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REFORMA PROTESTANTE – 497 ANOS

2Lendo alguns biógrafos que relatam o período da Reforma, começamos dizendo que somos “frutos” (espiritual/intelectual) daquilo que denominamos REFORMA PROTESTANTE. Abraçamos suas ideias (não todas) e as entendemos que essas se deram como um marco na história da igreja. Marco tal que desembocou em inúmeras micro reformas até os dias de hoje.

A Reforma Protestante deve seu legado histórico à iniciativa de Martin Lutero e suas noventa e cinco teses estacadas na porta de sua capela no dia 31 de outubro de 1517 – início de um protesto contra as indulgências que prometiam ao povo uma garantia de pecados perdoados antes mesmo que fossem cometidos. Praticamente um comércio salvífico não escriturístico; um meio ilegal para arrecadação de dinheiro usando um discurso de ameaças infernais e cravando sobre o povo um regime de obras, tudo pelas mãos de ferro da igreja imperante.

Mas Lutero ousou ser um mensageiro de Cristo. Sua vida como um todo e seus estudos o levaram profundamente a querer entender o Novo Testamento. É a partir de sua trajetória que hoje temos consciência dos pilares da reforma: Sola Scriptura; Solus Christus; Sola Gratia; Sola Fide; Soli Deo Gloria. Essas numa tentativa de retornar a Bíblia como fonte da revelação divina e prática dos homens.

Não quero aqui biografar acontecimentos passados, quero apenas elencar rapidamente o que esses pilares deveriam ser para nós cristãos pós-modernos, nós que sobrevivemos às mudanças, perspectivas e paradigmas do séc. XX e nos erguemos por meio do engajado evangelicalismo da década de 70. Minha pergunta é: Como devemos, em nosso atual contexto, refletir esses pontos enaltecidos pela Reforma? Respondo desde já que nossa resposta deve ser bíblica. Quero aqui elencar apenas três desses pilares.

Sola Scriptura – Quem já leu sobre o movimento iluminista e pós-iluminista sabe que um grande embate se formou em torno dos dogmas (autoridade) e doutrinas da igreja romana e reformada. Sabe-se que a busca das tradições humanas sobrepujou as Escrituras enquanto palavra de Deus escrita aos homens.

Quase dois séculos antes, Lutero se levantou arguindo contra a igreja católica romana no princípio contrário, ou seja, em outras palavras, Lutero queria uma verificação nas Escrituras daquilo que a Igreja estava realizando e prometendo. Ele exigiu uma volta as Escrituras Sagradas. Enquanto o séc. XX, fonte de todo desaguar dos séculos anteriores, exigiu o descrédito da Bíblia em prol das ciências naturais, o período da Reforma elevou-a ao topo de todo conhecimento e razão para o ser humano.

Portanto, quando falamos de Sola Scriptura, falamos da volta ao texto e seu contexto macro, o que pressupõe a fuga de todas as abstrações do texto real. Nada nela, nenhuma sílaba deve ser alterada para especulações e por tradições dos homens (aqui admito que todos nós vamos ao texto debaixo de tradições e pré-conceitos; o importante é sempre voltarmos ao texto antes de validarmos nossa razão e abstração) . Tudo nela deve ser levado em consideração; todos os etas (e, gr.), ou seja, cada partícula conectiva entre um versículo e outro, cada argumento e contra argumento, cada til de toda Escritura deve ser levado a sério. O apelo ao todo das Escrituras, tudo o que a compõe e seu contexto, devem ter primazia quando houver tradução e interpretação.

Sola Scriptura nos leva, consequentemente, ao Solus Christus.

Solus Christus – O evangelho, enquanto mensagem de boas notícias, vem nos revelar que somente Jesus é o Senhor universal. Essa é a verdadeira intenção desse slogan. A Reforma trouxe sobre esse ponto a denuncia aos mediadores que estavam sendo postos, potencialmente, no nível de Jesus Cristo. Um exemplo: Os santos ou os ossos dos santos eram venerados e, também, um meio de obter indulgências. Para esse contexto mercadejante, Lutero combateu acertadamente utilizando princípios do corpus paulino. Isso não quer dizer (meu ponto de vista) que tenha interpretado corretamente os textos paulinos que utilizou.

Mas, Solus Christus tem a nos dizer que o Jesus de Nazaré se tornou o Messias de Deus e proporcionou a Ele toda glória que a raça humana não lhe deu por direito. Isso quer dizer que esse slogan fala mais sobre uma verdade a respeito do Messias de Deus do que uma verdade sobre você e eu e nossa salvação. Fala, num contexto político, sobre um Rei que é universalmente superior a qualquer rei ou césares posto no trono e, indo além, Ele, Jesus Cristo, detém toda autoridade e poder em relação às autoridades humanas. Para finalizar essa reivindicação, devemos lembrar que ela foi utilizada no primeiro século como o evangelho que era superior ao do imperador romano da época. Isso tem haver com Jesus Kyrios, o Senhor do mundo, maior que todo reino ou império e que está acima de todos.

Outro aspecto do Solus Christus é o ponto em que Deus condenou, na carne de Jesus, todo pecado da humanidade que ofusca sua glória na criação, iniciando por meio de Sua ressurreição uma nova criação pautada no Christus Victor (Cristo vitorioso) – mais utilizado por Paulo do que o Cristo da expiação. Assim, nossa esperança vem da vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte.

