Cristo não negocia tarifas

A semana passou, os holofotes de Davos se acenderam, e o velho teatro do poder voltou ao palco. Desta vez, com um roteiro pouco sutil: tarifas como arma, alianças como moeda de troca e a Groenlândia tratada como se fosse um ativo disponível em prateleira geopolítica. Não é apenas economia. É liturgia imperial.

Quando nações grandes pressionam nações menores “em nome do interesse nacional”, o que aparece não é força, mas idolatria. Idolatria do mercado, da segurança, da soberania absolutizada. O império sempre fala a língua da necessidade: precisamos disso, é estratégico, é inevitável. Babel nunca sai de moda; só muda o vocabulário.

N. T. Wright insiste que o anúncio central do cristianismo não é um conjunto de valores espirituais, mas uma afirmação pública e perigosamente política: Jesus é Senhor. Isso significa, sem rodeios, que ninguém mais é. Nem presidentes, nem mercados, nem blocos econômicos. Quando Estados agem como se fossem fins últimos, já cruzaram a linha que separa governo de divindade.

O problema não é ter poder econômico. O problema é quando o poder deixa de servir e passa a exigir culto. Tarifas viram castigo moral. Sanções viram instrumento pedagógico. Povos inteiros são reduzidos a peças substituíveis num tabuleiro que nunca é deles. O império sempre se apresenta como racional, mas age com a velha lógica do medo: dominar para não perder.

O Salmo 2 descreve esse cenário com ironia cortante: as nações conspiram, os reis se enfurecem, os poderosos se aconselham. E Deus não entra em pânico. Ele ri. Não por desprezo ao sofrimento humano, mas porque todo projeto que se pretende absoluto já nasce provisório. A história não pertence aos que gritam mais alto, mas àquele que governa sem precisar ameaçar.

A igreja, quando esquece isso, se torna previsível – e, portanto, capturável. Passa a repetir slogans de estabilidade, prosperidade ou “defesa da civilização” sem perceber que trocou o evangelho por uma versão batizada do realismo político. Cristo vira um símbolo decorativo pendurado no salão onde decisões injustas são tomadas.

Daniel fala de um reino que não nasce de mãos humanas e não depende de alianças frágeis. Um reino que não se sustenta por tarifas, exércitos ou chantagem econômica. Esse contraste é o julgamento mais severo sobre o nosso tempo: tudo o que precisa ser imposto à força revela sua própria fragilidade.

Ser igreja, em meio a guerras comerciais e disputas imperiais, não é escolher um lado “mais simpático”. É recusar a lógica inteira. É lembrar – com palavras e com práticas – que o mundo não será salvo por quem acumula poder, mas por quem governa a partir da cruz.

E isso continua sendo profundamente desconfortável. Para os impérios. E, às vezes, para a própria igreja.

Agora, isso que nos parece tão distante, deve nos servir para refletir nossa própria submissão aos poderes deste mundo em pleno ano eleitoral brasileiro. No decorrer dos próximos meses, se acentuará a defesa de um e outro lado como se um ou outro refletisse o senhorio de Cristo e isso é preocupante.

Violência em nome da fé

Image
Image
Image

O que vem acontecendo no Irã desde o fim de 2025 não é um episódio isolado nem um “excesso pontual” de governo. É o tipo de convulsão social que acontece quando um povo já não encontra ar para respirar. Colapso econômico, desemprego, inflação, ausência de perspectivas. E, somado a tudo isso, a sensação corrosiva de que não há canais legítimos para dizer “basta”.

Quando, em janeiro de 2026, os protestos se espalharam pelas 31 províncias, a resposta do regime foi previsível – e brutal. Apagão de internet para interromper a circulação da verdade. Tropas de elite nas ruas. Prisões em massa. Mortes. Relatos de execuções. Quando o poder sente que está perdendo o controle da narrativa, ele tenta controlar o silêncio. O problema é que silêncio imposto não é paz; é compressão. E compressão sempre explode.

Há algo ainda mais perturbador: a repressão não se apresenta apenas como política, mas como sagrada. Protestar vira “guerra contra Deus”. Discordar do regime se torna blasfêmia. A violência ganha verniz teológico. Esse é um dos pecados mais antigos da religião: usar o nome de Deus para blindar estruturas que esmagam gente de carne e osso. Quando isso acontece, não estamos diante de excesso de fé, mas de sua perversão.

Aqui surge a pergunta que atravessa séculos: onde está Deus quando o povo clama por pão, dignidade e liberdade? A Bíblia não responde com abstrações confortáveis. Ela responde com um Deus que ouve, vê e desce. O clamor dos oprimidos nunca é ruído de fundo para o Deus bíblico. Ele não observa de longe, avaliando neutralmente os “dois lados”. Neutralidade diante da opressão é sempre aliança com o opressor.

Por isso a cruz é tão escandalosa. Ela denuncia não apenas a violência política, mas também a violência religiosa que mata em nome de Deus. Um messias executado por um conluio entre poder imperial e zelo religioso desmonta qualquer teologia que sacralize o Estado, o regime ou a ordem vigente. O Deus revelado ali não exige subserviência cega; ele expõe sistemas que se sustentam pelo medo.

Quando pessoas comuns vão às ruas, mesmo sabendo que podem morrer, algo profundamente humano – e espiritualmente significativo – está acontecendo. Não é romantização do sofrimento. É a recusa do desespero total. É a coragem de dizer que a vida vale mais do que a mentira oficial. Há, nisso, um eco da fé mais básica: a confiança de que o não-ser, a morte e o terror não têm a última palavra.

O evangelho não anuncia apenas consolo interior para almas feridas. Ele fala de libertação concreta, de cativos soltos, de estruturas confrontadas. Um reino que começa pequeno, vulnerável, mas que insiste em existir no meio da tirania. A esperança cristã nunca foi ingenuidade política. Ela é, ao contrário, profundamente subversiva: afirma que nenhum império, nenhum regime, nenhuma polícia secreta é eterno.

Os profetas já sabiam disso. Denunciar leis injustas, sistemas que roubam o pobre e decretos que esmagam o fraco sempre foi parte da fé bíblica. E o último livro da Escritura lembra algo incômodo: o clamor dos que morreram injustamente não se perde no vazio. Ele sobe. Ele permanece. Ele aguarda resposta.

O Irã de hoje nos obriga a olhar para além das manchetes. Obriga a perguntar que tipo de Deus estamos anunciando. Um Deus cúmplice da repressão ou o Deus que escuta o grito abafado, mesmo quando a internet cai e as ruas se enchem de sangue. A ressurreição, afinal, não é um detalhe devocional. É a afirmação de que nenhum poder de morte é definitivo – e que toda tirania, cedo ou tarde, será chamada pelo nome.

Migração e Igreja

Vivemos tempos conturbados em que quem tem poder fala forte e quem não o tem é obrigado a se adaptar da melhor forma possível. A igreja, por sua natureza conservadora e sua função de “sal da terra” usualmente confunde isso com nacionalismo ou com alinhamentos políticos mais à direita quando não do lado da extrema-direita. Isso é preocupante. Com isso não estamos dizendo que – necessariamente – a esquerda seja uma opção ou caminho. Mas dizemos que a igreja deve se manter livre e se comportar como cidadãos democráticos exemplares visando sempre a melhor opção para a sociedade em que vive ora movendo a balança para um lado, ora para outro, mas nunca sendo previsível. Ser previsível a torna em fácil refém do palanque politico de um ou outro lado. Isso é, liberdade de pensamento e liberdade de expressão na prática.

