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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

O rei esquecido

É comum em nossa cultura que — com a proximidade das festas natalinas — as nossas mentes individuais voltem seu foco para pensar em reuniões familiares, presentes, encontros, comidas…

Lembro de pequeno a gostosa sensação de leve ansiedade que produziam os dias que antecediam à celebração do natal. Ver os presentes que nossos pais compraram e colocado ao pé da árvore que tínhamos cortado de algum bosque de pinheiros não muito longe com meu pai. Saíamos em algum veículo que ele pudesse arranjar, íamos até algum lugar onde houvessem muitos pinheiros, escolhíamos um galho bonito e o cortávamos. Depois o levávamos para casa e o colocávamos na casa para mais tarde colocarmos os adornos nele. O cheiro do pinheiro permeava a casa inteira.

Esse rito (que foi repetido por alguns anos quando eu era pequeno) marcava a chegada de um momento todo especial. Era obvio que conhecíamos o sentido do natal de cor e salteado. Tínhamos uma clara consciência de que celebrávamos a encarnação do Deus da eternidade em um ser humano limitado, mas as lembranças não são de cunho teológico e sim emotivo. Nada, no ano inteiro, tinha como concorrer com o natal. Nem sequer o dia dos reis (celebrado no Uruguai – pais de formação laica e liberal – no seis de janeiro) em que também se ganhava presentes, nem a virada de ano e nem o próprio aniversário. Nada, era tão almejado como o natal. Mesmo com a chegada da comercialização e a mercantilização das festas natalinas, nada concorria com essa sensação de aconchego, esperança, segurança, conexão, intimidade, liberdade, estabilidade e tantas outras coisas que a celebração do natal trazia para a gente.

O próprio jantar de natal (que era ao final das contas o ápice de todos esses dias de espera) era toda uma festa à parte. Lembro que minha mãe tomava o cuidado de comprar algumas coisas especiais meses antes. Quem vive lugares onde as estações são bem marcadas sabe haver algumas coisas que mudam radicalmente de preço e de disponibilidade com o passar dos meses ou – no caso de primavera para verão – de algumas semanas. Essas coisas que fariam parte do jantar, eram guardadas e reservadas para aquele único jantar. Nem sempre era um jantar muito farto já que as décadas de 70 e 80 não eram especialmente bem abastadas, mas sabíamos podermos esperar algo diferente.

Os anos foram passando e se alguém me pergunta hoje sobre alguma comida ou algum enfeite especifico colocado na árvore, ou se lembro de algum presente de forma específica lamentavelmente não consigo lembrar. Fiz o exercício de tentar lembrar de algum desses detalhes enquanto escrevia este texto, mas não consigo lembrar de nenhum.

Mas eu lembro da felicidade. Lembro dos rostos iluminados. Lembro da alegria das minhas irmãs, do sorriso dos meus pais. Lembro … de cada coisa boa.

Lentamente e de forma sorrateira, a amargura da vida, as iras, as raivas, os ódios foram se acumulando. Em algum momento o próprio Rei foi esquecido e totalmente abandonado e a festa nunca mais foi a mesma.


Meu desejo, do fundo do meu coração, é que neste natal, você, meu querido leitor, separe um momento para ver o que está ao seu alcance para impedir que o Rei da festa seja esquecido. De outra forma, mesmo levando o nome de Natal estaremos celebrando apenas o desterro dele do lugar de onde nunca poderia ter sido desterrado: nossa própria existência.

Um símbolo que precisa ser preservado.

O símbolo nunca é apenas um símbolo e por isso deve ser preservado.

Nos últimos tempos assistimos a uma tentativa de devassa de um dos maiores símbolos não apenas dos cristãos mas de todos aqueles que – de uma forma ou outra – aceitam o monoteísmo judaico como raiz e origem.

Em outras palavras, agredir um símbolo que unifica as três religiões monoteístas: O Judaísmo o Islamismo e o Cristianismo é – no final das contas – uma agressão não já ao monoteísmo mas sim ao Deus que estas representam.

Gênesis 9:13

8 Então disse Deus a Noé e a seus filhos, que estavam com ele:
9 “Vou estabelecer a minha aliança com vocês e com os seus futuros descendentes,
10 e com todo ser vivo que está com vocês: as aves, os rebanhos domésticos e os animais selvagens, todos os que saíram da arca com vocês, todos os seres vivos da terra.
11 Estabeleço uma aliança com vocês: Nunca mais será ceifada nenhuma forma de vida pelas águas de um dilúvio; nunca mais haverá dilúvio para destruir a terra”.
12 E Deus prosseguiu: “Este é o sinal da aliança que estou fazendo entre mim e vocês e com todos os seres vivos que estão com vocês, para todas as gerações futuras:
13 o meu arco que coloquei nas nuvens. Será o sinal da minha aliança com a terra.
14 Quando eu trouxer nuvens sobre a terra e nelas aparecer o arco-íris,
15 então me lembrarei da minha aliança com vocês e com os seres vivos de todas as espécies. Nunca mais as águas se tornarão um dilúvio para destruir toda forma de vida.
16 Toda vez que o arco-íris estiver nas nuvens, olharei para ele e me lembrarei da aliança eterna entre Deus e todos os seres vivos de todas as espécies que vivem na terra”.
17 Concluindo, disse Deus a Noé: “Esse é o sinal da aliança que estabeleci entre mim e toda forma de vida que há sobre a terra”.

Gênesis 9:8-17

O exemplo da bandeira nacional

Se pensamos em uma bandeira, que representa um país, uma nação, vemos que ela é uma coisa tão séria que desrespeitar ela, é desrespeitar a nação. Não é à toa que quando os terroristas querem ofender os Estados Unidos da América, o que costumam fazer é queimar uma bandeira ou inverter ela.

Se focamos agora em “Quando” a bandeira de uma nação é criada, repararemos que ela é forjada na sua forma final apenas no fim da luta pela sua independência. Muitas vezes, uma bandeira precisa absorver duas facções que antes brigavam e sangravam o país. Outras vezes, ela trás as cores da nação original mas organizadas de uma forma distinta como no caso mencionado da bandeira dos Estados Unidos e a bandeira Inglesa.

A bandeira brasileira, por exemplo, toma elementos da natureza e dos seus ideais e os estampa juntos evocando a dimensão continental do “impávido colosso”.

Seja como for, uma bandeira visa unificar um conjunto de pessoas sob um mesmo ideal, forma administrativa, língua, território, etc.

Do mesmo jeito que a bandeira é geralmente uma das últimas coisas forjadas na nova nação, é ela também a última a ser arrancada quando já não sobra mais nada de uma nação derrotada na guerra. Por exemplo, quando os russos (que naquela época lutavam junto com os ingleses, os americanos e os franceses contra a Alemanha Nazista) entraram em Berlim em maio de 1945, a coisa que simboliza a queda da Alemanha de Hitler é a subida até o topo do Reishtag (O pseudo parlamento alemão de 1933 a 1945) por alguns soldados russos para arrancarem a bandeira. Com essa eliminação daquela bandeira específica se anunciava a derrota total da Alemanha Nazista sem deixar lugar a dúvidas a diferença das dúvidas que ficaram na Primeira Guerra Mundial e que fez possível a realização da loucura da Segunda Guerra Mundial.

Os símbolos no antigo testamento

No antigo testamento existem vários símbolos que marcam de forma decisiva o povo de Deus em todos seus estágios. Podemos lembrar de alguns altares ou pedras colocados em diversos locais cujo significado era repetido de geração em geração como forma de solidificar a narrativa necessária para a criação do povo.

Eliminar ou remover um desses símbolos é, em muitas formas, agredir o povo já que a identidade dele tem que ser buscada nesses marcos históricos.

Tanto é assim que povos fora da Bíblia sucumbiram, mas seus símbolos continuam a nos falar das suas crenças, seus ideias e suas práticas. Pode ser que não concordemos com esse conjunto de coisas, mas entendemos – mesmo após essa civilização não estar mais entre a gente – que há ali um vórtice de conceitos que se amalgamaram há muitos milênios é que fazemos bem em manter. Seja como fonte de conhecimento universal, como alertas de rumos sociais mal tomados ou apenas por respeito a uma civilização que já se foi.

