Aqueles que o podem fazer acreditar em absurdos, podem fazê-lo cometer atrocidades. Voltaire
Lembro do tempo em que ser cristão era sinônimo de problemas. Não que tenha saudades disso, não. Só que naquelas épocas quem abraçava Jesus, sabia que corria o risco – ao menos – de ser taxado de besta. E houveram tempos ( que não os vivi e que não gostaria que se repetissem ) em que se declarar seguidor de Jesus era sinônimo da fogueira.
No Brasil temos passado nos últimos vinte anos de uma mera complacência com o povo evangélico a um namorico de segunda categoria entre as partes. Nessa bajulação sem graça de ambas as partes, vale tudo, principalmente mimetizar-se com o mundo (do lado dos pregadores) e mimetizar-se com os cristãos (do lado dos que vão se achegando)
Já falarei em outro momento sobre a falta da consciência do pecado, a realidade do inferno (tanto presente quanto escatológico) e o completo quilombo caboclo em que a igreja evangélica tem se transformado. Mas por enquanto, vamos aos líderes que – muitas vezes eles mesmos enganados – enganam e eludem o povo.
Tive a oportunidade de estar em um culto esses tempos atrás onde o ápice do encontro era o momento em que o pastor da comunidade pronunciava frases que começavam ou continham a fórmula “Eu declaro..” Enquanto ele ia declarando a multidão ia ao delírio. Era uma sensação de certeza que ia ganhando o povo. Convicção plena de que agora sim, as coisas iam se encaixar. Alguns até com lagrimas nos olhos se abraçavam enquanto o pastor, suando e muito exaltado ia fazendo suas declarações. Conheço essa comunidade há mais de vinte anos e me resultou muito estranho o fato de eles terem aceitado esse tipo de prática, já que a comunidade era bem conhecida pelo seu apego às escrituras e um culto mais pensado. Alguns me explicaram que essa igreja tinha crescido de alguma coisa como oitenta membros para quase trezentos nos últimos anos e que se viram na necessidade de ter mais de um serviço público por domingo. Também me explicaram como as entradas da igreja tinham aumentado e com isso não havia mais problemas nessa área. Enfim, o céu na terra.
Gosto de igrejas que crescem, mas estou plenamente convicto de que da mesma forma em que o corpo de um ser vivo cresce até seu próprio limite, depois amadurece, se reproduz, cuida das suas crias e morre; assim é com as igrejas locais. Ou seja, não me entusiasma nem um pouco uma igreja que parece que seu único objetivo na vida, é crescer, crescer e crescer. Para mim é sintoma de um mal maior, já que o maior evangelista que pisou esta terra, teve uma igreja de 12 membros, com um corpo de trabalho mais achegado a ele de 3 (25%) e um deles (8,3%) mandou matar o pastor. Digo, o foco de Jesus não foi um grupo multitudinário de pessoas que afetasse a sociedade ou que tivesse templos enormes com mega-orçamentos. O projeto dele era a mudança do coração da pessoa, logo, não há reino terreno, a não ser aquele que se manifesta no íntimo do indivíduo. Para fazer isso, um crente só precisa de duas coisas: conhecer o Senhor e manter relações pessoais. Sei que estou simplificando as coisas, mas não é disso que se trata?
Então, mesmo não sendo o objetivo criarmos estruturas locais, gosto de igrejas locais que não tem dívidas e mantêm um orçamento sadio com o qual a igreja local vá sendo equipada também nessa área. Todavia, me parece ser esta uma razão muito barata para aceitar qualquer tipo de teologia. Principalmente no púlpito. Na igreja que visitei, sei que anos ao fio enfrentando problemas financeiros (mesmo que suaves perante algumas outras similares) somado à pressão social por ser uma igreja “saudável” a levaram a abandonar seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.
Por já ter visto esse mesmo processo em igrejas similares, sei que o dano feito não tem mais como ser reparado. Sim, sim, creio no poder de Deus, mas contra o abandono da fé não há solução (Rom 11:17-24; Heb 6:4; Heb 12:17) a não ser a tênue possibilidade de voltar a crer. Ou seja, é mais ou menos como uma infecção com uma super bactéria e o paciente já ter recebido vancomicina por mais de 10 dias, ele está por conta.
Para quem está lendo este artigo e está sendo formado em teologia, ou almeja bispado, quero lhe dizer um par de coisas: 1) Se você começar a declarar, interceder, profetizar, ungir com óleo, água, ou qualquer outro líquido, levar o povo para o monte para orar, promover um jejum ou dieta especial, fazer jejum substitutivo ou qualquer outros dos formulismos que estão em voga sua igreja – quase com certeza – vai crescer em número. 2) Qualquer fórmula aceita, por menor que seja, levará o novel pastor a procurar mais algumas pois o povo vai precisar delas para manter o êxtase.
