Princípio da conversão que deve perdurar por toda vida (Áudio)

Domingo à noite, Everson nos deliciou (por usar seu linguajar) com mais uma pérola Joanina. (Evangelho de João, 1:1-18)

O centro da ideia é o seguinte: Sendo Deus realmente grande, a simples presença (real) dele evaporaria instantaneamente a nossa lista de pedidos com a qual tão insistentemente simplificamos o Criador a um mero fazedor de desejos humanos.

Fiquei pensando em como sou mesquinho e curto de vista. Analisei como o Pai Nosso começa justo como João 1:1, colocando Deus nos céus, inatingível e o reino chegando à terra em Cristo e através da Igreja. E finalmente como a maior parte do tempo, oramos com nós mesmos.

Bom, mas isso é farinha de outro saco.

Ouça por você mesmo.


A paternidade e a pátria

Parece que não faz muito tempo que escolhi ser pai, mas se me ponho a fazer as contas lá se vão 29 anos. Quem quiser uma versão mais leve destas mesmas ideias, dê uma olhada neste outro artigo. A decisão de ser pai é anterior ao chamado ao pastorado e é concomitante com a escolha profissional; deu-se em circunstâncias de plena admiração pelo meu velho.  Lembro que naqueles dias pediram para levar uma foto da personagem que mais admirávamos e, então, levei uma foto 3×4 de meu progenitor. A nossa relação (marcada por um profundo e perpetuo silêncio desde que eu tinha lá meus 8 ou 9 anos), sempre foi no sentido em que eu entendia meu velho, mas sentia como que o contrário não era sempre igual. Faz uns dias liguei para ele por conta do dia do amigo.  Isso porque no âmago da minha definição de gente está a figura do meu pai-amigo, segurando a mão quando eu era um pivete. As minhas primeiras lembranças são com ele. Todas e cada uma das cicatrizes que levo foram feitas estando com ele e de nenhuma delas me arrependo.  As coisas que sei e as que imagino da escritura tem como referencial meu velho que -ao final das contas- soube nos passar bem a teoria da coisa. Todavia, ver as ambiguidades que nele havia, me levaram a tomar a decisão de ser pai. Ou seja, de ser um outro tipo de pai na realidade.  Acessível, compreensivo, presente, interessado, ouvinte, firme, acolhedor.  Me lembro exatamente onde e como estava naquela noite, assim como  o frio invernal uruguaio  batendo no meu rosto. Me lembro da primeira namorada. Ele me apoiou, me bancou, me deixou livre, mas não me aconselhou, não me levou para conversar. Uma única vez me falou sobre o relacionamento marido mulher e falou assim: “quando um homem assume um compromisso com uma mulher, tem que levar esse compromisso até o fim“.  Isso causou um vácuo em mim porque queria dizer -naquela época- que eu não mais podia errar, não podia sequer tentar conhecer uma mulher.  Então decidi beber desse poço de imensa sabedoria ao meu ver, e desse ponto em diante não mais namoraria até que fosse para casar. Casei. Tentei ser e fazer a mulher feliz; tivemos uma filha maravilhosa e um que partiu antes de ver este mundo. Mas esta relação não chegou ao bom termo almejado no inicio. Eu estava, de todo coração, tentando ser um bom filho. Mas nessa relação de paternidade/amizade havia faltado o mais relevante: o diálogo. Hoje eu entendo meu pai. Eu sei que ele não estava falando para mim ou de mim.  Estava falando dele mesmo e de sua frustração particular. Seu poço silencioso e solitário se tornara insuspeitavelmente estreito e, do alto (ou do fundo) da sua meia-idade, observava como se esvaiam os últimos anseios de felicidade elaborados durante a juventude. O mais difícil e perfurante no processo de queda, separação, solidão, divorcio, não foram as noites sem dormir nem a falta de apetite. Não foi também o sentimento de culpa nem os olhares fulminantes dos que tinham formado um ideal além da minha capacidade e, agora, não tinham outra opção a não ser mudar de lado na rua quando me viam andando. O que mais doía era não poder estar com minha filha no final do dia. Abraça-la, faze-la dormir, aconchega-la nas noites de chuva, assistirmos um bom filme juntos, ou andar de mãos dadas. Isso até hoje me faz falta, pois, de ser o homem que transmitia segurança, passei a ser o traidor dos sonhos infantis de uma menina inocente. Continuei então a trabalhar com o que tinha sobejado: acessibilidade, compreensão, diálogo, presença sempre que possível e graça, muita graça. Me expus ao ridículo e à critica pública por passar tempo demais na casa da ex porque era ali que minha filha estava; mas era o preço a ser pago para -de alguma forma- suprir o que eu mesmo tinha tirado. A ninguém, mais do que a mim mesmo, chamo como responsável pelo que aconteceu. E com isto também não assumo culpas que não me pertencem, mas como homem-adulto-cristão, eu mesmo respondo pela minha conduta. Vieram mais dois filhos com a atual esposa. Um já pronto e outro por fazer. Enquanto ando nesta vida, tento com os três, ser o pai que me propus há 29 anos.  Não do cume de uma suposta perfeição imarcescível e inatingível, mas de um simples homem que se reconhece pecador, falho e principalmente carente da graça divina. Aos que já são avós, esqueçam o que para atrás fica. Seja o melhor vó/vô possível. No fim das contas, somos a única espécie que tem chances de ver os filhos dos netos crescerem. Aos que são pais, esqueçam o que para atrás fica. Enquanto seus filhos estão em idade de estar perto de você, esteja você perto deles. Converse, dialogue, ouça, olhe, conheça, espere, mime, anime, exija, alente, motive, se exponha. Aos que ainda não são pais, esqueçam o que para atrás fica. Observe seu velho, veja como ele vive, fique com a melhor parte do bolo. Você pode escolher só reproduzir aquilo que seu pai faz de bem. Seu pai não está por perto? Não se preocupe. A imagem de “pai” está bem guardada no seu inconsciente, o arquétipo do que é um pai e de como deve comportar-se estão lá.  Seja então aquilo que você mesmo não teve para seus filhos que ainda estão por vir. E finalmente, não perca de vista que -como diz o tango- “vinte anos é nada“; ou seja, o tempo passa muito rápido.  Relaxe, curta o fato de ocupar a função mais gritantemente necessária na época que vivemos: Ser pai. Não se acanhe. Não morgue. Não adie. Não envileça. Não tema. Não retroceda. Não suma. Não desanime. Não se envergonhe. Viva, curta, desfrute, ame, compartilhe. E seja pai onde lhe tocar ser pai e do melhor jeito porque ali onde você é pai, fique tranquilo que ali e só ali, será sua pátria.

