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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

Fé dogmática ou fé experimental

Há formas e formas de atravessar a vida. Uma delas é pelo empirismo: provar por si mesmo as nuances do caminho, em vez de admitir que a humanidade já atravessou vales parecidos, se não idênticos.

Existe uma dose de orgulho nisso. Mas também há algo de corajoso, de desbravador. O espírito empírico não se satisfaz com “experiências herdadas” em tudo. Se fizesse isso, nem viveria: a experiência humana não cabe em 70, 80, 90 anos de um único indivíduo.

E, ainda assim, ninguém vive só de empirismo. Sem tradição, você repete erros antigos achando que descobriu a pólvora. Sem experiência própria, você vira um catálogo ambulante de frases alheias.


Na espiritualidade acontece algo análogo.

Existe uma forma de viver a fé estática: “tudo já foi dito”, “tudo já foi vivido”, “o que falta dizer já está contido no que foi dito”. Nessa lógica, o novo é suspeito por definição. Se algo diferente do que “a família da fé” já viu aparece, então com certeza está errado. Como se o Espírito Santo tivesse se aposentado e deixado apenas um arquivo morto.

Chamemos isso, aqui, de fé dogmática quando ela vira postura de fechamento (não quando vira fidelidade).

Do outro lado do espectro há os que negam qualquer forma de dogma. Deus é o Deus dos impossíveis; então, compete a nós “descobrir” diariamente uma coisa inédita. As categorias teológicas, nesse ponto de vista, seriam algemas. Nosso Deus seria puro dinamismo: o surpreendente a cada instante — e o passado, no máximo, uma inspiração poética.

O problema é que esse “dinamismo” facilmente vira uma espiritualidade sem freio: hoje Deus disse A, amanhã Deus disse o contrário, e sempre há uma explicação “profética” para justificar a incoerência.

A Bíblia já manda frear isso: “não creiais em todo espírito; provai” (1Jo 4:1). E ainda: “examinai tudo, retende o bem” (1Ts 5:21). O teste não existe para apagar o Espírito, mas para impedir que a nossa ansiedade use o nome dele.


Colocando assim, parece fácil escolher um lado: ou cremos que tudo está pronto, ou cremos que toda geração precisa reinventar o Eterno.

Só que a fé — como a vida — não é tão simples.

Erra o dogmático quando confunde tradição com imobilidade. Erra o experimentalista quando confunde vida com novidade compulsiva. E a saída não é um “pontinho médio” morno, como se equilíbrio fosse ficar em cima do muro.

A natureza espiritual da Igreja — aquela que transcende denominações, idiomas e séculos — nos obriga a duas lealdades ao mesmo tempo:

  1. lealdade ao depósito recebido;
  2. lealdade ao Deus vivo que continua conduzindo seu povo.

A primeira lealdade aparece sem rodeios: “a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A segunda também: o Cristo ressuscitado caminha com a Igreja, corrige, consola, adverte, abre portas e fecha atalhos (Ap 2–3).

Então o problema real não é “dogma vs experiência”. É quem manda: o Cristo vivo ou o nosso temperamento religioso.


Aqui Barth é útil. E Tillich, do seu modo, também.

Em linhas gerais: Cristo é a Palavra viva de Deus (Jo 1:1–14; Hb 1:1–2). E a Escritura é o testemunho autorizado dessa revelação, aquilo que nos ancora para que a “voz de Deus” não vire eco do nosso próprio coração. “Toda Escritura é inspirada por Deus… para que o homem de Deus seja perfeito” (2Tm 3:16–17). E Pedro ainda amarra: nenhuma profecia é de interpretação particular (2Pe 1:20–21). Ou seja: a Bíblia não é massa de modelar.

Isso soa herético para os dois extremos.

  • Para o dogmático fechado, porque ele prefere uma “Palavra” reduzida a fórmulas fixas — e Deus não cabe num catecismo, por melhor que seja.
  • Para o experimentalista sem critério, porque ele alterna literalismo e alegoria conforme convém, sem paciência para ler texto, contexto, gênero, história e comunidade.

E aí nasce a espiritualidade mais perigosa: a do “Cristo que eu sinto”.

Porque, sim: alguém pode dizer “Cristo é a Palavra viva”, e concluir que tudo o que eu sinto vindo dele já é auto-validado. A experiência vira tribunal, e a doutrina vira refém. Isso é receita pronta para abuso espiritual, seita, manipulação e — ironicamente — dogmatismo novo, com cheiro de “revelação fresca”.

O Novo Testamento nunca tratou experiência como soberana. Tratou experiência como discernível, avaliável, submetida à Palavra e à comunidade. “Falando dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14:29). Julguem. Não aplaudam automaticamente.


O dinamismo cristão não é “cada um com sua revelação”. É um pulsar contínuo: a Igreja interpretando e re-interpretando a Escritura diante de novas perguntas, novas dores, novos desafios — sem trocar o evangelho por modismos.

Foi isso que aconteceu nos grandes marcos históricos.

  • Quando a Igreja afirmou, contra confusões e modas religiosas, que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ela não estava “inventando” Cristo; estava protegendo o evangelho. Por isso Niceia (325) e Calcedônia (451) são tão decisivos. Sem isso, “cruz” vira metáfora e “encarnação” vira poesia.
  • Quando a Reforma (magisterial) insistiu que a Igreja precisa ser constantemente reformada pela Palavra (semper reformanda), ela não estava negando a história, mas chamando a tradição para prestar contas à Escritura.
  • Quando os reformadores radicais lembraram que a fé não é só credal, mas vida concreta, eles cutucaram uma cristandade confortável demais.

Isso não significa que “a tradição manda” nem que “a novidade manda”. Significa que Cristo manda, e ele usa meios: Escritura, comunidade, história, dons, pastores, mestres, e também o sofrimento e a alegria do caminho (Ef 4:11–16).


Milagre, então, entra onde?

Não é questão de “acreditar ou não em milagres no século XXI”. Eu acho pobre a fé que precisa negar o sobrenatural para parecer inteligente — e acho igualmente pobre a fé que precisa chamar tudo de milagre para parecer viva.

A postura madura é outra: docilidade para reconhecer quando Deus age — e humildade para não inventar milagre só porque ignoramos mecanismos naturais. O Deus da Bíblia não tem medo da criação que ele mesmo sustenta.

E mais: a experiência cristã saudável raramente é individual. Ela é comunitária, testada, narrada, examinada, acompanhada. Isolamento espiritual costuma ser incubadora de fantasia.


Agora, duas palavras diretas — uma para cada tribo.

