Jesus e Pilatos

Evangelho de João

Jesus e Pilatos

João 18:1-19:42

É evidente que esta passagem não trata só de Pilatos e Jesus. Inclui também Pedro, Judas, Malco, João, Maria, Caifás, Anás, os Sacerdotes, Judas, os soldados na cruz, José de Arimateia e Nicodemos entre outros. Todavia, se é para escolhermos as personagens centrais, é de Pilatos e Jesus que se trata.

Num esforço consciente de resgatar certo brilho original ao texto, me é necessário analisar Pilatos não sob o holofote tradicionalmente aceito quase que limitando ele só a um carrasco destinado a satisfazer os desejos e sentenças capitais do sinédrio. Existem, claro, várias formas válidas de conjecturar sobre este assunto, mas o exercício proposto tem por propósito assumir um outro ponto de vista para poder – talvez – resgatar o antes mencionado brilho.

Temos a tendência de condenar todo e qualquer tipo de império. Isso é claro em especial em américa latina por esse complexo de inferioridade social e sempre nos sentirmos menos que o grande país do norte, o assim chamado, império americano. O certo é que se morássemos ao norte do Rio Colorado (divisa dos Estados Unidos com México) pensaríamos diferente.

Brincadeiras à parte, o apelo é para desvencilhar-nos do olhar negativo e pessimista para com o império. A verdade é que o império uma vez estabelecido, ele precisa ter um sistema legal coerente e confiável para que seus súditos (velhos e novos) continuem a produzir e o império ou bem cresça ou pelo menos não encolha. Isso é uma coisa que – se bem não pode ser observada pelo perdedor ou conquistado – é claramente observável em todo e qualquer império. Chega um momento em que certa estabilidade legal é necessária. E é isso que temos no tempo de Jesus.

Roma era nessa época um império jovem. Tinha uma longa tradição como República (509 A.C a 27A.C.) que por sua vez tinha como pano de fundo uma monarquia que se tinha estendido de 753 A.C. até o 509 A.C.

Como império jovem herdeiro de uma república e com um senado ainda forte era mister aos procuradores, governadores e outros representantes oficiais do império se comportarem à altura das circunstâncias que por sinal eram cada vez mais decadentes. Diferente de outros impérios, o romano tinha claro que era mister manter as comunidades em paz (se bem que talvez hoje não chamaríamos de paz o que eles chamavam de paz). Fora delitos que não dissessem respeito ao próprio império e a esta almejada paz, não era do interesse do mesmo se meter em problemas menores. Ai que está a chave necessária para ir formando uma imagem um pouco mais justa do próprio Pilatos.

Quando digo justa, não quero dizer com isso que o próprio Poncio Pilatos fosse justo ou algum ser perfeito ou um governante de caráter ilibado. Historiadores como Filo de Alexandria, Josefo e Tácito o descrevem como alguém que não respeitava limites, brutal, cruel, corrupto, violento, inflexível, duro, sem consideração, enfim, não é a imagem de um governador benevolente nem muito menos.

O início de Pôncio Pilatos em Judeia esteve marcado de provocações, ameaças, ressentimentos e desconfianças por parte do sinédrio em particular e os judeus em geral. Ele chegou à noite e fez os soldados colocarem estandartes com a imagem do imperador de frente para o complexo do templo. Isso afrontava diretamente a crença dos judeus sobre idolatria. Por conta disso eles foram protestar em Cesareia. Durante cinco dias se mantiveram debatendo. Mesmo sob ameaça os representantes do sinédrio não se dobraram. Pilatos só recuou por conta do alto custo político já que estava lá apenas um mês e meio. O restante da permanência dele na região se viu marcado por eventos similares tanto em Judeia como na Samaria que encharcaram de sangue, corrupção e roubalheira sua permanência lá.

Então o que há para resgatar? A pessoa.

O posto que Pôncio Pilatos ocupava era por indicação política. Ou seja, Pilatos estava lá por puro interesse material e para satisfazer os interesses daqueles que lhe haviam indicado para o posto. A paz local era nada mais do que um mal necessário para a manutenção do seu posto. Havia a necessidade de agradar o Sinédrio para dessa forma continuar a poder surrupiar as bens do povo.

Eu tenho, então, algumas perguntas:

  • Por que um homem destes reluta em condenar mais um judeu revoltoso à cruz?

  • Por que ele entra e sai quatro vezes do seu aposento interno onde levou Jesus?

  • Por que ele – segundo a versão de mateus1 – lava as mãos publicamente?

  • O que é essa colocação de “O que é a verdade”?

  • Por que ele fica “com mais medo ainda” quando os judeus com uma religião inferior a seus olhos lhe informam que Jesus se faz igual ao Criador?

Eu tenho uma pergunta que é a síntese dessas: Não era mais fácil simplesmente acatar a decisão do sinédrio, crucificar Jesus agradando dessa forma os líderes judeus? Outras vezes ele tinha afrontado o sinédrio a troco de nada. Por que não simplesmente agradá-lo e boa?

Eu acho que há mais coisas aqui daquilo que temos visto tradicionalmente. E também acho que João é mais refrescante na sua versão do que Mateus, Marcos e Lucas. Penso que isso é assim porque – como o próprio relato nos revela – João tinha acesso de primeira mão à casa do sumo sacerdote2 e ele nos deixa entrever alguns enredos que não vemos nos outros evangelhos por mais que seja justo no relato do juízo, condenação, morte e ressurreição de Jesus em que João mais coincide com o restante dos autores. Parece-me então que João está querendo mostrar – como faz no restante do seu livro – a pessoa de Pôncio Pilatos perante a pessoa de Jesus o Cristo.

    1. Os acontecimentos prévios ao encontro

Local: João coloca o início dos acontecimentos que precipitam a morte de Jesus num horto além do ribeiro de Cedrom3. Esse lugar era conhecido por Judas que após ter recebido a coorte e oficiais de justiça os conduz ali.

Judas e seu estilo de vida: Me provoca a imaginação isso de “após ter recebido” o detalhe é enriquecedor pois nos esquecemos que você só pode receber os outros em algum lugar que é seu. De outro jeito, você se encontra. Com isso podemos conjecturar a vida que o próprio Judas levava. Sabemos de alguns discípulos que abandonaram tudo para seguir Jesus. Dele mesmo sabemos que não tinha lugar onde encostar a cabeça.

A prisão de Jesus: A presença criadora de Jesus se deixa entrever na expressão “eu sou”. Ao dizer isso os guardas (e Judas que estava junto) caíram por terra. “Eu Sou” remete – claramente – à resposta que o criador deu a Moisés no monte Horeb (Êxodo 3:14). A queda dos que o rodeavam pode sim representar alguma coisa desse poder sendo manifestado, mas me parece pairar no ar um certo temor pelo que estava acontecendo. Ao final das contas, eles iam prender um homem muito popular entre o povo, era a páscoa, e os captores bem provavelmente nutriam algum tipo de fé ou admiração por este que não tinha problema nenhum em se encontrar com seus captores.

A reação de Pedro: Malco perde uma orelha (que logo lhe é restituída) no afã de Pedro por defender seu mestre. A imperícia deste marinheiro de primeira viagem no uso da espada, a adrenalina do momento, a escuridão quebrada pelas tochas ou simplesmente uma mistura disso tudo faz com que ele acerte apenas a orelha do servo do sumo sacerdote. Este artigo definido ai dizendo “o servo do sumo sacerdote” bem pode se referir ao único dos servos do sumo sacerdote presentes naquela busca, ou – mais provavelmente – ao servo pessoal do sumo sacerdote que estava ali para cuidar diretamente dos interesses do seu senhor. Seja como for, tanto a notícia da decepação da orelha como sua posterior restituição iam chegar rapidamente ao sumo sacerdote e há uma diferença enorme entre milagres contados por ouvidas de terceiros ou quartos do que por diretamente vinculados.

Anás e Caifás: Ser sacerdote era um negocio de família. Sempre tinha sido e na época de Jesus não era diferente. Caifás que era o sumo sacerdote aquele ano provavelmente não era forte o suficiente como o era seu sogro Anás ou talvez era prudente demais e não convinha ao restante dos lideres que se queriam desfazer de Jesus. Seja como for, mesmo sendo Caifás o responsável, Jesus é levado perante Anás.

João e Pedro: Esta dupla aparece (junto com Tiago) em vários relatos do evangelho. Eles pareciam se identificar, gostar da companhia um do outro e compartilharem algumas das experiências mais bonitas do ministério terreno de Jesus. Nesta ocasião, apenas João e Pedro aparecem. João é o rapaz bem conectado. Ele era conhecido do sumo sacerdote e é por essa razão que os dois conseguem entrar. Reluto em criticar Pedro e sua negação. João era bem conhecido da casa, os outros discípulos tinham caído fora, sobrou para o pescador de sotaque carregado explicar – sob o medo de também correr o mesmo fim do seu mestre – o relacionamento dele com o preso.

1Mateus 27:24

2João 18:16

3http://biblia.com.br/dicionario-biblico/c/cedrom/

Introdução: Jesus e a criação

Evangelho de João

Jesus e a criação

João 1:1-21:25

  1. Razões e propósito

Falar sobre o evangelho de João pode parecer para muitos como chover sobre o molhado. Porém, diferentemente do que possa parecer há um desafio enorme neste evangelho. Dentre esses desafios talvez seja o maior levar o povo a deixar de ver o obvio para passar a ver o transcendental.

Não que o obvio não seja importante. Muito pelo contrário. São as coisas obvias e singelas as que nos trazem as melhores recordações e por consequência, concluímos que são essas as coisas que realmente importam ou perduram. Pensemos nas lembranças mais antigas e lindas que temos e quase, com certeza, é de uma descoberta que conseguimos capturar, de um abraço de um amigo, do sorriso de um filho, enfim…

Quando o conhecido teólogo Karl Barth – já famoso na Europa e tendo escrito vários livros – visitou por única vez os Estados Unidos, os repórteres lhe pediram que resumisse sua teologia. Ele respondeu “Sim, Cristo me ama”

É claro que se uma pessoa no seu estado mais natural (se é que isso é possível) consegue chegar à conclusão que Cristo lhe ama e passa a viver sua vida norteada por isso, nada mais lhe é necessário pois todo o desassossego humano finda quando este acha o amor de Cristo.

Repetir a frase “Cristo me ama” sem o conteúdo apropriado é não se atentar para o que uma frase tão curta de fato significa; é simplificar a observação do espaço a dizer “pois é, ele é bonito”; é se tornar simplista para justificar a falta de interesse na profundidade de uma fala dessas.

A proposta, então, é sair do obvio. Não para descobrir nada novo, mas talvez para ver que aquilo que parece tão obvio, não é obvio assim e há um sem-fim de matizes1 que só enriquecem nossa visão.

Então como enfrentar o desafio? Bom, para início de conversa, rearranjei o material que João nos entrega no evangelho dele. A ideia é olhar para o mesmo evangelho de sempre mas ao agrupá-lo de forma diferente, ganhar perspectiva. Sei que isso por um lado nos aproximará de algumas coisas mas também nos empanhará outras visões. É mais ou menos como ficar muito perto de um dos alto-falantes em um sistema surround 5.1: necessariamente perderemos de foco o todo da obra.

A seguinte tabela é um resumo ordenado desse rearranjo proposto para esta leitura. Pretendemos percorrer esses oito tópicos rapidamente à velocidade de um por semana para depois voltarmos sobre eles mais detidamente.

Título

Início

Fim

Jesus e a Água

1

2

Jesus e as Pessoas

3

5

Jesus e as Essencialidades

6

7

Jesus e a Liberdade

8

9

Jesus

10

Jesus e a Morte

11

12

Jesus e a Igreja

13

17

Jesus e Pilatos

18

19

Jesus e Pedro

20

21

Esta, obviamente, é apenas umas das formas de rearranjar o material tendo em vistas um vóo rápido.

  1. Jesus e a criação

O

Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.
Romanos 5:12

Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.
Romanos 5:19

evangelho de João começa com um paralelo notório com a descrição da criação do livro do Gênesis. Assim como o arco-íris após o dilúvio é um sinal de um pacto da parte de Deus para com o homem, assim o vinho após a água transformada é um sinal de um novo pacto da parte de Deus para com sua criatura. Da mesma forma em que a escolha de Adão tentando encontrar uma outra vida conduziu a raça à morte, assim a escolha de Cristo – o novo Adão – conduz a raça à vida, paradoxalmente, por meio de sua própria morte.

Analisar, então, o evangelho de João à luz da perspectiva do relacionamento entre Jesus o Cristo e a criação nos deve levar a certas conjecturas e análises que não o faríamos desde o ponto meramente evangélico por dizê-lo de alguma maneira.

      1. Jesus e a água

Um dos elementos símbolos que aparecem em repetidas ocasiões em João e que nos remete à criação, é a água. À guisa de exemplo, podemos mencionar que o termo água aparece 24 vezes em João ao passo que unicamente 6 em Marcos, 13 em Lucas e 14 em Mateus. Em nenhuma ocasião o termo água é utilizado nos outros evangelhos como símbolo mas sempre como descrição do elemento material em alguma parábola ou relato.

