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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

Chamados à infância do Reino: proteger, acolher e formar

Há algo profundamente errado quando uma criança deixa de brincar cedo demais. O fenômeno da “adultização” infantil não é apenas sobre roupas inapropriadas, exposição a conteúdos violentos ou pressões escolares exageradas. É sobre uma infância sequestrada pela pressa do mundo — uma pressa que transforma filhos em miniaturas de adultos ansiosos e pais em espectadores cansados diante da avalanche de telas e discursos.

Robert Raikes
Robert Raikes – Fundador da Escola Bíblica

Antes um pouco de história.

Se tomarmos em conta a Idade Média até o início da Idade Moderna (Séculos V a XVII) observamos que a infância não era vista como uma fase diferenciada da vida. Assim que saíam da primeira infância, as crianças eram tratadas como adultos em miniatura. Ou seja, usavam roupas semelhantes às dos pais, participavam do trabalho familiar (Tarefas domésticas, oficinas, campo, etc.) e a educação formal era restrita a poucos.

Com o avanço da pedagogia nos séculos XVII-XVIII, do pensamento iluminista e mais tarde de Rousseau, surge a ideia de que a criança é um ser em desenvolvimento, com necessidades próprias. A educação passa a valorizar o ritmo infantil e a infância começa a ser vista como uma etapa específica da vida.

É justamente nesse contexto que surge a primeira escola bíblica em moldes bastante parecidos com as atuais e cujo espirito faríamos bem em resgatar. Robert Raikes (o senhor na imagem anterior. Um anglicano leigo que era jornalista e filantropo) organiza a primeira Sunday School (Escola Dominical). O objetivo era educar as crianças pobres e trabalhadoras, ensinando-as a ler e escrever a partir da Bíblia. E isso acontecia aos domingos, pois as crianças passavam a semana em fábricas. Se bem era um projeto social e missionário, estava longe de ser proselitista. (Hoje temos um problema serio com isso, somos tão mesquinhos que se a pessoa não congrega, não damos ajuda. Uma vergonha)

Se avançamos para o século XIX com a sua revolução industrial, vemos que ela trouxe (a um ritmo alarmante para a época) sérias contradições. Crianças eram exploradas em fábricas e minas, mas, ao mesmo tempo, começaram os primeiros movimentos de legislação protetiva que eram contra o trabalho infantil na Inglaterra a partir de 1833. A escola pública obrigatória (final do século XIX) reforçou a separação entre infância e vida adulta.

Foi durante esse período que o movimento se espalhou rapidamente pela Inglaterra e depois pelos Estados Unidos e outras partes do mundo. Lentamente a ênfase passou de alfabetização para instrução religiosa sistemática. A primeira escola bíblica em solo tupiniquim foi realizada em 1855 em Petrópolis/RJ organizada por Sartah Kalley, missionária escocesa da Igreja Congregacional e esposa do Dr.Robert Kalley considerado um dos pioneiros do protestantismo no Brasil.

Finalmente, no século passado, se consolida a concepção moderna da infância como tempo de proteção, educação e formação. As roupas se diferenciam nitidamente, brinquedos e literatura infantil se multiplicam e convenções internacionais (como a declaração dos direitos da criança da ONU em 1959) cristalizam a infância como categoria própria

A adultização de crianças em solo tupiniquim

Vivemos num país em que, paradoxalmente, se discute tanto a proteção da infância e, ao mesmo tempo, se normaliza a exploração dela. As redes sociais transformaram crianças em produto. A publicidade lhes rouba o encanto da descoberta. O sistema educacional, muitas vezes, lhes impõe competitividade antes de tempo. E nós, famílias e igrejas, ficamos atordoados diante de um cenário onde o “deixai vir a mim os pequeninos” (Mc 10:14) parece ecoar contra nós como acusação.

A Escritura nunca romantizou a infância. Mas Jesus a ressignificou como metáfora da entrada no Reino: dependência, confiança e vulnerabilidade. A criança não é um adulto em miniatura, nem um projeto de consumo. Ela é dom de Deus, herança preciosa (Sl 127:3), chamada a florescer sob cuidado e disciplina que não provoque à ira, mas à vida (Ef 6:4).

A neo-ortodoxia de Barth e Tillich lembraria que não se trata de um problema moral isolado, mas de um sintoma da queda: nossa tendência de instrumentalizar o outro, inclusive os mais frágeis. N.T. Wright acrescentaria que a comunidade cristã é chamada a ser sinal do novo mundo de Deus, onde os pequenos não são explorados, mas acolhidos como protagonistas da fé.

Atitudes necessárias a partir do Reino

O que fazer, então? A primeira resposta não é política pública, embora ela seja necessária. É conversão comunitária: famílias que redescobrem o tempo da escuta, igrejas que não apenas “dão espaço” às crianças, mas reconhecem nelas mestres da fé. Um espaço onde brincar não é perda de tempo, mas sinal de eternidade; onde a formação não é pressão, mas cultivo paciente.

A pressa em fazer das crianças adultos cedo demais revela, no fundo, nossa incredulidade. Não confiamos no tempo de Deus, não confiamos no Reino que cresce como semente em silêncio. Transformamos filhos em fardos ou vitrines, quando deveríamos recebê-los como parábolas vivas da graça.

Se não nos arrependermos, repetiremos o ciclo: filhos cansados, famílias esvaziadas, igrejas sem infância. Mas se ousarmos, como comunidade, recuperar a infância — não apenas a das nossas crianças, mas a nossa diante de Deus — então seremos, de fato, “pequenos” no Reino. E ali, paradoxalmente, encontraremos grandeza.

A esperança cristã diante do caos: reconciliação e justiça em tempos de conflito

Jesus era um mestre com as palavras. Repare, por exemplo, em como ele fazia uso das parábolas e em especial como elas faziam sentido para o grupo de discipulos ao passo que os outros ficavam – propositalmente – sem saber de fato do que se tratava. São como mísseis teledirigidos: eles tem um ponto específico que atingir.

Outra coisa das parábolas, é que elas nos fala de uma situação conhecida, mas distante de nosso convivio. Ou dito de outra forma: falava de coisas que eram assunto entre os ouvintes, mas nenhum deles poderia se sentir atingido ou apontado com o ensinamento já que “era sobre os outros”.

Então, por que não falar da situação na Ucrânia? É uma coisa conhecida – ao menos na teoria para os leitores tupiniquins – e ao mesmo tempo distante, que nos pode falar de coisas bem corriqueiras sem que por isso nos ofenda ou coisa assim.

A semana foi marcada por avanços e recuos militares na guerra de agressão que Rússia desenvolve contra seu ex estado vasalo, a Ucrânia. Também durante a semana houve um aumento das tensões entre EUA, Europa e Rússia. Se discutem sanções e acordos comerciais. Enfim, o cenário internacional permanece instável, com impactos sociais e econômicos significativos.

Como dizia Susanita da tão amada tira cómica de Quino nos anos 60 e 70 – Mafalda – “Menos mal que o mundo é tãaaao longe!”