Uber pater sum, ibi pátria (Aurora, Friedrich Nietzche)

Se existirem alienígenas, eles tem medo da gente?

Meu filho costuma pensar demais em algumas coisas. Nesse pensar tão livre que só as crianças tem me veio com essa o outro dia: Se existirem alienígenas, eles tem medo da gente?

Para ele o fato de existir ou não vida de um jeito similar à que conhecemos aqui fora do nosso planeta, é um problema secundário de face à possibilidade de serem eles os que tenham medo de nós e não ao contrario.

Bom, de inicio isso arruína certos produtores de Hollywood que tem gasto imensas fortunas (e ganho muito mais ainda) em filmes que evocam o terror no populacho (e em algumas mentes auto-intituladas eruditas), mas abre o leque de opções para os psicólogos siderais de plantão. Que tipo de monstro somos nós os seres humanos que temos a faculdade de arruinar o sono desses alienígenas ainda por conhecer?  Alienígenas por conhecer: somos seu maior pesadelo.

E o pior que se formos ver o jeito em que tratamos a natureza que nos é comum, os nossos vizinhos, o bem público, os nossos filhos; se tirassem uma instantânea dos nossos pensamentos mais solitários e livres; se de alguma forma uma tomografia espiritual da nossa alma pudesse ser feita, causaríamos espanto não só nos supostos alienígenas, mas em nós mesmos.

Um dos versículos que mais resisti na vida adulta é o de Jeremias 17:9

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?

Ou como diz a versão católica: Nada mais ardiloso e irremediavelmente mau que o coração. Quem o poderá compreender?

Digo resisti assim a boca de jarro por ser a melhor e mais simples forma de descrever os malabares de interpretação que tinha que fazer para lidar com um texto tão simples e direto.  A Navalha de Occam me cortava por tudo quanto é lado, mas eu resistia pois havia em mim uma necessidade diabólica de coerência que me impedia aceitar o obvio: Nosso coração (a base das nossas decisões no antigo testamento) está fatalmente enfermo pelo pecado.

É claro que há algo de Agostinhano na minha atual perspectiva mas não está certo?  Não vemos na nossa caminhada que nos pegamos pensando em termos enganosos em incontáveis momentos?  Somos então filhos do inferno?

Minha conclusão é que não.  Mesmo sendo filhos escolhidos de Deus (assim como os Judeus alvo do texto de Jeremias) amamos o pecado.  O cobrimos, acobertamos, e nos auto-enganamos.  Quando expostos, negamos, reclamamos, nos lamentamos e renegamos de tudo. Então qual a diferença? O que distingue o impio do cristão?

Bom, a diferença está em que o ímpio sente paz quando consegue safar-se do castigo (mesmo que seja o terreno, até porque não lhe interessa se há ou não outro).  Já o filho, só sente paz na confissão. Algumas pessoas se confundem dizendo que o perdão só é dado com base no arrependimento.  Se bem é certo que o arrependimento é uma mudança de mente, uma mudança de rumo, uma alteração consciente do sentido que a vida está levando; é certo que o texto bíblico associa o perdão dos pecados (e Do Pecado) à confissão. (1Jn1:9 ou se preferir, NVI)

Por favor, me entenda bem, o arrependimento é necessário, mas a base dessa mudança de conduta é a confissão. Isto é, a concordância com a opinião que o Criador tem ao respeito de nós mesmos e nossas ações.

E eis aqui que temos mais uma coisa: a distinção entre o que fazemos e somos. Modificar o que fazemos não leva a mudanças internas. Uma pessoa pode parar de se prostituir porque é mau para a saúde, ruim para os filhos e péssimo para os negócios mas não porque macula a imagem do Cristo na vida do indivíduo e por consequência na sociedade ou porque é um empecilho no relacionamento com o Deus criador que é santo e não pode compactuar com o pecado.

Já a mudança interna promove uma confissão direta do nosso pacto particular com o pecado como forma de vida, essência e objeto de culto. Por sua vez, é essa confissão a que promove mais mudanças internas que podem abrir o caminho para uma reformulação de caráter em que o Cristo possa aparecer no viver do cristão (mesmo que no inicio seja ocasionalmente) o que por sua vez promove maiores mudanças.

Simplificando: enquanto vivemos sem pensarmos em nós mesmos e na nossa essência, não assustamos ninguém. Assim que pensamos acontece de duas uma: ou nos acomodamos melhor com a própria perdição ou empreendemos uma longa jornada de descoberta do Cristo largamente lastreada no processo de confissão e arrependimento que nos pode levar a uma reformulação do caráter.

Repare na universalidade deste principio.  Não está limitado a idade, sexo, bagagem religiosa, localização geográfica ou grau de instrução. Não interessa se você é o diretor bem sucedido de uma excelente empresa que cumpre seu papel com responsabilidade social e civil, ou se é um presidiário cumprindo uma longa pena. Todos nós partilhamos da mesma essência caída em Adão e a graça de Cristo é abundante para te levar do estagio em que você está ao seguinte que ele queira te levar.

 

Na penumbra da vida

Viajando pelo interior do Paraná, sentado numa poltrona confortável de um ônibus que cruzava paisagens encantadoras e exuberantes, verdadeiras obras de arte que pareciam pincelar a “tela” da janela com verdes de todos os tons, disputava minha atenção um filme no interior do veículo.  A história era um fato real. Um rapaz cego de nascença, convencido pela mulher que amava, se submeteu a uma cirurgia que pretensamente lhe daria o privilégio da visão. A promessa se tornou uma realidade temporária e este, que até então vivera no mundo da escuridão, começou a enxergar e imergir num mundo confuso de cores e imagens. Lidar com a visão se tornou algo interessante e curioso no enredo. Diferenciar entre fotos e objetos tridimensionais à distância era um enorme desafio, já que o cérebro precisava processar imagens com sentido de profundidade. A história ascendeu a picos de emoção e alegria e despencou numa angústia sem fim ao se deparar com a cruel realidade do retorno da ausência de luz.

