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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

A (in)utilidade de congregar-se

Hoje fala-se muito em como é inútil se congregar. A ideia básica é que a instituição oprime e esmaga o indivíduo. Está tão presente a ideia de liberdade e de como ela haveria de se manifestar nos anseios particulares que nos parece uma coisa de loucos o que qualquer instituição religiosa queira fazer com o indivíduo.

Eu concordo com essa ideia. Se a instituição está para esmagar e tirar a individualidade, então ela apenas existe para si tendo-se tornado um fim em si mesma e não merece a atenção de qualquer pessoa. Conheço várias denominações não por te-las estudado academicamente mas por ter participado delas e em cada uma delas se ouve a mesma crítica. Não interessa se ela é pequena ou grande, barulhenta ou calada, liberal ou tradicional; a crítica é a mesma. Misteriosamente é a única instituição que criticamos com tanta veemência. Quando se trata de serviço, por exemplo, engolimos gatos e sapatos pois o sustento vem de lá.

A partir de esse ponto, começamos a construir uma caminhada independentista visando – no melhor dos casos – vivenciar uma vida cristã mais parecida com um ideal de liberdade que nos parece particularmente correto. Não nos resulta justo que se nos diga o que fazer, como fazer ou quando fazer ou com quem fazer. Não nos parece ético que nosso dinheiro seja gasto para ajudar certos indivíduos de caráter duvidoso. Não nos resulta correto que haja tanta gente envolvida nas decisões que – achamos – deveriam ser de cunho pessoal.

Sabe o que? Eu penso assim também. É inútil congregar-se em um lugar onde a injustiça impere, a ética seja fajuta, e percamos nossa liberdade de decisão. Isso não tem nada de cristão nem de certo nem de bom. Liberte-se. Saia. Ou fique para mudar, mas do jeito que está não pode ficar. Sua sã e imaculada consciência cristã o impedem de concordar com isso?. Então, haja.

Nossa sociedade está cada vez mais acostumada a paparico e mimo de tudo quanto é espécie. E -como pertencemos a esta sociedade- não poderíamos ser diferentes. A verdade, está longe de isso tudo aqui. Se bem é verdade que a instituição religiosa é um fardo que deveria ser arrancado e eliminado, não é verdade que o não congregar-se é a solução. Também não serve chamar de congregar-se a qualquer café da manhã feito na casa de algum irmão que compartilhe da mesma ideia (ou não). Também é falaz equiparar o ato de se congregar ao de pertencer a uma instituição religiosa ou ao de trabalhar ou de pertencer ao corpo da paz da ONU. São coisas essencialmente diferentes e é exatamente ali, na descoberta do que é de fato essencial, onde falhamos.

A vida cristã -pelo fato de ser vida- é dinâmica e ela precisa do Espirito Santo para florescer. Não há como espremer em termos suficientemente adequados a profundidade dessa dinâmica na vida do ser cristão. Agora, pense no seguinte: Tem você todos os dons? Está em você toda a plenitude do Espirito? Ou os dons e o Espirito se manifesta na vida de outro ser cristão também. Se a resposta é sim para qualquer das duas primeiras perguntas, arrisco a pensar que você -querido leitor- está longe, bem longe de entender o cerne da coisa. Se for não para qualquer das duas, então porquê renegar da congregação? O que está levando a jovens, adultos e anciãos a renegar do ato de congregar-se?

Bom, entre os elementos justos para deixar de congregar-se além dos já elencados, pode ser o maltrato emocional, a falta de um senso de pertença, a pura ausência de cuidado por conta da correria destes dias e por ai vai. Mas fora isso, o que me parece que está permeando todo esse movimento de abandonar a congregação local, é o simples fato de que temos misturado os conceitos, equiparando instituição religiosa com igreja de Cristo. E isso está bem longe da verdade.

Quando colocamos em pé de igualdade o fato de pertencer a uma determinada denominação com o de pertencer ao corpo de Cristo, apenas declaramos que não entendemos nem uma coisa nem a outra.

Uma pessoa pertence ao corpo de Cristo apenas por crer nele. Essa fé nele se manifesta em obediência regular e gradativa apenas por uma questão de fé: acreditamos que o que Ele espera de nós é bom para nós e o Reino dEle.

Já a vida de relacionamento religioso com uma instituição passa por outros caminhos. De fora parece até a mesma coisa mas não é. A obediência é contra-natura e -se conquistada- há uma tentativa de impor isso aos outros. Não há plasticidade, dinâmica, adaptação, adaptabilidade nem tolerância.

Por usarmos uma figura bíblica, a instituição religiosa está para a conversão, assim como as tendas que Pedro queria montar estava para o fato da transfiguração. Uma outra ilustração que serve, é o da Lei e da Graça. Na instituição há muita Lei e não tem graça. Já na vida cristã há liberdade e responsabilidade.

Quer dizer então que devemos jogar tudo pro alto e abandonar a congregação? Nem de perto.

Entendo que devemos resgatar o conceito simples e profundo do que é a igreja de Cristo e tirar a poeira do projeto original de criar um povo que anda conforme seu coração por graça e não por imposição. Somos salvos não por termos a teologia correta, o culto correto ou a forma de administração corretas mas sim por pertencermos ao povo escolhido. Logo, é com o povo escolhido que quero estar.

Esse povo tem desfrutado da graça; como é que eles vão construir um sistema legalista? Bom, isso é mais comum do que parece. Paulo já enfrentava isso na região da Galácia. A redenção daquele povo era indubitável para o apostolo, mas quando chega a hora, ele deixa claro que tentar voltar à Lei é abandonar a graça. Um não se junta com o outro. Mas toda instituição religiosa quer fazer exatamente isso: substituir a graça com Lei.

Está sem congregar-se? É tempo de revisar seus conceitos. Se tornar uma brasa autónoma é um caminho fácil e bacana de se tornar um carvão apagado. Mancha, fede, mas não esquenta.

Está sem congregar-se? É tempo de se arrepender pois quer dizer que ainda não entendeu o processo de Deus por meio do qual sua individualidade acrescenta e edifica o semelhante ao passo que a própria congregação transforma sua individualidade.

Está sem congregar-se? É tempo de ler de novo as escrituras e clamar por misericórdia. “Deus a quem ama corrige” (Prov.3:12 e Heb.12:6) e nós -seres humanos- somos cheios de nós mesmos e de nossos próprios critérios e a verdade é que não conseguimos enxergar a própria nuca. Ficamos expostos e nem sequer damos a mínima para o que de fato está acontecendo com nós. A falta de correção neste quesito, não indica alguma outra coisa? Pois é, tem que clamar, meu chapa.

É na congregação que a sua alma é modificada. Não por imposição de condutas, maltrato emocional, abandono espiritual, hierarquias humanas, pseudo-cristãos pavões. Todavia, por aceitação, afeto, amor e -sobretudo- serviço ao próximo.

O conselho é antigo e não é meu. Hebreus 10:25 diz claramente “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia“. Sim, leu certinho, congregar-se e encorajamento andam juntos. Não é um serviço pastoral encorajar as ovelhas a se congregarem. É uma responsabilidade de cada um. Até porque se a igreja é composta de pessoas e você é parte da igreja, está se abandonando a si mesmo?

A herança esquecida – O caminho ao mercado

Anteriormente…

Na medida em que Júlio ia crescendo, suas responsabilidades iam aumentando. Isso implicava em sair mais vezes da sua pequena aldeia circular e ir até o mercado. Era toda uma aventura. Só o fato de que o caminho até lá era uma longa e imperceptível curva lhe fazia pensar que os circulões mais antigos sempre enfatizavam: “o caminho até o mercado pode ser transitado por se tratar de um pedaço de um círculo muito grande. Nós é que – por sermos infimamente pequenos – o percebemos como uma reta“.

Júlio ficava encanado e encantado. Se isso era verdade, eles e apenas eles – os circulões – estavam no caminho certo. Claramente deveria ser assim já que se até o caminho ao mercado fazia parte de um grande círculo, logo, a origem de tudo deveria ser um circulo, um circulão ou alguma coisa assim. Não podia ser de outro modo, já que os pais deles eram circulões, os avós, os bisavós, todo mundo era um circulão e quem não era, acabava sendo excretado de uma forma ou de outra. “Uma aberração perturbadora” – como diziam os mais velhos – que precisava ser “purificada” vivendo fora da aldeia. Só que Júlio – por mais encantado que estava com a ideia – não conseguia desencanar. Havia alguma coisa que não se encaixava nesses ares de perfeição circular.