Você, dogmático: continue amando doutrina. Doutrina importa. Mas pare de se esconder atrás de credos como se decorar fórmulas fosse o mesmo que conhecer Cristo. Você pode saber os símbolos e concílios, citar catecismos de cor, e ainda assim nunca ter se rendido ao Cristo vivo. A ortodoxia que não produz arrependimento, amor e cruz não é “fidelidade”: é verniz (Tg 2:17).

Você, experimentalista: continue buscando vida com Deus. O Espírito não é museu. Mas entenda o que você perde quando despreza dois mil anos de oração, martírio, debate, correção e maturidade. Deus não começou a falar com você. A Igreja não nasceu ontem. A sabedoria que te precede não é inimiga da unção — é, muitas vezes, o recipiente que impede a unção de virar delírio.

E um lembrete histórico importante: você é chamado “cristão” não só porque tem uma Bíblia na mão, mas porque confessa o Cristo que a Igreja aprendeu a nomear com precisão ao longo dos séculos — especialmente nos grandes concílios antigos (como Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia). Ignorar isso não é “pureza bíblica”. É amnésia.

No fim, a pergunta não é “dogma ou experiência?”. É outra:

a sua fé te prende a Cristo — ou te prende a você mesmo?

Venezuela, poder e império: quando a “salvação” vem armada

Nos primeiros dias de janeiro, o mundo assistiu a uma cena que parece saída de um roteiro ruim – e por isso mesmo é perigosa: uma operação militar dos EUA na Venezuela culminou na captura de Nicolás Maduro (3 de janeiro de 2026) e, poucos dias depois, na sua apresentação à Justiça em Nova York (5 de janeiro de 2026).

Até aqui, muita gente vai querer torcer a história para caber no próprio bolso moral.

“Foi justiça.”
“Foi sequestro.”
“Foi libertação.”
“Foi invasão.”

E aí vem o tempero que denuncia a alma do negócio: autoridades e declarações públicas passaram a falar em recursos, riquezas, petróleo, “o que agora vai ser redirecionado”, “quem fica com o quê”. Quando a linguagem muda de “direitos” para “ativos”, você já sabe: o altar está montado – e o deus costuma ser o interesse nacional transvestido de virtude.


O problema não é só geopolítica. É liturgia.

Porque impérios não se sustentam apenas com tanques. Impérios se sustentam com narrativas.

E narrativa imperial quase sempre usa um vocabulário religioso: salvar, purificar, libertar, corrigir o mal, trazer ordem. Só que, na prática, essa “salvação” costuma cobrar a conta dos vulneráveis primeiro – os que não têm bunker, nem passaporte, nem rede de proteção.

O risco aqui não é “a Venezuela”. O risco é o modelo: a ideia de que um país pode se investir do papel de juiz, redentor e administrador do destino de outro. E, quando isso acontece, a soberania vira detalhe técnico e a dor humana vira “dano colateral” em rodapé.

Não é coincidência que a legalidade internacional da operação esteja sendo contestada e discutida em organismos e análises públicas: quando você normaliza exceções, você está ensinando o mundo a viver sem chão.


N.T. Wright e a pergunta que corta o assunto no meio

N.T. Wright insiste numa coisa que a igreja esquece quando se embriaga com o noticiário: o evangelho não é um adesivo devocional no para-choque da história; é uma declaração pública de senhorio.

Em termos simples (e explosivos):
Jesus é o Kyrios.
Logo, César não é – nem em versão antiga, nem em versão moderna, nem com bandeira bonita, nem com discurso “humanitário”, nem com promessa de prosperidade.

Quando o evangelho diz “Jesus é Senhor”, ele não está oferecendo um conforto íntimo apenas; ele está desautorizando qualquer império que se apresente como salvador final. O cristão pode até agradecer quando um tirano cai; mas não pode adorar o método, nem santificar a cobiça, nem chamar de “reino” aquilo que cheira a saque.


Como a igreja lê esse tipo de manchete?

Eu faria três perguntas na igreja – sem cinismo, mas com coluna ereta:

  1. Quem está sendo servido de verdade?
    Os pobres? Os presos políticos? As famílias? Ou os interesses estratégicos e os mercados?
  2. Que tipo de “paz” está sendo prometida?
    A paz de Cristo nasce do caminho do Cordeiro; a paz do império nasce da ameaça.
  3. Que tipo de esperança está sendo vendida?
    Porque esperança comprada com propaganda costuma virar desespero quando a conta chega.

E aqui está a disciplina espiritual mais difícil: recusar a idolatria do “meu lado”. O cristão não é obrigado a escolher qual império prefere. O cristão é chamado a confessar que nenhum império é o Reino.

O Reino tem Rei – e ele não usa a linguagem da rapina como se fosse virtude.

Uma igreja sob perseguição

A cruz na carne da igreja: sofrimento, esperança e comunhão real
Em 2025, notícias que vêm da África não permitem neutralidade. Comunidades cristãs inteiras têm sido marcadas por sequestros, assassinatos, estupros, aldeias incendiadas e deslocamentos forçados. A Nigéria, em especial, carrega hoje o rótulo amargo de um dos piores lugares do mundo para se confessar o nome de Cristo. Isso não é retórica alarmista. É sangue, medo e fidelidade concreta.


A pergunta não é se isso nos diz respeito. A pergunta é como ousamos viver como igreja fingindo que não diz.


A Escritura é brutalmente clara: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Co 12.26). Não há corpo de Cristo em versão regional, confortável e blindada. A perseguição não é um problema “deles”, é uma ferida nossa. O que acontece em vilas africanas esquecidas pelo noticiário acontece dentro da mesma comunhão da qual fazemos parte no Brasil.


Aqui, a teologia precisa deixar de ser ornamento e se tornar nervo exposto. Karl Barth insistia que Deus se revela precisamente onde o mundo só enxerga fracasso e fraqueza. A cruz não é um acidente no caminho da igreja; é o próprio caminho. Uma igreja que só sabe cantar vitória, mas não reconhece o Cristo crucificado nos seus irmãos perseguidos, já perdeu o rumo.


Anders Nygren nos lembra que o ágape não é reação ao mérito, mas entrega gratuita — inclusive (e sobretudo) diante do ódio. Isso confronta nossa tendência de selecionar quem merece nossa empatia. O amor cristão não funciona por afinidade cultural nem por proximidade geográfica.


E N. T. Wright aponta para algo ainda mais desconcertante: a ressurreição inaugura a nova criação no meio da história ferida. O sofrimento dos santos não é o capítulo final, mas participação real nos sofrimentos do Messias, em vista da glória que Deus prometeu. O clamor dos mártires em Apocalipse 6 não é esquecido; é ouvido e guardado.