A importância da visão foi representada no filme de forma clara e deu a chance de perceber que há uma vulnerabilidade explícita no processo de percepção da luz. As sombras que se interpõem entre o olhar e o ver são como nuvens carregadas que hora nos permitem vislumbrar formas e cores (nem sempre completamente compreendidos), hora nos bloqueia completamente a percepção. As coisas continuam lá, mas simplesmente as deixamos de enxergar. O olhar e o ver se distinguem plenamente quando um não corresponde mais ao outro. Vultos vazios se movimentam no escuro marcando espaços antes muito bem definidos.

Numa razão inversamente proporcional ao filme em questão, aquele que nasce vendo, pode terminar seus dias mais próximo de quem jamais viu.

O trânsito que flui da luz para as sombras parece ser o movimento inevitável do desgaste físico. Aquilo que antes era envolto em clareza e facilidades agora, a passos lentos, mas contínuos, entra pelas terras dificultosas das sombras. Lugar este que antes insistia em assumir o pseudônimo de “terra do nunca”; agora percebe que o que era um vigoroso “nunca”, perde suas fantasias se tornando cada vez mais o fatídico “sempre”. Envelhecer parece ser, entre outras coisas, o implacável processo minguante da percepção da luminosidade.

Na contra mão do tráfego inevitável, pelo qual viaja o expresso que carrega todos nós, está a proposta da vida cristã de vislumbres do divino. Neste projeto que convida ao mundo de percepções, o elemento essencial para a luz se apresenta como sendo a santificação. O ato da santidade traz consigo a recompensa da iluminação: “buscai a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Visão e santidade têm tudo a ver na vida cristã e estão relacionados numa proporção paralela. Quanto mais santidade, mas percepção do divino.

Uma vez mais faz se a diferença entre olhar e enxergar. As realidades mais concretas da beleza da vida estão plenamente expostas diante de todos. Poucos são os que lavam seus olhos no colírio da santidade e assim contemplam o divino exuberante em sua multiforme exposição diante de nós. O antigo legislador já clamava em sua fome pela contemplação do divino. “Ninguém pode ver a minha face e viver” advertia a divindade que se revelava e se velava.

A construção da história culminou na expressão mais vívida do divino. O rosto queimado do peregrino afirmava: “quem vê a mim, vê ao Pai”. Mas como perceber o Pai numa figura tão humana? Só mesmo a santidade poderia providenciar tal visão.

Os anos se passam e o que permanece é o desafio de enxergar. Ver a Deus não parece ser somente uma questão relegada a um futuro escatológico que guarda sua percepção para o dia de amanhã. A ótica que se deslumbra na contemplação do divino se faz possível hoje. Ela é vulnerável, como todo processo de percepção da luz. Sua amplitude, sua clareza e sua qualidade são sempre processos circunstanciais dependentes da negação de si mesmo. Nesta via, sujeita a todas intempéries da existência humana, hora a luz perpassa por todos os lados de nosso órgão sensorial, hora ela se obscurece pelas muitas nuvens de nossos retrocessos.

Ver a Deus é um privilégio daqueles que são banhados pela luz da santidade. Para estes, as paisagens pitorescas de exposição da divindade podem ser percebidos até nos cantos mais “insignificantes” do quadro de cada dia. É tamanha sua beleza, que pouco a pouco ocupa todos espaços de nossa movimentação. Nas mais variadas formas, expressas em cores de tons tão distintos e sutis, cada pedaço da vida traz revelações inimagináveis da presença do divino. Ele está lá, às vezes estampado em cartazes quilométricos de dimensões imponentes; às vezes pontilhado em minúcias apresentadas estrategicamente em proporções milimétricas. Alguns o veem, outros tropeçam nele sem o perceber. Mas ao observador perspicaz, a recompensa é imediata. A cada vislumbre um encanto, a cada encanto um êxtase, a cada êxtase uma porção a mais de vida. Talvez a vida abundante seja isso – a capacidade de contemplar e se deliciar no divino no desenrolar de cada dia.

Ele está lá. Pena que muitos não o vejam. Quem tem olhos para ver, veja. Neste processo alguns desfrutam da promessa: Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus.

A diferença entre ver e não ver está no privilégio de se santificar. Isto é o que define quem vive a vida e quem simplesmente passa por ela.

Everson Spolaor

Fazendo “teologia” com os olhos fixos no Jesus ressurreto

224 Mas Tomé, o Gêmeo (chamado Dídimo), um dos Doze, não estava com eles quando Jesus chegou. 25 Os outros discípulos lhe diziam: Vimos o Senhor em pessoa. Mas ele lhes disse: caso não veja em suas mãos o sinal dos cravos e, além disso, não ponha meus dedos no sinal dos cravos e ponha minha mão em seu lado, não creio. 26 Oito dias depois estavam de novo dentro de casa os seus discípulos e Tomé com eles. Chegou Jesus estando as portas trancadas, fez-se presente no centro e disse: Paz (seja) convosco. 27 Em seguida diz a Tomé: Estende aqui teu dedo, olha as minhas mãos; estende a tua mão e põe-na em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente (fiel). 28 Reagiu Tomé, dizendo: Senhor meu e Deus meu! 29 Jesus lhe disse: Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer? Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer (os que não viram e creram)” (João 20. 24-29).

Introdução

            Uma analogia para Teologia:

Fazer teologia é como que olhar para o sol. Olhar para o sol é o mesmo que ter a visão ofuscada pelo seu brilho intenso, intolerável aos nossos olhos. Duas consequências de se olhar diretamente para o sol: 1) ter a visão ofuscada; 2) cegueira. Devemos querer ser tocados pelos seus raios solares do que querer olhar diretamente para o resplendor de sua luz. Ou apenas nos animemos em ver e contemplar seu reflexo refletido nas águas.