No caminho haviam coisas que Júlio admirava. Era um caminho longo que levava em média dois a três dias para ser realizado. Pelo menos na ida porque na volta a coisa era bem complicada pois tinha que voltar com as compras e o único jeito era empurrar, puxar, arrastar em pequenos grupos sobre tábuas ovais (pois não passavam de círculos deformados e formas imperfeitas podiam ser usadas mas não interiorizadas). Certa vez lhe contaram a história de um circulão jovem que quis colocar quatro círculos ao lado das tábuas ovais de transporte só que em pé vinculados por um eixo dois a dois. Demorou mais tempo em explicar o que ele pretendia do que em ser excretado. Enquanto era colocado para fora da aldeia ele esperneava, falava qualquer coisa ao respeito de que ele estava seguindo as ideias de Salvador; que era bom buscar formas de viver melhor; que era uma bênção usar essas tais de “rodas” como ele chamava os círculos na vertical. Coitado. Um verdadeiro perigo.

Bom, mas voltando ao caminho, nesse trajeto de ida (que era pelas razões que lhes contava mais leve e rápido que o de volta) Júlio se maravilhava com várias coisas. Uma das coisas que ele achava boa era que na primeira metade do caminho – onde ainda era plano e não havia nem barranco nem despenhadeiro – outros caminhos se juntavam ao maior. Era desses caminhos que triangulões, quadradões e outros iam se somando ao trajeto. Nesses percursos, Júlio – de alma inquieta e explorador por natureza – havia aprendido algumas palavras em vários dos dialetos falados pelos povos e até hexagonés, a língua do povo de igual forma.

Saindo da parte lisa do trajeto – se bem que o caminho até o mercado era liso já que todos esses povos não poderiam chegar até o mercado se o caminho fosse de qualquer outro jeito – ao lado do caminho haviam partes não planas a um lado e ao outro. Por vezes de um lado havia uma elevação com uma coloração verde em sua grande maioria. Por vezes do outro lado havia uma depressão, um vale, com a coloração verde também mas salpicada de outras como marrom, verde mais escuro, branco, amarelo, enfim, a lista era enorme.

Muitas vezes era ali que eles paravam para fazer a refeição. Três coisas faziam com que todos eles se unissem quase que em um mesmo pensar: a diferença de altura entre um lado e o outro do caminho, as cores que podiam ser vislumbradas e que mudavam conforme o horário em que chegavam no ponto e o vento. Ah o vento. Não havia nada parecido com o vento nas suas aldeias. Ele parecia preenche-lo tudo e todos. Às vezes forte, outras vezes quase imperceptível mas sempre presente trazendo cheiros e aromas que causava neles uma atitude quase solene de fechar os olhos e respirar fundo como querendo hospedar nos seus pulmões toda aquela beleza sensorial.

Tipicamente ficavam em silêncio no inicio. Apenas ouvindo o vento. Apreciando a música que só ele sabia tocar. Aos poucos esses minutos iam ficando para atrás dando lugar a uma sadia folia com o correspondente intercâmbio de abraços, presentes, desejos de boa caminhada, atualização das noticias. Ao final das contas, viam-se apenas uma vez por ano. Obvio que se os circulões mais antigos vissem uma coisa dessas iriam deserdar os mais novos. E pelo que contavam nesses encontros, não era muito diferente com os outros, apenas os hexagonões eram dados a aceitarem outros povos mas eles também eram dados a darem risada de si mesmos, então não eram padrão.

Mais para frente essa confraternização e confiança mútua era necessária para atravessarem a ponte. Então eles sabia, que não era errado gastar um tempo se interessando pelo outro já que precisariam um do outro ao enfrentar os fortes ventos sobre a longa ponte que atravessava sobre um grande cânion no fundo do qual um rio tempestuoso corria livre e desimpedido.

Continuará…

A herança esquecida – O Mercado

Anteriormente…

Júlio foi crescendo e às vezes podia ver pessoas felizes mas que não eram circulões. As visitas ao mercado – lugar decadente em que pessoas com linguajar deselegante e formas variadas sorriam de tudo, de todos e de si mesmos quase que o tempo inteiro – o colocavam em contato com uma coisa diferente que os outros circulões insistiam em chamar de “irrealidade externa”.

À falta de melhor palavra, Júlio acabou chamando essa coisa de “alegria”. Era um neologismo engraçado aos ouvidos dele já que se parecia com a palavra “alergia” que era isso que ele achava os circulões mais velhos sentiam nas suas idas ao mercado. Ao final de contas, que outra coisa a não ser uma alergia explicaria o rito de purificação e lavagem no reingresso ao grande círculo simulado voltando do mercado.

Com o decorrer do tempo, Júlio foi tomado de certas perguntas sobre a “alegria”. Haviam algumas coisas que não encaixavam. Ele conseguia, com certeza, entender como rir do outro. Ou seja, todo o mecanismo doutrinador básico dos circulões passava pelo fato de rir das ideias alheias. Aliás, se possível fosse, queriam mesmo era morder a carne do suposto proprietário da ideia diferente. A ironia era reservada para o círculo particular. Era a forma em que os pais tinham de castrar os circulões menores no intuito de que fossem aceitos no grande círculo simulado. Já o sarcasmo era a forma em que publicamente um circulão dissidente era exposto ao ridículo no grande círculo simulado. Não estranhava então o final que teve Salvador já que as ideias deles e a proposta que essas ideias levantavam contradizia o orgulho público número um que era pensar de forma circular.

Ele conhecia muito bem o efeito que a vergonha disparada pelo sarcasmo produzia num circulão; em especial aqueles menores. Um circulão menor não aprendeu ainda que pensar é perigoso e que – caso alguma ideia vaze para fora do círculo íntimo – esta não pode de forma alguma chegar aos outros círculos. Só que o Júlio em suas idas ao mercado, via que a risa do outro era bem recebida pelo outro. Ele não conseguia entender como isso era possível mas o deixou de canto por um tempo essa incompreensão, observando e – secretamente – fazendo certas anotações mentais sobre o lance.

Passou a concentrar-se sobre rir de si mesmo. Os circulões não erravam, logo, não havia lugar para rir de seus próprios erros e muito menos de si mesmo. Júlio concluiu rapidamente que o “não errar” dos circulões estava fortemente vinculado ao fato de eles não tentarem nada novo e também ao fato de terem sido disciplinados desde pequenos a descartar ideias não circulares. Isso lhe resultou estranho. Por isso decidiu esperar até ter mais informação o que viria, certamente, com mais visitas ao mercado.

A herança esquecida

Era uma vez um povo que vivia sua pequena felicidade. Não se sentia infeliz nem muito menos. Tinha achado seu ponto de equilíbrio e – mesmo que ocasionalmente os membros desse povo falassem uns ao outro da triste situação dos que não pertenciam a este povo – pouco e nada faziam ao respeito. Era mais uma formalidade que ajudava na aceitação por parte dos outros do mesmo povo, do que realmente uma carga.

Tudo nesse povo era circular. Nele nada era quadrado, triangular, hexagonal, ou de qualquer outra forma poligonal. Tudo era simplesmente um círculo. Alguns maiores, outros menores, mas sempre círculos. Haviam por vezes círculos tão enormes que, observados de perto e por pouco tempo, pareciam uma reta.

Para se ter uma ideia, os planos e projetos eram circulares. Eles começavam e acabavam sempre no mesmo ponto que tinham começado (ou acabado antes, ninguém mais sabia). De esta forma, se podia ter a ideia de movimento sem nunca ao menos passar por lugares ou situações novas. Tudo quanto se observava já era conhecido por alguém de alguma forma e com isso os mais novos não tinham necessidade de sentirem medo ou aflição já que alguém da geração anterior (ou anterior à anterior, ninguém mais sabia) já tinha passado por lá.

Haviam ao menos quatro círculos básicos na vida deste povo: o íntimo, o particular, o simulado e o externo irreal. No círculo íntimo ninguém entrava a não ser a própria pessoa. Neste espaço, as ideias e sonhos se revolviam de forma mais ou menos desorganizada mas sem nunca ao menos poderem sair para os círculos mais externos. Como muito, alguma ideia que já tinha sido ouvida nos círculos mais externos era devolvida ao círculo particular, com muita dificuldade ao simulado (sempre e quando a aceitação fosse de alguma forma garantida) mas, com certeza, nunca, mas nunca mesmo, sairiam ao círculo externo irreal.

