Santidade: Uma Pratica de Vida

A santidade não é simplesmente uma ideia filosófica, é uma prática de vida. Ela é uma mudança tão radical na maneira de viver do homem, que Cristo é magnificado. Significa viver de forma tão parecida com Cristo que as pessoas podem até ser confundidas com Ele. Se a santidade que você está vivendo não mudar as coisas mais práticas e simples do seu dia a dia, você enganará a si mesmo com superficialidades.

Uma das práticas da santidade é a humildade. Para querer aprender e buscar o conhecimento, nós precisamos ter sede de aprender a Palavra.

A submissão também é uma das práticas da santidade. Um cristão que vive santidade é aquele que aprende e pratica a submissão.

Se realmente você entende santidade como uma vida fora dos padrões do mundo terá, então, que dar atenção à questão da submissão. Alguns rotulam santidade como somente se abster da prostituição e da idolatria e por isso, mesmo não se prostituindo nem praticando a idolatria, continuam sendo pedra de tropeço para a conversão de seus familiares e desagradando a Deus.

Mas o que é submissão? De acordo com o dicionário bíblico, submissão é um termo militar grego que significa “organizar [divisões de tropa] numa forma militar sob o comando de um líder”. Em uso não militar, era “uma atitude voluntária de ceder, cooperar, assumir responsabilidade, e levar uma carga”. Em palavras simples, submissão é obediência. Todo aquele que nasce de novo deve aprender o “abecedário” do cristão, que é a obediência.

Em primeiro lugar devemos obediência a Deus, nosso Pai e Senhor. Não existe vida cristã sem obediência a Deus, isso é tão óbvio quanto a cor do cavalo branco de Napoleão. Em Atos 5.29, Pedro declara: É mais importante obedecer a Deus do que aos homens. Mas você não pode se esquecer que a obediência a Deus está intimamente ligada à obediência aos seus pais e líderes. O apóstolo Pedro fala sobre essa relação entre a obediência a Deus e aos pais e líderes em sua primeira epístola, veja este versículo: “Sujeitai-vos a toda autoridade humana por amor do Senhor” (1 Pedro 2.13a)

Encorajo você a ler toda a epístola depois. Se a submissão aos líderes é uma ordem de Deus, eu só obedecerei a Deus se eu estiver me submetendo aos meus líderes. Seus primeiros líderes são seus pais. Depois de Deus eles são seus principais líderes e a eles você deve obediência. A única exceção que existe para não obedecer aos seus pais e líderes é se eles o mandarem pecar, pois desse jeito você violará a obediência a Deus, fora isso, obedeça sempre.

Por que ser submisso? Essa é a vontade de Deus e ela é sempre boa, perfeita e agradável. Fazendo o bem, sendo obedientes as autoridades, você cala as pessoas que depõem contra os cristãos. O nome de Deus muitas vezes é blasfemado por causa de pessoas que se dizem cristãs, mas estão sempre envolvidas em rebelião e outras condutas contrárias à Palavra. Alguns ainda não experimentaram a conversão de seus familiares, pois, mesmo sendo assíduos à reunião da comunidade, não são obedientes dentro de casa e dessa forma, fazem com que seus familiares blasfemem contra o nome de Deus.

A liberdade que temos é para o serviço de Deus e não para quebrar regras. Um dos exemplos que temos de liberdade mal entendida e mal expressada é o movimento hippie. Eles pregavam uma liberdade destrutiva, que era mais uma desculpa para a insubmissão do que a verdadeira liberdade.

Comece a mudança hoje mesmo em sua casa, com atitudes simples como praticar a honra. Honrar é reconhecer a dignidade e posição que seus pais têm sobre a sua vida. Valorize os seus pais, não somente com palavras, mas com atitudes. Pare de depreciar e menosprezar sua família para outras pessoas. Já ouvi muitos jovens falando mal de sua família e de seus pais, e isso é um comportamento que desagrada a Deus. Nenhuma família é perfeita, mas toda família tem valor.

Você verá a luz de Deus entrar na sua casa quando você começar a praticar a submissão. A atitude bíblica de submissão trará credibilidade para sua vida e sua mensagem. Enquanto na sua casa as pessoas não virem mudança nas suas atitudes, suas palavras serão vazias de credibilidade e unção.
Guarde em seu coração: A santidade verdadeira o levará a ser um exemplo até mesmo daqueles que já deram mau exemplo!

ORAÇÃO: AMIZADE COM JESUS CRISTO

Penso que os questionamentos nos movem. Eles nos levam para além do que somos e de onde estamos. Isso porque questionar é ir além do refletir. É ter a coragem de adentrar terrenos desconhecidos e de encarar novos desafios. E diante destes que nos cercam, uma que nos confronta é a questão do renovar.

O renovar-se exige de nós a ousadia de buscar o novo no velho, fazendo-nos assim, sair das nossas zonas de conforto. Verdade é que poucos trilham este questionador e ousado caminho. James Houston foi um dos que corajosamente adentrou esse terreno na busca do novo em relação ao velho caminho da oração.

Escocês, profundo conhecedor e pioneiro no campo da espiritualidade cristã, fundador e professor do renomado “Regente College” onde tem lecionado a cadeira de Teologia Espiritual substituídos por Eugene Peterson; James Houston é considerado um homem sabedor de diversas áreas do conhecimento humano e amigo de C S Lewis.

Sua busca e questionamentos concentram-se no campo da oração como amizade com Deus. Contudo, antes de avançarmos com seu pensamento sobre este assunto, refletiremos na seguinte questão introdutória: O que entendemos por orar?

Tecnicamente, orar é dialogar com Deus todo o tempo. É o que Paulo aconselha aos irmãos em Éfeso, “orarem em todo o tempo” (6:18). Uma curiosidade sobre a oração é que ela é profundamente direcionada por aquilo que cremos e como nos comportamentos. Ou seja, o caráter de nossas orações será marcantemente determinado pelo caráter de Deus, enquanto o conhecemos e o experimentamos.