Um exemplo deste tipo de desacato histórico aconteceu em 2015 quando representantes do Estado Islâmico destruíram várias estátuas do tempo assírio e acadiano que estavam no museu de Mosul por considera-las idólatras. O prejuízo à arqueologia e à história universal foi irreparável e o que sobreviveu foi uma amostra da tolice à que o extremismo religioso nos pode levar.

Mas há um símbolo no antigo testamento que não é feito por mãos humanas. Ele não nos pertence, nos foi concedido como um recordatório, um memorial. Ele está cheio de um significado que lhe é único e por isso é necessário, de tempos em tempos, revisitar ele. Trata-se do arco-iris.

É bastante óbvio que sabemos que o arco-íris é um efeito ótico e meteorológico em que a luz do sol é separada nas cores que compõem seu espectro quando esta brilha sobre as gotícula de água suspensas no ar. Porém, se aplicado ao arco-íris o mesmo conjunto de conceitos do que se aplica a uma bandeira que – descrita apenas desde uma perspectiva física – não passaria de um pano pintado com algumas figuras.

A necessidade viceral de redefinir o símbolo

Existe no ser humano comum a necessidade profunda de quebrar com o padrão estabelecido. Isso não é de todo ruim. Se assim não fosse, nunca tivéssemos ido à lua, ou teríamos tido vacinas, ou vencido a pólio, ou nos apropriado dos antibióticos nem extendido seu potencial. Se não tivéssemos quebrado com o status-quo nunca teríamos inventado a imprensa ou atravessado o oceano ou construído estradas nem castelos, nem casas, nem teríamos agricultura nem sairíamos das cavernas.

Quando vemos a luta sem quartel que está ocorrendo em que um símbolo está sendo esvaziado de seu conteúdo original, precisamos nos atentar de que “Um símbolo nunca é apenas um símbolo” e de que toda vez que um símbolo é atacado o que se ataca não é seu significado mas aqueles que lhe dão significado.

Toda vez que um símbolo é esvaziado, o único propósito é o de preenche-lo com um novo significado. Desta forma, se ele representa uma outra coisa do que seu sentido original, ele comunica uma outra coisa, mas como as duas coisas comunicadas andam juntas por um tempo o que se obtém é na realidade confusão que é – no final das contas – o que se procura.

O arco-íris, além de ser um símbolo outorgado e não um construído, representa uma nova aliança em um recomeço da criação de Deus. Não apenas isto, mas nele há uma garantia implícita de que o mundo nunca mais será destruído por água. E nesse sentido, quando falamos de mundo, não falamos apenas da Terra como planeta, mas de toda forma de vida. Por isso o texto bíblico diz “Nunca mais será ceifada nenhuma forma de vida pelas águas de um dilúvio”

É por isso que o símbolo é universal atingindo a criação inteira e outorgado pelo seu criador. É um símbolo do dador de vida para toda forma de vida.

Quais são as razões para a existência de um memorial tão imponente?

O arco-íris é preenchido com seu conceito divino, apenas depois do dilúvio. Ou seja, o efeito visual já existia já que ele aparece em cachoeiras, géiseres, etc. Mas o seu significado como registrado na escritura só lhe foi dado após o dilúvio.

Esse dilúvio veio por qual razão? Bem, exatamente por situações muito parecidas às que estamos vivendo: a maldade e a depravação do ser humano tinham chegado a tal nível que o Criador “se arrependeu” de ter criado o homem.

Poucas vezes aparece está expressão “Deus se arrependeu” no registro bíblico. Indica apenas que o caminho que a criação de Deus tinha tomado, havia passado de todos os seus limites e o Criador precisa intervir de forma decisiva no rumo.

Toda vez que Deus re-cria sua criação o faz com graça e misericórdia, mas também se mostrando todo-poderoso. Vemos isso em Adão e Eva em que depois de expulsos do jardim eles foram cuidados por Deus. Vemos isso em Noé e o dilúvio. Também o vemos na escolha de Abrão. No cuidado de José para preservar o seu povo escolhido.

Se continuamos a história do povo escolhido, vemos essa mesma atitude de re-criação em não abandonar o povo quando eles quiseram ter um rei “como as outras nações” e também em levantar profetas e líderes durante o tempo do exílio que conduziriam seu povo de novo ao trilho do propósito original.

Apesar de todas as desgraças que o ser humano aprontou nesse interregno, Deus manteve fiel sua palavra de não destruir o mundo novamente. Muito pelo contrário, ele se apegou ao seu propósito pois até o silêncio profético entre Malaquias e João o Batista fala fortemente do propósito divino que nem um preludio fala de um evento maior que está por vir.

Mas por que, então, tão veemente ataque?

Voltando às razões da significação outorgada ao arco-íris no livro de Gênesis, vemos que é o final da intervenção de Deus nos rumos da sua criação.

O que molesta o ser humano é a existência de um Deus real, Criador, Eterno, Todo-poderoso que intervêm na história quando julga que o ser humano e suas escolhas estão levando sua criação (que nunca deixa de ser sua) por caminhos que conduzem à destruição.

Molesta tanto, que o ser humano comum se vê na necessidade de mudar os marcos antigos porque falam – de forma gritante – de um Deus amoroso que mantêm sua fidelidade aos seus propósitos.

Este Deus é molesto pois lhe fala de dentro, de um lugar onde não pode ser arrancado. Lhe fala a partir do cerne da sua consciência que lhe acusa enquanto estiver com alguma vida. Logo, tentando apagar o símbolo de graça, amor, e intervenção, pretende-se apagar (talvez de forma inconsciente) uma voz que lhe chama para o seu Criador.

A Igreja, em suas mais diversas manifestações, faz bem em mostrar o rumo certo. Faz bem em manter bem claro o ideal. Acerta ao defender os símbolos originais e seus conteúdos.

Então como combinar o amor cristão com a mensagem de amor? Que amor é esse que não para na aceitação ou na tolerância? Não são estes valores altruístas cristãos?

Não vamos entrar aqui nessas questões por ser o tempo limitado. Mas baste apenas dizer que tolerância e aceitação ficam aquém da proposta bíblica assim como o altruísmo. São três valores injetados na proposta cristã para fazê-la palatável a quem não quer se submeter ao Senhorio do Rei, Jesus.

A proposta de Jesus é o amor. Mas já o era desde o Antigo Testamento.

Uma das passagens mais conhecidas é a de Mateus 22:34-40 em que Jesus é interrogado capciosamente pelos Fariseus sobre qual é o maior dos mandamentos. A resposta de Jesus é dividida em duas partes bem conhecidas: “Amaras ao Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu entendimento” e “Amaras ao teu próximo como a ti mesmo” encerrando com “disto depende a Lei e os Profetas”.

Esse “amor” do qual Jesus fala não tem a ver com passar a mão por cima do pecado mas também não tem a ver com apedrejar o pecador. Jesus mesmo é o exemplo de que o caminho do amor é bem mais profundo e comprometido com a pessoa. O texto que ele usa para responder aos Fariseus é o de Levítico 19:18. O texto imediatamente anterior encerra o que – ao meu ver – é uma das melhores definições do que é o amor comunitário e de que tipo de amor o mundo está precisando hoje. Esse texto diz assim:

17 Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e por causa dele não sofrerás pecado. 18 Não te vingarás nem guardarás irá contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor

Levítico 19:17-18

A morte como gatilho social

Estava escrevendo o material para uma aula esses dias e lembrei de um ditado: Há duas coisas das quais o homem não escapa: da morte e dos impostos. Refletindo sobre isso – e como era assunto da aula – argumentava do porquê (maquiavelicamente falando) é importante para um governo manter os valores dos impostos em um patamar aceitável. Lembro de ter lido sobre uma regra resultado de uma análise de que até 21% de carga impositiva, é mais barato pagar impostos do que sonegar. Todavia, essa barreira é facilmente transposta quando certos interesses (mormente mesquinhos) se sobrepõem com o qual obtemos o pior dos mundos.

Especificamente sobre a aula que estava preparando, ficava fácil argumentar a razão pela qual as dez tribos judias se sublevaram contra Roboão (filho e sucessor de Salomão) pois ele não quis baixar os impostos mas ainda tornar-se mais duro com o povo.