Por conta dos círculos serem concêntricos o equilíbrio do esquema todo dependia em grande medida do ponto mais básico assim como da velocidade de giro dos círculos mais externos, mais ou menos como o rodopiar de um pião. Enquanto tudo continuasse a girar com a suficiente velocidade o pino continuaria como ponto de apoio e enquanto o ponto de apoio continuasse lá, tudo iria a continuar girando e a tão bem conhecida e estática felicidade estaria garantida.

A herança esquecida – Júlio

Anteriormente…

Júlio não era de todo circular. Suas ideias iam e vinham. Algumas eram ideias estranhas. Bom, ao menos não eram circulares. Para falar a verdade, Júlio era mesmo meio amassado. Ele não girava muito bem. Até o círculo particular se incomodava com o jeito em que ele girava. No círculo simulado ele não se encaixava e vira e mexe falava de coisas que só podiam ter vindo do círculo externo irreal. Para que o leitor me entenda melhor, mais do que girar em círculos, o Júlio rodopiava alternando a volúpia rodo ativa com certo degringolamento na própria rota: Um louco solto.

Uma das coisas mais perigosas que Júlio falava era que o último círculo estava mal etiquetado. Ele dizia que o último círculo não podia levar nunca a palavra irreal na etiqueta. Apenas círculo externo seria suficiente. Apenas pensar nesta ideia fazia os circulões (assim eram chamados os membros deste povo), como dizia, apenas pensar nesta ideia fazia os circulões mais velhos estremecerem na base. Como o leitor pode imaginar, uma estremecida neste povo não era o mais desejável já que um círculo poderia bater no outro, fazendo-o estremecer-se e podendo desencadear uma reação em cadeia.

Da última vez que isso tinha acontecido o desmoronamento, o tombo, a sensação de insegurança tinham invadido o povo ao ponto que – não podendo mais rejeitar as ideias – tiveram que se desfazer do circulão ousado. Como era que se chamava? Era um nome com ésse. Sofos? Saliente? Solidão? Salvador? É isso ai! O circulão aloprado chamava Salvador.

Salvador tinha a mania de mostrar que círculos, por mais enormes e velhos que fossem, nunca seriam linhas retas. Ele insistia que haviam outras formas igualmente válidas de construir um povo; triângulos, quadrados, pentágonos, etc. O problema estava com o caminho. Segundo Salvador, o essencial era reconhecer que o andar não podia estar limitado à reprodução da própria forma do povo. Ou seja, ele dizia que haviam outros povos no círculo externo irreal que alias, ele -que nem Júlio- insistia em tirar a palavra irreal da etiqueta. Estes povos tinham as formas mais variadas mas todas elas, assim como os circulões, insistiam em que o caminho a ser seguido tinha a própria forma do membro individual do povo apenas mudando em tamanho e – por consequência – em historicidade. Quando mais velho e maior, tanto melhor e seguro o caminho a ser seguido; isso contanto a forma fosse idêntica à do povo que o transitasse.

Salvador insistia em que a forma que o caminho assumia e o tempo transitado não eram um atestado de que o próprio caminho era certo. Por outro lado, estas coisas não tinham como competir com a relevância do destino a ser atingido nem muito menos com a aventura das descobertas que o próprio caminho poderia vir a oferecer.

O orgulho com que os circulões se gabavam de quão seguro era seu próprio caminho, quão elegante e suave era se comparado ao dos triangulões ou dos quadradões via-se gravemente ameaçado pelo sorriso meigo e simples de Salvador que – na sua aparente loucura – conseguia enxergar vida além do círculo externo irreal.

As pessoas que o ouviam falar, o faziam por meio do círculo simulado. Este era meio como que uma última linha de defesa para a pseudo realidade particular e a quase realidade interior. No círculo simulado, a realidade era antagônica à aceitação. As ideias eram expostas sempre e quando fossem circulares. Maiores, menores; com traços largos ou finos; mas circulares. Os mais ousados traziam ideias ovais que não passavam de círculos deformados. Passado o choque inicial, a ideia passava a ser considerada pois não se tratava de nada mais do que um círculo sob forte pressão ou qualquer eufemismo do tipo.

Salvador vinha e falava de triângulos, quadrados, hexágonos e outros polígonos como se eles também fossem formas válidas de vida. Mostrava aos circulões que tanto fossem triangulões, quadradões, ou circulões, o importante mesmo era escolher um outro caminho que não era a mesmice de sempre. Porém a coisa realmente pegava quando ele abandonava os polígonos e passava a falar dos poliedros. Onde já se viu ter três dimensões? Volume? É claro que ele fazia isso não apenas para chacoalhar as ideias dentro do círculo íntimo de cada circulão o que já de por si constituiria um objetivo bastante ousado. O propósito dele era mostrar que o importante era o caminho e não a forma de quem o transita.

Júlio se sentia de certa forma conectado com Salvador. Não que fossem contemporâneos. Nada disso. Havia uns dois mil anos de separação histórica. A coisa era mais profunda.
Júlio tinha nascido como qualquer outro circulão; ou seja: dois circulões complementares se uniam, mitigando as diferenças do círculo simulado e passando a constituir um novo círculo particular, abandonando – na medida do possível – os respectivos círculos particulares ao que tinham pertencido para formar um outro circulo melhor e maior na medida do possível ou pelo menos aparentar que assim era.

Bem, particularidades à parte, Júlio foi crescendo bastante bem. Aprendeu as habilidades de simular o pensamento, esconder a verdade, fugir das ideias que não fossem circulares, enfim, tudo aquilo que os mais antigos achavam essencial para o pequeno Júlio chegar com sucesso a participar do círculo simulado e evitar o mais possível o contato com o círculo externo irreal. A não ser, claro, aquelas vezes em que a necessidade o empurrasse para obter algum recurso com os triangulões ou os quadradões vizinhos.

O inferno isolacionista

hiper-conectadosEra uma vez um moço italiano chamado Guglielmo Marconi. Nascido em Bolonha, Itália em abril de 1874. Antes dele e até 1896, o telegrafo sem fios era impraticável se bem já tivéssemos cabos e o telefone já se mostrava viável desde 1849 com Antonio Meucci e 1876 com Graham Bell.

A verdade é que após Marconi ganhamos – como humanidade – uma certa liberdade e velocidade na comunicação que nunca tinha sido imaginada pelo homem comum. Em 1897 Nikola Tesla apresenta uns estudos que Marconi iria utilizar para em 1899 realizar a primeira transmissão pelo Canal da Mancha. Nunca mais seriamos os mesmos. São essas coisas que tem a humanidade: um invento a muda como um todo.

Depois veio o rádio, a televisão, o satélite, a internet, telefone sem fio e em algum momento demos um pulo substancial em termos computacionais e temos aplicativos fantásticos – desde o ponto de vista técnico – como Facebook, WhatsApp e outros que nos permitem de forma instantânea estar conectados com virtualmente qualquer ser humano.

Quando Marconi morreu em 1937, ele recebeu um funeral com honras de estado e à guisa de homenagem, todas as emissoras do mundo ficaram dois minutos em silêncio. Duvido que Jan Koum (inventor do WhatsApp) ou Mark Zuckerberg (inventor do Facebook) recebam semelhante honraria ou equivalente no momento da sua morte.


Vivemos no que gosto de chamar de um mundo hiper conectado. Se formos ver, não há necessidade real de estarmos tão conectados assim. Obvio que é bacana e muito prático. Eu mesmo uso tudo o que tenho ao alcance para me manter em contato com familiares, amigos, irmãos, clientes… Todavia, percebo que há gente que não consegue viver sem.

placa-decorativa-mdf-vintage-frases-nao-temos-wifi-fr048-D_NQ_NP_777503-MLB28050905517_082018-FEm alguns locais já é possível observar placas com os dizeres “Aqui não temos WiFi, conversem entre si”. Também há projetos de lei visando impedir o uso do celular em alguns locais públicos.

Não paramos mais para estarmos juntos e muito menos sozinhos. Assistimos um filme, mas cada qual com seu próprio celular, tablet, notebook… se ao menos fosse um livro.

Estamos pendente do tom que indica uma mensagem entrando, uma curtida, um sinal distante e – provavelmente – artificial de apoio mas dificilmente nos prendemos nas palavras da pessoa que está ao nosso lado. É um inferno. Cada um por si e a internet por todos nós.

