O Poder de uma Igreja fraca (I)

Penso que todos nós sabemos o que é a Igreja a partir de Cristo (kaleo, qahal, hb. / ekklesia, gr.):3 uma grande/pequena congregação convocada a se reunir em prol de uma finalidade em comum, a adoração à santa Trindade. Seu ajuntamento dá-se numa missão nesta Terra, aonde houver “dois ou três reunidos”. Os discípulos de Jesus são conclamados por Ele a fim de escutá-lo e agir por Ele; a assembleia dos santos onde a igualdade (isonomia) e liberdade (eleutheria) são as marcas e os direitos de todos que são convocados pelo próprio Deus. Essa talvez seja uma definição coerente visto que muitas coexistem.

Na visão individual – e ainda múltipla – principalmente no olhar paulino da carta aos Coríntios (I Co. 12), temos uma grande novidade acerca da “Igreja de Deus” (I Co. 2.1; II Co. 1.1), da “Igreja Universal” (I Co. 10.32; 12.28), da “Igreja local específica” (I Co. 1.2), ou a “reunião propriamente dita” (I Co. 11.18; 14.19; 14.23). Paulo gostava de metáforas e, em um crescente – quase que apostando nas palavras para encontrar a mais coerente – o apóstolo dos gentios revela uma metáfora preciosa, a metáfora que me apoiarei nesse escrito e para esse tema: o corpo de Cristo e seus membros.

Antes de entrarmos mais a fundo em “O Poder de uma Igreja fraca”, uma informação deve ficar esclarecida e, me apoio nos estudos do teólogo/exegeta Willian Barclay que diz: “[…] em todo o N.T. a palavra Igreja nunca é usada para descrever uma construção. Sempre descreve um grupo de homens e mulheres que entregam a Deus seu coração”. Portanto, igreja não são cadeiras novas (ou velhas) bem dispostas num ambiente; não é o púlpito; não são os instrumentos musicais; não é o conjunto disso tudo reunido num salão amplo disponível para os fins de semana.

II

O teólogo Phillip Yancey, escrevendo sobre a igreja, trabalha as metáforas usadas por Paulo. Assim como Paulo utiliza as palavras “lavoura e edifício” (I Co. 3.9) referindo-se a “nós” (os irmãos da igreja de Corinto), ele afirma a preciosa metáfora que nos identifica como igreja: nós como “membro” do corpo de Cristo que contém muitos membros; e nós como o próprio corpo de Cristo (ler I Co. 12).

Um versículo desse texto me chama atenção. Em I Co. 12.22 temos: “Antes, os membros do corpo que parecem ser mais fracos, são necessários […]”. Associado a esse versículo, quero trazer um texto posterior de Paulo escrito em II Co. 12.9, onde se narra sobre o espinho na carne: “Mas ele me disse: A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa/perfaz na fraqueza. Portanto, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo”.

Tenho para mim que Paulo sabia em que se baseava “o poder de uma igreja fraca”. Nós, como membros participantes juntamente com outros membros do único corpo, a saber, o de Cristo, podemos ser os fracos. Ouso dizer que devemos ser os fracos se quisermos parecer com Cristo. Por quê? Paulo afirma aos coríntios “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (I Co. 11.1; ver tb. Ef. 5.1; Fl. 3.17; I Tm. 1.6).

Não só por essa afirmação, mas por tantas outras estonteantes que enaltecem a fraqueza. Aos Coríntios, ele eleva a fraqueza num patamar tão superior que a igreja contemporânea parece estar longe desse “alvo”. Podemos ler: “Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (I Co. 1.25); escrevendo sobre o caráter de sua pregação: “E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor” (I Co. 2.3); escrevendo sobre a grandiosa ressurreição: “Semeia-se em ignominia, é ressuscitado em glória. Semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em poder” (I Co. 15.43); escrevendo sobre seu sofrimento por amor ao evangelho: “Se é preciso gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza” (II Co. 11.30); e escrevendo suas últimas palavras de advertência aos Coríntios: “Ainda que foi (Jesus) crucificado por fraqueza, contudo vive pelo poder de Deus. Nós também somos fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus em nós” (II Co. 13.4).

Quero trazer uma metáfora para comparar a igreja. Yancey descreve em seu livro que certo amigo referiu-se a igreja como um A.A. (alcoólicos anônimos). Confesso que gostei dessa comparação pelo simples fato de que as pessoas ali se reúnem por causa de um vício em comum e se ajudam na missão de se manterem longe da bebida. Esse lugar distinto, onde todos os que comungam da mesma dor, seja qual idade for, cor tiver, profissão desempenhar, se reúnem com o mesmo propósito – de obter um novo hábito e gerar uma nova dependência. O ideal desses é: “Deus me ajude a vencer os próximos cinco minutos”. Eles entenderam que não precisam pecar, precisam de outro pecador para depender em sua fraqueza. O objetivo: vencer, mas por meio da fraqueza que identificam um no outro.

Assim enxergo a igreja da qual Paulo gestou em seus dias, uma igreja onde o pecado, comum a todas as pessoas, era vencido por meio da comunhão em torno do poder de Cristo. Não propriamente o poder da ressurreição de Cristo (esperança vindoura), mas no poder de sua fraqueza, ou seja, no poder contido na “via cruz”. Ele escreve em Filipenses sobre seu auto esvaziamento onde o lucro se torna perda por causa de Jesus Cristo; o ganhar, ser achado nele, conhece-lo e o poder de sua ressurreição comungando juntamente de seus sofrimentos, ser conformado com ele na sua morte, era ganho para Paulo. Dessa forma, ver se ainda ressurgiria dentre os mortos era a ousadia de Paulo (ler Fl. 3). Aqui, a alegria é perder tudo para ganhar somente a Cristo. O poder está no perder e sofrer, na renúncia.

Voltando a comparação com o A.A., a igreja deve/deveria ser um ambiente onde ririamos muito, e choraríamos muito. Acima de tudo, seriamos gente que ama se encontrar com outras gentes para tirar suas máscaras e, ao sofrerem juntas, estarem mais perto do ideal – semelhança com Cristo mediante as fraquezas. Isto porque, estarmos no mesmo barco nos leva a sermos honestos conosco e com os outros. Isso criaria um vínculo entre os membros que saberiam que a igreja fraca sabe que seu poder vital é a dependência de Deus e, também, encontrado na comunhão com o outro.

III

Creio em uma igreja poderosa nessa Terra, no entanto esse poder situa-se na nossa fraqueza. É essa a resposta que Paulo obtém “[…] meu poder se perfaz na fraqueza”. Não gostamos da fraqueza, de sermos e nos mostrarmos fracos. O próximo não é a face de Deus para, juntamente comigo, caminharmos. As igrejas (comunidades vivas) atuais preferem levantar suas bandeiras e serem vistas como “o poder” imperante sobre o mundo, seus sistemas, suas políticas, suas mordomias, etc.; sendo que Paulo nada faz, a não ser “pregar a Cristo, e esse crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (I Co. 1.23); e essa “palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos (igreja), é o poder de Deus” (I Co. 1.18).

Sermos igreja fraca no poder de Deus é caminharmos pela via cruz entendendo que o próximo é a face do pecado, da fraqueza; também é, no poder que se perfaz nessa fraqueza, a face de Deus. Juntos, mutuamente, somos impelidos pelo poder de Deus que opera em nossas limitações a dependermos dEle, a termos a mesma esperança que Paulo teve quando tudo deixou e sofreu para conhecer o poder da ressurreição de Cristo Jesus.

Sobre “JESUS – NATAL – RESSURREIÇÃO”: Algumas poucas palavras…

2Essas são algumas poucas palavras que me lembro dos estudos do seminário e, também, livros revisitados sobre o assunto. Sei que o momento é de ardor pelo nascimento de Jesus, mas sempre me apego, nessas datas festivas, ao significado de Sua vinda a este mundo, ao nosso espaço humano.

O Natal reflete, mesmo diante de todo contexto cabível ao Império romano ao impor essa data, uma realidade histórica de vida e esperança. O Natal – o nascimento de Jesus sem os adornos capitalistas de consumo – reposiciona a história humana a uma realidade apocalíptica que sempre foi viva na memória e no corpo narrativo dos profetas; portanto sempre viva nas expectativas de um povo oprimido e necessitado de libertação/justiça e de um libertador.