Então do ditado, me faltava a outra parte, a morte. Ai comecei a escrever, mas acabou ficando muito longo para ser apenas uma nota marginal e por isso decidi escrever este esboço de um artigo que talvez veja em algum outro momento.

Quando uma sociedade começa a não poder saber como, onde, ou de que forma seus mortos são enterrados o terror toma conta da mesma. Isso porque é apenas a morte a que iguala todos os seres humanos.

Uma pessoa pode ter nascido rica, ter crescido bem abastada, frequentar uma boa escola. Mas ai chega um ponto em que ela entende que a sociedade em que vive não faz juz a certos valores que lhe são caros (geralmente associados à liberdade) e começa a lutar por eles.

O regime de plantão primeiro coage, depois censura, após isso trancafia, desterra e… no último dos casos, mata o individuo sumindo com o cadaver.

Com isso, até aqueles que eram contrários originalmente à causa se juntam a ela já que se aconteceu com Fulano, pode acontecer comigo. Ou pior: com meus filhos.

Essa é a razão – em última instância – do encerramento de muitos governos represores e também de certos levantamentos recentes já que é o túmulo (e não o berço) o que iguala os individuos e é ela o ápice do esmagamento de outros direitos.

Baste pensar nos seguintes exemplos em ordem cronológica: a queda dos regimes de exceção na America Latina, o desmembramento dos países do bloco soviético e a primavera árabe. Todos eles tem muitos mortos no porão. As sociedades aguentaram um mundo de coisas. Mas quando chegaram nos mortos, a coisa começou a virar. Pode ter levado anos, mas o silêncio que toma conta da comunicação faz sentir essa virada.

Se nós observamos ao largo e alto da America Latina, há um monte de famílias cuja opção política é contraria àquela que se nega a investigar sobre desaparecidos, mortos sem túmulo, etc. E é isso que modula todo seu pensar já que essas mortes estão grandemente vinculadas com traição ao que lhe é mais íntimo e sagrado.

Mais recentemente o que mais nos afeta socialmente em medio à pandemia da COVID19 é justamente o não poder enterrar o morto sem vê-lo por última vez. Então essas mortes, servem como exemplo e aproximação por analogia para aquelas outras.

Agora, imagine quando se repete a história uma e outra vez de que há um “desaparecido”. Isto é, um morto sem razões suficientes, sem túmulo adequado, sem um momento para a despedida e – via de regra – por razões bizarras. O que pensamos (dizendo ou não) é: “É só uma questão de tempo até acontecer comigo”

É por essas e outras que digo que o ditado popular, mais uma vez, revela algumas verdades muito interessantes. O lance dos impostos o tratarei na aula; mas vejo que essas duas opressões são as que marcam o inicio de uma reação.

Um outro dia gastarei tempo procurando as pesquisas e as referências. (Em especial da barreira de 21%… eu acho que era Indonésia, mas não lembro)

A importância da quinta-feira da semana santa

Introdução

Vivemos em uma época em que as palavras são esvaziadas de seus conceitos originais de forma proposital para poderem ser usadas em outros contextos e – obviamente- com outros propósitos.

O exemplo mais simples que vem na minha cabeça é a antiga palavra caridade. Esta palavra originalmente transmite a ideia daquele amor que surge no coração de Deus e que se manifesta para minha pessoa mas também para meu próximo em ações concretas. Todavia, hoje a palavra caridade é quase um insulto. Pensar que um homem forte e trabalhador seja passível de caridade é -nesta época- um contrasenso, já que a palavra passou a significar um ato quase desprezível de dar o mínimo para quem não tem o que comer. E para piorar, geralmente este “ato de bondade” é feito com material da pior qualidade, ou tirando fotos para poder postar em redes sociais. Ou seja, a pior de todas as situações.

O mesmo acontece com as palavras misericórdia, humildade, bondade, perdão e por ai vai. Lembro de uma ocasião em que alguém ficou extremamente bravo comigo por sugerir que ele era humilde. A reação violentíssima dele demonstrou que eu estava errado e que ele não sabia do que se tratava a humildade. Por duas ocasiões me vi perante pessoas que tinham cometido um erro grave contra outrem e insistiam em que eles tinham que perdoar a parte ofendida quando na realidade o que deveriam de fazer era confessar o fato e pedir o perdão da parte afetada. A lista é interminável.

Com o adágio de “dá para entender”, simplesmente vamos permitindo que as palavras percam seu conceito, passem a significar geralmente o contrário e a comunicação (que é a base dos relacionamentos e as construções humanas) virem uma pequena torre de babel sem qualquer necessidade.

Falando nisso, “adágio” nada mais é do que um provébio popular do qual se pode tirar algum tipo de ensinamento moral. O que chamamos de ditado popular. Com isso entramos em outro assunto que são as palavras esquecidas por falta de uso no dia-a-dia. Quando se juntam as duas coisas a comunicação vira uma torre de babel atômica em que qualquer parte que se mexa, explode tudo pois não há compreensão do que se quer dizer seja pelas palavras, seja pelo conteúdo das mesmas ou seja pelo uso pouco comum destas.

Uma das palavrinhas que é usada nestes dias é Páscoa e ela tem um conceito todo especial para o povo judeu e – por transferência ou posse – também para os cristãos em sua maioria.

Propósito

Busco hoje, que você adquira o uso correto da palavra páscoa e finque uma posição clara e definida ao respeito do que – como cristãos de liturgia livre – pensamos (ou deveríamos pensar) ao respeito. A trilha pela qual chegaremos a essa definição e aplicação prática passa por entender o significado original da palavra e entendermos a aplicação certa e errada que se faz do termo. Como brinde desse percurso vai poder observar o mundo no qual vive com olhos renovados e entenderá a razão pela qual falamos que “somos uma nova criação”

Uma primeira aproximação do texto a ser usado.

Bem sabido é de que gosto bastante do evangelho de João. E também é conhecida a frase de que “é um evangelho desequilibrado”, brincando com a palavra “desequilibrio” tendo plena clareza de que talvez “desbalanceado” faria mais sentido mas não ficaria tão chamativo.

Todavia, quero com isto fazer referência ao fato de que dos 21 capítulos deste evangelho os primeiros 11 (na realidade até o 12:12) são dedicados à encarnação de Jesus e o seu ministério público e privado. Do 12:12 até o 20:23 João nos apresenta apena a última semana de Jesus até sua crucificação e ressurreição, deixando um pequeno epílogo (20:24-21:25) para cuidar de Tomé, os discipulos e Pedro.

Mais da metade do evangelho é usado para essa semana. Logo, ela deve ser muito importante. Uma outra coisa que eu fico admirado é a aussência de um registro entre o 19:42 e 21:1. O sábado simplesmente falta no relato.

O que tem de tão especial essa semana (que coincide com a celebração da páscoa judaica) para nós cristãos do século XXI?

O ápice da semana santa.

Costumamos colocar o ponto mais alto da semana santa como sendo o domingo. E não há erro nenhum nisso e já veremos a razão. Mas há três dias que costumamos esquecer. Talvez por sermos de liturgia livre, não damos tanta atenção a isso. Ou talvez por não entendermos o que esses dias significam. Ou por nunca termos parado sequer para pensar neles.

Venho de uma cultura evangélica livre em que se preza pelo pensamento autônomo mas também pelo andar como um só povo. Não fosse que há virtude nessas duas coisas, diríamos que se trata de uma grande ironía. Todavia, o pensar independente acha sua maior manifestação na compreensão do fato de que ser cristão é pertencer voluntariosamente ao povo que segue Jesus o Cristo.

É por essas e outras que lá temos durante a semana santa diferentes tipos de atividades que relembram os diferentes momentos da semana santa. Aqui no Brasil isso é notoriamente mais um terreno utilizado pelo rebanho católico romano e o reformado. Acho que podemos aprender com eles.

A quinta-feira

Não querendo me estender muito, e precisando que os conceitos burbulhem em sua mente e aqueçam seu coração, elencarei então rápidamente a razão de cada dia ser tão especial assim, antes de debruçar-nos sobre o domingo.

O capítulo 13 de João nos coloca na quinta-feira e o detalhe é “tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até o fim“. Uma outra forma de traduzir seria “mostrou-lhes então que os amou perfeitamente“. Isso é apenas uma nota introdutória para uma seqüência de dialogos e discursos de Jesus centrados em preparar seus discipulos para algo que iria acontecer.