Solus Christus nos leva, prioritariamente, ao Soli Deo Gloria.

Soli Deo Gloria – A verdade dessa afirmação é que somente ao Deus YHWH seja toda glória pelos séculos dos séculos, amém. Nada mais pode produzir glória ao Deus de toda criação do que uma humanidade refletindo Sua imagem e semelhança. Por meio de Jesus Cristo (Solus Christus), a humanidade agora pode ser redimida e será no fim das contas. Podemos, com toda certeza, afirmar que Deus é glorificado quando, por meio de Cristo, seu povo lhe rende glória dentre as nações.

A graça e o poder da mensagem do evangelho (Sola Gratia), aliada a fé (Sola Fide) mediante o Espírito Santo (alguns teólogos modernos trabalham o Sola Gratia em conjunto com Solo Spiritu, realidade na literatura paulina), produz uma nova humanidade, àquela desejada desde o gêneses; uma nova humanidade colocada sob um novo pacto/aliança, onde o pecado e o cosmos estão debaixo, uma vez por todas, da autoridade de Deus e seu Cristo. Uma vez que as alianças judaicas culminaram no novo pacto, na pessoa de Jesus, Deus é glorificado por Sua justiça que completa o plano de salvação lidando com o mal no mundo e elevando a humanidade caída a uma criação exaltada.

Desse modo, nessa breve exposição que fizemos acima, retomamos o Sola Scriptura para confessarmos que somente ela pode nos avivar, após a conversão por meio da pregação do evangelho, numa caminhada onde abraçamos as histórias e experiências de fé daquele tempo, povo, e convergimos ao nosso tempo – como fez Lutero – num processo de adaptação e direcionamento das verdades reveladas.

Reavemos o Solus Christus – contido em toda a Escritura – para trazer à memória aquilo que nos traz esperança. Que a história de Jesus de Nazaré, aquele que foi crucificado e ressuscitado dentre os mortos pelo mesmo Deus de Israel que o vindicou como Messias; o Senhor de todas as coisas o qual todo joelho se dobrará e toda língua confessará (judeus e gentios) que Ele é Senhor, que essa história seja para nós conversão (experiência de fé) e vocação (encarnação das obras/sofrimento de Cristo).

Isso porque, produzirá glória a Deus Pai – Soli Deo Gloria – como o grito de desespero de toda a criação que aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus; assim, seremos nesta geração os personagens dessa maravilhosa trama onde Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo já venceram e trouxeram esse vitória para o centro da nossa história.

Novo credo cristão

(Aviso aos navegantes, isto aqui é uma ironia)

De tempos em tempos a igreja tem se deparado com a necessidade de sintetizar sua fé. Isto, é colocar de lado as diferenças e escolher o caminho comum; definir o que é ortodoxo e o que não é; descartar aquilo que desvincula para manifestar aquilo que une.

Assim temos o Credo Apostólico usado oficialmente pela primeira vez no ano 390 em Milão. Temos também o Credo Niceno definido no conclio da cidade de Niceia em 325. E finalmente podemos mencionar o Credo Atanasiano que se firma com Carlos Magno (742-814)para fins de instrução mas que não sabemos ao certo a origem.

Todos eles têm o mesmo propósito: Estabelecer o que é crença cristã e definir o que não é. Veja como por exemplo, podemos concordar facilmente com o Credo Apostólico a continuação:

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo. Seu único Filho nosso Senhor. O qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica – a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.

Claro, os desavisados de plantão podem arrepiar a espinha ao chegar na parte em que diz “na Santa Igreja Católica”, mas o termo católico nada mais significa que universal, ou seja, que atinge a todos os seres humanos e nada tem a ver com a instituição conhecida pelo mesmo nome.

Mas voltando ao assunto, um credo nada mais é do que um reflexo das crenças dos que creem. Uma formulação do abstrato em termos simples e pragmáticos que facilitem aos que o leem a compreensão da essencialidade da fê proposta.

Eu me proponho hoje fazer o processo contrário, ou seja, a partir da observação externa produzir um texto que ampare a cristandade como um todo em sua prática e não na sua utopia. O texto ficaria mais ou menos assim:

Creio nos estereótipos fortemente alicerçados na pregação do meu guru pessoal. E na minha teologia particular. Única filha legitima dos meus estereótipos. A qual foi concebida da miscigenação caseira de ouvir uma cacofonia ensurdecedora de pregadores televisivos que falam sobre uma prosperidade terrena que anseio desesperadamente; Ela padece sob outras teologias de cunho bíblico, é esmagada, mas nem a deixo morrer nem a sepulto; Vou ao inferno com ela se necessário for, subo ao meu próprio céu terreno do toma-lá-dá-cá e deixo que ela me conduza pela mão direita, ao final de contas me falaram que sou cabeça e não cauda e vou julgar todo mundo. Creio na esquizofrenia espiritual que me acompanha, na minha única e própria visão da igreja – a comunhão do “nós” em lugar de “com eles”, na culpa constante pelos pecados (se é que existe pecado), nos meus esforços pessoais para agradar o Criador e na poupança recheada antes de partir para a eternidade. Amém

ORAÇÃO: AMIZADE COM JESUS CRISTO

Penso que os questionamentos nos movem. Eles nos levam para além do que somos e de onde estamos. Isso porque questionar é ir além do refletir. É ter a coragem de adentrar terrenos desconhecidos e de encarar novos desafios. E diante destes que nos cercam, uma que nos confronta é a questão do renovar.

