Autonomia cristã: uma pequena reflexão.

1A grande dificuldade do cristianismo frente à pós-modernidade (penso eu), não é nem o legalismo (religião das regras de fé) e o moralismo absorto, tão praticado e exigido pela maioria das pseudo-comunidades de cunho evangélica.

A complicação está em que os cristãos não questionam/leem/ interpretam mais a nova aliança em Cristo Jesus; vivem mediante os “achismos” dos líderes das comunidades. Os “por quês“, que geram as dúvidas e a busca delas, não movimentam mais a mente pós-moderna e pulsam apenas nas academias.

Um fator incriminador é a pregação atual. Essa se tornou mais um espetáculo de emoções e experiências carnais do que um estudo e ensino sério do essencial. Aí, precisamos “engolir” que o Deus Espírito é quem nos leva a compreensão e, nós apenas somos “manuseados” à verdade. Jesus não ensinou para que seu público apenas ouvisse e fosse conduzido magicamente a Deus. O ensino pressupõe dúvidas, questionamentos, reformulações e, então, fé. Limitamos nossa compreensão da fé apenas ao abstrato e passamos a ser movidos pelos “sacerdotes” que, na compreensão atual, são os “gurus e pajés” da igreja de cristo. Cristo liberta para autonomia e dependência dEle e não para dependência das experiências alheias e autonomia dos outros. Se nossa cosmovisão não mudar através da verdade que liberta, nosso mundo particular continuará o mesmo, apenas acrescido dos mitos e ritos de uma religião sem fundamento que nos escravizará em regras e formas arrogantes.

Portanto, nos falta mais ensino e busca pessoal séria para que em nossa razão o Espírito nos conduza a uma transição do que, de fato, é importante crermos.

OBS. Minha crítica é contra a falta de autonomia e de mudança de um sistema religioso para a religião do Cristo; não se posiciona, particularmente, aos pastores que buscam a descentralização do sacerdote como o “ungido”, milagreiro, único meio de contato entre comunidade e Deus. Sou plenamente a favor de um pastorado que ensina suas ovelhas a “comerem e buscarem abrigo” por si só, sem intermediários feitos divinos. Sou a favor de um pastorado que ensina seus liderados a se submeterem uns aos outros em amor, sem super-heróis espirituais e hierarquia supérflua.

RCampos…

Verdades absolutas, verdade relativa e o Cristo

blogMe topei esses dias com um velho amigo. Comentando com ele sobre como a esposa dele estava linda, ele me respondeu dizendo que isso era “uma verdade absoluta“. Ao lhe dizer que isso era relativo ele me saiu com que a verdade, se verdade, é absoluta.
Ficou difícil argumentar já que a briga ia ser boa porque é obvio (para mim) que a minha mulher é muito mais  bonita que a dele.

Brincadeiras à parte, é sadio reconhecermos que cada um de nós acha que está na verdade. Nesse sentido, argumentar contra isso é tempo perdido pois (fazendo um paralelo com Descartes quando fala do bom senso) cada um de nós está plenamente convicto que está na verdade, ou que a verdade (mesmo a utópica na que se acredite) é mesmo A Verdade e não só uma parcela da mesma ou uma verdade relativa ou pior que se esta piamente enganado. São essas as que chamo de verdades absolutas (assim, em plural) pois cada quem está plenamente convicto da sua e define a participação do outro no seu grupo a partir da aceitação da mesma como sendo exatamente isso, uma verdade absoluta.

Sem cair no argumento esdruxulo e simplista de que toda verdade relativa é uma mentira preciso sim dizer que toda verdade é relativa e que a verdade é absoluta.(Aviso que se para aqui perde a melhor parte)

Você tem irmãos ou irmãs? Pense então no que cada um de vocês pensam sobre sua mãe. É mentira? Não, claro que não, é uma verdade com todo o peso que uma verdade tem mas é relativa, porque advêm – obviamente – de uma observação sintética e parcial. Logo, o que para mim é verdade, pode que para meu irmão não seja. Usualmente expressamos isso com “Eu já não penso tão assim”.  Toda essa frase reflete subjetividade e tensiona o desejo de que o ponto de vista do eu seja levado em conta tanto quanto eu levo em conta o ponto de vista dos outros.

A verdade, então, é mais uma utopia do que uma realidade do dia a dia no sentido em que sendo seres limitados não temos como lidar com o absoluto como parte integral da experiência diária (até porque diária é uma limitação de tempo perante o infinito da imanência da verdade). Dito em outras palavras, você não tem acesso à verdade absoluta para tomar qualquer tipo de decisão, quer para comprar um quilo de arroz, escolher o shampoo do cachorro, ou disciplinar um filho que diz que o outro fez isto ou aquilo. Você tem certas verdades parciais (ou relativas) expressadas na forma de preço, propaganda ou interpretação do acontecido respectivamente.  Além disso, você tem a vivência da sua mãe, o tipo de cachorro que você mesmo ou seu parceiro já tiveram e a tendencia sempre presente na hora de julgar um caso entre filhos.  Logo, se a verdade absoluta não lhe é acessível em coisas tão simples, cotidianas e terrenas, o que pode ser dito das coisas eternas?

O Messias (ou o Cristo se preferir o título em grego) propõe uma coisa que fala muito do que ele achava dele mesmo e que define também quem o segue.  Ele disse “Eu sou o caminho, a verdade e a vida“. Este judeu criado por um padrasto carpinteiro e filho de uma judia mal falada (pois deve-se lembrar que tinha aparecido grávida antes do casamento) e que havia vivido sua vida nas empoeiradas ruas e estradas da palestina no limite da expectativa de vida da época e aproximando-se ao fim da sua existência terrena por um ou outro meio, se manda uma dessas: “Eu sou a verdade“.  De duas uma: Ou o moço estava completamente louco pois o calor do deserto e uma verminose cronica tinham fritado o cérebro dele ou realmente era Deus e por tanto, A Verdade.

Uma coisa é dizer que você é cristão já que anos de sedimentação da ideia faz soar quase que um insulto a um ocidental lhe dizer que não é cristão.  Então é um termo que se tornou muito vago para se referir a alguém que sabe alguma coisa sobre a vida de Jesus Cristo e boa…

As coisas começam a esquentar um pouco mais se você se define como evangélico, mas isso é só por contraposição ao fato de ser católico romano.  Mas novamente, é um termo que tem se degenerado ultimamente e – esvaziado do seu correto significado – associa o interlocutor àqueles pregadores televisivos alienados de toda realidade espiritual que encontram nos evangelhos (sim, em plural) uma forma de autoajuda que misturada com uma parcial interpretação do antigo testamento sedimentam o caminho para se transformarem nessa chusma de pseudos neo pajés caricaturas de sacerdotes pré-cristãos.

Todavia, a coisa complica mesmo em qualquer lugar do mundo, quando você se identifica com o carpinteiro que se auto proclamou como a verdade. Isso porque todo mundo sente a exclusão que fica manifesta ao se dizer a e não uma possível verdade. Em outras palavras, não interessa se se é muçulmano, católico romano, católico ortodoxo, evangélico tradicional (e os tradicionalistas também), evangélico renovado, reformado, anabaptista, budista, sintoísta ou ateu. Nem sequer interessa se você conhece a Bíblia de capa a capa ou se sabe o alcorão em árabe por tradição oral e na integra. Nem muito menos se você acredita no nascimento virginal de Jesus, no seu ministério, na sua morte expiatória, na sua ressurreição e na sua ascensão ao céu. Se Jesus (o Cristo) não é a Verdade nada feito.