Orar é articular nossos desejos, vontades e angústias, mas também é fazer nossos pedidos e súplicas a Deus. Noutras palavras, entendemos que orar é falar, falar, falar, falar e falar… com Deus.  Entanto, em (Mt.6:5-8), Jesus faz um comentário surpreendente. O de que, quando oramos devemos fechar a porta do quarto e ir para o mais profundo do silêncio, ou seja, ir para o recluso, para a introspecção.

Assim, para Jesus, oração não é alguma coisa que Deus ouve, mas o que Deus vê. Nesta perspectiva de Jesus, a oração tem muito pouco haver com nossas palavras, mas tudo haver com nosso coração. Portanto, podemos dizer que, a luz de Cristo, a oração é uma experiência de Deus que transcende as palavras, pois estas são limitadas demais para expressar esta experiência do divino. E buscar a Deus no silêncio é construir a verdadeira intimidade com ele. Intimidade esta que é expressa e desenvolvida no relacionamento com Deus.

“Minhas orações, Deus meu, fluem do que não sou. Eu penso que tuas respostas me transformam no que sou”. George MacDonald

O questionamento de James Houston acerca da oração o conduziu ao entendimento de que precisamos de uma teologia que nos desperta para um relacionamento pessoal e verdadeiro com Deus. Noutras palavras, uma teologia que nos aponte o caminho da oração que seja mais pessoal e afetiva, e não apenas acadêmica.

Em seu livro “A oração: O caminho de amizade com Deus”, Houston procura ensinar a orar e cultivar uma amizade com Deus. Ele nos leva a descobrir que orar é mais do que conseguir de Deus aquilo que desejamos, é exercer um relacionamento de amizade com Ele.

O capítulo oito deste livro traz como título “Oração: A amizade com Jesus Cristo” onde o autor fala acerca deste caminho relacional de amizade entre o homem e Deus.

“Dia após dia; dia após dia; Ó querido Senhor, três coisas eu oro: Ver-te mais claramente; Amar-te mais amorosamente; Seguir-te mais de perto; Dia após dia”.

Ele inicia o capítulo dizendo que na realidade do Espírito Santo possuímos tanto a transcendência de Deus, onde ele é o outro distinto de nós em sua divindade; quanto sua imanência, onde seu Espírito é intimamente pessoal, “mais próximo do que a respiração”. Como ambos, ele é o Espírito de Jesus que permanece conosco para todo sempre.

Diz também que à medida que o Espírito trabalha em nossas orações podemos aguardar significativas mudanças, ou seja, a forma pela qual oramos será radicalmente transformada, pois experimentaremos uma maior liberdade de comunicação com Deus, a media em que nos tornamos mais e mais seguros de que ele nos aceita como somos.

Um aspecto destacado pelo autor neste capítulo é a oração e a nossa pessoalidade. Ele argumenta que a oração como amizade é afetada por nossa educação exatamente da mesma maneira que ocorre com todos os nossos relacionamentos. Assim como nossa personalidade é desordenada, também nossas paixões o serão. Para tanto, o autor explica que a morte de nossa velha natureza nos conduz à novidade e grandeza de vida com consequências inimagináveis.  Ressaltando que nosso trabalho não é suprimir ou esconder nossos verdadeiros sentimentos, como temos feito desde a infância, mas expô-los a Deus de modo que ele possa nos curar e fazer de nós pessoas íntegras.

Outro aspecto destacado aqui é a oração e nossa submissão. Houston entende que a submissão a Deus e aos outros é a chave da oração, pois orar é reproduzir o caráter de Jesus em nós mesmos permitindo que nossa vida seja moldada por ele. Por isso, quando oramos em submissão à vontade de Deus, nossas orações não são mais nossas próprias, expressas de nosso ponto de vista, mas expressas do ponto de vista de Jesus em nós.

A oração e nossa fé também é outro aspecto levantado pelo autor. Através da fé nos apossamos de realidades que não podemos ainda ver ou vivenciar por nós mesmos. Houston tem descoberto que esta é uma jornada pela náusea, sobre um abismo temível. Isso porque Jesus nos guia através dos túneis escuros de nossos medos da infância, de nossas culpas secretas e de outras coisas que temos tentado esquecer e reprimir. Ele diz:

“Com medo do mar, eu fui obrigado a mergulhar nele nos braços de meu Pai. Com receio da fé como um modo de vida, fui privado da estabilidade profissional. Pelo medo de fracassar, tive que ser quebrantado por meio de uma desonra pública. Cada um de nós tem de passar pelo caminho da náusea”.

Segundo ele, o evangelho de João fala que a palavra “crer” expressa um relacionamento contínuo e dinâmico de amizade com Jesus. Nada fazemos sem Ele, e esse caminho de fé significa estar impregnado com a consciência de sua presença o tempo todo.

Outro aspecto destacado pelo autor é a oração e nossa liberdade. Orar em nome de Jesus significa sermos liberto de nós mesmos. Houston diz que o medo é um sinal de nossa possessividade, ou seja, quanto mais auto possessivos ficamos, mais medo sentimos. Por isso, a meditação constante na Bíblia nos liberta de muitos medos e fraquezas; do medo da opinião dos outros; da fraqueza pessoal e das autoindulgências.

Um último aspecto a ser mencionado aqui é a oração e nossa direção. Houston diz que o propósito primário da oração não é, portanto, atender nossas próprias necessidades, tampouco satisfazer nossos desejos, mas glorificar a Deus através do modo que oramos e vivemos. Jesus nos conclama a um propósito específico: que sejamos frutíferos. Todas as nossas orações são subservientes a este objetivo claro. Assim, Jesus nos denomina seus amigos por uma razão: para compartilharmos a outras pessoas a alegria de nosso relacionamento com ele.

O poeta William Blake nos conta que “somos colocados na terra em um pequeno espaço para aprendermos a suportar os raios de amor”. Felizmente, estes também são raios de amor que brilham em nós, ajudando-nos a explorar os abismos da nossa própria insignificância, a remover as máscaras de nosso autoengano, o solo estéril de nossa solidão. Isso somente pode nos acontecer quando estivermos determinados, em humildade, a fazer de nossa vida uma vida de oração.