Uma das personagens preocupantes no atual cenário é o atual ocupante da Casa Branca assim como o é o ocupante do Kremlin. Há mais, mas fiquemos apenas com o primeiro da lista e sua recente atuação nos casos de imigração. Recentes reportes indicam que a imigração nos Estados Unidos é uma situação de grande envergadura com dados indicando mais de 2.7 milhões de pessoas entrando no ano de 2024. Isso, evidente sobrecarrega o sistema como um todo e enfraquece o país em várias áreas além de – por mais que melhore a vida de quem migra em parâmetros relativos – colocar o migrante em situação vexatória ou como uma classe inferior perante seus pares nacionais.

Com a mudança do habitante da Casa Branca, mudou a política de recepção de imigrantes fazendo com que – por primeira vez em 50 anos – haja uma depressão dos números com uma saída neta de 925.000 pessoas e uma entrada de 185.000 no ano de 2025. Recentemente a secretária de Segurança Nacional (o que seria equivalente a um ministro tupiniquim) afirmou que Estados Unidos tem “arrestado, detido e deportado a seus países de origem” a mais de 650.000 imigrantes indocumentados e que perto de 2 milhões tem se auto deportado. Além disso, se revogaram 100.000 visados estrangeiros em 2025. Para ter uma ideia, apenas em 2025 se revogaram mais do que o dobro em todo o governo Biden. (Ver https://www.telemundo.com/noticias/noticias-telemundo/inmigracion/mas-inmigrantes-salieron-de-los-que-llegaron-a-estados-undios-en-2025-rcna253930)

É obvio que para os Estados Unidos não é nada bom ter imigrantes ilegais. Não apenas pela entrada no país, senão pela sua permanência em situação de semi-residente sem direito a nenhum tipo de assistência a não ser a mais básica e até essa é difícil de obter. Insisto que para quem migra, é – em termos relativos – melhor viver como ilegal lá do que no restante das Américas. Mas ele não percebe que isso mesmo degrada o país ao qual ele se acolhe.

Um titular interessante desses dias diz assim: “Trump ameaça invocar a Lei da Insurreição para reprimir protestos contra abusos de agentes federais“. O artigo contem múltiplas denúncias de violência e mortes em custódia de imigração (ICE), inclusive em Minneapolis e no Texas.
Há relatos de uma “violência sem precedentes” cometida por agentes de imigração e várias mortes de imigrantes sob custódia apenas nos primeiros dias de 2026.

Se colocarmos a lupa sobre os eventos da última semana, veremos que os protestos têm crescido. Se protesta contra abusos de autoridades de imigração dos EUA, incluindo mortes de imigrantes sob custódia e o uso excessivo da força. O governo tem reagido de forma dura, até ameaçando de usar mecanismos legais de exceção para conter manifestações. Tudo isso, evidentemente, expõe tensões profundas em torno da justiça, da dignidade humana e do tratamento dos estrangeiros.

Se perguntarmos para um cristão americano típico do meio oeste ele fervorosamente vai defender a posição do atual presidente. Não que ele não tenha esse direito, mas mostra uma visão oblíqua e estreita do problema como um todo e – ao parabenizar e concordar com o presidente – terceiriza a responsabilidade do que lhe deveria ser mais sagrado por ser isso o que o distingue de outros animais: a capacidade de pensar. O livre pensamento demanda … pensar. E isso, parece que é um bem cada vez mais escasso haja vista a tremenda polarização entre os extremos da vida política mundial.

A Palavra de Deus, em Cristo, – diria Barth – julga tanto as estruturas injustas quanto a própria igreja quando ela se associa a nacionalismo excludentes. A sociedade não tem essa consciência de um Cristo que é o Juiz Justo. A Igreja, sim, tem. Ou ao menos deveria.

Ao longo de toda a Bíblia, o Senhor se lembra dos julgados e marginalizados. E – insisto – por mais que para o imigrante lhe seja uma situação relativamente melhor do que a que vive em seu pais de origem, de fato está ajudando a desconstruir uma nação ao passo que não ajuda a construir a sua.

O imigrante não é apenas uma ameaça ou um recurso econômico (bem mais econômico) a ser administrado ou deportado, ou assimilado. Ele é o próximo a ser amado. E o amor que o Cristo exige dos seus discípulos é o ágape, não o eros ou o fileo. Segundo Nygren, o eros é uma forma de amor interesseiro que “usa” o outro ao passo que o ágape é o amor que se doa. Em se doando, deve denunciar, protestar, levantar a voz pelo oprimido, se posicionar do lado do desvalido.

Mas, talvez você diga, não será que o migrante sabia dessa situação quando saiu do seu país? Claro que sim. Hoje ninguém está desinformado. Mas, assim como a mulher adúltera sabia das consequências dos seus atos, o que importa – ou deve importar – é a situação atual de quem está em subserviência.

Se requer de nós, cristãos, práticas concretas de hospitalidade, justiça para migrantes e denúncia profética de sistemas que negam a imagem de Deus. Sim, um sistema que atropela outras nações, não serve a Deus e sim a seus próprios interesses.


Não se trata, então, de ser de esquerda ou de direita, mas ser do Reino e buscar constantemente sua justiça mantendo um nível de imprevisibilidade que surpreenda sempre.

A justiça que não cabe no tribunal

Antes de mais nada um esclarecimento: não sei grego. Foi uma dessas matérias que tive que deixar de lado no seminário para focar em pedagogia. Todavia, William Barclay escreveu um livro bem bacana que ajuda a entender algumas palavras e dikaiosýnē (justiça) é uma delas.

δικαιοσύνη: justiça que não cabe no tribunal

A gente fala “justiça” e quase sempre imagina um fórum: culpa, pena, sentença, reparação. Mas quando o Novo Testamento usa δικαιοσύνη (dikaiosýnē), ele está falando de algo mais vivo — e mais perigoso. Perigoso porque desmonta o nosso impulso mais automático: estabelecer a própria justiça.

No coração do evangelho, justiça não é só “dar a cada um o que merece”. Justiça é Deus colocar o mundo nos trilhos sem virar refém do nosso ciclo de vingança. É Deus ser fiel à sua aliança, e justamente por isso não abandonar o mundo quebrado. N. T. Wright gosta de dizer que “a justiça de Deus” é a sua fidelidade pactual: Deus cumpre o que prometeu, e por isso ele conserta o que nós estragamos. E William Barclay lembra um ponto que muita gente esquece: para Paulo, justiça não é um carimbo jurídico frio; é relação correta com Deus que transforma a vida e as relações.

Agora, se isso é verdade, a pergunta muda: não é “como eu provo minha inocência?”. É “como eu vivo quando a injustiça me encontra?”

1) Romanos 1.16-17: justiça revelada, não fabricada

Paulo diz: “No evangelho é revelada a justiça de Deus” (Rm 1.16-17). Repara no verbo: revelada. Não é construída por performance moral, nem comprada por boas obras, nem conquistada por superioridade espiritual.

Em chave neo-ortodoxa (e aqui Barth ajuda), o evangelho é o lugar onde Deus se dá a conhecer soberanamente: ele vem, julga e salva — as duas coisas juntas. Deus não passa pano; Deus não negocia com o mal; Deus não terceiriza o acerto de contas. Mas o espanto é este: ele julga salvando, e salva julgando.

