O “eu” Cristão e a política

Há um ditado que diz: “Política, Religião e Futebol não se discutem”. Sobre política e religião, não acredito que seja verdade tal afirmação! Primeiro, porque todos os assuntos podem e devem ser matéria de debate, reflexão e troca de percepções, a não ser, é claro, sobre os que são do nível da preferência pessoal. Segundo, porque falando ou não do tema “política” estamos todos absolutamente inseridos num contexto onde a mesma determina a maneira em que as relações sociais, comerciais, religiosas se darão, e isso afeta inclusive os que não se posicionam politicamente.

A política trata dos direitos e os deveres dos cidadãos da sociedade, além de abarcar a maneira como se administra o bem público em favor da sociedade. É da política o desafio de transformar impostos e demais riquezas do país em qualidade de vida (saúde, educação, transporte, segurança, saneamento, entretenimento etc).

Uma pergunta se torna pertinente neste momento: qual deve ser a relação de um seguidor de Jesus com a política?

Essa resposta precisa passar por alguns tópicos:

1) Estado laico. Uma vez que “não” estamos falando de administrar a política da nova terra (que será a ideal), mas sim da velha terra (que está sob influência do pecado), precisamos entender que o estado precisa ser neutro em relação à religiosidade e assim deve governar para todos e não para um grupo específico. Exemplo 1: Se tenho direito de pôr uma Bíblia nas escolas, as demais religiões também podem reivindicar o direito de ter seus “livros sagrados” no mesmo espaço da Bíblia. Exemplo 2: Se as comunidades cristãs possuem liberdade para celebrarem sua fé, as demais religiões também devem ter seus espaços reservados e protegidos pelo estado (ou pela Constituição).

2) Todas as leis do país devem ser amplamente discutidas. Sobre legalização disso ou daquilo, proibições e regras, é preciso que se paute sempre em favor do que seja amoroso e do que promova a qualidade de vida! Não há como fugir dos temas complexos (pena de morte, aborto, legalização das drogas, etc), não há respostas prontas, não há um modelo infalível, é preciso construir uma sociedade justa, equilibrada e isso não virá senão através de muita discussão levando em conta a cultura e a situação emergencial do povo que se pretende governar. Vale lembrar que num mundo onde há maldade humana, por vezes somos levados a tomar decisões pelo menos pior e não pelo ideal.

3) É preciso uma compreensão apocalíptica não distorcida. Há muitos que por saberem que os últimos dias serão terríveis, se acomodam, sentam na cadeira e ficam num estado de “espera da morte e ressurreição”. Não votam, não acreditam em melhorias, não lutam por nada, não se mobilizam na direção de nada nem de ninguém, se tornam “crentes zero à esquerda” (politicamente falando). Mas, Jesus disse que felizes são os que tem fome e sede de justiça, que deveríamos amar, Tiago disse que deveríamos cuidar dos órfãos e das viúvas, a igreja de Jerusalém buscava promover amplamente a justiça social distribuindo suas posses a quem necessitasse. Portanto, embora saibamos que os sinais do fim já estejam aparecendo, nós somos dos que não descansarão até verem o oprimido ser restaurado e transformado em sua situação, não descansarão até verem o amor e a justiça reinando! Acredito que, dadas as devidas proporções, devemos admitir que o fim, os escândalos, os sinais apocalípticos estão muito próximos, porém, nosso compromisso é com a promoção de toda forma de bem possível.

4) Cristão político sim, mas político cristão jamais! O cristão político é aquele que em sendo seguidor de Jesus procurará fazer o que for melhor para todos, mantendo a ética, o amor, combinando aquilo que se vive (amor ao próximo) com o desenvolvimento e a criação de políticas públicas que viabilizem a qualidade de vida. Já o político cristão é a instituição da religiosidade na política, é a defesa de um grupo buscando privilégios especiais em detrimento dos demais grupos sociais, é a luta em favor de seus guetos religiosos. O cristão político governa pra todos tendo o amor como a base de suas decisões, o político cristão governa para os grupos que lhes são de interesse particular, promovendo uns em detrimento de outros.

Assim sendo, encerro dizendo que um cristão maduro sempre será consciente nas urnas, não se acomodará com o mal estabelecido, mas ampliará sempre que possível a voz da discussão daquilo que seja a boa reforma na maneira de governar para/pelo/com o povo e não tratará com menos mérito a política visto que o que interfere na vida das pessoas também interfere em sua vida. Devemos orar pelos governantes conforme Paulo, devemos pagar impostos conforme Jesus e devemos espalhar as boas obras para que o mundo as veja e glorifique ao Pai que está no céu.

A Trindade na política

Religião e política parecem trilhar caminhos comuns muitas vezes. A paixão que despertam, a ganância que as tenta, o poder que as convida e as barbáries que podem produzir, são reveladas no processo histórico de forma escancarada. Porém, apesar de muitos caminhos em comum, há um único elemento imprescindível para o estabelecimento, construção e sustentação de ambas – o sagrado.

Sem o sagrado não se tem religião nem política. Este, que assume variadas configurações nas mais diversas expressões religiosas da humanidade, se mostra mais uniforme e definível na política.

Não é de estranhar que, em época de eleições, o sagrado exerce enorme força nos muitos discursos inflamados em busca de adeptos. Seguindo o pensamento de Rudolfo Otto de que o sagrado é mysterium, tremendum et facinans (misterioso, tremendo e fascinante), pode-se observar que as forças de atração e repulsão estão em constante tensão em relação ao sagrado no plano político.

Assim como no Cristianismo, o sagrado político se configura de forma triúna. São três os que compõem a sacralidade. Embora distintos, são inseparáveis. As campanhas políticas exaltam, louvam, ou condenam o sagrado de forma veemente. Mas no fim, todas acabam cedendo à adoração que lhe cabe e prometem adorná-lo, cuidar dele, prestar-lhe culto, atenção e melhorias pelo tempo em que tiverem o privilégio de tocá-lo.

A trindade sacrossanta da política sofre o sacrilégio de ver seus nomes tomados em vão inúmeras vezes, sem o mínimo de escrúpulos ou temor. Ela assume três nomes benditos: Educação, Segurança e Saúde. Nenhum pretendente ao ofício pode ousar dar vazão a suas preleções sem invocar a trindade. Ela é a pedra fundamental sobre a qual se constroem os templos suntuosos da máquina administrativa do poder, e se estabelece como alvo do louvor e centro da prédica de todo aquele que aspira subir os degraus do sucesso.

