Seu único Filho nosso Senhor. O qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica – a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.

Claro, os desavisados de plantão podem arrepiar a espinha ao chegar na parte em que diz “na Santa Igreja Católica”, mas o termo católico nada mais significa que universal, ou seja, que atinge a todos os seres humanos e nada tem a ver com a instituição conhecida pelo mesmo nome.

Mas voltando ao assunto, um credo nada mais é do que um reflexo das crenças dos que creem. Uma formulação do abstrato em termos simples e pragmáticos que facilitem aos que o leem a compreensão da essencialidade da fê proposta.

Eu me proponho hoje fazer o processo contrário, ou seja, a partir da observação externa produzir um texto que ampare a cristandade como um todo em sua prática e não na sua utopia. O texto ficaria mais ou menos assim:

Creio nos estereótipos fortemente alicerçados na pregação do meu guru pessoal. E na minha teologia particular. Única filha legitima dos meus estereótipos. A qual foi concebida da miscigenação caseira de ouvir uma cacofonia ensurdecedora de pregadores televisivos que falam sobre uma prosperidade terrena que anseio desesperadamente; Ela padece sob outras teologias de cunho bíblico, é esmagada, mas nem a deixo morrer nem a sepulto; Vou ao inferno com ela se necessário for, subo ao meu próprio céu terreno do toma-lá-dá-cá e deixo que ela me conduza pela mão direita, ao final de contas me falaram que sou cabeça e não cauda e vou julgar todo mundo. Creio na esquizofrenia espiritual que me acompanha, na minha única e própria visão da igreja – a comunhão do “nós” em lugar de “com eles”, na culpa constante pelos pecados (se é que existe pecado), nos meus esforços pessoais para agradar o Criador e na poupança recheada antes de partir para a eternidade. Amém