Assim por exemplo, encontramos os relatos dos demônios que foram aos porcos e se afogaram, ou quando Jesus anda sobre as águas, ou quando é batizado ou quando o defunto quer que Lázaro umedeça o dedo e lhe alivie o tormento, ou quando a criança é lançada no fogo ou na água pelo demônio.

Já em João, a água é símbolo de tudo o que está relacionado com a vida e a morte. Está no batismo de arrependimento de pecados de João (pelo qual também Jesus passou mas com significado diferente: a justiça), no milagre da transformação da água em vinho (que é melhor que o anterior), na prosa com Nicodemos como mais um dos requisitos para entrar no reino dos céus (junto com o Espirito), na impossibilidade de sarar o paralítico (mas sim a muitos outros), na proposta de vida oferecida para a mulher samaritana (mas ironizada por ela), nos rios de águas torrentosas que simbolizam o Espirito Santo na presença de quem crê (com o qual a vida se transmite a outros), e brotando do lado de Jesus junto com sangue na sua morte (com o qual não havia necessidade de quebrar-lhe as pernas e se cumpria a profecia).

Enfim, ler João e achar que água é só água, é perda de tempo e sem querer criar clichês, os dois primeiros capítulos de João estão tão cheios de água que é impossível não chamar o evangelho de refrescante e mais se levamos em consideração a terra seca e ruas empoeiradas dos primeiros leitores.

      1. Jesus e as Pessoas

Mas não só de água está constituído nosso estudo. Tanto no Gênesis como e João a água vem antes do ser humano. Esta antropogenia2 bíblica encontra certos ecos em algumas teorias científicas mas não é da nossa alçada entrar nesses relacionamentos e simplesmente ver que uma coisa vem antes do que a outra.

O foco aqui são as pessoas. João reduz o amplo conjunto de seres humanos a três grandes relatos mas que quando contabilizados os outros menores dá um total de seis. Os grandes são os que sempre lembramos: Nicodemos, a Mulher junto ao poço e o Paralítico. Os três relatos menores (mas não menos importantes) são o de João Batista, o filho do oficial e os judeus em geral.

As pessoas e não as ideias são a coisa mais prezada para o Criador. Todavia, as ideias – isto é o que as pessoas pensam, imaginam, sonham – delimitam a vida de cada indivíduo e a inter-relação entre esses indivíduos conforma a sociedade que por sua vez permeia o indivíduo.

As pessoas que João escolhe são variadas. Todas elas têm seu reduto no qual são aceitos e admirados, todas elas carregam o tormento de não serem aceitas por um certo grupo de pessoas pelas que gostariam de serem aceitos, todas tem dúvidas, todas tem certezas e todos são (aparentemente) muito diferentes entre si.

João é um mestre ao colocar uma balança não de dois mas sim de três pratos em cada um dos seus relatos. Por exemplo, Nicodemos tem em João o Batista seu contrário em muitos aspectos mas só em Jesus as águas espirituais do novo nascimento e o batismo de arrependimento e introdução ao reino acham sua concretização. Resumindo, ficamos com uma visão muito simplificada se pegamos só um dos relatos ou se consideramos só dois dos seus personagens. Três relatos principais, três relatos secundários, três grandes personagens em cada um deles. Não me parece o acaso.

      1. Jesus e as Essencialidades

O que é essencial para a vida? A comida? A água? O pão? Jesus? As festas?

Há dois elementos que aparecem nas duas partes do bloco: A água e o pão. A personagem em cada um dos blocos é distinta e a mesma em certo sentido: o povo que busca e o povo que rejeita.

É muito interessante a estrutura que João nos propõe: Criação, Pessoas, Perguntas. Claro, como de costume, neste bloco há outros grandes assuntos entremeados. Temos por exemplo a economia do reino, os milagres, a família de Jesus, o povo… enfim, uma riqueza quase infindável. Me parece, porém, que há um fio condutor nesses capítulos seis e sete. A pergunta que junta temas, relatos e ilustrações tão diversas, é o seguinte: O que é essencial para a vida? Se já respondemos que a vida é uma criação de Deus, se já dizemos que as pessoas são realmente mais importantes do que as ideologias, o que é que sobra se tirarmos as antíteses das coisas expostas?

Parece-me que o medo às perguntas mais básicas é o que nos leva a revestir a existência de perguntas aparentemente reais. Com isso, ficamos às voltas com problemas imaginários ao passo que o realmente essencial se nos escapa. João propõe o seguinte: Criação → Pessoas → O Que é essencial?

Este bloco pode por sua vez ser dividido em duas partes: Essencialidade Geral, Essencialidade Particular. Enquanto o capítulo seis fala da multidão e do povo que procura por Jesus, o capítulo sete fala da família terrena de Jesus, do Povo Judeu em sua festa mais importante, da primeira tentativa de prender Jesus e dos líderes judaicos que não creem.

Por sua vez, a proposta de Jesus em qualquer uma das perspectivas é a mesma: Jesus é a essência da Vida. No seis ele é o Pão da Vida e no sete ele é a Água Viva. Dito em outras palavras, não interessa se você é parte da plebe (o problema de quem está na elite) ou parte da elite (o problema de quem é massa) a essência da sua vida se encontra em Jesus e for a dele o que você tem não é vida.

      1. Jesus e a Liberdade

O que é a liberdade?

Para muitos tem a ver com poder fazer o que bem entender. Para outros é poder se esconder tanto ao ponto que não pode ser descoberto o dano feito ou planejado. Ou seja, a liberdade é um bem que se tem ou se compra e que cada vez fica mais caro.

Gostemos ou não, liberdade e caráter são duas faces de uma mesma moeda: faltando uma delas a outra perde valor.

Via de regra, no meio evangélico há os que gostam de misturar o conceito de liberdade com o de liberalidade e libertinagem ao passo que há os que – por falta de liberdade – gostam de vigiar a liberdade alheia.

Somos cientes de que o capítulo 8 de joão (pelo menos os versículos que vão do 7:53 ao 8:11) não fazem parte do texto original, mas entendemos que isso não lhe resta valor até porque o que ali está contido está em consonância com o restante do evangelho, em particular com o de João.

Dito isto, precisamos observar a maravilha destas duas passagens. Há duas pessoas que haviam perdido sua liberdade. Uma por conta do pecado e outra…. bom, oras, é claro que alguém havia pecado, ninguém nasce cego porque sim. Bom, ao menos era o que a sociedade da época pensava e por isso tinha relegado este cego de nascença ao abandono e miséria social e espiritual.

Há aqui duas liberdades: 1) A liberdade de um pecado em particular 2) A liberdade dos efeitos do Pecado em geral.

A mulher cometia com regularidade o adultério. Tinha-se entregado a este prazer como se um vício fosse. As primeiras vezes ninguém sabia. Depois ficou conhecida, marcada, estigmatizada e não deu mais bola ao seu próprio destino. Este pecado, no início prazeroso e motivante, a havia enjaulado. Parecia livre mas não era. Prestes a morrer, Jesus a liberta.

Já o jovem nascido cego era vítima não de um pecado em particular. Penso eu que os editores posteriores do evangelho se viram meio como que obrigados a incluir o pedaço do capítulo 8 da mulher adúltera porque a imagem de um ser nascido em trevas e que essas trevas fossem consideradas um fruto do pecado (particular mas desconhecido no caso) pareceria repulsivo aos primeiros leitores não judeus. A inclusão da mulher adultera sendo perdoada antes do cego, por mais repulsiva que a atitude pareça à sociedade do momento (judia, grega e romana) era mais palatável do que a retorcida visão de um Deus injusto e carrasco que se comprazia em descontar nos filhos os erros dos pais.

Este jovem, muito inteligente por sinal, era um segregado social por conta de uma posição teológica correta mas parcial. Dito em termos mais longos: é verdade que toda doença e a própria morte é resultado do Pecado na vida do ser humano; mas não é certo pensar que cada doença e cada morte é fruto de um pecado específico da pessoa ou dos seus pais. É essa a distinção que fazemos ao utilizar a letra ‘P’ – em maiúscula – ao inicio da palavra Pecado para nos referirmos a esse poder que permeia sistemicamente toda a criação de Deus em maior ou menor medida, ao passo que utilizamos a letra ‘p’ – em minusculas – para nos referir às decisões particulares e pessoais que diferem da vontade de Deus.

Então, se bem no primeiro exemplo há uma liberação de um pecado específico (e com isso uma apertura para a vida) no segundo exemplo há uma liberação da condenação improcedente que os lideres judeus mantinham sobre seu irmão. Em qualquer dos dois casos quem perdia a liberdade era a aberração religiosa à que os dois casos estavam sujeitos. Não é por acaso que os dois blocos são antepostos a diálogos e discursos que tem a ver com liberdade, cegueira, etc.

      1. Jesus

Quem é Jesus ao final de contas? Como ele se definia a si mesmo?

No Evangelho de João encontramos várias vezes Jesus se definindo a partir do testemunho. Há por exemplo a referência pelo oposto de João 5:31: Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. Ou também o positivamente como em João 5:32 Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. Ou ainda aquele que é considerado herético por parte dos Judeus tanto da época como agora João 8:18: Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou.

Diferentemente de outras versões do evangelho, a de João não utiliza muito a expressão “Filho do Homem” para Jesus se referir a sim mesmo. A ênfase joanina não é da humanidade do Cristo nem tampouco da divindade deste e nem sequer fica a meio caminho. A ênfase é mostrar um ser enviado por Deus para resgatar sua criação (não só seu povo). Este ser é divino (por isso se igualava com o criador e era tido por blasfemo) mas também era humano e por isso capaz de morrer na cruz. Dai que a autodefinição que Jesus faz por um lado está espalhada em todo o escrito de João por via dos testemunhos (e isso também se vê nas cartas) e das palavras chaves “eu sou” mas encontra grande concentração de declaração de propósito e rejeição por parte dos ouvintes no capítulo 10.

Podemos então dividir o capítulo 10 em duas grandes partes: O discurso de Jesus e a reação dos Judeus. Por mais que estes eventos estão espaçados no tempo, vemos que estão vinculados por conta da referência que encontramos na segunda parte à primeira.

O versículo 6 nos indica que não entenderam o que Jesus estava querendo dizer com a comparação entre o pastor e o assaltante dos v 1 ao 5. Por isso Jesus destrincha a ideia com duas outras ilustrações que resultaram tão clara para os ouvintes que queriam linchá-lo.

Então, João 10:1-5 é igual em conteúdo a João 10:7-18 que por sua vez, encontra clara referência em João 10:25-30 o que leva aos ouvintes a pegarem pedras pois desta vez tinham entendido direitinho que estavam sendo chamados de ladrões, bandidos, cabritos, lobos trajados de ovelhas e basicamente incrédulos insensatos (10:37-38)

Com esta estrutura em mente, fica obvio de porque esta sessão, a meu ver, define Jesus em perspectiva da criação e em termos que até um cego espiritual consegue enxergar. Não se iluda o leitor pensando que as pessoas que não creem em Jesus o fazem por não entendê-lo. Não creem porque entendem na alma o princípio da soberania do criador sobre a criatura e se rebelam contra isto que lhes resulta – ao seu ver – pouco vantajoso.

Então, quem é Jesus? Bom, sintetizando suas palavras: ele é o tudo. Ele é a porta do aprisco e o bom pastor. De qual aprisco? Deste no qual o leitor se encontra e do outro no qual o leitor não ousaria entrar pois tanto este quanto o outro contêm ovelhas que pertencem ao bom pastor.

      1. Jesus e a morte

Enquanto estamos vivos nos achamos grande coisa. Mesmo até quem tem que mexer com cadáveres, se acha grande coisa. Porém, quando a morte bate de pertinho, entendemos nossa própria grande limitação.

Caminhamos para a morte. É inevitável. Por conta do nosso espírito ser eterno, nos achamos com capacidade de realização eterna. Provar isso é bastante simples: observe os mais idosos, repare que eles tem sonhos como se ainda tivessem 30, 50, 70 anos de vida por diante.

A morte é a última grande consequência nesta terra da entrada do Pecado3 no mundo. A limitação da vida é um corolário das nossas próprias decisões irreversíveis como raça. Escolhemos – como raça – nos parecermos com o Criador e por isso nos distinguimos ainda mais. É uma ironia fatal (sem ironias).

Assim como o cego de nascença não tinha escolhido ser cego mas a cegueira era um fruto do Pecado (e o apedrejamento era o curso socio-legal do pecado de adultério mesmo que a adultera não teria escolhido essa consequência) assim também não escolhemos ter vida perecível.

O que faz o criador? Se respeita plenamente a decisão do Homem4 e o deixa seguir seu próprio rumo sem intervir, ele mesmo se torna irresponsável pela sua própria criação. Se ele intervêm na marra e lhe impõe suas decisões, o Homem o poderia – com justiça – acusar de injusto, intervencionista e por ai vai. Isso por só elencar um par de opções simplificantes.