Um exemplo claro para essa analogia é a experiência do pedido de Moisés quando quis ver a glória de Deus e, pôde ver apenas Sua bondade (Êx. 33. 18-19).

Nosso conceito de teologia deve sempre partir desse entendimento do olhar para o sol, isso porque a dificuldade de se falar sobre Deus é sempre uma dificuldade a partir do nosso ponto de vista, de referência, ou de contemplação (experimentar). Para quem devemos olhar para se fazer teologia?

Teologia, sumariamente, é um conceito, estudo, indícios de uma análise sobre Deus. Deus não é um objeto da nossa realidade, uma entidade acessível à nossa investigação. O máximo que podemos chegar com nossas pesquisas, estudos e fé é: em direção a Ele; mas, nunca compreende-lo no todo ou chegar até Ele de forma plena.

Um dos maiores desafios da Teologia atual é a contextualização dos textos bíblicos. Afirmo isso simplesmente por causa da nossa dificuldade prioridade assumida ou não da enérgica busca e tentativa de fazer teologia advinda do Iluminismo e séc. XX. Desse modo, assumimos uma teologia formulada e formatada e carregamos todos os pressupostos dela na nossa leitura bíblica, nossa devoção, nossas obras, etc.

Vejamos um conceito cientifico para Teologia: “Teologia, como um tópico a ser estudado ou uma atividade na qual se engajar, normalmente opera no nível do discurso público sobre crenças básicas e consequentes. Refere-se a crenças em relação a Deus, ou deuses ou sobre o mundo. Relaciona-se orgânica (processos ligados à vida) e dinamicamente à visão de mundo”. Ou seja, nossa visão de mundo é um emaranhado de ideias postas em conjunto de postulados (princípios ou fatos reconhecidos, mas não demonstrados) sobre como são as coisas (símbolos, práticas [ritos], histórias [mitos], e questões / respostas [quem somos? Onde estamos? O que está errado? Qual a solução?]), que incorrera na nossa realidade percebida e experimentada.

O que quero dizer com tudo isso é uma tentativa de resposta para a pergunta já feita: para quem estamos olhando quando fazemos teologia? Quem é o nosso eixo, centro, nosso postulado?

Para Deus? Essa seria a resposta mais evocada num circulo como o de teologia. O problema é que Deus, como palavra, tem dupla função: 1) como substantivo comum, indica um ser divino, uma entidade de fé assim como uma cadeira é uma cadeira; 2) como substantivo próprio ou pessoal, ou seja, para o judaísmo, YHWH; para o islamismo Alá e seu profeta; e para o cristianismo?

Vamos voltar ao texto:

A estrutura em que o texto está exposto pode ser:

a) 20. 24-25 – Incredulidade de Tomé.

b) 20. 26 – Presença de Jesus entre os seus.

c) 20. 27-29 – Fé de Tomé; ou verdadeiro fundamento da fé.

a) A incredulidade de Tomé (20. 24-25) pode muito bem representar a nossa incredulidade quanto a Deus ou a incredulidade de toda humanidade. Normalmente a incredulidade surge das dúvidas quanto aos postulados. É sadio questionar nossos postulados para gerar uma nova cosmovisão.

Tomé, como um incrédulo e como nosso representante num contexto onde “Teologia para a fé” se tornou banal, era o único dentre os Doze que não havia recebido o sopro do Espírito vindo de Jesus Cristo (20. 22). Ele representa aquele que ainda funcionava e funciona a partir da “epistemologia do tocar” e pela “epistemologia do ver”. Ele ainda não partilhava na nova identidade de Jesus.

A espiritualidade moderna funciona por esses mecanismos epistemológicos: precisamos tocar as coisas para crer; precisamos ainda estar ancorados numa realidade de clero para nos ditar os postulados e assim crermos e nos manifestarmos como agentes missionários; precisamos ver as manifestações, as curas, o poder operando nas reuniões; as grandes construções e Templos de Salomão para vivenciarmos momentos mágicos da divindade para crermos.

O problema é que “tocar e ver” não mudam nossa essência e, portanto, não mudam nossa realidade existencial. Precisamos ser impactados por uma nova epistemologia, uma que nos leve a conhecer.

b) A presença de Jesus no nosso meio (20. 26) quebra esses modelos epistemológicos que dirigem a nossa vida. A reação (apekrithê, gr.) de Tomé quando é interpelado por Jesus produz, em meio a incredulidade, uma nova postura (se coloca não mais como incrédulo), e reconhecimento verbalizado de seu Senhor e Deus (“Senhor meu e Deus meu”). Tomé abandona a epistemologia do “tocar”. Sua reação não é em direção ao reconhecimento físico de Jesus, mas sim, ao vê-lo, terminou de crer (“Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer?) / (pepisteukas –gr. [acabar de crer, descreve o ponto de chegada de um processo, que inaugura estado subsequente]).

c) O verdadeiro fundamento da fé e, portanto, o verdadeiro fundamento para se fazer teologia (20. 27-29) é a partir do ver e, além disso, “ouvir a Cristo”. Essa é a nova e maior epistemologia que Jesus inaugura. A realidade e facticidade do Cristo ressurreto em pessoa não mais seria algo visto e palpável, mas sim algo que, ouvindo sobre Ele, creríamos. A incredulidade de Tomé quanto ao testemunho dos discípulos é, então, evidenciada.

A crença no testemunho do Cristo ressurreto é o fundamento de toda teologia cristã. É por meio desse testemunho que, tanto judeus quanto gentios, creriam na boa nova de salvação e os pecados seriam perdoados.

É diante do Cristo ressurreto que o maior mistério, ocorrido no texto anterior, vem a tona e viria em Pentecostes. Haveria aqueles que creriam sem ver e sem ouvi-lo fisicamente, pois a realidade do Espírito Santo como aquele que testemunharia (fala e nós ouvimos) do Senhor e Deus revelado em Jesus aconteceria. Como num antegozo, os discípulos são levados a entender o plano de Deus para salvação dos homens.

“Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer”.