O amor vai se esfriando, não por falta de contatos mas pelo excesso deles. É a mesma coisa que bebermos Coca-Cola para apagarmos a sede. Sede só se apaga com agua. O resto é ladainha. Assim tambên tentamos receber afeto, aceitação e apreço por meios artificiais e com laços afetivos duvidosos.

Postei esses dias só para provocar que as esmolas não deveriam de ser publicadas nas redes sociais. Isso porque percebi que há vários que postam o que fazem de bem ao próximo apenas para receberem a ovação dos seguidores da rede social de plantão. Obvio que estava parafraseando Jesus mas mesmo assim a reação não se fez esperar.


Moro num pais que fiz meu por adoção. Logo, meus parentes estão todos distantes. Obvio que os meios de comunicação modernos me permitem uma comunicação muito mais do que necessária.

Todavia, nada substitui o contato direto com minha mãe, pai, irmãs, tios e primos.


Vivemos um inferno isolacionista. Cada um no seu quadrado pretendendo estabelecer com o distante o que deveríamos estabelecer com o próximo. Comunicando sentimentos e ideias com quem podemos desligar se sua opinião nos é contrária.

É um simulacro de vida. Parece com a real, mas não é. Assim como teus rins irão à falência se apenas bebes refrigerante, assim também tua vida emocional vai para o buraco sem relações reais.

Como diz a letra de Tele-Fome de Jota-QuestNão adianta falar de amor ao telefone, isso é ilusão

Meus araminhos e os cravos dEle

Marco é um bom amigo e irmão de uma igreja local que costumamos frequentar.

Ele também passou por uma operação de peito aberto e uma manhã qualquer ele me disse “Eu sei onde estão meus araminhos”. Pronto: fiquei fixado com aquilo. Eu não queria saber onde estavam meus araminhos. Deixa eles quietos lá dentro. Nem me lembra deles.

Para quem não sabe, quando seu peito é aberto ele precisa ser sujeito com arames.  Sua responsabilidade é ficar de repouso absoluto até os araminhos fazerem o serviço deles que é apenas manter o osso no lugar até ele soldar certinho. Penso  – no meu desconhecimento – que depois disso poderiam ser retirados por não serem mais necessários visto terem cumprido sua missão…. mas isso não me parece que seria uma opção viável.

Tem dias que você acorda e não há nenhuma sensação de que tenha ocorrido uma alteração tão grande no seu peito. Ai você fica quietinho. como que querendo lembrar como era a vida antes da intervenção. Em algum momento você tem que se mexer porque ao final das contas tem que sair da cama, e ai você lembra que seu peito está ali no lugar por conta dos araminhos.

Há alguns anos – em 2001 mais precisamente – quando tive que pregar pela primeira vez após minha ex e eu termos perdido o Natan nos dias do seu nascimento, lembro que foquei na morte de Jesus na cruz e divaguei pela ideia de como Deus pai deve ter sentido quando a morte do seu Filho unigênito. Se não houvesse morte de um justo, não haveria possibilidade de retirar do Diabo o poder sobre a morte já que ela é o pagamento justo pelo pecado. Se a morte fosse apenas uma simulação, não haveria possibilidade de quebrar esse laço pois seria uma mentira que é um pecado tornando todo o resgate uma grande palhaçada. A morte de Jesus, o Cristo, devia ser completamente real. Assim sendo, o sofrimento do Pai deve ter sido também terrível ao final das contas, omnipresente do jeito que é, não poderia se esconder muito longe do filho enquanto dizia “por quê me abandonaste?”

Anos se passaram e os meus araminhos me fazem refletir nos pregos que fixaram Jesus na cruz. Mais do que os pregos, o que fixou o Cristo lá foi a própria e decisão de sofrer em nosso lugar. Então mais do que nos pregos penso na mutação do perfeito divino para o completo humano e como isso mudou não apenas nossa história mas também a história do divino.

Me parece que pouco paramos para pensar que a mutação sofrida pelo Cristo acontece em tempo específico (Ef.1:10 e Gá.4:4) e as conseqüências disso são pela eternidade. Ou seja, Jesus após a glorificação não volta ao seu estado inicial mas sim continua sendo o homem perfeito. Por isso ele é o primogênito da ressurreição. Como ele é, nós seremos (1Jo.3:2; Fil.3:21). Ele veio para nós mas nós vamos para ele e por causa dele. Quando ele volte, será perfeitamente reconhecível (Lc.21:27; Ap.1:7)

Então não se trata mais de apenas dizer que Jesus é Deus encarnado mas também de fixar que as conseqüências disso se estendem pela semi-eternidade que começou no ato da encarnação. E com encarnação não me refiro ao nascimento e sim à mesma fecundação.

Meus araminhos me acompanharão ao túmulo. Caso seja cremado, eles se derreterão e fundirão com o material orgânico e outra parte se tornará volátil. Mas caso seja enterrado, quando forem me colocar na urna, lá estarão os meus araminhos como um lembrete constante de ter passado pelo fundo do olho da agulha.

Como será que é com Jesus? Será que ele lembra como era antes dos pregos? E se lembra, como o faz? Sendo que é vitorioso, há possibilidade de que ele sinta saudades sobre o estado anterior? Sei que estou indo longe com estas perguntas mas acho elas válidas para talvez de alguma forma lhe fazer entender – querido leitor – que o sacrifício completo foi realizado pelo Cristo e não adianta querer conquistar qualquer coisa eterna pelas obras. Também não é possível torcer o braço do criador, já que ele fez tudo e de forma completa. Se não fosse uma obra completa, para que fazê-la?

Bom, seja como for, meus araminhos me fazem lembrar dos pregos dEle.

Uma vida abandonada

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Já viu um daqueles filmes em que velhos colegas de escola ou faculdade se encontram? Geralmente dá pé a uma comédia, obvio. Dificilmente há algum que traga alguma outra coisa a não ser risada sobre si mesmo.

Em situações ideais, se espera que a pessoa seja/esteja melhor agora que há 20 anos atrás e é claro, há coisas que se escapam ao controle da pessoa (uma doença, um acidente, um projeto que não deu certo por condições externas) e outras que dependiam apenas do ser re-encontrado.

Tire seus cinco minutos e volte no tempo. Relaxe e relembre como você era há cinco, dez, quinze, vinte anos atrás. O que mudou? Aquilo que mudou (para bem ou para mal) é fruto do seu empenho? Você pode se dizer responsável daquelas coisas que foram modificadas na sua pessoa? Você foi um sujeito passivo ou ativo na mudança ou na permanência ?

Imagine-se em outra situação. Imagine-se contando sua trajetória até ontem para alguém. Como seria? “Isto e aquilo está melhor por causa de tal e qual razão”? “Fulano(a) me ajudou muito neste quesito”? ou está mais recheado de falas do tipo “Não consegui fazer isto nem aquilo porque fui impedido por fulano(a)”? ou talvez “O sistema (mundo, diabo, igreja, sociedade, clube) me impediu de fazer tal e qual coisa que era meu sonho”?

Gálatas e 2Pedro

Há duas passagens que gosto muito: Gál.5:22-26 e 2Pedro 1:1-9

No primeiro, Paulo diz que o fruto do Espírito é “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio“. Esse texto é maravilhoso pois essas coisas colocam de manifesto a vida do Espirito em nós. Obvio que sei que os legalistas de plantão costumam ler e dizer “devemos ter amor, devemos ter alegria, devemos…” e não conseguem enxergar que é um fruto (um único) do Espírito na vida daquele que crê. Se deixamos um cachorro bem alimentado e em liberdade ao nosso lado, ele é feliz. Não tem porque ser infeliz se ele tem as três coisas que ele mais gosta: alimento, aconchego e o tutor dele. Ele manifestará a sua alegria espontaneamente e nos fará saber sem lugar a dúvidas que é feliz. Assim também, se o Espirito do Senhor é deixado em liberdade em nós, ele produz naturalmente “amor, alegria… domínio próprio“. Não tem como o Espirito Santo produzir outra coisa. Todavia, o legalista, por não saber nada de liberdade, traduzirá “devemos” em lugar de “o fruto é…”

Mas temos 2Pedro 1:5. Aqui Pedro começa com um verbo que causa repulsa em certos cristãos: “Empenhem-se“. Causa repulsa porque na visão deles, tudo acontece apenas por obra de Deus e nada do que é feito no interior da vida do ser cristão pode – de alguma forma – depender do próprio cristão. Então, assim como o legalista lê errado Gálatas, o livre lê errado 1.Pedro.