Fala, principalmente, da vinda desse libertador e da libertação que um pobre menino judeu, em Belém, trouxe através de seu tabernacular neste mundo. Fala do cumprimento das profecias e da nova vida que Ele viveu através de sua própria. Fala da renovação da realidade através do Reino que ele encarnou e, futuramente, da renovação de toda a realidade na vindicação e consumação de todas as coisas.

A partir de seu nascimento, sua vida exemplar e profética, morte e ressurreição, podemos falar da esperança que sua estadia aqui produziu nos corações que creram e creem desde lá.

Quem me conhece sabe que sou um crítico das “fraseologias” ou dos “jargões pops” da “evangelicada”. Dizeres como: “Jesus é a nossa páscoa”; “Jesus ressuscitou”; ou ainda “O tumulo está vazio”… Não sou contrário a nenhuma delas, no entanto não as acho, racionalmente, tão contundentes e vivas como são expressas. Nem acho que existam argumentos científicos que provem tal fato (creio ser um fato da história), o que concordo piamente com a historiadora judia Karen Armstrong ao dizer que “ao tentar transforma-se em ciência, a teologia só conseguiu produzir uma caricatura do discurso racional, porque essas verdades não se prestam à demonstração cientifica”.

Um cético ou um ateu neófito invalidaria tais “jargões” com argumentos muito mais racionais e expressivos/preciso que um “crente” platônico e sentimental que leva em sua boca apenas o “Ele ressuscitou”.

A própria psicologia social invalidaria a ressurreição sugerindo a teoria da “dissonância cognitiva”. Outros iriam sugerir que a ressurreição é apenas uma metáfora (não que não seja) de uma experiência religiosa que os cristãos primitivos outrora tiveram por causa da experiência da graça e do perdão, o que permite sugerir inúmeras negações sobre a morte e ressurreição de Jesus.

Ao recorrermos às narrativas evangélicas canônicas, todas as quatro narram sobre a morte e ressurreição de Jesus, o Messias. Independente da lente de cada autor/narrador, a narrativa se encontra presente na tradição cristã primitiva, sugerido por alguns teólogos e exegetas serem essas pré-paulinas (o que evoca o poder de sua memória e de sua oralidade). Mas a evidência que se torna explicita nos evangelhos, principalmente para os personagens da trama é que “Jesus ressuscitou”; e se ressuscitou “ele é o Messias”.

Foi uma fraseologia que se tornou jargão nos moldes que indiquei acima? Foi um jargão presente no contexto judaico? Não, nem um nem outro. Primeiro, porque os discípulos de Jesus nunca entenderam ou suspeitaram de sua ressurreição. Segundo, o contexto judaico não aceitava a premissa de que alguém havia morrido e ressuscitado. Prefiro “acreditar” (racional partindo da fé e não de fatos comprovados), que a ressurreição de Jesus alimentou em seus discípulos a antiga expectativa apocalíptica do Messias, elevando-os ao verdadeiro sentido de sua morte e ressurreição, ou seja, uma nova criação, a vitória de Deus sobre a morte (mal) que foi anulada na cruz e seu retorno à vida.

A essência do Natal tem a ver, num contexto macro, com essa libertação/justiça tão esperada e com a esperança ocasionada pela ressurreição desse menino/homem/Deus, ou seja, um dia o veremos face a face e, assim como Ele é, nós seremos.

 

Pseudo milagres que levam a pseudo conversões

O milagre que leva à conversão é o da intervenção divina objetiva na história do ser humano. O milagre que leva à conversão é aquele que revela o Cristo.
O centurião viu (no meio das trevas) que Jesus era verdadeiramente justo. Lc.23:44-49

Nestes tempos de absoluto relativismo em que vivemos, parece ser que passamos a chamar de milagre qualquer coisa que assemelhe intervenção do divino no humano ao passo que chamamos de conversão qualquer coisa que se pareça com mudança de conduta sem a necessária mudança de mente.

A existência ou não de Deus não pode ser provada. 

Esse “não pode” é em dois sentidos. “Não pode” porque cientificamente é impossível e “não pode” porque se provada fosse, a fé seria inútil. Tornar-se-ia uma tolice pensar diferente, já que seria como negar a existência do sol: ou seja, ninguém poderia dizer que Deus não existe e viver de costas para Ele.

Dito em outras palavras, a liberdade humana (tão essencial para o amor – pois sem liberdade não há escolha e o amor não é um sentimento e sim uma decisão) ficaria cerceada e seria – de fato – impossível amar Deus assim como não podemos amar o Sol e outras coisas cuja existência é um fato objetivo aos olhos de todo ser humano.

Muitos acham que Deus faz milagres para provar sua existência.

Há os que oram pedindo que Deus se manifeste de uma forma sobrenatural para um parente ou amigo. Pensam que dessa forma – com a existência de Deus impossível de ser negada – o ser amado se renderia definitivamente a Deus e passaria a ser um discípulo de Jesus.

Há também os que oram para que Deus se lhes manifeste de alguma forma sobrenatural e a partir dai – com a existência de Deus provada no foro mais subjetivo e íntimo – se comprometeriam a servi-lo, seguindo Jesus.

Há aqueles que contam historias que exigem ser interpretadas como sendo manifestações sobrenaturais, quando na realidade para o observador alheio ao fato (o que o torna mais objetivo) ou melhor conhecedor de alguns assuntos pelo treinamento científico, não passa de um fato inverossímil ou inócuo e a interpretação do mesmo como uma manifestação sobrenatural se lhe torna impossível e o que conta a historia se torna digno de chacota.

Em qualquer caso, a premissa é errada. Se Deus é “provável” então não há espaço para o amor e seria um caso de mera imbecilidade não lhe servir.

Se pensa comumente que a conversão é uma mudança de conduta.

Em certo sentido isso é verdade. Ou seja, quem anda com Jesus, mais tarde ou mais cedo muda sua conduta. O problema é que a mudança de conduta por via do esforço pessoal pode ser obtida por outros meios que não os da rendição intima ao Cristo. Essas mudanças não são necessariamente ruins para a vida social e nem para a pessoa. Veja por exemplo a enorme contribuição que clinicas de recuperação ou os alcoólicos anônimos prestam à sociedade e ao individuo em particular.

No mesmo patamar se encontram uma miríada de igrejas (grandes e pequenas) que incentivando a interpretação parcial da escritura levam cada um dos seus integrantes a esperar pelo sobrenatural e como o sobrenatural não chega o sobrenatural é substituído pela imitação e esta imitação prova ser imitação ao ser sempre o pseudo sobrenatural similar em todos seus aspectos à experiência do outro integrante do grupo com o qual ele é aceito pelo restante do grupo e visto como mais um ser especial. Do ponto de vista social, isso não é ruim de todo. Há várias pessoas que foram tiradas de vidas devastadas por esse tipo de ritual, só que – por não ser real objetivamente falando – não é muito distinto daquele praticado pelo vudu ou arcaicas e longínquas tribos indígenas ou  a macumbaria trazida da áfrica.

É por essas e outras que falo que pseudo milagres levam a pseudo conversões. O meu problema não é com a multidão enganada (se bem que muitos gostam deste engano) mas sim com os enganadores. Esta corja crescente de vazios espirituais que se dizem pastores, apóstolos, bispos e quanto outro nome possa ser usado ou inventado para serem tidos pela plebe cada vez mais negligenciada como intermediários entre o divino e o humano.

Conversão é mudança de mente.

Claro, sempre haverá aquele que diga que metanoia (do grego meta – além e noia – compreensão, razão, entendimento) é estar além do entendimento. Certo. Mas quando vemos essa palavra sendo usada, sempre vemos que ela quer dizer simplesmente pensar diferente. Já me tomarei o tempo um outro dia para discorrer sobre esse pensar diferente. Baste por enquanto só dizer que sem mudança de mente, não há conversão.

Então o que que há quando miles se não milhões de pessoas se reúnem semana após semana e contam de milagres acontecendo no meio deles? Não são milagres? Não são pessoas sinceras? Não são conversões?

Bem, para o bem da própria verdade, a maior parte do tempo não são milagres de fato e sim um autossugestionamento coletivo que se explica facilmente por nossa necessidade intrínseca de sermos aceitos por um grupo ao mesmo tempo que não somos como “os daquele outro grupo”.