Qual é a condição, as ferramentas, e o conteúdo da mensagem cristã em situações de agressão (Antes de responder, lembre da agressão do Hamas contra o estado de Israel e a resposta que este está tendo e a situação do povo palestino)

E essas condições, ferramentas e conteúdo, se pode aplicar a qualquer conflito? Ou é apenas para casos de geo-política? Será que há tanta diferença de um conflito armado a um espiritual? Ou de um militar a um civil? Ou de um civil a um familiar? Ou de um familiar a um pessoal?

  1. Existe esperança.O que hoje se estima como desgraça, na realidade trata-se da grande graça. A esperança. Se bem é verdade o que alguém disse sobre a guerra “A primeira baixa é a verdade” também é certo que podemos afirmar que “a última sobrevivente é a esperança” sendo que – ao faltar esta – tudo está perdido pois esta sobrevive mesmo até o findar dos recursos e sem esperança, nem mesmo com recursos é possível achar uma saída ao conflito.Ucrânia, não apenas tem se mostrado resiliente como também tem se mostrado inovadora nas modalidades de defesa adiando o final da guerra para “poder lutar amanhã” até que o reforço do ocidente (tão obviamente necessário) se faça manifesto de forma incontestável.
  2. O caos desafia toda esperançaO caos é anterior à criação. Na criação, Deus se opõe ao caos colocando paz y harmonia. O mundo tenta imitar a paz de Deus, mas não consegue evitar o caos ou lhe dar uma solução ou pelo menos uma explicação aceitável. Apenas levantar perguntas – muito boas por certo – mas sem uma solução palatável.A guerra – que como muitos dizem é o estado natural do homem moderno e é o que o distingue da humanidade anterior – traz o caos. A alteração brutal da vida comum. O sobressalto desnecessário no meio da noite. Os ataques inumanos contra hospitais, escolas, centros de detenção, centrais de energia termo-nuclear, reservatórios de água, etc…Ir para um estado de paz, requer mais do que boa vontade. E repare que não falei em “voltar” e sim em “ir”. Nunca mais a situação será a mesma. Mas há esperança e o caos não prevalece.Todavia, esse “não prevalecer” não é natural. Ou seja, a esperança por si só, não tem o vigor necessário para prevalecer contra o caos. E esperança está no impotente. Daí que só o potente pode – de fato – enfrentar o caos… como na criação.
  3. A justiça como resposta ao caosO caos ocasionado por decisões de seres humanos, só pode achar seu cauce de vazão na justiça. Daí que a tão almejada paz não se alcance enquanto haja esperança, recursos e injustiça. Tire só um dos três pilares e os outros prevalecem. Como a esperança não pode ser tirada e a justiça não pode ser instaurada no atual estado de coisas, apenas resta aos que podem, retirar e ameaçar tirar os recursos. Que sobra: esperança e injustiça. E isso é receita para o fraticidio a longo prazo.Então a justiça (os oblast de Ucrânia ocupada precisam voltar a serem da Ucrânia, os crimes de lesa humanidade precisam ser julgados, etc) precisa prevalecer. Ou, dito de outra forma, a mentira inicial que deu o “amparo” moral que Putin precisava, precisa ser escancarada. (Assim como precisaria a mentira que levou ao segundo ataque ao Iraque no final dos noventa)Sem justiça, a paz não tem como existir quanto menos se sustentar.Talvez por isso que “justificados … temos paz” Romanos 5. Ou seja, endireitados temos paz com Deus.

Agora, avaliemos outros conflitos antes de apressar-nos com as conclusões. Pensemos em outros conflitos como o caso do Iran contra o resto do mundo. Ou da Cachemira, ou de China contra Taiwan. Ou da Rússia contra o Japão. Ou dos EUA contra o restante do mundo comercialmente.

Pode encontrar sempre esse mesmo tripé.

Mas pensemos em situações familiares, ou de casal. Sem justiça, não há como florescer a paz e a esperança e os recursos vão definhando até não ser possível uma reconstrução. É facil se sentir injustiçado. Dificil é promover a justiça quando isto tem prejuizo próprio.

Porém, se observarmos mais fundo, pessoalmente também há esse estado caotico da alma humana com seu criador e – a partir disso – com outras criaturas e com a natureza, mas pior que tudo, consigo mesmo o ser humano está em constante rebeldia e dessassossego.

Lamentavelmente, por mais que os livros de auto-ajuda indiquem o contrário, você não pode – por esforço próprio – conseguir estar em paz com seu Criador e – por conseguinte – com você mesmo. É uma questão de tempo até que as rochas afiladas do fundo do seu rio, apareçam depois das aguas do esforço proprio vazarem e derem lugar à realidade.

Me acompanhe só mais um minuto… De um plano distante como a Ucrânia, em que nos resulta bastante fácil dar palpite e formar opinião, fomos avançando até chegarmos ao cotidiano e pessoal.

Em certo sentido, lhe vai parecer risível a proposta que vem, mas na realidade ela é poderosa demais para que seja levada a sério pela maioria.

A nossa situação se parece com os rebeldes dos oblast da Ucrânia: ajudados por um poder externo, atacam a própria nação. De igual forma, ao aceitarmos a invasão em âmbito pessoal das ideias, principios, regras de convivio, valores dúbios, auto-indulgencia, etc, o que estamos fazendo – em território pessoal ou familiar – é convidando um poder muitissimo maior do que nós para nos respaldar em nossa rebelião. Repetimos a história do Eden. Daí que Paulo diz “todos pecaram e estão destituidos da glória de Deus”

E aí que vem a solução que para o mundo é chamada de “maldita” pois lhes parece loucura. (E não lhes poderia parecer outra coisa)

O que foi que Deus fez quando a rebelião alcançou seu auge? Qual era o plano desde antes da criação do mundo? Conforme diz a segunda carta aos Coríntios, “Deus nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação” (2Cor. 5:18-20)

A reconciliação que Deus fez conosco (a custo da vida do próprio filho) não pode ser tido como um exemplo apenas, mas sim como uma razão de ser. Ou seja, a reconciliação (mesmo com custo pessoal) faz parte do ser cristão. O novo homem partilha da responsabilidade (glória) da nova criação e participa assim dos sofrimentos do Cristo ao estender a mão da reconciliação para quem – como nós – não a merece.

Graça sobre graça de forma prática. O Reino de Deus pode ser visto como o grande projeto de reconciliação de Deus com a raça humana. Veja bem, não é o homem que se reconcilia com Deus, é Deus quem reconcilia o homem com seu Criador.

Como que isso afeta o panorama mundial. Bem, primeiro que não há nada que não seja espiritual e isso fica de manifesto em guerras, epidemias, e todo tipo de catástrofe. O mesmo vale para relações familiares ou para nossa vida pessoal.

Essa conexão é facil de demonstrar: não interessa se o sistema que domina um país é democratico ou autocratico, todo governo teme à opinião do povo pois quando o povo se levanta, muitas coisas mudam de forma repentina. Sim, sei que também essas mudanças não conseguem se suster por muito tempo e o povo se evapora assim que a mudança é realizada dando lugar a outro esquema (geralmente tão ruim quanto o primeiro) contanto prometa algumas mudanças que atingem a massa.

Bem, seja como for, há uma realidade espiritual conectada à nossa realidade “humana”. Ou dito de outra forma: os gregos estavam certos em fazer uma tricotomia do ser humano: alma, corpo e espirito. Os judeus estavam certos em sua dicotomia. Os orientais estão certos em observar que há algo para além do físico. Enfim.