Concluo dizendo que, por ser quem é, e por sua ousadia em buscar inovar a teologia de um assunto tão discutido como a oração, é que James Houston merece ser ouvido através desta maravilhosa obra literária.

por: Ângela Aleixo

Prolegômeno à Santificação

1959255_10151998451511577_6781849145644319369_nEm princípio, uma definição geral para a ideia que denominamos de santidade cabe como meta inicial. Santidade (palavra hebraica, qadosh), faz referência à “absoluta alteridade de Deus”; é a linha divisória dita radical que nos separa (nós profanos) da divindade. É dessa conceituação que utilizarei para o raciocínio abaixo.

            A santidade nos diz acerca de…, aponta para alguém que não somos nós. Refere-se àquele que é o “totalmente outro” e não compartilha plenamente dessa glória com a humanidade. Mas lembremo-nos que somos santificados. Sua extensão, a santificação, faz menção a um ato ou processo, um meio de fruição contínua entre Deus e a humanidade. É aqui que nos encaixamos no plano divino em Cristo e somos atingidos sorrateiramente, como numa piscadela.

            Jesus não disse nada explicitamente sobre a santificação, mas disse sobre o santificador. Sempre associo tal ação ao Espírito e lembro-me sempre da grande perícope no evangelho de João 14-16. Ali, o Paracletos é reconhecido e autenticado por Jesus como “Espírito da verdade” (14. 16-17); no verso 26, como o “Espírito que é Santo”; em 15. 26-27 está associado à verdade e tem como função dar testemunho de Jesus; em 16. 7-11, o Espírito é responsável em estabelecer no mundo a consciência de culpabilidade e nos guiar em toda a verdade (na verdade inteira) que Ele ouviu do Pai, anunciando as coisas futuras dentro do presente (v. 13) e glorificando a Jesus em sua proclamação (v. 14-15).

            O ato de nossa santificação está relacionado inteiramente com essa pessoa prometida por Jesus e que vem/veio fazer morada em nós. Somos levados a um senso do sagrado, do transcendente, de sua santidade que nos inspira ao respeito, ao fascínio a ao terror (numinoso). Somos tocados pelo “sagrado”, mas não só tocados, somos inundados por esse Espírito que, consequentemente, nos religa ao Eterno. Ele nos traz profundo sentido de direção, entendimento, juízo, e uma percepção nova da vida. O teólogo Wunibald Muller diz, a esse respeito, que somos envolvidos por uma “camada protetora e criadora de sentido”, como a camada de ozônio que protege a Terra e toda vida que nela existe. Um sentido divinatório é criado a partir desse envolver, o que gera uma mudança em nossa faculdade de sentir e perceber, de direção e caminhar.

            Com tudo isso, quero dizer que, somos levados a pôr o Filho de Deus no centro de nossa vida e existência. Passamos a entender que santificação “se faz” no presente momento em que uma realidade, além da realidade presente, se abre à nossa consciência de “nova criação” em Cristo. Acontece uma interpelação e, a partir dela, nosso olhar já contempla uma vida sem Cristo, nossa união com Cristo e um caminho de santidade a percorrer até a glorificação.

            Assim, a santificação se mostra como um caminho a percorrer. Não apenas trilhar uma trilha moldada a partir da nossa antiga criação. Não somos levados a fazer, olhar, agir diferente de tudo o que fazíamos como velha criatura. Somos, sim, conduzidos com a lente do Espírito a interpretar a antiga realidade juntamente com a nova e, assim, obter a verdade. Isso nem sempre anula as antigas expectativas, os antigos comportamentos, as amizades, etc…; pode autenticar e potencializar coisas boas da nossa antiga caminhada. Aqui, no entanto, é a linha tênue entre o que é licito ou não fazer ou continuar a fazer.

            Essa linha tênue se revela que, em santificação também somos livres em Cristo. Essas duas realidades e verdades sobre o cristão não se opõem. A santificação aliada à liberdade para o qual Cristo nos libertou, novamente tem haver com uma consciência que me leva a “ser” e não a viver de ritual em ritual. Se tudo aquilo que entendemos por consciência e suas faculdades foi/é liberta das rédeas e não mais se deixa atar pelos laços da “lei”, das imposições frívolas ou, se já superamos o jogo do que é lícito ou não, finalmente nos livramos dos conflitos de uma realidade maligna e pecaminosa e passamos ao entendimento mais profundo e de propósito da santificação. Mais claro é dizer que não existe um “dogma” para a santificação.

            No entendimento de que em santificação somos livres e isso nos faz perceber a nova dimensão que nos foi outorgada, escolhemos seguir a Cristo. Não somente o seguimos, primeiro paulatinamente, mas abraçamos os desafios de Jesus. Nossa caminhada como peregrinos que somos nesse cosmos – mundo de sistemas malignos – passa a ser conduzido pelo Espírito como uma jornada espiritual. Essa jornada não é apenas mística, mas é conduzida pelo propósito do religare o céu com a terra. Dessa forma, a santificação do cristão ultrapassa questões morais, questões de superação e autoajuda, problemas pessoais e, até, aquela velha mania de alimentar exacerbadamente o ego. Um processo de kenosis (gr. auto esvaziamento) se instala e é iniciado. Essa jornada da santificação, reatando nossa humanidade e abalando as bases da nossa animosidade, nos transforma diariamente a partir das escolhas que passamos a fazer. E se, em santificação escolhemos seguir a Cristo, o caminho não tem muito haver só comigo, mas com Ele e sua jornada nessa terra. Deixamos de seguir a fundo os nossos anseios e utopias dando prioridade ao anseios de Jesus. Em suma, os sonhos, desejos, esforços e cansaços, as palpitações e pulsações do nosso coração, nossas aspirações e tudo o que passamos a ser como nova criação tem a finalidade de instaurar o Reino de Deus, o Reino de Cristo na terra.