O renovar-se exige de nós a ousadia de buscar o novo no velho, fazendo-nos assim, sair das nossas zonas de conforto. Verdade é que poucos trilham este questionador e ousado caminho. James Houston foi um dos que corajosamente adentrou esse terreno na busca do novo em relação ao velho caminho da oração.

Escocês, profundo conhecedor e pioneiro no campo da espiritualidade cristã, fundador e professor do renomado “Regente College” onde tem lecionado a cadeira de Teologia Espiritual substituídos por Eugene Peterson; James Houston é considerado um homem sabedor de diversas áreas do conhecimento humano e amigo de C S Lewis.

Sua busca e questionamentos concentram-se no campo da oração como amizade com Deus. Contudo, antes de avançarmos com seu pensamento sobre este assunto, refletiremos na seguinte questão introdutória: O que entendemos por orar?

Tecnicamente, orar é dialogar com Deus todo o tempo. É o que Paulo aconselha aos irmãos em Éfeso, “orarem em todo o tempo” (6:18). Uma curiosidade sobre a oração é que ela é profundamente direcionada por aquilo que cremos e como nos comportamentos. Ou seja, o caráter de nossas orações será marcantemente determinado pelo caráter de Deus, enquanto o conhecemos e o experimentamos.

Orar é articular nossos desejos, vontades e angústias, mas também é fazer nossos pedidos e súplicas a Deus. Noutras palavras, entendemos que orar é falar, falar, falar, falar e falar… com Deus.  Entanto, em (Mt.6:5-8), Jesus faz um comentário surpreendente. O de que, quando oramos devemos fechar a porta do quarto e ir para o mais profundo do silêncio, ou seja, ir para o recluso, para a introspecção.

Assim, para Jesus, oração não é alguma coisa que Deus ouve, mas o que Deus vê. Nesta perspectiva de Jesus, a oração tem muito pouco haver com nossas palavras, mas tudo haver com nosso coração. Portanto, podemos dizer que, a luz de Cristo, a oração é uma experiência de Deus que transcende as palavras, pois estas são limitadas demais para expressar esta experiência do divino. E buscar a Deus no silêncio é construir a verdadeira intimidade com ele. Intimidade esta que é expressa e desenvolvida no relacionamento com Deus.

“Minhas orações, Deus meu, fluem do que não sou. Eu penso que tuas respostas me transformam no que sou”. George MacDonald

O questionamento de James Houston acerca da oração o conduziu ao entendimento de que precisamos de uma teologia que nos desperta para um relacionamento pessoal e verdadeiro com Deus. Noutras palavras, uma teologia que nos aponte o caminho da oração que seja mais pessoal e afetiva, e não apenas acadêmica.

Em seu livro “A oração: O caminho de amizade com Deus”, Houston procura ensinar a orar e cultivar uma amizade com Deus. Ele nos leva a descobrir que orar é mais do que conseguir de Deus aquilo que desejamos, é exercer um relacionamento de amizade com Ele.

O capítulo oito deste livro traz como título “Oração: A amizade com Jesus Cristo” onde o autor fala acerca deste caminho relacional de amizade entre o homem e Deus.

Dia após dia; dia após dia; Ó querido Senhor, três coisas eu oro: Ver-te mais claramente; Amar-te mais amorosamente; Seguir-te mais de perto; Dia após dia”.

Ele inicia o capítulo dizendo que na realidade do Espírito Santo possuímos tanto a transcendência de Deus, onde ele é o outro distinto de nós em sua divindade; quanto sua imanência, onde seu Espírito é intimamente pessoal, “mais próximo do que a respiração”. Como ambos, ele é o Espírito de Jesus que permanece conosco para todo sempre.

Diz também que à medida que o Espírito trabalha em nossas orações podemos aguardar significativas mudanças, ou seja, a forma pela qual oramos será radicalmente transformada, pois experimentaremos uma maior liberdade de comunicação com Deus, a media em que nos tornamos mais e mais seguros de que ele nos aceita como somos.

Um aspecto destacado pelo autor neste capítulo é a oração e a nossa pessoalidade. Ele argumenta que a oração como amizade é afetada por nossa educação exatamente da mesma maneira que ocorre com todos os nossos relacionamentos. Assim como nossa personalidade é desordenada, também nossas paixões o serão. Para tanto, o autor explica que a morte de nossa velha natureza nos conduz à novidade e grandeza de vida com consequências inimagináveis.  Ressaltando que nosso trabalho não é suprimir ou esconder nossos verdadeiros sentimentos, como temos feito desde a infância, mas expô-los a Deus de modo que ele possa nos curar e fazer de nós pessoas íntegras.

Outro aspecto destacado aqui é a oração e nossa submissão. Houston entende que a submissão a Deus e aos outros é a chave da oração, pois orar é reproduzir o caráter de Jesus em nós mesmos permitindo que nossa vida seja moldada por ele. Por isso, quando oramos em submissão à vontade de Deus, nossas orações não são mais nossas próprias, expressas de nosso ponto de vista, mas expressas do ponto de vista de Jesus em nós.