Uma história faz-se necessária para a compreensão dos fatos. Conta-se que um dia houve uma catástrofe. O inimaginável ocorreu e causou um desastre sem precedentes. Ninguém sabe o porquê de tamanha eficácia das forças malévolas no processo de oposição à trindade, mas constatou-se que, em algum momento lúgubre da história antiga, houve uma desavença e desequilíbrio entre os três elementos que compõem a santíssima trindade.

A Educação, enlouquecida, partiu repentinamente e agressivamente em direção à Saúde. Esta, indefesa e já moribunda, gritava desesperadamente por socorro enquanto era golpeada brutalmente até a morte. Amedrontada por tal atrocidade, a Educação fugiu em direção às fronteiras do país. A Segurança, por sua vez, sentindo remorso por não ter podido acudir sua fiel amiga Saúde no momento em que mais precisava, partiu furiosamente em busca da Educação. No caminho, atirou aleatoriamente diversas vezes para descarregar sua ira. O resultado de tais disparos deixou um rastro de sangue por seu caminho. Finalmente a Educação foi interceptada e, na fúria, acabou sendo assassinada pela Segurança. Esta, tentou ocultar o cadáver, mas foi seguida pela população revoltada por tantas mortes inocentes e acabou sendo linchada em praça pública.

“Três cadáveres num mesmo dia. Que tragédia!”, noticiavam os jornais em letras garrafais. Constituíram uma comissão para decidir o que fazer com os defuntos e, após muita discussão, resolveram construir três belos túmulos no maior cemitério do país. Os sepulcros foram milimetricamente calculados e posicionados lado a lado formando um monumento impressionante.

Desde aquele dia, coisas estranhas andaram acontecendo. De tempos em tempos, um espírito (alguns dizem ser maligno, outros, benigno) sopra sobre os túmulos levantando os corpos apodrecidos. Estes saem de seus jazigos e despertam emoções das mais diversas na população. As autoridades, acionadas pelo povo, parecem não tomar atitudes, mas, pelo menos, demonstram concordar com uma coisa: este espírito colabora com o momento.

No cemitério, coisas sinistras também são observadas. Um dos túmulos, certa vez, amanheceu pichado. Não se podia entender os escritos. Chamaram os linguistas mais capazes, mas ninguém pode decifrar a frase. Chegaram à conclusão de que algum estudante mal formado teria arriscado algum pensamento. Outros suspeitam de algum professor frustrado, talvez um proponente de alguma revolução ortográfica. O certo é que não havia muitas pistas, mas uma seta indicava para uma escola, que de tão velha, tinha perdido as primeiras duas letras da palavra escola no seu letreiro. Para conter gastos, ou por qualquer outro motivo escuso, preferiram deixar como estava.

Outro túmulo também passou por uma experiência estranha. Sangue parecia brotar do chão. Levaram para análise. Nunca divulgaram os resultados. Há murmúrios de todos os tipos, mas na realidade todos parecem temer dizer definitivamente algo. Alguém desavisado foi até o local para coletar mais amostras, mas, quando estava agachado, escutou zumbir algo rente à sua cabeça. Deitou no solo e se arrastou rapidamente para longe do local. Tentaram entrevistá-lo, mas se recusou a dar entrevistas. Dizem que contou a um amigo que enquanto rasgava suas roupas se arrastando pelo chão, viu um cartãozinho de uma empresa que prometia proteção particular. O autor da façanha nunca mais foi visto e chegaram a comentar sua morte. O fato é que o caso foi arquivado.

O mais estranho de todos foi o que aconteceu com o terceiro túmulo. Muitos se recusam a falar, outros fazem o sinal da cruz ao mencionar. Dizem que volta e meia, no calar da noite, uma fumacinha sai de dentro do túmulo por um orifício na lateral. Os boatos começaram a se espalhar e uma tv alternativa instalou uma câmera escondida no cemitério. As imagens foram exibidas antes de serem confiscadas. Turvas e arrepiantes, era possível ver, de vez em quando, a fumacinha saindo. As autoridades se mobilizaram, montaram um esquema de segurança e depois apagaram o caso. Hoje ninguém fala muito neste episódio, mas o coveiro, que é uma pessoa meio mística, disse que um dia, andando próximo a este túmulo, encontrou metade de um charuto. Pintaram o túmulo de branco para espantar qualquer coisa ruim e há quem nem passe perto do desgraçado.

Os túmulos continuam lá, ora aparentemente abandonados, ora adornados com flores belíssimas.

Deus ajude o Brasil.

O evangelho em sua caraterística bidimensional

Igreja Evangélica Reviver.
Agosto 24, 2014
Pr.Everson Spolaor

Marcos 1:8
Eu os batizo com água, mas ele os batizará com o Espirito Santo

Introdução: Somos desafiados pelo evangelho ao ter duas dimensões. Quando se fala do evangelho, se gala de Jesus, da mensagem Cristã para nossa vida. Não apenas de uma mensagem que nos dá princípios a seguir. O evangelho não é apenas uma mensagem que traz conselhos para bom comportamento. Não é o evangelho que traz nomas e regras para conduzir a gente para chegar ao céu. Ele é muito mais do que isso. E uma mensagem transformadora. Ela é assim porque sai de Deus; ou seja, a palavra de Deus que vem com esse propósito de transformar. Por isso aulo diz que e o poder de Deus para transformar o homem. Essa mensagem de transformadora abrange duas dimensões que se distinguem completamente mas que – ao mesmo tempo – se entrelaçam. Estas dimensões são a natural e a sobrenatural. A nossa maior tentação é a de buscar uma mensagem que seja monodimensional o que nos leva a uma polarização.

É preciso transitar entre o natural e o sobrenatural.

João batista – parente de Jesus – em uma única fala nos traz uma mensagem nada superficial. Falando ao respeito de Jesus é que ele fala que virá um outro que batizará com o Espirito Santo diferentemente dele que batizava com água. Quando Jesus chega, ele não anula essa fórmula. Na sua partida ele deixa exatamente essa ordem “ide por todo mundo .. batizando-os em nome do Pai do Filho e do Espirito Santo…” então a prática instituída por João, não é descartada pelo próprio Jesus.