Para o apostolo Pedro (aquele de declaração de fé, do monte da transfiguração, dos pães e peixes, do Getsêmani, da negação, da cruz, da ressurreição) há um lugar enorme para o empenho do ser cristão. Sim, o ser cristão, pois o texto o vê como uma consequência daquilo que o criador já fez: “Por isso mesmo

Para Pedro, a vida do ser cristão é uma sucessão de pequenos destinos similar ao trajeto de um ônibus circular. Como se de camadas se trata-se ele inicia falando para acrescentar à fé a virtude. Obvio que esta fé, não é fruto do esforço pessoal. Nisto ele concorda com Paulo (Efésios 2:8,9) e com o próprio Jesus, o Cristo (João 6:28-29) em que a fé é fruto da intervenção de Deus na vida do homem. Sem o Cristo levantado na cruz, não haveria possibilidade desta fé (João 12:32; 44-46; 6:44). Sem fé, nada da vida cristã é possível. Sem fé, as pessoas podem emular atributos cristãos mas só isso. A pessoa pode gostar de algum credo cristão, da Bíblia, dos louvores, da pregação, da igreja local, das ações que esta promova, mas não pode haver vida sem esta fé. Sem entrar neste assunto, mas apenas para fornecer mais lenha, a fé não é a inexistência de dúvidas mas a plena certeza de que Deus é Deus não porque ele faça ou prove qualquer coisa para provar sua existência.

Uma pequena analise e tarefa para casa

Bem, avancemos. “Empenhem-se para acrescentar à sua fé virtude“. Um sinônimo bastante bacana e simples de virtude é dignidade.

Vem ai então o teste de como anda sua vida: Ela é digna? É digna do chamado cristão? É digna na privacidade? É digna para com o ser alheio? É digna para você mesmo, na sua intimidade? É digna para com quem não crê?

Mas ai mesmo surge também a questão do tempo. Diferente da fé que pode ter (quase sempre tem, aliás) um momento preciso no tempo em que ela surge, a virtude (ou dignidade) não tem uma data precisa no tempo em que ela surja e vc diga “foi em 29 de fevereiro de 1900 e bolinha que me tornei digno“. Obvio que podem haver datas assim, em que você tem uma epifania e descobriu que havia alguma coisa na sua vida que era indigna ou pouco virtuosa e a partir de aí começou a construir. Mas me refiro a que a virtude é construída aos poucos. É um daqueles atributos que é visto não de imediato, mas ao longo dos anos e segundo Pedro, requer empenho. Não acontece de forma automática (se bem que é natural ao ser cristão) mas requer dedicação, zelo, desejo, cuidado, ouvido atento, paciência, entrega.

O mesmo se pode dizer do restante. E esse é seu dever de casa.

Logo, o que surge a seguir é uma análise da sequência e dos falsos sinônimos.

Existe uma sequência. Pedro coloca a lista em uma certa ordem. Repare que esta ordem é diferente do que a gente faria. Por exemplo, você não listaria o amor antes da fraternidade? Ou o conhecimento antes da virtude? Ou a piedade antes da perseverança?

É claro que se você foi doutrinado na vida cristã, pode ser que seu espírito crítico tenha sido tolido. Mas se foi discipulado, então foi ensinado a fazer perguntas, a ser questionador, investigador, navegador das profundidades do texto bíblico, apreciador da superfície e singeleza de algumas jóias bíblicas.

Seja como for eu lhe convido a gastar um tempo pensando na ordem desta lista. Seja honesto, você faria esta lista nessa ordem? Por quê? Não vou me estender mais sobre isto pois já lhe foi indicado o caminho e quero chegar logo na vida abandonada.

Talvez lhe possa ajudar o mesmo texto em outra versão que não lhe é comum. Por exemplo “Nova Versão Transformadora”

Diante de tudo isso, esforcem-se ao máximo para corresponder a essas promessas. Acrescentem à fé a excelência moral; à excelência moral o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a devoção a Deus; à devoção a Deus a fraternidade; e à fraternidade o amor.

O abandono da própria casa

Seja porque a pessoa é legalista ou porque é livre, ela corre o risco de se abandonar. Talvez ele mesmo não perceba isso. Entra dia e sai dia e aos poucos, sem perceber, vai abandonando o posto.

Para uma casa bem construída ruir só fazem falta duas coisas: desleixo e tempo. Uma simples goteira no telhado, acaba com o madeiramento mas antes de percebermos a agua já se infiltrou e acabou com alguma parede. Podemos falar a mesma coisa sobre as formigas, falta de limpeza, etc.

Pedro diz que “Porque, se essas qualidades existirem e estiverem crescendo em sua vida, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos” (1Pedro 1:8)

No mundo evangélico, estar inoperante é deixar de ir na congregação e ser improdutivos é não evangelizar. Mas isso não faz muita justiça ao texto. Pedro nem menciona essas coisas. Pedro não leva para o âmbito institucional e sim para o pessoal ao dizer no versículo seguinte isto: “Todavia, se alguém não as tem, está cego, só vê o que está perto, esquecendo-se da purificação dos seus antigos pecados” (1Pedro 1:9)

Voltando no exercicio do inicio, você compara sua vida com a sua própria há cinco, dez, vinte anos e diz: “Poxa, esse carinha não cresceu”  ou também “Ue, ele se deixou estar, se abandonou. Cadê o crescimento dele?” e ainda “Nossa, que triste, continuo sendo o mesmo tonto de há duas décadas”

Longe de fortalecer sentimentos de culpa (a culpa assim como a raiva são péssimas conselheiras) o que busco aqui é a auto-analise. Estar nas fileiras cristãs não é como subir a um carrinho de montanha russa e ser levado daqui para lá de forma puramente passiva. Também não é fazer parte de alguma instituição cristã por mais que a execução daquilo que está no seu coração pode ser que o leve a pertencer a uma instituição para viabilizar o seu sonho.  Muito menos é ter todos os problemas solucionados e viver em plena paz e harmonia com todo mundo.

Estar nas fileiras cristãs é um chamado constante ao serviço e à morte pessoal. Duas coisas que o ser humano natural detesta fervorosamente. Não é uma guerra contra o pecado que está no outro (ainda que o pecado como sistema precise ser denunciado) mas sim contra aquilo que em mim não se assemelha ao Cristo. É uma luta não contra a injustiça social (ainda que um coração cristão deveria sangrar e protestar ativamente contra ela) e sim contra a injustiça que eu mesmo provoco no âmbito pessoal, familiar, social, corporativo. Não é uma luta contra a corja de políticos que corroem as finanças das pessoas comuns (ainda que devamos usar todos os meios ao nosso alcance para demandar mais transparência e rotatividade política) mas sim contra aquilo que em mim não respeita as coisas alheias e busca apenas ganho próprio.

Pedro diz que quem não tem estas coisas está cego. Não completamente, mas uma pessoa com curta visão. Ele não apenas não consegue enxergar a realização do chamado que recebeu, mas também não consegue enxergar (lembrar) a purificação dos seus antigos pecados. Na linha do tempo, ele está num vale. Não há lembrança nem esperança. Tudo são picos altíssimos e inalcançáveis. Sombras. Frio. Desorientação. Numa condição dessas, o mais seguro para o peregrino parece ser ficar quieto, acuado, cada vez mais encolhido num último ato de preservação.

Pedro ensina que a forma de amadurecer na vida cristã é por meio do cultivo sistemático da virtude, o conhecimento, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor. Só se essas qualidades estiverem presentes (e não como algo estático mas dinâmico “estiverem crescendo em sua vida“) só assim  elas impedirão que sejam inoperantes e improdutivos.

Avançando, a figura que Pedro emprega no versículo 10 me remete a uma ação militar: consolidar o chamado e a eleição de vocês. A colina foi conquistada, mas falta consolidar ela. Faltam as defesas necessárias para que se torne um local seguro para outros virem.

O legalista comete o erro de pensar que pode chegar sozinho à vida cristã e suas virtudes: eu mesmo conquisto a colina. O livre comete o erro de pensar que – tendo sido liberto – não precisa mais se preocupar com a vida cristã; que tudo acontece no automático: a colina  e todos os vales que a circundam são meus já.