O pior é que o inimigo da criação (que transformamos em príncipe deste mundo pelas nossas decisões livres como raça lá no Éden) ficaria impune. Por mais que o que ele fez foi plenamente legal (pois escolhemos no pleno uso da nossa liberdade), é imoral e por tanto alguma forma de tirá-lo do poder deve de existir. Ao mesmo tempo, Deus é justo, ou seja, ele não poderia enganar a humanidade como o príncipe deste mundofez.

A morte de Jesus na cruz tem várias consequências muitas delas imensuráveis desde nossa perspectiva de criaturas sujeitas a este mundo material. A síntese deste assunto está em João 12:31 e 32: Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo; e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim. O ápice da história não é o nascimento do Cristo numa manjedoura e sim a morte do mesmo na cruz. É a morte e não a ressurreição do Cristo o que destrona o príncipe deste mundo. A legalidade da morte foi eliminada por ter morrido o único ser humano justo e com isso o Criador readquire os seus direitos sobre o ser humano e sua existência eterna.

Quando Jesus trata com Marta sobre a morte do Lazaro, a fé de Marta (muitas vezes criticada por preferir os afazeres da casa do que estar com o mestre) é exposta assim como sua dor na frase recolhida em João 11:24 “Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia”. Isso refletia talvez a classe social à que Marta, Maria e Lazaro pertenciam (Bethania significa casa dos pobres) e quase que por conseguinte a linha doutrinaria e politica à que pertenciam: os fariseus. Isso porque os fariseus eram mais povão que os saduceus e acreditavam na ressurreição. Mas também refletiria algum ensinamento prévio dado por Jesus; mas ai estaríamos especulando ainda mais, já que não há registro específico disso.

Seja como for perante a morte do seu amigo Lazaro, Jesus expõe seus sentimentos e também seu poder. Este homem é o que dizia que podia perdoar pecados e se bem haviam controvérsias sobre se o homem podia ou não perdoar outro homem o que não haviam dúvidas era que ninguém poderia ressuscitar mortos. Em João não temos a frase “Qual é mais fácil? dizer: Os teus pecados te são perdoados; ou dizer: Levanta-te, e anda?” como em Lucas 5:23 porém a proposta é a mesma: Los capítulos 8 e 9 falam do perdão de pecados, o 10 fala de Jesus e seu rebanho e o 11 e 12 falam do poder de Jesus sobre a morte.

1Matiz: s.m. Diferentes tons por que passa uma mesma cor.
Fig. Leve diferença entre coisas do mesmo gênero: matizes de opinião.

2Antropogenia é a ciência que estuda as origens dos seres humanos. Estamos usando a palavra aqui num contexto mais restritos cientes da amplitude do que a palavra original pretende significar.

3Já combinamos anteriormente chamar de Pecado com ‘P’ maiúscula àquele poder que permeia toda a criação desde a escolha de Adão e Eva e chamar de pecado com ‘p’ minuscula às decisões particulares contrarias à vontade divina seja por ação, omissão ou pensamento.

4Novamente Homem (com ‘H’ maiuscula) indica a raça, ao passo que um indivíduo o representaremos com ‘h’ minuscula.

O Poder de uma Igreja fraca (II): Igreja como a âncora do céu

3A metáfora da “âncora” é uma bela forma para pensarmos como a igreja está ligada ao céu de Deus. Basicamente, uma âncora serve para “estacionar”, fixar o navio em um ponto específico no trajeto em que este está fazendo. Vista de modo simbólico, a âncora pode representar inúmeros significados: firmeza, tranquilidade, força, fidelidade e esperança; para alguns representa atraso ou barreira.

Certa feita ouvi uma história que não sei se é verídica. Os cristãos do primeiro e segundo século utilizavam o símbolo da âncora para se comunicarem em meio à perseguição advinda do império romano. Aquilo que se tornou a “cruz da escora” era simbolizada por um semicírculo (vida ou mundo espiritual) e pela cruz (realidade ou vida terrena). O semicírculo era visto como a coroa da cruz, a glória divina sob a glória terrena. Era, para aqueles primeiros cristãos, símbolo de esperança.

Para os navegadores, a âncora fala de refúgio, esperança em meio à tempestade e simboliza um conflito entre o sólido (a terra) e o líquido (a água). Simbolicamente, conflitam para que possa existir, em sua fecundação, a tão sonhada harmonia.

Mas o que isso tem a ver com a igreja, com a gente?

A igreja, nós representamos na terra aquilo que bem foi dito acima: a igreja é a glória de Deus em Cristo na terra; é também a fecundação do espiritual com o terreno, do céu com a terra, da verdadeira vida com a morte, da esperança com a desesperança. Dito de outra maneira, ela é a infraestrutura invisível de Deus manifestada na superestrutura visível da terra, ou seja, em nós. Ainda de outra forma, a igreja é a expressão imiscuída do céu (representada pelo Reino de Deus) com a terra (propagação do evangelho depositada em vasos de barro e dos sinais do Reino).

Utilizando essa metáfora – a igreja como a âncora do céu – podemos refletir sobre a importância e a missão de uma igreja fraca que se faz forte no poder da cruz. Para isso, minha primeira afirmação é que a cruz por si só não manifesta nenhum poder, apenas revela a morte. A cruz de Cristo, vista apenas de um ângulo, revela a morte de um homem que dizia ser Deus encarnado; sozinha, a cruz é o “fim da linha” para o proclamador das boas-novas de libertação e salvação.

Existe muito mais nas palavras biográficas dos evangelistas que simplesmente a morte de um judeu propagador de uma suposta nova teologia judaica. Existe muito mais que apenas o sentimento de dor pelo fim da vida; mais que somente o sentimento de desesperança – essa que arrebatou os corações frágeis e ansiosos pela libertação dos opressores, quando viram o suposto messias sucumbir pelas mãos romanas. Tem que existir mais, pois existiu para aqueles cristãos em perseguição e precisa existir para nós, cristãos pós-modernos.

Aqui entra minha segunda afirmação: através da cruz – o símbolo de morte e maldição, símbolo de desesperança e perca da vida e de propósito de vida – rompe-se a maior prerrogativa de esperança: a ressurreição dentre os mortos; o ressurgir do mundo dos mortos, do esquecimento – “sheol/hades”.

Quando observamos aqueles que estavam ao redor da cruz chorando pela cruel morte de Jesus, o olhar é de espanto e de tristeza pelo fim de três anos de acumulo de uma esperança que não era terrena. Jesus, nessa terra, se mostrou como a manifestação e o cumprimento das alianças, promessas e dos mandamentos figurados dia após dia pela nação judaica. Jesus era a “máxima expressão” de YHWH vivo, entre os mortais e pisando nesse lamaçal de injustiça, de toda sorte de pobreza e maldição. Ele era a esperança dos homens, a luz brilhando em meio às trevas. Mediante as ações de milagres e poder, ele protestava contra o mal; através da proclamação do Reino de Deus, ele disponibilizava a oportunidade de arrependimento a todos quanto o quisessem. Aqueles ao seu redor, na cruz, no pior momento de suas vidas – pois estavam diante da morte física da esperança encarnada – não podiam lembrar-se de suas palavras quando disse: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá” (João 11, 25-26).

Os discípulos e algumas mulheres que estavam em frente ao mestre que sofria numa cruz, viam um homem abatido, perdendo as forças minuto após minuto e se rendendo a toda aquela crueldade advinda sobre ele. Acho que ninguém veria aquela dura pena como “meio divino” histórico de redenção. Não há esperança na morte! (Lembrando que uma parte dos judeus criam na ressurreição, mas aquela que aconteceria “no último dia”, no fim da história da humanidade). Portanto, o que torna a cruz “fantástica” (no sentido teológico), é que ela foi/é a porta para Deus resgatar a sua criação e toda a humanidade de seus pecados e da condenação eterna.

Voltando a segunda afirmação – sobre o ressurgir dos mortos – os judeus criam que a morte e o hades eram o fim da vida de louvor a Deus. Criam, a partir do aculturamento e imaginário greco-romano, na punição que havia neste lugar indefinido das almas quando não cumpriam a justiça em vida. Criam em muitas coisas, assim como nós hoje. No entanto, a cruz e a morte de Jesus revelaram aos discípulos e a toda a igreja nascente que a esperança que Jesus trouxe não estava em que Deus os levaria a uma vitória sobre o império de Roma e nem em uma aniquilação dos gentios e miseráveis. A esperança também não estava em tornar Israel num povo único e poderoso sobre a face da terra, um povo único regendo as nações pagãs e impondo sobre elas seu judaísmo. A esperança estava, certamente, na ressurreição de Jesus e sua vitória sobre o mal, sobre o pecado e sobre a morte.

A cruz, vista pelo ângulo divino, sugeria a ressurreição de Cristo como o primogênito da igreja (comunidade do cordeiro). A esperança, a partir dessa faceta, cumpre a expectativa reconciliadora entre Deus e toda sua criação; entre a humanidade e a nova humanidade; entre a nova humanidade criada e a antiga criação. A esperança satisfaz em justiça a justiça de Deus proporcionando a paz entre Deus e os homens de bem. Deus, em Jesus, agracia toda a criação e chama a nova criação (a igreja, pessoas reunidas em torno da santa Trindade; pessoas a quem Deus amou na cruz; pessoas que de inúmeras maneiras refletem o Cristo vivo, etc.;) a sua mesma missão: reconciliação, resgate, recriação a partir da cruz e ressurreição.

A igreja como âncora sugere uma comunidade em harmonia, fecundada e alimentada pelo “corpo e sangue” de Cristo (lembrando-me da “água e terra” na simbologia dos navegadores, acima). Uma comunidade que age e reage aqui na terra como Deus age e reage no céu. Uma comunidade que experimenta historicamente o futuro de esperança dado por Deus através da pessoa histórica de Jesus, o Cristo: uma comunidade de ressurreição aqui e agora!

Assim, nosso poder como igreja de Jesus nessa terra vai além de alimentarmos e sermos alimentados. Vai bem além de cumprirmos a justiça e a uma vida de santidade. Está além de vivermos “igrejados” ou “desigrejados” institucionalmente; vai além de sermos bons cristãos e de vivermos eticamente as moralidades sugeridas. Vai além!

Posso estar falando utopias, mas utilizar a palavra “esperança” em meio à pós-modernidade já é um erro para muitos. Mas dela me valho para desafiar aqueles que se consideram e vivem como comunidade onde Cristo habita, na força do seu pessoal Espírito regenerador, para a glória de Deus Pai, a viverem como Jesus e enxergarem como Jesus; a amarem como Jesus e suportarem como Jesus suportou; a pisarem no lamaçal como ele pisou e agiu em resgate de muitos; a experimentarem a esperança no amor que cura toda dor, no amor que foi capaz de entregar a vida para que o mundo soubesse que existe um Deus que ama o que criou. Boas-obras, santidade, justiça, ética e moral serão frutos de quem caminha e age no amor, pelo amor, com o amor do Cristo.

Eis a esperança trazida por Cristo na ressurreição, o poder de uma igreja fraca atuante como âncora do céu na terra na esperança da ressurreição.

MANIFESTO DOS BATISTAS BRASILEIROS SOBRE A OPERAÇÃO LAVA JATO

A liderança da Convenção Batista Brasileira (CBB) , se pronunciou recentemente através de um manifesto que será enviado às autoridades brasileiras sobre a Operação Lava Jato e a corrupção que assola nosso país.

O texto que segue é reprodução fiel do original:

Rio de Janeiro, 15 de abril de 2015.

Assunto: MANIFESTO REFERENTE À OPERAÇÃO “LAVA JATO”.

“Como é feliz a nação que tem o Senhor como Deus, o povo que ele escolheu para lhe pertencer!” Salmos 33:12

DA CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA
AO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

COM CÓPIAS PARA:
PRESIDÊNCIA DO SENADO FEDERAL
PRESIDÊNCIA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS.
PRESIDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
LÍDERES DAS BANCADAS EVANGÉLICAS DAS DUAS CASAS LEGISLATIVAS.
DIRETOR DA POLÍCIA FEDERAL
ORDEM DOS PASTORES BATISTAS DO BRASIL

A CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA (CBB), representando os mais de três milhões de Batistas brasileiros e congregados, atuando atualmente em todo o território nacional há mais de 130 (cento e trinta) anos, através de seu Conselho Geral, vem muito respeitosamente, por seu presidente, manifestar seu sentimento em relação às inquietantes questões relacionadas ao interesse público, no que tange aos aspectos éticos e morais confrontantes com nossos princípios e valores emanados da palavra que temos por regra de fé e prática, a Bíblia Sagrada.

O presente cenário, além de ferir nosso senso de dignidade e respeito ao cidadão brasileiro, despreza também os princípios consagrados por nosso arcabouço jurídico, como: legalidade, moralidade, eficiência, dentre outros.