Quero ficar esta noite só nesta ideia: É preciso transitar entre o natural e o sobrenatural.

É claro nesse processo do evangelho, ou da mensagem de Jesus, que existe o natural: Eu vos batizo com água – está falando de coisas naturais, de coisas comuns – não adianta esperar um anjo nos dizer que temos de ser batizados na água, é um processo da naturalidade cristã assim como a oração, leitura da palavra, são coisas que se esperam naturalmente de um cristão. Esse lado natural se expande para todos os processos naturais da vida e não só os que atingem a coisa espiritual. O culto a Deus se expressa também nessa forma natural da vida. É o natural que faz parte do culto e o culto que faz parte do natural no dia a dia. Cultuo a Deus com a minha vida, com a minha intencionalidade, com amor ao próximo, com a direção do carro.

Mas não podemos parar nessa dimensão, porque existe algo que vai além, que transcende essa realidade natural. È preciso transitar também por esse espaço da sobrenaturalidade. Ao João dizer ele os batizará com o Espirito Santo, ai entrou na sobrenaturalidade. Se bem há um batismo com água no qual devemos participar, não é a única dimensionalidade em que o cristão deve participar. Não precisa só ser batizado com água, precisa ser batizado com o Espirito Santo. E isso não está necessariamente com o dom de línguas. Batismo é imersão. É necessário que Jesus os submergirá no Espirito Santo, diz João o Batista. Nem João, nem eu, nem nenhum pastor vai submergir você no Espirito Santo, só Jesus. Para alguns isso se manifestará sim com o dom de línguas, mas para outros com outros dons. Aqueles mesmos que foram batizados por água por João, seriam batizados no Espirito Santo por Jesus. Como se dá isso? Das mais variadas formas; seja numa capacitação sobrenatural para realizar a obra de Deus no dia a dia; pode ser num consolo que realmente acalma o coração; pode ser com alguns dos dons sobrenatural que o Espirito vai dar para você como por exemplo as listas de dons que há na Bíblia; tem pastor que é pastor porque uma igreja o colocou como tal, mas tem aqueles a quem Deus chamou e capacitou; pode ser recebendo alegria pelo Espirito Santo; mas seja lá o que for, ele tem que mudar minha conciencia, mudar minha alma.

A vida cristã não pode ser unidimensional, tem que ser – obrigatoriamente – bidimensional. Há coisas na vida cristã que precisam ser realizadas pela gente, mas sem a intervenção do Espirito Santo não há conversão. Água e Espirito, duas dimensões que precisam agir juntas.

É por isso que às vezes vemos pessoas que ficam anos ao fio nos bancos da igreja e quando você vai conversar com eles não há neles vida espiritual. Sabem hinos de memória, passagens da bíblia, ritos, mas não há neles a segunda dimensão; a dimensão espiritual.

Eu já conclui que muita gente vai morrer nos bancos de uma igreja e não vai se converter. Repare que não estou julgando, só estou conjecturando que não há essa conjuntura entre o natural e o sobrenatural em muitos frequentadores de igreja. Isto aqui é um apelo, para lhe dizer que não há só o batismo na água, há também a sobrenaturalidade do batismo no Espirito Santo. Se isso não aconteceu, preciso cair de joelhos e clamar a Deus para que a sobrenaturalidade dele invada a minha naturalidade. Com isso, aquilo natural não vai deixar de ser natural, mas vai ganhar um novo e mais amplo significado.

A minha responsabilidade com o natural, continua minha. O ler a palavra, o participar dos cultos, o cuidar da família, trabalhar, ajudar aos outro, continua sendo nossa responsabilidade. Mas precisamos transcender o natural para sermos permeados pelo sobrenatural. A vida cristã é bidimensional. Nossas obrigações vão continuar existindo. E a gente vai continuar a colocar elas em prática, mas eu não posso fugir de ser imerso na sobrenaturalidade da vida.

Novo credo cristão

(Aviso aos navegantes, isto aqui é uma ironia)

De tempos em tempos a igreja tem se deparado com a necessidade de sintetizar sua fé. Isto, é colocar de lado as diferenças e escolher o caminho comum; definir o que é ortodoxo e o que não é; descartar aquilo que desvincula para manifestar aquilo que une.

Assim temos o Credo Apostólico usado oficialmente pela primeira vez no ano 390 em Milão. Temos também o Credo Niceno definido no conclio da cidade de Niceia em 325. E finalmente podemos mencionar o Credo Atanasiano que se firma com Carlos Magno (742-814)para fins de instrução mas que não sabemos ao certo a origem.

Todos eles têm o mesmo propósito: Estabelecer o que é crença cristã e definir o que não é. Veja como por exemplo, podemos concordar facilmente com o Credo Apostólico a continuação:

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo. Seu único Filho nosso Senhor. O qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica – a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.

Claro, os desavisados de plantão podem arrepiar a espinha ao chegar na parte em que diz “na Santa Igreja Católica”, mas o termo católico nada mais significa que universal, ou seja, que atinge a todos os seres humanos e nada tem a ver com a instituição conhecida pelo mesmo nome.

Mas voltando ao assunto, um credo nada mais é do que um reflexo das crenças dos que creem. Uma formulação do abstrato em termos simples e pragmáticos que facilitem aos que o leem a compreensão da essencialidade da fê proposta.

Eu me proponho hoje fazer o processo contrário, ou seja, a partir da observação externa produzir um texto que ampare a cristandade como um todo em sua prática e não na sua utopia. O texto ficaria mais ou menos assim:

Creio nos estereótipos fortemente alicerçados na pregação do meu guru pessoal. E na minha teologia particular. Única filha legitima dos meus estereótipos. A qual foi concebida da miscigenação caseira de ouvir uma cacofonia ensurdecedora de pregadores televisivos que falam sobre uma prosperidade terrena que anseio desesperadamente; Ela padece sob outras teologias de cunho bíblico, é esmagada, mas nem a deixo morrer nem a sepulto; Vou ao inferno com ela se necessário for, subo ao meu próprio céu terreno do toma-lá-dá-cá e deixo que ela me conduza pela mão direita, ao final de contas me falaram que sou cabeça e não cauda e vou julgar todo mundo. Creio na esquizofrenia espiritual que me acompanha, na minha única e própria visão da igreja – a comunhão do “nós” em lugar de “com eles”, na culpa constante pelos pecados (se é que existe pecado), nos meus esforços pessoais para agradar o Criador e na poupança recheada antes de partir para a eternidade. Amém

Santidade: Uma Pratica de Vida

A santidade não é simplesmente uma ideia filosófica, é uma prática de vida. Ela é uma mudança tão radical na maneira de viver do homem, que Cristo é magnificado. Significa viver de forma tão parecida com Cristo que as pessoas podem até ser confundidas com Ele. Se a santidade que você está vivendo não mudar as coisas mais práticas e simples do seu dia a dia, você enganará a si mesmo com superficialidades.