Isso exige discernimento. Existe perseguição real — com morte, prisão e exílio — e existe desconforto cultural, perda de privilégios ou rejeição social. Confundir as duas coisas banaliza o sofrimento dos que realmente pagam com o corpo. A igreja precisa de maturidade para distinguir.


Mas discernir não basta. Somos chamados a orar e agir. Informar-se, interceder, apoiar missões confiáveis, sustentar financeiramente quem está na linha de frente e levantar a voz quando o silêncio é cumplicidade. Hebreus 13.3 não sugere empatia abstrata, mas identificação concreta: “como se estivésseis presos com eles”.


A esperança cristã não nega o horror. Ela o atravessa. Romanos 8 permanece verdadeiro mesmo quando o mundo desaba: nada pode separar do amor de Deus em Cristo Jesus. Nem facões, nem milícias, nem covas rasas.


A cruz já está na carne da igreja. A pergunta é se teremos coragem de olhar para ela — e permanecer fiéis.

Consciência Negra e Igualdade:

Reconciliação sem apagar pessoas

Para a vergonha ominosa de mais de um cristão, novembro vem nos lembrar de uma obviedade que a fé – não poucas vezes – esquece: Deus não faz acepção de pessoas. Não há hierarquia de pele, passaporte, sotaque, classe ou bagagem de vida diante do Criador. Sem ânimo de ser simplistas mas usando o simplismo para agravar a análise: Há pecadores e há graça. Há muro e há cruz.

E, em Cristo e apenas em Cristo, o próprio Criador “de ambos os povos fez um” (Ef. 2:14-16). Discrepar disso não o coloca na lista de meus inimigos, mas o coloca em rota de colisão direta com o que o próprio Senhor está querendo desde o inicio. (Leitores literais da Bíblia vão achar um pouco chocante essa colocação. Já quem tem maior flexibilidade e pode fazer leituras alegóricas com sua maior amplitude e lançando mão de mais fontes entenderá isso claramente)


O Dia da consciência Negra – a ser celebrado o doa 20/Novembro – coloca uma lupa em um problema que gostamos de fazer de conta que não existe: nos molesta o diferente. Com isso não me refiro a que não gostamos de algumas ideias de certa pessoa,mas mesmo assim conseguimos compartilhar a mesa ou um jogo de futebol ou um café ocasionalmente. Me refiro àquela reação espontânea (depois veremos essa palavra) veemente que é contra não já das ideias, mas também da própria pessoa. O campo do debate das ideias, é um terreno de batalha honorável. Já o desprezo do outro – do distinto – pelo fato de ter uma aparência distinta à minha, é uma coisa baixa, abjecta e que só põe de manifesto uma coisa: a falta de conhecimento do outro e o medo como fio condutor das ações. Essas duas coisas andam juntas.

A reação não é espontânea, porque é educada vagarosa ou intempestivamente. O ser humano, assim como um gato reconhece outro gato mesmo com pelagem diferente, precisa ser educado para achar que “a pelagem ” do outro ser humano tem alguma coisa a ver com carater ou similares.


Mas partir do dia da consciência negra e chegar em coisas tão diversas como “o diferente”, não é – por acaso – expandir o conceito a locais que – originalmente – não eram os almejados? Óbvio que sim! E exatamente disso que se trata. Se o dia da consciência negra servisse apenas para focar na situação dos seres humanos negros em solo brasileiro seria apenas uma heteronomia por outra quando aonde quero chegar é analisar a teonomia como solução. Já falarei dessas palavras. Baste agora dizer que nos tornarmos conscientes da situação negra em solo brasileiro em S XXI nos deve – como cristãos reais e não nominais – a levantar a voz sobre outras coisas sem por um segundo sequer diluir o assunto original.

Há quem pense que o Dia da consciência negra é uma pauta política empurrada para a igreja. E não há falta de razão nisso. Nós – detentores supostos da verdade revelada – deveríamos ter sido os primeiros a levantar essa bandeira. Então, a engolir o orgulho e fazer o que nos é devido. Se tornar consciente da situação negra brasileira no S XXI, faz parte do chamado bíblico à reconciliação que não dilui convicções nem compra um universalismo barato. É discipulado com nome e CPF.

Ou dito de outra forma, não porque nossa teologia cristã tem uma dívida imensa com o continente africano, os problemas atuais estão solucionados. Ou mais simples: é uma agenda para cada geração de cristãos.

1) Comecemos por onde Deus começa: dignidade

A Escritura (cabe dizer que é bem anterior a qualquer empreendimento político em prol de ter um dia da consciência negra) define o valor humano antes de qualquer rótulo: imagem e semelhança de Deus (Gn. 1:26-28) Isso – para qualquer cristão mesmo até para aqueles que diluem a autoridade bíblica com tradições e palavras de autoridade, ou aqueles que nem sequer conhecem a Palavra – basta para encerrar a conversa sobre “gente de primeira” e “gente de segunda”.

O racismo, explicito ou educado, manifesto ou regressado, é pecado porque fere o Autor do próprio ser humano. Ponto. Claro, uma leitura literal da escritura levantará mais problemas do que soluções. Mas Gênesis não se presta para leituras literais (em especial em seus primeiros capítulos) por serem poesia.

Esclarecimentos bibliologicos necessários à parte, o fato é de que qualquer forma de racismo, é – na sua forma mais brutal e básica – pecado e pecado afasta a criatura do criador.

Como eu já pude observar em primeira mão racismo entre brancos, me sinto especialmente preparado para atacar um problema tão sujo, baixo e nefasto como o racismo seja este pessoal, institucional, estrutural, veemente, escondido mas desde óptica diversa da que se vê usualmente.

Se observamos a Bíblia – e insisto, mesmo que seja um cristão velinha apagada ela continua sendo sua regra de fé e prática – Paulo tinha um problema similar na região da Galácia. Veja Gl. 3:28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre… pois todos são um em Cristo Jesus. Agora bem, o que se nos escapa dos dedos quando vemos esta passagem tem a ver com um anacronismo descomunal. O próprio império Romano, sob o qual estava a região da Galácia, tinha resolvido já essas diferenças ao – legalmente e de forma prática – absorver muitas raças, cores de pele, linguagens, leis, religiões, etc… Isso coloca de realce o paradoxo sob o qual viviam os gálatas: Eu sou judeu e não me junto com os gentios. Eu sou livre, não posso me juntar com um escravo. etc…

A unidade procurada – onde não há distinção por ser homem ou mulher ou ser escravo ou livre, etc – não é uma coisa que aconteça de forma automática. Aliás, nada na vida cristã o é. Nós que queremos que seja.

A única coisa de graça é a salvação e isso porque o custo é tão alto que só poderia ser por graça para igualar-nos a todos. Tudo o restante na vida cristã, tem um custo e a reconciliação com o diferente não é exceção.