Sobre a sinceridade, bem, sim, acredito que muitos sejam sinceros. Porém receio que os mais velhos há tempo detectaram que estão vivendo uma mentira e os que não detectaram, estão alienados quase com certeza, pois é impossível alguém viver tanto tempo respirando ar enrarecido e não almejar pela verdade. Penso que são (ou foram) sinceros no desejo de procurar pelo divino mas esta sinceridade não é requisito suficiente para rejeitar o erro e se lançar ao abismo da fé. É por isso que tão facilmente se tornam presa destes carniceiros oportunistas instruídos pelo próprio ventre.

Finalmente, sobre serem conversões, não, não são conversões. Em ledo engano se encontra quem acha que por haverem melhorias pessoais e sociais trata-se de conversões. São apenas ajustes necessários para conseguir a aceitação pelo grupo, nem mais nem menos, pois pseudo milagres levam a pseudo conversões.

Pseudo Milagres que levam a Pseudo Conversões by Dortta on Mixcloud

Um modo de interpretar ‘a caminhada de fé…’

Rafael de Campos

Todos nós amadurecemos com o tempo. Da mesma maneira acontece com a fé que um dia recebemos do alto, do Pai das luzes. Não a recebemos pronta, madura e, também, nesta vida, não a tornaremos completa, inabalável e plena dentro de nós. A caminha, ou melhor, a longa caminhada ao Eterno é um misto de abalo e fortaleza dessa fé. Uma certeza tenho sobre ela: veio do alto e cumprirá juntamente em nós o propósito para que foi enviada.

Sobre ela, a fé e caminhada cristã, quero refletir utilizando uma analogia:

Nós, como num ciclo, vivemos as estações da vida. Assim como as estações do ano surgem saudando as etapas, na nossa existência e fé acontece igualmente. Doce é o sabor do princípio da caminhada cristã. Muitos a identificam como a primavera, a primeira fase do período quente do ano, ou primeiro verão. É nessa estação de temperatura e humidade moderadas que normalmente somos atingidos pela experiência do profundo amor de Deus e, reconhecemos nossa profunda necessidade do Eterno. É nesse primeiro momento, onde a fé infundida começa a mudar nossa cosmovisão, é que começamos a crescer e a trilhar um novo caminho, com os mesmo pés em uma nova estrada, mas com um novo destino.

Quase que concomitantemente (dependendo da experiência com a primeira estação), somos levados à segunda fase dessa nova vida, ou seja, a segunda fase quente: o verão. Seu significado diz tudo, pois é o tempo da frutificação. Frutificar do que? Da primeira estação da vida, dos primeiros passos no novo e vivo caminho; das percepções e paradigmas convertidos. Essa é a fase do ver as obras das nossas mãos, ou do ver para crer que o resultado é favorável. Deve ser, principalmente, o “segundo início” na caminhada, o de enxergar o próprio crescimento rumo à maturidade ainda não alcançada. A crescente “evolução” da fé é vista nesta etapa, onde já nos é legitima e dela nos apropriamos e a vestimos.

Talvez passemos bom tempo, bons anos nessa estação. Penso que seja a estação mais favorável e cômoda ao cristão. O problema é que, como num ciclo, precisamos prosseguir enfrente. Pararmos uma etapa ou, conscientemente, nos estagnarmos nela é regredir no caminho de fé. Digo isso porque viver do “leitinho” eternamente e não progredir é regredir em vista do que nos espera: a maturidade. Poucos, hoje, são os que buscam mais, anseiam por mais. Os que negam ir além, na maioria das vezes, são os que, movidos por ventos de doutrinas, perderam o foco do evangelho no caminho e, como consequência, desviam os olhares dos outros; fazem nesta estação uma tenda e ali permanecem até morrer (espiritual e fisicamente).

Aos que entenderam a proposta da peregrinação da fé, a estes surge uma nova estação, a primeira do período frio: o outono. Também começa, a partir daí, o tempo do ocaso. Nesse período algumas coisas que nos eram inteligíveis tornar-se ininteligível. É aqui que o sol começa a se pôr e não mais vemos para crer ou cremos porque estamos vendo. É nessa fase que o amor de Deus parece ficar distante e Sua presença sempre presente parece não ser mais palpável. É aqui que começamos a enxergar momentos de escuridão. Por quê? Entendo que é o momento onde, gradualmente, começa a prova da fé que um dia foi nos dada. É o tempo das dúvidas constantes, do descaso sempre presente, das indisciplinas espirituais e dos descompromissos na caminhada. É o momento das frequentes perguntas: Onde está Deus? Por que estou assim? Ou sentindo isso? O que aconteceu?

Geralmente nós – consciente ou inconsciente – buscamos dar os passos para a maturidade da fé. Seja por meio dos estudos, de envolvimento mais profundo com as pessoas, ou por vontade de encarar o tal “chamado de Deus”, ou até por querer deixar o caminho. Desse tempo de ocaso sempre surgem feridas profundas, desapontamentos, desesperança, descrença, descrédito (…), e não vemos mais um rumo melhor a nossa frente. No entanto, no ocaso, antes da total escuridão da noite e seu frio impetuoso, reluz um vago momento de crepúsculo. São instantes espetaculares do amor de Deus. Esse amor não se manifesta como na nossa infância da fé (primavera); ele simplesmente “é”, e sendo, dá provas de que estará sempre conosco, em direção ao longo caminho que ainda há por vir. É daí que juntamos forças para continuar prosseguindo.

Inicia-se, então, o segundo período de frio. Esse, mais intenso que o primeiro. Entramos no inverno da vida cristã; a estação mais fria e sem produtividade. Não sei como muitos interpretam essa peregrinação, mas entendo que aqueles que aqui chegam nunca mais saem (explicarei no final esse pensamento). Esse é o tempo, inicialmente, de reflexão consciente da fé, dos confrontos com a religiosidade adquirida e impregnada de toda uma vida vulnerável aos atalhos que tomamos nas estações precedentes. Também é o momento da frieza do ser, do tornar agudo toda voz que achamos ser Deus. Perdemo-nos da espiritualidade que pensávamos ser sadia e não mais temos o acalentar da espiritualidade mística outrora viva no coração e nas sensações. Ficamos sem o cobertor e, então, devemos escolher entre enfrentar ou enfrentar o frio do inverno. Ah como dói!!! Ah como somos enrijecidos pelo inverno!!! Nosso choro é de fraqueza e solidão.

Entretanto, existe um segundo momento do inverno: o enfrentamento do frio e o prosseguir adiante. No enfrentamento do frio, que se estendeu sobre a caminhada de fé, reconhecemos a liberdade de ser cristão. Não mais dependemos das experiências de fé da primavera e nem dos frutos tão deliciosos do verão – pois isso não aviva mais o interior; chegamos ao ponto onde toda a caminhada tendia a nos levar em direção a maior prova da fé: a solidão. Não falo de uma solidão sem pessoas. Mas de uma solidão onde tudo o que nos tornamos como cristãos será experimentado no “a sós” com o Eterno e, então, o caminho (primavera), a verdade (verão), a vida (outono) serão mostrados como a jornada rumo àquele que enfrentou o maior inverno durante sua existência na terra. O inverno se torna a nova caminhada, a nova consciência, aquilo que poderíamos chamar de “caminho da cruz”.

Ao olhamos para Jesus, quando esse se tornou consciente de Sua jornada e missão, peregrinou sempre rumo a cruz. Ele logo entendeu que Sua vida era trilhar em meio ao “inverno”. Por isso acredito que para quem o inverno chegou, só sairá de lá na ressurreição. O inverno, por mais frio e infrutífero que seja, é o encontro com Aquele que pode fazer do nosso caminho uma jornada frutífera e milagrosa a partir do inverno. Ele, o dono da fé que opera em nós, espera que nos encontremos com Ele lá, na estação do inverno, onde não mais temos controle do que somos, do que queremos e do que podemos. Lá, rendidos à liberdade e a autoridade de quem passou pelo inverno da vida e se entregou à morte por nós (substitutiva), ali encontramos o verdadeiro sentido da caminhada de fé (participacionista).

RCampos…

 

 

 

 

Autonomia cristã: uma pequena reflexão.

1A grande dificuldade do cristianismo frente à pós-modernidade (penso eu), não é nem o legalismo (religião das regras de fé) e o moralismo absorto, tão praticado e exigido pela maioria das pseudo-comunidades de cunho evangélica.

