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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

A agonia da espera

Ontem, por ocasião do falecimento da esposa de um amigo, tive que fazer uma pequena viagem passando por várias pequenas cidades. Todas elas tinham uma manifestação política. Ou a favor de Bolsonaro, ou a favor de Lula.

Em duas das ocasiões tive, por uma questão de trajeto, que participar na precisão: uma vez com os partidários de Lula e outra com os partidários de Bolsonaro. Tive então a esplendida oportunidade de desfrutar de primeira mão do sentimento das pessoas dentro da fila de carros como os que se encontravam à beira do caminho. Nos dois grupos vi a mesma coisa: uma felicidade indescritível de estar manifestando sua preferência política.

Se pensamos, isso era impossível há apenas algumas décadas. Aqueles que são favoráveis aos governos totalitários, esquecem do valor inegável da democracia. Aqueles que pleiteam por apenas um “estado de direto” em lugar de um “estado democrático de direito” esquecem não apenas a diferença, como nossa história e o que nos custou até chegar a colocar essa pequena frase na própria constituição.

Mas o que quero chamar a atenção sua hoje, domingo 2 de outubro de 2022 logo antes de fechar a eleição, é sobre como tem sido o trânsito da igreja (como instituição e como organismo vivo) nos últimos anos.

Seja como for – e seja qual for sua preferência política – é inegável que nestas horas finais da votação e antes de sabermos o resultado da primeira contagem, deve haver uma certa angustia nessa espera. Com um pais dividido politicamente como temos, é quase impossível ficar apático nesta conjuntura.

Então quero usar essa agonia circunstancial e temporária para lhe voltar a apelar ao pensamento crítico. Mas maiormente ao pensamento auto-crítico. Ou seja, uma reflexão sobre o último quinquénio.

Tenho a impressão de que a igreja (institucional ou orgânica) tem se digladiado por apoiar especificamente uma ou outra linha de pensamento político. Não que não haja necessidade das pessoas se posicionarem mas sim denunciar que a igreja (em suas duas dimensões) tem sucumbido perante os poderes terrenos. Como se a salvação viesse de alguma pessoa em particular ou de alguma linha política especifica.

Então, nessa angustia enquanto espera pelo resultado, pense se não é o caso de fazermos um quinquênio diferente em que o Senhor da Igreja seja de fato o único Senhor e Ungido em todas as esferas da vida.

A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

Filipenses 3:20

Liturgia livre ou estrita?

Durante alguns anos, enquanto uma igreja de uma denominação diferente da minha cuidava da minha restauração, participei de uma comunidade com uma liturgia estrita. Foi muito chocante e instrutivo. As celebrações, as leituras, as cores. Tudo tinha um propósito pedagógico e trazia um certo ritmo e segurança à comunidade. 

Me parecia isso tudo bastante parado, repetitivo, previsível. Porém, me é necessário reconhecer de que as festas não eram nada previsíveis. A impressão que me passaram era de um povo que conseguia celebrar não apenas as do calendário litúrgico, mas as extraordinárias ou aquelas em que a igreja – como entidade – participava na sociedade ou os jantares informais. Havia um sadio equilíbrio, a meu ver, entre o ritualístico e o comunitário ou entre o sacro e o profano, como alguns gostam de ver. 

Anos depois participei de outras três comunidades de liturgia livre. Se bem os cultos me pareciam mais dinâmicos e festivos, as celebrações (no sentido de festas) eram apenas aquelas organizadas dentro da própria comunidade eclesiástica, não havendo um ponto sequer de contato com a sociedade em que a igreja deveria estar inserida. Era como se fosse apenas um equilíbrio interno, imaginando-se existir um espaço apenas para o sagrado.

Essa falta de trânsito entre o que chamamos de sagrado e o que chamamos de profano fala muito do que pensamos sobre nós mesmos, nossa identidade, nosso propósito e nossa escatologia.

O modelo de Jesus, o Messias, inclui congregação, leitura, oração, reflexão, denuncia, pregação e ação. Tentar limitar isso a um culto de domingo à noite ou pior, a assistir uma mensagem por alguma rede social ou ler um artigo como este sem a comunhão com outros que seguem o mesmo caminho e sem a inserção significativa na sociedade em que vivemos, coloca todo o modelo apenas como isso: um modelo distante e idealizado; uma utopia.

Só faltam fogos de artifício

Repare na forma em que disponibilizamos as pessoas no evento do culto público. Pense um pouco em como isso se dá na sua congregação. E no ambiente. Já pensou no ambiente?