            Portanto, o céu não é o nosso destino uma vez que ele se torna nossa missão. Nosso destino, enquanto cumprimos a missão, é conhecer a Cristo e ser conhecido por ele e ser achado nele. Seguir a Jesus é aliar forças com o Espírito em Sua missão e descaracterizar a “velha gente” em prol de “vestir a Cristo Jesus” todos os dias. Eis a santificação!

            Para finalizar esse prolegômeno e destacar a ação diária do Espirito juntamente com nossa consciência que se “veste” e adapta-se a Cristo, a santificação – esse processo pessoal e ativo – sempre me lembra de uma aproximação que idealizo ser coerente com os termos gregos usados para formular a doutrina da Trindade.

            Como criação à imagem e semelhança do Eterno (hommousion, feitos da mesma matéria e substância), somos declarados “muito bom”. A partir de nossa queda, aquilo que era “muito bom” tornou-se “depravado” (Lutero). Fomos corrompidos na nossa ousia (essência) e nossa hypostasis, aquilo que expressamos de nossa ousia, já não agradava a Deus e era mal aos seus olhos. Deus, em Cristo, mediante o Espírito Santo, veio até nós e se fez um de nós, encarnando nossa natureza para nos transformar. E não apenas nos transformar, mas nos dar novamente de sua ousia (extravagante substituição) e, desse modo, começarmos a expressar (hypostasis) Sua ousia no presente até o grande dia em que voltaremos a ser hommousion de Deus.

Rafael de Campos

A Santidade do Amor

A despeito de toda tradição popular que beatifica os que lideraram grandes instituições religiosas ou que contribuíram significativamente para algum setor da sociedade, nos despojemos um pouco, por ora nessa reflexão, dos quesitos que levaram homens e mulheres como Machado de Assis, Pelé, João Paulo II, Toquinho, Martin Luther King Jr. e Madre Tereza, dentre outros, à posição de “santidade” à eles conferida. A razão do meu pedido é a mais simples: quando gastamos tempo demais enaltecendo certos personagens da história, de alguma forma acabamos por nos colocar numa posição inferior, de incapacidade, de infinita pecaminosidade enquanto os exaltamos à inacessibilidade, inatingibilidade e os pintamos assentados nos tronos celestiais.

Certamente, o processo de santificação nada tem a ver com a capacidade de reproduzir os mesmos atos heroicos dos tais, nem mesmo assumir suas personalidades, que são por vezes tão distintas da nossa, ainda que sejam admiráveis e dignas de citação. Quando do Verbo escutamos “sejam perfeitos como o Pai celestial de vocês é perfeito” ou “sejam santos como eu sou santo” ou ainda “eu sou a luz do mundo… vocês são a luz do mundo”, estamos diante da declaração do que nos tornamos quando somos inseridos Nele e ao mesmo tempo é um convite amável ao desafio de viver na máxima intensidade, aquilo que o Verbo possui em sua essência mais profunda: o amor!

Sim, o Verbo é amar. Quem ama conhece Aquele a quem o Verbo disse “somos um”. Podemos dizer que ser santo, ou santificar-se, significa correr à passos largos na direção da prática do amor. Ser amor, fazer amor, pensar amor, manifestar amor! É ser encharcado pelo amor de tal maneira que, tudo o que tem haver com o amor tenha a ver conosco.

Isso de forma alguma anula quem somos, pelo contrário nos aperfeiçoa, nos completa, nos abrilhanta em tudo! Em amor não corremos o risco de nos perder, pelo contrário, no amor nos encontramos, nos desvendamos, nos calibramos, nos tornamos tal qual éramos nos pensamentos do Verbo quando recebemos Dele o “façamos o homem”. Nas intencionalidades do Criador, quanto mais somos amor mais perto estamos da vida, quanto mais nos distanciamos do amor, mais perto estamos da morte!

Todas as leis se resumem no “ame”, as parábolas do Verbo sempre ensinaram o amor por meio do perdão, do acolhimento, da compaixão, da empatia; as profecias mais severas eram pura expressão do amor que avisa as consequências da obediência ou desobediência ao Eterno, pois quem “avisa amigo (amoroso) é”; a decoração do universo é uma poesia de amor aos seres humanos, o instinto messiânico do animal/mãe para com o filhote é a impressão do amor sacrificial como pedagogia do amor Divino; o amor está no cheiro, no gosto, no tato, no tempo, no espaço, nas oportunidades, nas possibilidades, na vida e na morte! Você leu corretamente; a morte é expressão de amor visto que nela o imperfeito não está eternizado, o pecado não arraigado para sempre, a destruição não está imposta como ponto final na história, isso é amor!

Visto que assim é e assim se faz, amar é o caminho natural e coerente para todo aquele que compreendeu o sentido do universo, pra quem percebeu o propósito da vida! Amar é o dom que Deus dá a quem não se acorrenta pelo egoísmo, ódio, indiferença e violência; embora até estes em alguma instância sejam capazes de experimentar o amor que é fruto da graça e do aviso Divino do caminho a seguir.

Assim sendo, amar é o propósito de viver! Sem amor nenhuma boa decisão possui significado nem recebe estrutura capaz de se sustentar no fogo da provação na avaliação das obras, com amor todas as boas decisões ganham tal sustentação! Em amor o suicídio de si mesmo pelo outro é heroico, sem amor ainda que entregue meu corpo para ser queimado não terá sido mais do que um sacrifício de tolo. Em amor toda oferta é bem vinda, sem amor toda entrega se torna vã e religiosamente vazia.

Santo é quem ama! Santificado está aquele que encarnou o amor nas múltiplas dimensões da existência. Não há maior amor ou santidade do que dar a vida pelos irmãos! Negar-se, substituir-se pelo outro por amor, escolher andar mais lentamente por estar carregando alguém nos ombros, interceder junto à uma autoridade por causas que não trazem benefícios a si mesmo, ajudar alguém oferecendo de si voluntariamente além daquilo que se podia sendo este alguém incapaz de lhe retribuir de alguma forma!