É impossível então dizermos que temos a verdade como coisa absoluta. Podemos – como muito – dizer que estamos aprendendo a verdade com aquele que declarou ser a verdade. Tenho comigo que esse é um processo que não acaba nunca e com esse nunca me refiro à eternidade também, isso porque estar na presença de Deus não nos torna deuses, logo, sendo a verdade absoluta um atributo divino, não chegaremos nunca ao conhecimento absoluto dela por mais que chegaremos bem perto.

Sintetizando mas não simplificando:

  1. Identifique-se com o ponto mais complicado de Jesus – ele é a verdade.
  2. Reconheça que é – e sempre será – um ser humano.
  3. Admita que sua verdade – por melhor, mais pura, mais honesta, mais desinteressada e mais justa que seja – é foi e sempre vai ser uma verdade relativa doutra forma haveria mais de uma verdade absoluta e não há como haver duas verdades absolutas.

Verdades Absolutas, verdade relativa e o Cristo by Dortta on Mixcloud

REFORMA PROTESTANTE – 497 ANOS

2Lendo alguns biógrafos que relatam o período da Reforma, começamos dizendo que somos “frutos” (espiritual/intelectual) daquilo que denominamos REFORMA PROTESTANTE. Abraçamos suas ideias (não todas) e as entendemos que essas se deram como um marco na história da igreja. Marco tal que desembocou em inúmeras micro reformas até os dias de hoje.

A Reforma Protestante deve seu legado histórico à iniciativa de Martin Lutero e suas noventa e cinco teses estacadas na porta de sua capela no dia 31 de outubro de 1517 – início de um protesto contra as indulgências que prometiam ao povo uma garantia de pecados perdoados antes mesmo que fossem cometidos. Praticamente um comércio salvífico não escriturístico; um meio ilegal para arrecadação de dinheiro usando um discurso de ameaças infernais e cravando sobre o povo um regime de obras, tudo pelas mãos de ferro da igreja imperante.

Mas Lutero ousou ser um mensageiro de Cristo. Sua vida como um todo e seus estudos o levaram profundamente a querer entender o Novo Testamento. É a partir de sua trajetória que hoje temos consciência dos pilares da reforma: Sola Scriptura; Solus Christus; Sola Gratia; Sola Fide; Soli Deo Gloria. Essas numa tentativa de retornar a Bíblia como fonte da revelação divina e prática dos homens.

Não quero aqui biografar acontecimentos passados, quero apenas elencar rapidamente o que esses pilares deveriam ser para nós cristãos pós-modernos, nós que sobrevivemos às mudanças, perspectivas e paradigmas do séc. XX e nos erguemos por meio do engajado evangelicalismo da década de 70. Minha pergunta é: Como devemos, em nosso atual contexto, refletir esses pontos enaltecidos pela Reforma? Respondo desde já que nossa resposta deve ser bíblica. Quero aqui elencar apenas três desses pilares.

Sola Scriptura – Quem já leu sobre o movimento iluminista e pós-iluminista sabe que um grande embate se formou em torno dos dogmas (autoridade) e doutrinas da igreja romana e reformada. Sabe-se que a busca das tradições humanas sobrepujou as Escrituras enquanto palavra de Deus escrita aos homens.

Quase dois séculos antes, Lutero se levantou arguindo contra a igreja católica romana no princípio contrário, ou seja, em outras palavras, Lutero queria uma verificação nas Escrituras daquilo que a Igreja estava realizando e prometendo. Ele exigiu uma volta as Escrituras Sagradas. Enquanto o séc. XX, fonte de todo desaguar dos séculos anteriores, exigiu o descrédito da Bíblia em prol das ciências naturais, o período da Reforma elevou-a ao topo de todo conhecimento e razão para o ser humano.

Portanto, quando falamos de Sola Scriptura, falamos da volta ao texto e seu contexto macro, o que pressupõe a fuga de todas as abstrações do texto real. Nada nela, nenhuma sílaba deve ser alterada para especulações e por tradições dos homens (aqui admito que todos nós vamos ao texto debaixo de tradições e pré-conceitos; o importante é sempre voltarmos ao texto antes de validarmos nossa razão e abstração) . Tudo nela deve ser levado em consideração; todos os etas (e, gr.), ou seja, cada partícula conectiva entre um versículo e outro, cada argumento e contra argumento, cada til de toda Escritura deve ser levado a sério. O apelo ao todo das Escrituras, tudo o que a compõe e seu contexto, devem ter primazia quando houver tradução e interpretação.

Sola Scriptura nos leva, consequentemente, ao Solus Christus.

Solus Christus – O evangelho, enquanto mensagem de boas notícias, vem nos revelar que somente Jesus é o Senhor universal. Essa é a verdadeira intenção desse slogan. A Reforma trouxe sobre esse ponto a denuncia aos mediadores que estavam sendo postos, potencialmente, no nível de Jesus Cristo. Um exemplo: Os santos ou os ossos dos santos eram venerados e, também, um meio de obter indulgências. Para esse contexto mercadejante, Lutero combateu acertadamente utilizando princípios do corpus paulino. Isso não quer dizer (meu ponto de vista) que tenha interpretado corretamente os textos paulinos que utilizou.

Mas, Solus Christus tem a nos dizer que o Jesus de Nazaré se tornou o Messias de Deus e proporcionou a Ele toda glória que a raça humana não lhe deu por direito. Isso quer dizer que esse slogan fala mais sobre uma verdade a respeito do Messias de Deus do que uma verdade sobre você e eu e nossa salvação. Fala, num contexto político, sobre um Rei que é universalmente superior a qualquer rei ou césares posto no trono e, indo além, Ele, Jesus Cristo, detém toda autoridade e poder em relação às autoridades humanas. Para finalizar essa reivindicação, devemos lembrar que ela foi utilizada no primeiro século como o evangelho que era superior ao do imperador romano da época. Isso tem haver com Jesus Kyrios, o Senhor do mundo, maior que todo reino ou império e que está acima de todos.

Outro aspecto do Solus Christus é o ponto em que Deus condenou, na carne de Jesus, todo pecado da humanidade que ofusca sua glória na criação, iniciando por meio de Sua ressurreição uma nova criação pautada no Christus Victor (Cristo vitorioso) – mais utilizado por Paulo do que o Cristo da expiação. Assim, nossa esperança vem da vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte.

Solus Christus nos leva, prioritariamente, ao Soli Deo Gloria.

Soli Deo Gloria – A verdade dessa afirmação é que somente ao Deus YHWH seja toda glória pelos séculos dos séculos, amém. Nada mais pode produzir glória ao Deus de toda criação do que uma humanidade refletindo Sua imagem e semelhança. Por meio de Jesus Cristo (Solus Christus), a humanidade agora pode ser redimida e será no fim das contas. Podemos, com toda certeza, afirmar que Deus é glorificado quando, por meio de Cristo, seu povo lhe rende glória dentre as nações.

A graça e o poder da mensagem do evangelho (Sola Gratia), aliada a fé (Sola Fide) mediante o Espírito Santo (alguns teólogos modernos trabalham o Sola Gratia em conjunto com Solo Spiritu, realidade na literatura paulina), produz uma nova humanidade, àquela desejada desde o gêneses; uma nova humanidade colocada sob um novo pacto/aliança, onde o pecado e o cosmos estão debaixo, uma vez por todas, da autoridade de Deus e seu Cristo. Uma vez que as alianças judaicas culminaram no novo pacto, na pessoa de Jesus, Deus é glorificado por Sua justiça que completa o plano de salvação lidando com o mal no mundo e elevando a humanidade caída a uma criação exaltada.