É nesse contexto que encontramos Jesus lavando os pés dos seus discipulos em uma ceremônia privada antecedendo a ceia (13:5-17). Vemos Jesus anunciando que será traído (13:18-30) que Pedro o negará (13:31-38) que é necessário guardar a calma e a fé porque um dia ele voltará para buscar os seus (14:1-3) e que seus discípulos conhecem o caminho ao Pai (14:4).

Mesmo tendo ele gasto três anos mostrando o caminho, vivendo a verdade e sendo a vida entre seus discípulos, eles não tinham compreendido esse fato. Quem traz essa dúvida é Tomé mas do jeito que está colocada, vemos que era uma dúvida do grupo. Suspeito que se eu estivesse entre os doze, também não teria entendido.

Seja como for, ele deixa claro que ele mesmo é – ao mesmo tempo – as três coisas: O caminho, A verdade e A vida (14:5-7). Ele é a realização das três necessidades básicas de todo ser humano em qualquer época. Até uma organização criminosa luta por se manter no caminho escolhido, condena a mentira dentro da sua sociedade e quer – a qualquer custo – preservar sua própria vida. Já Jesus é o climax da revelação divina ao ser humano total.

Mas Filipe (aquele que foi atrás de Natanael, e também o que recebeu os gregos que queriam ver Jesus, e também aquele ao que Jesus perguntou onde conseguiriam pão para alimentão a multidão) reforça a ideia de que -mesmo perante o autor da vida- eles não estavam entendendo coisa nenhuma do que acontecia. Não é de estranhar que hoje, para nós cristãos nominais de qualquer rebanho do século XXI, a quinta-feira nos comunique pouco e nada de forma prática.

A resposta de Jesus é simples na aparência. Superficialmente simples apenas. Mas que a podemos resumir aos efeitos práticos no seguinte: Jesus e o Pai formam uma unidade indivisível; dai que crer no Filho é Crer no Pai e não se pode crer no Pai sem crer no Filho. Eles estão em pé de igualdade. Logo a seguir, Jesus acrescenta o Espirito Santo nesta equação e o lance fica ainda mais confuso pois Judas (não o traidor) continua entendendo toda a operação em termos universalistas ao passo que Jesus volta a insistir na obra limitada do Espírito Santo naqueles que amam Jesus não como ato filosófico, ilusório ou abstrato, mas como seu Senhor. A resposta para Judas vem no final do capitulo 14 (14:31) e indica claramente que é necessário que o mundo saiba que o Filho ama o Pai como seu Senhor. Isto é na mesma forma em que ele espera que seus discípulos o amem.

Logo a seguir, encontramos a parábola da videira e os ramos, o aviso de que o mundo odiará seus discípulos (não apenas que vai achar eles chatos, mas sim que desejará a morte dos mesmos) e insiste na relação estreita que há entre os discípulos, o Filho, o Pai e o Espírito Santo (15:18,19,21,26). Jesus torna a falar do Espírito Santo e sua obra (16:5-16) – que por sinal é magnífica e completa 16:8- e conclui avisando que a tristeza que seus discipulos pronto haveriam de sentir, se convertiria em alegria (16:17-37).

Este momento privado de Jesus com seus discípulos se encerra com uma oração por si mesmo, pelos seus discípulos e pelos que haveriam de crer no futuro, ou seja, cada um de nós.

Tudo isso (13:1 ao 17:26) ou seja, mais de 19% da obra de João é dedicada apenas à quinta-feira da páscoa judaica e aos cuidados e preparativos que Jesus tinha que fazer antes da sua crucificação, morte e resurreição.

A maior parte do material que João utiliza é inédita. Ou seja, não está presente nos outros evangelhos. Isso de por sí só, deveria levar nossos olhos a revirar mais esses textos. A cultura à qual o evangelho de João é encaminhada (a greco-romana) é mais parecida com a nossa do que queremos aceitar. Por isso que este evangelho entre os quatro se encaixa mais nas perguntas que temos e é por isso que o escolho recorrentemente para a cosmovisão que tenho sobre a ação de Jesus o Cristo na sua criação.

Logo a seguir, temos o relato da prisão, a crucificação, a morte, o silêncio de sábado e a resurreição. Tudo isso apertado em dois capítulos e meio (18:1 – 20:22) que representam 11% do livro de João. Se levamos em conta que 18:1-18:27 ainda acontece na noite de quinta para sexta, a nossa atenção deveria ser redobrada para aquele dia sem por isso tirar alguma atenção da sexta, do sábado e do domingo.

Todavia, como geralemente sexta e domingo recebem bastante atenção gostaria de centrar minha atenção na quinta e no sábado (o dia mais relatado e o dia mais esquecido de João) para tentar sugerir que o foco da vida da igreja é a fé, resolução e esperança que Jesus queria estabelecer nos seus discípulos nesse dia já que se fosse após, não seria mais pela fé.

A páscoa

Falar em páscoa judia é um pleonasmo. Todavia, é uma redundância necessária pois achamos que a páscoa é cristã.

Aliás, com tanto ovinho feito de chocolate e coelhos saltitantes o significado original da páscoa tem se perdido que nem o do natal com seu Papai Noel, sua árvore, e seus presentes não dados mais ao menino rei mas sim às crianças que as temos colocado (de forma absurda e errada) como reis do lar, com o qual damos lugar a gerações cada vez mais frágeis e quebradiças. A estratagema de tirar o conteúdo original da palavra e substituir por outro igual e contrário tem dado certo. Ninguém associa Jesus com Natal nem com a Páscoa.

Se faz necessário, então, usar a redundância, o pleonasmo, a repetição de “Páscoa Judaica” para chamar a atenção sobre o fato de que ela tem um significado e não é exatamente o que celebramos como cristãos e em especial como cristãos de liturgia livre.

Para os judeus, a páscoa é a celebração da libertação liderada por Moisés do Egito. A palavra páscoa tem origem na palavra hebraica חג הפסחא (Pêssach) que significa “passar além”. Não só faz referência a passar adiante geográficamente no sentido de sairem do Egito, mas também no passar além da escravidão chegando à liberdade.

É então a festa que marca o inicio do êxodo do povo hebreu. E o Êxodo marca o inicio do ano judeu. Então a sensação que nós sentimos perto do Natal é semelhante à que os Judeus sentem nesta data toda especial para eles.

Encontramos o relato em Êxodo 12.

O Êxodo

A páscoa é uma celebração feita antes da saída, onde não haviam garantias nenhuma ainda de que iriam sair. As ultimas noticias que tinham era que o rei egipcio estava endurecido (11:10).

O cordeiro pascal (que havia sido separado no dêcimo dia do mês) seria morto à tarde do decimoquarto dia ao mesmo tempo em todas as casas (12:6).

Sempre lembro da vez que vi meu vó matar um cordeiro. Eles morrem sem fazer barulho, em completo silêncio. Não é errado imaginar como essa imagem se impregrnaria na retina dos mais novos.

A primeira coisa a ser feita após matar o cordeiro, era um ato de fé também: o sangue seria usado para marcar o batente da porta do local onde seria comido mais tarde. Geralmente queremos injetar no texto a ideia de uma coisa pesarosa, angustiante. Só quem já comeu cordeiro assado com algum molho amargo sabe o gostoso da mistura. Um pão não fermentado acompanharia essa ceia da qual não poderia sobrar nada (12:10) Ela seria comida de forma apressada, prontos para partir (12:11).

Enquanto isso acontecia do lado de dentro da casa, o pior dos terrores dos egipcios estava acontecendo. Lembre-se que a religião deles lhes garantia que era necessário fazer os rituais noturnos apropriados para poder ajudar o sol a vencer seus inimigos noturnos e sair novamente o dia seguinte. O “Terror Noturno” do que fala o salmo 91 ou a “peste que se move sorrateira nas trevas” aparentemente faz referência a esse pavor que noite após noite tomava conta dos egipcios.

Após Yavé destronar as divindades egipcias restava um último ato que mostraria sua superioridade como único Deus mas também sua justa vingança pela morte dos filhos hebreus relatada em Êxodo 1:22; a morte dos primogénitos egipcios. A soma de todos os medos egipcios tivera sua completa vazão nessa noite em que o anjo do Senhor passara sobre o Egito varrendo com mortandade todas as casas do Egito (12:29) poupando apenas as casas em que -pela fé- tinham marcado o batente da porta com sangue do cordeiro.