Acompanhando às ações e iniciativas de combate efetivo à corrupção, especialmente em relação à operação chamada “LAVA JATO”, envolvendo agentes públicos e privados, bem como a apresentação de proposta de anteprojetos de lei pelo Ministério Público Federal, que visam agilizar, efetivamente, o combate à corrupção, materializada através das medidas que seguem:

“agilizar a tramitação das ações de improbidade administrativa e das ações criminais; instituir o teste de integridade para agentes públicos; criminalizar o enriquecimento ilícito; aumentar as penas para corrupção de altos valores; responsabilizar partidos políticos e criminalizar a prática do caixa 2; revisar o sistema recursal e as hipóteses de cabimento de habeas corpus; alterar o sistema de prescrição; instituir outras ferramentas para recuperação do dinheiro desviado. ” (fonte: www. combateacorrupcao. mpf. mp. br/10-medidas)

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL apresentou as propostas acima elencadas e, diante da coerência e relevância social das mesmas, manifestamos nosso inteiro apoio a estas medidas emanadas dos valorosos guardiões da Lei e do bem-estar coletivo. Reiteramos que, por entender que as referidas propostas de anteprojeto representam os mais legítimos anseios do povo brasileiro, apresentamos nossos cumprimentos aos ilustres membros do MPF.

Respeitando e valorizando o importante trabalho das autoridades que agem com dignidade e respeito à investidura a elas confiadas e deste mui digno MPF, desejosos de continuar trabalhando pelo bem-estar de nossa comunidade e do nosso país, colocamo-nos ao seu inteiro dispor para iniciativas de apoio que se façam necessárias.

Na expectativa que o presente manifesto receba de Vossas Excelências a devida atenção e registro, com conseqüente leitura nos colegiados correspondentes.

Com nossas orações,

Pr.Vanderlei Batista Marins

O original pode ser localizado no seguinte endereço: http://goo.gl/qn3mGY

Faltam lideres, caramba!

Março 2015 – Visões comparadas sobre Liderança
29-março-2015. Esteban D.Dortta, Pr.

Miqueias, Lucas 10:12

Introdução: Liderança é uma daquelas palavras que não é fácil de ser definida. Ou seja, todos nós achamos que sabemos o que é liderança, líder, liderados, mas na hora de colocar no papel, esbarramos com um monte de conceitos que não sempre representam aquilo que o nosso próximo pensa sobre o assunto. Por exemplo, alguns definem liderança como “a arte de comandar pessoas, atraindo seguidores e influenciando de forma positiva mentalidades e comportamentos.” outros ficam com uma tentativa de expressão tão sucinta e reduzida que se limitam a enumerar sinônimos como o dicionario priberam: “Comando, direção, hegemonia” e também há quem diga que liderança “É a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum.”

Independente da definição que adotemos, mais ou menos todos nós entendemos que um líder é quem leva outros para um objetivo, independente de se o objetivo é bom ou ruim. Pelo fim obtido (que não necessariamente é o fim expresso pelo líder) pode se determinar se um líder é bom ou não. Assim, podemos citar Martin Luther King que reuniu milhares de pessoas numa manifestação pelo fim do preconceito e a discriminação racial pronunciando um dos discursos mais conhecidos da história recente: Eu tenho um sonho. Ou Mahatma Gahandi por exemplo que incorporou os princípios da revolução pacífica promovendo grandes mudanças não só na india como na Inglaterra, a commonwealth e por extensão o mundo todo.

O que você me diria de uma pessoa que reverteu os efeitos de uma guerra devastadora no seu país associados a um grande declínio financeiro mundial, acabando com o desemprego, elevando o PIB em 22%, desenvolvendo a industria e malha viária a patamares nunca vistos; tudo isso em quase quatro anos e sem inflação?

Este homem não só eliminou o emprego (cumprindo assim suas promessas de campanha) senão que manteve o homem do campo no campo – em tempos em que a ideia era exatamente a contraria – e aumentou a produção industrial a níveis tão por cima do padrão que ao final de quatro anos de mandato havia falta de mão de obra. Os efeitos destes quatro anos foram tão bem solidificados que 10 anos depois da subida dele ao poder, o ganho médio do trabalhador havia aumentado em 15% isso sem levar em conta a melhoras na paga por hora extra.

Fora as melhoras financeiras, ele trouxe para seu povo uma melhora generalizada na qualidade de vida promovendo a mobilidade social expandindo grandemente programas de treinamento vocacional e oferecendo incentivos generosos para um maior avanço de trabalhadores qualificados. Não só a paga melhorou, como notáveis melhorias nas condições de trabalho, na saúde, segurança, investimento nos esportes, nas artes em geral e turismo.

(http://inacreditavel.com.br/wp/como-hitler-enfrentou-o-desemprego/)

Já sabe de quem estamos falando?

Isso tudo pavimentou o caminho para que a Alemanha nazista de Adolf Hitler nos levasse a uma das maiores catástrofes mundiais da que se tem memória em que uma das nações mais cultas e – por conta das melhorias antes mencionadas – mais ricas e bem abastadas no final dos anos 1930 se achasse no livre direito de pisar a liberdade alheia.

Quero ilustrar com isto que há lideres em tudo quanto é lugar com os mais variados propósitos e com os mais diversos resultados. Pessoas cultas de dentro e fora da Alemanha se deixaram seduzir por um líder encantador que evocava sonhos de grandeza ao passo que não escondia seus pontos de vista que por sua vez achavam eco no povo germânico. É por isso que nesse caso bem claro da história, lideres e liderados são responsáveis pelas suas escolhas e o resultado dos seus atos.

Há na nossa sociedade uma visão distorcida de que uma liderança só é boa se produz bons, volumosos e visíveis resultados imediatos. Por outro lado, e como contrapartida, vejo que para muitas pessoas não interessa muito se os meios são estranhos ou pouco claros contanto o fim perseguido seja louvável. Isso se aplica tanto à vida social, politica, eclesiástica, empresarial. Como se isso fosse pouco, levamos como sociedade a separação entre vida civil e vida espiritual tão longe que não entendemos por que algumas coisas simplesmente não funcionam.

Se (e preciso frisar esse ‘Se’) Se e tão somente se, acreditamos no que Jesus acredita sobre a Igreja de que é sal e luz para a sociedade, precisamos voltar às bases para trilharmos um caminho diferente.

Proponho então uma leitura rápida do livro de Miqueias. Ele inicia falando de tres reis: Jotão, Acaz e Eszequias:

I) Três Reis, Três sociedades

Estamos na época do reino dividido. Dez tribos ao norte (Israel) e duas ao sul (Judá). Há três reis de Judá que Miqueias menciona: Jotão, Acaz e Ezequias. Ver de uma só vez a vida desses três lideres me parece de suma importância, já que há uma relação direta entre a vida pessoal do líder e as consequências no seu reinado.

A) Jotão. (2Cro.27; 2Reis 15:32-38) Em 777 A.C. ele herda um reino sobre trilhos. Uzias, seu pai, tinha conseguido uma expansão territorial, econômica, cultural e religiosa como nunca antes se tinha visto no reino do sul. Pode se dizer que havia paz e estabilidade. Seu reino havia durado 52 anos e é quando ele morre que Isaias 6:1 recolhe a frase “O ano em que morreu o rei Uzias” como inicio de um lamento pelas dúvidas sobre o futuro da nação … Enfim, Jotão herdou um reino estabilizado. Ele construiu algumas cidades, fortes, torres e reconstruiu a porta norte do tempo de Salomão. As duas frases que mais me chamam a atenção do reinado dele são as seguintes: “Ele fez tudo o que o SENHOR aprova, tal como seu pai, mas ao contrário deste, não entrou no templo do SENHOR” e “O povo, contudo, prosseguiu em suas práticas corruptas”. Claro, para os amantes das frases formulísticas tem a clássica: “Jotão tornou-se cada vez mais poderoso, pois andava firmemente segundo a vontade do SENHOR, o seu Deus”

B) Acaz. (2Cro.28; 2Reis 16). Filho de Jotão e neto de Uzias, herda um reino de paz estável (52 anos de Uzias mais 16 anos de Jotão) mas não aprendeu nem com o pai nem com o avô nem com o seu antepassado Davi a servir o Senhor. Durante os dezesseis anos que durou seu reinado só fez tolice.

O texto bíblico registra que “Ao contrário de Davi, seu predecessor, não fez o que o Senhor aprova. Ele andou nos caminhos dos reis de Israel e fez ídolos de metal para adorar os baalins. Queimou sacrifícios no vale de Ben-Hinom e chegou até a queimar seus filhos em sacrifício, imitando os costumes detestáveis das nações que o Senhor havia expulsado de diante dos israelitas. Também ofereceu sacrifícios e queimou incenso nos altares idólatras, no alto das colinas e debaixo de toda árvore frondosa” (2Cro.28:1-4) A insensatez de Acaz, trouxe o abandono por parte de Deus. Parece que enquanto a liderança ainda buscava ao Senhor, ele ainda permanecia perto. Mas quando mais ninguém quer estar com Deus, ele também abandona seu próprio povo: “Por isso o Senhor, o seu Deus, entregou-o nas mãos do rei da Síria. Os arameus o derrotaram, fizeram muitos prisioneiros entre o seu povo e os levaram para Damasco. Israel também lhe infligiu grande derrota.” (2Cro.28:5). Voltarei sobre isso sobre o final desta explanação.

As coisas poderiam ter parado por ai, mas “Acaz apanhou algumas coisas do templo do Senhor, do palácio real e dos líderes e ofereceu-as ao rei da Assíria, mas isso não adiantou. Mesmo nessa época em que passou por tantas dificuldades, o rei Acaz tornou-se ainda mais infiel ao Senhor.” (2Cro.28:21-22) Ler 2Reis 16:10-12 (Construção de um altar em substituição ao que o Senhor tinha instruído a construir)

C) Ezequias. Filho de Acaz, Neto de Jotão. Ele herda um reino devastado pela guerra que o inconsequente do seu pai tinha provocado com seu pecado. Obviamente que não era o filho mais velho de Acaz pois esse tinha sido queimado em sacrifício a um deus pagão. Provavelmente tinha conhecido seu avô Jotão. Dele assim como do seu avô temos o nome da mãe o que me faz supor que haviam mulheres sábias e prudentes por trás destes grandes homens.

O resumo da vida de Ezequias é simples: “Ele fez o que o Senhor aprova, tal como tinha feito Davi, seu predecessor.” (2Cro.29:2) Diferentemente do seu avô Jotão, não há um “porém” depois do resumo.

Era o que chamaríamos hoje de um líder pró-ativo. “No primeiro mês do primeiro ano de seu reinado, ele reabriu as portas do templo do Senhor e as consertou. Convocou os sacerdotes e os levitas, reuniu-os na praça que fica no lado leste e disse: “Escutem-me, levitas! Consagrem-se agora e consagrem o templo do Senhor, o Deus dos seus antepassados. Retirem tudo o que é impuro do santuário. Nossos pais foram infiéis; fizeram o que o Senhor, o nosso Deus, reprova e o abandonaram. Desviaram o rosto do local da habitação do Senhor e deram-lhe as costas …” (2Cro. 29:3-6)

Ele se destaca porque não só promove a reinstituição da páscoa como também procura a comunhão com o resto da casa de Israel. O texto está cheio de ricos detalhes que nos provocam à ousadia e à liberalidade espiritual.

No mais amplo sentido teológico da palavra eleição, estes três faziam parte da escolha que Deus tinha feito em Davi. Os três são da casa real de Davi e herdeiros diretos da promessa dada a ele em que não ia faltar herdeiro seu que ocupasse o trono. Menciono isto porque no contexto de liderança em que estamos falando, é esta ( a liderança ) o último bastião. O povo com facilidade ia atrás dos deuses da própria terra. Se deixavam seduzir e se vendiam por qualquer coisa. Caída a liderança, não restava mais nada. Porém, como mencionei, voltarei sobre isto sobre o final da exposição.

Vale por enquanto dizer que há um relacionamento íntimo entre liderança e liderados que se aplica às democracias, regimes autoritários, igrejas, ditaduras, família, fila de supermercado…

Mas qual é a relação entre liderança e liderados? Quais os princípios que regem esta tensão? Pode existir uma liderança extremamente saudável em um povo completamente corrupto? Há liderados emocionalmente e/ou espiritualmente doentes que possam escolher uma liderança justa, compassiva, ética?

II) A decadência dos lideres denuncia a falência moral e espiritual dos liderados.