Isso tem um efeito prático: se a justiça é revelação, eu paro de tratar justiça como um projeto de autoafirmação. Eu paro de dizer “eu vou mostrar”. E começo a dizer: “Senhor, mostra.”

2) Romanos 3.21-26: o justo e o justificador — no lugar do pecador

Paulo vai mais fundo: “Agora, porém, sem lei, se manifestou a justiça de Deus…” (Rm 3.21-26). Aqui não é teoria; é cruz.

Na cruz, a justiça de Deus aparece como um paradoxo: Deus é justo e ao mesmo tempo justificador. Ele não chama o mal de bem; ele não declara “inocente” por conveniência. Mas ele assume o custo. Barth diria: Deus se coloca no lugar do pecador. Nygren lembraria: isso é ágape, amor que se dá pelos inimigos. Wright insistiria: aqui Deus está cumprindo sua promessa a Israel em Jesus, não para exibir superioridade moral, mas para resgatar o mundo.

E é aqui que a nossa conversa sobre injustiça encosta na ferida de Cristo.

Jesus: a injustiça perfeita e a renúncia ao direito merecido

Se alguém tinha “direito” de estabelecer sua própria justiça, era Jesus. Inocente. Fiel. Sem fraude. E, ainda assim, ele foi tratado como ameaça, como blasfemo, como criminoso. Ele sofreu o tipo de injustiça que não cabe em explicação fácil.

E qual foi o movimento dele?

Pedro descreve assim: “quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pe 2.23). Isso é dikaiosýnē encarnada.

Jesus não estava dizendo: “tanto faz”. Ele estava dizendo: “o Pai julga de forma íntegra, e eu não vou competir com o Pai pelo trono do julgamento”. O caminho dele não foi o da autopromoção moral, nem o do acerto de contas na força. Foi entrega — não passividade covarde, mas confiança ativa no Juiz que não erra.

E aqui o evangelho nos pega pela garganta: muitas vezes o que chamamos de “luta por justiça” é, na prática, luta pelo nosso ego ferido. É a necessidade de sair por cima. Jesus tinha todo “direito” de sair por cima — e escolheu descer, por amor.

3) Mateus 6.33: buscar o Reino e a justiça… no chão da vida

Por isso Jesus diz: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6.33). Não é uma justiça abstrata. É justiça prática: como eu trato pessoas, como eu lido com dinheiro, como eu confio no Pai no cotidiano. Justiça que aparece no prato, no bolso, na agenda, na língua.

E aqui vem a conclusão inevitável: a justiça que Deus revela em Cristo não me autoriza a estabelecer minha própria justiça; me chama a ser uma oferta viva. Paulo chama isso de culto verdadeiro: “apresentai o vosso corpo como sacrifício vivo” (Rm 12.1). Oferta viva é gente que não devolve mal por mal, que não faz da dor um altar para o próprio orgulho, que não transforma a vida numa audiência permanente.

A justiça do evangelho não apaga a injustiça sofrida por Jesus — ela a expõe. E, ao mesmo tempo, mostra o caminho: o Crucificado venceu não porque gritou mais alto, mas porque se entregou ao Pai com integridade. E é essa justiça — fiel, restauradora, prática — que o Reino planta em nós.

Fé dogmática ou fé experimental

Há formas e formas de atravessar a vida. Uma delas é pelo empirismo: provar por si mesmo as nuances do caminho, em vez de admitir que a humanidade já atravessou vales parecidos, se não idênticos.

Existe uma dose de orgulho nisso. Mas também há algo de corajoso, de desbravador. O espírito empírico não se satisfaz com “experiências herdadas” em tudo. Se fizesse isso, nem viveria: a experiência humana não cabe em 70, 80, 90 anos de um único indivíduo.

E, ainda assim, ninguém vive só de empirismo. Sem tradição, você repete erros antigos achando que descobriu a pólvora. Sem experiência própria, você vira um catálogo ambulante de frases alheias.


Na espiritualidade acontece algo análogo.

Existe uma forma de viver a fé estática: “tudo já foi dito”, “tudo já foi vivido”, “o que falta dizer já está contido no que foi dito”. Nessa lógica, o novo é suspeito por definição. Se algo diferente do que “a família da fé” já viu aparece, então com certeza está errado. Como se o Espírito Santo tivesse se aposentado e deixado apenas um arquivo morto.

Chamemos isso, aqui, de fé dogmática quando ela vira postura de fechamento (não quando vira fidelidade).

Do outro lado do espectro há os que negam qualquer forma de dogma. Deus é o Deus dos impossíveis; então, compete a nós “descobrir” diariamente uma coisa inédita. As categorias teológicas, nesse ponto de vista, seriam algemas. Nosso Deus seria puro dinamismo: o surpreendente a cada instante — e o passado, no máximo, uma inspiração poética.

O problema é que esse “dinamismo” facilmente vira uma espiritualidade sem freio: hoje Deus disse A, amanhã Deus disse o contrário, e sempre há uma explicação “profética” para justificar a incoerência.

A Bíblia já manda frear isso: “não creiais em todo espírito; provai” (1Jo 4:1). E ainda: “examinai tudo, retende o bem” (1Ts 5:21). O teste não existe para apagar o Espírito, mas para impedir que a nossa ansiedade use o nome dele.


Colocando assim, parece fácil escolher um lado: ou cremos que tudo está pronto, ou cremos que toda geração precisa reinventar o Eterno.

Só que a fé — como a vida — não é tão simples.

Erra o dogmático quando confunde tradição com imobilidade. Erra o experimentalista quando confunde vida com novidade compulsiva. E a saída não é um “pontinho médio” morno, como se equilíbrio fosse ficar em cima do muro.

A natureza espiritual da Igreja — aquela que transcende denominações, idiomas e séculos — nos obriga a duas lealdades ao mesmo tempo:

  1. lealdade ao depósito recebido;
  2. lealdade ao Deus vivo que continua conduzindo seu povo.

A primeira lealdade aparece sem rodeios: “a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A segunda também: o Cristo ressuscitado caminha com a Igreja, corrige, consola, adverte, abre portas e fecha atalhos (Ap 2–3).

Então o problema real não é “dogma vs experiência”. É quem manda: o Cristo vivo ou o nosso temperamento religioso.


Aqui Barth é útil. E Tillich, do seu modo, também.

Em linhas gerais: Cristo é a Palavra viva de Deus (Jo 1:1–14; Hb 1:1–2). E a Escritura é o testemunho autorizado dessa revelação, aquilo que nos ancora para que a “voz de Deus” não vire eco do nosso próprio coração. “Toda Escritura é inspirada por Deus… para que o homem de Deus seja perfeito” (2Tm 3:16–17). E Pedro ainda amarra: nenhuma profecia é de interpretação particular (2Pe 1:20–21). Ou seja: a Bíblia não é massa de modelar.

Isso soa herético para os dois extremos.

  • Para o dogmático fechado, porque ele prefere uma “Palavra” reduzida a fórmulas fixas — e Deus não cabe num catecismo, por melhor que seja.
  • Para o experimentalista sem critério, porque ele alterna literalismo e alegoria conforme convém, sem paciência para ler texto, contexto, gênero, história e comunidade.

E aí nasce a espiritualidade mais perigosa: a do “Cristo que eu sinto”.

Porque, sim: alguém pode dizer “Cristo é a Palavra viva”, e concluir que tudo o que eu sinto vindo dele já é auto-validado. A experiência vira tribunal, e a doutrina vira refém. Isso é receita pronta para abuso espiritual, seita, manipulação e — ironicamente — dogmatismo novo, com cheiro de “revelação fresca”.