A proposta de Pedro é bem mais cristalina e coloca as coisas no seu devido lugar: Lhe foi dada uma fé, agora enriqueça ela.

Última pérola

Finalmente, resta uma pequena jóia no versículo 11: “assim vocês estarão ricamente providos quando entrarem no Reino eterno do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” Obvio que na visão de Pedro o Reino é escatológico; isto é, ele se cumpre e manifesta apenas no fim da história (a pessoal ou a global) e isso não contradiz o fato do Reino estar sendo construído aqui e agora com cristãos responsáveis.

Para Pedro, a vida cristã recolhe no Reino eterno aquilo que semeou aqui nesta vida. Diferente da visão profana da idade média em que os pobres eram superficialmente consolados com a ideia de que ser pobre era bom porque ia ser recompensado no futuro pós morte ao passo que isso não explicava como podia existir uma igreja institucionalizada extremamente rica, o foco aqui é no desenvolvimento pessoal e nos seus desdobramentos eternos.

Ser pobre não é ser humilde nem garantia de ser melhor pessoa que um bem abastado. Ser rico não é sinónimo de orgulho ou perdição. Se você para para analisar, pode ser que concorde comigo em que essas coisas são externas.

A lista de coisas que Pedro menciona são de cunho íntimo. Tem a ver com como o exército vai se abastecendo de coisas ao longo do caminho antes de chegar no seu lugar de descanso final. Tem a ver com ir cada dia se abastando dos melhores recursos para a época que virá.

Não gostamos muito de falar nisso. Gostamos em geral de pensar que a vida eterna começa apenas após a morte e nada do que fizermos aqui afeta a vida de lá. Mas a Bíblia ensina outra coisa. E o faz em repetidas ocasiões. À guisa de exemplo, lembre de 1.Cor.3:1-15, Tiago 2:18-22, Heb. 6

Quer entrar ricamente provido no Reino eterno, então continue a acrescentar à sua fé virtude, à virtude conhecimento, ao conhecimento domínio próprio, ao domínio próprio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade a fraternidade e à fraternidade o amor.

A salvação não é por obras e está garantida. Repare que Pedro em lugar nenhum diz alguma coisa como “Se não fizerem isto arderão no fogo eterno“. Não. Ele diz: “quando entrarem no Reino“. A entrada no reino depende da fé recebida que aponta para o Cristo morrendo na cruz. Uma coisa conquistada por graça, não pode ser anulada pelas obras e se fosse, não poderia ser restituída já que seria uma ofensa não apenas ao Cristo, mas a tudo o que a morte dele na cruz representa. (Heb. 6:4-6)

Volte a construir sua casa. Dedique tempo a sua vida pessoal. Não se abandone. Foi pago um alto preço por ela.

É o dízimo uma prática cristã?

czech-money

AVISO AOS NAVEGANTES; Como todo artigo, este busca provocar o pensar do leitor e não instrui-lo sobre como agir. Todavia, em assunto tão delicado vale fazer uma ressalva: Se você tem a prática de entregar um percentual dos seus ingressos regularmente na sua igreja local; se você faz isso com alegria e pureza de coração; se com isto está esperando absolutamente nada em troca, então nada mude. Se sua igreja local, no exercício da sua mais plena liberdade decidiu – com a anuência de seus membros – que é importante cada um dos seus membros entregarem uma certa parcela fixa de forma regular para a manutenção dos seus programas e você faz isso de forma feliz, livre e desinteressada: nada mude.

O dízimo se presta hoje e desde tempos longícuos para uma interpretação simplista e de tendências dominantes de uma classe sobre outra. Dito em outras palavras, lhe é dito ao membro da comunidade que se dizimar Deus vai lhe abençoar e caso contrário, o devorador tomará conta.

Obviamente que o texto usado é Malaquias 3:10. A interpretação dada, limita a leitura apenas a esses textos e não consegue observar (talvez porque não lhe é conveniente) os textos a seguir: O povo não mais enxergava diferença entre o ímpio e o justo; prosperavam uns tanto quanto os outros. Quando por fim há uma separação entre os que temiam ao Senhor dos que não (v.16) não há menção sequer ao dizimo, apenas a promessa de que “Então vocês verão novamente a diferença entre o justo e o ímpio, entre os que servem a Deus e os que não o servem” (v.17) O problema que Malaquias levanta não é a questão do dízimo em si, mas da falta de obediência. (v.6,7) o dízimo, neste texto, é apenas um sintoma nesse problema todo. Havia um pacto que estava sendo quebrado por parte do povo judeu e a manifestação dessa quebra era a falta de mantimento na assim chamada casa de Deus. E é justamente o retorno ao pacto que Deus está cobrando.

Ai você está lendo e está dizendo, ou eu não estou entendendo coisa nenhuma ou esse cara está falando o mesmo que eu acredito. Avancemos.

É bem provável que Malaquias estivesse esperando a mesma reação que o povo teve no tempo de Ezequias uns trezentos anos antes (2Crô.32:2ss) mas a análise clara dele é que o povo se afastou de Deus e o grita de todas as formas possíveis.

Há uma base legal para o que Malaquias está reivindicando. Simplesmente você não pode sair por ai interpretando qualquer coisa esquecendo a base legal já que isso é forçar o texto a dizer coisas que ele não diz e por conseqüência, levar as pessoas a crerem em coisas que Deus não referenda (tanto positivas como negativas)

Deuteronômio 26

Talvez a mais simples de ver e de achar paralelos é a de Deuteronômio 26.

Via de regra separamos este capítulo no versículo 16 dando início à exortação à obediência como se fosse uma coisa separada da anterior. Mas na realidade são quatro engrenagens da mesma peça: a declaração de conformidade com a vontade de Deus (v.3;5-10a) a entrega das primícias (v.1,2,4,10b,11) a entrega dos dízimos (v.12-15) e a confirmação do pacto de obediência com suas consequências (v.16-19).

O paralelo surge porque Malaquias começa reclamando que o povo se tem desviado e desobedecido (exatamente onde Deut.26 termina) e por consequência, diz Malaquias, o povo não tem se mostrado fiel nos dízimos (a penúltima parte de Deut.26) a colheita não tem sido boa, as pragas têm invadido os plantios e não há então do que tirar as primícias (a segunda parte de Deut.26) com o que chegam a uma declaração de que “é inútil servir a Deus. O que ganhamos quando obedecemos aos seus preceitos e ficamos nos lamentando diante do Senhor dos Exércitos?” que é uma antítese à primeira parte de Deut.26

Assim como a imagem que se forma na retina é invertida, porém o cérebro recebe esta informação e a transforma novamente em imagem direita, precisamos ver que Malaquias está trazendo à memória coletiva a repetição da Lei (Deuteronômio significa repetição ou segunda lei) Começa com os sintomas até chegar na causa. Deus não falhou, o povo sim. Logo, o povo deve voltar-se a Deus e é essa a mensagem de Malaquias usando de modo magistral o dizimo como aferidor sintomático como quando usamos um termómetro para conferir a temperatura do corpo.

Mas, há um detalhe que escapa. Talvez por inocência, talvez por ignorância ou talvez por falta de escrúpulos mesmo. Deut.26:12 diz “Quando tiverem separado o dízimo de tudo quanto poruziram no terceiro ano, o ano do dízimo, entreguem-no ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que possam comer até saciar-se nas cidades de vocês

O detalhe que se perde é este de “no terceiro ano“. Já analisaremos os outros, mas este é importante. Alguns que se depararam com isto já me comentaram “ah, mas isso era por conta de que a produção era anual, mas agora o ganho é mensal” e eu me pergunto: o que tem a ver batatas com trilhos de trem.

Explico-me. Por favor, dê uma olhada honesta sobre Deuteronômio 14:22-29. O texto é muito claro como para lhe dar volta. Vai parecer até tonto tentar explicar ele porque é muito diáfano.

v.22 A ordem dada é para separar o dízimo de tudo que for produzido anualmente.

v.23 A ordem é para comer esse dízimo no local que o Senhor escolheria como habitação

v.24-25 Se for longe demais, troque por metal que é mais fácil de transportar

v.26a Com esse dinheiro, compre o que quiser: Bois, ovelhas, vinho ou outra bebida fermentada ou qualquer outra coisa que você desejar.

v.26b Com suas famílias, comam e alegrem-se na presença do Senhor.