A) Tem um refrão espanhol que diz: “A falta de pan buenas son las tortas”

(http://cvc.cervantes.es/lengua/refranero/ficha.aspx?Par=58064&Lng=0)

Que poderíamos traduzir assim: “Na ausência de pão, a gente se contenta com bolo de fubá”

Temos a tendência social de nos contentar com lideres de pouca monta. Na realidade, parece que é uma tendência da nossa cultura, procurar alguém que saibamos (ou suspeitemos) que tem o teto de vidro, comprometidos, corruptos ou que ainda está sendo processados pela justiça. Me parece que dessa forma, talvez inconscientemente imaginamos que ele não nos pode cobrar coisa nenhuma. Desse jeito, enquanto uns fazem de conta que lideram, outros se fazem de liderados e juntos acabam com a nação, a escola, a família, a igreja, o que for …

B) Por outro lado e como uma certa consequência do exposto no ponto anterior, os candidatos a serem líderes também vêm em apresentações de moral cada vez mais rala, com passados cada vez mais pesados e a roubalheira (monetária, moral, espiritual) se torna cada vez pior. Não que não hajam líderes sadios mas tal vez por conta dessa saúde, não lhes convida sujar-se com esta ou tal outra situação. Por conta disso, quem é bom, não entra no jogo e quem é mais ou menos acaba por se enredar no jogo da vida. Isso se aplica à vida política, às grandes igrejas como instituições, ao moço que gostaria de estabelecer uma relação com a “filha de fulano” mas que a falta de índole da família vai lhe comprometer a prole e por ai vai…

C) O resultado do relacionamento conspícuo entre um liderado que não quer escolher um líder mais elevado por medo a ser cobrado e um líder que não tem como oferecer coisa melhor porque corre o risco de não ser escolhido, temos um povo que não tem mais senso de destino nem desejo integro de melhora. Quando fala, o liderado aparenta que quer uma certa coisa boa, mas como este discurso é vazio de poder (por se encontrar ancorado em uma vida imprópria e terrena e não nos valores eternos do reino) só consegue se queixar e murmurar. É por isso que na hora do vamos ver, escolhe deputado desonesto, pastor cafajeste, juiz sem-vergonha, marido promiscuo, mulher mentirosa.

D) Aos poucos e quase sem perceber, as sociedades vão se corrompendo. É que nem a história do sapo: quando colocado em uma panela com água quente, ele pula na hora, mas se colocado em uma panela com água à temperatura ambiente e o fogo é acesso, ele morre escaldado sem perceber. Vamos para o bueiro de pouco em pouco cantando vitória, fazendo de conta que reclamamos e dizendo “Está tudo bem, o que é que tem? Todo o mundo rouba, porque eu não?”.

O que fazer então? Como sonhar com uma família melhor, uma igreja mais ousada, um estado mais transparente uma vida mais saudável se esta tensão parece não de desfazer? Lá se vão 20, 40, 60, 80 anos de história recente conhecida de forma direta e indireta pelo nosso povo, mas é sempre a mesma coisa. Tem jeito de melhorar?

III) Assim como a liderança se perde aos poucos, também ela se constrói aos poucos.

A) Sou portador de más notícias: Não há soluções mágicas nem rápidas. Acho que todos nós, em especial o povo evangélico, gostaria de solucionar isso com uma oração de domingo à noite. Uma “oração forte” como o povo costuma dizer. Como muito com uma campanha ou um jejum de 39 dias, uma ida ao monte, enfim, uma solução mágica. Terceirizar a responsabilidade é mais do mesmo. Ou seja, se acreditamos piamente que por orar as coisas vão melhorar e oramos, já cumprimos e “nossa parte”, logo – se as coisas não funcionam – a culpa é da “outra parte”, ou seja, de Deus.

B) Estamos onde estamos por causa das nossas decisões. Temos o conjugue que temos por conta das nossas decisões. Estamos na igreja que estamos e temos o pastor que temos, por conta dos nossos desejos supridos. Usufruímos do presidente, governador, senadores, deputados e juízes que temos, por conta dos nossos silêncios, palavras, atitudes, faltas de atitudes, votos ou não votos da nossa prática democrática que começa na mesa de casa com nossos filhos, amigos e parentes.

C) Não podemos almejar coisas melhores se o discurso é infernal. Ou seja, se falamos uma coisa e fazemos outra. Se escrevemos com a mão e apagamos com o cotovelo. Assim como o melhor conselho para ir à luta é saber não só o tamanho, as habilidades o poder e a disposição de guerra do inimigo, como também conhecer a si mesmo; é mister que reconheçamos o papo infernal quando sai da nossa boca. Papo infernal, é aquele que não é uma posição de fé, de expressão de coisas a serem construídas, de reconhecimento das limitações circunstanciais ou existenciais. O papo infernal é aquele queixume constante sobre a situação sem nada contribuir para a construção do novo. O papo infernal, é o que desconhece o poder do Cristo para construir – a partir da palavra dita – coisas novas. O papo infernal, é aquele treinamento neurolinguístico ao que submetemos nossos filhos, membros de igreja, correligionários de partido político, colegas de serviço e sócios desconstruindo sistematicamente com palavras as ânsias de vida que brotam de qualquer ser criado à imagem e semelhança de Deus garantindo assim que a próxima geração encontrará maiores dificuldades que as nossas perante os mesmos problemas.

D) Se um líder nasce ou se faz não sei. Se é uma arte ou uma ciência, também não sei. Só sei que líderes não brotam do nada nem florescem no vácuo. Esperar por uma solução mágica ou imediata para a desgraça espiritual e a decadência moral é um processo abortivo de resultados garantidos. É – como diz o bolero – “ter perdido o medo à dor, é lutar contra nada na manhã”. A teologia triunfalista não se distingue do pensamento positivo pois ambas duas acham que a partir da minha atitude pessoal as coisas mudam. O certo é que a palavra do Senhor quando pronunciada por sua Assembleia coloca ordem na criação. Ou seja, a identificação do ser humano com a verdade eterna do Deus vivo nos seus pensamentos, conduta, desejos, ações, torna viva e palpável a palavra do criador e por conta disso a ordem entra no caos. A paz é disseminada. A transparência é vista como coisa boa e em resumo, o Reino de Deus interfere na terra que jaz no maligno.

Isso quer dizer que na hora em que falamos com nossos filhos, conjugues, colegas, correligionários e utilizamos essa bagagem espiritual de forma espontânea, nos transformamos em construidores da nova realidade divina.

Assim como a pergunta do soldado para Paulo e Silas ecoa pela história dizendo “Que devo fazer para ser salvo?” assim deve estar fervilhando em seu coração hoje “Que posso fazer pela nossa situação?”

IV) A Igreja presença salvadora de Deus em cada canto.

Novamente, não há soluções mágicas nem rezas miraculosas. A única a ser feita, é o plano original de Deus: que a palavra dele saia e se espalhe pela sociedade.

A) Repare na vida de Odede: 2Cro.28:9-11. Ele estava no lado ruim da história. Sua nação (Israel) tinha se convertido à idolatria. Desde o rei até o mais simples dos súditos estavam entregues a qualquer forma de idolatria e não se importavam em servir a Deus. Quando Peca, rei de Israel vá lutar contra Acaz, rei de Judá, e o vence trazendo 200.000 prisioneiros, é Odede que se interpõe. Com que o faz? Lanças? Espadas? Monta algum tipo de protesto público? Faz uma paralisação? Não. Mesmo sendo esses mecanismos que dependendo da situação podem e devem ser usados, Odede conhecia outra ferramenta: A palavra de Deus dita. Humanamente ele estava fazendo a coisa errada na hora errada no local errado.

B) Assim como Igreja não são as quatro paredes do local de reunião, falar a palavra de Deus não é ficar recitando o pai nosso ou os salmos ou os provérbios dia após dia tornando-se um chato social. Odede pôde falar as palavras que eram necessárias, por estar vendo a realidade desde um outro ponto de vista; por estar em harmonia com o principio criador (ou anti caos) de Deus. Falar a palavra de Deus é mais uma vida em prol dos princípios de Deus que ter uma conduta intachável dentro desses princípios. É mais uma luta constante por exaltar a ordem de Deus contraria ao caos circundante – que é louvado pela esmagadora maioria da sociedade em que se vive – do que ser exemplo constante de ordem e estabilidade. Falar a palavra de Deus é imitar Cristo quando somos humilhados permanecendo de bico fechado contra as injustiças que nos são feitas não retribuindo mal por mal. Falar a palavra de Deus é manter a esperança firme em que em algum momento, o Deus de ordem e paz se fará presente e mesmo no meio do caos ou a partir do mesmo promoverá uma nova criação.

C) Ajudamos a nossa igreja, a nossa família, a nossa sociedade, o nosso bairro e o nosso país a ter melhores líderes, na medida em que assumimos nosso papel de liderança em cada posto que ocupamos. Não imagine que a sociedade não nos vê. Ela sim nos vê e nos julga. Talvez por isso é que nos tenhamos mimetizado tanto nos últimos anos ao ponto tal que não mais nos parecemos com nada. Estamos tão camuflados, tão misturados, tão superficiais, tão irreverentes, tão desgraçados que em nada mais nos distinguimos do mundo. A pregação do mundo entra e avassala a igreja com uma facilidade tremenda. Com inaudita facilidade temos abandonado nosso posto, preferindo o vento da aceitação pública. Temos vendido nossa primogenitura a troco de bananas e a maior parte dos nossos jovens, adolescentes e crianças não sabem mais nem sequer o básico da vida cristã.

D) Temos acreditado no discurso preparado no colo do Diabo que diz que você não pode falar nada nem criticar nada pois antes têm que ter uma vida imaculada. Há duas coisas a dizer sobre isto: 1) A critica tem que estar baseada na palavra cheia de autoridade do Senhor que é criador e chama as coisas que não são como se já fossem e 2) Ninguém pode ter uma vida imaculada e se a tivesse, Cristo seria desnecessário. É por isso que as palavras de Miqueias ao respeito do seu novo reino se tornam relevantes demais: “Farei dos que tropeçam um remanescente e dos dispersos, uma nação forte. O Senhor reinará sobre eles no monte Sião, daquele dia em diante e para sempre” (Miq. 4:7)

E) Não se trata então de nos trancafiarmos num templo durante duas horas por semana para cantarolar algumas músicas, ler um texto sagrado e esperar que alguém nos diga alguma coisa que nos incentive para enfrentar a segunda feira, o cônjuge, o serviço ou a morte. Nem também sermos os chatos incorrigíveis que só falam de Bíblia e não sabem nada sobre a operação lava-jato, o próximo rebaixamento do Corinthians (ou alguém tem dúvidas sobre isso) ou a misteriosa manutenção do preço da gasolina quando o barril do petróleo caiu para menos da metade do valor em poucas semanas no mundo afora. Trata-se então, de experimentar o Deus vivo no aeroporto, no shopping, na praça, no serviço, na intimidade com a família ou num Show de Maria Bethania e ai, como chuva calma, como o suave orvalho matutino, ir derramando da paz e da ordem que nem sequer nossas são e sim do criador.

Conclusão: Nossa sociedade está carente de boa liderança. Estamos indo para o bueiro moral e espiritual a passos largos. Não sou um daqueles saudosistas que pensa que todo tempo passado foi melhor. Também não sou um neurótico que constrói castelos no ar imaginando que arrebentar tudo e construir uma nova sociedade sem nada do antigo seria o ideal. Muito menos sou um psicótico para morar dentro deste castelo isolando-me da realidade que nos golpeia dia após dia por diferentes meios

Apenas me considero um cristão critico que vê que a mesma sequência de eventos se repetem ao longo do devenir histórico de várias sociedades e entendo que cabe à nossa geração pronunciar as palavras e tomar as atitudes (assim, nessa ordem: palavras seguidas de atitudes) que promovam o reino de justiça, fidelidade e humildade que o Senhor está construindo já e agora. Entendo também que nos cabe instruir à seguinte geração neste mesmo intuito da mesma forma em que Adão e Eva instruíram a Caim, Abel e Sete e na mesma forma em que o povo foi instruído (Deut. 6:6-7) a repetir “a palavra” aos filhos. Não que isso nos garanta que os filhos vão conseguir ou querer seguir a trilha deixada, mas sim enfatizar que é essa nossa responsabilidade.

No meu entender, só assim podemos a longo prazo ter esperança de lideres mais sábios e mais sujeitos à palavra de Deus dentro e fora da Igreja de Cristo.

Concluo pois relembrando o que o Senhor opina sobre a seara e os obreiros. Sobre a coisa a ser feita e quem a faz. Sobre o Rei, o reino e seus príncipes:

“A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da plantação que mande obreiros para fazerem a colheita.“ Lucas 10:2

Faltam lideres, caramba! by Igreja Pequena on Mixcloud

O Evangelho do Reino

Amados, achei por bem escrever-vos, não com o intuito de combater algum ponto de vista ou mesmo me opor a alguma ideia, porém com a proposta de esclarecer meu ponto de vista e assim tentar contribuir para um diálogo consistente.