O Novo Testamento nunca tratou experiência como soberana. Tratou experiência como discernível, avaliável, submetida à Palavra e à comunidade. “Falando dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14:29). Julguem. Não aplaudam automaticamente.


O dinamismo cristão não é “cada um com sua revelação”. É um pulsar contínuo: a Igreja interpretando e re-interpretando a Escritura diante de novas perguntas, novas dores, novos desafios — sem trocar o evangelho por modismos.

Foi isso que aconteceu nos grandes marcos históricos.

  • Quando a Igreja afirmou, contra confusões e modas religiosas, que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ela não estava “inventando” Cristo; estava protegendo o evangelho. Por isso Niceia (325) e Calcedônia (451) são tão decisivos. Sem isso, “cruz” vira metáfora e “encarnação” vira poesia.
  • Quando a Reforma (magisterial) insistiu que a Igreja precisa ser constantemente reformada pela Palavra (semper reformanda), ela não estava negando a história, mas chamando a tradição para prestar contas à Escritura.
  • Quando os reformadores radicais lembraram que a fé não é só credal, mas vida concreta, eles cutucaram uma cristandade confortável demais.

Isso não significa que “a tradição manda” nem que “a novidade manda”. Significa que Cristo manda, e ele usa meios: Escritura, comunidade, história, dons, pastores, mestres, e também o sofrimento e a alegria do caminho (Ef 4:11–16).


Milagre, então, entra onde?

Não é questão de “acreditar ou não em milagres no século XXI”. Eu acho pobre a fé que precisa negar o sobrenatural para parecer inteligente — e acho igualmente pobre a fé que precisa chamar tudo de milagre para parecer viva.

A postura madura é outra: docilidade para reconhecer quando Deus age — e humildade para não inventar milagre só porque ignoramos mecanismos naturais. O Deus da Bíblia não tem medo da criação que ele mesmo sustenta.

E mais: a experiência cristã saudável raramente é individual. Ela é comunitária, testada, narrada, examinada, acompanhada. Isolamento espiritual costuma ser incubadora de fantasia.


Agora, duas palavras diretas — uma para cada tribo.

Você, dogmático: continue amando doutrina. Doutrina importa. Mas pare de se esconder atrás de credos como se decorar fórmulas fosse o mesmo que conhecer Cristo. Você pode saber os símbolos e concílios, citar catecismos de cor, e ainda assim nunca ter se rendido ao Cristo vivo. A ortodoxia que não produz arrependimento, amor e cruz não é “fidelidade”: é verniz (Tg 2:17).

Você, experimentalista: continue buscando vida com Deus. O Espírito não é museu. Mas entenda o que você perde quando despreza dois mil anos de oração, martírio, debate, correção e maturidade. Deus não começou a falar com você. A Igreja não nasceu ontem. A sabedoria que te precede não é inimiga da unção — é, muitas vezes, o recipiente que impede a unção de virar delírio.

E um lembrete histórico importante: você é chamado “cristão” não só porque tem uma Bíblia na mão, mas porque confessa o Cristo que a Igreja aprendeu a nomear com precisão ao longo dos séculos — especialmente nos grandes concílios antigos (como Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia). Ignorar isso não é “pureza bíblica”. É amnésia.

No fim, a pergunta não é “dogma ou experiência?”. É outra:

a sua fé te prende a Cristo — ou te prende a você mesmo?

Venezuela, poder e império: quando a “salvação” vem armada

Nos primeiros dias de janeiro, o mundo assistiu a uma cena que parece saída de um roteiro ruim – e por isso mesmo é perigosa: uma operação militar dos EUA na Venezuela culminou na captura de Nicolás Maduro (3 de janeiro de 2026) e, poucos dias depois, na sua apresentação à Justiça em Nova York (5 de janeiro de 2026).

Até aqui, muita gente vai querer torcer a história para caber no próprio bolso moral.

“Foi justiça.”
“Foi sequestro.”
“Foi libertação.”
“Foi invasão.”

E aí vem o tempero que denuncia a alma do negócio: autoridades e declarações públicas passaram a falar em recursos, riquezas, petróleo, “o que agora vai ser redirecionado”, “quem fica com o quê”. Quando a linguagem muda de “direitos” para “ativos”, você já sabe: o altar está montado – e o deus costuma ser o interesse nacional transvestido de virtude.


O problema não é só geopolítica. É liturgia.

Porque impérios não se sustentam apenas com tanques. Impérios se sustentam com narrativas.

E narrativa imperial quase sempre usa um vocabulário religioso: salvar, purificar, libertar, corrigir o mal, trazer ordem. Só que, na prática, essa “salvação” costuma cobrar a conta dos vulneráveis primeiro – os que não têm bunker, nem passaporte, nem rede de proteção.

O risco aqui não é “a Venezuela”. O risco é o modelo: a ideia de que um país pode se investir do papel de juiz, redentor e administrador do destino de outro. E, quando isso acontece, a soberania vira detalhe técnico e a dor humana vira “dano colateral” em rodapé.

Não é coincidência que a legalidade internacional da operação esteja sendo contestada e discutida em organismos e análises públicas: quando você normaliza exceções, você está ensinando o mundo a viver sem chão.


N.T. Wright e a pergunta que corta o assunto no meio

N.T. Wright insiste numa coisa que a igreja esquece quando se embriaga com o noticiário: o evangelho não é um adesivo devocional no para-choque da história; é uma declaração pública de senhorio.

Em termos simples (e explosivos):
Jesus é o Kyrios.
Logo, César não é – nem em versão antiga, nem em versão moderna, nem com bandeira bonita, nem com discurso “humanitário”, nem com promessa de prosperidade.

Quando o evangelho diz “Jesus é Senhor”, ele não está oferecendo um conforto íntimo apenas; ele está desautorizando qualquer império que se apresente como salvador final. O cristão pode até agradecer quando um tirano cai; mas não pode adorar o método, nem santificar a cobiça, nem chamar de “reino” aquilo que cheira a saque.


Como a igreja lê esse tipo de manchete?

Eu faria três perguntas na igreja – sem cinismo, mas com coluna ereta:

  1. Quem está sendo servido de verdade?
    Os pobres? Os presos políticos? As famílias? Ou os interesses estratégicos e os mercados?
  2. Que tipo de “paz” está sendo prometida?
    A paz de Cristo nasce do caminho do Cordeiro; a paz do império nasce da ameaça.
  3. Que tipo de esperança está sendo vendida?
    Porque esperança comprada com propaganda costuma virar desespero quando a conta chega.

E aqui está a disciplina espiritual mais difícil: recusar a idolatria do “meu lado”. O cristão não é obrigado a escolher qual império prefere. O cristão é chamado a confessar que nenhum império é o Reino.

O Reino tem Rei – e ele não usa a linguagem da rapina como se fosse virtude.

Uma igreja sob perseguição

A cruz na carne da igreja: sofrimento, esperança e comunhão real
Em 2025, notícias que vêm da África não permitem neutralidade. Comunidades cristãs inteiras têm sido marcadas por sequestros, assassinatos, estupros, aldeias incendiadas e deslocamentos forçados. A Nigéria, em especial, carrega hoje o rótulo amargo de um dos piores lugares do mundo para se confessar o nome de Cristo. Isso não é retórica alarmista. É sangue, medo e fidelidade concreta.