Não interessa se é um grupo enorme ou um grupo muito pequeno. Quase sem distinção há um espaço reservado para os que cultuam e outro para os que “assistem ao culto” e o alvo parece ser reter quando não conquistar novos adeptos a essa miragem artificial.

Sim, o culto contemporâneo é uma miscelânea de espetáculos buscando o maior número de assistentes ou a assimilação dos mesmos. Obvio que isso é uma generalização brutal, mas se pararmos para observar se tratam apenas de teatralizações adquiridas da sociedade. Seja a do século XVI ou a do século XX. Já já veremos a adquisição do modelo do S.XXI

O rito de pessoas especiais mostradas e vistas na frente do local de atividade cultual nos remete aos ritos da idade média em que os reis e os clérigos estavam em posição de destaque e – talvez por uma questão meramente de organização acústica – deviam ser ouvidos. Essa distribuição física acaba representando de forma aproximadamente perene a ideia de que o povo é uma coisa e os que cultuam é outra. Isso se observa facilmente nas igrejas reformadas e nas históricas. Sejam episcopais ou congregacionais, nelas todas há um lugar especial para os escolhidos e outro para o povo. Teologicamente afirmamos que somos igreja e cultuamos juntos, mas na hora de pôr isso por palavras dizemos “vamos à igreja a assistir ao culto”

Uma inovação visível nesse modelo, é a adoção de outro modelo, não já do teatro ou da corte do século XVI mas da televisão e outros espetáculos do século XX. Todo tipo de efeito especial é aceito e encorajado: desde música de fundo, passando por iluminação especial, chegando a aparições fantásticas. Um verdadeiro desastre.

A teatralização de um Deus distante e inatingível (que era a forma correta sobre a qual o tabernáculo e depois o templo foram erigidos) é a figura mais incorreta a ser transmitida para o povo, para a pessoa comum, o homem de a pé. Essa pessoa comum e silvestre precisa entender que Deus se aproximou ao homem por pura graça e por um genuíno interesse divino em redimir a sua criação toda (e não apenas a alma do homem na visão platonista do ser humano). O Deus expresso no Novo Testamento é aquele que toca no leproso e não o que mora de forma distante e inatingível.

De um jeito ou de outro, à moda do S.XVI ou do S.XX, tudo isso só confunde quem de fato está em busca da verdade e o afasta da mensagem central de fazer justiça, misericórdia e ser humilde perante Deus (Mq.7:8) ou também ajudar o oprimido, fazer justiça ao órfão e tratar da causa das viúvas (Is.1:10-17)

Ou dito de forma mais brutal: é apenas um entretenimento; uma perda de tempo.

A relevância do pentateuco

Tenho a impressão de que o humanismo exacerbado e a ideia de que “esta é minha opinião” nos tem levado como sociedade à beira do precipício. Se bem é evidente que sempre nos podemos comparar com nações em pior condição, creio que o padrão deve ser superior, mesmo que seja considerado utópico. 

Em alguma forma, nossa situação é semelhante à retratada em Juízes 21:25. “Cada um fazia o que bem lhe parecia”. Se bem é evidente que o texto foi escrito após Israel ter rei – e por tanto seu legado jurídico já estava bem solidificado – o certo é que o sistema de juízes não tinha dado certo. 

A injustiça no Brasil é enorme assim como o senso de impunidade. A impressão que fica é que o crime compensa e se não compensa, é porque ainda não se achou a forma adequada de praticá-lo.  Crimes bárbaros e traumáticos para a sociedade, como o assassinato de Daniella Perez, não são apenas uma mancha para todo o esquema legal, mas também para a cristandade brasileira e para os evangélicos em particular por haver entre nós um conceito errado de graça como se fosse antagônica à Lei e não a justa complementação das exigências da mesma.

A compreensão e valorização do Antigo Testamento, e em particular do pentateuco, é essencial para uma acertada compreensão da graça  em suas formas mais singelas (graça que achamos ser limitada ao Novo Testamento apenas). De outra forma, o abismo existencial está aí para tragar nossa comunidade que de evangélica apenas lhe restará o nome.

De uma forma bem concreta (e considerada por muitos anacrônica) o melhor instrumento já estabelecido para valorizar estas e outras coisas semelhantes é a escola bíblica, já que é nela que há (ou deveria haver) um espaço para o diálogo e discussão destes assuntos. 

Única regra de fé e prática?

Conversando com o povo, percebo que quando falamos da “única regra de fé e prática” boa parte tanto de leigos quanto pastores tendem a pensar como um conjunto de regras a serem seguidas por meio das quais atingir a boa ventura do criador.