O ponto aqui é que o que a igreja proclama, tem um peso importantissimo mesmo a miles de kilometros de distância (sem por isso diminuir ou eliminar a reponsabilidade e as possibilidades pessoais que há in-situ).

Se a igreja para de idolatrar ou demonizar a esquerda e a direita, ela fica livre para assumir seu lugar na história. Qual lugar é este? Do lado da restauração da imagem de Deus na sua Criatura. Como se consegue isso? Por meio da mensagem da reconciliação.

Veja. Não há nada tão importante como a superação do caos. Deus não é a fonte do caos. Logo, a superação do caos, é a constante do Criador. Todavia, em sua liberade, o ser humano tem escolhido (e escolhe regularmente) ir contra seu criador.

Mas Deus, o deus que se revela na Bíblia, é soberano sobre a história. Nada há que se escape do controle dele. Não é possível ele concordar com o que o homem – em seu desejo por se afastar do Criador – escolhe. Logo, é a Igreja a encarregada de fazer sua parte do serviço aqui na Terra. E para isso, deve anunciar a mensagem que é o cerne da restauração do Criador na Criatura: a mensagem da reconciliação.

Ucrânia e Rússia enfrentam uma guerra fraticida. Compartilham centenas de anos de similaridades culturais e religiosas. Mas se matam entre eles. É obvio que parece uma mensagem fraca (e talvez por isso me detive a explicar o por quê a justiça é necessária para alcançar a paz e não ao contrário), mas a mensagem que a Igreja tem é a de reconciliação. Ou seja, o que é sinal mesmo de justiça e paz após o conflito? A reconciliação.

O mesmo vale para as familias, o mesmo vale para os casais, o mesmo vale para o individuo em sua rebeldia com Deus.

Está você em rebeldia com Deus? Acha que a solução para o Hamas é apenas bala e vala? Então é melhor começar a se arrepender.

“Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” Mateus 5:9

A Comunidade: Um Espaço de Descanso e Comunhão

Descanso e Comunhão

A ideia de que a comunidade religiosa deve ser um lugar de descanso e comunhão é algo que ecoa profundamente em nossos corações. No entanto, muitas vezes, essa realidade se distancia da prática cotidiana. A frequência no templo, embora seja um aspecto importante, não deve se limitar a uma rotina sem significado. É necessário que o espaço de encontro com Deus e com os outros seja leve, respirável e humano, onde as pessoas possam se sentir acolhidas e apoiadas.

A Visão Bíblica

A Bíblia nos apresenta várias passagens que destacam a importância da comunidade como um lugar de apoio e descanso. Em Mateus 11:28-30, Jesus diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas.” Essas palavras nos lembram que a comunidade deve ser um refúgio para os cansados e sobrecarregados.

O Templo como Espaço de Encontro

O templo, ou a igreja, deve ser mais do que um local para cumprir uma obrigação religiosa no domingo. Deve ser um espaço onde as pessoas possam se encontrar com o povo de Deus de maneira autêntica. É um lugar onde se pode descansar, sem a pressão de fingir que tudo está bem quando não está. Em Hebreus 10:24-25, lemos: “E consideremo-nos uns aos outros para nos estimularmos ao amor e às boas obras; não deixando de congregar-nos, como é costume de alguns, mas exortando-nos uns aos outros; e tanto mais quanto vedes que se aproxima o dia.

A Comunidade como Refúgio

Para que a comunidade alcance sua finalidade proposta, é essencial que seja um lugar onde as pessoas se sintam livres para serem elas mesmas. Deve ser um ambiente onde se olha no olho, se escuta sem pressa e se abraça sem medo. Em Gálatas 6:2, Paulo nos lembra de que devemos “carregar os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.” Isso significa que a comunidade deve ser um lugar de apoio mútuo, onde as pessoas se sentem seguras para compartilhar suas lutas e alegrias.

Exemplos e Ações Pontuais

Para tornar a comunidade um espaço de descanso e comunhão, podemos adotar algumas práticas simples, mas significativas:

  1. Grupos de Apoio: Criar grupos onde as pessoas possam compartilhar suas experiências e receber apoio emocional e amparo espiritual.
  2. Atividades Comunitárias: Organizar atividades que promovam a interação e o laço entre os membros, como refeições compartilhadas ou projetos sociais em que a fé tome forma apalpável.
  3. Ambiente Acolhedor: Transformar o templo em um espaço acolhedor, onde as pessoas se sintam confortáveis e à vontade mas sem por isso se sentirem confortáveis com seu próprio pecado. Aliás, é na comunhão da igreja local apenas que se encontra essa mistura poderosa… esse dynamis ou poder-em-ação de Deus.
  4. Mensagens de Esperança: Focar as mensagens religiosas em temas de esperança, amor, aceitação, cura do pecado, redenção.
  5. Mensagens de Transformação: Deus é o primeiro interessado em acolher e receber para uma posterior transformação. Acolhimento sem transformação é apenas “afofar a consciência”. O evangelho é uma mudança radical: uma nova consciência.

Conclusão

A comunidade religiosa deve ser um lugar onde as pessoas possam encontrar descanso, apoio e comunhão verdadeira. Para que isso aconteça, é necessário que o templo seja um espaço leve, respirável e humano, onde todos se sintam acolhidos e apoiados. Ao refletir sobre a importância da comunidade como um refúgio, podemos trabalhar para que ela seja um lugar onde as pessoas possam se sentir livres para serem elas mesmas, sem medo de julgamento ou cobrança. Ao mesmo tempo, é onde o amor leal pode ser mostrado. Deus aceita e transforma. Esse é o âmago.

Alinhados com esse propósito de transformação plena, a frequência no templo se torna uma experiência de comunhão e não apenas uma rotina sem significado.

Nosso melhor desafio

Em muitos chamados bíblicos, incluindo o de Abrão, há um elemento migratório. Sempre há um movimento, uma deslocação. No entanto, esse deslocamento não é infinito; chega um momento em que o convocado deve se estabelecer e transformar a sociedade na qual se encontra. A mesma confiança exercida na saída deve agora ser colocada no afincamento, conforme expresso em Gênesis 12:2-3, onde Abrão é chamado a ser uma bênção para os outros.

Chamado Migratório na Bíblia

A Bíblia está repleta de histórias de migração, onde personagens como Abraão, Sara, Jacó e até mesmo Jesus são retratados como migrantes. Essas narrativas não apenas descrevem movimentos geográficos, mas também revelam um profundo significado teológico. A migração na Bíblia é frequentemente um chamado divino, que envolve deslocamento, estabelecimento e transformação.

O Chamado de Abraão

Um Modelo de Migração e Estabelecimento

O chamado de Abrão (depois chamado de Abraão) é um dos mais emblemáticos exemplos de migração na Bíblia. Em Gênesis 12:1-3, Deus instrui Abrão a deixar sua terra natal e sua família para ir a um lugar que Ele lhe mostrará. Essa jornada não é apenas um movimento físico, mas também um ato de fé e confiança em Deus. Abraão é chamado a ser uma bênção para todas as famílias da terra (Gn 12:3), o que implica não apenas estar em um lugar, mas ser naquele lugar, encarnando uma mensagem de esperança e salvação para o contexto local.