A pergunta não é se isso nos diz respeito. A pergunta é como ousamos viver como igreja fingindo que não diz.


A Escritura é brutalmente clara: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Co 12.26). Não há corpo de Cristo em versão regional, confortável e blindada. A perseguição não é um problema “deles”, é uma ferida nossa. O que acontece em vilas africanas esquecidas pelo noticiário acontece dentro da mesma comunhão da qual fazemos parte no Brasil.


Aqui, a teologia precisa deixar de ser ornamento e se tornar nervo exposto. Karl Barth insistia que Deus se revela precisamente onde o mundo só enxerga fracasso e fraqueza. A cruz não é um acidente no caminho da igreja; é o próprio caminho. Uma igreja que só sabe cantar vitória, mas não reconhece o Cristo crucificado nos seus irmãos perseguidos, já perdeu o rumo.


Anders Nygren nos lembra que o ágape não é reação ao mérito, mas entrega gratuita — inclusive (e sobretudo) diante do ódio. Isso confronta nossa tendência de selecionar quem merece nossa empatia. O amor cristão não funciona por afinidade cultural nem por proximidade geográfica.


E N. T. Wright aponta para algo ainda mais desconcertante: a ressurreição inaugura a nova criação no meio da história ferida. O sofrimento dos santos não é o capítulo final, mas participação real nos sofrimentos do Messias, em vista da glória que Deus prometeu. O clamor dos mártires em Apocalipse 6 não é esquecido; é ouvido e guardado.


Isso exige discernimento. Existe perseguição real — com morte, prisão e exílio — e existe desconforto cultural, perda de privilégios ou rejeição social. Confundir as duas coisas banaliza o sofrimento dos que realmente pagam com o corpo. A igreja precisa de maturidade para distinguir.


Mas discernir não basta. Somos chamados a orar e agir. Informar-se, interceder, apoiar missões confiáveis, sustentar financeiramente quem está na linha de frente e levantar a voz quando o silêncio é cumplicidade. Hebreus 13.3 não sugere empatia abstrata, mas identificação concreta: “como se estivésseis presos com eles”.


A esperança cristã não nega o horror. Ela o atravessa. Romanos 8 permanece verdadeiro mesmo quando o mundo desaba: nada pode separar do amor de Deus em Cristo Jesus. Nem facões, nem milícias, nem covas rasas.


A cruz já está na carne da igreja. A pergunta é se teremos coragem de olhar para ela — e permanecer fiéis.

Consciência Negra e Igualdade:

Reconciliação sem apagar pessoas

Para a vergonha ominosa de mais de um cristão, novembro vem nos lembrar de uma obviedade que a fé – não poucas vezes – esquece: Deus não faz acepção de pessoas. Não há hierarquia de pele, passaporte, sotaque, classe ou bagagem de vida diante do Criador. Sem ânimo de ser simplistas mas usando o simplismo para agravar a análise: Há pecadores e há graça. Há muro e há cruz.

E, em Cristo e apenas em Cristo, o próprio Criador “de ambos os povos fez um” (Ef. 2:14-16). Discrepar disso não o coloca na lista de meus inimigos, mas o coloca em rota de colisão direta com o que o próprio Senhor está querendo desde o inicio. (Leitores literais da Bíblia vão achar um pouco chocante essa colocação. Já quem tem maior flexibilidade e pode fazer leituras alegóricas com sua maior amplitude e lançando mão de mais fontes entenderá isso claramente)


O Dia da consciência Negra – a ser celebrado o doa 20/Novembro – coloca uma lupa em um problema que gostamos de fazer de conta que não existe: nos molesta o diferente. Com isso não me refiro a que não gostamos de algumas ideias de certa pessoa,mas mesmo assim conseguimos compartilhar a mesa ou um jogo de futebol ou um café ocasionalmente. Me refiro àquela reação espontânea (depois veremos essa palavra) veemente que é contra não já das ideias, mas também da própria pessoa. O campo do debate das ideias, é um terreno de batalha honorável. Já o desprezo do outro – do distinto – pelo fato de ter uma aparência distinta à minha, é uma coisa baixa, abjecta e que só põe de manifesto uma coisa: a falta de conhecimento do outro e o medo como fio condutor das ações. Essas duas coisas andam juntas.

A reação não é espontânea, porque é educada vagarosa ou intempestivamente. O ser humano, assim como um gato reconhece outro gato mesmo com pelagem diferente, precisa ser educado para achar que “a pelagem ” do outro ser humano tem alguma coisa a ver com carater ou similares.


Mas partir do dia da consciência negra e chegar em coisas tão diversas como “o diferente”, não é – por acaso – expandir o conceito a locais que – originalmente – não eram os almejados? Óbvio que sim! E exatamente disso que se trata. Se o dia da consciência negra servisse apenas para focar na situação dos seres humanos negros em solo brasileiro seria apenas uma heteronomia por outra quando aonde quero chegar é analisar a teonomia como solução. Já falarei dessas palavras. Baste agora dizer que nos tornarmos conscientes da situação negra em solo brasileiro em S XXI nos deve – como cristãos reais e não nominais – a levantar a voz sobre outras coisas sem por um segundo sequer diluir o assunto original.

Há quem pense que o Dia da consciência negra é uma pauta política empurrada para a igreja. E não há falta de razão nisso. Nós – detentores supostos da verdade revelada – deveríamos ter sido os primeiros a levantar essa bandeira. Então, a engolir o orgulho e fazer o que nos é devido. Se tornar consciente da situação negra brasileira no S XXI, faz parte do chamado bíblico à reconciliação que não dilui convicções nem compra um universalismo barato. É discipulado com nome e CPF.

Ou dito de outra forma, não porque nossa teologia cristã tem uma dívida imensa com o continente africano, os problemas atuais estão solucionados. Ou mais simples: é uma agenda para cada geração de cristãos.

1) Comecemos por onde Deus começa: dignidade

A Escritura (cabe dizer que é bem anterior a qualquer empreendimento político em prol de ter um dia da consciência negra) define o valor humano antes de qualquer rótulo: imagem e semelhança de Deus (Gn. 1:26-28) Isso – para qualquer cristão mesmo até para aqueles que diluem a autoridade bíblica com tradições e palavras de autoridade, ou aqueles que nem sequer conhecem a Palavra – basta para encerrar a conversa sobre “gente de primeira” e “gente de segunda”.

O racismo, explicito ou educado, manifesto ou regressado, é pecado porque fere o Autor do próprio ser humano. Ponto. Claro, uma leitura literal da escritura levantará mais problemas do que soluções. Mas Gênesis não se presta para leituras literais (em especial em seus primeiros capítulos) por serem poesia.

Esclarecimentos bibliologicos necessários à parte, o fato é de que qualquer forma de racismo, é – na sua forma mais brutal e básica – pecado e pecado afasta a criatura do criador.

Como eu já pude observar em primeira mão racismo entre brancos, me sinto especialmente preparado para atacar um problema tão sujo, baixo e nefasto como o racismo seja este pessoal, institucional, estrutural, veemente, escondido mas desde óptica diversa da que se vê usualmente.