Desse modo, nessa breve exposição que fizemos acima, retomamos o Sola Scriptura para confessarmos que somente ela pode nos avivar, após a conversão por meio da pregação do evangelho, numa caminhada onde abraçamos as histórias e experiências de fé daquele tempo, povo, e convergimos ao nosso tempo – como fez Lutero – num processo de adaptação e direcionamento das verdades reveladas.

Reavemos o Solus Christus – contido em toda a Escritura – para trazer à memória aquilo que nos traz esperança. Que a história de Jesus de Nazaré, aquele que foi crucificado e ressuscitado dentre os mortos pelo mesmo Deus de Israel que o vindicou como Messias; o Senhor de todas as coisas o qual todo joelho se dobrará e toda língua confessará (judeus e gentios) que Ele é Senhor, que essa história seja para nós conversão (experiência de fé) e vocação (encarnação das obras/sofrimento de Cristo).

Isso porque, produzirá glória a Deus Pai – Soli Deo Gloria – como o grito de desespero de toda a criação que aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus; assim, seremos nesta geração os personagens dessa maravilhosa trama onde Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo já venceram e trouxeram esse vitória para o centro da nossa história.

Pronunciamento das igrejas evangélicas históricas sobre as eleições gerais do Brasil – 2014

As igrejas evangélicas históricas do Brasil, em virtude da realização das eleições gerais em 5 de outubro (1º turno) e em 26 de outubro (2º turno) e considerando o papel de seus membros no exercício pleno da cidadania, bem como o comprometimento dessas igrejas com o Estado democrático de direito e o seu reconhecimento e apoio às instituições democráticas, expressas nos Poderes constituídos da República, vêm junto a seus membros e à sociedade brasileira em geral fazer o seguinte

PRONUNCIAMENTO

  1. Nenhum sistema ideológico de interpretação da realidade social, inclusive em termos políticos, pode ser aceito como infalível ou final nem é capaz de interpretar os conceitos bíblicos da história e do reino de Deus, no entanto, cremos que Deus, Senhor da história, realiza a Sua vontade de várias maneiras, inclusive por meio da ação política;

  2. As eleições são parte do processo de busca permanente de equidade social, de garantia dos direitos fundamentais à pessoa humana, de vivência ética e comunitária, às quais estimulamos o protagonismo de homens e mulheres cristãos, comprometidos com os valores do Evangelho de Cristo;

  3. A democracia é um valor universal, bem como o governo representativo dela decorrente e a sociedade democrática pressupõe pluralidade de ideias e a livre expressão do pensamento político, alternância do poder, em forma republicana de participação popular;

  4. Os chamados mensalões, julgados e ainda não julgados pelo STF, expuseram, na esfera partidária, a dualidade de forças políticas de matizes ideológicas distintas, que se digladiam eleitoralmente, visando o acesso ao poder, mas revelam a fragilidade dos partidos majoritários na elaboração de suas amplas alianças partidárias que, em muitos casos, não são de natureza político-ideológica, mas se constituem em verdadeiro fisiologismo;

  5. O sistema de financiamento de campanhas admitido no Brasil é perverso, indutor e retroalimentador da corrupção e termina por eleger, majoritariamente, verdadeiros representantes do poder econômico e não dos interesses da maioria da população;

  6. O atual sistema político reflete partidos políticos que não têm identidade e realizam alianças que não fidelizam ideais, mas denunciam conveniências e interesses corporativistas. De igual modo, o modelo presidencialista de coalizão compromete a ética e a democracia cujos pressupostos são a fiscalização e a alternância no poder;

  7. Candidatos/as frutos de estratégias de marketing e alianças comprometedoras não são dignos de voto;

  8. Ninguém deve receber voto simplesmente por expressar a fé evangélica, antes, deve-se recordar que “a fé, se não tiver obras, por si só estará morta” (Tg 2.1). Entretanto candidatos e partidos que defendem em seus programas posições que se oponham a valores cristãos tais como justiça e paz; integridade da vida e da criação; preservação da família; honestidade e respeito ao bem público não podem merecer nosso voto.

  9. O processo político não se esgota com as eleições e os valores da cidadania, marcados por gestões públicas transparentes e probas, têm correspondência na vida de integridade cotidiana de cada cidadão e cidadã brasileira, na participação, nas reivindicações e na projeção de ações que visem o bem comum.

  10. Repudiamos o “voto de cabresto”; o chamado “curral eleitoral”, bem como a troca do voto por favores sejam pessoais ou coletivos, exortando seus integrantes a exercerem o direito do voto de maneira consciente e bem fundamentado cientes da delegação de poder que o sufrágio nas urnas confere aos eleitos.

Conclamamos o povo de Deus que se reúne em nossas igrejas à participação na escolha das futuras lideranças: Presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais e, para isso, também o convocamos à oração e à reflexão, que possam nos orientar para que nossas escolhas se traduzam no bem comum de todos os brasileiros e brasileiras.

Odeio política! Mas sou a favor do “direito de todo ser humano ter direito”.

Rafael de CamposGosto de associar alguns temas com imagens. Política é um desses temas. Nessa reflexão nos foi proposto escrever sobre “política e o cristão”. Mas como muitos brasileiros, me identifico com outras questões. No entanto, farei um esforço para debater algumas ideias sobre “direito humano”.

            Vamos iniciar com a imagem da “torre de Babel”. Um povo construindo uma cidade e uma grande torre para alcançar os céus dos céus. Um povo de uma só língua querendo encontrar nas nuvens as prosperidades de suas maquinações. Um povo com o mesmo propósito, o de intentar contra aquele que rege toda a Terra. Um povo querendo concentração de poder, glória e riqueza em suas mãos. Um povo querendo ser onipotente, ajuntados em uma mesma cidade para realizar qualquer desígnio que seu coração proponha. Essas são algumas das imagens que minha mente desenha ao ler a narrativa de Gênesis 11. 1-9. Mas YHWH achou melhor não ser assim; talvez por saber que onde “corações” e “línguas” se reúnem, com mesmas iniciativas, sempre advogam arrogantemente seus desígnios acima dos desígnios de Deus. Confusão e dispersão foram a iniciativa de YHWH.

            Essa realidade não mudou muito de lá para cá. Somos um povo que ainda se reúne para maquinar “boas” intenções, bons cultos, bons projetos, bom governo, boas leis, etc., sempre com objetivos pessoais ou mútuos. Há quem diga que foi de Babel que se formou os povos espalhados sobre a face do planeta Terra. Cada nação, povo e língua. Gente de todas as cores e raças, jeitos e trejeitos, culturas e leis diversas.

            Surge uma pergunta: será que “Babel” não foi o protótipo do que veio a ser as nações? Não sei a resposta para essa pergunta, no entanto, penso que Deus sempre chama a si mesmo para olhar e averiguar os desígnios do ser humano em cada nação espalhada pelo globo. Imagino-o também confundindo e dispersando a humanidade quanto aos seus próprios interesses.

            Deixando a imagem da torre, me identifico com as palavras de Foucault (Microfísica do poder), quando diz que o problema da arte de governar, desde o séc. XVI é no nível do “governo de nós mesmos”, o “governo da conduta das pessoas” e o “governo dos Estados”. Ou seja, como ser governado? Por quem ser governado? Até que ponto? Todos nós desejamos um “futuro governo” cabível às nossas pretensas sugestões do que são ou não propostas a se apoiar ou, se são ou não dignas de serem implantadas em nosso país. Mas entendo que o problema não é sermos apoiados em nossas sugestões ou, até mesmo, apoiar aquele que compartilha com nossas sugestões de um governo justo; e sim que, isso tem haver com um problema de governo intrínseco.