A paternidade e a pátria

Parece que não faz muito tempo que escolhi ser pai, mas se me ponho a fazer as contas lá se vão 29 anos. Quem quiser uma versão mais leve destas mesmas ideias, dê uma olhada neste outro artigo. A decisão de ser pai é anterior ao chamado ao pastorado e é concomitante com a escolha profissional; deu-se em circunstâncias de plena admiração pelo meu velho.  Lembro que naqueles dias pediram para levar uma foto da personagem que mais admirávamos e, então, levei uma foto 3×4 de meu progenitor. A nossa relação (marcada por um profundo e perpetuo silêncio desde que eu tinha lá meus 8 ou 9 anos), sempre foi no sentido em que eu entendia meu velho, mas sentia como que o contrário não era sempre igual. Faz uns dias liguei para ele por conta do dia do amigo.  Isso porque no âmago da minha definição de gente está a figura do meu pai-amigo, segurando a mão quando eu era um pivete. As minhas primeiras lembranças são com ele. Todas e cada uma das cicatrizes que levo foram feitas estando com ele e de nenhuma delas me arrependo.  As coisas que sei e as que imagino da escritura tem como referencial meu velho que -ao final das contas- soube nos passar bem a teoria da coisa. Todavia, ver as ambiguidades que nele havia, me levaram a tomar a decisão de ser pai. Ou seja, de ser um outro tipo de pai na realidade.  Acessível, compreensivo, presente, interessado, ouvinte, firme, acolhedor.  Me lembro exatamente onde e como estava naquela noite, assim como  o frio invernal uruguaio  batendo no meu rosto. Me lembro da primeira namorada. Ele me apoiou, me bancou, me deixou livre, mas não me aconselhou, não me levou para conversar. Uma única vez me falou sobre o relacionamento marido mulher e falou assim: “quando um homem assume um compromisso com uma mulher, tem que levar esse compromisso até o fim“.  Isso causou um vácuo em mim porque queria dizer -naquela época- que eu não mais podia errar, não podia sequer tentar conhecer uma mulher.  Então decidi beber desse poço de imensa sabedoria ao meu ver, e desse ponto em diante não mais namoraria até que fosse para casar. Casei. Tentei ser e fazer a mulher feliz; tivemos uma filha maravilhosa e um que partiu antes de ver este mundo. Mas esta relação não chegou ao bom termo almejado no inicio. Eu estava, de todo coração, tentando ser um bom filho. Mas nessa relação de paternidade/amizade havia faltado o mais relevante: o diálogo. Hoje eu entendo meu pai. Eu sei que ele não estava falando para mim ou de mim.  Estava falando dele mesmo e de sua frustração particular. Seu poço silencioso e solitário se tornara insuspeitavelmente estreito e, do alto (ou do fundo) da sua meia-idade, observava como se esvaiam os últimos anseios de felicidade elaborados durante a juventude. O mais difícil e perfurante no processo de queda, separação, solidão, divorcio, não foram as noites sem dormir nem a falta de apetite. Não foi também o sentimento de culpa nem os olhares fulminantes dos que tinham formado um ideal além da minha capacidade e, agora, não tinham outra opção a não ser mudar de lado na rua quando me viam andando. O que mais doía era não poder estar com minha filha no final do dia. Abraça-la, faze-la dormir, aconchega-la nas noites de chuva, assistirmos um bom filme juntos, ou andar de mãos dadas. Isso até hoje me faz falta, pois, de ser o homem que transmitia segurança, passei a ser o traidor dos sonhos infantis de uma menina inocente. Continuei então a trabalhar com o que tinha sobejado: acessibilidade, compreensão, diálogo, presença sempre que possível e graça, muita graça. Me expus ao ridículo e à critica pública por passar tempo demais na casa da ex porque era ali que minha filha estava; mas era o preço a ser pago para -de alguma forma- suprir o que eu mesmo tinha tirado. A ninguém, mais do que a mim mesmo, chamo como responsável pelo que aconteceu. E com isto também não assumo culpas que não me pertencem, mas como homem-adulto-cristão, eu mesmo respondo pela minha conduta. Vieram mais dois filhos com a atual esposa. Um já pronto e outro por fazer. Enquanto ando nesta vida, tento com os três, ser o pai que me propus há 29 anos.  Não do cume de uma suposta perfeição imarcescível e inatingível, mas de um simples homem que se reconhece pecador, falho e principalmente carente da graça divina. Aos que já são avós, esqueçam o que para atrás fica. Seja o melhor vó/vô possível. No fim das contas, somos a única espécie que tem chances de ver os filhos dos netos crescerem. Aos que são pais, esqueçam o que para atrás fica. Enquanto seus filhos estão em idade de estar perto de você, esteja você perto deles. Converse, dialogue, ouça, olhe, conheça, espere, mime, anime, exija, alente, motive, se exponha. Aos que ainda não são pais, esqueçam o que para atrás fica. Observe seu velho, veja como ele vive, fique com a melhor parte do bolo. Você pode escolher só reproduzir aquilo que seu pai faz de bem. Seu pai não está por perto? Não se preocupe. A imagem de “pai” está bem guardada no seu inconsciente, o arquétipo do que é um pai e de como deve comportar-se estão lá.  Seja então aquilo que você mesmo não teve para seus filhos que ainda estão por vir. E finalmente, não perca de vista que -como diz o tango- “vinte anos é nada“; ou seja, o tempo passa muito rápido.  Relaxe, curta o fato de ocupar a função mais gritantemente necessária na época que vivemos: Ser pai. Não se acanhe. Não morgue. Não adie. Não envileça. Não tema. Não retroceda. Não suma. Não desanime. Não se envergonhe. Viva, curta, desfrute, ame, compartilhe. E seja pai onde lhe tocar ser pai e do melhor jeito porque ali onde você é pai, fique tranquilo que ali e só ali, será sua pátria.

Uber pater sum, ibi pátria (Aurora, Friedrich Nietzche)

A insuportável leveza dos pseudo-líderes cristãos

Em tempos de sequidão espiritual, surgem os pseudo-líderes no meio cristão que sem nenhum peso de glória divina eludem os mais indoutos induzindo-os a amar o dinheiro sobre qualquer outra coisa.

Me choca a facilidade com que alguns autodenominados bispos e outras ervas, promovem ideias espúrias ao evangelho e são louvados por isso.  Me espanta como a iniquidade aumenta da mão de quem -supostamente- deveria estar ali para impedir tal coisa.

Veja por exemplo a inauguração de uma replica aumentada do templo de Salomão.  Deslavadamente o construtor do templo acaba sendo o sacerdote que intermédia a vida espiritual do que assiste ao ritual com a divindade.  E esta intermediação acontece por vias puramente materiais em que o fiel investe uma certa quantia que lhe produzirá um retorno que a maior parte das vezes é meramente financeira.

O povo, por sua vez, gosta de ser eludido desta forma pois o ouvido dele tem uma tendencia natural a ouvir pregações do tipo ‘toma-lá-dá-cá’.  Neste povo existe a real necessidade de se sentir seguro seguindo certos ritos, por mais que esse rito nada mais seja do que uma pretensão de barganha material com um ser espiritual inatingível por este meio.