Ou seja, deixa traduzir por se não ficou claro: é uma poupança para o churrasco do final de ano com direito a vinho e cerveja (A NTLH tem uma tradução formosa sobre esse texto) Uma grande festa para celebrar o Senhor da Vida. É uma festa plural, harmoniosa, alegre.

O versículo 27 encerra isso dizendo “E não se esqueçam dos levitas…

Talvez que alguém pudesse se fazer de bobo, não entender direito como é isso de “não se esquecer dos levitas” então a Lei (uma coisa que nem o próprio Jesus pode mudar, logo você também não pode por mais que queira) diz assim a seguir:

28 Ao final de cada três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano, armazenando-os em sua própria cidade, 29 para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que o SENHOR o seu Deus, os abençoes em todo o trabalho das suas mãos

Antes que alguém pule, já ví a promessa no final, não sou cego. Mas cego é quem não enxerga o terceiro ano. Ou, se quiser ser legalista, 1/3 do recebido seja quinzenal, mensal, trimestral, anual. Aplique como quiser, mas nunca vai dar 10% de tudo quanto você ganha.

Assim como no amor (ame seu próximo como a si mesmo) no dízimo bíblico o que vem primeiro é o churrasco, você, sua família, seus queridos. Isso é feito por três (alguns diriam dois) anos consecutivos. Depois disso, aquilo mesmo que você ia usar para seu churrasco anual, o dividirá entre quatro grupos de pessoas: os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas.

Simplificando: Sim, o levita recebia 1/4 de 1/3 de 1/10 da produção que é bem diferente do que certas pessoas incitam a ser feito.

Coloquemos um exemplo: Digamos que nos últimos três anos você ganhou (diferença entre investimento e retorno) R$ 12.000 A cada ano, você então separou R$ 1.200 (10% de 12.000) para comprar carne bovina, ovina, vinho, cerveja e outras coisas que você gosta, fatias húngaras, torta holandesa, um bom café, etc. se juntou com outras famílias amigas na capital do seu estado e fez uma festa. Só que no final do período não haverá festa; esses R$ 1.200 serão distribuídos entre três grupos da sua cidade: o levita (se ainda houvessem), os estrangeiros (isso inclui os muçulmanos, budistas e outros que por ventura não estejam indo bem na vida), a viúva (que é criticada na cidade porque é nova mas não casa) e o órfão (que a falta do que fazer, pratica pequenos furtos para sobreviver).  Se fosse em partes iguais, você doaria R$ 300,00 para cada grupo: 1200/4

Os levitas como tais não estão mais entre nós. (Precisaria ser descendente da tribo de Levi e o culto no templo ser restabelecido) mas concedamos o ponto de que se possa corresponder aos que lideram nas igrejas locais e não tem outra ou nenhuma profissão.

Para facilitar a coisa, digamos que a congregação é composta de famílias cuja média de ingressos anuais é R$ 12.000. E que esta congregação decidiu que vai praticar o dízimo bíblico (coisa que não estou incentivando porque a Lei chega até o Cristo). Mas concedamos o ponto apenas como um exercício mental. Digamos ainda que essas famílias pertencem a um de quatro grupos formados para garantir que haja um fluxo regular (já que se é para sermos bíblicos, os primeiros três anos são para a festa e o quatro é para recolher-se e entregar o dízimo)

Já pensou em quantas famílias deveria ter essa igreja? Pois é, pelo menos 200 famílias na condição de ganhar R$ 12.000 no ano. Com cinquenta famílias em cada grupo, cada grupo se juntaria para fazer um churrasco no valor de R$ 60.000 e – por conta do escalonamento – haveria uma contribuição anual de R$ 15.000 (60/4) que divididos os doze meses daria um salário pastoral de R$ 1.250,00. Os outros R$ 45.000 anuais seriam distribuídos entre as viúvas, os órfãos e os estrangeiros.

É obvio que estou levando as coisas ao limite. E é mais obvio ainda que não estou fazendo apologética pela implantação do dízimo bíblico. Mas já basta de essa enganação de dizer que dar 10% de seus ingressos tem alguma coisa a ver com o dízimo bíblico.

Antes de Deuteronômio

Alguns vão citar Números 18:21 e Levítico 27:30ss vamos a eles.

As duas citações são importantes porque são anteriores à repetição da Lei. (Ou à segunda Lei) Em Levítico 27:30, diz que todos os dízimos da terra pertencem ao Senhor por serem consagrados a ele e essa consagração é fática. Ou seja, não precisa você consagrar que já lhe pertence ao Soberano. A consagração por parte da pessoa entra aqui como reconhecimento de uma coisa que já é assim. Seria bom entrar nos detalhes, mas não é o foco.

Posteriormente em Números (e é importante frisar posteriormente) os dízimos são entregues aos levitas “21 Dou aos levitas todos os dízimos em Israel como retribuição pelo trabalho que fazem ao servirem na Tenda do Encontro” Este pacto é irrevogável (v.19) mas ele está suspenso. Não há levitas nem tenda de encontro. Nem sequer há o Templo que seria o substituto. Obvio que isso é campo para os escatólogos. Não é meu caso. Baste dizer que somos “Nação santa, real sacerdócio” (1Pedro 2:9) e que “A Lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não sua realidade.” (Heb.10:1a)

Mas, tanto Números como Levítico são anteriores a Deuteronômio.

Deuteronômio legisla sobre as leis gerais pronunciadas nessas duas passagens.

Logo, se sua interpretação do dizimo não concorda com a Deuteronômio, há alguma coisa que não fecha nessa linha lógica. E como já provamos que Malaquias é um espelho reverso de Deuteronômio 26 e este está amarrado com Deuteronômio 14, não pode pegar apenas um dos versículos e sim o pacote inteiro.

Mas antes de avançar, deixe-me repetir: Se sua congregação local, no livre exercício da sua vontade decide que cada um vai contribuir com certa quantia mensal, não peca. Agora, se dizem que isso é o dizimo bíblico, cuidado, faltou apego à escritura.

Melquisedeque

Obvio que não se pode falar em dízimos sem falar em Melquisedeque. Até o momento, só ouço falar dele como modelo para dar os dízimos. Abrão entregou os dízimos a Melquisedeque e logo – sendo ele o pai da fé – quem é você para não dar seu dízimo?

É mais uma dessas armadilhas montadas apenas para criar culpa e medo. A culpa e o medo não são bons conselheiros. Basicamente inibem seu cérebro de funcionar corretamente e você entra em modo pânico. Então, se você é um bom pastor, vai querer ensinar ao seu povo sobre Melquisedeque e como nele Levítico 27:30 e Números 18:21 são revertidas. Se você começar a estudar sobre ele, é uma questão de tempo até perceber que a Lei é apenas um parêntesis protetor, um aio ou tutor, apenas um andaime que seria retirado posteriormente.

Mas vamos devagar.

Melquisedeque é uma viagem no tempo. É uma fenda sideral por assim dize-lo. Tudo o que sabemos de Melquisedeque está claro, mas nada do que sabemos parece ser suficiente. Gênesis 14:17-24; Salmos 110 e Hebreus 7

Abrão (o nome ainda não tinha sido trocado) após lutar ao lado do rei de Sodoma, entrega os dízimos de tudo o que lhe correspondia a Melquisedeque ou ao Rei da Paz, Rei da Justiça como pode ser traduzido o nome. Este rei da cidade de Salem (Jerusalem) abençoa Abrão e aceita os dízimos mas não tem ascendência nem descendência.

Depois temos o Salmo profético 110 em que o alvo da profecia (que entendemos ser Jesus o Cristo) é (não será) sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque. Ou seja, livre, sem linhagem, abençoador do pai da fé, eterno.

Mas há um detalhe – sempre esses detalhes – que o livro de Hebreus (7:4-10) ressalta com maestria: “9 pode-se dizer que Levi, que recebe os dízimos, entregou-os por meio de Abraão, 10 pois, quando Melquisedeque se encontrou com Abraão, Levi ainda não havia sido gerado” e é aí onde o parêntesis da Lei se encerra nesse quesito.

Conclusões

Insisto que se você tem a prática de entregar uma certa quantia ou percentual para sua igreja local, o faça com alegria, liberdade e liberalidade.

Todavia, o meu problema é que chamamos essa prática de dízimo e por cima dizemos que é bíblico. O dízimo bíblico é uma outra coisa geralmente desconhecida.

Se os argumentos que lhe tem levado a dar 10% do seu salário tem a ver com culpa ou medo, então é bem provável que não sejam argumentos válidos e talvez nem bíblicos.