A oração e nossa fé também é outro aspecto levantado pelo autor. Através da fé nos apossamos de realidades que não podemos ainda ver ou vivenciar por nós mesmos. Houston tem descoberto que esta é uma jornada pela náusea, sobre um abismo temível. Isso porque Jesus nos guia através dos túneis escuros de nossos medos da infância, de nossas culpas secretas e de outras coisas que temos tentado esquecer e reprimir. Ele diz:

Com medo do mar, eu fui obrigado a mergulhar nele nos braços de meu Pai. Com receio da fé como um modo de vida, fui privado da estabilidade profissional. Pelo medo de fracassar, tive que ser quebrantado por meio de uma desonra pública. Cada um de nós tem de passar pelo caminho da náusea”.

Segundo ele, o evangelho de João fala que a palavra “crer” expressa um relacionamento contínuo e dinâmico de amizade com Jesus. Nada fazemos sem Ele, e esse caminho de fé significa estar impregnado com a consciência de sua presença o tempo todo.

Outro aspecto destacado pelo autor é a oração e nossa liberdade. Orar em nome de Jesus significa sermos liberto de nós mesmos. Houston diz que o medo é um sinal de nossa possessividade, ou seja, quanto mais auto possessivos ficamos, mais medo sentimos. Por isso, a meditação constante na Bíblia nos liberta de muitos medos e fraquezas; do medo da opinião dos outros; da fraqueza pessoal e das autoindulgências.

Um último aspecto a ser mencionado aqui é a oração e nossa direção. Houston diz que o propósito primário da oração não é, portanto, atender nossas próprias necessidades, tampouco satisfazer nossos desejos, mas glorificar a Deus através do modo que oramos e vivemos. Jesus nos conclama a um propósito específico: que sejamos frutíferos. Todas as nossas orações são subservientes a este objetivo claro. Assim, Jesus nos denomina seus amigos por uma razão: para compartilharmos a outras pessoas a alegria de nosso relacionamento com ele.

O poeta William Blake nos conta que “somos colocados na terra em um pequeno espaço para aprendermos a suportar os raios de amor”. Felizmente, estes também são raios de amor que brilham em nós, ajudando-nos a explorar os abismos da nossa própria insignificância, a remover as máscaras de nosso autoengano, o solo estéril de nossa solidão. Isso somente pode nos acontecer quando estivermos determinados, em humildade, a fazer de nossa vida uma vida de oração.

Concluo dizendo que, por ser quem é, e por sua ousadia em buscar inovar a teologia de um assunto tão discutido como a oração, é que James Houston merece ser ouvido através desta maravilhosa obra literária.

por: Ângela Aleixo

Fazendo “teologia” com os olhos fixos no Jesus ressurreto

224 Mas Tomé, o Gêmeo (chamado Dídimo), um dos Doze, não estava com eles quando Jesus chegou. 25 Os outros discípulos lhe diziam: Vimos o Senhor em pessoa. Mas ele lhes disse: caso não veja em suas mãos o sinal dos cravos e, além disso, não ponha meus dedos no sinal dos cravos e ponha minha mão em seu lado, não creio. 26 Oito dias depois estavam de novo dentro de casa os seus discípulos e Tomé com eles. Chegou Jesus estando as portas trancadas, fez-se presente no centro e disse: Paz (seja) convosco. 27 Em seguida diz a Tomé: Estende aqui teu dedo, olha as minhas mãos; estende a tua mão e põe-na em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente (fiel). 28 Reagiu Tomé, dizendo: Senhor meu e Deus meu! 29 Jesus lhe disse: Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer? Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer (os que não viram e creram)” (João 20. 24-29).

Introdução

            Uma analogia para Teologia:

Fazer teologia é como que olhar para o sol. Olhar para o sol é o mesmo que ter a visão ofuscada pelo seu brilho intenso, intolerável aos nossos olhos. Duas consequências de se olhar diretamente para o sol: 1) ter a visão ofuscada; 2) cegueira. Devemos querer ser tocados pelos seus raios solares do que querer olhar diretamente para o resplendor de sua luz. Ou apenas nos animemos em ver e contemplar seu reflexo refletido nas águas.

Um exemplo claro para essa analogia é a experiência do pedido de Moisés quando quis ver a glória de Deus e, pôde ver apenas Sua bondade (Êx. 33. 18-19).

Nosso conceito de teologia deve sempre partir desse entendimento do olhar para o sol, isso porque a dificuldade de se falar sobre Deus é sempre uma dificuldade a partir do nosso ponto de vista, de referência, ou de contemplação (experimentar). Para quem devemos olhar para se fazer teologia?

Teologia, sumariamente, é um conceito, estudo, indícios de uma análise sobre Deus. Deus não é um objeto da nossa realidade, uma entidade acessível à nossa investigação. O máximo que podemos chegar com nossas pesquisas, estudos e fé é: em direção a Ele; mas, nunca compreende-lo no todo ou chegar até Ele de forma plena.

Um dos maiores desafios da Teologia atual é a contextualização dos textos bíblicos. Afirmo isso simplesmente por causa da nossa dificuldade prioridade assumida ou não da enérgica busca e tentativa de fazer teologia advinda do Iluminismo e séc. XX. Desse modo, assumimos uma teologia formulada e formatada e carregamos todos os pressupostos dela na nossa leitura bíblica, nossa devoção, nossas obras, etc.