O caminho que algumas teologias têm trilhado na impulsão da cosmovisão iluminista resultou, não de forma casual, na construção de uma cristologia um tanto desfocada, ao que me parece, de uma consciência bíblica mais centrada. No afã de defender a pessoa e obra de Jesus diante dos ataques ateístas, sem, contudo, abrir mão do ferramental racionalista, criou-se uma imagem de um Cristo comparável aos grandes líderes mundiais. Com isso procurava-se exaltar a pessoa do Filho de Deus, mostrando-o como um líder exemplar e perfeito, e assim equiparando o cristianismo às “melhores” e “mais nobres religiões” do Planeta.

Jesus assume um lugar ao lado dos grandes mestres que a história já registrou. Sua missão, com isso torna-se, segundo os valores éticos mais importantes para a humanidade, absolutamente relevante. Os problemas sociais, que se espalham e descem amargos pela garganta, principalmente dos menos favorecidos, faz com que se levantem clamores dos mais justificados por justiça social, ética e dignidade pública.

Neste meio em que se proliferam as injustiças, qualquer líder que queira ser bem visto e ter relevância cultural deve, sem sombra de dúvidas, ser projetado como uma voz que ressoa contra as paredes da indiferença e do massacre social. Com um olhar nesta demanda ética e humanitária, num ambiente de escassez de escrúpulos, surge cada vez mais a importância de estabelecimento de ícones da sociedade que respondam às barbáries e mazelas da “polis”.

Qualquer líder que seja respeitado ou tenha impacto relevante no meio em que vive, precisa, segundo a própria norma social, trilhar o caminho da ética e da ação humanitária e, portanto, se interpor ao mecanismo maquiavélico em que a sociedade está mergulhada.

Por isso, líderes como Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King entre outros são levantados como ícones e exemplos quase perfeitos daquilo que faz a diferença no mundo dos viventes. Seguir o exemplo deles ou ser colocado no páreo com eles é o que se exige como qualidades mínimas para quem seja candidato ao respeito e admiração mundial.

A partir desta cosmovisão, imbuída desta chama, a proposta de um Jesus humanitário, um líder que vem para transformar o meio social, reverter os processos políticos dementes e estabelecer um reino justo sobre a terra, é absolutamente tentadora. Fazer de Jesus um grande líder que constrói uma sociedade justa é mais do que tentador, pois o coloca na mesma via dos grandes ícones sociais e faz de muitos deles seus seguidores. Isso é quase tão perfeito que os próprios discípulos de Jesus adotaram prontamente esta visão. Clamores como “quando restaurarás o Reino a Israel?”, “no teu reino queremos estar em tua direita e esquerda”, mostram claramente que eles assim entenderam Jesus e esperaram que ele fizesse.

Não era pra menos, pois se hoje falamos em opressão social, qual não seria a mesma na época em que os romanos, desumanamente, exploravam e “sugavam até a última gota de sangue” de seus escravos – dentre eles, o povo de Israel?

Qual não seria a expectativa e a sede dos discípulos por justiça social, pelo estabelecimento de um reino justo, de uma política humanitária, de direitos iguais e de punição aos corruptos e corruptores? Nesta ânsia por harmonia social, qualquer líder que se prestasse teria que advogar as causas sociais. Tempos semelhantes aos nossos, guardadas as devidas proporções!

Nessa chave hermenêutica, os discípulos criaram uma imagem política de Jesus que ele jamais teve. Esperaram ansiosamente pela justiça e por um reino terreno justo que jamais veio. Quando começaram a perceber que Jesus iria morrer, não se conformaram. O final da vida terrena de Jesus mostra as desilusões dos discípulos e o sentimento de fracasso. Mal sabiam eles que ainda sofreriam por tantos anos nas mãos dos romanos, e que suas expectativas de justiça social jamais seriam satisfeitas.

Talvez, o que os discípulos não entendiam é que o problema humano nunca foi social. O problema humano é existencial. O social é apenas uma consequência do existencial.

Talvez seja aí que esteja a grande dificuldade com as teologias que apresentam um Cristo ao lado dos grandes ícones sociais. Propõem um evangelho das causas sociais, que busca igualdade, que cuida do pobre, que alcança o necessitado, que alimenta o faminto. Com isso fazem da proposta de Jesus a mesma que a dos grandes líderes sociais.

Assim não percebem que o ideal de Cristo jamais trilhou estes caminhos. É claro que existem inúmeros textos bíblicos que chamam o ser humano para uma justiça social. Mas esse não é, e nunca foi o foco. A advertência por uma ajuda humanitária é uma espetada no coração do homem pecador para mostrar-lhe seu principal problema – a impossibilidade de amar realmente o ser humano.

Quando Jesus diz ao jovem rico para vender tudo que tinha e dar aos pobres, parece-me mais uma tentativa de mostrar-lhe onde estava seu tesouro. Aliás Jesus nunca propôs uma revolução contra Roma, nunca instigou uma ação política diferente no senado e nunca deu esperanças aos discípulos de que se eles o seguissem, o mundo poderia ser melhor.

A proposta de Jesus não era social. A proposta de Jesus era existencial. O homem está longe de Deus. Isto significa – o homem está no inferno (existencial) e precisa de se aproximar de Deus, voltar a ter vida. Como resultado disso, ele se tornará alguém melhor para sua sociedade em todos os aspectos em que esteja interagindo com ela.

A diferença entre Jesus e os grandes líderes sociais é fundamental e crucial. Os ícones da sociedade propuseram sempre uma mudança social, Jesus propôs uma mudança existencial. Os líderes tentaram consertar a sociedade, Jesus se interpôs como o transformador pessoal. “É necessário nascer de movo” disse ele a um bom cidadão.

O alvo do evangelho não é transformar as propostas políticas, mas sim as pessoas, ainda que isso leve à transformação de políticas a partir de pessoas transformadas. Quando se prega um evangelho social, perde-se a essência do Evangelho. Pode-se ter uma igualdade social sem pessoas transformadas, mas não se pode ter pessoas transformadas que sejam indiferentes ao mundo social. Porém, começar pelo discurso social é começar pela prática moral e não pela transformação pessoal interior.

Podemos ser seres transformados e vivermos plenamente e totalmente num mundo absolutamente injusto e numa sociedade totalmente deturpada com uma política corrupta, e ainda assim o reino estará em nós. A mensagem de Jesus não falhou, ainda que nunca na história tenhamos presenciado uma igualdade e justiça social, pois o Evangelho de Jesus não teve essa meta. Se ele tivesse essa meta, hoje diríamos que falhou, pois nunca isso aconteceu.

Então quando tiramos o foco do Evangelho, que é libertação existencial das vidas, e o colocamos numa justiça social, invertemos o processo e deixamos o importante pelo secundário.

Jesus nunca foi um líder como o esperado pelo mundo social, pois sua busca era outra. Por isso talvez ele não foi amado como Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi ou Matin Luther King. Embora alguns tenham morrido por seus ideais, Jesus não morreu por seus ideais. Jesus morreu para substituir o pecador na cruz, e assim dar-lhe vida (que não significa necessariamente justiça social, aliás muitos dos que tiveram a vida de Jesus jamais experimentaram a justiça social sobre si mesmos).

Que Evangelho acredito?

  1. Um Evangelho que muda o ser humano existencial e radicalmente. Como? Tirando-o das trevas e colocando-o na luz. Tirando-o do pecado e colocando-o no perdão. Mudando sua cosmovisão. Isso levará o ser humano a seu justo socialmente, entre outras coisas, mas o contrário não é verdadeiro.

  2. Um Evangelho que me mostre minha miséria existencial e meu afastamento de Deus e me dê esperanças de estar com Ele, apesar de quem sou.

  3. Um Evangelho que me capacite a viver abundantemente, mesmo que o meio social não seja aquilo que deveria ser.

  4. Um Evangelho que me insere no Reino, que me torna um servo de Cristo rumo à cruz. Isso não significa que vou mudar a sociedade, ou que vou conseguir expulsar os romanos da minha política, ou que vou conseguir acabar com as favelas do mundo, pois o mesmo jaz no maligno. Embora eu deva viver a diferença com o meu próximo, o Evangelho do reino veio para transformar o meu ser.

  5. Um Evangelho que condena a miséria social e a injustiça, mas numa proposta de mostrar o pecado humano e a falência do sistema, não de criar seguidores que possam reverter o processo social, embora isso possa chegar a ser atingido.

  6. Um Evangelho que multiplica o pão, mas que não faz disso sua meta. “Vocês vêm a mim por causa do pão” e dizendo isso não multiplicou mais. Pareceria um contrassenso, já que ele poderia acabar com a fome do mundo e assim se tornar um grande ícone humanitário.

  7. Um Evangelho que fale ao pobre e ao rico, que atinja o pobre oprimido e o rico que não oprime.

  8. Um Evangelho a ser pregado não a partir das misérias sociais, mas sim a partir da miséria humana existencial.

Assim Jesus não era de esquerda nem de direita, não propôs sistemas políticos ou econômicos. Essas lutas de direita e esquerda são meras convenções políticas. Jesus falou do homem perdido, mostrou o quanto este estava perdido e morreu por ele para que fosse encontrado. A partir daí, na consciência da falência humana e no resgate da humanidade, abre-se as portas para a ação social, porém nunca como um alvo supremo a ser perseguido, mas uma consequência a ser vivenciada, pois o problema humano é muito acima do nível social.

Faz-se assim necessário alguns esclarecimentos pontuais.

  1. No que se constitui a libertação apregoada no Evangelho?

A libertação não se constitui em alívio do ponto de vista da opressão social. Os discípulos foram libertos por Jesus e continuaram a vida toda debaixo da opressão social. O Evangelho é muito mais do que isso. Se assim o fosse, nações em que a opressão social é minimizada (até mesmo debaixo de uma confissão ateísta) não precisariam do Evangelho.

A libertação proposta por Jesus não enfoca questões sociais, econômicas ou de qualquer outra natureza que não seja o resgate de um ser das trevas. A libertação social é um ideal de muitos líderes e instituições, que tiveram mais ou menos êxito no processo social, sem nem sequer se utilizar do Evangelho.

Jesus liberta o homem de seu pecado existencial que é o único que o separa de Deus. O homem não será condenado por suas injustiças sociais, pois se assim o fosse, aqueles que praticam a justiça sem o emblema da cruz, seriam absolvidos sem a presença de Jesus. O homem será condenado por seu Pecado, que o separa de Deus.

Enfocar a libertação do ponto de vista social é reduzir o evangelho a uma ideologia humanitária e nivelar Jesus aos ícones de projeção social.

  1. Quem é Jesus?

Parece muito claro que Jesus é incomparável. Ele supera infinitamente qualquer líder social ou agente humanitário de importância inquestionável.

Não precisamos de Jesus para realizar um trabalho social significativo – já temos Mahatma Gandhi, entre outros.

Não precisamos de Jesus para estabelecer uma sociedade mais justa e igualitária – grandes nações do primeiro mundo, como a Suécia ou Dinamarca estão anos-luz na constituição de suas sociedades, muitas vezes até sob a bandeira do ateísmo.

Não precisamos de Jesus para estender a mão ao faminto, à viúva e ao pobre – agências humanitárias e grandes líderes sociais já se mostraram eficazes nisso sem sequer estar debaixo da cruz.

Não precisamos de Jesus para mostrar a justiça e a ética que faz a diferença no meio social – muitos já agiram assim sem sequer serem cristãos. Corpos são queimados em favor dos pobres sem sequer o resquício do verdadeiro amor.

Não precisamos de Jesus para praticar o desprendimento material – Sidarta Gautama que o diga.

Jesus não é definitivamente um “repartidor de heranças”, ou um “provedor de pão” – essa era a expectativa dos judeus, mas ele não se mostrou seduzido por estas propostas. “O pão não foi Moisés que vos deu, o pão sou eu”, revelou Jesus. Quem busca no Evangelho o pão que mata a fome, não pode entender o que é comer a carne do Filho de Deus.

Não precisamos de Jesus para exemplos de qualquer natureza ética ou altruísta – grandes ícones da história se mostraram impecáveis neste aspecto sem nunca abraçarem a cruz.

Mas, definitivamente tem algo fundamental e essencial que só Jesus pode fazer, que é uma característica exclusiva dele. Só Jesus pode perdoar a humanidade em relação ao seu pecado existencial e assim ligá-la novamente a Deus. Isso nenhum líder ou ícone mundial poderia fazer, pois “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”.

Essa é a verdadeira mensagem do Evangelho. O homem estava separado de Deus em seu pecado e Jesus veio ligá-lo novamente ao Pai. Resgatou-o de sua condição de pecado e o regenerou, fazendo-o uma nova criação.

  1. Qual é a tarefa da Igreja?

A tarefa da Igreja não é prioritariamente social. Não somos uma instituição filantrópica de ajuda humanitária. Existem grandes organizações que assim se constituem e fazem um excelente trabalho social sem nunca se constituírem como igreja. Não precisamos da igreja para fazer a ação social. Ela já existia muito antes da igreja.