O verdadeiro santo não exalta a si mesmo pois o amor, que é a base de seu ser, só se interessa na promoção das qualidades do outro; tal ser amadurecido no amor não busca uma posição de status, poder, influência gananciosa, sua busca é por servir cada vez mais os de perto e os de longe, os amigos e os que se fazem seus inimigos, os fáceis e os difíceis, os cultos e os ignorantes; é uma vocação que não está condicionada ao tempo e ao espaço, é uma consciência que está iluminada pela eternidade!

Encerro aqui, dizendo que ser santo é amar, e que amar é possível a todos os homens que se submetem conscientemente ou por uma intuição da graça de Deus Àquele que essencialmente é amor. Santo não é aquele que a sociedade confere tal título, aliás o ente amoroso e santificado nem busca sair do anonimato de forma que nem mesmo sua mão direita sabe o que a esquerda está fazendo. Certamente por acidente, alguns santos foram registrados nos anais da história e suas trajetórias são bem conhecidas por todos. O fato é que maior do que os santos documentados, são os santos que estão gravados na memórias dos que por eles foram amados! Os santos aguardam a coroa da Justiça que não é fabricada por mãos artesanais humanas, mas sim por Aquele que supera os séculos e que sonda os corações! Santifiquemo-nos pois e transformemos o mundo das pessoas amando-as intensamente!

Santificação ou Santidade?

Gostaria de apresentar uma síntese, visto que, não posso compreender a extensão deste complexo processo e, todavia se minha capacidade de interpretação fosse mais eficiente, provavelmente ainda apresentaria uma elucidação imperfeita. Como mau interlocutor não tenho a pretensão de esclarecer dúvidas, mas apenas apresentar novos prismas. Não sou cientifico e acredito que isso possa excitar você caso também seja um  tarado existencial. Espero que não entenda minha reflexão como exageradamente filosófica, pois, a fiz para fins de edificação.

Acredito que a santidade é um processo de plenificação. No momento em que escrevo “plenificação”, meu corretor ortográfico não aceita a palavra, e entendo, quem sabe precocemente, que não se trata de insuficiência de expressão de nosso idioma, mas, de um dilema de nossa existência, o que nos deixa com poucos escapes interpretativos. A palavra pleno designa coisas que são por si só.

O sagrado trata de objetos ou pessoas  “coisadas” consideradas figuras místicas ou sacralizadas por instituições ou grupos. Já o santo é pleno, não instituído por pessoas ou tempos mas apenas pela vontade de Deus. Partindo destas pré-suposições seriamos obstinados e frustrados, pois realmente percebemos que na vida as coisas não funcionam bem assim, e, apesar disso, Deus não se esquece de sua criação e como gesto de amor se sacrifica “pagando” o preço de nos suportar para que sua vontade seja recebida.

Esta afirmação coloca em choque as bases da vida, visto que, agora que as coisas são plenas ainda vemos e vivenciamos as catástrofes (não apenas no sentido natural), mas das personalidades e das consciências humanas que persistem em se aprofundar na própria e deliberada estupidez gerando diversas crises reais.

Importante é não confundirmos realidades com circunstâncias, visto que as circunstancias são reações e a perspectiva de uma realidade plena precisa ser percebida. Para tanto é necessária uma sensibilidade capaz de nos desconjuntar em nossa interioridade mortificada plenificando nossa existência como reação ao tempo e à vida.

Agora pensamos em como engatinhar na plenitude, visto que o pleno (teoricamente) não admite processos de plenificação e a santidade é uma característica integral. Neste momento vejo apenas Cristo, o único ser integral, como um ponto de partida e de chegada. Para que eu seja integral devo abraçar meus princípios e entender que já fui – enquanto um filho de Deus – redimido pela cruz, santificado, e devo permanecer e crescer em consciência e pratica para que assim minha percepção enquanto perspectiva se torne gestora da minha vida para uma nova dimensionalidade (ou observação). Caminhar com integralidade demanda exposição de defeitos (como a única coisa da qual devemos nos gloriar). Não por crer que agora que vivemos para a liberdade, plenitude e santidade sejamos perfeitos – pois não é esta a perspectiva do evangelho – mas por desejar ser totalmente habitado pela plenitude de Deus mesmo com nossas  limitações (para que não nos gloriemos das obras e reconheçamos que somos fracos e fortalecidos pela graça).

Viver em plenitude é entender e procurar a verdadeira realidade, que é a do amor em lugares impossíveis aos nossos olhos, por entender que somos constantemente inundados por um Deus onipresente e onipotente, e que das suas indescritíveis características, a mais relevante que nos foi comunicada e pode ser vivida é o Amor. Vale ressaltar que para viver a santidade é necessário estruturalmente a fé em nossa composição, pois sem ela perdemos a perspectivas do pleno e do eterno. Outra observação válida é a de que as crises existenciais são certas, e não são elas que determinam o nível de envolvimento do ser humano com a plenitude, mas, como já dito, a fé e o amor são estes parâmetros, pois, a consciência em Cristo nem sempre nos eleva, mas, mantém a firme convicção na esperança da plenitude da qual participo.

Temos apenas verrugas de plenitude implantadas dentro do nosso ser, mas diante da existência entendo que qualquer porção é porção e que o grande na verdade é o verdadeiro.

Santificação é se apaixonar pela vida e pelas suas formas e essências, entender que em tudo Deus está, e como reação desta grande loucura aprender a amá-lo. Devemos recriar-nos e reconstruir-nos após os quebrantamentos, afim de simplesmente encontrar a essência de Deus. Que possamos ter uma fé independente do visível e das garantias, apegada ao eterno, não conhecido mas revelado.

Embora havendo tentado elucidar meu ponto de vista em relação ao tema, exponho como minha experiência diária as frustrações que sofro, pois, constantemente levo rasteiras enquanto me apego a esta perspectiva. Entendo que os elementos fé, amor, santidade, devem ser compreendidos e vivenciados. Deparamo-nos com a natureza pecaminosa administrando os nossos dias, nos consumindo pelos frutos da auto justificação, afundando as nossas perspectivas e, nestas horas, vejo que a santidade deve ser protagonizada por nossa consciência e a redenção deve ser a única ferramenta a permitir nossa permanência nesta caminhada. Como disse no inicio, a cruz deve ser o nosso ponto de partida, de condução e chegada, pois, embora a plenitude seja completa, ainda pode apenas ser habitada, e como não somos plenos, pela graça somos salvos.