            A imagem de Babel é apenas um exemplo daquilo que entendo, teologicamente, ser a raiz do problema da humanidade: governar a si mesmo após a Queda. Consequentemente, governar as pessoas, uma nação, o que seja o menor desempenho governamental, nunca teremos como resultado o ideal. Podemos falar a mesma língua, termos as mesmas intenções e convicções, sempre teremos confusão e dispersão. A grande tentativa é buscar o melhor diante de todas as opções que buscam o ideal, o bem comum a todos. Digo isso por entender a pluralidade existente em todos os âmbitos e estâncias de uma nação. Isso toca, na minha compreensão, nos direitos que servem – ou deveriam servir – os seres humanos.

            Os direitos humanos propõem um tipo/estilo de vida vivido num ambiente/espaço esperado por todos em virtude, simplesmente, de sua humanidade. Por que somos seres humanos esperamos ser resguardados em nossa condição tal. Isso diz respeito a inúmeros direitos de ordem universal, civil, econômico, etc. (isso olhando para os direitos considerados gerais). Cabe dizer que os direitos de todo ser humano são “guardados” por leis que são tidas justas e receptíveis a todos (cf. Os cristãos e os desafios contemporâneos – John Stott).

            Analisando e seguindo pela linha teológica tradicional e conservadora, refletir direitos humanos é remontar à criação do homem; é se apoiar, historicamente, àquilo que certo “deísta” (Thomas Paine) escreveu: “[…] chegaremos ao tempo em que o homem veio da mão do seu Criador. O que ele era na época? Homem. Homem era o seu elevado e único título e um maior não lhe pode ser dado” (Os cristãos e os desafios contemporâneos). Como criaturas, parte de uma mesma família humana, temos os direitos à humanidade desde o princípio. Não os buscamos, não adquirimos esses direitos; eles estão em nós e nos expressam.

            Voltemos ao governo de nós mesmo proposto pela Queda. A “Queda” de toda humanidade torna o que éramos naquilo que não somos e, consequentemente, passamos a ser “isso” por essência. Vivenciamos a desumanização e suas agregações por milênios. Os direitos que nos pertenciam intrinsicamente, hoje precisamos buscá-los, entendê-los, racionaliza-los, lutarmos e apropria-los ao bem comum.

Não raras exceções, encontramos gente que deseja, pelo bem maior, descobrir um caminho que defenda e abrigue as pessoas, pautados por leis que reagem contra abusos, discriminação, racismo, desumanização etc., priorizando as inter-relações humanas e, de certa forma, demonstrando os limites disso tudo. Entendo que todo crime contra a humanidade transparece as nossas próprias atitudes e limitações egoisticamente desenfreadas. Somos indisciplinados, orgulhosos, avarentos, sedentos por sangue, controladores, invejosos, autodestrutivos, (…), pioneiros do mal contra nós mesmos e, com tudo isso, enaltecemos nossa escabrosa humanidade depravada e rebelde.

            O problema é que sempre impomos ao outro, no mesmo padrão, as deturpações de nossa mente, de nossa “raça humana”. Assim, generalizamos e repassamos, desde sempre, a barbárie como um circulo vicioso sem fim. Parece uma antropologia “supra real” o que escrevi acima, mas isso pode ser visto nas atrocidades descabidas do “ser humano”: genocídios, torturas, perseguições, casamentos de contrato, guerras e assassínios em massa, exploração de crianças, mulheres, idosos e deficientes; roubalheiras sem fim, fome, julgamentos injustos, falta de liberdades e de expressão (religiosa), falta de educação e cuidados básicos de saúde, desmatamentos; isso expondo alguns dos problemas de desumanidade.

            Com isso, não quero dizer que não há esperança para nós. Devemos sempre nos lembrar desse “pano de fundo” que nos assombra e que, por vez, nos acostumamos como sendo normal. Como cristão preciso assumir que existe um jeito certo de lidar com a humanidade e seus direitos. Como cristão preciso, também, olhar para a bondade de um Criador que não nos deixa, a nós mesmos, acabarmos de vez com nossa humanidade. Um Criador que não nos deixa mergulhados no mal. Por isso, sempre haverá gente boa tentando fazer coisas boas. Sempre haverá pessoas movidas pela bondade (graça comum) em prol da humanidade.

            Minha proposta sobre os direitos humanos é sim um olhar e retorno para os preceitos bíblicos. Não como imposição da religião cristã, mas como uma luz, entre muitas sugeridas, em meio aos conflitos e lutas por justiça e por direito. Já há tempos optamos e concordamos com a laicidade; fomos precursores no apoio a um Estado separado da Religião e, é assim que devemos manter. Se assim está fincado, não devemos exigir que “o governo deva impor o cristianismo”; nem também que o “governo exclua a religião cristã” (Cf. Política segundo a Bíblia – Wayne Grudem).

A Bíblia como livro da fé em tono do Cristo é um livro universalmente conhecido, mas não imposto como regra universal. Mas podemos elencar que dela três palavrinhas resumem a cosmovisão acerca do ser humano: “dignidade, igualdade e responsabilidade” (Os cristãos e os desafios contemporâneos). Embasados nelas, devemos garantir uma resposta que se fixe ao compromisso exigido por essas palavras. Lembrando, também, que não podemos fazer dos direitos humanos direitos ilimitados, mas comprometidos com os direitos de todos. Um exemplo é exigir dignidade além da dignidade do outro; ou exigir uma igualdade que infrinja os termos de igualdade do outro. Podemos resumir que “em toda ação que consideramos correto praticar devemos também considerar que essas não infrinjam os próprios direitos humanos que procuramos defender”.

Meu “olhar”, portanto, volta-se a um tratamento responsivo e não inventariado sobre a humanidade que nos é comum. Como tais, todos “compartilhamos da glória e da tragédia de sermos humanos” e, assim, não temos o direito de desumanizar qualquer um que seja imagem de Deus enquanto criaturas.

Há um desconforto entre os cristãos com programas de direitos humanos, especificamente os direitos dos homossexuais. Concordo que esse não é o tema mais importante da pauta de um governante, principalmente quando economia, educação e saúde devem ser prioridades superiores, pois atingem a todos. Minha leve opinião sobre o assunto, enquanto direitos, é que os mesmos princípios que envolvem a “dignidade, igualdade e responsabilidade” não devem ser negligenciados a estes.

A sociedade cristã eleva tanto seu posicionamento contrário às uniões de pessoas do mesmo sexo que, agindo desse modo, favorecem as comunidades LGBT a uma transformação da prática homossexual em uma idolatria desenfreada frente à heterossexualidade (Cf. Homossexualidade – Perspectivas Cristãs – Cobb; obs.: não concordo com basicamente 90% do posicionamento do teólogo do processo).

Tanto Stott quanto Cobb compreendem que o relacionamento sexual entre homossexuais nunca será pleno como o vaginal, principalmente por não poderem gerar seus próprios filhos. Sobre o assunto, concordamos que a procriação seria o ideal no relacionamento sexual, no entanto, nem todos os casais procriam seguindo o ideal. Sexualmente, ninguém consegue alcançar o ideal, o que corrobora com a nossa condição humana “normal”. A completude gerada na união de dois corpos sempre será finita e desproporcional àquilo que foi planejado e é chamado de “natural”.

Outra questão é que o sexo (não apenas para a procriação) é também meio de companheirismo e intimidade. Essa assertiva é psicologicamente comprovada para todas as manifestações sexuais. Essa intimidade, de forma negativa, sempre foi corrompida mediante a promiscuidade, a luxúria e inúmeras perversidades. O que quero dizer é que, assim como há homossexuais depravados também há heterossexuais na mesma condição. Ambos fazem de sua sexualidade o seu “ventre”. Todos são atingidos essencialmente pelo distanciamento do ideal.