Então para mim, tanto os líderes quanto os liderados são culpados de construir essas coisas.  Como diz Stagg: o homem é responsável de se tornar irresponsável.

Desde quando Deus está interessado com algum bem material?  Desde quando Deus precisa de moedas para agilizar o trâmite espiritual? Claro, alguém me vai dizer que a pessoa precisa se desprender dos bens materiais para atingir benesses espirituais porque é este amor ao dinheiro o que acaba lhe afastando da riqueza espiritual.  Tá, isso é certo, então porque o líder não lhe diz para vender tudo e dar aos pobres?  Se ele é tão espiritual assim, porque ele não propõe a mesma solução que Cristo promoveu? Por que ele se coloca como pedágio entre os homens e Deus?

Quando um líder se coloca na postura de intermediário ele desafia a ação do próprio Jesus que -ao morrer na cruz- eliminou a parede de divisão não só entre judeus e não judeus mas também entre Deus e os homens.

Quando um líder incentiva o seu povo a construir um templo (mega, macro, micro) no qual o ritual de sacrifico pretende ser re-institucionalizado por meio do qual o homem-de-a-pé conseguiria de alguma forma se achegar à divindade, ele desafia o próprio Salomão que na oração inaugural do templo original falou “podem por acaso estas paredes te conter?”

Finalmente, quando o povo se deixa eludir desta forma, ele se torna responsável pelo seu próprio sangue construindo para si mesmo poços secos dos quais é impossível extrair qualquer tipo de água espiritual. O povo decididamente vá atrás destas coisas não como ovelhinhas enganadas mas pelo insuportável que pode ser a liberdade de relacionamento com o Cristo.  Não se engane o leitor pensando que o povo está sendo eludido e enganado sem a intervenção da consciência particular.  Não! O povo vai porque o povo gosta. Ele sente falta de rituais que consiga entender e -em certo sentido- controlar. Só há possibilidade de um ditador surgir quando o povo bate palmas para o mesmo. Então, são dois abismos se encontrando.  Dois buracos negros chamando um ao outro.  Uma destruição convocando uma outra destruição maior.

Não se iluda então o leitor, pois se há leveza no líder é porque há leveza no povo e esse esquema se torna insuportável e com isso a terra perde a bênção que viria de uma liderança sábia. Ou, como diz o proverbio “Os pecados de uma nação fazem mudar sempre os seus governantes, mas a ordem se mantém com um líder sábio e sensato” e também “Ainda que você moa o insensato como trigo no pilão, a insensatez não se afastará dele

O evangelho não tem a ver com rituais na presença de um líder autonomeado.  Se de alguma forma, o leitor está querendo se conectar com a divindade, com o Criador, com o Jeová do antigo testamento o caminho não é o do auto-sacrifício e sim da rendição.  Sua alma está em guerra, em luta contra o Criador.  Renda-se.  Jesus já é o sacrifício perfeito.  Você é aceito, amado, aprovado no Cristo e não no seu esforço pessoal e não no ato de ir no culto ou dizimar ou qualquer coisa assim.

 

Homem cria homem

Somos seres gregários e como tais enfrentamos vários desafios juntos. Concordamos por exemplo que é importante termos as contas em dia, tratar bem o próximo, termos uma alimentação saudável e aparentar -pelo menos isso- estar bem resolvidos. Provamos então que o nosso pequeno quintal nada mais é do que uma reprodução do universo humano e que as coisas que nos acontecem não nos acontecem só no foro privado, mas nos acontecem também gregariamente.

Todavia, uma coisa na qual gostamos de aparentemente nos diferenciar é na criação dos filhos. Na realidade, parece que é ali que discordamos de tudo e de todos. Queremos fazer nossa própria linha, ao final das contas, o nosso rebento nada mais é do que uma extensão de nós mesmos e -em certo sentido- uma perpetuação ou “eternificação” do que somos. Nos tornamos egoicos, autosuficientes e virtualmente intocáveis para aquilo para o que justamente o conselho alheio deveria servir mais: perpetuar a espécie uma cria de cada vez.

Dependendo de em que ocasião histórica tenha nascido e em que canto do planeta, sua visão será mais ou menos sofisticada, mais ou menos sócio-dependente, mais ou menos espiritualizada. Os termos que usamos para falar da educação ou criação dos filhos nos delatam. Por exemplo, são comuns as palavras como ‘investir’, ou ‘construir’ em sociedades mais industrializadas, ao passo que ‘deixar’, ‘liberar’ etc se manifestam mais em sociedades menos exigentes.