A complicação está em que os cristãos não questionam/leem/ interpretam mais a nova aliança em Cristo Jesus; vivem mediante os “achismos” dos líderes das comunidades. Os “por quês“, que geram as dúvidas e a busca delas, não movimentam mais a mente pós-moderna e pulsam apenas nas academias.

Um fator incriminador é a pregação atual. Essa se tornou mais um espetáculo de emoções e experiências carnais do que um estudo e ensino sério do essencial. Aí, precisamos “engolir” que o Deus Espírito é quem nos leva a compreensão e, nós apenas somos “manuseados” à verdade. Jesus não ensinou para que seu público apenas ouvisse e fosse conduzido magicamente a Deus. O ensino pressupõe dúvidas, questionamentos, reformulações e, então, fé. Limitamos nossa compreensão da fé apenas ao abstrato e passamos a ser movidos pelos “sacerdotes” que, na compreensão atual, são os “gurus e pajés” da igreja de cristo. Cristo liberta para autonomia e dependência dEle e não para dependência das experiências alheias e autonomia dos outros. Se nossa cosmovisão não mudar através da verdade que liberta, nosso mundo particular continuará o mesmo, apenas acrescido dos mitos e ritos de uma religião sem fundamento que nos escravizará em regras e formas arrogantes.

Portanto, nos falta mais ensino e busca pessoal séria para que em nossa razão o Espírito nos conduza a uma transição do que, de fato, é importante crermos.

OBS. Minha crítica é contra a falta de autonomia e de mudança de um sistema religioso para a religião do Cristo; não se posiciona, particularmente, aos pastores que buscam a descentralização do sacerdote como o “ungido”, milagreiro, único meio de contato entre comunidade e Deus. Sou plenamente a favor de um pastorado que ensina suas ovelhas a “comerem e buscarem abrigo” por si só, sem intermediários feitos divinos. Sou a favor de um pastorado que ensina seus liderados a se submeterem uns aos outros em amor, sem super-heróis espirituais e hierarquia supérflua.

RCampos…

Verdades absolutas, verdade relativa e o Cristo

blogMe topei esses dias com um velho amigo. Comentando com ele sobre como a esposa dele estava linda, ele me respondeu dizendo que isso era “uma verdade absoluta“. Ao lhe dizer que isso era relativo ele me saiu com que a verdade, se verdade, é absoluta.
Ficou difícil argumentar já que a briga ia ser boa porque é obvio (para mim) que a minha mulher é muito mais  bonita que a dele.

Brincadeiras à parte, é sadio reconhecermos que cada um de nós acha que está na verdade. Nesse sentido, argumentar contra isso é tempo perdido pois (fazendo um paralelo com Descartes quando fala do bom senso) cada um de nós está plenamente convicto que está na verdade, ou que a verdade (mesmo a utópica na que se acredite) é mesmo A Verdade e não só uma parcela da mesma ou uma verdade relativa ou pior que se esta piamente enganado. São essas as que chamo de verdades absolutas (assim, em plural) pois cada quem está plenamente convicto da sua e define a participação do outro no seu grupo a partir da aceitação da mesma como sendo exatamente isso, uma verdade absoluta.

Sem cair no argumento esdruxulo e simplista de que toda verdade relativa é uma mentira preciso sim dizer que toda verdade é relativa e que a verdade é absoluta.(Aviso que se para aqui perde a melhor parte)

Você tem irmãos ou irmãs? Pense então no que cada um de vocês pensam sobre sua mãe. É mentira? Não, claro que não, é uma verdade com todo o peso que uma verdade tem mas é relativa, porque advêm – obviamente – de uma observação sintética e parcial. Logo, o que para mim é verdade, pode que para meu irmão não seja. Usualmente expressamos isso com “Eu já não penso tão assim”.  Toda essa frase reflete subjetividade e tensiona o desejo de que o ponto de vista do eu seja levado em conta tanto quanto eu levo em conta o ponto de vista dos outros.

A verdade, então, é mais uma utopia do que uma realidade do dia a dia no sentido em que sendo seres limitados não temos como lidar com o absoluto como parte integral da experiência diária (até porque diária é uma limitação de tempo perante o infinito da imanência da verdade). Dito em outras palavras, você não tem acesso à verdade absoluta para tomar qualquer tipo de decisão, quer para comprar um quilo de arroz, escolher o shampoo do cachorro, ou disciplinar um filho que diz que o outro fez isto ou aquilo. Você tem certas verdades parciais (ou relativas) expressadas na forma de preço, propaganda ou interpretação do acontecido respectivamente.  Além disso, você tem a vivência da sua mãe, o tipo de cachorro que você mesmo ou seu parceiro já tiveram e a tendencia sempre presente na hora de julgar um caso entre filhos.  Logo, se a verdade absoluta não lhe é acessível em coisas tão simples, cotidianas e terrenas, o que pode ser dito das coisas eternas?

O Messias (ou o Cristo se preferir o título em grego) propõe uma coisa que fala muito do que ele achava dele mesmo e que define também quem o segue.  Ele disse “Eu sou o caminho, a verdade e a vida“. Este judeu criado por um padrasto carpinteiro e filho de uma judia mal falada (pois deve-se lembrar que tinha aparecido grávida antes do casamento) e que havia vivido sua vida nas empoeiradas ruas e estradas da palestina no limite da expectativa de vida da época e aproximando-se ao fim da sua existência terrena por um ou outro meio, se manda uma dessas: “Eu sou a verdade“.  De duas uma: Ou o moço estava completamente louco pois o calor do deserto e uma verminose cronica tinham fritado o cérebro dele ou realmente era Deus e por tanto, A Verdade.

Uma coisa é dizer que você é cristão já que anos de sedimentação da ideia faz soar quase que um insulto a um ocidental lhe dizer que não é cristão.  Então é um termo que se tornou muito vago para se referir a alguém que sabe alguma coisa sobre a vida de Jesus Cristo e boa…

As coisas começam a esquentar um pouco mais se você se define como evangélico, mas isso é só por contraposição ao fato de ser católico romano.  Mas novamente, é um termo que tem se degenerado ultimamente e – esvaziado do seu correto significado – associa o interlocutor àqueles pregadores televisivos alienados de toda realidade espiritual que encontram nos evangelhos (sim, em plural) uma forma de autoajuda que misturada com uma parcial interpretação do antigo testamento sedimentam o caminho para se transformarem nessa chusma de pseudos neo pajés caricaturas de sacerdotes pré-cristãos.

Todavia, a coisa complica mesmo em qualquer lugar do mundo, quando você se identifica com o carpinteiro que se auto proclamou como a verdade. Isso porque todo mundo sente a exclusão que fica manifesta ao se dizer a e não uma possível verdade. Em outras palavras, não interessa se se é muçulmano, católico romano, católico ortodoxo, evangélico tradicional (e os tradicionalistas também), evangélico renovado, reformado, anabaptista, budista, sintoísta ou ateu. Nem sequer interessa se você conhece a Bíblia de capa a capa ou se sabe o alcorão em árabe por tradição oral e na integra. Nem muito menos se você acredita no nascimento virginal de Jesus, no seu ministério, na sua morte expiatória, na sua ressurreição e na sua ascensão ao céu. Se Jesus (o Cristo) não é a Verdade nada feito.

É impossível então dizermos que temos a verdade como coisa absoluta. Podemos – como muito – dizer que estamos aprendendo a verdade com aquele que declarou ser a verdade. Tenho comigo que esse é um processo que não acaba nunca e com esse nunca me refiro à eternidade também, isso porque estar na presença de Deus não nos torna deuses, logo, sendo a verdade absoluta um atributo divino, não chegaremos nunca ao conhecimento absoluto dela por mais que chegaremos bem perto.

Sintetizando mas não simplificando:

  1. Identifique-se com o ponto mais complicado de Jesus – ele é a verdade.
  2. Reconheça que é – e sempre será – um ser humano.
  3. Admita que sua verdade – por melhor, mais pura, mais honesta, mais desinteressada e mais justa que seja – é foi e sempre vai ser uma verdade relativa doutra forma haveria mais de uma verdade absoluta e não há como haver duas verdades absolutas.