Vejamos um conceito cientifico para Teologia: “Teologia, como um tópico a ser estudado ou uma atividade na qual se engajar, normalmente opera no nível do discurso público sobre crenças básicas e consequentes. Refere-se a crenças em relação a Deus, ou deuses ou sobre o mundo. Relaciona-se orgânica (processos ligados à vida) e dinamicamente à visão de mundo”. Ou seja, nossa visão de mundo é um emaranhado de ideias postas em conjunto de postulados (princípios ou fatos reconhecidos, mas não demonstrados) sobre como são as coisas (símbolos, práticas [ritos], histórias [mitos], e questões / respostas [quem somos? Onde estamos? O que está errado? Qual a solução?]), que incorrera na nossa realidade percebida e experimentada.

O que quero dizer com tudo isso é uma tentativa de resposta para a pergunta já feita: para quem estamos olhando quando fazemos teologia? Quem é o nosso eixo, centro, nosso postulado?

Para Deus? Essa seria a resposta mais evocada num circulo como o de teologia. O problema é que Deus, como palavra, tem dupla função: 1) como substantivo comum, indica um ser divino, uma entidade de fé assim como uma cadeira é uma cadeira; 2) como substantivo próprio ou pessoal, ou seja, para o judaísmo, YHWH; para o islamismo Alá e seu profeta; e para o cristianismo?

Vamos voltar ao texto:

A estrutura em que o texto está exposto pode ser:

a) 20. 24-25 – Incredulidade de Tomé.

b) 20. 26 – Presença de Jesus entre os seus.

c) 20. 27-29 – Fé de Tomé; ou verdadeiro fundamento da fé.

a) A incredulidade de Tomé (20. 24-25) pode muito bem representar a nossa incredulidade quanto a Deus ou a incredulidade de toda humanidade. Normalmente a incredulidade surge das dúvidas quanto aos postulados. É sadio questionar nossos postulados para gerar uma nova cosmovisão.

Tomé, como um incrédulo e como nosso representante num contexto onde “Teologia para a fé” se tornou banal, era o único dentre os Doze que não havia recebido o sopro do Espírito vindo de Jesus Cristo (20. 22). Ele representa aquele que ainda funcionava e funciona a partir da “epistemologia do tocar” e pela “epistemologia do ver”. Ele ainda não partilhava na nova identidade de Jesus.

A espiritualidade moderna funciona por esses mecanismos epistemológicos: precisamos tocar as coisas para crer; precisamos ainda estar ancorados numa realidade de clero para nos ditar os postulados e assim crermos e nos manifestarmos como agentes missionários; precisamos ver as manifestações, as curas, o poder operando nas reuniões; as grandes construções e Templos de Salomão para vivenciarmos momentos mágicos da divindade para crermos.

O problema é que “tocar e ver” não mudam nossa essência e, portanto, não mudam nossa realidade existencial. Precisamos ser impactados por uma nova epistemologia, uma que nos leve a conhecer.

b) A presença de Jesus no nosso meio (20. 26) quebra esses modelos epistemológicos que dirigem a nossa vida. A reação (apekrithê, gr.) de Tomé quando é interpelado por Jesus produz, em meio a incredulidade, uma nova postura (se coloca não mais como incrédulo), e reconhecimento verbalizado de seu Senhor e Deus (“Senhor meu e Deus meu”). Tomé abandona a epistemologia do “tocar”. Sua reação não é em direção ao reconhecimento físico de Jesus, mas sim, ao vê-lo, terminou de crer (“Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer?) / (pepisteukas –gr. [acabar de crer, descreve o ponto de chegada de um processo, que inaugura estado subsequente]).

c) O verdadeiro fundamento da fé e, portanto, o verdadeiro fundamento para se fazer teologia (20. 27-29) é a partir do ver e, além disso, “ouvir a Cristo”. Essa é a nova e maior epistemologia que Jesus inaugura. A realidade e facticidade do Cristo ressurreto em pessoa não mais seria algo visto e palpável, mas sim algo que, ouvindo sobre Ele, creríamos. A incredulidade de Tomé quanto ao testemunho dos discípulos é, então, evidenciada.

A crença no testemunho do Cristo ressurreto é o fundamento de toda teologia cristã. É por meio desse testemunho que, tanto judeus quanto gentios, creriam na boa nova de salvação e os pecados seriam perdoados.

É diante do Cristo ressurreto que o maior mistério, ocorrido no texto anterior, vem a tona e viria em Pentecostes. Haveria aqueles que creriam sem ver e sem ouvi-lo fisicamente, pois a realidade do Espírito Santo como aquele que testemunharia (fala e nós ouvimos) do Senhor e Deus revelado em Jesus aconteceria. Como num antegozo, os discípulos são levados a entender o plano de Deus para salvação dos homens.

“Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer”.

Assim, para quem estamos olhando quando fazemos teologia? É de fato para Jesus Cristo em sua realidade de ressurreto e glorificado? Temos ouvido Ele por meio de Seu Espírito em Sua palavra?

O marketing e a Igreja

marketingAlguns, sincera e piamente, acreditam não só que é possível mas necessário usar ferramentas de marketing para disseminar a fé no Senhor.
Acontece que nem sinceridade nem piedade são garantia de idoneidade.