Uma das práticas da santidade é a humildade. Para querer aprender e buscar o conhecimento, nós precisamos ter sede de aprender a Palavra.

A submissão também é uma das práticas da santidade. Um cristão que vive santidade é aquele que aprende e pratica a submissão.

Se realmente você entende santidade como uma vida fora dos padrões do mundo terá, então, que dar atenção à questão da submissão. Alguns rotulam santidade como somente se abster da prostituição e da idolatria e por isso, mesmo não se prostituindo nem praticando a idolatria, continuam sendo pedra de tropeço para a conversão de seus familiares e desagradando a Deus.

Mas o que é submissão? De acordo com o dicionário bíblico, submissão é um termo militar grego que significa “organizar [divisões de tropa] numa forma militar sob o comando de um líder”. Em uso não militar, era “uma atitude voluntária de ceder, cooperar, assumir responsabilidade, e levar uma carga”. Em palavras simples, submissão é obediência. Todo aquele que nasce de novo deve aprender o “abecedário” do cristão, que é a obediência.

Em primeiro lugar devemos obediência a Deus, nosso Pai e Senhor. Não existe vida cristã sem obediência a Deus, isso é tão óbvio quanto a cor do cavalo branco de Napoleão. Em Atos 5.29, Pedro declara: É mais importante obedecer a Deus do que aos homens. Mas você não pode se esquecer que a obediência a Deus está intimamente ligada à obediência aos seus pais e líderes. O apóstolo Pedro fala sobre essa relação entre a obediência a Deus e aos pais e líderes em sua primeira epístola, veja este versículo: “Sujeitai-vos a toda autoridade humana por amor do Senhor” (1 Pedro 2.13a)

Encorajo você a ler toda a epístola depois. Se a submissão aos líderes é uma ordem de Deus, eu só obedecerei a Deus se eu estiver me submetendo aos meus líderes. Seus primeiros líderes são seus pais. Depois de Deus eles são seus principais líderes e a eles você deve obediência. A única exceção que existe para não obedecer aos seus pais e líderes é se eles o mandarem pecar, pois desse jeito você violará a obediência a Deus, fora isso, obedeça sempre.

Por que ser submisso? Essa é a vontade de Deus e ela é sempre boa, perfeita e agradável. Fazendo o bem, sendo obedientes as autoridades, você cala as pessoas que depõem contra os cristãos. O nome de Deus muitas vezes é blasfemado por causa de pessoas que se dizem cristãs, mas estão sempre envolvidas em rebelião e outras condutas contrárias à Palavra. Alguns ainda não experimentaram a conversão de seus familiares, pois, mesmo sendo assíduos à reunião da comunidade, não são obedientes dentro de casa e dessa forma, fazem com que seus familiares blasfemem contra o nome de Deus.

A liberdade que temos é para o serviço de Deus e não para quebrar regras. Um dos exemplos que temos de liberdade mal entendida e mal expressada é o movimento hippie. Eles pregavam uma liberdade destrutiva, que era mais uma desculpa para a insubmissão do que a verdadeira liberdade.

Comece a mudança hoje mesmo em sua casa, com atitudes simples como praticar a honra. Honrar é reconhecer a dignidade e posição que seus pais têm sobre a sua vida. Valorize os seus pais, não somente com palavras, mas com atitudes. Pare de depreciar e menosprezar sua família para outras pessoas. Já ouvi muitos jovens falando mal de sua família e de seus pais, e isso é um comportamento que desagrada a Deus. Nenhuma família é perfeita, mas toda família tem valor.

Você verá a luz de Deus entrar na sua casa quando você começar a praticar a submissão. A atitude bíblica de submissão trará credibilidade para sua vida e sua mensagem. Enquanto na sua casa as pessoas não virem mudança nas suas atitudes, suas palavras serão vazias de credibilidade e unção.
Guarde em seu coração: A santidade verdadeira o levará a ser um exemplo até mesmo daqueles que já deram mau exemplo!

ORAÇÃO: AMIZADE COM JESUS CRISTO

Penso que os questionamentos nos movem. Eles nos levam para além do que somos e de onde estamos. Isso porque questionar é ir além do refletir. É ter a coragem de adentrar terrenos desconhecidos e de encarar novos desafios. E diante destes que nos cercam, uma que nos confronta é a questão do renovar.

O renovar-se exige de nós a ousadia de buscar o novo no velho, fazendo-nos assim, sair das nossas zonas de conforto. Verdade é que poucos trilham este questionador e ousado caminho. James Houston foi um dos que corajosamente adentrou esse terreno na busca do novo em relação ao velho caminho da oração.

Escocês, profundo conhecedor e pioneiro no campo da espiritualidade cristã, fundador e professor do renomado “Regente College” onde tem lecionado a cadeira de Teologia Espiritual substituídos por Eugene Peterson; James Houston é considerado um homem sabedor de diversas áreas do conhecimento humano e amigo de C S Lewis.

Sua busca e questionamentos concentram-se no campo da oração como amizade com Deus. Contudo, antes de avançarmos com seu pensamento sobre este assunto, refletiremos na seguinte questão introdutória: O que entendemos por orar?

Tecnicamente, orar é dialogar com Deus todo o tempo. É o que Paulo aconselha aos irmãos em Éfeso, “orarem em todo o tempo” (6:18). Uma curiosidade sobre a oração é que ela é profundamente direcionada por aquilo que cremos e como nos comportamentos. Ou seja, o caráter de nossas orações será marcantemente determinado pelo caráter de Deus, enquanto o conhecemos e o experimentamos.