Verdades Absolutas, verdade relativa e o Cristo by Dortta on Mixcloud

REFORMA PROTESTANTE – 497 ANOS

2Lendo alguns biógrafos que relatam o período da Reforma, começamos dizendo que somos “frutos” (espiritual/intelectual) daquilo que denominamos REFORMA PROTESTANTE. Abraçamos suas ideias (não todas) e as entendemos que essas se deram como um marco na história da igreja. Marco tal que desembocou em inúmeras micro reformas até os dias de hoje.

A Reforma Protestante deve seu legado histórico à iniciativa de Martin Lutero e suas noventa e cinco teses estacadas na porta de sua capela no dia 31 de outubro de 1517 – início de um protesto contra as indulgências que prometiam ao povo uma garantia de pecados perdoados antes mesmo que fossem cometidos. Praticamente um comércio salvífico não escriturístico; um meio ilegal para arrecadação de dinheiro usando um discurso de ameaças infernais e cravando sobre o povo um regime de obras, tudo pelas mãos de ferro da igreja imperante.

Mas Lutero ousou ser um mensageiro de Cristo. Sua vida como um todo e seus estudos o levaram profundamente a querer entender o Novo Testamento. É a partir de sua trajetória que hoje temos consciência dos pilares da reforma: Sola Scriptura; Solus Christus; Sola Gratia; Sola Fide; Soli Deo Gloria. Essas numa tentativa de retornar a Bíblia como fonte da revelação divina e prática dos homens.

Não quero aqui biografar acontecimentos passados, quero apenas elencar rapidamente o que esses pilares deveriam ser para nós cristãos pós-modernos, nós que sobrevivemos às mudanças, perspectivas e paradigmas do séc. XX e nos erguemos por meio do engajado evangelicalismo da década de 70. Minha pergunta é: Como devemos, em nosso atual contexto, refletir esses pontos enaltecidos pela Reforma? Respondo desde já que nossa resposta deve ser bíblica. Quero aqui elencar apenas três desses pilares.

Sola Scriptura – Quem já leu sobre o movimento iluminista e pós-iluminista sabe que um grande embate se formou em torno dos dogmas (autoridade) e doutrinas da igreja romana e reformada. Sabe-se que a busca das tradições humanas sobrepujou as Escrituras enquanto palavra de Deus escrita aos homens.

Quase dois séculos antes, Lutero se levantou arguindo contra a igreja católica romana no princípio contrário, ou seja, em outras palavras, Lutero queria uma verificação nas Escrituras daquilo que a Igreja estava realizando e prometendo. Ele exigiu uma volta as Escrituras Sagradas. Enquanto o séc. XX, fonte de todo desaguar dos séculos anteriores, exigiu o descrédito da Bíblia em prol das ciências naturais, o período da Reforma elevou-a ao topo de todo conhecimento e razão para o ser humano.

Portanto, quando falamos de Sola Scriptura, falamos da volta ao texto e seu contexto macro, o que pressupõe a fuga de todas as abstrações do texto real. Nada nela, nenhuma sílaba deve ser alterada para especulações e por tradições dos homens (aqui admito que todos nós vamos ao texto debaixo de tradições e pré-conceitos; o importante é sempre voltarmos ao texto antes de validarmos nossa razão e abstração) . Tudo nela deve ser levado em consideração; todos os etas (e, gr.), ou seja, cada partícula conectiva entre um versículo e outro, cada argumento e contra argumento, cada til de toda Escritura deve ser levado a sério. O apelo ao todo das Escrituras, tudo o que a compõe e seu contexto, devem ter primazia quando houver tradução e interpretação.

Sola Scriptura nos leva, consequentemente, ao Solus Christus.

Solus Christus – O evangelho, enquanto mensagem de boas notícias, vem nos revelar que somente Jesus é o Senhor universal. Essa é a verdadeira intenção desse slogan. A Reforma trouxe sobre esse ponto a denuncia aos mediadores que estavam sendo postos, potencialmente, no nível de Jesus Cristo. Um exemplo: Os santos ou os ossos dos santos eram venerados e, também, um meio de obter indulgências. Para esse contexto mercadejante, Lutero combateu acertadamente utilizando princípios do corpus paulino. Isso não quer dizer (meu ponto de vista) que tenha interpretado corretamente os textos paulinos que utilizou.

Mas, Solus Christus tem a nos dizer que o Jesus de Nazaré se tornou o Messias de Deus e proporcionou a Ele toda glória que a raça humana não lhe deu por direito. Isso quer dizer que esse slogan fala mais sobre uma verdade a respeito do Messias de Deus do que uma verdade sobre você e eu e nossa salvação. Fala, num contexto político, sobre um Rei que é universalmente superior a qualquer rei ou césares posto no trono e, indo além, Ele, Jesus Cristo, detém toda autoridade e poder em relação às autoridades humanas. Para finalizar essa reivindicação, devemos lembrar que ela foi utilizada no primeiro século como o evangelho que era superior ao do imperador romano da época. Isso tem haver com Jesus Kyrios, o Senhor do mundo, maior que todo reino ou império e que está acima de todos.

Outro aspecto do Solus Christus é o ponto em que Deus condenou, na carne de Jesus, todo pecado da humanidade que ofusca sua glória na criação, iniciando por meio de Sua ressurreição uma nova criação pautada no Christus Victor (Cristo vitorioso) – mais utilizado por Paulo do que o Cristo da expiação. Assim, nossa esperança vem da vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte.

Solus Christus nos leva, prioritariamente, ao Soli Deo Gloria.

Soli Deo Gloria – A verdade dessa afirmação é que somente ao Deus YHWH seja toda glória pelos séculos dos séculos, amém. Nada mais pode produzir glória ao Deus de toda criação do que uma humanidade refletindo Sua imagem e semelhança. Por meio de Jesus Cristo (Solus Christus), a humanidade agora pode ser redimida e será no fim das contas. Podemos, com toda certeza, afirmar que Deus é glorificado quando, por meio de Cristo, seu povo lhe rende glória dentre as nações.

A graça e o poder da mensagem do evangelho (Sola Gratia), aliada a fé (Sola Fide) mediante o Espírito Santo (alguns teólogos modernos trabalham o Sola Gratia em conjunto com Solo Spiritu, realidade na literatura paulina), produz uma nova humanidade, àquela desejada desde o gêneses; uma nova humanidade colocada sob um novo pacto/aliança, onde o pecado e o cosmos estão debaixo, uma vez por todas, da autoridade de Deus e seu Cristo. Uma vez que as alianças judaicas culminaram no novo pacto, na pessoa de Jesus, Deus é glorificado por Sua justiça que completa o plano de salvação lidando com o mal no mundo e elevando a humanidade caída a uma criação exaltada.

Desse modo, nessa breve exposição que fizemos acima, retomamos o Sola Scriptura para confessarmos que somente ela pode nos avivar, após a conversão por meio da pregação do evangelho, numa caminhada onde abraçamos as histórias e experiências de fé daquele tempo, povo, e convergimos ao nosso tempo – como fez Lutero – num processo de adaptação e direcionamento das verdades reveladas.

Reavemos o Solus Christus – contido em toda a Escritura – para trazer à memória aquilo que nos traz esperança. Que a história de Jesus de Nazaré, aquele que foi crucificado e ressuscitado dentre os mortos pelo mesmo Deus de Israel que o vindicou como Messias; o Senhor de todas as coisas o qual todo joelho se dobrará e toda língua confessará (judeus e gentios) que Ele é Senhor, que essa história seja para nós conversão (experiência de fé) e vocação (encarnação das obras/sofrimento de Cristo).

Isso porque, produzirá glória a Deus Pai – Soli Deo Gloria – como o grito de desespero de toda a criação que aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus; assim, seremos nesta geração os personagens dessa maravilhosa trama onde Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo já venceram e trouxeram esse vitória para o centro da nossa história.