Assim, para quem estamos olhando quando fazemos teologia? É de fato para Jesus Cristo em sua realidade de ressurreto e glorificado? Temos ouvido Ele por meio de Seu Espírito em Sua palavra?

Santidade: Seu caráter em jogo

1) Definindo bem as palavras

Quando somos chamados a falar de santidade e santificação, somos levados quase que automaticamente a definir a palavra antes de mais nada. Isso porque é uma daquelas palavras que comumente acabam adquirindo, pelo uso comum, um conteúdo diferente daquele que originalmente tem e quando isso acontece, todo os conceitos e todas as ideias que da palavra dependem, acabam sendo esvaziados de conteúdo.
Uma coisa “santa” nada mais é do que uma coisa separada, destinada, consagrada para um propósito.
Assim, tecnicamente, se você utiliza seu carro só para ir trabalhar, poder-se-ia dizer que ele foi “santificado” para isso. Isso assim dito, nos parece quase que uma blasfêmia, uma profanação, já que a palavra “santo” tem conotações de “perfeito“, “acabado“, “divino” e não com “consagrado” ou “separado” para uma função ou propósito.
Evidentemente que não advogo para o uso da palavra “santo” para qualquer coisa, só quero ressaltar seu conteúdo original.
Todas as línguas tem uma tendencia natural à simplificação, então se santo fosse sinônimo de perfeito ou de divino, já as línguas do mundo todo teriam feito tal simplificação há anos

Com isso em mente, podemos então passar a analisar mais duas coisas que me interessam: a “santidade de” e a “santidade para“.

Se santo significa separado, então o substantivo santidade denota a qualidade de uma coisa ou pessoa que foi separada. O lance é que pode ser separado de e separado para. Simplificando para não cansar, somos separados das coisas deste mundo e separados para o serviço a Deus. Porém, esta simplificação brutal a faço, só para mostrar o abismo conceitual do outro lado. Ou seja, se entendemos de forma errada a palavra santo, é comum entendermos de forma errada santidade ou santificação. Isto é, geralmente associamos santidade com alienação. Daí que tem muito “crente chato” ou que “se acha” porque na cabecinha dele santidade é a mesma coisa que se tornar um crítico desprezível da sociedade em que vive, sem ao menos melhorar o seu ambiente em qualquer quesito. É o que Jesus chama de “hipócrita” em Mateus 7:5. Voltarei sobre isso no final.

2) Santidade e mais algum adjetivo

A palavra santidade pode ser colocada junto de alguns adjetivos que nos ajudem a enxergar melhor o que realmente pensamos deste assunto. O que segue é como uma ludificação teológica para uma revisão pessoal de critérios e conceitos. Não precisa concordar ou discordar, só relaxar e curtir a viagem. Vamos lá.

Santidade Contingente – É aquela que acontece quando o carinha é pego em algum pecado. O desgraçado sofre, pena, se ajoelha, promete até o impossível com tal de não ser exposto. Não será muito real, mas que ora, ora.

Santidade Aparente – Se dá regularmente em horario de culto ou na presença de outras pessoas que acham que a santidade é uma coisa importante.

Santidade Pós-mortem – É a do fulano que acaba de morrer. “Tão bonzinho que era”.

Santidade Pós-moderna – É a que acontece depois de relativizar palavras como “pecado”, “castigo”, “inferno” e outras de similar cunho. Com o degrau mais baixo é mais fácil fazer de conta que estamos subindo uma escada.

Santidade auto-conquistada – É fruto do esforço próprio do ser humano em conquistar o divino. É a prima da salvação por obras no campo do desenvolvimento espiritual.

Santidade preterida – É aquela que começa na segunda-feira que vêm, junto com a dieta, a poupança para a viagem, etc.

Santidade hipertrófica – É a que mostra um crescimento desproporcional em algumas áreas (bem visíveis) do que comumente é entendido como santidade mas não tem efeitos sobre a existencialidade da pessoa que a carrega.

Santidade bombada – Feita à base de anabolizantes pseudo-espirituais como louvorzão, idas para o monte e tal, produz aparência robusta mas na hora de puxar a vaca do brejo, é melhor chamar os universitários.
Bom, evidentemente que nada disso é santidade. Até porque basicamente a santidade tem raízes internas que se manifestam no caráter do ser humano. Cantar bonito, gritar bem alto, colocar os olhos em branco no culto nada tem a ver com santidade. Também não é ter tal ou qual dom ou talento como se fosse um prêmio à santidade conseguida após longo esforço. Também não é santidade o ser sistemática e pateticamente triste como se a alegria e a felicidade não fizessem parte da experiência cristã. E -obviamente- ter saúde financeira, emocional, ou física não é sinal de santidade.

3) Ao final das contas, o que é santidade?