Orar é articular nossos desejos, vontades e angústias, mas também é fazer nossos pedidos e súplicas a Deus. Noutras palavras, entendemos que orar é falar, falar, falar, falar e falar… com Deus.  Entanto, em (Mt.6:5-8), Jesus faz um comentário surpreendente. O de que, quando oramos devemos fechar a porta do quarto e ir para o mais profundo do silêncio, ou seja, ir para o recluso, para a introspecção.

Assim, para Jesus, oração não é alguma coisa que Deus ouve, mas o que Deus vê. Nesta perspectiva de Jesus, a oração tem muito pouco haver com nossas palavras, mas tudo haver com nosso coração. Portanto, podemos dizer que, a luz de Cristo, a oração é uma experiência de Deus que transcende as palavras, pois estas são limitadas demais para expressar esta experiência do divino. E buscar a Deus no silêncio é construir a verdadeira intimidade com ele. Intimidade esta que é expressa e desenvolvida no relacionamento com Deus.

“Minhas orações, Deus meu, fluem do que não sou. Eu penso que tuas respostas me transformam no que sou”. George MacDonald

O questionamento de James Houston acerca da oração o conduziu ao entendimento de que precisamos de uma teologia que nos desperta para um relacionamento pessoal e verdadeiro com Deus. Noutras palavras, uma teologia que nos aponte o caminho da oração que seja mais pessoal e afetiva, e não apenas acadêmica.

Em seu livro “A oração: O caminho de amizade com Deus”, Houston procura ensinar a orar e cultivar uma amizade com Deus. Ele nos leva a descobrir que orar é mais do que conseguir de Deus aquilo que desejamos, é exercer um relacionamento de amizade com Ele.

O capítulo oito deste livro traz como título “Oração: A amizade com Jesus Cristo” onde o autor fala acerca deste caminho relacional de amizade entre o homem e Deus.

Dia após dia; dia após dia; Ó querido Senhor, três coisas eu oro: Ver-te mais claramente; Amar-te mais amorosamente; Seguir-te mais de perto; Dia após dia”.

Ele inicia o capítulo dizendo que na realidade do Espírito Santo possuímos tanto a transcendência de Deus, onde ele é o outro distinto de nós em sua divindade; quanto sua imanência, onde seu Espírito é intimamente pessoal, “mais próximo do que a respiração”. Como ambos, ele é o Espírito de Jesus que permanece conosco para todo sempre.

Diz também que à medida que o Espírito trabalha em nossas orações podemos aguardar significativas mudanças, ou seja, a forma pela qual oramos será radicalmente transformada, pois experimentaremos uma maior liberdade de comunicação com Deus, a media em que nos tornamos mais e mais seguros de que ele nos aceita como somos.

Um aspecto destacado pelo autor neste capítulo é a oração e a nossa pessoalidade. Ele argumenta que a oração como amizade é afetada por nossa educação exatamente da mesma maneira que ocorre com todos os nossos relacionamentos. Assim como nossa personalidade é desordenada, também nossas paixões o serão. Para tanto, o autor explica que a morte de nossa velha natureza nos conduz à novidade e grandeza de vida com consequências inimagináveis.  Ressaltando que nosso trabalho não é suprimir ou esconder nossos verdadeiros sentimentos, como temos feito desde a infância, mas expô-los a Deus de modo que ele possa nos curar e fazer de nós pessoas íntegras.

Outro aspecto destacado aqui é a oração e nossa submissão. Houston entende que a submissão a Deus e aos outros é a chave da oração, pois orar é reproduzir o caráter de Jesus em nós mesmos permitindo que nossa vida seja moldada por ele. Por isso, quando oramos em submissão à vontade de Deus, nossas orações não são mais nossas próprias, expressas de nosso ponto de vista, mas expressas do ponto de vista de Jesus em nós.

A oração e nossa fé também é outro aspecto levantado pelo autor. Através da fé nos apossamos de realidades que não podemos ainda ver ou vivenciar por nós mesmos. Houston tem descoberto que esta é uma jornada pela náusea, sobre um abismo temível. Isso porque Jesus nos guia através dos túneis escuros de nossos medos da infância, de nossas culpas secretas e de outras coisas que temos tentado esquecer e reprimir. Ele diz:

Com medo do mar, eu fui obrigado a mergulhar nele nos braços de meu Pai. Com receio da fé como um modo de vida, fui privado da estabilidade profissional. Pelo medo de fracassar, tive que ser quebrantado por meio de uma desonra pública. Cada um de nós tem de passar pelo caminho da náusea”.

Segundo ele, o evangelho de João fala que a palavra “crer” expressa um relacionamento contínuo e dinâmico de amizade com Jesus. Nada fazemos sem Ele, e esse caminho de fé significa estar impregnado com a consciência de sua presença o tempo todo.

Outro aspecto destacado pelo autor é a oração e nossa liberdade. Orar em nome de Jesus significa sermos liberto de nós mesmos. Houston diz que o medo é um sinal de nossa possessividade, ou seja, quanto mais auto possessivos ficamos, mais medo sentimos. Por isso, a meditação constante na Bíblia nos liberta de muitos medos e fraquezas; do medo da opinião dos outros; da fraqueza pessoal e das autoindulgências.

Um último aspecto a ser mencionado aqui é a oração e nossa direção. Houston diz que o propósito primário da oração não é, portanto, atender nossas próprias necessidades, tampouco satisfazer nossos desejos, mas glorificar a Deus através do modo que oramos e vivemos. Jesus nos conclama a um propósito específico: que sejamos frutíferos. Todas as nossas orações são subservientes a este objetivo claro. Assim, Jesus nos denomina seus amigos por uma razão: para compartilharmos a outras pessoas a alegria de nosso relacionamento com ele.

O poeta William Blake nos conta que “somos colocados na terra em um pequeno espaço para aprendermos a suportar os raios de amor”. Felizmente, estes também são raios de amor que brilham em nós, ajudando-nos a explorar os abismos da nossa própria insignificância, a remover as máscaras de nosso autoengano, o solo estéril de nossa solidão. Isso somente pode nos acontecer quando estivermos determinados, em humildade, a fazer de nossa vida uma vida de oração.

Concluo dizendo que, por ser quem é, e por sua ousadia em buscar inovar a teologia de um assunto tão discutido como a oração, é que James Houston merece ser ouvido através desta maravilhosa obra literária.

por: Ângela Aleixo

Prolegômeno à Santificação

1959255_10151998451511577_6781849145644319369_nEm princípio, uma definição geral para a ideia que denominamos de santidade cabe como meta inicial. Santidade (palavra hebraica, qadosh), faz referência à “absoluta alteridade de Deus”; é a linha divisória dita radical que nos separa (nós profanos) da divindade. É dessa conceituação que utilizarei para o raciocínio abaixo.