Porém -e voltando um pouco à ideia de seres gregários- podemos identificar algumas linhas gerais, algumas abstrações universais que podem nortear esta peça teatral sem ensaio que é a vida. 1) O que é realmente importante para você? 2) Quais parte do seu caráter você acredita firmemente que gostaria de serem vistas no seu rebento quando se torne adulto? 3) Se você tivesse certeza que sua vida acabaria hoje à noite, o que deveria ter feito ontem e por que não o fez?

Já volto sobre esses pontos, deixe eles de molho um pouco. Enquanto isso, permita-me filosofar um pouco. Aceitamos como terreno comum o fato de que se é mais feliz quanto mais liberdade financeira se tem, e se obtêm essa liberdade por meio de profissões em que se ganhe muito fazendo pouco. Ao mesmo tempo, e porque não sabemos qual caminho a criança vai escolher, nos vemos obrigados a disponibilizar para ele aulas de judô, muay-thai, artes, inglês, espanhol, japonês, religião (alguma, uma ao menos), informática básica, culinária, etc. Em um escambo descabido, prendemos então nossos filhos agora e os deformamos o suficiente para que quando lhes chegue a oportunidade de exercer a liberdade, se prendam a dívidas infinitas para fazer a mesma massacre com nossos netos perpetuando uma sociedade cada vez mais fria, mecânica e ataráxica.

Temos sido enganados. A liberdade como absoluto não existe. É quimera. Mas mesmo sabendo, sentindo, apalpando isso, corremos atrás do vento e ensinamos aos nossos descendentes a fazerem a mesma coisa. Por isso pergunto: o que é realmente importante para você pai? Quais elemento do seu caráter são para serem perpetuados? Quais precisam ser abandonados?

Entenda-me bem, aquilo que você realmente acha importante vai vazar por outros cantos que não são a sua boca. No final das contas, o que realmente é importante para você vai chegar para seus filhos na forma de atitudes concretas bem palatáveis que a cria vai entender pelos sentidos e não pela educação formal. O que quero frisar, é que se você pode clarificar sua cabeça sobre o que é realmente importante, correrá menos risco de cair no buraco de pretender ser uma coisa que não é, levando seus filhos a um auto-desprezo por não conseguirem atingir um alvo imaginário e impossível que você mesmo não alcança ou se alcançou, não é seu platô de felicidade.

É o pai que define o filho. Com isso não estou defendendo a velha ideia de que o pai decide cada passo que o filho dá, a profissão, a esposa, etc. Mas me levanto contra essa crendice popular que tem ganho nossos corações de que existe a liberdade absoluta e nossos filhos devem correr atrás dela. Ao dizer que o pai define o filho, o termo em inglês que me vem à cabeça é shape. Ou seja, dar forma, imagem, etc. O que me parece, é que com a pregação na liberdade utópica como realizável numa geração, cria uma carga emocional pesada demais na vida de quem deveria estar livre, leve e solto para curtir a vida, porque é na curtição que o lúdico transcende e ensina de per-si.

Então, deixe esboçar alguns exemplos de como você define (shape) a vida do seu filho: Quando ele é pequeno você troca as fraldas dele, alisa a cabeça dele, lhe diz que o ama. Passa o tempo, ele segura seus braços para andar. Os medos passam, porque o pai acolhe e firmemente segura as mãos do guri. Depois chega o tempo de usar o pinico, lá está você para ajuda-lo. Mais adiante, ele começa ir à escola, você o leva e o traz, ou o espera, ou se encontra com ele, mas pergunta: “Como foi hoje?” “Como foi com seus colegas?” “Do que você brincou meu filho?” E seus olhos olham os seus e você se comunica. Ele se aproxima da puberdade e você fala das coisas da vida. Aquelas que lhe farão falta para ser feliz.

Você lhe ensina a cozinhar, anda com ele de vez em quando, ouve o que ele tem a dizer, ao final de contas, você também gosta de ser ouvido. Chega o tempo das primeiras namoradas. Você acaba concordando com ele que a escola é um saco. Que a grade curricular é exatamente isso, uma grade e o delegado de ensino, bom, é delegado oras, mas as regras do jogo são essas. Você o acompanha, o anima. Vê as asas irem brotando. A testosterona começa a falar mais alto. Ai você o lembra que é natural, que é normal isso tudo ai, assim como foi o aprendizado com o uso do esfincter, agora tem que lidar com a normalidade do desenvolvimento e seus medos. Vai se aproximando o tempo de decidir o que vai “fazer da vida” de fato.