Assim Santidade é uma simples perspectiva, ela nada mais é do que uma caminhada, e caminhada de consciência e fé em Jesus.

 

 

V.M.D Brito

Anseios…

2Recomeçar, reencontrar, fazer perdurar…para não esquecer.
Encontros, reencontros e desencontros; começar e recomeçar; não esquecer o que passou e o que não ficou pra trás; fazer novo/a todas as coisas e preencher espaços, buracos vazios, …corações e mentes; lembrar sentindo dor e alegria, as nostalgias da via; firmar eternas alianças e presentes relacionamentos; evocar o Eterno ao circulo dos réus pensantes e vagantes num “interior” de muitas riquezas e pobrezas; evoca-lo sempre que respirar e entende-lo presente mais que ausente, dentro mais que fora; Unidos na diversidade e munidos de humildade e presteza, sendo sinceros todo tempo e aprendendo a humanização e a ser humano, identificados com o pó da vida terrena e com o pó celeste do céu…

 Rafael Campos

Princípio da conversão que deve perdurar por toda vida (Áudio)

Domingo à noite, Everson nos deliciou (por usar seu linguajar) com mais uma pérola Joanina. (Evangelho de João, 1:1-18)

O centro da ideia é o seguinte: Sendo Deus realmente grande, a simples presença (real) dele evaporaria instantaneamente a nossa lista de pedidos com a qual tão insistentemente simplificamos o Criador a um mero fazedor de desejos humanos.

Fiquei pensando em como sou mesquinho e curto de vista. Analisei como o Pai Nosso começa justo como João 1:1, colocando Deus nos céus, inatingível e o reino chegando à terra em Cristo e através da Igreja. E finalmente como a maior parte do tempo, oramos com nós mesmos.

Bom, mas isso é farinha de outro saco.

Ouça por você mesmo.


A paternidade e a pátria

Parece que não faz muito tempo que escolhi ser pai, mas se me ponho a fazer as contas lá se vão 29 anos. Quem quiser uma versão mais leve destas mesmas ideias, dê uma olhada neste outro artigo. A decisão de ser pai é anterior ao chamado ao pastorado e é concomitante com a escolha profissional; deu-se em circunstâncias de plena admiração pelo meu velho.  Lembro que naqueles dias pediram para levar uma foto da personagem que mais admirávamos e, então, levei uma foto 3×4 de meu progenitor. A nossa relação (marcada por um profundo e perpetuo silêncio desde que eu tinha lá meus 8 ou 9 anos), sempre foi no sentido em que eu entendia meu velho, mas sentia como que o contrário não era sempre igual. Faz uns dias liguei para ele por conta do dia do amigo.  Isso porque no âmago da minha definição de gente está a figura do meu pai-amigo, segurando a mão quando eu era um pivete. As minhas primeiras lembranças são com ele. Todas e cada uma das cicatrizes que levo foram feitas estando com ele e de nenhuma delas me arrependo.  As coisas que sei e as que imagino da escritura tem como referencial meu velho que -ao final das contas- soube nos passar bem a teoria da coisa. Todavia, ver as ambiguidades que nele havia, me levaram a tomar a decisão de ser pai. Ou seja, de ser um outro tipo de pai na realidade.  Acessível, compreensivo, presente, interessado, ouvinte, firme, acolhedor.  Me lembro exatamente onde e como estava naquela noite, assim como  o frio invernal uruguaio  batendo no meu rosto. Me lembro da primeira namorada. Ele me apoiou, me bancou, me deixou livre, mas não me aconselhou, não me levou para conversar. Uma única vez me falou sobre o relacionamento marido mulher e falou assim: “quando um homem assume um compromisso com uma mulher, tem que levar esse compromisso até o fim“.  Isso causou um vácuo em mim porque queria dizer -naquela época- que eu não mais podia errar, não podia sequer tentar conhecer uma mulher.  Então decidi beber desse poço de imensa sabedoria ao meu ver, e desse ponto em diante não mais namoraria até que fosse para casar. Casei. Tentei ser e fazer a mulher feliz; tivemos uma filha maravilhosa e um que partiu antes de ver este mundo. Mas esta relação não chegou ao bom termo almejado no inicio. Eu estava, de todo coração, tentando ser um bom filho. Mas nessa relação de paternidade/amizade havia faltado o mais relevante: o diálogo. Hoje eu entendo meu pai. Eu sei que ele não estava falando para mim ou de mim.  Estava falando dele mesmo e de sua frustração particular. Seu poço silencioso e solitário se tornara insuspeitavelmente estreito e, do alto (ou do fundo) da sua meia-idade, observava como se esvaiam os últimos anseios de felicidade elaborados durante a juventude. O mais difícil e perfurante no processo de queda, separação, solidão, divorcio, não foram as noites sem dormir nem a falta de apetite. Não foi também o sentimento de culpa nem os olhares fulminantes dos que tinham formado um ideal além da minha capacidade e, agora, não tinham outra opção a não ser mudar de lado na rua quando me viam andando. O que mais doía era não poder estar com minha filha no final do dia. Abraça-la, faze-la dormir, aconchega-la nas noites de chuva, assistirmos um bom filme juntos, ou andar de mãos dadas. Isso até hoje me faz falta, pois, de ser o homem que transmitia segurança, passei a ser o traidor dos sonhos infantis de uma menina inocente. Continuei então a trabalhar com o que tinha sobejado: acessibilidade, compreensão, diálogo, presença sempre que possível e graça, muita graça. Me expus ao ridículo e à critica pública por passar tempo demais na casa da ex porque era ali que minha filha estava; mas era o preço a ser pago para -de alguma forma- suprir o que eu mesmo tinha tirado. A ninguém, mais do que a mim mesmo, chamo como responsável pelo que aconteceu. E com isto também não assumo culpas que não me pertencem, mas como homem-adulto-cristão, eu mesmo respondo pela minha conduta. Vieram mais dois filhos com a atual esposa. Um já pronto e outro por fazer. Enquanto ando nesta vida, tento com os três, ser o pai que me propus há 29 anos.  Não do cume de uma suposta perfeição imarcescível e inatingível, mas de um simples homem que se reconhece pecador, falho e principalmente carente da graça divina. Aos que já são avós, esqueçam o que para atrás fica. Seja o melhor vó/vô possível. No fim das contas, somos a única espécie que tem chances de ver os filhos dos netos crescerem. Aos que são pais, esqueçam o que para atrás fica. Enquanto seus filhos estão em idade de estar perto de você, esteja você perto deles. Converse, dialogue, ouça, olhe, conheça, espere, mime, anime, exija, alente, motive, se exponha. Aos que ainda não são pais, esqueçam o que para atrás fica. Observe seu velho, veja como ele vive, fique com a melhor parte do bolo. Você pode escolher só reproduzir aquilo que seu pai faz de bem. Seu pai não está por perto? Não se preocupe. A imagem de “pai” está bem guardada no seu inconsciente, o arquétipo do que é um pai e de como deve comportar-se estão lá.  Seja então aquilo que você mesmo não teve para seus filhos que ainda estão por vir. E finalmente, não perca de vista que -como diz o tango- “vinte anos é nada“; ou seja, o tempo passa muito rápido.  Relaxe, curta o fato de ocupar a função mais gritantemente necessária na época que vivemos: Ser pai. Não se acanhe. Não morgue. Não adie. Não envileça. Não tema. Não retroceda. Não suma. Não desanime. Não se envergonhe. Viva, curta, desfrute, ame, compartilhe. E seja pai onde lhe tocar ser pai e do melhor jeito porque ali onde você é pai, fique tranquilo que ali e só ali, será sua pátria.