Já o argumento honesto é bem-vindo: “Temos tais e quais gastos e temos concordado em contribuir com 8% de nosso ordenado para a igreja local

Fique com este texto:

Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.”  2 Cor 9:7

E sobre este assunto não esqueça de

Como justos, recuperem o bom senso e parem de pecar; pois alguns há que não tem conhecimento de Deus; digo isso para vergonha de vocês” 1Cor.15:34

Vote melhor: Não vote num messias.

Tempo de eleições se presta para a manifestação da mais pura das imbecilidades: A espera por um messias.

Antes que abandone a leitura, deixe-me lhe dizer que não estou com isto desacreditando do Messias Jesus ou alguma coisa parecida mas sim enfatizar que é tosco esperar por uma única pessoa que salve a nação. Se formos ver era isso mesmo o que se esperava de Jesus no seu tempo e os seus próprios discípulos não entenderam que se tratava de um outro tipo de Reino e não um sujeito ao padrão terreno. Neste sentido, até ele mesmo teve que ‘desconstruir’ a ideia de um Messias terreno.

Mas voltando no nosso assunto; independente se você polariza para esquerda ou para direita, no fundo, espera por um ‘Salvador da Pátria’. Alguém que vai botar ordem e progresso onde -aparentemente- só há desmando e atraso. Esta ideia de um ‘Salvador da Pátria’, se junta com a outra de ‘Isto só acontece no Brasil’. É mais ou menos um sentimento de inferioridade coletivo associado ao ‘complexo de Gabriela’: nascemos errado, logo sempre seremos errados. Duas falacias separadas apenas por uma vírgula.

Brasil não nasceu errado. E mesmo se tivesse nascido, não está por isso condenado a estar errado o resto da sua existência. O mesmo se aplica aos outros países das ex colônias hispano-portuguesas assim como às holandesas, britânicas, francesas.

Se o problema está na gênesis da nação, logo, apenas quem pudesse mudar esse inicio é que poderia mudar as coisas. Já se o problema está no coletivo inferiorizado, apenas alguém que pudesse mudar a identidade essencial do povo como um todo é que teria as chances necessárias para mudar a atual situação. É por isso que – ao meu ver – esperar por um messias (de esquerda, direita, centro) é tolice. Na realidade está mais para um auto-engano ou cândido desconhecimento que outra coisa.

Pode ser desconhecimento por se ignorar os procederes necessários a uma democracia, suas negociações intrínsecas, seus diálogos necessários. E não me refiro com isto ao aproveitamento sistemático da máquina democrática por assim dizê-lo. Me refiro a que -na mesa da democracia- o diálogo e a negociação são essenciais. Logo, ao esperar por um ‘Salvador da Pátria’ se espera em realidade por alguém que com pulso firme coloque as coisas no eixo. Sim, é verdade que as coisas estão fora de eixo. Sim, é verdade que o Estado tem sido tomado por assalto. E sim, é verdade que isso não acontece apenas na ‘Pátria amada’, acontece também na ‘Terra dos Livres’ assim como na ‘Pátria Livre’ das estepes siberianas. Todavia, nada disso justifica o sacrifico da democracia. Muito pelo contrario, é a atual situação a que clama por uma democracia forte. Talvez com revisões, mas mais forte. Talvez uma democracia mais chegada ao povo comum, ao empresário local, ao dono de casa, à chefe de família, mas democracia no fim das contas.

Pode ser auto-engano. Mas não qualquer coisa, um auto-engano bem orquestrado com intervenção de um forte viés de negação da própria realidade. Um engodo de tal tamanho que nos parece ser real. Por exemplo, é bem provável que lhe falte coragem para fazer as mudanças na sua vida pessoal que lhe levaria a trilhar um caminho diferente (não necessariamente melhor, isso o tempo vai dizer). Faltando essa coragem no âmbito pessoal, é de se entender a necessidade de um ‘Salvador da Pátria’. É uma simples inversão da ideia de que ‘a culpa é dos outros’ ao colocar ‘a responsabilidade em apenas um’. Pensa-se que se há um único homem com responsabilidade e valor suficientes, as coisas vão se encaixar. Se adiciona a isso o lance do ‘caráter’… fulano é integro. Na verdade você não faz ideia do caráter do fulano, apenas precisa acreditar em alguma imagem que a mídia ou o marketing vendem, isso se junta com sua inabilidade no mundo democrático, se soma à letargia e pronto, temos a receita pronta para um ‘Homem de Deus’ (de esquerda, direita ou centro) que vai salvar o mundo.

Veja se isso não se repete nos filmes que assiste, nos times de futebol, no banco da sua escolha, na escola que escolhe para os seus filhos…. sempre há a ideia de que um único lance, um único jogador, um único mocinho, uma única peça vai solucionar o todo quando o o todo é -por natureza- caótico.

Então que rumo tomar? Se não há messias, se o simples fato de associar as soluções dos problemas à escolha correta ou errada de uma única pessoa já está errada, o que fazer? Como atacar o caos com uma única bala? Porque eu não sei se reparou, mas você sim tem uma única bala (marcada) a cada quatro anos e o caos é enorme. Como um simples votante pode pôr isso tudo ao vento e arejar a coisa de vez?

Voto em branco ou nulo é suicídio. É jogar à roleta russa com o pais. É uma irresponsabilidade tamanho casa pois o que conta é o total de votos válidos. Logo, para alguém responsável é uma opção inviável.

Perguntar ao seu xamã, pajé, pastor, padre, agiota, em quem vai votar, é mais tolo ainda, já que o cara não tem uma bolinha de cristal para saber o certo ou errado. Ele está tão confuso, angustiado e cansado como você.

Colocar todos os candidatos numa sacola e sortear é melhor do que a pergunta porque pelo menos não passa vergonha. É menos irresponsável porque pelo menos é a ‘sorte’ a que decide. Mas serve apenas como ponto de partida, para as próximas eleições você vai ter que voltar às raízes.

Me explico: Para mim a solução não passa por um messias ou uma consulta aos seus iguais ou um sorteio. A solução para o caos é adicionar caos à equação e para isso é necessário voltar à raiz da democracia. Não há necessidade de novas leis nem nada. Apenas saber o seguinte: Quando Solon -pai da democracia- inventou esse lance do povo ter o poder, o fez sobre bases representativas e -olha só- um candidato eleio podia ocupar um determinado posto apenas uma única vez na vida. Olha que beleza, quando este homem inventou o lance, conhecia muito bem a natureza humana e sabia que ia dar errado. Por isso, colocou o melhor contrapeso já inventado: você só pode ser guardião do templo da Deusa X por cinco anos uma única vez na vida. Pronto… Seja bom ou ruim, em cinco anos sai e parte para outra.

Obvio que não dá para mudar as leis de um pais para se atentar a isso. Vão surgir um monte de pseudo-defensores da democracia dizendo que se o povo quer o fulano de novo no poder, porque não colocá-lo. Mas a minha proposta é: Nunca vote na mesma pessoa duas vezes para o mesmo cargo. Parece tolo mas pense um momento comigo: as coisas estão como estão porque nós -o povo- as colocamos assim. (Obvio que uma boa teoria da conspiração acalma a consciência) As pessoas (e em especial certas empresas disfarçadas de partidos políticos) se perpetuam na teta da mãe pátria, apenas porque nós -o povo- os mantemos lá. Ai o que acontece se os candidatos não se elegem? a própria pseudo-empresa vai ter que achar outros candidatos pra preencher a vaga. Aos olhos deles, a culpa não é do povo que pensou por conta própria (ao final das contas, eles entendem que o povo não pensa pois se pensassem não teriam sobrevida) e sim do candidato. Isso vai levar a um desarranjo institucional interno e criar as condições para que um candidato mais apto (leia-se: com melhor capacidade de engano) surja e seja posto. Até lá, quem entrou no poder (Senado, Deputados, Presidencia, Camara dos Comuns, Sociedade de Futebol de Chapinha) vai -por uma questão de pura vaidade- tentar mostrar serviço. Para a próxima rodada, ele pode que seja ou não re-eleito -isso não interessa ao método proposto- mas o sistema como um todo melhora porque não há mais certeza sobre a manutenção da situação já que o povo pensa e usa a única bala que tem para matar o parasita e permitir que algum raio de luz ilumine a pilha de esterco na que nos metemos.