Logo depois, na manhã seguinte, os hebreus sairiam do Egito para nunca mais voltar. Era o início de uma nova época para o povo. A liberdade (com todos seus sensabores) se descortinava perante eles, ficando para atrás não apenas 430 anos de escravidão mas também os últimos meses de angustia ocasionados pela resposta de Deus ao clamor do povo.

A páscoa é então esta celebração anual que os judeus têm desde aquela época até o presente. E é numa festa dessas que encontramos Jesus com seus discípulos nas passagens que nos ocupam hoje.

A celebração cristã

É na páscoa judaica que Jesus é preso, morto e resurreto. Esse é nosso ponto de contato com a páscoa judaica. O cordeiro pascal perfeito (Jesus o Cristo) já foi sacrificado (1 Co. 5:17) não havendo – portanto – possibilidade de celebrarmos outra páscoa. O que nos resta é a celebração da ceia do Senhor que é a ordenança por meio da qual relembramos e anunciamos a morte de Jesus o Senhor e Messias até que ele volte.

Todavia, é também a páscoa judaica e a ceia cristã o ponto de inicio de uma nova criação. Assim como a primeira páscoa é o inicio do ano hebreu, o inicio do êxodo que depois daria lugar à conquista da terra prometida, é a ceia do Senhor (a última da qual ele participou até voltar Mt.26:29) o inicio de uma coisa completamente nova. Em certo sentido é nosso Êxodo mas também nossa Gênesis. Ou seja, o nosso peregrinar nesta terra, mas também o inicio da nova criação.

Geralmente as pessoas que habitam este planeta podem ser agrupadas em dois grandes categorias: aqueles que acham que Deus sim criou o mundo mas o deixou abandonado a sua própria sorte e os que acreditam que chegar ao prazer sem sentir nenhum tipo de dor ou efeito dos afetos é o ideal.

A ceia do Senhor nos relembra aos cristãos que exatamente estamos fora desses dois grupos. Primeiro porque o prazer pessoal nunca pode ser a filosofía de vida já que ele está preso a esta criação. A não ser que seu maior prazer seja Jesus o Cristo, não há lugar para ser o prazer sem dor a bússola de sua vida. Segundo porque é exatamente na ultima páscoa celebrada e na primeira ceia que vemos que Deus não deixou sua criação degringolar.

A criação

Ele não fez robozinhos aos quais se dá corda e se abandona rodando sozinhos. Adão, Noé e Abraão são apenas precursores de um mesmo projeto: uma criação com vida própria cuja maior alegria é servir seu criador com espírito voluntarioso.

Nesse sentido, Jesús – então – não é um plano de emergência ativado de última hora porque nem Adão, nem Noé, nem Abraão conseguiram atingir o alvo de criar uma familia universal consagrada a servir alegremente ao criador. Trata-se na realidade da realização do projeto original em que apenas Deus – o criador – leva absolutamente toda a gloria.

Se Adão, Noé ou Abraão tivessem conseguido o alvo de se tornarem um único povo ou uma única e extensa familia de adoradores, logo, o plano original não teria razão de ser pois Deus seria – basicamente – redundante.

Celebramos então – junto com toda a atividade da quinta-feira e o silêncio do sábado – a consumação do plano divino: o inicio de uma nova ordem cósmica em que o Rei conquista o território e ocupa o lugar que lhe é por direito seu e que seus servos insitiram muitas vezes em dar ao seu inimigo.

Se paramos um pouco para olhar a última palavra de Jesus antes da sua morte registrada por João no 19:30 “tetelestai” – “está consumado” precisamos parar e ficar em silêncio observando essa manifestação do Rei.

Não se trata apenas de uma palavra se bem que ela aparece apenas duas vezes no Novo Testamento (João 19:28 e 19:30) mas uma declaração formal de que a sexta-feira da nova criação chegara ao fim. Na primeira criação o homem é criado na sexta-feira. Na segunda criação o homem perfeito morre na sexta-feira para poder dar lugar à nova criação.

Da mesma forma que na primeira criação Deus descansou das suas obras (Gên 2:2;3) João nos registra um dia inteiro de silêncio sem nenhum registro. Ou dito de outra forma: não há sequer uma linha escrita no evangelho de João ao respeito do sábado. Tetelestai: está consumado; agora vem o descanso.

Na primeira criação sendo o homem criado na sexta feira, o primeiro dia completo dele seria o sábado ou o dia de descanso.

Na segunda criação o homem perfeito descansa o sábado inteiro.

Os dois sábados nos levam apenas à conclusão de que Deus continua no controle. Ao final das contas, é exatamente o que o sábado relembra: independente do seu esforço a criação continua funcionando na boa.

A morte não pode impedir Deus de realizar sua obra. Da mesma forma que a morte entrou por meio de Adão, é por meio de Jesus que a vida entra profusamente na antiga criação. A ordem se inverte colocando as coisas de novo no lugar que eram para estar sempre.

É exatamente isso que celebramos: Jesus colocou as coisas de novo no lugar e ele tomou as rédeas. A vida – que hoje se extende a todos – só é possível porque Jesus o Ungido nos libertou da escravidão.

Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, dentre todos os homens somos os mais dignos de compaixão.
Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dentre aqueles que dormiram.
Visto que a morte veio por meio de um só homem, também a ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem.
Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados.
Mas cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe pertencem.
Então virá o fim, quando ele entregar o Reino a Deus, o Pai, depois de ter destruído todo domínio, autoridade e poder.
Pois é necessário que ele reine até que todos os seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés.
O último inimigo a ser destruído é a morte.

1 Coríntios 15:19-26

Essa nova ordem mundial, que está sendo implementada não pelas instituições cristãs mas pela vida transformada daqueles que tem entregado a vida ao Rei, terá sua realização completa na segunda vinda de Jesus o Cristo.

Propósito de vida

É esta a razão de existência da igreja. Não apenas de cada congregação local, mas da Igreja do Senhor que não conhece limites de credo, raça, sexo ou passado como vemos em Efésios 2.

É apenas em razão da morte e ressurreição de Jesus que você e eu podemos ter a vida do Eterno em nós mas também ter acesso à vida eterna já iniciada. Essa nova ordem não se distancia muito daqueles propósitos originais que Deus tinha na criação. Não poderia ser diferente, já que o que Deus está fazendo hoje por meio da igreja é colocar essa criação em ordem até chegar o momento adequado de eliminar os inimigos que ainda – abusando da liberdade – se levantam contra a ação de Deus.

É por isso que tudo que você faz, cobra um novo brilho e um novo sentido, porque não se trata de grandes construções físicas ou materiais mas apenas de saber tocar com ternura e firmeza a vida do próximo.

Contudo, pode ser que você desanime. Que em algum momento diga: a vida cristã não vale a pena; estou cansado; de nada vale meu esforço; tudo o que aqui fizer aqui vai ficar; o que vale é a alma apenas e por ai vai.

Lembre então do seguinte versículo:

Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil.

1 Coríntios 15:58

Já pensou!?

Já pensou que no relato do gênesis Deus faz a mulher em separado?
Já pensou que o herdeiro da promessa feito a Abraão tinha que sair de Sara e não de Hagar por mais que fosse legalmente correto?
Já pensou que – mesmo havendo Abraão tido um filho da escrava – Deus não a esqueceu e lhe deu uma promessa similar à que dera a Abraão?
Já pensou que para os judeus Abraão, Isaque e Jacó estão em pé de igualdade com Sara, Rebeca e Raquel?
Já pensou que as lágrimas de Ana regaram o mesmo local onde seu filho haveria de receber seu chamado?
Já pensou que Maria suportou a humilhação pública por causa do Salvador?
Já pensou que a ultima preocupação de Jesus na cruz foi com a sua mãe?
Já pensou que na ressurreição para quem Jesus apareceu primeiro foi para as mulheres?
Já pensou que numa sociedade em que o testemunho da mulher não valia grande coisa Deus deu a elas o privilégio de serem suas primeiras testemunhas?
Já pensou que a melhor ilustração da relação entre Jesus e a Igreja é o casamento e que o casamento nada mais é do que a junção da imagem plena de Deus (“à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.”)
Já pensou….?