Vivemos em tempos em que o marketing e suas técnicas reinam plenipotenciários. Nada do que se vende, compra ou troca está livre de alguma forma de promover as características do produto.

Obviamente que isso não é novo. Basta imaginar dois beduínos sentados em pleno deserto com suas caravanas em suspenso enquanto negociam, para visualizar claramente um falando para o outro que o rebanho sendo negociado, tinha preço equivalente de tantos metros de seda oriental. Nada novo nisso ai.

O problema é a massificação disto. A escala, por usar uma palavra comum ao meio informático. Quem ganha uma venda? Geralmente quem mais e melhor investiu em marketing. Não é a mesma coisa beber um refrigerante marca “palito” do que um que leve a palavra “cola” e faça lembrar a cocaína no nome. Os exemplos são bem conhecidos.

Bem, como de costume, a igreja institucionalizada entende que precisa ir atras do mundo em lugar de simplesmente existir e permanecer. Logo, que melhor ferramenta do que as que o marketing pode oferecer. Rapidamente passamos de oferecer melhores conteúdos para melhores programas, de melhores programas para mais vigorosos encontros e de encontros vigorosos para um melhor Jesus do que os outros tem para oferecer. Como nesta carreira cada um luta como pode (e não exatamente como deveria) isto atinge não apenas as grandes urbes mas também os povoados mais pequenos, provando-se um problema quase que de ordem existencial.

É claro que se uma igreja decide que vai ter tal ou qual programação, nada mais lícito que promover. É obvio que se o local de reuniões será visitado por alguém que a igreja local julgue relevante, nada mais sensato do que falar para os outros, ao final das contas, isso não acontece toda hora.  Mas é ai que o perigo mora.

Empolgado com os “resultados” o povo e seus líderes (ninguém pode dizer ao certo quem começa) vão querer mais. Aos poucos é gestado um departamento de promoções ou -descaradamente- uma empresa de marketing é alugada. Ao final das contas, se se está na chuva é para se molhar e o fim justifica todo e qualquer meio.

Jesus e sua mensagem são colocados então de molho aguardando uma melhor oportunidade para aparecer. Como tem muito visitante, o pastor “sente” da comunidade, do vento, das estrelas ou sei lá do que mais que não pode trazer uma pregação firme ou de denuncia. Está mais para um bom vinho misturado com água do que agua pura ou vinho puro. Ou seja, é uma coisa repulsiva que agrada apenas quem de fato não deveria ser agradado: a plateia.

Me explico. O evangelho não tem a ver com democracia. A administração da igreja pode até ser (e apenas para contrabalancear o culto à personalidade ou limitar o poderio dos cowboys do evangelho ou compartilhar o peso da responsabilidade nas decisões comunitárias) mas o evangelho e sua pregação – isto é, a essência da igreja – não o são. O evangelho foi trazido por revelação divina e apenas subsiste por ser de tal natureza. O evangelho é duro e difícil (se não impossível) para os que estão de fora e a única porta de entrada é o arrependimento, isto é, o reconhecimento profundo e pessoal de ter vivido uma vida longe do Senhor e seus interesses. Suavizar isto é não pregar o evangelho. Logo, ao tentar amenizar a palavra para torná-la palatável ao gosto do ouvinte é apenas eludir a plateia pois por esse caminho vá-se a qualquer outro lugar menos para o Reino.

Então, é ou não é para usar técnicas de marketing na igreja? Bom, eu não posso responder essa pergunta para você. Isso é uma questão de liberdade de consciência. Apenas sei que não quero vir a ser encontrado pelo Cristo tentando “vender” um Cristo massificado e não um Cristo ressuscitado.

“Eu declaro” e outros fórmulismos neo-evangelicos

Aqueles que o podem fazer acreditar em absurdos, podem fazê-lo cometer atrocidades. Voltaire

Lembro do tempo em que ser cristão era sinônimo de problemas. Não que tenha saudades disso, não. Só que naquelas épocas quem abraçava Jesus, sabia que corria o risco – ao menos – de ser taxado de besta. E houveram tempos ( que não os vivi e que não gostaria que se repetissem ) em que se declarar seguidor de Jesus era sinônimo da fogueira.

No Brasil temos passado nos últimos vinte anos de uma mera complacência com o povo evangélico a um namorico de segunda categoria entre as partes.  Nessa bajulação sem graça de ambas as partes, vale tudo, principalmente mimetizar-se com o mundo (do lado dos pregadores) e mimetizar-se com os cristãos (do lado dos que vão se achegando)

Já falarei em outro momento sobre a falta da consciência do pecado, a realidade do inferno (tanto presente quanto escatológico) e o completo quilombo caboclo em que a igreja evangélica tem se transformado. Mas por enquanto, vamos aos líderes que – muitas vezes eles mesmos enganados – enganam e eludem o povo.