Não é apenas “vamos nos gostar” Na realidade se trata de investir energia, força, intelecto (me faz pensar em “com todo teu coração, com toda tua alma com toda tua força”) em entender o outro e – lá vem treta – conseguir chegar a gostar do outro porque assim mó propus.

Já que estamos nisso, o casamento é igual.

2) Cristo derruba muros, não pessoas.

Corria o ano 33 mais ou menos e o império Romano ia de vento em popa. A absorção de pessoas diferentes por parte da antiga república tinha feito do agora império, uma fortaleça. Mas, isso não era assim no interior do ser humano. Em especial daqueles que criam. Se achavam a última bolacha do pacote, como costumamos dizer. No inicio desse ano, morria o que alguns chamamos de “meu Senhor e salvador” inaugurando uma nova era em que a graça iria reinar em paralelo com a morte, a lei e o pecado (Ref Rom. 5:12ss) e aqueles que entram nessa nova era iriam usufruir de uma nova mentalidade (Ref Rom 12) e muitas coisas mais que não cabem elencar aqui.

Muitíssimos anos depois, e seguindo uma teologia perversa que deshumaniza o ser humano e rejeita veementemente a estrutura proposta por Efésios e Gálatas colocando essa luta entre o antigo e o novo no coração do ser humano como se de um ser esquizofrênico se trata-se.

Efésios 2 é cristalino: Jesus é nossa paz e, na sua carne, desfez a inimizade e edificou uma nova humanidade (Ef.2:143-16). Essa paz, tem endereço: a comunidade local. Nisso tenho duas colocações: Não lhe chama a atenção o número crescente de pessoas que despreza a comunidade local? e segundo, não lhe atrai o pensamento ver como aparentemente as coisas funcionam “melhor” do lado de fora da comunidade? Não vou tocar nisso agora. Baste apenas dizer que o engano de Satanás, é maior, mais perverso, mais profundo e mais visceral do que qualquer um pode imaginar.

Voltando a Efésios. Não é um “Paz e Amor” que pedala em cima da verdade, nem um ecumenismo onde tudo vale e as identidades (conquistadas com tantas lutas) se diluem em prol de um bem maior que é menor da proposta do próprio Cristo.

A unidade bíblica tem centro – Cristo Senhor – e tem forma – arrependimento, fé, e mesa compartilhada. A diversidade de histórias permanece, o muro de hostilidade cai. E onde é que você quer estar? Dentro da nova comunidade fundada por Cristo ou fora dela? Sei… muitos vão dizer: fora dela.

3) O engano da “indiferença cromática”

Tem uma piada infame de um exercito brasileiro com problemas profundos de racismo. Tão grande era a desavença que chegou ao estado maior que mando um dos seus mais condecorados generais tratar do assunto.

Chegando às 0500 os fez formar e começou a lhes falar que eles não eram nem brancos, nem negros. Eram verdes. Todos se enxergam com vergonha e partiram para o abraço depois de mais de duas horas sendo arengados.

A piada finaliza, com o general explicando que – para que eles vejam que se tratava de uma coisa seria – ele tinha providenciado mesas para o recadastramento dos verdes. E que para facilitar o recadastramento, os verde claro iam se cadastrar no escritório da esquerda, e os verde escuro no outro.


“Eu nem vejo cor” soa até civilizado. Como dizem “eu até tenho um amigo negro”… como se fosse um pequeno animal de estimação para desmontar qualquer argumento. “Eu nem vejo cor” soa até civilizado, mas apaga histórias. E é aí que a visão bíblica se torna elevada, imprevisível, grandiosa: A Bíblia não faz de conta que as diferenças não existem: as redime. O mesmo se aplica a “não há mais homem nem mulher” a visão continua sendo a mesma de sempre: há identidades diferentes (que foram RECEBIDAS) que precisam ser valorizadas, não apagadas.

A visão do Cordeiro é de “toda tribo, língua, povo e nação” diante do trono (Ap.7:9) não tem nada de monocromática, mas muito de harmonia. A igreja (e o mundo por ser o local onde a igreja se manifesta) não precisa de paleta única, precisa de amor que enxerga e honra. Então pare de exigir que o outro se torne igual a mim para pertencer. Primeiro vem o pertencimento, depois a transformação con-jun-ta

4) Dando nome aos pecados

Racismo (não apenas contra o negro, mas também contra o indígena, o eslavo, etc) não só é um palavrão explicito (ou blasfémia, como preferir); Vive em piadas, silêncios, portas semiabertas, conselhos homogêneos (veja por exemplo os vereadores da sua cidade), currículos viciados e teologia que ignoram feridas históricas abertas.

Confissão bíblica não terceiriza culpa: eu confesso o meu, nós confessamos o nosso

Amos (meu herói particular neste nefasto ano que fez aniversário final de semana passado) diz assim: “Corra o juízo como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5:24)

Água correndo, poderíamos pensar em eventos sazonais. E isso, em ambientes de seca, é melhor do que nada. Todavia, “perene” me faz lembrar do rio com fundo de pedras que corre constantemente. É ritmo. Então, você se engana se isto é como uma daquelas campanhas de conscientização que nada mais produz do que alguma culpa circunstancial ou um pouco de indignação.

Justiça bíblica pede: a) processos, b) orçamentos, c) hábitos e d) revisão regular dos processos (às vezes achamos que está tudo bem revivendo mamutes ou mantendo estruturas que não mais comunicam desviando – com isso – recursos importantíssimos do que realmente interessa: a redenção da humanidade)

Quem tenha ouvido pelo menos três pregações minhas sabe o quanto eu desprezo a fórmula inócua do encerramento de certas orações “com o perdão dos nossos pecados, amém”. Perdeu vigor teológico. Perdeu vivência. Perdeu sabor. Virou uma repetição sem sentido que apenas mitiga por alguns segundos (se é que dura isso tudo) a culpa que o pecado traz e que tanto esforço a raça humana faz por esquecer.

Sem uma etiqueta apropriada, sem uma contrição pensada, sem um tempo de elaboração, são palavras vazias que até o vento tem preguiça de levar e amontoar em algum lugar porque sua falta de peso e essência as torna piores que folhas secas.

Se necessita então uma analise histórica e cultural do local onde a comunidade está inserida. De nada. me servem as reflexões feitas ao redor do Xingu dos Palmares se isso não comunica nada com dona Tereza, negra de mais de oitenta anos que tem muita história para contar ainda e parece que nós estamos fazendo papel de surdos voluntarios (e voluntariosos) para não coloca-la no centro da cena e revisar a postura histórica que temos tido. Com isso não estou dizendo que eu ou você especificamente – quanto pessoa de ordem física – seja ou sejamos culpados especificamente de alguma coidsa com a suposta dona Tereza. Todavia, sim nos parecemos como aqueles que tamparam os ouvidos e apedrejaram o primeiro martir da fé cristã: Estêvão.