Ou seja, não estou discutindo a eficiência das fórmulas empregadas para arranjar mais pessoas para um evento religioso, nisso temos muito a aprender das muitas religiões que há no mundo. Exemplos é o que não falta, desde os velhos xamanes indo-americanos, passando pelo tradicional exemplo da Igreja Romana, o novo exemplo da IURD, e chegando às religiões orientais. Se o que interessa é trazer um numero grande de pessoas (talvez até com o nobel propósito final de lhes “ensinar a verdade“) há uma fórmula bem conhecida que pode funcionar anos ao fio: 1) Estabeleça qualquer ritual simples mas que requeira de uma pessoa oficializada como ministro, intercessor, sacerdote, o que for. 2) Faça generalizações durante a homilia colocando exemplos práticos de como as coisas se deram para você, um membro da sua família, um amigo, algum conhecido,enfim, qualquer um que seguiu (ou não) os passos da receita e como se deram bem (ou mal). 3) Leve a multidão a um estado de animação emocional (não precisa que cheguem às lágrimas) elevando o tom e o volume. Se possível utilize música de fundo. 4) Faça o ritual final e mais importante (seja lá o que tenha escolhido) mas o importante é que as pessoas – de alguma forma – se movimentem. Por exemplo, que passem à frente, que levantem as mãos, que abracem o seu vizinho, que se ajoelhem, não interessa o que, mas que o façam em conjunto. Repita sempre a mesma coisa ou alterne entre vários métodos mas com estrutura similar. 5) Enfatize o conceito de matilha. Reforce a importância do “nós” perante “eles” e se há similares, estão distantes. 6) Finalmente, mas não menos importante, se as coisas não deram certo para a pessoa que participou do ritual considere as seguintes três opções: a) A culpa é a amiga do ritual: Se não deu certo, o fiel não teve fé (ou está escondendo coisas, ou não fez do jeito certo, tanto faz) b) Dependendo do caso, dá para repetir o ritual e ver se dá certo (ou para que serve a missa do sétimo dia ou o batismo pelos mortos) c) Se mesmo assim, o fiel quiser cair fora, não se preocupe, para cada um que sai nesse sistema, de três a cinco chegam.
Estou sendo irônico? Depende. Você leva a fé a serio? Então estou sendo irônico. Você está estudando teologia por convicção ou porque não serve para mais nada? Então estou sendo sarcástico. Você já perdeu todo senso de divindade e para você uma igreja local não passa do seu meio de vida? Acrescente ao plano anterior uma comissão de 5% sobre o incremento da receita ao seu contrato e você ficará rico. E sim, estou sendo não só irônico e sarcástico, mas estou lhe chamando de besta por mexer com o sagrado como se fosse um negócio.
Então como fazer para a igreja crescer? Não se faz, ora pois. O lance é mais simples de tudo o que você tenha imaginado até agora: A igreja é uma comunidade de separados por Deus para mostrar (agora e no futuro) sua super abundante graça. Ela não depende de templos ou de quaisquer estrutura organizacional. O que temos para mostrar, se mostra na intimidade dos relacionamentos que estabelecemos tanto com aqueles de longa data como com os ocasionais. A igreja se manifesta só quando o caráter do cristão fica exposto. Ou seja, cantar lindos cânticos em um templo caro ou não para depois ouvirmos uma pregação (por melhor e mais sincera, honesta, pura, bíblica e boa seja) não manifesta necessariamente a igreja. Deixa ver se consigo ser mais claro: Por mais bíblica, exegeticamente correta, pensada que a mensagem seja e mais ordeiro seja o culto, não há necessariamente nisso a manifestação da igreja de Cristo. A igreja se manifesta quando estendemos (ou não) uma mão ao que precisa, quando passamos um tempo (ou nos negamos a faze-lo) com nossa família ou nossos amigos, ou quando somos fechados no trânsito, ou quando estamos sozinhos no nosso quarto sem que ninguém mais nos veja. Dito em outras palavras, o que se espera da igreja é um caráter diferente, o que chamamos de um novo homem tudo o que te leva para fora desta analise particular das tuas nuances internas, não passa de balela e – pior que tudo – perca de tempo. Uma comunidade que não busca crescer no âmbito intimo, pessoal de cada um dos seus membros ainda não compreendeu do que se trata e uma comunidade que troca a singeleza desta busca pela vaidade de ter uma igreja numericamente maior ou um templo maior ou mais caro, tem perdido seu foco, e não sei se há muita esperança para esse grupo pois como disse Voltaire na frase citada no inicio, esse grupo está sendo levado a cometer atrocidades, contra si mesmo, contra os outros e contra os próprios filhos pois mais tarde ou mais cedo a balela vai vir à tona.
Já entrou nessa roubada? Arrependa-se meu chapa. Depende disso para sobreviver? Passe a depender do Senhor. Acha que não está enganado? Dobre o joelho, meu amigo, você está piamente enganado. Você está fazendo isso tudo deliberadamente? Confesse isso à sua congregação, arrependa-se e passe a depender do Senhor.