Tive a oportunidade de estar em um culto esses tempos atrás onde o ápice do encontro era o momento em que o pastor da comunidade pronunciava frases que começavam ou continham a fórmula “Eu declaro..”  Enquanto ele ia declarando a multidão ia ao delírio. Era uma sensação de certeza que ia ganhando o povo. Convicção plena de que agora sim, as coisas iam se encaixar. Alguns até com lagrimas nos olhos se abraçavam enquanto o pastor, suando e muito exaltado ia fazendo suas declarações. Conheço essa comunidade há mais de vinte anos e me resultou muito estranho o fato de eles terem aceitado esse tipo de prática, já que a comunidade era bem conhecida pelo seu apego às escrituras e um culto mais pensado. Alguns me explicaram que essa igreja tinha crescido de alguma coisa como oitenta membros para quase trezentos nos últimos anos e que se viram na necessidade de ter mais de um serviço público por domingo. Também me explicaram como as entradas da igreja tinham aumentado e com isso não havia mais problemas nessa área. Enfim, o céu na terra.

Gosto de igrejas que crescem, mas estou plenamente convicto de que da mesma forma em que o corpo de um ser vivo cresce até seu próprio limite, depois amadurece, se reproduz, cuida das suas crias e morre; assim é com as igrejas locais. Ou seja, não me entusiasma nem um pouco uma igreja que parece que seu único objetivo na vida, é crescer, crescer e crescer. Para mim é sintoma de um mal maior, já que o maior evangelista que pisou esta terra, teve uma igreja de 12 membros, com um corpo de trabalho mais achegado a ele de 3 (25%) e um deles (8,3%) mandou matar o pastor. Digo, o foco de Jesus não foi um grupo multitudinário de pessoas que afetasse a sociedade ou que tivesse templos enormes com mega-orçamentos. O projeto dele era a mudança do coração da pessoa, logo, não há reino terreno, a não ser aquele que se manifesta no íntimo do indivíduo. Para fazer isso, um crente só precisa de duas coisas: conhecer o Senhor e manter relações pessoais.  Sei que estou simplificando as coisas, mas não é disso que se trata?

Então, mesmo não sendo o objetivo criarmos estruturas locais, gosto de igrejas locais que não tem dívidas e mantêm um orçamento sadio com o qual a igreja local vá sendo equipada também nessa área. Todavia, me parece ser esta uma razão muito barata para aceitar qualquer tipo de teologia. Principalmente no púlpito.  Na igreja que visitei, sei que anos ao fio enfrentando problemas financeiros (mesmo que suaves perante algumas outras similares) somado à pressão social por ser uma igreja “saudável” a levaram a abandonar seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

Por já ter visto esse mesmo processo em igrejas similares, sei que o dano feito não tem mais como ser reparado. Sim, sim, creio no poder de Deus, mas contra o abandono da fé não há solução (Rom 11:17-24; Heb 6:4; Heb 12:17) a não ser a tênue possibilidade de voltar a crer. Ou seja, é mais ou menos como uma infecção com uma super bactéria e o paciente já ter recebido vancomicina por mais de 10 dias, ele está por conta.

Para quem está lendo este artigo e está sendo formado em teologia, ou almeja bispado, quero lhe dizer um par de coisas: 1) Se você começar a declarar, interceder, profetizar, ungir com óleo, água, ou qualquer outro líquido, levar o povo para o monte para orar, promover um jejum ou dieta especial, fazer jejum substitutivo ou qualquer outros dos formulismos que estão em voga sua igreja – quase com certeza – vai crescer em número. 2) Qualquer fórmula aceita, por menor que seja, levará o novel pastor a procurar mais algumas pois o povo vai precisar delas para manter o êxtase.

Ou seja, não estou discutindo a eficiência das fórmulas empregadas para arranjar mais pessoas para um evento religioso, nisso temos muito a aprender das muitas religiões  que há no mundo. Exemplos é o que não falta, desde os velhos xamanes indo-americanos, passando pelo tradicional exemplo da Igreja Romana, o novo exemplo da IURD, e chegando às religiões orientais. Se o que interessa é trazer um numero grande de pessoas (talvez até com o nobel propósito final de lhes “ensinar a verdade“)  há uma fórmula bem conhecida que pode funcionar anos ao fio: 1) Estabeleça qualquer ritual simples mas que requeira de uma pessoa oficializada como ministro, intercessor, sacerdote, o que for. 2) Faça generalizações durante a homilia colocando exemplos práticos de como as coisas se deram para você, um membro da sua família, um amigo, algum conhecido,enfim, qualquer um que seguiu (ou não) os passos da receita e como se deram bem (ou mal). 3) Leve a multidão a um estado de animação emocional (não precisa que cheguem às lágrimas) elevando o tom e o volume. Se possível utilize música de fundo. 4) Faça o ritual final e mais importante (seja lá o que tenha escolhido) mas o importante é que as pessoas – de alguma forma – se movimentem. Por exemplo, que passem à frente, que levantem as mãos, que abracem o seu vizinho, que se ajoelhem, não interessa o que, mas que o façam em conjunto. Repita sempre a mesma coisa ou alterne entre vários métodos mas com estrutura similar. 5) Enfatize o conceito de matilha. Reforce a importância do “nós” perante “eles” e se há similares, estão distantes. 6) Finalmente, mas não menos importante, se as coisas não deram certo para a pessoa que participou do ritual considere as seguintes três opções: a) A culpa é a amiga do ritual: Se não deu certo, o fiel não teve fé (ou está escondendo coisas, ou não fez do jeito certo, tanto faz) b) Dependendo do caso, dá para repetir o ritual e ver se dá certo (ou para que serve a missa do sétimo dia ou o batismo pelos mortos) c) Se mesmo assim, o fiel quiser cair fora, não se preocupe,  para cada um que sai nesse sistema, de três a cinco chegam.