Por aí, ficamos sabendo que a mesma instituição que a deveria ter defendido as Terezas das naus negreiras são similares quando não a mesma que facilitou a fuga de autoridades Nazis ao passo que entregava os que lutavam pelo socialismo (corrente esta que não defendo. Sou cristão.)

Sem historia, não há nome, sem nome, não há confissão, sem confissão não há perdão e sem perdão não há liberdade e sem liberdade (sempre seguindo a Bíblia, não há nem justiça nem paz. Ref Rom 5)

5) Sem universalismo barato nem hiper-ecumenismo

O universalismo (aquela linha teológica que indica que Jesus salvou todas e cada uma das pessoas na sua morte na cruz) despe o corpo doutrinario cristão acumulado (e defendido em intensas lutas intestinais) durante séculos e o expõe como coisa desprezível, rasa e sem significado. Existem – ao meu ver – dois grandes grupos dos participantes do universalismo: aqueles que – na sua leitura da Bíblia, de forma honesta e numa tentativa imparcial, enxergam no inferno e sua existência uma contradição com um Deus amoroso. Estão nesse mesmo grupo, os que, por falta de peso histórico, ou de tradição – se assim gostar – avançam em Romanos 5 para além dos seus limites e acabam colocando a cerca do outro lado do precipicio onde mais nada tem de útil.

O segundo grupo, são os bem intencionados e desprovidos de qualquer intensidade na fé ou interesse pelas escrituras, ou sequer algoma forma simples de curiosidade pela verdade (que por mais complexa que seja não deixa de ser verdade mesmo não a entendendo) acabam cultivando essas pedras parecidas com semi-preciosas que só tem um único brilho e acaba confundindo quem – de fato – se intreressa pela vida e – por consequência – sua preocupação última. E não se trata aqui de “salvação da alma” como se o restante não fosse importante. Se trata de que o universalismo nada mais é do que uma fuga da realidade soteriologica (isto é, coisas referentes à salvação)

No universalismo, não apenas a conduta deixam de ser importantes, como também a crença se torna supérflua. Ou como dizia meu amigo: à toa que nem buzina em avião (sim, eu sei que os aviões tem buzina, mas fiquei sabendo 40 anos depois dele insistir nisso… então tá valendo)

Ou seja, a existência humana é apenas um grande funil em que tudo vai se juntar no final sem importar absolutamente nada.


O companheiro quase que natural do universalismo é o hiper-ecumenismo. Não falo do caminho comum (isso que significa ecumenismo) que temos entre Batistas, Presbiterianos, Metodistas, Certas formas de Catolicismo, etc…. Mas aquele que apregoa que – já que tudo vai dar na mesma – não interessa o que você creia contanto o sinta e seja intenso nisso. Ou seja, nada mais parecido ao movimento hippie do final dos anos 1960.

Um é mestre do outro. Um depende do outro. Um arrasta o outro. Não interessa qual dos dois aparecer primeiro, na realidade, o outro vai aparecer junto. Essa simbiose esotérica, apenas afunda mais a pessoa em um sem sentido… Só que agora, é maior, mais abranjente, e com linhas cada vez mais difusas.

Se seu filho não acredita em Cristo, a eternidade dele é longe do Cristo. Simples. Mas é dessa simplicidade que precisamos para acordarmos à realidade espiritual que vivemos em que há regiões espirituais inteiras ocupadas em incentivar o hiper-ecumenismo e o universalismo.

Está tudo perdido no ecumenismo ou no universalismo? É todo ruim? Não, até do Diabo é possível tecer elogios importantes e que poderiam ser modelos para a vida cristã. Quer exemplos? A tenacidade, e a persistência com que ele se dedica a ofuscar o caminho da verdade.


A estas alturas do campeonato, você deve se estar perguntando o que tem a ver A com B. Não era do dia da consciência negra que estavamos falando?. Sim, era e continua sendo, mas sem essa introdução certas coisas que irei propor podem soar a universalismo ou hiper-ecumenismo.

Então 1) sejamos claros: nem todo caminho leva a Deus. Apenas Jesus o Cristo encarnado, morto e resurreto. Justamente por causa disso, o evangelho não está – de forma alguma – limitado aos de determinada cor ou determinada região, ou a certo sotaque ou origem, ou cicatriz. Fé, alinhada ao Criador, não vibra com rótulos; vibra com arrependidos. Graça é inclusiva; discipulado é exigente. E é muito interessante a multidão de supostos cristãos que gostariam que fosse ao contrario. 2) Exercicio de conscientização podem ser realizados com comunidades afro. Não é obrigatório, mas na honestidade histórica, isso se torna necessário. Eu acho que, para este ponto você está plenamente apto para entender a razão de por que refutar tanto o universalismo como o hiper-ecumenismo.

O pecado, tem suas emanações atingindo a sociedade como um todo. Não fica limitado apenas ao próprio corpo ou às próprias ideias. E vestir-nos de humildade necessária para participar de um evento de imersão nas mais diversas situações de ordem racista-histórico-cultural requer não apenas coragem, requer conhecimento. De outra forma é apenas um ato social que nada contribui para a compreensão do outro que – não por um acaso – compartilha sua mesmma base de cidadania. (Volte no lance do Zumbi dos Palmares que falei antes)

Um ato de imersão desses, não é um evento evangelistico. É um ato de amor para com o outro… para como diferente… o que precisamos compreender antes de sequer pensar em chegar a certas conclusões (já ouvi que se os ancestrais foram escravos era porque mereciam)

Então, sintetizando este ponto que – óbviamente – requereria um artigo à parte que não vou escrever – podemos dizer que O Evangelho acolhe e transforma. Nessa ordem estrita.

Toda e qualquer coisa que você fizer para inverter essa ordem, é pecado. Toda e qualquer coisa que você – podendo – deixar de fazer para entender seu vizinho diferente, é um pecado de omisão.

Então, o que você vai fazer com isso tudo?