            A santidade nos diz acerca de…, aponta para alguém que não somos nós. Refere-se àquele que é o “totalmente outro” e não compartilha plenamente dessa glória com a humanidade. Mas lembremo-nos que somos santificados. Sua extensão, a santificação, faz menção a um ato ou processo, um meio de fruição contínua entre Deus e a humanidade. É aqui que nos encaixamos no plano divino em Cristo e somos atingidos sorrateiramente, como numa piscadela.

            Jesus não disse nada explicitamente sobre a santificação, mas disse sobre o santificador. Sempre associo tal ação ao Espírito e lembro-me sempre da grande perícope no evangelho de João 14-16. Ali, o Paracletos é reconhecido e autenticado por Jesus como “Espírito da verdade” (14. 16-17); no verso 26, como o “Espírito que é Santo”; em 15. 26-27 está associado à verdade e tem como função dar testemunho de Jesus; em 16. 7-11, o Espírito é responsável em estabelecer no mundo a consciência de culpabilidade e nos guiar em toda a verdade (na verdade inteira) que Ele ouviu do Pai, anunciando as coisas futuras dentro do presente (v. 13) e glorificando a Jesus em sua proclamação (v. 14-15).

            O ato de nossa santificação está relacionado inteiramente com essa pessoa prometida por Jesus e que vem/veio fazer morada em nós. Somos levados a um senso do sagrado, do transcendente, de sua santidade que nos inspira ao respeito, ao fascínio a ao terror (numinoso). Somos tocados pelo “sagrado”, mas não só tocados, somos inundados por esse Espírito que, consequentemente, nos religa ao Eterno. Ele nos traz profundo sentido de direção, entendimento, juízo, e uma percepção nova da vida. O teólogo Wunibald Muller diz, a esse respeito, que somos envolvidos por uma “camada protetora e criadora de sentido”, como a camada de ozônio que protege a Terra e toda vida que nela existe. Um sentido divinatório é criado a partir desse envolver, o que gera uma mudança em nossa faculdade de sentir e perceber, de direção e caminhar.

            Com tudo isso, quero dizer que, somos levados a pôr o Filho de Deus no centro de nossa vida e existência. Passamos a entender que santificação “se faz” no presente momento em que uma realidade, além da realidade presente, se abre à nossa consciência de “nova criação” em Cristo. Acontece uma interpelação e, a partir dela, nosso olhar já contempla uma vida sem Cristo, nossa união com Cristo e um caminho de santidade a percorrer até a glorificação.

            Assim, a santificação se mostra como um caminho a percorrer. Não apenas trilhar uma trilha moldada a partir da nossa antiga criação. Não somos levados a fazer, olhar, agir diferente de tudo o que fazíamos como velha criatura. Somos, sim, conduzidos com a lente do Espírito a interpretar a antiga realidade juntamente com a nova e, assim, obter a verdade. Isso nem sempre anula as antigas expectativas, os antigos comportamentos, as amizades, etc…; pode autenticar e potencializar coisas boas da nossa antiga caminhada. Aqui, no entanto, é a linha tênue entre o que é licito ou não fazer ou continuar a fazer.

            Essa linha tênue se revela que, em santificação também somos livres em Cristo. Essas duas realidades e verdades sobre o cristão não se opõem. A santificação aliada à liberdade para o qual Cristo nos libertou, novamente tem haver com uma consciência que me leva a “ser” e não a viver de ritual em ritual. Se tudo aquilo que entendemos por consciência e suas faculdades foi/é liberta das rédeas e não mais se deixa atar pelos laços da “lei”, das imposições frívolas ou, se já superamos o jogo do que é lícito ou não, finalmente nos livramos dos conflitos de uma realidade maligna e pecaminosa e passamos ao entendimento mais profundo e de propósito da santificação. Mais claro é dizer que não existe um “dogma” para a santificação.

            No entendimento de que em santificação somos livres e isso nos faz perceber a nova dimensão que nos foi outorgada, escolhemos seguir a Cristo. Não somente o seguimos, primeiro paulatinamente, mas abraçamos os desafios de Jesus. Nossa caminhada como peregrinos que somos nesse cosmos – mundo de sistemas malignos – passa a ser conduzido pelo Espírito como uma jornada espiritual. Essa jornada não é apenas mística, mas é conduzida pelo propósito do religare o céu com a terra. Dessa forma, a santificação do cristão ultrapassa questões morais, questões de superação e autoajuda, problemas pessoais e, até, aquela velha mania de alimentar exacerbadamente o ego. Um processo de kenosis (gr. auto esvaziamento) se instala e é iniciado. Essa jornada da santificação, reatando nossa humanidade e abalando as bases da nossa animosidade, nos transforma diariamente a partir das escolhas que passamos a fazer. E se, em santificação escolhemos seguir a Cristo, o caminho não tem muito haver só comigo, mas com Ele e sua jornada nessa terra. Deixamos de seguir a fundo os nossos anseios e utopias dando prioridade ao anseios de Jesus. Em suma, os sonhos, desejos, esforços e cansaços, as palpitações e pulsações do nosso coração, nossas aspirações e tudo o que passamos a ser como nova criação tem a finalidade de instaurar o Reino de Deus, o Reino de Cristo na terra.

            Portanto, o céu não é o nosso destino uma vez que ele se torna nossa missão. Nosso destino, enquanto cumprimos a missão, é conhecer a Cristo e ser conhecido por ele e ser achado nele. Seguir a Jesus é aliar forças com o Espírito em Sua missão e descaracterizar a “velha gente” em prol de “vestir a Cristo Jesus” todos os dias. Eis a santificação!

            Para finalizar esse prolegômeno e destacar a ação diária do Espirito juntamente com nossa consciência que se “veste” e adapta-se a Cristo, a santificação – esse processo pessoal e ativo – sempre me lembra de uma aproximação que idealizo ser coerente com os termos gregos usados para formular a doutrina da Trindade.