Abraão e Sara percorrem a terra prometida, enfrentando desafios como fome e ameaças, mas também experimentando a fidelidade de Deus (Gn 12:10-20; 13:1-4). Eles se estabelecem em diferentes locais, como Betel e Hebron, e ao longo da jornada, Deus renova suas promessas, assegurando-lhes descendência e terra (Gn 15:7; 17:1-8). A história de Abraão nos ensina que o deslocamento não é infinito; chega um momento em que o convocado deve se estabelecer e transformar a sociedade na qual se encontra.

Jesus: O Migrante Encarnado

O maior exemplo de migração e encarnação é Jesus Cristo. Ele se encarnou em um lugar que não lhe era por natureza, mas que lhe era por adoção (Lc 2:1-14). A família de Jesus foi forçada a migrar para o Egito para escapar da perseguição de Herodes, tornando-se refugiados (Mt 2:13-15). Jesus peregrinou na terra de Israel, pregando o Reino de Deus e trazendo mudanças eternas, apesar de ser rejeitado por muitos (Mt 4:17; Jo 1:11).

A encarnação de Jesus é um ato radical de migração, onde o Filho de Deus se torna humano e habita entre os seres humanos (Jo 1:14). Como o Messias, as mudanças que Ele trouxe e pelas quais passou são permanentes: repare que não existe tal coisa como “desencarnação”. Após a ressurreição, Jesus ascendeu ao céu e agora está à direita de Deus Pai (Atos 1:9-11; 2:33; Efésios 1:20; Colossenses 3:1; Hebreus 1:3; 1 Pedro 3:22). Isso indica que, em seu corpo glorificado, Jesus está em um local específico no céu. Muito embora sua natureza divina permita que Ele seja presente em todos os lugares (Mt 28:20; Jo 14:23).

É importante notar (para não assustar o leitor desavisado) que a presença de Jesus não é apenas uma questão de localização física. Ele prometeu estar conosco até o fim dos tempos (Mt 28:20), o que sugere que, apesar de estar fisicamente no céu, Ele continua presente entre os crentes através do Espírito Santo (Jo 14:16-17; 16:7). Essa presença espiritual não é limitada pelo espaço ou pelo tempo, permitindo que Jesus seja simultaneamente em um local específico no céu e operando em todas as partes do mundo através da fé dos crentes.

Isso nos lembra que a resposta ao chamado não apenas produz mudanças drásticas no destino temporário da peregrinação, mas também no que migra para sempre.

A Igreja e o Chamado Migratório

A igreja, como corpo de Cristo, é chamada a seguir esse modelo de migração e estabelecimento. Devemos nos mover com a confiança de que estamos sendo guiados por um propósito maior, e ao nos estabelecermos, devemos buscar transformar positivamente o mundo ao nosso redor. Isso significa encarnar a mensagem do Evangelho em cada contexto local, tornando-nos bênção para as comunidades nas quais estamos inseridos.

No entanto, a igreja frequentemente claudica nesse chamado. Em vez de se estabelecer e transformar, muitas vezes se contenta em apenas estar presente. A radicalidade do “experimento cristão” reside exatamente no âmago desse chamado: ser sem deixar de ser. Devemos ser capazes de nos adaptar e nos estabelecer em novos contextos sem perder nossa identidade em Cristo.

Conclusão

Em conclusão, a ideia de migrar e se estabelecer é um chamado contínuo para os cristãos. Para todos eles. Quando lemos este tipo de coisas, imaginamos que estamos falando de missões no sentido clássico (isto é com William Carey, século XVIII em diante) em que vamos para muito longe para sofrer muito.

Através das histórias de Abraão e Jesus, aprendemos que o deslocamento não é apenas um movimento físico, mas um ato de fé e confiança em Deus. Devemos nos mover com a certeza de que estamos sendo guiados por um propósito maior e, ao nos estabelecermos, buscar transformar positivamente o mundo ao nosso redor. Assim, podemos encarnar a mensagem do Evangelho e ser bênção para as comunidades nas quais estamos inseridos, como Abraão e Jesus fizeram antes de nós.

Não se trata então, para a maioria de nós, de um deslocamento em muitos quilômetros. Mas após ler estas linhas, faça um teste. Vá caminhando até uma rua perto da sua casa que você não conhece ou pela que pouco transita ou passa apenas de carro. Fale com as pessoas. Apenas fale… você vai entender.

Um perdão diferente

Somos uma espécie estranha. Precisamos do perdão para viver, mas não sabemos perdoar nem pedir perdão. Tenho a impressão que não queremos o perdão.

Faz uns anos atrás um colega de serviço traiu a mulher (e os filhos, obvio) Como eu já tinha passado por essa experiência, me aproximei para ver se podia – de alguma forma – ajudá-lo a reverter a situação. Grande foi minha surpresa quando em lugar de ouvir “eu já pedi perdão para minha esposa” ouvi “eu já perdoei minha esposa“. Tentei sem sucesso lhe explicar que era ao contrário. Ele não conseguia entender que quem havia errado era que devia confessar, se arrepender e ser perdoado. Mas não era que ele culpasse a esposa não. Era que ele não entendia mesmo a diferença entre “pedir perdão” e “perdoar alguém“. Na cabeça dele, ele estava fazendo corretíssimo porque ele era quem tinha errado. Óbvio que era um problema de ordem semântico, mas imagina como a mulher não entendia nada do que ele falava.

Na oração modelo, Jesus nos ensina “E perdoa nossas ofensas assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido“. Ou seja, há uma relação direta entre nossa capacidade de perdoar e a medida de perdão que temos recebido.

Um livro que minha esposa gosta muito é “Um amor que vale a pena” de Max Lucado. Há vinte anos eu me neguei a ler por pura altaneria, orgulho e ignorância. A tese do livro é simples: você só pode dar aquilo que tem. Então, se nunca você foi amado, nunca vai conseguir amar. Se nunca foi perdoado, nunca vai conseguir perdoar.

A ideia vale no sentido inverso: se alguém não ama, é porque não conhece o amor. Se alguém não perdoa, é porque não tem tido acesso ao perdão.

As características de um novo pacto

A nova aliança em Jeremias 31:27-34 não é um remendo na velha, mas um ponto de ruptura. O ciclo de erros herdados termina. Antes, os filhos arcavam com as falhas dos pais, como se o pecado fosse uma dívida automática. Agora, cada um responderá por si. Deus planta e colhe indivíduos, não mais apenas um povo como bloco monolítico. A fé não se transfere por osmose, nem a justiça se delega. A Liberdade está no centro da questão.

Isso muda tudo. Não há mais desculpa. “Ah, fui criado assim”, “me ensinaram assim”, “meu avô era assim”. Jeremias anula a terceirização da culpa. Cada geração recebe uma folha em branco para escrever sua história com Deus. Cada um decide se será escravo do passado ou agente de uma nova realidade. A aliança agora se inscreve no coração. Se está dentro, não há para onde correr. Ou se assume ou se rejeita.

Na teoria da recapitulação (Irineu de Lyon, que viveu aproximadamente entre 130 d.C. e 202 d.C.), Cristo não apenas morre e ressuscita; Ele refaz a história da humanidade. Ele é o novo Adão que não falha, que obedece onde o primeiro desobedeceu. A nova aliança não joga fora o que veio antes, mas leva ao destino que a primeira não conseguiu alcançar. A lei gravada em pedra ensinou, mas não transformou. Agora ela é impressa no coração. Não se trata mais de decorar preceitos, mas de ser tomado por eles.