P.S. E o tal da teonomia…? Ah sim, esses são três termos interessantissimos um usado usados e outros dois cunhados pelo teólogo e filósofo Paul Tillich. Na autonomia (lei própria), você é dono de sim, responde à sua própria lei interna (bastante parecido com o anarquismo quanto corrente filosófica ideal) e se todos são autônomos, idealmente, não há necessidade de que outro te governe. Mas aí que está, sempre há o outro que governa, esse é o heteronomo (regras ou leis do outro). O diferente, distinto, que governa o ser que não mais pode ser autônomo. O que Tillich (Filho de pastor ortodoxo, formado como teologo liberal, desencantado da inutilidade da teologia liberal para o ser humano e um dos fundadores da neo-ortodoxia) observou é que na história há uma inversão de valores: Quem em algum momento era um ser governado por outro, quando teve oportunidade de lutar e se desvencilhar do jugo, se tornou no heteronomo para o outro. Com isso, o oprimido passou a ser opressor e o ciclo se repete. Para ele a solução passa não pela ilusão da teocracia (como no Irã, por exemplo, ou no Vaticano) mas pela teonomia (norma do theos), em que cada ser individual, se sujeita não já ao heteronomo mas sim ao Criador. Se eu for sintetizar o artigo numa frase: não estariamos nesta situação se cada um de nós tivesse colocado Deus como seu Senhor e não apenas como galo de briga em rinhas de quarta categoria.

O cansaço do século e o chamado do Evangelho

Vivemos um tempo em que o desespero virou rotina. Segundo a OpenAI, mais de um milhão de pessoas por semana falam sobre suicídio com a inteligência artificial. Não é ficção — é estatística. E por trás de cada número há uma alma cansada, alguém que já não encontra sentido ao acordar.
O problema não é apenas clínico, é espiritual. É um grito que pede sentido, e o sentido é precisamente aquilo que o Evangelho oferece: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11:28).

Quando a máquina escuta e a Igreja se cala

É chocante: enquanto milhões desabafam com uma IA, muitos não encontram espaço para falar dentro das igrejas. Falta escuta, sobra julgamento. Falta abrigo, sobra discurso.
O ser humano fala com a máquina porque espera o que deveria encontrar no povo de Deus — atenção, acolhimento e esperança.
Se uma tecnologia pode ouvir com empatia, quanto mais a Igreja deveria ser um lugar seguro para os que estão à beira do colapso.

O descanso que não se programa

A IA pode responder, mas não pode abraçar. Pode orientar, mas não pode redimir.
Somente Cristo pode oferecer o tipo de descanso que a alma precisa — não o descanso de “fugir do mundo”, mas o de enfrentá-lo com esperança.
Ele não promete eliminar o peso, mas dividir o fardo. E esse é o evangelho que o mundo exausto precisa ouvir novamente: o de um Deus que se aproxima dos que choram e lhes devolve o sentido de existir.

A missão da Igreja no tempo da angústia

A igreja que prega, mas não escuta, trai o Evangelho que anuncia.
A missão hoje é clara: falar da esperança, mas também encarná-la.
Não basta dizer “Jesus salva” — é preciso mostrar como Ele acolhe, sustenta, consola.
Cada grupo, cada culto, cada encontro pode ser o espaço onde o cansado descansa e o desesperado encontra fôlego.

Final

Num mundo onde máquinas ouvem milhões de desabafos, que a Igreja volte a ser o lugar onde a alma encontra descanso em Cristo.
Porque o Evangelho continua sendo a resposta mais humana ao desespero mais profundo.

Saúde mental e a esperança cristã

Esperança em meio à angústia: Cristo como fundamento da dignidade e restauração humana.

Vivemos tempos de exaustão emocional coletiva. Ansiedade, depressão e solidão tornaram-se quase uma linguagem comum, falada em sussurros por quem teme ser julgado. O tema da saúde mental já não pertence apenas à psicologia – tornou-se também uma urgência espiritual. E a Igreja, se quer ser fiel ao Evangelho e de certa relevância na sociedade em que vive, não pode se calar diante do sofrimento humano.

Mantidas as proporções e a distância, existe um paralelo em como a sociedade judia tratava a lepra (e os leprosos) em tempo de Jesus e como nós – como Igreja – tratamos a saúde mental. E temos de tudo, mas geralmente, nada positivo ou construtivo. São poucos os exemplos que se permitem observar a fragilidade da existência humana e se escapam de soluções do tipo “tudo ou nada”. Ou seja: aquelas soluções que revestem de ares espirituais realidades mentais muitas vezes devastadoras.

É comum que a fala “suficientes em Cristo” a tiremos do ambiente soteriológico (ou seja, relativas à salvação) para colocá-lo em questões de ordem mental. Tão comum é isso, que para muitos parece uma afronta dizer que – em certos casos – é necessário o cuidado profissional e não basta apenas a oração.

A mente é o lugar onde se misturam pensamentos, emoções e reações do corpo.
É como uma ponte entre o que sentimos, o que pensamos e o que fazemos.
Quando algo se desorganiza — por dor, trauma, estresse ou desequilíbrio químico — essa ponte pode se quebrar. Assim como um osso se quebra, a mente também precisa de cuidado e tempo para se curar.

Recentemente uma colega de serviço foi atropelada enquanto dirigia sua moto. Quebrou a bacia, o fêmur em várias partes e teve fratura expostas. Óbvio que ela agradece as orações, mas com certeza a intervenção de um conjunto de profissionais da saúde é não apenas bem-vinda, mas essencial para a recuperação. Se não olhamos para a mente como olhamos para o osso, continuaremos a acumular culpa improcedente sobre quem padece e trataremos os profissionais da saúde mental como charlatães. Não é de estranhar que o movimento igual e contrario seja semelhantemente forte.

Karl Barth lembrava que o grito do homem aflito encontra resposta não em si, mas na revelação de Deus em Cristo. A esperança não nasce da autoajuda, mas da graça que se faz carne. Tillich chamou isso de “a coragem de ser”: continuar existindo mesmo quando o desespero parece mais real que a fé. É coragem de seguir, não por força própria, mas sustentado por uma presença que não nos abandona.

A saúde mental, à luz do Evangelho, não é ausência de dor, mas a presença de sentido. Jesus não prometeu eliminar o peso, mas compartilhá-lo: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt.11:28). O alívio vem do encontro, não da fuga. Esse texto, por mais que pode ser usado em mensagens evangelísticas e faz muito sentido, na realidade é um chamado aberto a todos: aqueles que estão longe do evangelho e também os discípulos. Limitar ele a assuntos salvíficos, é diminuir sua potência de forma irresponsável.

É precisamente aí que a comunidade cristã se torna (ou deveria se tornar) um espaço de cura: quando deixa de ser tribunal e se torna abrigo. Quando acolhe sem rótulos, escuta sem pressa, ora sem impor fórmulas. O Cristo ressuscitado, como recorda N.T.Wright, inaugura uma esperança concreta – não apenas espiritual, mas que toca corpo, mente e criação. A ressurreição é o anúncio de que a dor não é o fim.