Pronunciamento das igrejas evangélicas históricas sobre as eleições gerais do Brasil – 2014

As igrejas evangélicas históricas do Brasil, em virtude da realização das eleições gerais em 5 de outubro (1º turno) e em 26 de outubro (2º turno) e considerando o papel de seus membros no exercício pleno da cidadania, bem como o comprometimento dessas igrejas com o Estado democrático de direito e o seu reconhecimento e apoio às instituições democráticas, expressas nos Poderes constituídos da República, vêm junto a seus membros e à sociedade brasileira em geral fazer o seguinte

PRONUNCIAMENTO

  1. Nenhum sistema ideológico de interpretação da realidade social, inclusive em termos políticos, pode ser aceito como infalível ou final nem é capaz de interpretar os conceitos bíblicos da história e do reino de Deus, no entanto, cremos que Deus, Senhor da história, realiza a Sua vontade de várias maneiras, inclusive por meio da ação política;

  2. As eleições são parte do processo de busca permanente de equidade social, de garantia dos direitos fundamentais à pessoa humana, de vivência ética e comunitária, às quais estimulamos o protagonismo de homens e mulheres cristãos, comprometidos com os valores do Evangelho de Cristo;

  3. A democracia é um valor universal, bem como o governo representativo dela decorrente e a sociedade democrática pressupõe pluralidade de ideias e a livre expressão do pensamento político, alternância do poder, em forma republicana de participação popular;

  4. Os chamados mensalões, julgados e ainda não julgados pelo STF, expuseram, na esfera partidária, a dualidade de forças políticas de matizes ideológicas distintas, que se digladiam eleitoralmente, visando o acesso ao poder, mas revelam a fragilidade dos partidos majoritários na elaboração de suas amplas alianças partidárias que, em muitos casos, não são de natureza político-ideológica, mas se constituem em verdadeiro fisiologismo;

  5. O sistema de financiamento de campanhas admitido no Brasil é perverso, indutor e retroalimentador da corrupção e termina por eleger, majoritariamente, verdadeiros representantes do poder econômico e não dos interesses da maioria da população;

  6. O atual sistema político reflete partidos políticos que não têm identidade e realizam alianças que não fidelizam ideais, mas denunciam conveniências e interesses corporativistas. De igual modo, o modelo presidencialista de coalizão compromete a ética e a democracia cujos pressupostos são a fiscalização e a alternância no poder;

  7. Candidatos/as frutos de estratégias de marketing e alianças comprometedoras não são dignos de voto;

  8. Ninguém deve receber voto simplesmente por expressar a fé evangélica, antes, deve-se recordar que “a fé, se não tiver obras, por si só estará morta” (Tg 2.1). Entretanto candidatos e partidos que defendem em seus programas posições que se oponham a valores cristãos tais como justiça e paz; integridade da vida e da criação; preservação da família; honestidade e respeito ao bem público não podem merecer nosso voto.

  9. O processo político não se esgota com as eleições e os valores da cidadania, marcados por gestões públicas transparentes e probas, têm correspondência na vida de integridade cotidiana de cada cidadão e cidadã brasileira, na participação, nas reivindicações e na projeção de ações que visem o bem comum.

  10. Repudiamos o “voto de cabresto”; o chamado “curral eleitoral”, bem como a troca do voto por favores sejam pessoais ou coletivos, exortando seus integrantes a exercerem o direito do voto de maneira consciente e bem fundamentado cientes da delegação de poder que o sufrágio nas urnas confere aos eleitos.

Conclamamos o povo de Deus que se reúne em nossas igrejas à participação na escolha das futuras lideranças: Presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais e, para isso, também o convocamos à oração e à reflexão, que possam nos orientar para que nossas escolhas se traduzam no bem comum de todos os brasileiros e brasileiras.

Odeio política! Mas sou a favor do “direito de todo ser humano ter direito”.

Rafael de CamposGosto de associar alguns temas com imagens. Política é um desses temas. Nessa reflexão nos foi proposto escrever sobre “política e o cristão”. Mas como muitos brasileiros, me identifico com outras questões. No entanto, farei um esforço para debater algumas ideias sobre “direito humano”.

            Vamos iniciar com a imagem da “torre de Babel”. Um povo construindo uma cidade e uma grande torre para alcançar os céus dos céus. Um povo de uma só língua querendo encontrar nas nuvens as prosperidades de suas maquinações. Um povo com o mesmo propósito, o de intentar contra aquele que rege toda a Terra. Um povo querendo concentração de poder, glória e riqueza em suas mãos. Um povo querendo ser onipotente, ajuntados em uma mesma cidade para realizar qualquer desígnio que seu coração proponha. Essas são algumas das imagens que minha mente desenha ao ler a narrativa de Gênesis 11. 1-9. Mas YHWH achou melhor não ser assim; talvez por saber que onde “corações” e “línguas” se reúnem, com mesmas iniciativas, sempre advogam arrogantemente seus desígnios acima dos desígnios de Deus. Confusão e dispersão foram a iniciativa de YHWH.

            Essa realidade não mudou muito de lá para cá. Somos um povo que ainda se reúne para maquinar “boas” intenções, bons cultos, bons projetos, bom governo, boas leis, etc., sempre com objetivos pessoais ou mútuos. Há quem diga que foi de Babel que se formou os povos espalhados sobre a face do planeta Terra. Cada nação, povo e língua. Gente de todas as cores e raças, jeitos e trejeitos, culturas e leis diversas.

            Surge uma pergunta: será que “Babel” não foi o protótipo do que veio a ser as nações? Não sei a resposta para essa pergunta, no entanto, penso que Deus sempre chama a si mesmo para olhar e averiguar os desígnios do ser humano em cada nação espalhada pelo globo. Imagino-o também confundindo e dispersando a humanidade quanto aos seus próprios interesses.

            Deixando a imagem da torre, me identifico com as palavras de Foucault (Microfísica do poder), quando diz que o problema da arte de governar, desde o séc. XVI é no nível do “governo de nós mesmos”, o “governo da conduta das pessoas” e o “governo dos Estados”. Ou seja, como ser governado? Por quem ser governado? Até que ponto? Todos nós desejamos um “futuro governo” cabível às nossas pretensas sugestões do que são ou não propostas a se apoiar ou, se são ou não dignas de serem implantadas em nosso país. Mas entendo que o problema não é sermos apoiados em nossas sugestões ou, até mesmo, apoiar aquele que compartilha com nossas sugestões de um governo justo; e sim que, isso tem haver com um problema de governo intrínseco.

            A imagem de Babel é apenas um exemplo daquilo que entendo, teologicamente, ser a raiz do problema da humanidade: governar a si mesmo após a Queda. Consequentemente, governar as pessoas, uma nação, o que seja o menor desempenho governamental, nunca teremos como resultado o ideal. Podemos falar a mesma língua, termos as mesmas intenções e convicções, sempre teremos confusão e dispersão. A grande tentativa é buscar o melhor diante de todas as opções que buscam o ideal, o bem comum a todos. Digo isso por entender a pluralidade existente em todos os âmbitos e estâncias de uma nação. Isso toca, na minha compreensão, nos direitos que servem – ou deveriam servir – os seres humanos.

            Os direitos humanos propõem um tipo/estilo de vida vivido num ambiente/espaço esperado por todos em virtude, simplesmente, de sua humanidade. Por que somos seres humanos esperamos ser resguardados em nossa condição tal. Isso diz respeito a inúmeros direitos de ordem universal, civil, econômico, etc. (isso olhando para os direitos considerados gerais). Cabe dizer que os direitos de todo ser humano são “guardados” por leis que são tidas justas e receptíveis a todos (cf. Os cristãos e os desafios contemporâneos – John Stott).

            Analisando e seguindo pela linha teológica tradicional e conservadora, refletir direitos humanos é remontar à criação do homem; é se apoiar, historicamente, àquilo que certo “deísta” (Thomas Paine) escreveu: “[…] chegaremos ao tempo em que o homem veio da mão do seu Criador. O que ele era na época? Homem. Homem era o seu elevado e único título e um maior não lhe pode ser dado” (Os cristãos e os desafios contemporâneos). Como criaturas, parte de uma mesma família humana, temos os direitos à humanidade desde o princípio. Não os buscamos, não adquirimos esses direitos; eles estão em nós e nos expressam.

            Voltemos ao governo de nós mesmo proposto pela Queda. A “Queda” de toda humanidade torna o que éramos naquilo que não somos e, consequentemente, passamos a ser “isso” por essência. Vivenciamos a desumanização e suas agregações por milênios. Os direitos que nos pertenciam intrinsicamente, hoje precisamos buscá-los, entendê-los, racionaliza-los, lutarmos e apropria-los ao bem comum.