Paulo, em Romanos 5:12ss, desenha essa linha do tempo. O primeiro Adão trouxe condenação; o segundo traz restauração. Mas restauração não é automação. O fato de que Cristo pagou o preço não significa que todos os boletos foram automaticamente quitados. A nova aliança coloca o indivíduo diante de sua responsabilidade. Se antes havia um peso herdado, agora há uma decisão intransferível. Não adianta mais jogar a culpa no contexto, na sociedade, nos outros. Ou se nasce de novo ou se permanece na morte.

As consequências na igreja hoje.

Se a igreja de hoje entendesse isso, ela não seria um sistema fechado, mas um organismo vivo. Não existiriam mais cristãos de tabela, aqueles que apenas seguem a onda porque foram criados assim. O erro de muitos hoje é tentar viver um evangelho herdado, como se fosse possível ser genuíno por tradição. Jeremias destrói essa ilusão. A fé tem que ser escolhida, assumida, gravada no peito como um selo que não sai.

Isso também acaba com o moralismo vazio. A nova aliança não gera um povo de aparência santa, mas de santidade real. Não é mais sobre seguir regras externas, mas sobre ser transformado internamente. O problema do legalismo sempre foi tentar produzir frutos sem raiz. Jeremias resolve isso ao colocar a Lei dentro. A mudança acontece de dentro para fora, ou não acontece. Isso significa que a hipocrisia morre. Não dá mais para fingir quando a exigência não está numa placa da igreja, mas cravada no próprio ser.

Outra consequência? A missão se torna inevitável. Quando a aliança estava fora, precisava ser ensinada. Agora, “ninguém ensinará ao seu próximo, dizendo: ‘Conheça o Senhor’, porque todos me conhecerão” (Jr 31:34). Isso não significa que a evangelização acabou, mas que ela se tornou natural. Quem tem a lei dentro testemunha sem precisar fazer esforço forçado (por mais pleonasmo que pareça). A missão deixa de ser um evento para ser um transbordamento. O evangelho não é mais algo que se aprende, mas algo que se vive. Quem está cheio derrama.

Se isso fosse real hoje, não haveria igrejas frias. O evangelho teria a força de uma explosão, porque não seria imposto, mas ardente em cada coração. A fé não dependeria de líderes carismáticos ou estruturas bem organizadas. Não precisaria de “entretenimento gospel” para atrair gente. Quem tem sede não precisa de publicidade para procurar água. A igreja seria irresistível, porque não se sustentaria em marketing, mas em testemunho vivo.

E o perdão? Jeremias 31:34 é categórico: “Perdoarei sua maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados.” Esse é o corte definitivo com o passado. A nova aliança não recicla pecados; ela os elimina. A culpa não é mais uma corrente no pé, arrastada por gerações. O pecado não define mais ninguém. Quem entra na nova aliança recebe uma nova identidade.

Se a igreja vivesse isso, ninguém ficaria preso ao erro de ontem. Não haveria mais a praga do rancor, das acusações, da cultura do cancelamento. O evangelho não seria uma religião de gente que se olha torto, mas de um povo que sabe o que significa ser perdoado e, por isso, perdoa.

No fim, Jeremias nos entrega uma bomba: a fé não é mais um contrato, é uma regeneração. Deus não quer um povo domesticado, mas um povo que vive a partir de uma nova natureza. E isso muda tudo. Não é mais sobre seguir Deus. É sobre ser de Deus.

Então, talvez, a derradeira pergunta (a “preocupação última” no estilo Paul Tillich) seria não se é possível ser perdoado, é se você está disposto a cortar com seu passado.

Uma “con-vocação” fragil

Quando consideramos o que aconteceu com Abrão (muitíssimo antes de ser chamado de Abraão) vemos que há paralelos com a nossa convocatória. A promessa feita de YHWH para Abrão também foi uma con-vocação: Abrão deveria fazer a si e aos “clãs agrários” o que havia sido feito a ele.


Tal parece que nosso Senhor tem uma queda por planos frágeis. Se somos parte de um grande plano conspiracionista como alguns dizem, este só cumpre com o propósito de exaltar um Deus (supostamente inventado) e rebaixar o ser humano que tão grande coisa se acha.

Esse deus que difere da pletora de deuses da antigüidade e dos atuais decide aparecer de vez em quando e todas as vezes que o faz a proposta é bastante radical. Geralmente os outros deuses demandam sacrifícios de coisas e seres alheios à própria pessoa para obter algum benefício seja comunitário ou pessoal.

Já este outro – o da suposta conspiração – está cheio de placas que apontam a rota de saída do sistema em que o vocacionado se encontra. De Noé a Filemos, a constante é o nadar contra a maré. Não há um lugar para a barganha. Assim como Adão, o chamado é para a obediência e a única opção restante é a desobediência. Claro que as consequências diferem das de Adão, mas se parecem às de Jonas ou às elencadas por Mordecai.

Bem aponta Yuval (seguindo a ideia de Frederico que “Deus está morto”) que os deuses de hoje são de cunho tecnológico e que a religião do momento – o humanismo – está sendo substituída pela veneração dos dados.

Nesse sentido, os deuses que nossa geração é chamada a abandonar são de uma penetração e presença muito mais abrangentes e o desafio do “con-vocado”, maior. Aqueles deuses da região mesopotâmica ficariam lá quando Abrão saísse da sua terra e da sua parentela. Já os atuais os carregamos em pequenos templos eletrônicos no bolso da calça e no coração.


Informe Kinsey à la Tupiniquim

Um pouco de história

Alfred Kinsey e sua equipe foram responsáveis por uma mudança profunda nas pesquisas sobre sexualidade humana.

Publicado nos Estados Unidos, o primeiro volume, “Sexual Behavior in the Human Male” (1948), e o segundo, “Sexual Behavior in the Human Female” (1953), revolucionaram a compreensão pública e acadêmica sobre o comportamento sexual.

Este estudo trouxe luz sobre a realidade (em comparação com o ideário popular) sobre assuntos tão variados como Diversidade do Comportamento Sexual, Incidência de Comportamentos Homossexuais, Masturbação e Fantasias Sexuais e Infidelidade e Relações Extraconjugais.

O Informe Kinsey foi controverso e enfrentou críticas por sua metodologia e por desafiar as normas sexuais vigentes. No entanto, também foi elogiado por sua contribuição para a compreensão científica da sexualidade.

Para chegar a tais resultados tão diferentes do que era o ideário popular, Kinsey e sua equipe lançaram mão de uma metodologia rigorosa e inovadora para a época envolvendo entrevistas detalhadas e padronizadas para coletar dados sobre o comportamento sexual de milhares de americanos como entrevistas pessoais e questionários estruturados.

Kinsey também fez um esforço consciente para incluir uma amostra diversificada de pessoas de diferentes idades, gêneros, orientações sexuais, ocupações e origens geográficas. Porém, vale ressaltar que a amostra não era totalmente representativa da população geral, o que foi uma das críticas ao estudo.