Uber pater sum, ibi pátria (Aurora, Friedrich Nietzche)

Se existirem alienígenas, eles tem medo da gente?

Meu filho costuma pensar demais em algumas coisas. Nesse pensar tão livre que só as crianças tem me veio com essa o outro dia: Se existirem alienígenas, eles tem medo da gente?

Para ele o fato de existir ou não vida de um jeito similar à que conhecemos aqui fora do nosso planeta, é um problema secundário de face à possibilidade de serem eles os que tenham medo de nós e não ao contrario.

Bom, de inicio isso arruína certos produtores de Hollywood que tem gasto imensas fortunas (e ganho muito mais ainda) em filmes que evocam o terror no populacho (e em algumas mentes auto-intituladas eruditas), mas abre o leque de opções para os psicólogos siderais de plantão. Que tipo de monstro somos nós os seres humanos que temos a faculdade de arruinar o sono desses alienígenas ainda por conhecer?  Alienígenas por conhecer: somos seu maior pesadelo.

E o pior que se formos ver o jeito em que tratamos a natureza que nos é comum, os nossos vizinhos, o bem público, os nossos filhos; se tirassem uma instantânea dos nossos pensamentos mais solitários e livres; se de alguma forma uma tomografia espiritual da nossa alma pudesse ser feita, causaríamos espanto não só nos supostos alienígenas, mas em nós mesmos.

Um dos versículos que mais resisti na vida adulta é o de Jeremias 17:9

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?

Ou como diz a versão católica: Nada mais ardiloso e irremediavelmente mau que o coração. Quem o poderá compreender?

Digo resisti assim a boca de jarro por ser a melhor e mais simples forma de descrever os malabares de interpretação que tinha que fazer para lidar com um texto tão simples e direto.  A Navalha de Occam me cortava por tudo quanto é lado, mas eu resistia pois havia em mim uma necessidade diabólica de coerência que me impedia aceitar o obvio: Nosso coração (a base das nossas decisões no antigo testamento) está fatalmente enfermo pelo pecado.

É claro que há algo de Agostinhano na minha atual perspectiva mas não está certo?  Não vemos na nossa caminhada que nos pegamos pensando em termos enganosos em incontáveis momentos?  Somos então filhos do inferno?

Minha conclusão é que não.  Mesmo sendo filhos escolhidos de Deus (assim como os Judeus alvo do texto de Jeremias) amamos o pecado.  O cobrimos, acobertamos, e nos auto-enganamos.  Quando expostos, negamos, reclamamos, nos lamentamos e renegamos de tudo. Então qual a diferença? O que distingue o impio do cristão?

Bom, a diferença está em que o ímpio sente paz quando consegue safar-se do castigo (mesmo que seja o terreno, até porque não lhe interessa se há ou não outro).  Já o filho, só sente paz na confissão. Algumas pessoas se confundem dizendo que o perdão só é dado com base no arrependimento.  Se bem é certo que o arrependimento é uma mudança de mente, uma mudança de rumo, uma alteração consciente do sentido que a vida está levando; é certo que o texto bíblico associa o perdão dos pecados (e Do Pecado) à confissão. (1Jn1:9 ou se preferir, NVI)

Por favor, me entenda bem, o arrependimento é necessário, mas a base dessa mudança de conduta é a confissão. Isto é, a concordância com a opinião que o Criador tem ao respeito de nós mesmos e nossas ações.

E eis aqui que temos mais uma coisa: a distinção entre o que fazemos e somos. Modificar o que fazemos não leva a mudanças internas. Uma pessoa pode parar de se prostituir porque é mau para a saúde, ruim para os filhos e péssimo para os negócios mas não porque macula a imagem do Cristo na vida do indivíduo e por consequência na sociedade ou porque é um empecilho no relacionamento com o Deus criador que é santo e não pode compactuar com o pecado.

Já a mudança interna promove uma confissão direta do nosso pacto particular com o pecado como forma de vida, essência e objeto de culto. Por sua vez, é essa confissão a que promove mais mudanças internas que podem abrir o caminho para uma reformulação de caráter em que o Cristo possa aparecer no viver do cristão (mesmo que no inicio seja ocasionalmente) o que por sua vez promove maiores mudanças.