Estou sendo irônico? Depende. Você leva a fé a serio? Então estou sendo irônico. Você está estudando teologia por convicção ou porque não serve para mais nada? Então estou sendo sarcástico. Você já perdeu todo senso de divindade e para você uma igreja local não passa do seu meio de vida? Acrescente ao plano anterior uma comissão de 5% sobre o incremento da receita ao seu contrato e você ficará rico. E sim, estou sendo não só irônico e sarcástico, mas estou lhe chamando de besta por mexer com o sagrado como se fosse um negócio.

Então como fazer para a igreja crescer? Não se faz, ora pois. O lance é mais simples de tudo o que você tenha imaginado até agora: A igreja é uma comunidade de separados por Deus para mostrar (agora e no futuro) sua super abundante graça. Ela não depende de templos ou de quaisquer estrutura organizacional. O que temos para mostrar, se mostra na intimidade dos relacionamentos que estabelecemos tanto com aqueles de longa data como com os ocasionais. A igreja se manifesta só quando o caráter do cristão fica exposto. Ou seja, cantar lindos cânticos em um templo caro ou não para depois ouvirmos uma pregação (por melhor e mais sincera, honesta, pura, bíblica e boa seja) não manifesta necessariamente a igreja. Deixa ver se consigo ser mais claro: Por mais bíblica, exegeticamente correta, pensada que a mensagem seja e mais ordeiro seja o culto, não há necessariamente nisso a manifestação da igreja de Cristo. A igreja se manifesta quando estendemos (ou não) uma mão ao que precisa, quando passamos um tempo (ou nos negamos a faze-lo) com nossa família ou nossos amigos, ou quando somos fechados no trânsito, ou quando estamos sozinhos no nosso quarto sem que ninguém mais nos veja. Dito em outras palavras, o que se espera da igreja é um caráter diferente, o que chamamos de um novo homem tudo o que te leva para fora desta analise particular das tuas nuances internas, não passa de balela e – pior que tudo – perca de tempo. Uma comunidade que não busca crescer no âmbito intimo, pessoal de cada um dos seus membros ainda não compreendeu do que se trata e uma comunidade que troca a singeleza desta busca pela vaidade de ter uma igreja numericamente maior ou um templo maior ou mais caro, tem perdido seu foco, e não sei se há muita esperança para esse grupo pois como disse Voltaire na frase citada no inicio, esse grupo está sendo levado a cometer atrocidades, contra si mesmo, contra os outros e contra os próprios filhos pois mais tarde ou mais cedo a balela vai vir à tona.

Já entrou nessa roubada? Arrependa-se meu chapa. Depende disso para sobreviver? Passe a depender do Senhor. Acha que não está enganado? Dobre o joelho, meu amigo, você está piamente enganado. Você está fazendo isso tudo deliberadamente? Confesse isso à sua congregação, arrependa-se e passe a depender do Senhor.

Somos a Igreja, não Buzz Lightyear

Buzz Lightyear

Tenho um menino que gosta de assistir alguns desenhos animados.  Porém, vez ou outra me deparo com que os desenhos que tradicionalmente achamos serem para crianças, trazem um foco duplo, levando os adultos a considerarem outras faces da mesma verdade já conhecida.

Toy Story nos apresenta a personagem Buzz Lightyear e seu dilema de não possuir os poderes que tanto ele acha que tem mesmo que os deseje (e em certas ocasiões) os chegue a utilizar.  Porém, o que mais me chama a atenção dele é seu bordão “Ao infinito e além!” que traz lembranças de “2001, Uma odisseia no espaço” em que a frase é “Júpiter e ao infinito” ou coisa assim.

Vez por outra algumas pessoas muito bem intencionadas dentro da comunidade cristã, concluem que é necessário crescer.  Argumentam que todo corpo sadio cresce.  Que se as coisas estiverem bem, então é natural que haja crescimento.  E eu até que concordo com essa ideia, só pergunto, sempre?  A qualquer custo?

Quantos anos tem meu leitor? Se for um homem e estiver com 12, 16 anos, ainda tem alguns anos de crescimento pela frente ao passo que as meninas estão chegando ao fim do esticamento que tanta comida e horas de sono consume.  Se seu corpo for sadio, com certeza ele vai estabilizar e parar de crescer.

A ideia do crescimento ad-infinitum que tantos pastores tem seduzido ao longo das épocas não reflete o projeto original em que um grupo bem organizado cresce até o limite e depois disso se reproduz.  Ao crescer com rumo ao infinito, ela se perde em seu propósito, descuida seu cuidado mútuo e finalmente abandona seu primeiro amor.

É por isso que acho que a frase de Buzz Lightyear reflete a ideia de mais de um marqueteiro de plantão: “Ao infinito e além”.  Já pensou que a sua igreja deve crescer ao infinito? Bom, ainda dá tempo de se arrepender e tentar pegar o bonde do Senhor de novo.

Não confunda hipertrofia emocional com maturidade espiritual. Somos a Igreja de Cristo, não Buzz Lightyear.  Assim como são necessários muitos homens para povoar a terra, são necessárias muitas pequenas igrejas para trazer  luz ao mundo.