A grande problemática é que fizemos das pessoas nossos inimigos. C. S. Lewis diz que “antigamente matavam-se os homens maus, hoje eliminam-se os elementos antissociais” (A abolição do homem). Lutamos contra a vida por causa da sexualidade e afins. Lutamos contra a homossexualidade como algo demoníaco ou uma doença genética (psicologia antiga), sendo que se os problemas fossem esses, R. R. Soares/Benny Hinn e outros curandeiros cristãos dariam conta em nome de Deus. Prefiro entender como uma condição fora do ideal para procriação, o que não isenta o companheirismo e afetividade adquirida por eles. John Stott diz que “precisamos ser sensíveis ao fato de que estamos lidando com as emoções das pessoas, sua identidade sexual e seus sonhos de encontrar amor e aceitação”.

Surge a questão: Politicamente devo impor minha fé e realidade cristã em detrimento dos direitos que nos iguale? Acho que não! Esse não é o nosso papel enquanto igreja; seriamos ditadores se impuséssemos uma realidade e experiência cristã como regra de fé a todos. O mesmo acontece do ponto de vista contrário. O lobby gay deve ser uma realidade a ser encarada e engolida por todos? Não! Aqui diferencio o lobby gay dos outros gays que refutam os direitos exigidos por esse partido intransigente. Sou pela causa da igualdade e dignidade enquanto movidos pela responsabilidade daquilo que exigem.

Posso condenar a prática homossexual e mesmo assim conviver bem no meio de uma nação pluralista em seu modo de pensar e de agir legalmente. Isso desde que meus pensamentos e ações sejam respeitados enquanto direitos iguais.

            Portanto, finalizo afirmando que a prática homo afetiva é pecado, mas que mesmo desaprovando, não tenho a liberdade de desumanizar quem o é ou, aqueles que nela se envolvem; que não sou a favor das minorias e suas exigências por leis que destoam das leis igualitárias. Entendido como igreja, penso que nossa realidade e fé podem ser oferecidas a todos, levando em consideração que nem todos, por escolha, optarão a seguir e viver a fé cristã. Assim, todos nós seres humanos convivemos numa realidade social democrática. Resumo e concordo com um sociólogo que diz: “Democracia é pluralidade de interesses e de discursos aprendendo a conviver. Dentre esses muitos discursos, os das igrejas protestantes deve ser mais um, o discurso da ciência, outro, da arte outro, e assim sucessivamente, mas sem que nenhum deles acalente pretensões de construir uma torre para tomar os céus de assalto” (Novas perspectivas sobre o protestantismo brasileiro).

Cristão e política: Entre a alienação e a manipulação

Cresci em uma comunidade de batistas livre-pensadores (se é que isso pode existir) em que as premissas de liberdade, igualdade e fraternidade -se bem não eram mencionadas com essas palavras nem nessa ordem- estavam no âmago da existência social.

Desde cedo soube que se bem Engel, Marx e Lenin (que não são um grupo de rock grunge para os desavisados) eram compatíveis com a teologia da restauração do ser humano, não o eram o marxismo-leninismo como doutrina e muito menos o stalinismo como sonho de consumo das classes oprimidas. Ao mesmo tempo, também ficava claro que um estado voltado para a extrema direita em que alguns poucos escolhidos a dedo eram os que podiam ter alguma chance de sucesso e que dava rédea solta e descabida a uma forma doentia de capitalismo cruel que auto justificava sua existência, não era a esperança prática de um mercado que ao final das contas é formado por gente.

Isso tudo, estava reforçado pela presença pensante de minha dupla dinâmica de pais que tinham nascido na pós guerra e crescido durante a guerra fria. Tinham visto ser a própria democracia do pais esmagada pela presença ditatorial de uma direita moralista que teve sua chegada auspiciada por uma esquerda sublevada pelos desejos revolucionários desnecessários (ao meu ver) em um pais de longa tradição democrática e plenamente livre. Aliás, vale salientar que meu pais é o único latino-americano formado sobre bases laicas logo na sua primeira constituição o que faz ressaltar ainda mais a pretendida revolução.

Atravessei minha infância, então, com um medo danado de uma explosão atômica acabar com as praias mais lindas que existem sobre a face da terra, de sermos varridos pelos soviéticos (sim, naquele tempo da pre-historia, existia um pais que se chamava União de Repúblicas Socialistas Soviéticas) e com uma raiva visceral pela ingerência americana em solos orientais (O nome do meu pais é Republica Oriental del Uruguay, por isso o ‘orientais’). Ou seja, não sobrava ninguém. Eram os charruas contra o resto.

Ai chega a democracia que – ó coincidência – parece que chega simultaneamente e de forma sequencialmente ordeira ao resto do continente. Quando vemos a história, parece que entramos e saímos desses momentos mais ou menos juntos. Tipo assim, desde os tempos de Colombo que estas Américas andam mais ou menos de mãos dadas ou pelo menos, aquela parte que vá de Tierra del Fuego hasta el Rio Bravo del Norte.

Trago à memoria, Winston Churchill – primeiro ministro britânico durante a segunda guerra mundial – que dizia que a democracia não é a forma ideal de governo, mas é a melhor que conhecemos. E lembro também dos grandes momentos da democracia brasileira (sem consultar o Google, que conste) como Juscelino Kubitschek de Oliveira, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e por ai vai. Quem me lê e está atento à lista, já presume certa tendência. Todavia minha tendência é pela boa ventura do Brasil e não por uma certa vertente política. Mas deixa te mostrar como chego lá.

Conheço o Brasil desde 1981, mas cheguei para morar em 1995. Acompanhei muito meu pai pelas suas viagens pelo Brasil então conheço muitos becos e recantos e desde cedo me acostumei com o lance de entender uma cultura que não era a minha. Então quando cheguei, já cheguei amando, curtindo, deleitando-me nessa vasta cultura brasileira.

Todavia, o grande choque veio da constatação da apatia politica (em que a grande massa parece estar imersa) e o voo rasante de alguns abutres eleitoreiros. Para piorar a cena, alguns – assim chamados – pastores e lideres espirituais transferiam à grei suas próprias preferencias políticas pessoais e quando não, impunham esta opção por diversas vias de extorsão psico-morais-espirituais como se de algum projeto divino se trata-se. Não saem da minha memória placas e cartazes, outdoors e outros meios massivos dizendo que a igreja x vota em fulano.

Do outro lado da cena evangélica, estavam os pastores que se entendiam humildemente como tais por causa de uma vocação divina. Eles entendiam que o povo tinha que ficar livre para votar em quem melhor entendia sem a influência do púlpito. Só que em lugar de gastar alguns minutos explicando o porquê desta atitude, pairava no ar a ideia de que ali, dentro daquelas quatro paredes, o mundo não era politico; ali não havia problemas como quem seria melhor candidato para presidente, deputado, prefeito, vereador; ali era a redoma intocável de um povo apolítico que só fora do expediente espiritual se permitia talvez esboçar algumas interrogantes práticas (como “em quem votarei para xxxx?”) que acabavam sendo respondidas quase sempre por sorteio do menos feio, o menos pior, ou o mais espalhafatoso.

Então há ao meu ver dois extremos bem nítidos na vivencia politica evangélica brasileira: A alienação e a manipulação. As duas posturas mamam de uma crendice popular muito bem alicerçada e muito bem nutrida por descuido pastoral seletivo voluntário. Esta crendice é a de que a voz do pastor local é quase que a voz e Deus. Se ele fala que devo votar em Ciclano, então é em Ciclano que vou votar e se ele – seja por seu exemplo pessoal ou por sua falta de interesse, por arrogância ou por pura ignorância, medo, ou o que for – comete alienação constante das coisas politicas, então eu vou me alienar.