Salvos pela fé, apenas.

É de compreensão comum que as pessoas se salvavam no antigo testamento por seguir as obras da Lei, ao passo que no novo testamento seria apenas pela graça.

A salvação sempre foi, é e será apenas por fé.

Fé num salvador que haveria de vir no caso do antigo testamento.

Fé num salvador presente no tempo de Jesus.

E fé num salvador que já veio nos tempos do novo pacto. Isto é; agora.

Dêem-me um ponto de apoio e moverei o mundo diz a frase de Arquimedes. Tal parece que isso foi o que aconteceu com Lutero entre 1515 e 1522 ao se deparar com Romanos 1:17 e 3:23-26

Lutero

Lutero era um homem atormentado com a falta de segurança da sua salvação. Ao final das contas, ele se conhecia bem e sempre havia um outro pecado para ser confessado, uma outra penitência para ser praticada, uma outra punição para ser aplicada.

Sendo Deus santo e ele tão pecador, não havia oportunidade para ele ser salvo, já que não havia fim nessa espiral de auto-perseguição espiritual que o afastava cada vez mais da solução.

Aprouve a Deus ter Lutero um confessor que lhe encaminhou a ler a Bíblia, em particular a epístola de São Paulo aos Romanos.

A vida comum

Lutero não era o único a estar atormentado por este assunto. Na realidade a sociedade como um todo vivia sob esta pressão.

A igreja de Roma estabelecia penitencias para pecados veniais. Isto é: aqueles que não levam à perdição mas que trazem castigo segundo a doutrina Romana. Para tais, exisitíam missas particulares, indulgências, e outras cerimônias dependendo da quantidade, da gravidade e do poder adquisitivo do pecador.

Diferente dos tempos atuais, a vida no fim da idade média estava permeada completamente pela hegemonia da igreja Romana. Ou seja a vida politica, social, familiar, intelectual, artística e todas as outras áreas que você consiga imaginar, estavam impregnadas pelos conceitos, ideias, filosofias, ritos e leis que emergiam na igreja de Roma.

Não que Lutero tenha sido a primeira voz a se levantar contra o sistema. Porém ele foi o primeiro a articular formalmente uma representação do que não mais se encaixava, em especial na esfera espiritual. Não era mais possível que – tendo o renascimento mostrado a importância das ideias, o valor do ser humano, a relevância da liberdade na vida comum – seres pensantes como Lutero permanecessem quietos.

No tempo de Lutero, a sociedade inteira estava fervilhando. Nomes como Nicolau Maquiavel, Nicolau Copérnico e Leonardo Da Vinci já tinham ou estavam fazendo sua contribuição quando Lutero entra em cena.

Logo, o que às vezes se atribui apenas a Lutero tem que ser visto num contexto mais amplo e fiel aos fatos comprovados.

Então, o que esses dois textos chamaram a atenção deste monge alemão e porquê trouxeram tal mudança tão profunda e marcante que até hoje a cristiandade ocidental se divide entre Católicos e Protestantes?

Romanos 1:17

O profeta Habacuque, observando a sociedade em que vivia, exige do Senhor uma resposta. Anseia por um desdobramento de um Deus justo sobre uma sociedade encardida no pecado.

Nesse contexto, o profeta registra a frase:

Eis que sucumbe o que não tem a alma íntegra, mas o justo vive por sua fidelidade.

Paulo, escreve a epístola aos cristãos da capital do império romano por volta do ano 56 da nossa era. Nela ele recolhe o trecho de Habacuqe mas com uma ênfase um pouco diferente:

Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”.

Se o “justo” a que Paulo faz referência fosse um que consegue estabelecer sua própria justiça, então carece sentido a frase imediatamente anterior em que diz “no evangelho é revelada a justiça de Deus” Pois se o justo se faz a si mesmo, não há necessidade de uma boa notícia e nem de intervenção divina.

Assim sendo, há quem diga que a frase fica melhor com uma reorganização. Ficando assim: “O justo pela fé, viverá“.

Justificação é um termo judicial que se opõe – no seu conceito – ao de ser condenado. O juizo final não admite mais do que dois resultados apenas: Justificado ou condenado.

É justamente o fato de ser justificado o que trouxe paz a Lutero. Ele se deparou com Romanos 5:1 e 8:1 textos nos quais o apóstolo Paulo declara que

  1. estamos em paz com Deus e
  2. não há mais condenação possível.

Não é apenas um ato imaginativo de Deus em que ele se elude com a situação do Homem tentando convencer-se de que o Homem é uma coisa que não é: justo. Trata-se mais da injeção do seu Espírito na vida do ser humano por meio do qual a justiça divina começa a fazer morada no individuo.

Lutero, plenamente embuido do espírito da sua época que colocava em realçe o individuo e em relevo o ser humano, se apropia desta verdade e a transforma no seu ponto de apoio ao redor do qual todos os outros começam a girar. Mais tarde a reforma colocaria eles em ordem: Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Soli Deo Gloria. Ou seja, Apenas Fé, Apenas a Escritura, Apenas Cristo, Apenas a graça e unicamente a Deus se deve Glória.

Romanos 3:23-26

Demos agora uma olhada na outra passagem que escolhemos hoje para exemplificar o pensamento de Lutero.

É obvio que não dá em uma pregação de 20 minutos encaixar tudo o que deve ser dito sobre Romanos 3. Nem sequer da para colocar aquilo que Lutero descobriu já que a vivência deste homem neste texto foi muito marcante. Apenas conseguiremos vagamente exemplificar o pensamento de Paulo e Lutero sobre estes assuntos e isso de forma muito superficial. Entendemos, todavia, ser o mínimo que pode ser dito sobre o texto.

O versículo 23, faz uma generalização daquelas que costuma provocar grandes problemas.

todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus

Paulo poderia ter dito “há algumas pessoas realmente ruins nesta vida”. Poderia ter pontoado que “há alguns que não mereciam estar vivos por causa da sua ruindade”.

Mas não. Paulo diz: “todos pecaram“. Simplesmente não há distinção. Judeu ou não, todos pecaram. Não se trata apenas – como algum bom agostiniano diria – de sermos por natureza pecadores. Mas sim de que cada um dos seres humanos tem pecado.

Pecado é uma palavra muito simples nas línugas neo-latinas e anglosaxonas para traduzir uma variedade bem ampla de palavras que trazem a ideia de errar ao alvo.

Não é um errar ao alvo por incapacidade ou por falta de vontade apenas. É errar ao alvo colocado pelo criador por incapacidade, por falta de vontade e por exercicio da vontade humana.

Pode parecer desgarrador – aos olhos humanistas da nossa época – o fato de Paulo dizer que “todos pecaram“. Mas se você para para pensar um pouco na depressão profunda à que Lutero estava exposto por não conseguir agradar a Deus, você rápidamente verá que se trata de motivo de grande alegria saber que está a humanidade toda no mesmo barco.

Não que o fato de estarmos “destituidos da glória de Deus” seja motivo de alegria ou de louvores. Mas sim o que o texto fala: Deus é quem justifica mediante a fé em Cristo a todos os que crêem. (Rom 3:22) Isso sim é motivo de grande alegria: sabermos que ao crermos temos sido não apenas justificados, mas remidos.

Redenção é um termo comercial. É o preço pago em nosso resgate. Na analogia bíblica, éramos escravos e agora fomos libertos pois o preço de nossa liberdade foi pago completamente. Ou como diz o hino “foi pago de um modo cabal“.

Não cabe mais possíbilidade do antigo dono reclamar nenhum direito sobre nós pois o preço justo e satisfatório foi pago na cruz.

Deus ofereceu [Jesus Cristo] como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça

Isso sim é motivo de alegria!

Somos plenamente salvos. Se bem éramos completamente escravos. Se bem estávamos completamente condenados. Se bem éramos completamente incapazes de salvar a nós mesmos. Deus se mostra justo ao nos salvar. Como assim justo?

Bem, porque a encrenca em que nos havíamos metido era tão grande e a dívida era tão grande que – mesmo Deus tendo todo o poder para reverter a situação pela força – escolhe o caminho do sacrifício e do pagamento completo da dívida que nós -seres humanos- tínhamos criado e que nos era impossível saldar.