Se observamos a Bíblia – e insisto, mesmo que seja um cristão velinha apagada ela continua sendo sua regra de fé e prática – Paulo tinha um problema similar na região da Galácia. Veja Gl. 3:28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre… pois todos são um em Cristo Jesus. Agora bem, o que se nos escapa dos dedos quando vemos esta passagem tem a ver com um anacronismo descomunal. O próprio império Romano, sob o qual estava a região da Galácia, tinha resolvido já essas diferenças ao – legalmente e de forma prática – absorver muitas raças, cores de pele, linguagens, leis, religiões, etc… Isso coloca de realce o paradoxo sob o qual viviam os gálatas: Eu sou judeu e não me junto com os gentios. Eu sou livre, não posso me juntar com um escravo. etc…

A unidade procurada – onde não há distinção por ser homem ou mulher ou ser escravo ou livre, etc – não é uma coisa que aconteça de forma automática. Aliás, nada na vida cristã o é. Nós que queremos que seja.

A única coisa de graça é a salvação e isso porque o custo é tão alto que só poderia ser por graça para igualar-nos a todos. Tudo o restante na vida cristã, tem um custo e a reconciliação com o diferente não é exceção.

Não é apenas “vamos nos gostar” Na realidade se trata de investir energia, força, intelecto (me faz pensar em “com todo teu coração, com toda tua alma com toda tua força”) em entender o outro e – lá vem treta – conseguir chegar a gostar do outro porque assim mó propus.

Já que estamos nisso, o casamento é igual.

2) Cristo derruba muros, não pessoas.

Corria o ano 33 mais ou menos e o império Romano ia de vento em popa. A absorção de pessoas diferentes por parte da antiga república tinha feito do agora império, uma fortaleça. Mas, isso não era assim no interior do ser humano. Em especial daqueles que criam. Se achavam a última bolacha do pacote, como costumamos dizer. No inicio desse ano, morria o que alguns chamamos de “meu Senhor e salvador” inaugurando uma nova era em que a graça iria reinar em paralelo com a morte, a lei e o pecado (Ref Rom. 5:12ss) e aqueles que entram nessa nova era iriam usufruir de uma nova mentalidade (Ref Rom 12) e muitas coisas mais que não cabem elencar aqui.

Muitíssimos anos depois, e seguindo uma teologia perversa que deshumaniza o ser humano e rejeita veementemente a estrutura proposta por Efésios e Gálatas colocando essa luta entre o antigo e o novo no coração do ser humano como se de um ser esquizofrênico se trata-se.

Efésios 2 é cristalino: Jesus é nossa paz e, na sua carne, desfez a inimizade e edificou uma nova humanidade (Ef.2:143-16). Essa paz, tem endereço: a comunidade local. Nisso tenho duas colocações: Não lhe chama a atenção o número crescente de pessoas que despreza a comunidade local? e segundo, não lhe atrai o pensamento ver como aparentemente as coisas funcionam “melhor” do lado de fora da comunidade? Não vou tocar nisso agora. Baste apenas dizer que o engano de Satanás, é maior, mais perverso, mais profundo e mais visceral do que qualquer um pode imaginar.

Voltando a Efésios. Não é um “Paz e Amor” que pedala em cima da verdade, nem um ecumenismo onde tudo vale e as identidades (conquistadas com tantas lutas) se diluem em prol de um bem maior que é menor da proposta do próprio Cristo.

A unidade bíblica tem centro – Cristo Senhor – e tem forma – arrependimento, fé, e mesa compartilhada. A diversidade de histórias permanece, o muro de hostilidade cai. E onde é que você quer estar? Dentro da nova comunidade fundada por Cristo ou fora dela? Sei… muitos vão dizer: fora dela.

3) O engano da “indiferença cromática”

Tem uma piada infame de um exercito brasileiro com problemas profundos de racismo. Tão grande era a desavença que chegou ao estado maior que mando um dos seus mais condecorados generais tratar do assunto.

Chegando às 0500 os fez formar e começou a lhes falar que eles não eram nem brancos, nem negros. Eram verdes. Todos se enxergam com vergonha e partiram para o abraço depois de mais de duas horas sendo arengados.

A piada finaliza, com o general explicando que – para que eles vejam que se tratava de uma coisa seria – ele tinha providenciado mesas para o recadastramento dos verdes. E que para facilitar o recadastramento, os verde claro iam se cadastrar no escritório da esquerda, e os verde escuro no outro.


“Eu nem vejo cor” soa até civilizado. Como dizem “eu até tenho um amigo negro”… como se fosse um pequeno animal de estimação para desmontar qualquer argumento. “Eu nem vejo cor” soa até civilizado, mas apaga histórias. E é aí que a visão bíblica se torna elevada, imprevisível, grandiosa: A Bíblia não faz de conta que as diferenças não existem: as redime. O mesmo se aplica a “não há mais homem nem mulher” a visão continua sendo a mesma de sempre: há identidades diferentes (que foram RECEBIDAS) que precisam ser valorizadas, não apagadas.

A visão do Cordeiro é de “toda tribo, língua, povo e nação” diante do trono (Ap.7:9) não tem nada de monocromática, mas muito de harmonia. A igreja (e o mundo por ser o local onde a igreja se manifesta) não precisa de paleta única, precisa de amor que enxerga e honra. Então pare de exigir que o outro se torne igual a mim para pertencer. Primeiro vem o pertencimento, depois a transformação con-jun-ta

4) Dando nome aos pecados

Racismo (não apenas contra o negro, mas também contra o indígena, o eslavo, etc) não só é um palavrão explicito (ou blasfémia, como preferir); Vive em piadas, silêncios, portas semiabertas, conselhos homogêneos (veja por exemplo os vereadores da sua cidade), currículos viciados e teologia que ignoram feridas históricas abertas.

Confissão bíblica não terceiriza culpa: eu confesso o meu, nós confessamos o nosso

Amos (meu herói particular neste nefasto ano que fez aniversário final de semana passado) diz assim: “Corra o juízo como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5:24)

Água correndo, poderíamos pensar em eventos sazonais. E isso, em ambientes de seca, é melhor do que nada. Todavia, “perene” me faz lembrar do rio com fundo de pedras que corre constantemente. É ritmo. Então, você se engana se isto é como uma daquelas campanhas de conscientização que nada mais produz do que alguma culpa circunstancial ou um pouco de indignação.

Justiça bíblica pede: a) processos, b) orçamentos, c) hábitos e d) revisão regular dos processos (às vezes achamos que está tudo bem revivendo mamutes ou mantendo estruturas que não mais comunicam desviando – com isso – recursos importantíssimos do que realmente interessa: a redenção da humanidade)

Quem tenha ouvido pelo menos três pregações minhas sabe o quanto eu desprezo a fórmula inócua do encerramento de certas orações “com o perdão dos nossos pecados, amém”. Perdeu vigor teológico. Perdeu vivência. Perdeu sabor. Virou uma repetição sem sentido que apenas mitiga por alguns segundos (se é que dura isso tudo) a culpa que o pecado traz e que tanto esforço a raça humana faz por esquecer.

Sem uma etiqueta apropriada, sem uma contrição pensada, sem um tempo de elaboração, são palavras vazias que até o vento tem preguiça de levar e amontoar em algum lugar porque sua falta de peso e essência as torna piores que folhas secas.

Se necessita então uma analise histórica e cultural do local onde a comunidade está inserida. De nada. me servem as reflexões feitas ao redor do Xingu dos Palmares se isso não comunica nada com dona Tereza, negra de mais de oitenta anos que tem muita história para contar ainda e parece que nós estamos fazendo papel de surdos voluntarios (e voluntariosos) para não coloca-la no centro da cena e revisar a postura histórica que temos tido. Com isso não estou dizendo que eu ou você especificamente – quanto pessoa de ordem física – seja ou sejamos culpados especificamente de alguma coidsa com a suposta dona Tereza. Todavia, sim nos parecemos como aqueles que tamparam os ouvidos e apedrejaram o primeiro martir da fé cristã: Estêvão.