Considero a manipulação uma ferramenta diabólica forjada nas bigornas do próprio inferno. Mas entendo que a alienação é tão ruim ou pior que a manipulação porque deixa ao “Deus dará” uma coisa que deveria ser pensada, orada, conversada. Por conta disso e em última instância, o pais é levado pelos manipulados que em lugares de fieis livres pensantes se transforam em massa de manobra de uma corja desgraçada de corruptos, corruptores e corruptíveis que enxergam no palanque nada mais do que oportunidades de se enriquecer de forma rápida e muitas vezes ilícitas às custas (e nas costas) do próprio povo que deveria servir.

Então o que fazer? Quais são as garantias? Como sei que vou acertar? Qual é o candidato que Deus quer? Qual o candidato evangélico que devo apoiar? Como escolho bem um candidato?

Bem, para inicio de conversa, você não tem garantias nenhuma de que vai acertar até porque o que é acertar? O pais muda muito no período em que eles estão no poder e muitas vezes é exatamente isso que o pais precisa: mudanças. Segundo, Deus ama a liberdade e é exatamente isso que ele quer para o ser humano então não há um candidato A, B ou C que o Criador prefira na sua magnifica vontade. Terceiro quem lhe disse que deve votar em um candidato evangélico?

Então, como proceder ao final de contas? Lá vai uma coisa que detesto fazer, uma receita de bolo para ser bem sucedido. Depois escreverei alguma coisa contra receitas de bolo, mas lá vamos nós no embalo das próximas eleições com uma receitinha básica:

  1. Erradica a ideia da redoma cristã evangélica.
  2. Deixa para atrás a perversão do almejo de um estado teocrático. Visa alvos maiores e abrangentes.
  3. Sonha com uma democracia forte e transparente em que os candidatos sejam trocados livremente pela vontade do povo em espaços curtos mas não curtíssimos.
  4. Apoia (durante o período de governo) os projetos que valorizem a construção de uma sociedade mais estável e com melhores oportunidades para seus cidadãos.
  5. Asiste um jornal de verdade (há alguns nas televisão aberta que valem a pena) e presta atenção não só nos escândalos da farra política mas também nos grandes projetos do pais. Uma vez ou outra, ouve a Voz do Brasil. Em especial o Jornal do Senado e o Jornal do Judiciário (dois minutos cada)
  6. Discute não só os candidatos mas os projetos que estão sendo apresentados.
  7. Escolhe com antecedência teus candidatos (principalmente Presidente e Senadores) e acompanha eles durante a campanha mas não fique só com um. Observe os outros candidatos e não tenha medo de mudar se for preciso.
  8. Fica atento aos debates e tenta conhecer mais de perto a forma de pensar não só do teu candidato mas dos outros. Lembra que é bem provável que um debate será o mais perto que consigas chegar do teu candidato e seu pensamento. Foge do que mente. Se és homem, chama uma mulher para detectar o mentiroso.
  9. Cai fora do curral e muda de igreja se teu pastor quer te obrigar a votar em este ou aquele candidato.
  10.  Vota com responsabilidade e vigor. É serio, o destino da nação está em tuas mãos e ao meu ver, só um voto responsável te dá direito de dizer “esses políticos – que eu coloquei lá – só estão fazendo isto e aquilo outro” ou dito de outra forma: não votou, não opine.

Seja que descambemos para a alienação ou para o voto de curral, em qualquer dos dois casos estaremos, com certeza, deixando de lado o que de mais precioso temos: a liberdade de pensamento. O bom voto, é o voto consciente e estudado.

O “eu” Cristão e a política

Há um ditado que diz: “Política, Religião e Futebol não se discutem”. Sobre política e religião, não acredito que seja verdade tal afirmação! Primeiro, porque todos os assuntos podem e devem ser matéria de debate, reflexão e troca de percepções, a não ser, é claro, sobre os que são do nível da preferência pessoal. Segundo, porque falando ou não do tema “política” estamos todos absolutamente inseridos num contexto onde a mesma determina a maneira em que as relações sociais, comerciais, religiosas se darão, e isso afeta inclusive os que não se posicionam politicamente.

A política trata dos direitos e os deveres dos cidadãos da sociedade, além de abarcar a maneira como se administra o bem público em favor da sociedade. É da política o desafio de transformar impostos e demais riquezas do país em qualidade de vida (saúde, educação, transporte, segurança, saneamento, entretenimento etc).

Uma pergunta se torna pertinente neste momento: qual deve ser a relação de um seguidor de Jesus com a política?

Essa resposta precisa passar por alguns tópicos:

1) Estado laico. Uma vez que “não” estamos falando de administrar a política da nova terra (que será a ideal), mas sim da velha terra (que está sob influência do pecado), precisamos entender que o estado precisa ser neutro em relação à religiosidade e assim deve governar para todos e não para um grupo específico. Exemplo 1: Se tenho direito de pôr uma Bíblia nas escolas, as demais religiões também podem reivindicar o direito de ter seus “livros sagrados” no mesmo espaço da Bíblia. Exemplo 2: Se as comunidades cristãs possuem liberdade para celebrarem sua fé, as demais religiões também devem ter seus espaços reservados e protegidos pelo estado (ou pela Constituição).

2) Todas as leis do país devem ser amplamente discutidas. Sobre legalização disso ou daquilo, proibições e regras, é preciso que se paute sempre em favor do que seja amoroso e do que promova a qualidade de vida! Não há como fugir dos temas complexos (pena de morte, aborto, legalização das drogas, etc), não há respostas prontas, não há um modelo infalível, é preciso construir uma sociedade justa, equilibrada e isso não virá senão através de muita discussão levando em conta a cultura e a situação emergencial do povo que se pretende governar. Vale lembrar que num mundo onde há maldade humana, por vezes somos levados a tomar decisões pelo menos pior e não pelo ideal.

3) É preciso uma compreensão apocalíptica não distorcida. Há muitos que por saberem que os últimos dias serão terríveis, se acomodam, sentam na cadeira e ficam num estado de “espera da morte e ressurreição”. Não votam, não acreditam em melhorias, não lutam por nada, não se mobilizam na direção de nada nem de ninguém, se tornam “crentes zero à esquerda” (politicamente falando). Mas, Jesus disse que felizes são os que tem fome e sede de justiça, que deveríamos amar, Tiago disse que deveríamos cuidar dos órfãos e das viúvas, a igreja de Jerusalém buscava promover amplamente a justiça social distribuindo suas posses a quem necessitasse. Portanto, embora saibamos que os sinais do fim já estejam aparecendo, nós somos dos que não descansarão até verem o oprimido ser restaurado e transformado em sua situação, não descansarão até verem o amor e a justiça reinando! Acredito que, dadas as devidas proporções, devemos admitir que o fim, os escândalos, os sinais apocalípticos estão muito próximos, porém, nosso compromisso é com a promoção de toda forma de bem possível.

4) Cristão político sim, mas político cristão jamais! O cristão político é aquele que em sendo seguidor de Jesus procurará fazer o que for melhor para todos, mantendo a ética, o amor, combinando aquilo que se vive (amor ao próximo) com o desenvolvimento e a criação de políticas públicas que viabilizem a qualidade de vida. Já o político cristão é a instituição da religiosidade na política, é a defesa de um grupo buscando privilégios especiais em detrimento dos demais grupos sociais, é a luta em favor de seus guetos religiosos. O cristão político governa pra todos tendo o amor como a base de suas decisões, o político cristão governa para os grupos que lhes são de interesse particular, promovendo uns em detrimento de outros.