Não raras exceções, encontramos gente que deseja, pelo bem maior, descobrir um caminho que defenda e abrigue as pessoas, pautados por leis que reagem contra abusos, discriminação, racismo, desumanização etc., priorizando as inter-relações humanas e, de certa forma, demonstrando os limites disso tudo. Entendo que todo crime contra a humanidade transparece as nossas próprias atitudes e limitações egoisticamente desenfreadas. Somos indisciplinados, orgulhosos, avarentos, sedentos por sangue, controladores, invejosos, autodestrutivos, (…), pioneiros do mal contra nós mesmos e, com tudo isso, enaltecemos nossa escabrosa humanidade depravada e rebelde.

            O problema é que sempre impomos ao outro, no mesmo padrão, as deturpações de nossa mente, de nossa “raça humana”. Assim, generalizamos e repassamos, desde sempre, a barbárie como um circulo vicioso sem fim. Parece uma antropologia “supra real” o que escrevi acima, mas isso pode ser visto nas atrocidades descabidas do “ser humano”: genocídios, torturas, perseguições, casamentos de contrato, guerras e assassínios em massa, exploração de crianças, mulheres, idosos e deficientes; roubalheiras sem fim, fome, julgamentos injustos, falta de liberdades e de expressão (religiosa), falta de educação e cuidados básicos de saúde, desmatamentos; isso expondo alguns dos problemas de desumanidade.

            Com isso, não quero dizer que não há esperança para nós. Devemos sempre nos lembrar desse “pano de fundo” que nos assombra e que, por vez, nos acostumamos como sendo normal. Como cristão preciso assumir que existe um jeito certo de lidar com a humanidade e seus direitos. Como cristão preciso, também, olhar para a bondade de um Criador que não nos deixa, a nós mesmos, acabarmos de vez com nossa humanidade. Um Criador que não nos deixa mergulhados no mal. Por isso, sempre haverá gente boa tentando fazer coisas boas. Sempre haverá pessoas movidas pela bondade (graça comum) em prol da humanidade.

            Minha proposta sobre os direitos humanos é sim um olhar e retorno para os preceitos bíblicos. Não como imposição da religião cristã, mas como uma luz, entre muitas sugeridas, em meio aos conflitos e lutas por justiça e por direito. Já há tempos optamos e concordamos com a laicidade; fomos precursores no apoio a um Estado separado da Religião e, é assim que devemos manter. Se assim está fincado, não devemos exigir que “o governo deva impor o cristianismo”; nem também que o “governo exclua a religião cristã” (Cf. Política segundo a Bíblia – Wayne Grudem).

A Bíblia como livro da fé em tono do Cristo é um livro universalmente conhecido, mas não imposto como regra universal. Mas podemos elencar que dela três palavrinhas resumem a cosmovisão acerca do ser humano: “dignidade, igualdade e responsabilidade” (Os cristãos e os desafios contemporâneos). Embasados nelas, devemos garantir uma resposta que se fixe ao compromisso exigido por essas palavras. Lembrando, também, que não podemos fazer dos direitos humanos direitos ilimitados, mas comprometidos com os direitos de todos. Um exemplo é exigir dignidade além da dignidade do outro; ou exigir uma igualdade que infrinja os termos de igualdade do outro. Podemos resumir que “em toda ação que consideramos correto praticar devemos também considerar que essas não infrinjam os próprios direitos humanos que procuramos defender”.

Meu “olhar”, portanto, volta-se a um tratamento responsivo e não inventariado sobre a humanidade que nos é comum. Como tais, todos “compartilhamos da glória e da tragédia de sermos humanos” e, assim, não temos o direito de desumanizar qualquer um que seja imagem de Deus enquanto criaturas.

Há um desconforto entre os cristãos com programas de direitos humanos, especificamente os direitos dos homossexuais. Concordo que esse não é o tema mais importante da pauta de um governante, principalmente quando economia, educação e saúde devem ser prioridades superiores, pois atingem a todos. Minha leve opinião sobre o assunto, enquanto direitos, é que os mesmos princípios que envolvem a “dignidade, igualdade e responsabilidade” não devem ser negligenciados a estes.

A sociedade cristã eleva tanto seu posicionamento contrário às uniões de pessoas do mesmo sexo que, agindo desse modo, favorecem as comunidades LGBT a uma transformação da prática homossexual em uma idolatria desenfreada frente à heterossexualidade (Cf. Homossexualidade – Perspectivas Cristãs – Cobb; obs.: não concordo com basicamente 90% do posicionamento do teólogo do processo).

Tanto Stott quanto Cobb compreendem que o relacionamento sexual entre homossexuais nunca será pleno como o vaginal, principalmente por não poderem gerar seus próprios filhos. Sobre o assunto, concordamos que a procriação seria o ideal no relacionamento sexual, no entanto, nem todos os casais procriam seguindo o ideal. Sexualmente, ninguém consegue alcançar o ideal, o que corrobora com a nossa condição humana “normal”. A completude gerada na união de dois corpos sempre será finita e desproporcional àquilo que foi planejado e é chamado de “natural”.

Outra questão é que o sexo (não apenas para a procriação) é também meio de companheirismo e intimidade. Essa assertiva é psicologicamente comprovada para todas as manifestações sexuais. Essa intimidade, de forma negativa, sempre foi corrompida mediante a promiscuidade, a luxúria e inúmeras perversidades. O que quero dizer é que, assim como há homossexuais depravados também há heterossexuais na mesma condição. Ambos fazem de sua sexualidade o seu “ventre”. Todos são atingidos essencialmente pelo distanciamento do ideal.

A grande problemática é que fizemos das pessoas nossos inimigos. C. S. Lewis diz que “antigamente matavam-se os homens maus, hoje eliminam-se os elementos antissociais” (A abolição do homem). Lutamos contra a vida por causa da sexualidade e afins. Lutamos contra a homossexualidade como algo demoníaco ou uma doença genética (psicologia antiga), sendo que se os problemas fossem esses, R. R. Soares/Benny Hinn e outros curandeiros cristãos dariam conta em nome de Deus. Prefiro entender como uma condição fora do ideal para procriação, o que não isenta o companheirismo e afetividade adquirida por eles. John Stott diz que “precisamos ser sensíveis ao fato de que estamos lidando com as emoções das pessoas, sua identidade sexual e seus sonhos de encontrar amor e aceitação”.

Surge a questão: Politicamente devo impor minha fé e realidade cristã em detrimento dos direitos que nos iguale? Acho que não! Esse não é o nosso papel enquanto igreja; seriamos ditadores se impuséssemos uma realidade e experiência cristã como regra de fé a todos. O mesmo acontece do ponto de vista contrário. O lobby gay deve ser uma realidade a ser encarada e engolida por todos? Não! Aqui diferencio o lobby gay dos outros gays que refutam os direitos exigidos por esse partido intransigente. Sou pela causa da igualdade e dignidade enquanto movidos pela responsabilidade daquilo que exigem.

Posso condenar a prática homossexual e mesmo assim conviver bem no meio de uma nação pluralista em seu modo de pensar e de agir legalmente. Isso desde que meus pensamentos e ações sejam respeitados enquanto direitos iguais.

            Portanto, finalizo afirmando que a prática homo afetiva é pecado, mas que mesmo desaprovando, não tenho a liberdade de desumanizar quem o é ou, aqueles que nela se envolvem; que não sou a favor das minorias e suas exigências por leis que destoam das leis igualitárias. Entendido como igreja, penso que nossa realidade e fé podem ser oferecidas a todos, levando em consideração que nem todos, por escolha, optarão a seguir e viver a fé cristã. Assim, todos nós seres humanos convivemos numa realidade social democrática. Resumo e concordo com um sociólogo que diz: “Democracia é pluralidade de interesses e de discursos aprendendo a conviver. Dentre esses muitos discursos, os das igrejas protestantes deve ser mais um, o discurso da ciência, outro, da arte outro, e assim sucessivamente, mas sem que nenhum deles acalente pretensões de construir uma torre para tomar os céus de assalto” (Novas perspectivas sobre o protestantismo brasileiro).

Cristão e política: Entre a alienação e a manipulação

Cresci em uma comunidade de batistas livre-pensadores (se é que isso pode existir) em que as premissas de liberdade, igualdade e fraternidade -se bem não eram mencionadas com essas palavras nem nessa ordem- estavam no âmago da existência social.