A igreja não se reúne para resolver os problemas sociais prioritariamente. Quando olhamos para a igreja primitiva, percebemos que os diáconos só foram instituídos depois que o problema se apresentou. A igreja não se reuniu para resolver seus problemas sociais, embora a ajuda entre os irmãos se tornou uma realidade. Mas não foi essa a mola propulsora que os levou a estar juntos. Eles estavam juntos porque se tornaram adoradores. Não somos chamados principalmente para atender projetos sociais, mas sim para sermos adoradores.

Então a igreja tem como tarefa principal adorar a Deus, conhecê-lo e anunciar a libertação do homem do seu Pecado por Jesus. As tarefas sociais, as denúncias ao desequilíbrio econômico, as buscas pela preservação ambiental, o respeito à criação divina, a defesa dos animais, as grandes descobertas científicas que ajudam a preservar o planeta e os homens, são também realizações dos salvos, mas podem muito bem existir sem eles, como a própria história comprova.

A carta aos Gálatas, no capítulo 5, mostra que a libertação tem muito mais a ver com a consciência da falência existencial da humanidade do que qualquer outra coisa. Neste aspecto as “obras da carne” condenadas têm muito mais a ver com as questões internas de uma realidade existencial corrompida.

Sendo assim, fica aqui minha denúncia contra o rebaixamento do Evangelho a uma proposta de ação social, reduzindo assim Jesus a um ícone de exemplo humanitário e no páreo com os grandes exemplos de revolução social do planeta. Ele é muito mais do que isso e seu evangelho vai muito além dessas causas.

Que Deus seja conosco.

Everson Spolaor

O Poder de uma Igreja fraca (I)

Penso que todos nós sabemos o que é a Igreja a partir de Cristo (kaleo, qahal, hb. / ekklesia, gr.):3 uma grande/pequena congregação convocada a se reunir em prol de uma finalidade em comum, a adoração à santa Trindade. Seu ajuntamento dá-se numa missão nesta Terra, aonde houver “dois ou três reunidos”. Os discípulos de Jesus são conclamados por Ele a fim de escutá-lo e agir por Ele; a assembleia dos santos onde a igualdade (isonomia) e liberdade (eleutheria) são as marcas e os direitos de todos que são convocados pelo próprio Deus. Essa talvez seja uma definição coerente visto que muitas coexistem.

Na visão individual – e ainda múltipla – principalmente no olhar paulino da carta aos Coríntios (I Co. 12), temos uma grande novidade acerca da “Igreja de Deus” (I Co. 2.1; II Co. 1.1), da “Igreja Universal” (I Co. 10.32; 12.28), da “Igreja local específica” (I Co. 1.2), ou a “reunião propriamente dita” (I Co. 11.18; 14.19; 14.23). Paulo gostava de metáforas e, em um crescente – quase que apostando nas palavras para encontrar a mais coerente – o apóstolo dos gentios revela uma metáfora preciosa, a metáfora que me apoiarei nesse escrito e para esse tema: o corpo de Cristo e seus membros.

Antes de entrarmos mais a fundo em “O Poder de uma Igreja fraca”, uma informação deve ficar esclarecida e, me apoio nos estudos do teólogo/exegeta Willian Barclay que diz: “[…] em todo o N.T. a palavra Igreja nunca é usada para descrever uma construção. Sempre descreve um grupo de homens e mulheres que entregam a Deus seu coração”. Portanto, igreja não são cadeiras novas (ou velhas) bem dispostas num ambiente; não é o púlpito; não são os instrumentos musicais; não é o conjunto disso tudo reunido num salão amplo disponível para os fins de semana.

II

O teólogo Phillip Yancey, escrevendo sobre a igreja, trabalha as metáforas usadas por Paulo. Assim como Paulo utiliza as palavras “lavoura e edifício” (I Co. 3.9) referindo-se a “nós” (os irmãos da igreja de Corinto), ele afirma a preciosa metáfora que nos identifica como igreja: nós como “membro” do corpo de Cristo que contém muitos membros; e nós como o próprio corpo de Cristo (ler I Co. 12).

Um versículo desse texto me chama atenção. Em I Co. 12.22 temos: “Antes, os membros do corpo que parecem ser mais fracos, são necessários […]”. Associado a esse versículo, quero trazer um texto posterior de Paulo escrito em II Co. 12.9, onde se narra sobre o espinho na carne: “Mas ele me disse: A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa/perfaz na fraqueza. Portanto, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo”.

Tenho para mim que Paulo sabia em que se baseava “o poder de uma igreja fraca”. Nós, como membros participantes juntamente com outros membros do único corpo, a saber, o de Cristo, podemos ser os fracos. Ouso dizer que devemos ser os fracos se quisermos parecer com Cristo. Por quê? Paulo afirma aos coríntios “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (I Co. 11.1; ver tb. Ef. 5.1; Fl. 3.17; I Tm. 1.6).

Não só por essa afirmação, mas por tantas outras estonteantes que enaltecem a fraqueza. Aos Coríntios, ele eleva a fraqueza num patamar tão superior que a igreja contemporânea parece estar longe desse “alvo”. Podemos ler: “Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (I Co. 1.25); escrevendo sobre o caráter de sua pregação: “E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor” (I Co. 2.3); escrevendo sobre a grandiosa ressurreição: “Semeia-se em ignominia, é ressuscitado em glória. Semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em poder” (I Co. 15.43); escrevendo sobre seu sofrimento por amor ao evangelho: “Se é preciso gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza” (II Co. 11.30); e escrevendo suas últimas palavras de advertência aos Coríntios: “Ainda que foi (Jesus) crucificado por fraqueza, contudo vive pelo poder de Deus. Nós também somos fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus em nós” (II Co. 13.4).

Quero trazer uma metáfora para comparar a igreja. Yancey descreve em seu livro que certo amigo referiu-se a igreja como um A.A. (alcoólicos anônimos). Confesso que gostei dessa comparação pelo simples fato de que as pessoas ali se reúnem por causa de um vício em comum e se ajudam na missão de se manterem longe da bebida. Esse lugar distinto, onde todos os que comungam da mesma dor, seja qual idade for, cor tiver, profissão desempenhar, se reúnem com o mesmo propósito – de obter um novo hábito e gerar uma nova dependência. O ideal desses é: “Deus me ajude a vencer os próximos cinco minutos”. Eles entenderam que não precisam pecar, precisam de outro pecador para depender em sua fraqueza. O objetivo: vencer, mas por meio da fraqueza que identificam um no outro.

Assim enxergo a igreja da qual Paulo gestou em seus dias, uma igreja onde o pecado, comum a todas as pessoas, era vencido por meio da comunhão em torno do poder de Cristo. Não propriamente o poder da ressurreição de Cristo (esperança vindoura), mas no poder de sua fraqueza, ou seja, no poder contido na “via cruz”. Ele escreve em Filipenses sobre seu auto esvaziamento onde o lucro se torna perda por causa de Jesus Cristo; o ganhar, ser achado nele, conhece-lo e o poder de sua ressurreição comungando juntamente de seus sofrimentos, ser conformado com ele na sua morte, era ganho para Paulo. Dessa forma, ver se ainda ressurgiria dentre os mortos era a ousadia de Paulo (ler Fl. 3). Aqui, a alegria é perder tudo para ganhar somente a Cristo. O poder está no perder e sofrer, na renúncia.

Voltando a comparação com o A.A., a igreja deve/deveria ser um ambiente onde ririamos muito, e choraríamos muito. Acima de tudo, seriamos gente que ama se encontrar com outras gentes para tirar suas máscaras e, ao sofrerem juntas, estarem mais perto do ideal – semelhança com Cristo mediante as fraquezas. Isto porque, estarmos no mesmo barco nos leva a sermos honestos conosco e com os outros. Isso criaria um vínculo entre os membros que saberiam que a igreja fraca sabe que seu poder vital é a dependência de Deus e, também, encontrado na comunhão com o outro.

III

Creio em uma igreja poderosa nessa Terra, no entanto esse poder situa-se na nossa fraqueza. É essa a resposta que Paulo obtém “[…] meu poder se perfaz na fraqueza”. Não gostamos da fraqueza, de sermos e nos mostrarmos fracos. O próximo não é a face de Deus para, juntamente comigo, caminharmos. As igrejas (comunidades vivas) atuais preferem levantar suas bandeiras e serem vistas como “o poder” imperante sobre o mundo, seus sistemas, suas políticas, suas mordomias, etc.; sendo que Paulo nada faz, a não ser “pregar a Cristo, e esse crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (I Co. 1.23); e essa “palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos (igreja), é o poder de Deus” (I Co. 1.18).

Sermos igreja fraca no poder de Deus é caminharmos pela via cruz entendendo que o próximo é a face do pecado, da fraqueza; também é, no poder que se perfaz nessa fraqueza, a face de Deus. Juntos, mutuamente, somos impelidos pelo poder de Deus que opera em nossas limitações a dependermos dEle, a termos a mesma esperança que Paulo teve quando tudo deixou e sofreu para conhecer o poder da ressurreição de Cristo Jesus.

Sobre “JESUS – NATAL – RESSURREIÇÃO”: Algumas poucas palavras…

2Essas são algumas poucas palavras que me lembro dos estudos do seminário e, também, livros revisitados sobre o assunto. Sei que o momento é de ardor pelo nascimento de Jesus, mas sempre me apego, nessas datas festivas, ao significado de Sua vinda a este mundo, ao nosso espaço humano.

O Natal reflete, mesmo diante de todo contexto cabível ao Império romano ao impor essa data, uma realidade histórica de vida e esperança. O Natal – o nascimento de Jesus sem os adornos capitalistas de consumo – reposiciona a história humana a uma realidade apocalíptica que sempre foi viva na memória e no corpo narrativo dos profetas; portanto sempre viva nas expectativas de um povo oprimido e necessitado de libertação/justiça e de um libertador.

Fala, principalmente, da vinda desse libertador e da libertação que um pobre menino judeu, em Belém, trouxe através de seu tabernacular neste mundo. Fala do cumprimento das profecias e da nova vida que Ele viveu através de sua própria. Fala da renovação da realidade através do Reino que ele encarnou e, futuramente, da renovação de toda a realidade na vindicação e consumação de todas as coisas.

A partir de seu nascimento, sua vida exemplar e profética, morte e ressurreição, podemos falar da esperança que sua estadia aqui produziu nos corações que creram e creem desde lá.

Quem me conhece sabe que sou um crítico das “fraseologias” ou dos “jargões pops” da “evangelicada”. Dizeres como: “Jesus é a nossa páscoa”; “Jesus ressuscitou”; ou ainda “O tumulo está vazio”… Não sou contrário a nenhuma delas, no entanto não as acho, racionalmente, tão contundentes e vivas como são expressas. Nem acho que existam argumentos científicos que provem tal fato (creio ser um fato da história), o que concordo piamente com a historiadora judia Karen Armstrong ao dizer que “ao tentar transforma-se em ciência, a teologia só conseguiu produzir uma caricatura do discurso racional, porque essas verdades não se prestam à demonstração cientifica”.

Um cético ou um ateu neófito invalidaria tais “jargões” com argumentos muito mais racionais e expressivos/preciso que um “crente” platônico e sentimental que leva em sua boca apenas o “Ele ressuscitou”.

A própria psicologia social invalidaria a ressurreição sugerindo a teoria da “dissonância cognitiva”. Outros iriam sugerir que a ressurreição é apenas uma metáfora (não que não seja) de uma experiência religiosa que os cristãos primitivos outrora tiveram por causa da experiência da graça e do perdão, o que permite sugerir inúmeras negações sobre a morte e ressurreição de Jesus.

Ao recorrermos às narrativas evangélicas canônicas, todas as quatro narram sobre a morte e ressurreição de Jesus, o Messias. Independente da lente de cada autor/narrador, a narrativa se encontra presente na tradição cristã primitiva, sugerido por alguns teólogos e exegetas serem essas pré-paulinas (o que evoca o poder de sua memória e de sua oralidade). Mas a evidência que se torna explicita nos evangelhos, principalmente para os personagens da trama é que “Jesus ressuscitou”; e se ressuscitou “ele é o Messias”.

Foi uma fraseologia que se tornou jargão nos moldes que indiquei acima? Foi um jargão presente no contexto judaico? Não, nem um nem outro. Primeiro, porque os discípulos de Jesus nunca entenderam ou suspeitaram de sua ressurreição. Segundo, o contexto judaico não aceitava a premissa de que alguém havia morrido e ressuscitado. Prefiro “acreditar” (racional partindo da fé e não de fatos comprovados), que a ressurreição de Jesus alimentou em seus discípulos a antiga expectativa apocalíptica do Messias, elevando-os ao verdadeiro sentido de sua morte e ressurreição, ou seja, uma nova criação, a vitória de Deus sobre a morte (mal) que foi anulada na cruz e seu retorno à vida.

A essência do Natal tem a ver, num contexto macro, com essa libertação/justiça tão esperada e com a esperança ocasionada pela ressurreição desse menino/homem/Deus, ou seja, um dia o veremos face a face e, assim como Ele é, nós seremos.