Por aí, ficamos sabendo que a mesma instituição que a deveria ter defendido as Terezas das naus negreiras são similares quando não a mesma que facilitou a fuga de autoridades Nazis ao passo que entregava os que lutavam pelo socialismo (corrente esta que não defendo. Sou cristão.)

Sem historia, não há nome, sem nome, não há confissão, sem confissão não há perdão e sem perdão não há liberdade e sem liberdade (sempre seguindo a Bíblia, não há nem justiça nem paz. Ref Rom 5)

5) Sem universalismo barato nem hiper-ecumenismo

O universalismo (aquela linha teológica que indica que Jesus salvou todas e cada uma das pessoas na sua morte na cruz) despe o corpo doutrinario cristão acumulado (e defendido em intensas lutas intestinais) durante séculos e o expõe como coisa desprezível, rasa e sem significado. Existem – ao meu ver – dois grandes grupos dos participantes do universalismo: aqueles que – na sua leitura da Bíblia, de forma honesta e numa tentativa imparcial, enxergam no inferno e sua existência uma contradição com um Deus amoroso. Estão nesse mesmo grupo, os que, por falta de peso histórico, ou de tradição – se assim gostar – avançam em Romanos 5 para além dos seus limites e acabam colocando a cerca do outro lado do precipicio onde mais nada tem de útil.

O segundo grupo, são os bem intencionados e desprovidos de qualquer intensidade na fé ou interesse pelas escrituras, ou sequer algoma forma simples de curiosidade pela verdade (que por mais complexa que seja não deixa de ser verdade mesmo não a entendendo) acabam cultivando essas pedras parecidas com semi-preciosas que só tem um único brilho e acaba confundindo quem – de fato – se intreressa pela vida e – por consequência – sua preocupação última. E não se trata aqui de “salvação da alma” como se o restante não fosse importante. Se trata de que o universalismo nada mais é do que uma fuga da realidade soteriologica (isto é, coisas referentes à salvação)

No universalismo, não apenas a conduta deixam de ser importantes, como também a crença se torna supérflua. Ou como dizia meu amigo: à toa que nem buzina em avião (sim, eu sei que os aviões tem buzina, mas fiquei sabendo 40 anos depois dele insistir nisso… então tá valendo)

Ou seja, a existência humana é apenas um grande funil em que tudo vai se juntar no final sem importar absolutamente nada.


O companheiro quase que natural do universalismo é o hiper-ecumenismo. Não falo do caminho comum (isso que significa ecumenismo) que temos entre Batistas, Presbiterianos, Metodistas, Certas formas de Catolicismo, etc…. Mas aquele que apregoa que – já que tudo vai dar na mesma – não interessa o que você creia contanto o sinta e seja intenso nisso. Ou seja, nada mais parecido ao movimento hippie do final dos anos 1960.

Um é mestre do outro. Um depende do outro. Um arrasta o outro. Não interessa qual dos dois aparecer primeiro, na realidade, o outro vai aparecer junto. Essa simbiose esotérica, apenas afunda mais a pessoa em um sem sentido… Só que agora, é maior, mais abranjente, e com linhas cada vez mais difusas.

Se seu filho não acredita em Cristo, a eternidade dele é longe do Cristo. Simples. Mas é dessa simplicidade que precisamos para acordarmos à realidade espiritual que vivemos em que há regiões espirituais inteiras ocupadas em incentivar o hiper-ecumenismo e o universalismo.

Está tudo perdido no ecumenismo ou no universalismo? É todo ruim? Não, até do Diabo é possível tecer elogios importantes e que poderiam ser modelos para a vida cristã. Quer exemplos? A tenacidade, e a persistência com que ele se dedica a ofuscar o caminho da verdade.


A estas alturas do campeonato, você deve se estar perguntando o que tem a ver A com B. Não era do dia da consciência negra que estavamos falando?. Sim, era e continua sendo, mas sem essa introdução certas coisas que irei propor podem soar a universalismo ou hiper-ecumenismo.

Então 1) sejamos claros: nem todo caminho leva a Deus. Apenas Jesus o Cristo encarnado, morto e resurreto. Justamente por causa disso, o evangelho não está – de forma alguma – limitado aos de determinada cor ou determinada região, ou a certo sotaque ou origem, ou cicatriz. Fé, alinhada ao Criador, não vibra com rótulos; vibra com arrependidos. Graça é inclusiva; discipulado é exigente. E é muito interessante a multidão de supostos cristãos que gostariam que fosse ao contrario. 2) Exercicio de conscientização podem ser realizados com comunidades afro. Não é obrigatório, mas na honestidade histórica, isso se torna necessário. Eu acho que, para este ponto você está plenamente apto para entender a razão de por que refutar tanto o universalismo como o hiper-ecumenismo.

O pecado, tem suas emanações atingindo a sociedade como um todo. Não fica limitado apenas ao próprio corpo ou às próprias ideias. E vestir-nos de humildade necessária para participar de um evento de imersão nas mais diversas situações de ordem racista-histórico-cultural requer não apenas coragem, requer conhecimento. De outra forma é apenas um ato social que nada contribui para a compreensão do outro que – não por um acaso – compartilha sua mesmma base de cidadania. (Volte no lance do Zumbi dos Palmares que falei antes)

Um ato de imersão desses, não é um evento evangelistico. É um ato de amor para com o outro… para como diferente… o que precisamos compreender antes de sequer pensar em chegar a certas conclusões (já ouvi que se os ancestrais foram escravos era porque mereciam)

Então, sintetizando este ponto que – óbviamente – requereria um artigo à parte que não vou escrever – podemos dizer que O Evangelho acolhe e transforma. Nessa ordem estrita.

Toda e qualquer coisa que você fizer para inverter essa ordem, é pecado. Toda e qualquer coisa que você – podendo – deixar de fazer para entender seu vizinho diferente, é um pecado de omisão.

Então, o que você vai fazer com isso tudo?

P.S. E o tal da teonomia…? Ah sim, esses são três termos interessantissimos um usado usados e outros dois cunhados pelo teólogo e filósofo Paul Tillich. Na autonomia (lei própria), você é dono de sim, responde à sua própria lei interna (bastante parecido com o anarquismo quanto corrente filosófica ideal) e se todos são autônomos, idealmente, não há necessidade de que outro te governe. Mas aí que está, sempre há o outro que governa, esse é o heteronomo (regras ou leis do outro). O diferente, distinto, que governa o ser que não mais pode ser autônomo. O que Tillich (Filho de pastor ortodoxo, formado como teologo liberal, desencantado da inutilidade da teologia liberal para o ser humano e um dos fundadores da neo-ortodoxia) observou é que na história há uma inversão de valores: Quem em algum momento era um ser governado por outro, quando teve oportunidade de lutar e se desvencilhar do jugo, se tornou no heteronomo para o outro. Com isso, o oprimido passou a ser opressor e o ciclo se repete. Para ele a solução passa não pela ilusão da teocracia (como no Irã, por exemplo, ou no Vaticano) mas pela teonomia (norma do theos), em que cada ser individual, se sujeita não já ao heteronomo mas sim ao Criador. Se eu for sintetizar o artigo numa frase: não estariamos nesta situação se cada um de nós tivesse colocado Deus como seu Senhor e não apenas como galo de briga em rinhas de quarta categoria.