Simplificando: enquanto vivemos sem pensarmos em nós mesmos e na nossa essência, não assustamos ninguém. Assim que pensamos acontece de duas uma: ou nos acomodamos melhor com a própria perdição ou empreendemos uma longa jornada de descoberta do Cristo largamente lastreada no processo de confissão e arrependimento que nos pode levar a uma reformulação do caráter.

Repare na universalidade deste principio.  Não está limitado a idade, sexo, bagagem religiosa, localização geográfica ou grau de instrução. Não interessa se você é o diretor bem sucedido de uma excelente empresa que cumpre seu papel com responsabilidade social e civil, ou se é um presidiário cumprindo uma longa pena. Todos nós partilhamos da mesma essência caída em Adão e a graça de Cristo é abundante para te levar do estagio em que você está ao seguinte que ele queira te levar.

 

Na penumbra da vida

Viajando pelo interior do Paraná, sentado numa poltrona confortável de um ônibus que cruzava paisagens encantadoras e exuberantes, verdadeiras obras de arte que pareciam pincelar a “tela” da janela com verdes de todos os tons, disputava minha atenção um filme no interior do veículo.  A história era um fato real. Um rapaz cego de nascença, convencido pela mulher que amava, se submeteu a uma cirurgia que pretensamente lhe daria o privilégio da visão. A promessa se tornou uma realidade temporária e este, que até então vivera no mundo da escuridão, começou a enxergar e imergir num mundo confuso de cores e imagens. Lidar com a visão se tornou algo interessante e curioso no enredo. Diferenciar entre fotos e objetos tridimensionais à distância era um enorme desafio, já que o cérebro precisava processar imagens com sentido de profundidade. A história ascendeu a picos de emoção e alegria e despencou numa angústia sem fim ao se deparar com a cruel realidade do retorno da ausência de luz.

A importância da visão foi representada no filme de forma clara e deu a chance de perceber que há uma vulnerabilidade explícita no processo de percepção da luz. As sombras que se interpõem entre o olhar e o ver são como nuvens carregadas que hora nos permitem vislumbrar formas e cores (nem sempre completamente compreendidos), hora nos bloqueia completamente a percepção. As coisas continuam lá, mas simplesmente as deixamos de enxergar. O olhar e o ver se distinguem plenamente quando um não corresponde mais ao outro. Vultos vazios se movimentam no escuro marcando espaços antes muito bem definidos.

Numa razão inversamente proporcional ao filme em questão, aquele que nasce vendo, pode terminar seus dias mais próximo de quem jamais viu.

O trânsito que flui da luz para as sombras parece ser o movimento inevitável do desgaste físico. Aquilo que antes era envolto em clareza e facilidades agora, a passos lentos, mas contínuos, entra pelas terras dificultosas das sombras. Lugar este que antes insistia em assumir o pseudônimo de “terra do nunca”; agora percebe que o que era um vigoroso “nunca”, perde suas fantasias se tornando cada vez mais o fatídico “sempre”. Envelhecer parece ser, entre outras coisas, o implacável processo minguante da percepção da luminosidade.

Na contra mão do tráfego inevitável, pelo qual viaja o expresso que carrega todos nós, está a proposta da vida cristã de vislumbres do divino. Neste projeto que convida ao mundo de percepções, o elemento essencial para a luz se apresenta como sendo a santificação. O ato da santidade traz consigo a recompensa da iluminação: “buscai a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Visão e santidade têm tudo a ver na vida cristã e estão relacionados numa proporção paralela. Quanto mais santidade, mas percepção do divino.

Uma vez mais faz se a diferença entre olhar e enxergar. As realidades mais concretas da beleza da vida estão plenamente expostas diante de todos. Poucos são os que lavam seus olhos no colírio da santidade e assim contemplam o divino exuberante em sua multiforme exposição diante de nós. O antigo legislador já clamava em sua fome pela contemplação do divino. “Ninguém pode ver a minha face e viver” advertia a divindade que se revelava e se velava.

A construção da história culminou na expressão mais vívida do divino. O rosto queimado do peregrino afirmava: “quem vê a mim, vê ao Pai”. Mas como perceber o Pai numa figura tão humana? Só mesmo a santidade poderia providenciar tal visão.

Os anos se passam e o que permanece é o desafio de enxergar. Ver a Deus não parece ser somente uma questão relegada a um futuro escatológico que guarda sua percepção para o dia de amanhã. A ótica que se deslumbra na contemplação do divino se faz possível hoje. Ela é vulnerável, como todo processo de percepção da luz. Sua amplitude, sua clareza e sua qualidade são sempre processos circunstanciais dependentes da negação de si mesmo. Nesta via, sujeita a todas intempéries da existência humana, hora a luz perpassa por todos os lados de nosso órgão sensorial, hora ela se obscurece pelas muitas nuvens de nossos retrocessos.

Ver a Deus é um privilégio daqueles que são banhados pela luz da santidade. Para estes, as paisagens pitorescas de exposição da divindade podem ser percebidos até nos cantos mais “insignificantes” do quadro de cada dia. É tamanha sua beleza, que pouco a pouco ocupa todos espaços de nossa movimentação. Nas mais variadas formas, expressas em cores de tons tão distintos e sutis, cada pedaço da vida traz revelações inimagináveis da presença do divino. Ele está lá, às vezes estampado em cartazes quilométricos de dimensões imponentes; às vezes pontilhado em minúcias apresentadas estrategicamente em proporções milimétricas. Alguns o veem, outros tropeçam nele sem o perceber. Mas ao observador perspicaz, a recompensa é imediata. A cada vislumbre um encanto, a cada encanto um êxtase, a cada êxtase uma porção a mais de vida. Talvez a vida abundante seja isso – a capacidade de contemplar e se deliciar no divino no desenrolar de cada dia.

Ele está lá. Pena que muitos não o vejam. Quem tem olhos para ver, veja. Neste processo alguns desfrutam da promessa: Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus.

A diferença entre ver e não ver está no privilégio de se santificar. Isto é o que define quem vive a vida e quem simplesmente passa por ela.

Everson Spolaor