 

Pseudo milagres que levam a pseudo conversões

O milagre que leva à conversão é o da intervenção divina objetiva na história do ser humano. O milagre que leva à conversão é aquele que revela o Cristo.
O centurião viu (no meio das trevas) que Jesus era verdadeiramente justo. Lc.23:44-49

Nestes tempos de absoluto relativismo em que vivemos, parece ser que passamos a chamar de milagre qualquer coisa que assemelhe intervenção do divino no humano ao passo que chamamos de conversão qualquer coisa que se pareça com mudança de conduta sem a necessária mudança de mente.

A existência ou não de Deus não pode ser provada. 

Esse “não pode” é em dois sentidos. “Não pode” porque cientificamente é impossível e “não pode” porque se provada fosse, a fé seria inútil. Tornar-se-ia uma tolice pensar diferente, já que seria como negar a existência do sol: ou seja, ninguém poderia dizer que Deus não existe e viver de costas para Ele.

Dito em outras palavras, a liberdade humana (tão essencial para o amor – pois sem liberdade não há escolha e o amor não é um sentimento e sim uma decisão) ficaria cerceada e seria – de fato – impossível amar Deus assim como não podemos amar o Sol e outras coisas cuja existência é um fato objetivo aos olhos de todo ser humano.

Muitos acham que Deus faz milagres para provar sua existência.

Há os que oram pedindo que Deus se manifeste de uma forma sobrenatural para um parente ou amigo. Pensam que dessa forma – com a existência de Deus impossível de ser negada – o ser amado se renderia definitivamente a Deus e passaria a ser um discípulo de Jesus.

Há também os que oram para que Deus se lhes manifeste de alguma forma sobrenatural e a partir dai – com a existência de Deus provada no foro mais subjetivo e íntimo – se comprometeriam a servi-lo, seguindo Jesus.

Há aqueles que contam historias que exigem ser interpretadas como sendo manifestações sobrenaturais, quando na realidade para o observador alheio ao fato (o que o torna mais objetivo) ou melhor conhecedor de alguns assuntos pelo treinamento científico, não passa de um fato inverossímil ou inócuo e a interpretação do mesmo como uma manifestação sobrenatural se lhe torna impossível e o que conta a historia se torna digno de chacota.

Em qualquer caso, a premissa é errada. Se Deus é “provável” então não há espaço para o amor e seria um caso de mera imbecilidade não lhe servir.

Se pensa comumente que a conversão é uma mudança de conduta.

Em certo sentido isso é verdade. Ou seja, quem anda com Jesus, mais tarde ou mais cedo muda sua conduta. O problema é que a mudança de conduta por via do esforço pessoal pode ser obtida por outros meios que não os da rendição intima ao Cristo. Essas mudanças não são necessariamente ruins para a vida social e nem para a pessoa. Veja por exemplo a enorme contribuição que clinicas de recuperação ou os alcoólicos anônimos prestam à sociedade e ao individuo em particular.

No mesmo patamar se encontram uma miríada de igrejas (grandes e pequenas) que incentivando a interpretação parcial da escritura levam cada um dos seus integrantes a esperar pelo sobrenatural e como o sobrenatural não chega o sobrenatural é substituído pela imitação e esta imitação prova ser imitação ao ser sempre o pseudo sobrenatural similar em todos seus aspectos à experiência do outro integrante do grupo com o qual ele é aceito pelo restante do grupo e visto como mais um ser especial. Do ponto de vista social, isso não é ruim de todo. Há várias pessoas que foram tiradas de vidas devastadas por esse tipo de ritual, só que – por não ser real objetivamente falando – não é muito distinto daquele praticado pelo vudu ou arcaicas e longínquas tribos indígenas ou  a macumbaria trazida da áfrica.

É por essas e outras que falo que pseudo milagres levam a pseudo conversões. O meu problema não é com a multidão enganada (se bem que muitos gostam deste engano) mas sim com os enganadores. Esta corja crescente de vazios espirituais que se dizem pastores, apóstolos, bispos e quanto outro nome possa ser usado ou inventado para serem tidos pela plebe cada vez mais negligenciada como intermediários entre o divino e o humano.

Conversão é mudança de mente.

Claro, sempre haverá aquele que diga que metanoia (do grego meta – além e noia – compreensão, razão, entendimento) é estar além do entendimento. Certo. Mas quando vemos essa palavra sendo usada, sempre vemos que ela quer dizer simplesmente pensar diferente. Já me tomarei o tempo um outro dia para discorrer sobre esse pensar diferente. Baste por enquanto só dizer que sem mudança de mente, não há conversão.

Então o que que há quando miles se não milhões de pessoas se reúnem semana após semana e contam de milagres acontecendo no meio deles? Não são milagres? Não são pessoas sinceras? Não são conversões?

Bem, para o bem da própria verdade, a maior parte do tempo não são milagres de fato e sim um autossugestionamento coletivo que se explica facilmente por nossa necessidade intrínseca de sermos aceitos por um grupo ao mesmo tempo que não somos como “os daquele outro grupo”.

Sobre a sinceridade, bem, sim, acredito que muitos sejam sinceros. Porém receio que os mais velhos há tempo detectaram que estão vivendo uma mentira e os que não detectaram, estão alienados quase com certeza, pois é impossível alguém viver tanto tempo respirando ar enrarecido e não almejar pela verdade. Penso que são (ou foram) sinceros no desejo de procurar pelo divino mas esta sinceridade não é requisito suficiente para rejeitar o erro e se lançar ao abismo da fé. É por isso que tão facilmente se tornam presa destes carniceiros oportunistas instruídos pelo próprio ventre.

Finalmente, sobre serem conversões, não, não são conversões. Em ledo engano se encontra quem acha que por haverem melhorias pessoais e sociais trata-se de conversões. São apenas ajustes necessários para conseguir a aceitação pelo grupo, nem mais nem menos, pois pseudo milagres levam a pseudo conversões.

Pseudo Milagres que levam a Pseudo Conversões by Dortta on Mixcloud

Um modo de interpretar ‘a caminhada de fé…’

Rafael de Campos

Todos nós amadurecemos com o tempo. Da mesma maneira acontece com a fé que um dia recebemos do alto, do Pai das luzes. Não a recebemos pronta, madura e, também, nesta vida, não a tornaremos completa, inabalável e plena dentro de nós. A caminha, ou melhor, a longa caminhada ao Eterno é um misto de abalo e fortaleza dessa fé. Uma certeza tenho sobre ela: veio do alto e cumprirá juntamente em nós o propósito para que foi enviada.

Sobre ela, a fé e caminhada cristã, quero refletir utilizando uma analogia:

Nós, como num ciclo, vivemos as estações da vida. Assim como as estações do ano surgem saudando as etapas, na nossa existência e fé acontece igualmente. Doce é o sabor do princípio da caminhada cristã. Muitos a identificam como a primavera, a primeira fase do período quente do ano, ou primeiro verão. É nessa estação de temperatura e humidade moderadas que normalmente somos atingidos pela experiência do profundo amor de Deus e, reconhecemos nossa profunda necessidade do Eterno. É nesse primeiro momento, onde a fé infundida começa a mudar nossa cosmovisão, é que começamos a crescer e a trilhar um novo caminho, com os mesmo pés em uma nova estrada, mas com um novo destino.

Quase que concomitantemente (dependendo da experiência com a primeira estação), somos levados à segunda fase dessa nova vida, ou seja, a segunda fase quente: o verão. Seu significado diz tudo, pois é o tempo da frutificação. Frutificar do que? Da primeira estação da vida, dos primeiros passos no novo e vivo caminho; das percepções e paradigmas convertidos. Essa é a fase do ver as obras das nossas mãos, ou do ver para crer que o resultado é favorável. Deve ser, principalmente, o “segundo início” na caminhada, o de enxergar o próprio crescimento rumo à maturidade ainda não alcançada. A crescente “evolução” da fé é vista nesta etapa, onde já nos é legitima e dela nos apropriamos e a vestimos.

Talvez passemos bom tempo, bons anos nessa estação. Penso que seja a estação mais favorável e cômoda ao cristão. O problema é que, como num ciclo, precisamos prosseguir enfrente. Pararmos uma etapa ou, conscientemente, nos estagnarmos nela é regredir no caminho de fé. Digo isso porque viver do “leitinho” eternamente e não progredir é regredir em vista do que nos espera: a maturidade. Poucos, hoje, são os que buscam mais, anseiam por mais. Os que negam ir além, na maioria das vezes, são os que, movidos por ventos de doutrinas, perderam o foco do evangelho no caminho e, como consequência, desviam os olhares dos outros; fazem nesta estação uma tenda e ali permanecem até morrer (espiritual e fisicamente).

Aos que entenderam a proposta da peregrinação da fé, a estes surge uma nova estação, a primeira do período frio: o outono. Também começa, a partir daí, o tempo do ocaso. Nesse período algumas coisas que nos eram inteligíveis tornar-se ininteligível. É aqui que o sol começa a se pôr e não mais vemos para crer ou cremos porque estamos vendo. É nessa fase que o amor de Deus parece ficar distante e Sua presença sempre presente parece não ser mais palpável. É aqui que começamos a enxergar momentos de escuridão. Por quê? Entendo que é o momento onde, gradualmente, começa a prova da fé que um dia foi nos dada. É o tempo das dúvidas constantes, do descaso sempre presente, das indisciplinas espirituais e dos descompromissos na caminhada. É o momento das frequentes perguntas: Onde está Deus? Por que estou assim? Ou sentindo isso? O que aconteceu?

Geralmente nós – consciente ou inconsciente – buscamos dar os passos para a maturidade da fé. Seja por meio dos estudos, de envolvimento mais profundo com as pessoas, ou por vontade de encarar o tal “chamado de Deus”, ou até por querer deixar o caminho. Desse tempo de ocaso sempre surgem feridas profundas, desapontamentos, desesperança, descrença, descrédito (…), e não vemos mais um rumo melhor a nossa frente. No entanto, no ocaso, antes da total escuridão da noite e seu frio impetuoso, reluz um vago momento de crepúsculo. São instantes espetaculares do amor de Deus. Esse amor não se manifesta como na nossa infância da fé (primavera); ele simplesmente “é”, e sendo, dá provas de que estará sempre conosco, em direção ao longo caminho que ainda há por vir. É daí que juntamos forças para continuar prosseguindo.

Inicia-se, então, o segundo período de frio. Esse, mais intenso que o primeiro. Entramos no inverno da vida cristã; a estação mais fria e sem produtividade. Não sei como muitos interpretam essa peregrinação, mas entendo que aqueles que aqui chegam nunca mais saem (explicarei no final esse pensamento). Esse é o tempo, inicialmente, de reflexão consciente da fé, dos confrontos com a religiosidade adquirida e impregnada de toda uma vida vulnerável aos atalhos que tomamos nas estações precedentes. Também é o momento da frieza do ser, do tornar agudo toda voz que achamos ser Deus. Perdemo-nos da espiritualidade que pensávamos ser sadia e não mais temos o acalentar da espiritualidade mística outrora viva no coração e nas sensações. Ficamos sem o cobertor e, então, devemos escolher entre enfrentar ou enfrentar o frio do inverno. Ah como dói!!! Ah como somos enrijecidos pelo inverno!!! Nosso choro é de fraqueza e solidão.

Entretanto, existe um segundo momento do inverno: o enfrentamento do frio e o prosseguir adiante. No enfrentamento do frio, que se estendeu sobre a caminhada de fé, reconhecemos a liberdade de ser cristão. Não mais dependemos das experiências de fé da primavera e nem dos frutos tão deliciosos do verão – pois isso não aviva mais o interior; chegamos ao ponto onde toda a caminhada tendia a nos levar em direção a maior prova da fé: a solidão. Não falo de uma solidão sem pessoas. Mas de uma solidão onde tudo o que nos tornamos como cristãos será experimentado no “a sós” com o Eterno e, então, o caminho (primavera), a verdade (verão), a vida (outono) serão mostrados como a jornada rumo àquele que enfrentou o maior inverno durante sua existência na terra. O inverno se torna a nova caminhada, a nova consciência, aquilo que poderíamos chamar de “caminho da cruz”.

Ao olhamos para Jesus, quando esse se tornou consciente de Sua jornada e missão, peregrinou sempre rumo a cruz. Ele logo entendeu que Sua vida era trilhar em meio ao “inverno”. Por isso acredito que para quem o inverno chegou, só sairá de lá na ressurreição. O inverno, por mais frio e infrutífero que seja, é o encontro com Aquele que pode fazer do nosso caminho uma jornada frutífera e milagrosa a partir do inverno. Ele, o dono da fé que opera em nós, espera que nos encontremos com Ele lá, na estação do inverno, onde não mais temos controle do que somos, do que queremos e do que podemos. Lá, rendidos à liberdade e a autoridade de quem passou pelo inverno da vida e se entregou à morte por nós (substitutiva), ali encontramos o verdadeiro sentido da caminhada de fé (participacionista).

RCampos…