Assim sendo, encerro dizendo que um cristão maduro sempre será consciente nas urnas, não se acomodará com o mal estabelecido, mas ampliará sempre que possível a voz da discussão daquilo que seja a boa reforma na maneira de governar para/pelo/com o povo e não tratará com menos mérito a política visto que o que interfere na vida das pessoas também interfere em sua vida. Devemos orar pelos governantes conforme Paulo, devemos pagar impostos conforme Jesus e devemos espalhar as boas obras para que o mundo as veja e glorifique ao Pai que está no céu.

A Trindade na política

Religião e política parecem trilhar caminhos comuns muitas vezes. A paixão que despertam, a ganância que as tenta, o poder que as convida e as barbáries que podem produzir, são reveladas no processo histórico de forma escancarada. Porém, apesar de muitos caminhos em comum, há um único elemento imprescindível para o estabelecimento, construção e sustentação de ambas – o sagrado.

Sem o sagrado não se tem religião nem política. Este, que assume variadas configurações nas mais diversas expressões religiosas da humanidade, se mostra mais uniforme e definível na política.

Não é de estranhar que, em época de eleições, o sagrado exerce enorme força nos muitos discursos inflamados em busca de adeptos. Seguindo o pensamento de Rudolfo Otto de que o sagrado é mysterium, tremendum et facinans (misterioso, tremendo e fascinante), pode-se observar que as forças de atração e repulsão estão em constante tensão em relação ao sagrado no plano político.

Assim como no Cristianismo, o sagrado político se configura de forma triúna. São três os que compõem a sacralidade. Embora distintos, são inseparáveis. As campanhas políticas exaltam, louvam, ou condenam o sagrado de forma veemente. Mas no fim, todas acabam cedendo à adoração que lhe cabe e prometem adorná-lo, cuidar dele, prestar-lhe culto, atenção e melhorias pelo tempo em que tiverem o privilégio de tocá-lo.

A trindade sacrossanta da política sofre o sacrilégio de ver seus nomes tomados em vão inúmeras vezes, sem o mínimo de escrúpulos ou temor. Ela assume três nomes benditos: Educação, Segurança e Saúde. Nenhum pretendente ao ofício pode ousar dar vazão a suas preleções sem invocar a trindade. Ela é a pedra fundamental sobre a qual se constroem os templos suntuosos da máquina administrativa do poder, e se estabelece como alvo do louvor e centro da prédica de todo aquele que aspira subir os degraus do sucesso.

Uma história faz-se necessária para a compreensão dos fatos. Conta-se que um dia houve uma catástrofe. O inimaginável ocorreu e causou um desastre sem precedentes. Ninguém sabe o porquê de tamanha eficácia das forças malévolas no processo de oposição à trindade, mas constatou-se que, em algum momento lúgubre da história antiga, houve uma desavença e desequilíbrio entre os três elementos que compõem a santíssima trindade.

A Educação, enlouquecida, partiu repentinamente e agressivamente em direção à Saúde. Esta, indefesa e já moribunda, gritava desesperadamente por socorro enquanto era golpeada brutalmente até a morte. Amedrontada por tal atrocidade, a Educação fugiu em direção às fronteiras do país. A Segurança, por sua vez, sentindo remorso por não ter podido acudir sua fiel amiga Saúde no momento em que mais precisava, partiu furiosamente em busca da Educação. No caminho, atirou aleatoriamente diversas vezes para descarregar sua ira. O resultado de tais disparos deixou um rastro de sangue por seu caminho. Finalmente a Educação foi interceptada e, na fúria, acabou sendo assassinada pela Segurança. Esta, tentou ocultar o cadáver, mas foi seguida pela população revoltada por tantas mortes inocentes e acabou sendo linchada em praça pública.

“Três cadáveres num mesmo dia. Que tragédia!”, noticiavam os jornais em letras garrafais. Constituíram uma comissão para decidir o que fazer com os defuntos e, após muita discussão, resolveram construir três belos túmulos no maior cemitério do país. Os sepulcros foram milimetricamente calculados e posicionados lado a lado formando um monumento impressionante.

Desde aquele dia, coisas estranhas andaram acontecendo. De tempos em tempos, um espírito (alguns dizem ser maligno, outros, benigno) sopra sobre os túmulos levantando os corpos apodrecidos. Estes saem de seus jazigos e despertam emoções das mais diversas na população. As autoridades, acionadas pelo povo, parecem não tomar atitudes, mas, pelo menos, demonstram concordar com uma coisa: este espírito colabora com o momento.

No cemitério, coisas sinistras também são observadas. Um dos túmulos, certa vez, amanheceu pichado. Não se podia entender os escritos. Chamaram os linguistas mais capazes, mas ninguém pode decifrar a frase. Chegaram à conclusão de que algum estudante mal formado teria arriscado algum pensamento. Outros suspeitam de algum professor frustrado, talvez um proponente de alguma revolução ortográfica. O certo é que não havia muitas pistas, mas uma seta indicava para uma escola, que de tão velha, tinha perdido as primeiras duas letras da palavra escola no seu letreiro. Para conter gastos, ou por qualquer outro motivo escuso, preferiram deixar como estava.

Outro túmulo também passou por uma experiência estranha. Sangue parecia brotar do chão. Levaram para análise. Nunca divulgaram os resultados. Há murmúrios de todos os tipos, mas na realidade todos parecem temer dizer definitivamente algo. Alguém desavisado foi até o local para coletar mais amostras, mas, quando estava agachado, escutou zumbir algo rente à sua cabeça. Deitou no solo e se arrastou rapidamente para longe do local. Tentaram entrevistá-lo, mas se recusou a dar entrevistas. Dizem que contou a um amigo que enquanto rasgava suas roupas se arrastando pelo chão, viu um cartãozinho de uma empresa que prometia proteção particular. O autor da façanha nunca mais foi visto e chegaram a comentar sua morte. O fato é que o caso foi arquivado.

O mais estranho de todos foi o que aconteceu com o terceiro túmulo. Muitos se recusam a falar, outros fazem o sinal da cruz ao mencionar. Dizem que volta e meia, no calar da noite, uma fumacinha sai de dentro do túmulo por um orifício na lateral. Os boatos começaram a se espalhar e uma tv alternativa instalou uma câmera escondida no cemitério. As imagens foram exibidas antes de serem confiscadas. Turvas e arrepiantes, era possível ver, de vez em quando, a fumacinha saindo. As autoridades se mobilizaram, montaram um esquema de segurança e depois apagaram o caso. Hoje ninguém fala muito neste episódio, mas o coveiro, que é uma pessoa meio mística, disse que um dia, andando próximo a este túmulo, encontrou metade de um charuto. Pintaram o túmulo de branco para espantar qualquer coisa ruim e há quem nem passe perto do desgraçado.

Os túmulos continuam lá, ora aparentemente abandonados, ora adornados com flores belíssimas.

Deus ajude o Brasil.