Ele pede água. Está assustado. Você o recolhe, deixa ele descansar, pois você sabe que a vida moderna é uma pedra de moer carne humana. Ele se define por um curso técnico, nada a ver com o PhD em astrofísica que você tinha sonhado ontem para ele. Saem juntos como tem feito na última década em todo segundo sábado do mês só para se curtirem e ele estar com um homem de verdade e saber como este se conduz com os amigos, a profissão, as outras mulheres. Ele se decide. Tem medo. Antes era o andar ereto, agora é usar as asas. Você continua ai. Ele acaba se mudando de cidade, te liga, você fala uns minutos com ele que são caríssimos, mas não há problema, anos de prosa, sustentam um papo rápido.

Ele volta. Barbado, sorridente. Feliz. Você o abraça, sente o coração dele batendo perto do seu. Não há nada neste mundo que se pareça com isso para um homem. O coração do filho batendo junto, perto, parece que no mesmo peito. Ele se vai com os amigos. Vão de passeio para um morro. Coisa de macho. Passam uns dias, te ligam que ele caiu de um penhasco, se machucou, o resgate demorou e ele não resistiu. Chega o caixão. Você o toca. Não há mais olho no olho, nem coração batendo, só resta a satisfação de ter cumprido com seu papel de homem: formar outro homem.

O que é realmente importante para educar um filho: seu tempo.

É o povo a esposa postiça do politico?

Lá na minha terra quando uma mulher muito bonita e vista na companhia de um homem feio, se costuma dizer: o que será que ele falou para ela?
Também por lá é sabido que se um homem não falar exatamente o que a mulher quer ouvir e do jeito que ela quer, o carinha está encrencado.
Pode ser que o discurso nada tenha a ver com a realidade mas se for do jeito que a patroa quer, a sopa está garantida. Convenhamos então que todo relacionamento íntimo depende da lábia e a boa prosa do elemento masculino da relação.

De tempos em tempos estes “garanhões domésticos” por chamá-los de alguma forma, ocupam os palanques de todo o território nacional, ora para solicitar votos para o governo local, ora para o governo estadual e federal.  Acredito eu, que muito deles até que possam ser bem intencionados  e confesso que tenho uma queda especial pelos membros do senado que me transmitem um certo ar de fidalguia e estabilidade.  Ao final das contas, eles são capazes de sobreviver aos outros mandatos e por terem um papel mais pensante na coisa,  seus feitos alcançam às vezes muitas gerações.

Mas, utopias à parte me parece que tanto os bons quanto os maus políticos fazem uso de um mesmo método de aproximação: o do acasalamento licencioso com a coisa pública.  Ou seja, no palanque ou o moço fala o que a moça quer ouvir ou nada de votos na eleição.  Nada importa à moça se o moço vai cumprir ou se tem tido conduta ilibada, o lance é que nessa hora ela quer ser galanteada e se a prosa for boa, as gentilezas (e o cofre) da moça estão garantidos.

Nada me importa neste momento sobre as intenções do moço nem sobre as motivações dele.  Me interessa sim a conduta da moça.  Como se deixa enganar! Como se deixa levar! Como por umas boas e poucas palavras de efeito escolhidas a dedo por algum conselheiro partidário ou pessoal ela deixa de prestar atenção do que realmente lhe deveria ser mais caro: os seus próprios filhos.

Já reparou que nas línguas neo-latinas as palavras República, Democracia e Liberdade são femininas?  Bom, eu acredito que não é por acaso.  Essas três respondem ao  mesmo padrão de resposta do que a moça casada com o rapaz feio: “Que será que o rapaz lhe disse?”

Nestas e nas próximas eleições da sua vida pratique a metamorfose da sua mente. Seja tomado de uma metanoia abrangente: reflita sobre a vida do seu candidato. Utilize todos os meios ao seu alcance para conhecer não só a proposta de palanque mas se há um compromisso com a verdade ao longo da vida do candidato.  Informe-se. Pergunte. Analise. Não espere que um anjo (ou um pastor metido a besta) lhe indique que tem que votar em este ou tal candidato.  Gaste seu tempo e suas energias pois com certeza estes “garanhões domésticos” vão usufruir da nossa riqueza por um bom tempo quando são mau-caráter e os raramente bons dificilmente poderão fazer alguma coisa.