Seja como for, os entrevistadores foram rigorosamente treinados para que todas as entrevistas fossem feitas de forma consistentes e sem julgamentos visando garantir a precisão e a confiabilidade dos dados coletados.

Após a coleta a equipe tabulou esses dados e usando os melhores métodos estatísticos avançados analisaram as respostas identificando padrões e tendências no comportamento sexual. Esses dados são a base de muitos estudos e também de várias políticas publicas não apenas no grande pais do norte, mas em quase todo o mundo.

O Instituto Kinsey para Pesquisa em Sexo, Gênero e Reprodução foi fundado em 1947 pelo Alfred Kinsey na Universidade de Indiana nos Estados Unidos.


Uma reflexão

Entendo ser um ponto bastante comum dizer que o que é verdade nos Estados Unidos não necessariamente é verdade no resto do continente e muito menos no resto do mundo.

Isso bem pode ser verdade com aquelas coisas que são conseqüências das decisões culturais de cada povo ou nação, mas eu tenho a forte suspeita que até essas decisões são fruto de uma coisa mais profunda e viceral chamada natureza humana. Com isso não necessariamente me refiro a algo que seja completamente natural, mas sim adquirido na sociedade da qual a menor e mais importante representante é a própria família que absorve e promove certos valores ou o que elas acham serem os valores certos.

Logo, devo concluir que informes do tipo dirigido por Alfred Kinsey trazem à tona uma coisa que o teólogo já conhece: o ser humano é completamente depravado. Mas me aguarde antes de tirar suas conclusões tipo rede social. Isso aqui não é para passar por alto rapidinho.

Umas brutalidades

Dois fatos recentes têm exposto em nosso próprio solo a validade não apenas do informe Kinsey, mas de outros similares e da validade da Escritura em pleno século XXI assim como a necessidade de um aggiornamento nos nossos arraiais evangélicos (no excelente e bom sentido da palavra evangélico)

A pandemia de COVID-19 revelou várias coisas. Não apenas o perigoso desleixo com que vivemos a vida política pública representativa (que nada mais é do que isso, uma representação pública da nossa política mais viceral amarrada aos nossos medos e falências) mas também o quão enviesados somos assim como o quanto estamos longe, como famílias comuns, dos ideais que a própria sociedade promulga. Além dessas coisas, a pandemia também revelou o completo descalabro da igreja institucionalizada que demorou a usar os meios de comunicação eletrônicos e insistiu em aberrações sanitárias como a essencialidade do culto publico.

A outra coisa que a pandemia, ou melhor, o isolamento social decorrente da pandemia demonstrou é a incapacidade que temos de lidar com o diferente. Há várias fontes cientificas (isto é, que têm método mensurável por outras) que poderiam ser citadas, mas um bom resumo disso, vem da Anafe ao dizer:

Estudos demonstram que, durante o segundo ano de isolamento social decorrente da pandemia, o número de divórcios feitos em cartórios de notas do país subiu 26,9% de janeiro a maio só em 2021, em relação ao mesmo período de 2020. Se comparado a igual período de 2020, o crescimento foi de 36,35% em 12 meses.

https://anafe.org.br/divorcios-na-pandemia-que-dizem-os-dados/

Esses dados são seguros pois na conformação social em que vivemos, um divorcio formalizado impacta a criação dos filhos, mas – e isso é mais importante para muitos – as finanças do casal que se desmancha.

Então para além desses rompimentos formais, deveriam ser adicionados os informais.

Esta brutalidade da pandemia com todas suas conseqüências, e sendo um evento natural, expôs – como se o recuo das águas de um rio se tratasse – as pedras afiadas que estão no leito.

O que muito afligiu é que a igreja (em particular a ala evangélica em contraposição da fundamentalista) não deveria ter sido pega de surpresa. Ou seja, somos plenamente cientes não apenas da depravação humana (e com isso concordamos com o fundamentalismo) mas também temos acesso e aceitamos informes não ortodoxos como o de Kinsey que nos falam dos problemas e das agruras reais dos relacionamentos para lá dos ideais que pregamos. Voltaremos sobre isso.

As enchentes no Rio Grande do Sul (e é preciso falar em plural não apenas pelo fato ter se repetido mais de uma vez nos últimos anos, mas porque desta vez – em maio de 2024 – se repetiram várias vezes e de forma devastadora em um curto período de tempo) empurrou boa parte da população dos mais diversos estratos sociais a terem de viver e conviver de um modo diverso ao que estavam acostumados.

Se vendo nessa situação de mudança do seu habitat natural, o bicho ser humano manteve seus instintos mais viscerais funcionando em um numero que – espero – não é o total, mas o suficientemente alto como para alarmar. Tanto assim que o próprio governo do Estado do Rio Grande do Sul teve que disponibilizar abrigos separados para as mulheres e crianças numa volta rápida e obvia ao velho ditado de “mulheres e crianças primeiro”.

Nos inúmeros reportes televisados e “youtebizados” aos que assisti, um deles me chamou a atenção em que o repórter ou “youtuber” (não me peça para lembrar agora) mostrava uma rata escapando da agua da enchente. Triste representação gráfica do que acontece não apenas no RS mas no pais inteiro.

É redundante dizer o obvio: a população toda (ou pelo visto a grande maioria) sofre com o que está acontecendo no estado mais ao sul do nosso pais. Famílias inteiras mortas, mulheres e crianças sendo abusadas, casas sendo assaltadas e a infraestrutura tão necessária para a pronta recuperação quase que completamente destruída pelo poder da água.

Esse sofrimento – que já de por si seria terrível – se vê incrementado pela resposta irresponsável de alguns cidadãos. Algumas coisas me chocaram se bem que não mais deveriam porque eu sei que é fruto da mesma árvore e tenho visto esses frutos em repetidas ocasiões das mais diversas formas.

A mais simples dessas e aparentemente superficial é a disseminação de noticias mentirosas, ou fake news. Isso aliado com as teorias conspiratórias. Lia esses dias de que quem vive sozinho é mais propenso a crer e a disseminar teorias conspiratórias. Faz sentido. A noticia mentirosa – que muitas vezes surge como piada, sarcasmo ou informação parcial – encontra seu combustível nos vieses confirmatórios que todos nós temos. Ou seja, todos nós tendemos a aceitar e repetir informação que de alguma forma confirma ou reforça uma crença previa. Se bem ela encontra seu combustível na subjetividade individual, a via pela qual trafega atualmente é a das redes sociais onde um certo espirito de aparente anonimidade governa os usuários das mesmas as que – por sua vez – apenas lhe interessa o lucro sem lhe importar de forma séria e autônoma alguma forma de verificação de fatos. O remédio para isso? O mesmo que para a velha e conhecida fofoca: não repita se não sabe se é verdade. Se a “noticia” confirma alguma coisa que você acredita, desconfie. Se vem por uma rede social, desconfie mais ainda. Se vem apenas da família, tenha todas as reservas possíveis.