Neste Dia Mundial da Saúde Mental, o chamado é duplo: cuidar e ser cuidado. Romper o silêncio, acolher o cansaço alheio, e lembrar que a fé não é inimiga da terapia – é sua companheira (desde que seja uma fé saudável, vale dizer)

Finalmente, mas não menos importante: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido” (Sl.34:18) E nessa proximidade, nasce a esperança que não decepciona (Rm.8:18-25)

¹⁸ Eu penso que o que sofremos durante a nossa vida não pode ser comparado, de modo nenhum, com a glória que nos será revelada no futuro.
¹⁹ O Universo todo espera com muita impaciência o momento em que Deus vai revelar o que os seus filhos realmente são.
²⁰ Pois o Universo se tornou inútil, não pela sua própria vontade, mas porque Deus quis que fosse assim. Porém existe esta esperança:
²¹ Um dia o próprio Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo e tomará parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
²² Pois sabemos que até agora o Universo todo geme e sofre como uma mulher que está em trabalho de parto.
²³ E não somente o Universo, mas nós, que temos o Espírito Santo como o primeiro presente que recebemos de Deus, nós também gememos dentro de nós mesmos enquanto esperamos que Deus faça com que sejamos seus filhos e nos liberte completamente.
²⁴ Pois foi por meio da esperança que fomos salvos. Mas, se já estamos vendo aquilo que esperamos, então isso não é mais uma esperança. Pois quem é que fica esperando por alguma coisa que está vendo?
²⁵ Porém, se estamos esperando alguma coisa que ainda não podemos ver, então esperamos com paciência.

Romanos 8:18-25

Fé sem garantias

Um pouco de filosofia

Søren Kierkegaard, aquele dinamarquês de nome complicado que os manuais de filosofia apelidaram de “pai do existencialismo cristão”, dizia que a fé não era um cálculo seguro. Não era um contrato com cláusulas bem assinadas. Era um salto no escuro. Um pulo diante do absurdo. O que o sustentava não era a certeza de onde cairia, mas a confiança em quem o chamava a saltar.

Mais tarde, John Caputo, já no nosso tempo, resolveu complicar ainda mais. Para ele, a fé é “fé sem fé”. E o que significa isso? Que a fé verdadeira não é uma fortaleza de pedra, mas um vaso de barro que racha, quebra, precisa ser colado de novo e de novo. É fé que não se apoia na segurança das respostas prontas, mas que sobrevive às rachaduras, ao silêncio, à incerteza. É fé que se reinventa a cada passo.

Umas brutalidades

Costumamos pensar que a dúvida mata a fé. Mas a história bíblica insiste em nos lembrar o contrário. Abraão riu do absurdo de ter um filho na velhice. Jó amaldiçoou o dia em que nasceu. Tomé exigiu colocar o dedo na ferida. Nenhum deles saiu ileso. Nenhum deles saiu “herói” no sentido romântico. Mas todos, de alguma forma, atravessaram a noite e encontraram fé do outro lado.

Essa é a brutalidade da coisa: a dúvida não é inimiga, mas parteira da fé. Ela arranca as ilusões, desmascara a confiança no automático, obriga a reinventar a caminhada. A fé que nunca duvida é como notícia de rede social: fácil de repetir, difícil de confiar. A fé que passa pela dúvida, essa sim, é real — porque não depende do verniz da certeza, mas da confiança no Deus que permanece.

Uma reflexão

Na verdade, fé e dúvida não brigam como rivais mortais. Elas se encontram, se cruzam, até dançam juntas. O pai aflito que gritou a Jesus não sabia esconder suas rachaduras: “Creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade” (Marcos 9:24). Eis o retrato mais honesto da fé. Não triunfante, não blindada, mas ferida e ainda assim viva.

É preciso abandonar a ilusão de que fé é ausência de rachaduras. Não é. É justamente ali, na rachadura, que a luz entra.

Conclusão

Portanto, se alguém lhe disser que dúvida destrói a fé, desconfie. Diga que a fé sem dúvida é caricatura. A verdadeira é a que sangra, a que se ajoelha no escuro, a que balbucia com vergonha: “Eu creio, mas ajuda a minha incredulidade”. Essa é a fé que sobrevive porque não se apoia em si mesma, mas naquele que a chama para seguir mesmo sem garantias.

Setembro Amarelo: Prevenção ao Suicídio e Saúde Mental

O mês de setembro é marcado pela campanha Setembro Amarelo. Ela é dedicada à prevenção do suicídio e à promoção da saúde mental. A campanha busca quebrar tabus, incentivar o diálogo e apoiar pessoas em sofrimento emocional com ações em todo o Brasil: palestras, rodas de conversa, mobilização em redes sociais, etc.

O tema ganha destaque diante do aumento dos casos de depressão e ansiedade, especialmente entre jovens e adultos, e da necessidade de redes de apoio e acolhimento nas comunidades.

Assim como em tantas outras coisas, a comunidade eclesiástica local, parece que se sente imune a tais situações. Como se a fragilidade da saúde emocional fosse exclusividade do que não pertence à comunidade. Como se procurar ajuda psicológica ou psiquiatra fosse um sinal de falta de fé.

Na realidade, procurar ajuda é de por si um ato de humildade. Procurar ajuda especifica para manter, melhorar ou recuperar a saúde mental, é um ato de gratidão a Deus por ter dado ao Homem a graça de poder desvendar transversal e longitudinalmente as entranhas do emaranhado mental que é a existência.

Doenças mentais, automutilação e suicídio, fazem parte da fragilidade e da dor da existência humana. Muitos são os que se insensibilizam perante a própria dor com escapes de todo tipo, chame-se festas, drogas ou cultos religiosos. Necessariamente “ser humano” é estar exposto ao sofrimento.

Suficiência e necessidade

A grande armadilha de certas formas de fé cristã (promovidas a partir de pessoas que talvez não tenham parado para pensar no próximo nem nas ferramentas que o outro possui ou não) é de que “Cristo é suficiente até para a saúde mental”.

Se bem isso soa bonito e é uma verdade soteriológica essencial, o certo é que – assim como na santidade que não acontece por acaso e sim por dedicação do discípulo – a Bíblia recomenda “Levem os fardos pesados um dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo” (Gál 6:2) e também “Confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para que sejam curados” (Tiago 5:16) e também “Não andem ansiosos por coisa alguma … com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus … guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Fil 4:6-7)

Agora, pense que você tem um acidente e quebra uma perna. Eu chego. O que devo fazer? Providenciar atendimento médico ou uma roda de oração para que seu osso seja restaurado?