Ele é justo e justificador de todos os que nele crêem. (Rom. 3:26) Quando a Biblia diz “é” se refere ao caráter de Deus. Agir de outra forma seria deixar de ser Deus. E isso é impossível.

É por isso que esse texto lúgubre de “todos pecaram” traz tanta luz e alegria. Estamos todos no mesmo nível. Todos precisamos da mesma graça e nenhum de nós merece coisa alguma por mais que todas as propagandas do momento sinalem o contrário.

Conclusão

Assim como nos tempos de Habacuque, de Paulo, de Lutero, estámos perante uma sociedade que a cada dia se degrada e busca sua própria corrupção.

Não é de agora que há necessidade de uma redescoberta do caráter básico de Deus. É contra essa descoberta que o sistema deste mundo atua e é contra esse sistema diabólico que a voz da igreja em constante reforma se deve levantar mais uma vez.

A Igreja na Pandemia

A Igreja (não como instituição, mas assim, com maiuscula, como corpo vivo de Cristo) tem passado por varias e boas ao longo da sua existência.

É facil nos distanciarmos de certos períodos (como o da idade média) dizendo “ah, não, isso não fomos nós, foram eles” e não nos permitir a chance de aprender com erros do passado.

Obvio que – como fruto da reforma – não posso aplicar um plural e dizer “sim, fomos nós!” mas por outro lado, devo ter a suficiente humildade para reconhecer que respondemos solidariamente por tudo o que se chame de “igreja cristã” perante a sociedade.

Estamos -mais uma vez- perante um desafio descomunal. Uma coisa que transborda nossa capacidade humana de compreensão. É tempo de abandonar -então- certas aproximações obscurantistas sobre o problema que nos é comum a todos os seres humanos que habitamos este planeta e entregar-nos juntos à busca de uma solução que venha a ser de bênção a cristãos, musulmanos, hindus, ateus, ou seja: ao ser humano como um todo.

É verdade que – por exemplo – na desgraça da segunda guerra, houveram pessoas que se ergueram como gigantes e nos carregaram nas costas. E é também verdade que houveram -agora sim no pequeno rebanho reformado- pessoas do porte de Karl Barth que se atreveram a enfrentar -de forma aberta e direta- a profunda escuridão que se levantava sobre a raça humana.

Porém, não deixa de ser vergonhosa verdade, que houveram muitos cristãos de uma e outra vertente que se lançaram sobre o problema com soluções covardemente prontas sem se atrever a analisar a realidade.

Situação semelhante – voltando no tempo – nos aconteceu com a gripe espanhola e com a primeira guerra mundial. Mas é obvio que o evento que mais se parece com o atual é o da peste negra ou peste bubônica sobre a Europa.

Foi na peste que o ritual se mostrou completamente inutil como de fato é. Foi na peste que nossa maior lição como Igreja deveria ter sido aprendida. Mas foi exatamente nela que abandonamos o posto. Obvio, claro, que sempre houveram inquietos homens que se atreveram a trilhar caminhos diferentes dos já conhecidos. Mas quando tomamos distância do evento, vemos que esses pobres herois de nada serviram no que veio a seguir: o desmoronamento total da sociedade feudal e o descalabro da igreja de Roma que -não por acaso- seguiam estruturas similares.

Agora, nos encontramos perante situação igual e com pessoas sofrendo por coisas que não merecem o sofrimento. Me refiro ao fato de se a igreja vai poder se congregar ou não. Se os membros vão ou não voltar para os rebanhos locais. Se a forma de fazer culto vai ser retomada. Se …. se cabem ou não 500 anjos na ponta de um alfinete.

É obvio que mudou. É evidente que não podemos masi continuar a querer cultuar como era há 500 anos atrás. É notório que devemos abandonar o navio e nos atrevermos na mata virgem. Se realmente nos interesam as vidas dos que se perdem, nada mais natural de que ir até eles onde eles estão e não esperar que -sei lá porquê razão- eles venham até nosso conforto.

Aproveite a oportunidade. Se abra para o novo normal.

Vencemos!

Uma visão pesimista sobre o fim da pandemia

Aviso aos navegantes: esta é uma obra ficcional escrita durante a pandemia do COVID19. Ainda estamos em isolamento social e – talvez – indo para lockdown.

Esteban d. dortta – Maio 15 2020

Por fim vencemos!

Após meses de luta, de reclusão e ao custo de várias vidas conseguimos vencer o vírus que tão terrivelmente assolou a humanidade durante mais de um ano. Parece mentira que possamos andar livremente de novo pelas ruas, respirar o ar fresco, tomar um café na padaria, reencontrar os amigos.

Aos poucos a sociedade se recompõe da sua forçada letargia que lhe foi imposta para poder sobreviver. É verdade sim que muitos empregos foram perdidos e vários deles para sempre. Mas também é verdade que algumas coisas que antes fazíamos de um jeito as passamos a fazer de outro.

Para trás fica o tempo de medo e pavor que este vírus provocou na gente. Junto com o medo, foram-se a ansiedade, a incerteza, o desassossego por não saber qual dos nossos em que canto do mundo o vírus ia pegar.

A falsa sensação se segurança que a rotina dá, placidamente começou a tomar conta dos nossos corações. Assim como o sol morno de uma manhã outono nos esquenta as costas, aos poucos fomo-nos aquecendo e esquecendo do terror do isolamento. Para trás ficam a calamitosa dependência de amigos de verdade, família, Deus. Ao final das contas, quem – de fato- precisa de algum deles agora que estamos bem?

Não mais frases de alento ou de aconchego, não mais dicas de como amar o próximo em situação de convívio forçado, não mais orações comunitárias nem expressões de saudades. Quem precisa de meu esforço e dedicação, quem realmente merece toda minha atenção é a profissão, o trabalho, o serviço, … o dinheiro. Ao final das contas, quem vive sem ele?

Os poucos vamos mentindo e enganado os outros dizendo que aprendemos muitas coisas durante a pandemia. Mas o que é que de fato aprendemos se assim que podemos voltamos a fazer as mesmas coisas que fazíamos antes?

No que hoje – em meados de 2021 – somos melhores do que éramos em final de 2019? Nos tornamos mais honestos em nossos negócios? Temos mais misericórdia com o próximo? Somos mais amorosos com nossos filhos? Damos mais tempo para nosso cônjuge? Deixamos um tempo livre apenas para estar sozinhos e pensar?

Não, óbvio que não! Isso ai é para fracos! Para tolos que não entendem que o que realmente interessa é correr dia após dia. Isso é apenas para aqueles que se interessam com coisas que pareceram ser importantes durante um tempo, mas o que realmente interessa está lá fora e longe de mim: as coisas que não tenho, os amores que não me deram, os viagens que não realizei e outras coisas semelhantes a estas.

Mas não posso dizer isso, “pega mal”. É por isso que mentimos e dizemos que aprendemos, que somos diferentes, que a sociedade está melhor. E é por essa mesma razão que minto que estou mentindo e falo a mim mesmo e repito até o convencimento “saímos melhor do que estávamos, vencemos!”

Indigno

Não se trata mais de Amor?

Em 19/Junho de 2019 eu escrevi o poema logo acima para o próximo encontro que teríamos do grupo “Igreja: Comunidade Terapêutica”.

Por quê olhas com desprezo
as chagas do meu coração?
Não sabes, por acaso,
que são fruto da minha decisão?

Com tuas palavras dizes que me amas
e com teu olhar que me odeias
Oh desgraça esta mendicância
que precisando eu de tuas palavras
me obriga a aceitar sem qualquer ressalva
essa tua fria e cruel mirada.

Arrogante, e impassível
soberbo e acusador
com voz suave e elegante
me dizes que sou pecador

Elencas meus pecados
como se fosses um tosquiador
Será que não te avisaram
que isto tudo é sobre o Amor?

Corro, me afadigo,
me omito, me limito,
me calo, me transformo
buscando tua aceitação.
Coisa de loucos esta vida,
Não se trata mais de Amor?

É obvio que não sou poeta. Um aluno de segundo ano do primário consegue ver isso nas poucas linhas toscas, mas foi um jeito que encontrei de dar vazão a alguns sentimentos de se aglomeraram no meu coração ao longo dos anos. Se essas linhas te fazem sentir certa angústia, ele já cumpriu seu propósito.