Bom, quem me acompanhou até aqui já sabe o que quero desconstruir, isto é, o conceito imbecil e triste de que é possível construir uma santidade com efeitos externos enquanto a interioridade desaba contanto ninguém saiba desse desarranjo. Então como definir santidade?
Entendo que santidade é a formação consciente do caráter cristão tendo em vista o Reino de Deus.
Repare na suave cadência que ecoa nesta definição. Primeiro não há imediatismos e segundo, o Reino de Deus é colocado como causa última ou propósito avassalador da santidade.
Ao falar em formação, estamos falando em anos, não em um evento pontual da vida.
Claro, reconheço a validade dos apelos feitos aos domingos como sendo setas no caminho do peregrino, mas não lhe dou a eles (nem às respostas aos mesmos) a transcendência que os pregadores pretendemos lhe dar.
É uma formação consciente porque -mesmo sendo de tendências pronunciadamente calvinistas- entendo que a santidade não é um feito divino e sim um resultado/objetivo (Ef.1:4) do ato intervencionista de Deus na vida do ser humano quando este atinge a base do pensar humano. Ora, não é por acaso o “pensar” o que nos distingue como humanos? Não é necessário o pensar para pecar? Ou por acaso pode haver hamartia sem decisão? Logo, é este pensar, esta essência, a que precisa ser separada para Deus e seu Reino.
Falo de uma formação consciente do caráter porque gosto daquela definição de caráter que diz que caráter é aquilo que você é quando ninguém lhe está vendo. Ou seja, é sua essência que está em jogo. Não estamos falando se você foi bom no vestibular ou se é um ótimo padeiro ou se se sai bem recolhendo o lixo ou é um exímio neurocirurgião, nem sequer se é um bom pai, marido, paga seus impostos e pede nota de tudo o que comprar, estou falando de caráter, aquilo que ninguém mais do que você mesmo conhece porque é só isso que sobra no final das contas.
A palavra cristão parece à toa numa definição de santidade ou talvez uma redundância desnecessária. Contrário a isso, eu acho essencial mencionar a palavra cristão pois sem o Cristo na base da definição, nada pode ser feito. Ou melhor, tudo o que for feito é um defeito. Nada importa se você for presbiteriano, metodista, anglicano, católico, batista, pentecostal, se não é do Cristo, nada feito. Se ele não é teu motivo, alvo, força, sustento e em lugar disso pretendes satisfazer o olho dos teus irmãos de congregação, tudo o feito é defeito.
O tendo em vista coloca a consciência de novo onde tem que estar. Nada nesta definição traz alguma coisa automática ou mágica. Esse tendo em vista visa não só o futuro mas também o estado anterior e o atual do sujeito que está sendo santificado em perspectiva com o Reino de Deus. Há três necessidades humanas: aceitação, aprovação, aprecio. Se a santidade que tu praticas, visa -de alguma forma- ao menos uma destas três necessidade no plano humano ou divino, então não estamos falando de santidade. Ou seja, não existe santidade para inglês ver. Assim como também não existe santidade para sermos aprovados, aceitos ou apreciados por Deus. Ou no estilo claro de Hebreus 10:14 “com uma única oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados”. Você já está completo no Cristo. Isto é, já foi aceito, aprovado e apreciado por ele no Cristo, logo a santidade nada tem a ver com essas coisas.
Finalmente temos o Reino de Deus que é a razão última de existência da santidade. Eu não penso em Reino de Deus só em termos escatológicos e eternos. O faço em termos palatáveis e terrenos também. O Reino foi inaugurado com o Cristo na terra. É a intervenção do próprio Deus na história da humanidade por sua própria e livre vontade o que torna possível o Reino Real que desafia o Reino Usurpado.
Esse Reino tão esperado por muitos, se manifestou de uma forma completamente diferente da almejada e até hoje a sociedade religiosa de plantão continua a tentar encaixar os fatos na fantasia mirabolante deles. O Reino de Deus, então, não é um sonho a ser concretizado no além, e sim aquilo que já desfrutamos e temos na comunhão não só com o parecido religiosamente com a gente e sim com o outro ser humano sem as barreiras religiosas lastreadas na ignorância. É a visão do Reino antes, durante e depois de nossa vida a que deve permear a formação do caráter cristão.

Concluindo,

Você não atura seu irmão? Seu vizinho? Seus parentes? Você está simulando uma conduta que não lhe é própria só para ser aceito? Vive como se Deus não lhe acompanhasse nas suas horas mais intimas? Está na hora de rever seus conceitos pois isto aqui é só o preludio da eternidade.

Você se preocupa com a santidade alheia? Esqueça. Jesus em Mt.7:5 definiu isso como hipocrisia. Santidade tem a ver com caráter, o meu, seu caráter. Não o dos outros.

Os habitantes deste Reino que já se está manifestando são preparados ao longo da vida para o que ainda há de vir. O que vai sobrar no final das contas? O que é que vamos levar desta vida? Só o caráter reformulado no Cristo. Isso é santidade e por isso é tão vital buscá-la

O Belo e a Verdade

Há um senso comum sobre aquilo que é belo e há claramente uma consciência universal sobre aquilo que é verdade. Jamais ouvi de alguém olhar para um pôr do sol e achá-lo “feio”; tampouco ouvi sobre nenhuma civilização humana onde a vida não fosse um valor a ser preservado! O belo é belo mesmo que ele se manifeste através de alguém que tente se profissionalizar na produção da feiura. A verdade é verdade mesmo quando é dita na boca de alguém que mentiu antes e mentiu depois! O belo está em toda parte: na música, nas cores, na arte, nos contornos, nas variedades, nas culturas, nas preferências, na natureza. O melhor telescópio consegue captar o belo para além do planeta terra; o melhor microscópio o faz nos “nano-seres” e nossos olhos comuns não ficam isentos e alheios à toda beleza existente na existência. A verdade, aquela que está intacta, aquela libertadora, aquela que é e será para sempre também está espalhada por toda parte. Há quem deseja limitá-la, há os que acham que a detém, há os que cobram direitos autorais por ela, mas no final das contas a verdade é, ela é viva, ela transforma, ela conduz pessoas que nem se dão conta de sua vitalidade. A verdade está em toda parte, detecte-a e se permita inundar por ela. O belo e a verdade se fazem presentes; há quem prefira o feio e a mentira; mas alguém que prova do belo e da verdade encherga o suficiente para dizer: “Ah! Quão maravilhosa existência! Hoje eu sei o que é viver”!

A insuportável leveza dos pseudo-líderes cristãos

Em tempos de sequidão espiritual, surgem os pseudo-líderes no meio cristão que sem nenhum peso de glória divina eludem os mais indoutos induzindo-os a amar o dinheiro sobre qualquer outra coisa.

Me choca a facilidade com que alguns autodenominados bispos e outras ervas, promovem ideias espúrias ao evangelho e são louvados por isso.  Me espanta como a iniquidade aumenta da mão de quem -supostamente- deveria estar ali para impedir tal coisa.

Veja por exemplo a inauguração de uma replica aumentada do templo de Salomão.  Deslavadamente o construtor do templo acaba sendo o sacerdote que intermédia a vida espiritual do que assiste ao ritual com a divindade.  E esta intermediação acontece por vias puramente materiais em que o fiel investe uma certa quantia que lhe produzirá um retorno que a maior parte das vezes é meramente financeira.

O povo, por sua vez, gosta de ser eludido desta forma pois o ouvido dele tem uma tendencia natural a ouvir pregações do tipo ‘toma-lá-dá-cá’.  Neste povo existe a real necessidade de se sentir seguro seguindo certos ritos, por mais que esse rito nada mais seja do que uma pretensão de barganha material com um ser espiritual inatingível por este meio.