A outra coisa que me chocou e que acho cada vez mais repugnante é a falsa ideia propagada em nosso meio (falo do nosso por não ter autoridade para falar de outros, mas presumo que seja parecido) de que essas brutalidades como a tsunami na Indonésia ou a pandemia de COVID-19 ou as enchentes no Rio Grande do Sul são um castigo divino. Ou na sua expressão mais simples, desrespeitosa e carente de conhecimento tanto bíblico como social: “mereceram”ou “bem feito” ou “é castigo divino”

Há pessoas que não tem o mais mínimo temor ao falarem uma coisa dessas. Vamos primeiro pelo lado social. Conheço o povo gaucho. Viajei muito nos estados do Sul com meu pai. Se há algum lugar em que me sinto seguro é com os gaúchos. E não que não me sinta bem ou seguro em qualquer outro lugar já que sei dos anjos que o Senhor coloca em sua providência para cuidar-nos. Mas é que minha vivência com os gaúchos é de viceral confiança.

Lembro de que quando minha primogênita tinha alguns meses a levamos para que minha família a conhece-se. Era julho de 1996. Fomos de Corcel II movido a álcool numa viagem de 1700KM aproximadamente. Chegamos no Chuí, RS no horário limite para poder encontrar um lugar onde deixar o carro e pegar o ônibus para atravessar a fronteira até a casa dos meus pais. Não haviam serviços de internet como agora que pudéssemos ir abreviando tempo. Tinha que ser face a face. Dei uma olhada naquela noite escura e fui num posto de combustíveis que costumava ir com meu pai de pequeno. Fazia uns doze anos que não passava pela cidade. Enquanto orava, olhei para os frentistas e escolhi um. Chamavam ele de “alemão” por razões notórias. Falei “Boa noite, você mora aqui no Chuí, correto?”. Ele me respondeu “sim”. Ai afirmei “Você tem lugar onde eu deixar minha ximbica (já declarando que não morava em RS pois ximbica é carro velho em SP). Quanto me cobra para deixar ele vinte dias?”. Ele olhou assombrado para os lados atrás de mim e atrás dele e falou “Mas você me conhece?”. “Nem um pouco” – lhe disse – “mas conheço quem te conheçe”. Ele terminou de abastecer e me levou até a casa onde larguei o carro após desconectar a bateria e fui correndo para o terminal rodoviário. Quando voltei lá estava meu breguinha azul-calcinha completinho esperando por mim. Bateria conectada e duas partidas depois ele estava em marcha… a álcool e em pleno inverno gaucho.

Se alguém te diz que é merecido por causa do caráter deles, pergunta de imediato pela experiência que eles tem com tal povo. Pode ser que seja superficial, parcial, inexistente ou apenas está repetindo um ódio que recebeu de alguém. Agora, mesmo que alguns se comportem de um jeito inapropriado, é isso motivo de assegurar que é um merecimento para a população em geral?

Me é necessário atacar finalmente o problema do “castigo divino”. Não porque negue o castigo divino, mas porque nego a falta de seriedade e temor com que essa frase é dita. Há uma passagem de simples compreensão na escritura que deveria selar nossos lábios para dizer uma barbaridade dessas:

1 E, naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. 2 E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? 3 Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis. 4 E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? 5 Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis.

Lucas 13:1-5 (ARC2009)

Esse é meu problema. No fundo da expressão “Deus os castigou” está o pensamento de que eles são piores que os outros. Não, os gaúchos são iguais aos nordestinos, aos paulistas, aos paraenses, enfim… No sentido de culpabilidade perante o juiz eterno, somos iguais.

E pensamos assim, ao respeito de tudo, governo, família, opção sexual, religião, etc… Quando acontece uma desgraça nos apressuramos a dizer “E também, com a conduta que têm, o que você esperava?. Merecido foi.” Não apenas ao respeito de uma catástrofe natural, ou do estado do Sul, de tudo e todos. Nos parecemos ao fariseu da parábola:

11O fariseu, em pé, orava em seu íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: roubadores, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este cobrador de impostos. 12 Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’.

Lucas 18:11-12 (KJA)

A patética condição humana

Foi a pandemia chegar ou as aguas subirem que se colocaram em funcionamento duas coisas: pessoas realmente interessadas em ajudar o próximo e os aproveitadores de plantão.

Sobre o primeiro grupo, não tenho nada a falar a não ser que nunca é de menos e de que – mesmo a própria tarefa sendo ingrata ou incômoda – o resultado final é muitíssimo bom e agradável. Vale a pena.

Já sobre os outros, gostaria de me distanciar dos pensamentos de segregação como se eles fossem outra coisa que não seres humanos. Precisam sim serem tratados de forma diferenciada porque seus atos (alguns deles bestiais) demonstram o quão baixo caíram e o convívio com o restante da população é impossível. Esse é um desafio constante para a sociedade mas é bem simples de resolver se aceitamos que há inocentes ou que – de fato – há pessoas mais vulneráveis que outras. O velho adagio de “mulheres e crianças primeiro” deveria ter aparecido antes nessa equação.

Agora, o que estes seres de conduta réproba colocam em claro é que a raça humana está degradada. Há os que escondem melhor que os outros. Há alguns que nunca serão tido como pessoas de baixo calão ou de alma imunda. Pelo menos não deste lado da eternidade. E há os outros que – quase como animais – mantêm suas práticas privadas em ambientes de convívio público emergencial. (Como a grande maioria faz nas redes sociais)

Em lugar de assustarmos e apontarmos o dedo, devemos de aceitar que sob a camada idealizada de uma sociedade composta por famílias que funcionam de acordo com um determinado padrão, há uma realidade obscena, suja, violenta que insiste em se manter com vida.

Não que os ideais não estejam corretos. Os ideais estão certos. Mudar os ideais por ideias mais simples é apenas baixar a barra. Diminuir o ideal apenas contribui para descobrirmos novas formas de violência talvez mais sutis e sorrateiras.

Agora, declararmos que vivemos em dissonância com o ideal proposto com a Bíblia, ajuda grandemente na resolução dessa equação. Aliás é apenas o primeiro ponto para uma possível solução. São coisas que devem ser ventiladas em nossas Escolas Bíblicas, nos nossos cultos e nos nossos estudos bíblicos nas casas. Não se trata de abandonar o ideal, se trata de reconhecer que acreditar num ideal não é de forma alguma uma garantia de que nossa construção social está em consonância com ele.

Em algum sentido o ideal bíblico é uma utopia. Ou seja, é um lugar que não existe. Uma fantasia, um devaneio, um sonho. Ou dito de outra maneira: não existem famílias perfeitas. Ficou mais fácil assim? Então, a formula fácil esconde a dificuldade. A utopia nos propõe um local para além da realidade. Ou seja, um ponto no infinito para ser o alvo pelo qual caminhar nesta vida. Alvo este que – sabemos desde o início – não será alcançado em 100%, mas o mais perto que cheguemos do alvo é melhor do que trazer o alvo para níveis mais palatáveis ou “menos utópicos”

As enchentes no Sul, assim como o informe Kinsey, nos escracha uma realidade patética da nossa sociedade que tentei expor brevemente aqui. É uma forma brutal de expor a realidade. O apelo deste pequeno escrito é a lidar com essa realidade sabendo que – assim como o informe Kinsey tem se comprovado na observação de outras sociedades distintas da estadounidense – essa mesma realidade está presente em nossa sociedade em geral e em nossa igreja em particular. Viver em negação além de não ajudar em nada a não ser piorar as coisas, é uma vergonha e perca de tempo.

Derretimento, fluidez, desassossego

Em geral, as pessoas estão fluindo à busca de uma identidade pessoal e de uma religião que se encaixe nessa identidade. Não ao contrário.