            Como criação à imagem e semelhança do Eterno (hommousion, feitos da mesma matéria e substância), somos declarados “muito bom”. A partir de nossa queda, aquilo que era “muito bom” tornou-se “depravado” (Lutero). Fomos corrompidos na nossa ousia (essência) e nossa hypostasis, aquilo que expressamos de nossa ousia, já não agradava a Deus e era mal aos seus olhos. Deus, em Cristo, mediante o Espírito Santo, veio até nós e se fez um de nós, encarnando nossa natureza para nos transformar. E não apenas nos transformar, mas nos dar novamente de sua ousia (extravagante substituição) e, desse modo, começarmos a expressar (hypostasis) Sua ousia no presente até o grande dia em que voltaremos a ser hommousion de Deus.

Rafael de Campos

A Santidade do Amor

A despeito de toda tradição popular que beatifica os que lideraram grandes instituições religiosas ou que contribuíram significativamente para algum setor da sociedade, nos despojemos um pouco, por ora nessa reflexão, dos quesitos que levaram homens e mulheres como Machado de Assis, Pelé, João Paulo II, Toquinho, Martin Luther King Jr. e Madre Tereza, dentre outros, à posição de “santidade” à eles conferida. A razão do meu pedido é a mais simples: quando gastamos tempo demais enaltecendo certos personagens da história, de alguma forma acabamos por nos colocar numa posição inferior, de incapacidade, de infinita pecaminosidade enquanto os exaltamos à inacessibilidade, inatingibilidade e os pintamos assentados nos tronos celestiais.

Certamente, o processo de santificação nada tem a ver com a capacidade de reproduzir os mesmos atos heroicos dos tais, nem mesmo assumir suas personalidades, que são por vezes tão distintas da nossa, ainda que sejam admiráveis e dignas de citação. Quando do Verbo escutamos “sejam perfeitos como o Pai celestial de vocês é perfeito” ou “sejam santos como eu sou santo” ou ainda “eu sou a luz do mundo… vocês são a luz do mundo”, estamos diante da declaração do que nos tornamos quando somos inseridos Nele e ao mesmo tempo é um convite amável ao desafio de viver na máxima intensidade, aquilo que o Verbo possui em sua essência mais profunda: o amor!

Sim, o Verbo é amar. Quem ama conhece Aquele a quem o Verbo disse “somos um”. Podemos dizer que ser santo, ou santificar-se, significa correr à passos largos na direção da prática do amor. Ser amor, fazer amor, pensar amor, manifestar amor! É ser encharcado pelo amor de tal maneira que, tudo o que tem haver com o amor tenha a ver conosco.

Isso de forma alguma anula quem somos, pelo contrário nos aperfeiçoa, nos completa, nos abrilhanta em tudo! Em amor não corremos o risco de nos perder, pelo contrário, no amor nos encontramos, nos desvendamos, nos calibramos, nos tornamos tal qual éramos nos pensamentos do Verbo quando recebemos Dele o “façamos o homem”. Nas intencionalidades do Criador, quanto mais somos amor mais perto estamos da vida, quanto mais nos distanciamos do amor, mais perto estamos da morte!

Todas as leis se resumem no “ame”, as parábolas do Verbo sempre ensinaram o amor por meio do perdão, do acolhimento, da compaixão, da empatia; as profecias mais severas eram pura expressão do amor que avisa as consequências da obediência ou desobediência ao Eterno, pois quem “avisa amigo (amoroso) é”; a decoração do universo é uma poesia de amor aos seres humanos, o instinto messiânico do animal/mãe para com o filhote é a impressão do amor sacrificial como pedagogia do amor Divino; o amor está no cheiro, no gosto, no tato, no tempo, no espaço, nas oportunidades, nas possibilidades, na vida e na morte! Você leu corretamente; a morte é expressão de amor visto que nela o imperfeito não está eternizado, o pecado não arraigado para sempre, a destruição não está imposta como ponto final na história, isso é amor!

Visto que assim é e assim se faz, amar é o caminho natural e coerente para todo aquele que compreendeu o sentido do universo, pra quem percebeu o propósito da vida! Amar é o dom que Deus dá a quem não se acorrenta pelo egoísmo, ódio, indiferença e violência; embora até estes em alguma instância sejam capazes de experimentar o amor que é fruto da graça e do aviso Divino do caminho a seguir.

Assim sendo, amar é o propósito de viver! Sem amor nenhuma boa decisão possui significado nem recebe estrutura capaz de se sustentar no fogo da provação na avaliação das obras, com amor todas as boas decisões ganham tal sustentação! Em amor o suicídio de si mesmo pelo outro é heroico, sem amor ainda que entregue meu corpo para ser queimado não terá sido mais do que um sacrifício de tolo. Em amor toda oferta é bem vinda, sem amor toda entrega se torna vã e religiosamente vazia.

Santo é quem ama! Santificado está aquele que encarnou o amor nas múltiplas dimensões da existência. Não há maior amor ou santidade do que dar a vida pelos irmãos! Negar-se, substituir-se pelo outro por amor, escolher andar mais lentamente por estar carregando alguém nos ombros, interceder junto à uma autoridade por causas que não trazem benefícios a si mesmo, ajudar alguém oferecendo de si voluntariamente além daquilo que se podia sendo este alguém incapaz de lhe retribuir de alguma forma!

O verdadeiro santo não exalta a si mesmo pois o amor, que é a base de seu ser, só se interessa na promoção das qualidades do outro; tal ser amadurecido no amor não busca uma posição de status, poder, influência gananciosa, sua busca é por servir cada vez mais os de perto e os de longe, os amigos e os que se fazem seus inimigos, os fáceis e os difíceis, os cultos e os ignorantes; é uma vocação que não está condicionada ao tempo e ao espaço, é uma consciência que está iluminada pela eternidade!

Encerro aqui, dizendo que ser santo é amar, e que amar é possível a todos os homens que se submetem conscientemente ou por uma intuição da graça de Deus Àquele que essencialmente é amor. Santo não é aquele que a sociedade confere tal título, aliás o ente amoroso e santificado nem busca sair do anonimato de forma que nem mesmo sua mão direita sabe o que a esquerda está fazendo. Certamente por acidente, alguns santos foram registrados nos anais da história e suas trajetórias são bem conhecidas por todos. O fato é que maior do que os santos documentados, são os santos que estão gravados na memórias dos que por eles foram amados! Os santos aguardam a coroa da Justiça que não é fabricada por mãos artesanais humanas, mas sim por Aquele que supera os séculos e que sonda os corações! Santifiquemo-nos pois e transformemos o mundo das pessoas amando-as intensamente!