Então para mim, tanto os líderes quanto os liderados são culpados de construir essas coisas.  Como diz Stagg: o homem é responsável de se tornar irresponsável.

Desde quando Deus está interessado com algum bem material?  Desde quando Deus precisa de moedas para agilizar o trâmite espiritual? Claro, alguém me vai dizer que a pessoa precisa se desprender dos bens materiais para atingir benesses espirituais porque é este amor ao dinheiro o que acaba lhe afastando da riqueza espiritual.  Tá, isso é certo, então porque o líder não lhe diz para vender tudo e dar aos pobres?  Se ele é tão espiritual assim, porque ele não propõe a mesma solução que Cristo promoveu? Por que ele se coloca como pedágio entre os homens e Deus?

Quando um líder se coloca na postura de intermediário ele desafia a ação do próprio Jesus que -ao morrer na cruz- eliminou a parede de divisão não só entre judeus e não judeus mas também entre Deus e os homens.

Quando um líder incentiva o seu povo a construir um templo (mega, macro, micro) no qual o ritual de sacrifico pretende ser re-institucionalizado por meio do qual o homem-de-a-pé conseguiria de alguma forma se achegar à divindade, ele desafia o próprio Salomão que na oração inaugural do templo original falou “podem por acaso estas paredes te conter?”

Finalmente, quando o povo se deixa eludir desta forma, ele se torna responsável pelo seu próprio sangue construindo para si mesmo poços secos dos quais é impossível extrair qualquer tipo de água espiritual. O povo decididamente vá atrás destas coisas não como ovelhinhas enganadas mas pelo insuportável que pode ser a liberdade de relacionamento com o Cristo.  Não se engane o leitor pensando que o povo está sendo eludido e enganado sem a intervenção da consciência particular.  Não! O povo vai porque o povo gosta. Ele sente falta de rituais que consiga entender e -em certo sentido- controlar. Só há possibilidade de um ditador surgir quando o povo bate palmas para o mesmo. Então, são dois abismos se encontrando.  Dois buracos negros chamando um ao outro.  Uma destruição convocando uma outra destruição maior.

Não se iluda então o leitor, pois se há leveza no líder é porque há leveza no povo e esse esquema se torna insuportável e com isso a terra perde a bênção que viria de uma liderança sábia. Ou, como diz o proverbio “Os pecados de uma nação fazem mudar sempre os seus governantes, mas a ordem se mantém com um líder sábio e sensato” e também “Ainda que você moa o insensato como trigo no pilão, a insensatez não se afastará dele

O evangelho não tem a ver com rituais na presença de um líder autonomeado.  Se de alguma forma, o leitor está querendo se conectar com a divindade, com o Criador, com o Jeová do antigo testamento o caminho não é o do auto-sacrifício e sim da rendição.  Sua alma está em guerra, em luta contra o Criador.  Renda-se.  Jesus já é o sacrifício perfeito.  Você é aceito, amado, aprovado no Cristo e não no seu esforço pessoal e não no ato de ir no culto ou dizimar ou qualquer coisa assim.

 

Homem cria homem

Somos seres gregários e como tais enfrentamos vários desafios juntos. Concordamos por exemplo que é importante termos as contas em dia, tratar bem o próximo, termos uma alimentação saudável e aparentar -pelo menos isso- estar bem resolvidos. Provamos então que o nosso pequeno quintal nada mais é do que uma reprodução do universo humano e que as coisas que nos acontecem não nos acontecem só no foro privado, mas nos acontecem também gregariamente.

Todavia, uma coisa na qual gostamos de aparentemente nos diferenciar é na criação dos filhos. Na realidade, parece que é ali que discordamos de tudo e de todos. Queremos fazer nossa própria linha, ao final das contas, o nosso rebento nada mais é do que uma extensão de nós mesmos e -em certo sentido- uma perpetuação ou “eternificação” do que somos. Nos tornamos egoicos, autosuficientes e virtualmente intocáveis para aquilo para o que justamente o conselho alheio deveria servir mais: perpetuar a espécie uma cria de cada vez.

Dependendo de em que ocasião histórica tenha nascido e em que canto do planeta, sua visão será mais ou menos sofisticada, mais ou menos sócio-dependente, mais ou menos espiritualizada. Os termos que usamos para falar da educação ou criação dos filhos nos delatam. Por exemplo, são comuns as palavras como ‘investir’, ou ‘construir’ em sociedades mais industrializadas, ao passo que ‘deixar’, ‘liberar’ etc se manifestam mais em sociedades menos exigentes.

Porém -e voltando um pouco à ideia de seres gregários- podemos identificar algumas linhas gerais, algumas abstrações universais que podem nortear esta peça teatral sem ensaio que é a vida. 1) O que é realmente importante para você? 2) Quais parte do seu caráter você acredita firmemente que gostaria de serem vistas no seu rebento quando se torne adulto? 3) Se você tivesse certeza que sua vida acabaria hoje à noite, o que deveria ter feito ontem e por que não o fez?

Já volto sobre esses pontos, deixe eles de molho um pouco. Enquanto isso, permita-me filosofar um pouco. Aceitamos como terreno comum o fato de que se é mais feliz quanto mais liberdade financeira se tem, e se obtêm essa liberdade por meio de profissões em que se ganhe muito fazendo pouco. Ao mesmo tempo, e porque não sabemos qual caminho a criança vai escolher, nos vemos obrigados a disponibilizar para ele aulas de judô, muay-thai, artes, inglês, espanhol, japonês, religião (alguma, uma ao menos), informática básica, culinária, etc. Em um escambo descabido, prendemos então nossos filhos agora e os deformamos o suficiente para que quando lhes chegue a oportunidade de exercer a liberdade, se prendam a dívidas infinitas para fazer a mesma massacre com nossos netos perpetuando uma sociedade cada vez mais fria, mecânica e ataráxica.