A mente é como um membro quebrado. Precisa de atendimento especializado e não quem toque de ouvido. O conselho bíblico é essencial neste ponto: “Confessem os seus pecados uns aos outros” Por que escolhi esse texto dos que elenquei logo acima? porque é o mais sensível de todos e vai ajudar a mostrar um ponto essencial aqui: Você, confessaria seus pecados para qualquer pessoa na sua congregação? Óbvio que não. Iria escolher alguém que tivesse já algum tempo de ser bom discípulo, alguém que seja conhecido pela sua discrição e amorosidade no trato com os outros.

Ninguém deseja sofrer — exceto aqueles cuja saúde mental e identidade foram, desde a infância e por meio de diversos traumas, condicionadas a enxergar o sofrimento como algo normal e até desejável.

Partindo desse ponto, podemos enxergar a vida do suicida (e todas suas variantes menores como a auto-mutilação) com maior compaixão. A vida de oração, a amizade da comunidade, as atividades recreativas, exercícios e todo o mais é necessário e ajuda. Mas nada substitui um bom ouvido, um abraço e uma boa terapia.

Finalmente, mas não menos importante, a ressurreição de Jesus (que é o “primogênito dentre os mortos”) nos traz esperança. Não apenas para o futuro distante, mas para o presente concreto. Em outras palavras, a igreja tem um papel bem definido em ser espaço de acolhimento e restauração e não de condena e rejeição de certos indivíduos.

Neste mês de setembro, que seu cuidado para com os que sofrem seja fortalecido pela liberdade que você tem em Cristo — para indicar um bom psicólogo, assim como recomendaria um traumatologista a alguém ferido em um acidente.

Maravilha, Limite e Responsabilidade

O Chamado Cristão diante da Criação

Em uma era marcada por panteísmos renovados e espiritualidades fluídas, parece mais fácil venerar uma pedra que não exige, ou meditar diante de uma árvore que não confronta.

Há um apelo sedutor em se vincular ao que é tangível e impessoal. Uma rocha não chama ao arrependimento; uma árvore não ressurge dos mortos exigindo resposta pessoal. No entanto, o Cristo ressurrecto o faz.

Panteismo e pantanteismo

Enquanto o panteísmo dissolve o Criador na criação, e o pananteísmo o dilui em um “todo que é”, a fé bíblica insiste em distinção: Deus é transcendente e mesmo assim é imanente. Ou seja, é o Deus do mais além, inatingível, inaudível, imperceptível mas é o Deus que se manifesta na sua criação de uma forma bem geral e no homem – de forma particular – mas em Jesus (Deus encarnado) de forma especial.

Deus fala – e a criação escuta (Sl. 19:1). Ele sofre – e a criação geme com ele (Rom 8:22) Ele age – e nos chama a cultivar e guardar (Gn 2:15)

Eclipses ou semi-eclipses como o de ontem, são espetáculos celestes que evidenciam ordem e beleza – mas também limitação. Eles nos situam. A Lua não brilha por si, o Sol se esconde apenas por momentos, e nós, meros observadores, somos lembrados da nossa finitude e – paradoxalmente – da nossa vocação.

Revelação, Natureza e discipulado

Perante a teología liberal – na qual nada há de sobre-natural ou miraculoso e sim tudo é uma sequência de explicações meramente racionais – teólogos do tamanho da Karl Barth resgatam a soberania de Deus e nossa necessidade de revelação. A natureza, à que muitos descrevem com atributos divinos pessoais, faz parte dessa revelação geral, mas não é a revelação integral nem de forma alguma especial.

Já perante a insistente agenda verde grandiloquente, teologos contemporáneos como N.T.Wright nos convocan a ver em Cristo o primogênito da nova criação. Uma criação que – cabe esclarescer – não é para ser descartada mas renovada. Nesse contexto, cuidar da criação não é ideologia verde e sim discipulado.

O Chamado

Portanto, o verdadeiro maravilhamento diante da criação nos empurra para além da natureza. Ele nos chama à cruz, onde o Criador tomou sobre si a dor de criação ferida. O eclipse passa, a lua minguante cresce de novo – mas o Cristo crucificado e ressurreto permanece, convocando-nos à reverência, responsabilidade e esperança

Arterioscleroses Espiritual

Comecemos com um exemplo: o estilo musical e certa forma de arterioscleroses “espiritual” que todo grupo religioso vai desenvolvendo. Mesmo que a peça tenha sido elaborada no embalo de uma cerveja e sobre melodia comum em bordéis (como o caso de Castelo Forte) existe hoje uma certa sacralidade sobre esse hino específico, mas outro que possa vir a ser criado de forma análoga será automaticamente tido como mundano ou secular. Então, sob minha ótica, todo movimento religioso tende a uma rigidez mórbida no que lhe é mais essencial: sua forma de comunicação com a sociedade na qual a comunidade está inserida.

A preocupação última pode ser expressa e elaborada sob qualquer forma de manifestação: linguagem, marte, cultura, música, filosofia, desde que comunique algo do mistério da vida e do encontro com o divino. Se houvesse uma única forma de linguagem divina e inalterada “caída do céu”, deveria ser essa a forma adotada. E não é para isso que apelam os movimentos de resgate cultural de músicas em estilo judaico?

Necessariamente, por uma questão de simples comunicação com os seres humanos, toda linguagem religiosa é humana, que nasce da experiência histórica e cultural específica. Com isso, a linguagem usada para as “Vacas de Basã” precisa de ser interpretada e “traduzida” pelo pregador para obter o fim desejado: comunicação da mensagem. O mesmo acontece com a teologia ou os estilos musicais, ou os conteúdos. Precisam de uma tradução e não de manter uma tradição muitas vezes transplantada, e nada comunica – de forma direta – na cultura alvo.

A linguagem sagrada é simbólica, poética, expressiva, e serve para apontar para realidades que vão além da mesma. (Apontam para “o Transcendente” ou “o completamente outro”. Ou resgatando alguma coisa kantiana: extrapolam o imanente)

A citação, então, de Paul Tillich “Não existe linguagem sagrada caída de um céu sobrenatural para ser encerrada nas páginas de um livro. O que existe é a linguagem humana, baseada em nosso encontro com a realidade, em evolução ao longo do tempo, usada para as necessidades cotidianas, para expressão e comunicação, literatura e poesia, bem como para mostrar a preocupação suprema” reflete um ponto central de sua teologia da cultura: a linguagem religiosa não é mágica ou vinda do céu em estado puro. Mas é uma linguagem humana, moldada historicamente e usada para expressar aquilo que ele chama de “preocupação última” ou “preocupação suprema”. Isto é: o sentido mais profundo da existência.

Seguindo essa linha: a mensagem precisa “encarnar”. E isso não se faz com linguagem e problematizações de há seis séculos.