Desde cedo soube que se bem Engel, Marx e Lenin (que não são um grupo de rock grunge para os desavisados) eram compatíveis com a teologia da restauração do ser humano, não o eram o marxismo-leninismo como doutrina e muito menos o stalinismo como sonho de consumo das classes oprimidas. Ao mesmo tempo, também ficava claro que um estado voltado para a extrema direita em que alguns poucos escolhidos a dedo eram os que podiam ter alguma chance de sucesso e que dava rédea solta e descabida a uma forma doentia de capitalismo cruel que auto justificava sua existência, não era a esperança prática de um mercado que ao final das contas é formado por gente.

Isso tudo, estava reforçado pela presença pensante de minha dupla dinâmica de pais que tinham nascido na pós guerra e crescido durante a guerra fria. Tinham visto ser a própria democracia do pais esmagada pela presença ditatorial de uma direita moralista que teve sua chegada auspiciada por uma esquerda sublevada pelos desejos revolucionários desnecessários (ao meu ver) em um pais de longa tradição democrática e plenamente livre. Aliás, vale salientar que meu pais é o único latino-americano formado sobre bases laicas logo na sua primeira constituição o que faz ressaltar ainda mais a pretendida revolução.

Atravessei minha infância, então, com um medo danado de uma explosão atômica acabar com as praias mais lindas que existem sobre a face da terra, de sermos varridos pelos soviéticos (sim, naquele tempo da pre-historia, existia um pais que se chamava União de Repúblicas Socialistas Soviéticas) e com uma raiva visceral pela ingerência americana em solos orientais (O nome do meu pais é Republica Oriental del Uruguay, por isso o ‘orientais’). Ou seja, não sobrava ninguém. Eram os charruas contra o resto.

Ai chega a democracia que – ó coincidência – parece que chega simultaneamente e de forma sequencialmente ordeira ao resto do continente. Quando vemos a história, parece que entramos e saímos desses momentos mais ou menos juntos. Tipo assim, desde os tempos de Colombo que estas Américas andam mais ou menos de mãos dadas ou pelo menos, aquela parte que vá de Tierra del Fuego hasta el Rio Bravo del Norte.

Trago à memoria, Winston Churchill – primeiro ministro britânico durante a segunda guerra mundial – que dizia que a democracia não é a forma ideal de governo, mas é a melhor que conhecemos. E lembro também dos grandes momentos da democracia brasileira (sem consultar o Google, que conste) como Juscelino Kubitschek de Oliveira, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e por ai vai. Quem me lê e está atento à lista, já presume certa tendência. Todavia minha tendência é pela boa ventura do Brasil e não por uma certa vertente política. Mas deixa te mostrar como chego lá.

Conheço o Brasil desde 1981, mas cheguei para morar em 1995. Acompanhei muito meu pai pelas suas viagens pelo Brasil então conheço muitos becos e recantos e desde cedo me acostumei com o lance de entender uma cultura que não era a minha. Então quando cheguei, já cheguei amando, curtindo, deleitando-me nessa vasta cultura brasileira.

Todavia, o grande choque veio da constatação da apatia politica (em que a grande massa parece estar imersa) e o voo rasante de alguns abutres eleitoreiros. Para piorar a cena, alguns – assim chamados – pastores e lideres espirituais transferiam à grei suas próprias preferencias políticas pessoais e quando não, impunham esta opção por diversas vias de extorsão psico-morais-espirituais como se de algum projeto divino se trata-se. Não saem da minha memória placas e cartazes, outdoors e outros meios massivos dizendo que a igreja x vota em fulano.

Do outro lado da cena evangélica, estavam os pastores que se entendiam humildemente como tais por causa de uma vocação divina. Eles entendiam que o povo tinha que ficar livre para votar em quem melhor entendia sem a influência do púlpito. Só que em lugar de gastar alguns minutos explicando o porquê desta atitude, pairava no ar a ideia de que ali, dentro daquelas quatro paredes, o mundo não era politico; ali não havia problemas como quem seria melhor candidato para presidente, deputado, prefeito, vereador; ali era a redoma intocável de um povo apolítico que só fora do expediente espiritual se permitia talvez esboçar algumas interrogantes práticas (como “em quem votarei para xxxx?”) que acabavam sendo respondidas quase sempre por sorteio do menos feio, o menos pior, ou o mais espalhafatoso.

Então há ao meu ver dois extremos bem nítidos na vivencia politica evangélica brasileira: A alienação e a manipulação. As duas posturas mamam de uma crendice popular muito bem alicerçada e muito bem nutrida por descuido pastoral seletivo voluntário. Esta crendice é a de que a voz do pastor local é quase que a voz e Deus. Se ele fala que devo votar em Ciclano, então é em Ciclano que vou votar e se ele – seja por seu exemplo pessoal ou por sua falta de interesse, por arrogância ou por pura ignorância, medo, ou o que for – comete alienação constante das coisas politicas, então eu vou me alienar.

Considero a manipulação uma ferramenta diabólica forjada nas bigornas do próprio inferno. Mas entendo que a alienação é tão ruim ou pior que a manipulação porque deixa ao “Deus dará” uma coisa que deveria ser pensada, orada, conversada. Por conta disso e em última instância, o pais é levado pelos manipulados que em lugares de fieis livres pensantes se transforam em massa de manobra de uma corja desgraçada de corruptos, corruptores e corruptíveis que enxergam no palanque nada mais do que oportunidades de se enriquecer de forma rápida e muitas vezes ilícitas às custas (e nas costas) do próprio povo que deveria servir.

Então o que fazer? Quais são as garantias? Como sei que vou acertar? Qual é o candidato que Deus quer? Qual o candidato evangélico que devo apoiar? Como escolho bem um candidato?

Bem, para inicio de conversa, você não tem garantias nenhuma de que vai acertar até porque o que é acertar? O pais muda muito no período em que eles estão no poder e muitas vezes é exatamente isso que o pais precisa: mudanças. Segundo, Deus ama a liberdade e é exatamente isso que ele quer para o ser humano então não há um candidato A, B ou C que o Criador prefira na sua magnifica vontade. Terceiro quem lhe disse que deve votar em um candidato evangélico?

Então, como proceder ao final de contas? Lá vai uma coisa que detesto fazer, uma receita de bolo para ser bem sucedido. Depois escreverei alguma coisa contra receitas de bolo, mas lá vamos nós no embalo das próximas eleições com uma receitinha básica:

  1. Erradica a ideia da redoma cristã evangélica.
  2. Deixa para atrás a perversão do almejo de um estado teocrático. Visa alvos maiores e abrangentes.
  3. Sonha com uma democracia forte e transparente em que os candidatos sejam trocados livremente pela vontade do povo em espaços curtos mas não curtíssimos.
  4. Apoia (durante o período de governo) os projetos que valorizem a construção de uma sociedade mais estável e com melhores oportunidades para seus cidadãos.
  5. Asiste um jornal de verdade (há alguns nas televisão aberta que valem a pena) e presta atenção não só nos escândalos da farra política mas também nos grandes projetos do pais. Uma vez ou outra, ouve a Voz do Brasil. Em especial o Jornal do Senado e o Jornal do Judiciário (dois minutos cada)
  6. Discute não só os candidatos mas os projetos que estão sendo apresentados.
  7. Escolhe com antecedência teus candidatos (principalmente Presidente e Senadores) e acompanha eles durante a campanha mas não fique só com um. Observe os outros candidatos e não tenha medo de mudar se for preciso.
  8. Fica atento aos debates e tenta conhecer mais de perto a forma de pensar não só do teu candidato mas dos outros. Lembra que é bem provável que um debate será o mais perto que consigas chegar do teu candidato e seu pensamento. Foge do que mente. Se és homem, chama uma mulher para detectar o mentiroso.
  9. Cai fora do curral e muda de igreja se teu pastor quer te obrigar a votar em este ou aquele candidato.
  10.  Vota com responsabilidade e vigor. É serio, o destino da nação está em tuas mãos e ao meu ver, só um voto responsável te dá direito de dizer “esses políticos – que eu coloquei lá – só estão fazendo isto e aquilo outro” ou dito de outra forma: não votou, não opine.

Seja que descambemos para a alienação ou para o voto de curral, em qualquer dos dois casos estaremos, com certeza, deixando de lado o que de mais precioso temos: a liberdade de pensamento. O bom voto, é o voto consciente e estudado.