Temos sido enganados. A liberdade como absoluto não existe. É quimera. Mas mesmo sabendo, sentindo, apalpando isso, corremos atrás do vento e ensinamos aos nossos descendentes a fazerem a mesma coisa. Por isso pergunto: o que é realmente importante para você pai? Quais elemento do seu caráter são para serem perpetuados? Quais precisam ser abandonados?

Entenda-me bem, aquilo que você realmente acha importante vai vazar por outros cantos que não são a sua boca. No final das contas, o que realmente é importante para você vai chegar para seus filhos na forma de atitudes concretas bem palatáveis que a cria vai entender pelos sentidos e não pela educação formal. O que quero frisar, é que se você pode clarificar sua cabeça sobre o que é realmente importante, correrá menos risco de cair no buraco de pretender ser uma coisa que não é, levando seus filhos a um auto-desprezo por não conseguirem atingir um alvo imaginário e impossível que você mesmo não alcança ou se alcançou, não é seu platô de felicidade.

É o pai que define o filho. Com isso não estou defendendo a velha ideia de que o pai decide cada passo que o filho dá, a profissão, a esposa, etc. Mas me levanto contra essa crendice popular que tem ganho nossos corações de que existe a liberdade absoluta e nossos filhos devem correr atrás dela. Ao dizer que o pai define o filho, o termo em inglês que me vem à cabeça é shape. Ou seja, dar forma, imagem, etc. O que me parece, é que com a pregação na liberdade utópica como realizável numa geração, cria uma carga emocional pesada demais na vida de quem deveria estar livre, leve e solto para curtir a vida, porque é na curtição que o lúdico transcende e ensina de per-si.

Então, deixe esboçar alguns exemplos de como você define (shape) a vida do seu filho: Quando ele é pequeno você troca as fraldas dele, alisa a cabeça dele, lhe diz que o ama. Passa o tempo, ele segura seus braços para andar. Os medos passam, porque o pai acolhe e firmemente segura as mãos do guri. Depois chega o tempo de usar o pinico, lá está você para ajuda-lo. Mais adiante, ele começa ir à escola, você o leva e o traz, ou o espera, ou se encontra com ele, mas pergunta: “Como foi hoje?” “Como foi com seus colegas?” “Do que você brincou meu filho?” E seus olhos olham os seus e você se comunica. Ele se aproxima da puberdade e você fala das coisas da vida. Aquelas que lhe farão falta para ser feliz.

Você lhe ensina a cozinhar, anda com ele de vez em quando, ouve o que ele tem a dizer, ao final de contas, você também gosta de ser ouvido. Chega o tempo das primeiras namoradas. Você acaba concordando com ele que a escola é um saco. Que a grade curricular é exatamente isso, uma grade e o delegado de ensino, bom, é delegado oras, mas as regras do jogo são essas. Você o acompanha, o anima. Vê as asas irem brotando. A testosterona começa a falar mais alto. Ai você o lembra que é natural, que é normal isso tudo ai, assim como foi o aprendizado com o uso do esfincter, agora tem que lidar com a normalidade do desenvolvimento e seus medos. Vai se aproximando o tempo de decidir o que vai “fazer da vida” de fato.

Ele pede água. Está assustado. Você o recolhe, deixa ele descansar, pois você sabe que a vida moderna é uma pedra de moer carne humana. Ele se define por um curso técnico, nada a ver com o PhD em astrofísica que você tinha sonhado ontem para ele. Saem juntos como tem feito na última década em todo segundo sábado do mês só para se curtirem e ele estar com um homem de verdade e saber como este se conduz com os amigos, a profissão, as outras mulheres. Ele se decide. Tem medo. Antes era o andar ereto, agora é usar as asas. Você continua ai. Ele acaba se mudando de cidade, te liga, você fala uns minutos com ele que são caríssimos, mas não há problema, anos de prosa, sustentam um papo rápido.

Ele volta. Barbado, sorridente. Feliz. Você o abraça, sente o coração dele batendo perto do seu. Não há nada neste mundo que se pareça com isso para um homem. O coração do filho batendo junto, perto, parece que no mesmo peito. Ele se vai com os amigos. Vão de passeio para um morro. Coisa de macho. Passam uns dias, te ligam que ele caiu de um penhasco, se machucou, o resgate demorou e ele não resistiu. Chega o caixão. Você o toca. Não há mais olho no olho, nem coração batendo, só resta a satisfação de ter cumprido com seu papel de homem: formar outro homem.

O que é realmente importante para educar um filho: seu tempo.

Lembranças de um tempo que fugiu…

3Sempre quando quero voltar a um lugar que me marcou e me deixou saudades e, que no coração, mente/razão “eu amei” (mesmo o lugar sendo o mesmo e não tendo sofrido tantas alterações de espaço e ambiente), o tempo em que eu lá vivi, partilhei e compartilhei não se encontram mais. Um misto de todos os sentimentos ali vividos vem à tona, mas o tempo passou e se ocupou de apenas guardar na memória o quanto foi feliz aqueles momentos.

Sabiamente o poeta Rubem Alves, em um de seus documentários, nos aconselha a não voltar a tais lugares. As imagens bastam para as recordações e, lembranças doem menos que a presença viva de cada tempo usufruído. Para mim estes espaços, que me fazem sofrer ao recordar, se tornaram “sagrados”. Falam de um “tempus fugit”, um tempo que voou e, irreversivelmente, não volta nunca mais. Encontrar “tempus” que não sejam “fugit” é o mesmo que dizer que devemos engaiolar a beleza da vida para nossa eterna contemplação; é o mesmo que congelar imagens, momentos e ali gastar a vida até evaporar-se; é o mesmo que dizer ao pôr-do-sol que se ponha a cada hora e perpetue sobre nossa cabeça a transcendência de seu ato; é o mesmo que satisfazer os prazeres da nossa vida num instante apenas.

Sou transportado constantemente a esses tempos da memória, das imagens, da saudade, dos amores, dos sabores e das amizades. Doe tanto não poder pegá-lo na mão e manuseá-lo como era e como foi. Mais triste é saber que esses lugares, sacralizados pelo tempo, não nos pertencem mais. Que o tempo se ocupou de, simplesmente, passar. Que o tempo, como é sua função, correu para frente e nem avisou que assim sempre será.

*Inspirado em Rubem Alves…