Santificação ou Santidade?

Gostaria de apresentar uma síntese, visto que, não posso compreender a extensão deste complexo processo e, todavia se minha capacidade de interpretação fosse mais eficiente, provavelmente ainda apresentaria uma elucidação imperfeita. Como mau interlocutor não tenho a pretensão de esclarecer dúvidas, mas apenas apresentar novos prismas. Não sou cientifico e acredito que isso possa excitar você caso também seja um  tarado existencial. Espero que não entenda minha reflexão como exageradamente filosófica, pois, a fiz para fins de edificação.

Acredito que a santidade é um processo de plenificação. No momento em que escrevo “plenificação”, meu corretor ortográfico não aceita a palavra, e entendo, quem sabe precocemente, que não se trata de insuficiência de expressão de nosso idioma, mas, de um dilema de nossa existência, o que nos deixa com poucos escapes interpretativos. A palavra pleno designa coisas que são por si só.

O sagrado trata de objetos ou pessoas  “coisadas” consideradas figuras místicas ou sacralizadas por instituições ou grupos. Já o santo é pleno, não instituído por pessoas ou tempos mas apenas pela vontade de Deus. Partindo destas pré-suposições seriamos obstinados e frustrados, pois realmente percebemos que na vida as coisas não funcionam bem assim, e, apesar disso, Deus não se esquece de sua criação e como gesto de amor se sacrifica “pagando” o preço de nos suportar para que sua vontade seja recebida.

Esta afirmação coloca em choque as bases da vida, visto que, agora que as coisas são plenas ainda vemos e vivenciamos as catástrofes (não apenas no sentido natural), mas das personalidades e das consciências humanas que persistem em se aprofundar na própria e deliberada estupidez gerando diversas crises reais.

Importante é não confundirmos realidades com circunstâncias, visto que as circunstancias são reações e a perspectiva de uma realidade plena precisa ser percebida. Para tanto é necessária uma sensibilidade capaz de nos desconjuntar em nossa interioridade mortificada plenificando nossa existência como reação ao tempo e à vida.

Agora pensamos em como engatinhar na plenitude, visto que o pleno (teoricamente) não admite processos de plenificação e a santidade é uma característica integral. Neste momento vejo apenas Cristo, o único ser integral, como um ponto de partida e de chegada. Para que eu seja integral devo abraçar meus princípios e entender que já fui – enquanto um filho de Deus – redimido pela cruz, santificado, e devo permanecer e crescer em consciência e pratica para que assim minha percepção enquanto perspectiva se torne gestora da minha vida para uma nova dimensionalidade (ou observação). Caminhar com integralidade demanda exposição de defeitos (como a única coisa da qual devemos nos gloriar). Não por crer que agora que vivemos para a liberdade, plenitude e santidade sejamos perfeitos – pois não é esta a perspectiva do evangelho – mas por desejar ser totalmente habitado pela plenitude de Deus mesmo com nossas  limitações (para que não nos gloriemos das obras e reconheçamos que somos fracos e fortalecidos pela graça).

Viver em plenitude é entender e procurar a verdadeira realidade, que é a do amor em lugares impossíveis aos nossos olhos, por entender que somos constantemente inundados por um Deus onipresente e onipotente, e que das suas indescritíveis características, a mais relevante que nos foi comunicada e pode ser vivida é o Amor. Vale ressaltar que para viver a santidade é necessário estruturalmente a fé em nossa composição, pois sem ela perdemos a perspectivas do pleno e do eterno. Outra observação válida é a de que as crises existenciais são certas, e não são elas que determinam o nível de envolvimento do ser humano com a plenitude, mas, como já dito, a fé e o amor são estes parâmetros, pois, a consciência em Cristo nem sempre nos eleva, mas, mantém a firme convicção na esperança da plenitude da qual participo.

Temos apenas verrugas de plenitude implantadas dentro do nosso ser, mas diante da existência entendo que qualquer porção é porção e que o grande na verdade é o verdadeiro.

Santificação é se apaixonar pela vida e pelas suas formas e essências, entender que em tudo Deus está, e como reação desta grande loucura aprender a amá-lo. Devemos recriar-nos e reconstruir-nos após os quebrantamentos, afim de simplesmente encontrar a essência de Deus. Que possamos ter uma fé independente do visível e das garantias, apegada ao eterno, não conhecido mas revelado.

Embora havendo tentado elucidar meu ponto de vista em relação ao tema, exponho como minha experiência diária as frustrações que sofro, pois, constantemente levo rasteiras enquanto me apego a esta perspectiva. Entendo que os elementos fé, amor, santidade, devem ser compreendidos e vivenciados. Deparamo-nos com a natureza pecaminosa administrando os nossos dias, nos consumindo pelos frutos da auto justificação, afundando as nossas perspectivas e, nestas horas, vejo que a santidade deve ser protagonizada por nossa consciência e a redenção deve ser a única ferramenta a permitir nossa permanência nesta caminhada. Como disse no inicio, a cruz deve ser o nosso ponto de partida, de condução e chegada, pois, embora a plenitude seja completa, ainda pode apenas ser habitada, e como não somos plenos, pela graça somos salvos.

Assim Santidade é uma simples perspectiva, ela nada mais é do que uma caminhada, e caminhada de consciência e fé em Jesus.

 

 

V.M.D Brito

Anseios…

2Recomeçar, reencontrar, fazer perdurar…para não esquecer.
Encontros, reencontros e desencontros; começar e recomeçar; não esquecer o que passou e o que não ficou pra trás; fazer novo/a todas as coisas e preencher espaços, buracos vazios, corações e mentes; lembrar sentindo dor e alegria, as nostalgias da via; firmar eternas alianças e presentes relacionamentos; evocar o Eterno ao circulo dos réus pensantes e vagantes num “interior” de muitas riquezas e pobrezas; evoca-lo sempre que respirar e entende-lo presente mais que ausente, dentro mais que fora; Unidos na diversidade e munidos de humildade e presteza, sendo sinceros todo tempo e aprendendo a humanização e a ser humano, identificados com o pó da vida terrena e com o pó celeste do céu…

 Rafael Campos