O fenômeno pode ser explicado pelas transformações que ocorreram na sociedade e na religião atualmente à medida que a sociedade se torna mais diversa e plural.

A busca por maior autonomia e liberdade religiosa é um dos principais motivos para o desenvolvimento de novas experiências religiosas ou religiosidades não convencionais. Em vez de se vincular exclusivamente com instituições religiosas estabelecidas, as pessoas estão mais inclinadas a explorar diferentes tradições religiosas, práticas espirituais alternativas e formas personalizadas de religião formando assim seu próprio cardápio. Como se deu grande Subway espiritual se trata-se.

Além disso, ideias e práticas religiosas não convencionais têm se espalhado devido a mudanças nas dinâmicas sociais, como a urbanização, a globalização e o impacto da mídia. As tecnologias modernas também ajudaram muito, permitindo acesso a várias opções religiosas e informações.

É importante lembrar que as tradições religiosas cristãs no Brasil continuam existindo, o que mostra que essas mudanças não anulam a importância e o impacto duradouro das religiões tradicionais na sociedade. Mas não é esse meu ponto.

Meu ponto é com aqueles que estão na busca. Essa busca tem seu tempo de validade. Em algum momento você vai envelhecer e descobrir que sim há valores eternos e que sim há “certo” e “errado”. Isso está gravado a fogo no próprio ser humano e não tem como fugir disso.

Nesse ponto, não interessa se é homem, mulher; rico ou pobre; opressor ou oprimido; gay ou hétero; político ou pagador de impostos: todos têm essa lei talhada no próprio coração e não há necessidade que ninguém lhe explique nada. É apenas uma questão de tempo.

Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.
Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.
Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei;
Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;
No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.

Romanos 2:12-16

Intolerância religiosa

Escrevo desde um ponto de vista que não é neutro, obviamente. Sou cristão, evangélico e batista. Mas talvez seja essa formação a que melhor me qualifica para almejar tolerância religiosa, pois somos – em certo sentido – frutos da mesma na Inglaterra de 1689.

Não é à toa que a separação igreja-estado é um dos nossos pilares ao ponto que se pode dizer que alguém que se intitula batista não é tal se não luta por esse pilar. A tolerância religiosa está no âmago do estado laico e vivemos, pelo menos nominalmente, num estado laico.

Não que este estado tenha sido formado como laico. A laicidade no Brasil é uma construção recente e justamente por isso desperta em alguns certos temores e anseios por um estado teocrático ou coisa que se lhe assemelhe, mas de preferência uma teocracia cristã ou coisa assim.

Como o mal que não quero para mim não desejo para os outros, me conto entre aqueles que desprezam qualquer tentativa de teocracia. Mesmo as assim chamadas cristãs. Ao meu ver, uma teocracia não passa de uma forma de ditadura e tenho aversão a qualquer forma de ditadura, seja esta de esquerda quanto de direita, ou religiosa.

Então como lidar com isso? Qual a contribuição que como cristãos plenamente identificados podemos dar à tolerância religiosa e por consequência ao estado laico?

Como combater a intolerância religiosa?

CAPÍTULO I Dos Crimes Contra o Sentimento Religioso
Ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo

Art. 208 – Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:
Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Parágrafo único – Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.

Artigo 208 do Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940

Mesmo sendo a religião um assunto de cunho íntimo, a realidade é que ela acaba se manifestando no espaço comum. Espaço este que muitas vezes lhe queremos negar ao outro, ao diferentes, ao diverso quando nos parece tremendamente essencial a nós mesmos e nossos similares. Então para combater estereótipos e preconceitos uma abordagem abrangente e multifacetada deve ser adotada.

Me limitarei então a pontoar algumas ideias que podem servir para incentivar algum diálogo no seu ambiente. Isto é, em casa, na igreja, no ônibus. Enfim, não quero que concorde comigo, quero que pense.

  1. É essencial aumentar a conscientização e a educação sobre a diversidade religiosa nas escolas e na sociedade em geral. Se não gostamos que as religiões de matriz africana sejam ensinadas nas escolas, então que não se ensine cristianismo também.
  2. É fundamental fortalecer a legislação que combate a intolerância religiosa, protegendo os direitos das vítimas e punindo os agressores. Além disso, para promover o respeito e a compreensão mútua, é fundamental investir em programas de sensibilização e diálogo inter-religioso. Isso nada tem a ver com ecumenismo, mas sim com o fato de compartilharmos o mesmo espaço civil/social.
  3. O outro aspecto importante é o envolvimento das lideranças religiosas, das organizações da sociedade civil e dos meios de comunicação na promoção da tolerância e no combate aos discursos de ódio. Sem os líderes engajados, os liderados irão naturalmente para o lado do ódio. Ou não é isso que entendemos quando falamos de “depravação total do Homem”?
  4. Por último, mas não menos importante, o que ajuda a construir uma sociedade mais tolerante e inclusiva é encorajar a população a participar da defesa da liberdade religiosa e na denúncia de incidentes de intolerância mesmo que no seja “de nosso parquinho”

Sociologia da religião: virtudes e mazelas

E agora, Garibaldi?

A sociologia da religião desempenha um papel fundamental na compreensão da presença e do papel das religiões na sociedade contemporânea. Ao adotar uma perspectiva sociológica, é possível analisar as religiões além dos limites mencionados, oferecendo uma visão mais abrangente e contextualizada.

Em primeiro lugar, a sociologia permite examinar as religiões como instituições sociais que desempenham funções específicas na sociedade. Ela nos ajuda a entender como as religiões se organizam, mantêm valores e crenças, estabelecem relações com outras instituições e influenciam as estruturas sociais.

Além disso, a sociologia proporciona percepções sobre as mudanças na religiosidade contemporânea. Por meio do estudo sociológico, podemos compreender as transformações nas práticas religiosas, nos comportamentos dos fiéis e nas dinâmicas das comunidades religiosas. Isso nos permite refletir sobre as razões por trás dessas mudanças, como a secularização, a diversificação religiosa, o individualismo espiritual e as novas formas de engajamento religioso.

Entendo que a sociologia da religião desmantela um pouco o misticismo que às vezes se aplica à igreja. Obvio que alguns acham isso como sacrílego, mas me parece que acham isso porque lhes convêm o manto de sacramentalidade.

Contudo, tenho vivenciado recentemente, e da mão de colegas amigos, uma releitura social na que, visando um suposto “aggiornamento” do evangelho, destituem este último da sua capacidade de transformar o ser humano. Logo, as ferramentas fornecidas pela sociologia da religião deveriam ser usadas como tais e não como armas nem como boias salva-vidas emergenciais.

Em questões pessoais, ela me serve para entender o próximo quanto ser religioso. Os anseios e buscas são – em última análise – da raça humana (ou das raças humanas a depender do gosto do autor). E é bem humano substituir essa busca última por buscas preliminares.

É ali (na superficialidade da substituição inconsciente do prioritário pelo supérfluo, do último pelo preliminar) que faremos bem em estudar para entender e aproximar; entender o humano na sua ânsia de ser e aproximar o Deus-homem na jornada da nova criação (Rom. 5:12 ss) sem tirar nem pôr no evangelho, que continua sendo o “poder” (e não a energia) de Deus para salvação daquele que crê.