Antes disso, em 23/Dezembro de 2018 às 18:30 sofri um aneurisma dissecante de aorta. Completamente assintomático, simplesmente se manifestou de uma hora para outra. Ao outro dia às 09:30 estava entrando na sala cirúrgica do Hospital Regional para uma intervenção de emergência. Só conseguí ficar em pé e com certa dificuldade e com ajuda depois do 26/Dezembro. Passaram três longos meses afastado do serviço por completo e mais três de afastamento parcial. Apenas em outubro recebi alta ambulatorial do cirurgião e ainda estou em tratamento com o cardiologista, o nefro e o neuro.

No dia da alta da internação em janeiro de 2019 o médico que me estava liberando, falou para minha filha e eu que a recuperação tão rápida se devia em grande parte ao excelente condicionamento físico. Caímos na gargalhada com a Rebeca já que -fora caminhadas regulares, bicicleta nos finais de semanas e umas piscinas esporádicas- eu me considerava um sedentário empedernido.

Além disso, desde que tiveram que extrair meu apéndice por volta dos 30, eu tinha reforçado junto com minha primeira esposa o costume de evitar sal, gorduras, etc. Depois dos 40 já casado novamente tínhamos eliminado também o açúcar e mais tarde a farinha.

Por ter passado os últimos vinte anos da minha vida desenvolvendo software para a área de saúde sabia que podia ajudar com alguma informação. Até porque era do meu interesse descobrir a causa. Ao final das contas, se havia algum problema hereditário (minha avó materna morreu repentinamente e sempre falaram que tinha sido uma parada cardíaca por exemplo) era minha responsabilidade levantar isso e passar para as gerações seguintes como lidar com isto.

Então – com a informação que pude levantar – fiz um genograma orientado à saúde e o levei aos médicos em todas as consultas. Não sou profissional, mas as causas de um aneurisma podem ser reduzidas a três: hipertensão arterial, desordens hereditarias e defeitos cardiovasculares congénitos (lesões causadas por trauma não se aplicam porque nunca tinha passado por um procedimento cirúrgico cardíaco ).

Conversando com o cirurgião ele me indicou que o grande vilão de nossa época é o estresse. Ou seja, é o estresse que acaba potencializando um ou dois desses fatores e literalmente arrebentando com tudo.

Até hoje (inicio de 2020) não conseguimos atribuir a uma única causa a razão do meu aneurisma dissecante de aorta mas é obvio que o peso emocional da auto-cobrança passou a conta. O estresse acumulado de anos aguardando a aprovação de alguns seres humanos específicos e de grande relevância pessoal acabaram por simplesmente serem demais para meu corpo.


Algumas linhas do poema as revisaria. Em especial aquela que diz “São fruto da minha decisão” já que aprendí neste último mês que era impossível eu decidir diferente.


Como morrer à toa

  1. Não se aceite como um ser humano comum. Exija de você a perfeição.
  2. Não escolha seus amigos. Seja melhor que Jesus que escolheu seus discípulos.
  3. Deixe que autoridades terrenas (colocadas por Deus) assumam o lugar de Deus
  4. Preocupe-se com a opinião dos outros.
  5. Comporte-se como se não estivesse envelhecendo.

Lucas 14:26

Se alguém deseja seguir-me e ama a seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até mesmo a sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.

Mateus 10:37

Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.

Uma mala quase vazia

Há no folclore uruguaio uma chimarrita (pronuncia-se “tchimarrita” com ‘r’ gaucho e não o ‘h’ paulista) cujo título é “Pal que se va”. Isto é “Para aquele que vá embora”.

Dentre as coisas boas do folclore de qualquer país sempre pode ser resgatado o que o povo em geral sente em comum e os conselhos ali contidos, via de regra, falam ao coração diretamente sem muitos rodeios sendo – por isso – de fácil compreensão e aceitação.

Coloco aqui, então, uma tentativa de tradução desta chimarrita de Alfredo Zitarrosa tratando não de manter a métrica mas sim o sentido original numa tentativa de transmitir um detalhe que me parece básico:

EspañolPortuguês
No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.

Cierto que hay muchas cosas
que se pueden olvidar
pero algunas son olvidos
y otras son cosas nomás.

No eches en la maleta
lo que no vayas a usar
son más largos los caminos
pa’l que va carga’o de más.

Ahura que sos mocito
y ya pitás como el que más
no cambiés nunca de trillo
aunque no tengas pa’ fumar.

Y si sentís tristeza
cuando mires para atrás
no te olvides que el camino
es pa’l que viene y pa’l que va.

No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Não esqueça a vila
se você for pra cidade
Quanto mais longe você for
Mais precisa se lembrar.

É verdade que há muitas coisas
que podem ser esquecidas
mas algumas são esquecimentos
e outros são apenas coisas.

Não coloque na mala
o que cê não vai usar
as estradas são mais longas
para quem vai carregado d’mais.

Agora, você é mocinho
e já pita que nem um maioral
Nunca mude sua trilha
nem mesmo tendo pra fumar.

E se sentir tristeza
quando olha para trás
não esqueça que o caminho
É para o quem vem e para quem vá.

Não esqueça da vila
se você for pra cidade
Quanto mais longe você for
mais você precisa se lembrar.
Quanto mais longe você for
mais precisa se lembrar.

Me interessa isso de “Não coloque na mala o que não vai usar, as estradas são mais longas para quem vai carregado demais” .

Vivemos num século de ansiedade. Na realidade, nem poderíamos dizer que “vivemos” mas sim que passamos por ele já que nosso constante pensamento são nas coisas que estão por vir, tanto as do futuro próximo quanto do longíquo.

O Brasil é recordista em ansiedade a nível mundial com 9,3% da população sofrendo deste mal chamado “transtorno de ansiedade”. Mas para além dessa cifra, que já de por sí é alarmante, em termos gerais não mais vivemos o presente. Repare, por exemplo, como no sul temos perdido o hábito do chimarrão, no sudeste o de visitar os amigos para um cafezinho e a rede e o cordel no norte e nordeste.

Não mais vivemos e sim passamos a tal ponto que se não o fizermos assim, nos gera culpa e malestar por não estar “na correria”. Nos habituamos, então, a colocarmos coisas na mala da alma como se fossem uma prevenção para sei lá que catástrofe e com esse peso todo tentamos correr como se fossemos atletas na casa dos 17 anos.

Em certo sentido, esta vida é um peregrinar. Tudo bem que aquele hino que diz “Eu tenho de Jesus saudades” soa meio maluco por conta que é de se supor que – estando Jesus presente na vida do cristão – não deveria sentir saudades dele. Todavia, me interessa pelo que expressa em termos gerais sobre estar longe da pátria. “Da linda pátria estou mui longe quando o hei de ver?”

Viemos de Deus e para ele retornamos. Ou você nasceu porque você quis? Ou você (exatamente você com suas falências, temores, alegrias, insatisfações, orgulhos e vergonhas) é fruto da decisão dos seus pais? Com certeza seus pais queriam “um bebê” mas não exatamente você. Goste ou não, você é fruto do plano de Deus em algum sentido.

Nesse peregrinar de Deus e para Deus, passamos a vida enchendo nossa mala da alma com ansiedades, tristezas, culpas e outros pesos desnecessários. Lembre que o caminho de ida é também o caminho de volta. Para que trilhar ele com peso extra? Qual a vantagem? Qual a vitória disso?

Filipenses 4:6
Não andeis ansiosos por motivo algum; pelo contrário, sejam todas as vossas solicitações declaradas na presença de Deus por meio de oração e súplicas com ações de graça.

1 Samuel 1:10-18
e, com a alma profundamente sofrida, chorou muito e orou ao SENHOR.…

Salmos 56:3,4
Todavia, quando o medo me atacar, confiarei em ti!…

Mateus 6:26,33
Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves? …

Lucas 12:30-32
Porquanto o mundo pagão é que peleja por essas coisas; entretanto, o vosso Pai sabe perfeitamente que as necessitais. …

1 Pedro 5
6 Sendo assim, humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo certo, 7lançando sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós! 8Sede sensatos e vigilantes. O Diabo, vosso inimigo, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem devorar. …