O cansaço do século e o chamado do Evangelho

Vivemos um tempo em que o desespero virou rotina. Segundo a OpenAI, mais de um milhão de pessoas por semana falam sobre suicídio com a inteligência artificial. Não é ficção — é estatística. E por trás de cada número há uma alma cansada, alguém que já não encontra sentido ao acordar.
O problema não é apenas clínico, é espiritual. É um grito que pede sentido, e o sentido é precisamente aquilo que o Evangelho oferece: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11:28).

Quando a máquina escuta e a Igreja se cala

É chocante: enquanto milhões desabafam com uma IA, muitos não encontram espaço para falar dentro das igrejas. Falta escuta, sobra julgamento. Falta abrigo, sobra discurso.
O ser humano fala com a máquina porque espera o que deveria encontrar no povo de Deus — atenção, acolhimento e esperança.
Se uma tecnologia pode ouvir com empatia, quanto mais a Igreja deveria ser um lugar seguro para os que estão à beira do colapso.

O descanso que não se programa

A IA pode responder, mas não pode abraçar. Pode orientar, mas não pode redimir.
Somente Cristo pode oferecer o tipo de descanso que a alma precisa — não o descanso de “fugir do mundo”, mas o de enfrentá-lo com esperança.
Ele não promete eliminar o peso, mas dividir o fardo. E esse é o evangelho que o mundo exausto precisa ouvir novamente: o de um Deus que se aproxima dos que choram e lhes devolve o sentido de existir.

A missão da Igreja no tempo da angústia

A igreja que prega, mas não escuta, trai o Evangelho que anuncia.
A missão hoje é clara: falar da esperança, mas também encarná-la.
Não basta dizer “Jesus salva” — é preciso mostrar como Ele acolhe, sustenta, consola.
Cada grupo, cada culto, cada encontro pode ser o espaço onde o cansado descansa e o desesperado encontra fôlego.

Final

Num mundo onde máquinas ouvem milhões de desabafos, que a Igreja volte a ser o lugar onde a alma encontra descanso em Cristo.
Porque o Evangelho continua sendo a resposta mais humana ao desespero mais profundo.

Saúde mental e a esperança cristã

Esperança em meio à angústia: Cristo como fundamento da dignidade e restauração humana.

Vivemos tempos de exaustão emocional coletiva. Ansiedade, depressão e solidão tornaram-se quase uma linguagem comum, falada em sussurros por quem teme ser julgado. O tema da saúde mental já não pertence apenas à psicologia – tornou-se também uma urgência espiritual. E a Igreja, se quer ser fiel ao Evangelho e de certa relevância na sociedade em que vive, não pode se calar diante do sofrimento humano.

Mantidas as proporções e a distância, existe um paralelo em como a sociedade judia tratava a lepra (e os leprosos) em tempo de Jesus e como nós – como Igreja – tratamos a saúde mental. E temos de tudo, mas geralmente, nada positivo ou construtivo. São poucos os exemplos que se permitem observar a fragilidade da existência humana e se escapam de soluções do tipo “tudo ou nada”. Ou seja: aquelas soluções que revestem de ares espirituais realidades mentais muitas vezes devastadoras.

É comum que a fala “suficientes em Cristo” a tiremos do ambiente soteriológico (ou seja, relativas à salvação) para colocá-lo em questões de ordem mental. Tão comum é isso, que para muitos parece uma afronta dizer que – em certos casos – é necessário o cuidado profissional e não basta apenas a oração.

A mente é o lugar onde se misturam pensamentos, emoções e reações do corpo.
É como uma ponte entre o que sentimos, o que pensamos e o que fazemos.
Quando algo se desorganiza — por dor, trauma, estresse ou desequilíbrio químico — essa ponte pode se quebrar. Assim como um osso se quebra, a mente também precisa de cuidado e tempo para se curar.

Recentemente uma colega de serviço foi atropelada enquanto dirigia sua moto. Quebrou a bacia, o fêmur em várias partes e teve fratura expostas. Óbvio que ela agradece as orações, mas com certeza a intervenção de um conjunto de profissionais da saúde é não apenas bem-vinda, mas essencial para a recuperação. Se não olhamos para a mente como olhamos para o osso, continuaremos a acumular culpa improcedente sobre quem padece e trataremos os profissionais da saúde mental como charlatães. Não é de estranhar que o movimento igual e contrario seja semelhantemente forte.

Karl Barth lembrava que o grito do homem aflito encontra resposta não em si, mas na revelação de Deus em Cristo. A esperança não nasce da autoajuda, mas da graça que se faz carne. Tillich chamou isso de “a coragem de ser”: continuar existindo mesmo quando o desespero parece mais real que a fé. É coragem de seguir, não por força própria, mas sustentado por uma presença que não nos abandona.

A saúde mental, à luz do Evangelho, não é ausência de dor, mas a presença de sentido. Jesus não prometeu eliminar o peso, mas compartilhá-lo: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt.11:28). O alívio vem do encontro, não da fuga. Esse texto, por mais que pode ser usado em mensagens evangelísticas e faz muito sentido, na realidade é um chamado aberto a todos: aqueles que estão longe do evangelho e também os discípulos. Limitar ele a assuntos salvíficos, é diminuir sua potência de forma irresponsável.

É precisamente aí que a comunidade cristã se torna (ou deveria se tornar) um espaço de cura: quando deixa de ser tribunal e se torna abrigo. Quando acolhe sem rótulos, escuta sem pressa, ora sem impor fórmulas. O Cristo ressuscitado, como recorda N.T.Wright, inaugura uma esperança concreta – não apenas espiritual, mas que toca corpo, mente e criação. A ressurreição é o anúncio de que a dor não é o fim.

Neste Dia Mundial da Saúde Mental, o chamado é duplo: cuidar e ser cuidado. Romper o silêncio, acolher o cansaço alheio, e lembrar que a fé não é inimiga da terapia – é sua companheira (desde que seja uma fé saudável, vale dizer)

Finalmente, mas não menos importante: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido” (Sl.34:18) E nessa proximidade, nasce a esperança que não decepciona (Rm.8:18-25)

¹⁸ Eu penso que o que sofremos durante a nossa vida não pode ser comparado, de modo nenhum, com a glória que nos será revelada no futuro.
¹⁹ O Universo todo espera com muita impaciência o momento em que Deus vai revelar o que os seus filhos realmente são.
²⁰ Pois o Universo se tornou inútil, não pela sua própria vontade, mas porque Deus quis que fosse assim. Porém existe esta esperança:
²¹ Um dia o próprio Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo e tomará parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
²² Pois sabemos que até agora o Universo todo geme e sofre como uma mulher que está em trabalho de parto.
²³ E não somente o Universo, mas nós, que temos o Espírito Santo como o primeiro presente que recebemos de Deus, nós também gememos dentro de nós mesmos enquanto esperamos que Deus faça com que sejamos seus filhos e nos liberte completamente.
²⁴ Pois foi por meio da esperança que fomos salvos. Mas, se já estamos vendo aquilo que esperamos, então isso não é mais uma esperança. Pois quem é que fica esperando por alguma coisa que está vendo?
²⁵ Porém, se estamos esperando alguma coisa que ainda não podemos ver, então esperamos com paciência.

Romanos 8:18-25