O evangelho em sua caraterística bidimensional

Igreja Evangélica Reviver.
Agosto 24, 2014
Pr.Everson Spolaor

Marcos 1:8
Eu os batizo com água, mas ele os batizará com o Espirito Santo

Introdução: Somos desafiados pelo evangelho ao ter duas dimensões. Quando se fala do evangelho, se gala de Jesus, da mensagem Cristã para nossa vida. Não apenas de uma mensagem que nos dá princípios a seguir. O evangelho não é apenas uma mensagem que traz conselhos para bom comportamento. Não é o evangelho que traz nomas e regras para conduzir a gente para chegar ao céu. Ele é muito mais do que isso. E uma mensagem transformadora. Ela é assim porque sai de Deus; ou seja, a palavra de Deus que vem com esse propósito de transformar. Por isso aulo diz que e o poder de Deus para transformar o homem. Essa mensagem de transformadora abrange duas dimensões que se distinguem completamente mas que – ao mesmo tempo – se entrelaçam. Estas dimensões são a natural e a sobrenatural. A nossa maior tentação é a de buscar uma mensagem que seja monodimensional o que nos leva a uma polarização.

É preciso transitar entre o natural e o sobrenatural.

João batista – parente de Jesus – em uma única fala nos traz uma mensagem nada superficial. Falando ao respeito de Jesus é que ele fala que virá um outro que batizará com o Espirito Santo diferentemente dele que batizava com água. Quando Jesus chega, ele não anula essa fórmula. Na sua partida ele deixa exatamente essa ordem “ide por todo mundo .. batizando-os em nome do Pai do Filho e do Espirito Santo…” então a prática instituída por João, não é descartada pelo próprio Jesus.

Quero ficar esta noite só nesta ideia: É preciso transitar entre o natural e o sobrenatural.

É claro nesse processo do evangelho, ou da mensagem de Jesus, que existe o natural: Eu vos batizo com água – está falando de coisas naturais, de coisas comuns – não adianta esperar um anjo nos dizer que temos de ser batizados na água, é um processo da naturalidade cristã assim como a oração, leitura da palavra, são coisas que se esperam naturalmente de um cristão. Esse lado natural se expande para todos os processos naturais da vida e não só os que atingem a coisa espiritual. O culto a Deus se expressa também nessa forma natural da vida. É o natural que faz parte do culto e o culto que faz parte do natural no dia a dia. Cultuo a Deus com a minha vida, com a minha intencionalidade, com amor ao próximo, com a direção do carro.

Mas não podemos parar nessa dimensão, porque existe algo que vai além, que transcende essa realidade natural. È preciso transitar também por esse espaço da sobrenaturalidade. Ao João dizer ele os batizará com o Espirito Santo, ai entrou na sobrenaturalidade. Se bem há um batismo com água no qual devemos participar, não é a única dimensionalidade em que o cristão deve participar. Não precisa só ser batizado com água, precisa ser batizado com o Espirito Santo. E isso não está necessariamente com o dom de línguas. Batismo é imersão. É necessário que Jesus os submergirá no Espirito Santo, diz João o Batista. Nem João, nem eu, nem nenhum pastor vai submergir você no Espirito Santo, só Jesus. Para alguns isso se manifestará sim com o dom de línguas, mas para outros com outros dons. Aqueles mesmos que foram batizados por água por João, seriam batizados no Espirito Santo por Jesus. Como se dá isso? Das mais variadas formas; seja numa capacitação sobrenatural para realizar a obra de Deus no dia a dia; pode ser num consolo que realmente acalma o coração; pode ser com alguns dos dons sobrenatural que o Espirito vai dar para você como por exemplo as listas de dons que há na Bíblia; tem pastor que é pastor porque uma igreja o colocou como tal, mas tem aqueles a quem Deus chamou e capacitou; pode ser recebendo alegria pelo Espirito Santo; mas seja lá o que for, ele tem que mudar minha conciencia, mudar minha alma.

A vida cristã não pode ser unidimensional, tem que ser – obrigatoriamente – bidimensional. Há coisas na vida cristã que precisam ser realizadas pela gente, mas sem a intervenção do Espirito Santo não há conversão. Água e Espirito, duas dimensões que precisam agir juntas.

É por isso que às vezes vemos pessoas que ficam anos ao fio nos bancos da igreja e quando você vai conversar com eles não há neles vida espiritual. Sabem hinos de memória, passagens da bíblia, ritos, mas não há neles a segunda dimensão; a dimensão espiritual.

Eu já conclui que muita gente vai morrer nos bancos de uma igreja e não vai se converter. Repare que não estou julgando, só estou conjecturando que não há essa conjuntura entre o natural e o sobrenatural em muitos frequentadores de igreja. Isto aqui é um apelo, para lhe dizer que não há só o batismo na água, há também a sobrenaturalidade do batismo no Espirito Santo. Se isso não aconteceu, preciso cair de joelhos e clamar a Deus para que a sobrenaturalidade dele invada a minha naturalidade. Com isso, aquilo natural não vai deixar de ser natural, mas vai ganhar um novo e mais amplo significado.

A minha responsabilidade com o natural, continua minha. O ler a palavra, o participar dos cultos, o cuidar da família, trabalhar, ajudar aos outro, continua sendo nossa responsabilidade. Mas precisamos transcender o natural para sermos permeados pelo sobrenatural. A vida cristã é bidimensional. Nossas obrigações vão continuar existindo. E a gente vai continuar a colocar elas em prática, mas eu não posso fugir de ser imerso na sobrenaturalidade da vida.

Novo credo cristão

(Aviso aos navegantes, isto aqui é uma ironia)

De tempos em tempos a igreja tem se deparado com a necessidade de sintetizar sua fé. Isto, é colocar de lado as diferenças e escolher o caminho comum; definir o que é ortodoxo e o que não é; descartar aquilo que desvincula para manifestar aquilo que une.

Assim temos o Credo Apostólico usado oficialmente pela primeira vez no ano 390 em Milão. Temos também o Credo Niceno definido no conclio da cidade de Niceia em 325. E finalmente podemos mencionar o Credo Atanasiano que se firma com Carlos Magno (742-814)para fins de instrução mas que não sabemos ao certo a origem.

Todos eles têm o mesmo propósito: Estabelecer o que é crença cristã e definir o que não é. Veja como por exemplo, podemos concordar facilmente com o Credo Apostólico a continuação:

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo. Seu único Filho nosso Senhor. O qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica – a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.

Claro, os desavisados de plantão podem arrepiar a espinha ao chegar na parte em que diz “na Santa Igreja Católica”, mas o termo católico nada mais significa que universal, ou seja, que atinge a todos os seres humanos e nada tem a ver com a instituição conhecida pelo mesmo nome.

Mas voltando ao assunto, um credo nada mais é do que um reflexo das crenças dos que creem. Uma formulação do abstrato em termos simples e pragmáticos que facilitem aos que o leem a compreensão da essencialidade da fê proposta.

Eu me proponho hoje fazer o processo contrário, ou seja, a partir da observação externa produzir um texto que ampare a cristandade como um todo em sua prática e não na sua utopia. O texto ficaria mais ou menos assim:

Creio nos estereótipos fortemente alicerçados na pregação do meu guru pessoal. E na minha teologia particular. Única filha legitima dos meus estereótipos. A qual foi concebida da miscigenação caseira de ouvir uma cacofonia ensurdecedora de pregadores televisivos que falam sobre uma prosperidade terrena que anseio desesperadamente; Ela padece sob outras teologias de cunho bíblico, é esmagada, mas nem a deixo morrer nem a sepulto; Vou ao inferno com ela se necessário for, subo ao meu próprio céu terreno do toma-lá-dá-cá e deixo que ela me conduza pela mão direita, ao final de contas me falaram que sou cabeça e não cauda e vou julgar todo mundo. Creio na esquizofrenia espiritual que me acompanha, na minha única e própria visão da igreja – a comunhão do “nós” em lugar de “com eles”, na culpa constante pelos pecados (se é que existe pecado), nos meus esforços pessoais para agradar o Criador e na poupança recheada antes de partir para a eternidade. Amém