Deveríamos tê-la mais como um nível, que nem os dos pedreiros, que serve para estimar se a construção está seguindo um padrão certo. Não seja o caso de depois descobrir que duas vigas que deveriam trabalhar juntas estão em níveis diferentes colocando em risco a obra inteira.

Ter na Bíblica a única regra de fé e prática deveria ser o fator distintivo da igreja reformada e evangélica. Distintivo no sentido daquilo que nos distingue da Igreja Católica Apostólica e Romana em que além da Bíblia, outras fontes como a tradição, os credos e a autoridade papal são consideradas no mesmo patamar.

Sendo a única regra de e prática deveria distinguir-nos do povo neo-pentecostal não como se fossemos nós (evangélicos e/ou reformados) a última bolacha do pacote, mas como sendo ela a única tábua de salvação que lhes resta na hecatombe que eles têm provocado não apenas abandonando a arte da exegese como impedindo o povo de se aproximar sem intermediários ao Senhor da Bíblia.

Onde nos perdemos?

De toda a literatura Joanina o capítulo 4 do seu evangelho é o mais carregado de sarcasmo por parte da mulher e de firmeza por parte de Jesus. Geralmente confundimos firmeza com rigor, desprezo ou severidade e sarcasmo com ironia.

As colocações da mulher são sarcásticas refletindo, provavelmente, uma situação de dor e rejeição. No primeiro estágio vemos ela se escondendo da sociedade em que vivia (quem vai ao meio-dia no deserto tirar água de um poço? Apenas quem já foi vilipendiado de alguma forma e em repetidas ocasiões) Até o momento em que Jesus se revela à mulher, a linguagem agressiva dela e suas colocações são a constante.

Paralelamente, não encontramos em Jesus condescendência ou palavras politicamente corretas: O lugar de adoração é Jerusalém; e você vive em conflito constante consigo mesmo, com a sociedade e com o papel que lhe foi dado ao nascer. Em resumo é isso que Jesus, firmemente, lhe diz.

A mulher não está sendo apenas irônica; se possível fosse, ela arrancaria um pedaço de carne do seu interlocutor. Jesus se mantêm firme. Não chega nem perto de ser rude ou “estúpido” nas suas respostas, nem lhe falta educação. Ele é apenas firme atendendo à necessidade da mulher e não apenas ao seu interesse numa boa briga de rua.

O ponto de inflexão se dá quando Jesus coloca em realce a busca da mulher. Sendo mulher, samaritana, e com vários relacionamentos frustrados nas costas, ela continua sua busca pela verdade, a busca pelo Messias.

Diferente do homem no tanque de João 5, esta mulher estava em uma busca incessante da realização da promessa antiga. Não eram só palavras ou discursos. A vida dela estava em jogo.

Tal é assim que – ao Jesus se revelar – tudo muda no relato. A mulher que antes se escondera, agora ia atrás dos seus algozes sociais e muda tudo. Até o trajeto de Jesus muda e fica mais dois dias enquanto os samaritanos se convertiam. Nem só de pão viverá o homem, mas de toda transformação social que a pregação da verdade pode trazer.

Hoje a forma pública da igreja não passa de uma caricatura ultrajante de Jesus o Cristo. Negocia-se tudo apenas para agradar à sociedade. A culpa imposta pelo movimento feminista nos cega os olhos impedindo-nos ver a realidade de um Messias que restaura a imagem de Deus (homem e mulher) tal como era no inicio. Essa mesma culpa nos impede ver que antanho não foi assim: o inicio da igreja (na ressurreição do Messias) as testemunhas escolhidas eram as mulheres, a primeira igreja estabelecida na Europa foi sob os auspícios de uma mulher, o reconhecimento apostolar de Paulo em Romanos, era inicialmente para as mulheres, a proposta de Paulo em Efésios é de uma igreja sem divisões, enfim: esquecemos não apenas o propósito, mas também os meios e a herança.

Negamos-lhe assim o poder (dynamis) do evangelho (boas noticias) de transformar ( e transtornar às vezes ) sociedades inteiras já que isso é necessário se o Reino de Deus deve ser implantado. Sem o evangelho, não há possibilidade de justiça e deixamos a sociedade seguir seu rumo de idolatria em que apenas a ira de Deus pode ser manifestada.

Vias de fato, nos envergonhamos do evangelho que realmente salva a diferença do Cesar.

“Pode-se colocar o início do ano no aniversário de César, pois a divina providência trouxe à vida dos homens: paz, salvação, abolição de guerras. O dia do nascimento do deus foi para o mundo o início de boas notícias”


Uma inscrição feita na Ásia menor, em 9 a.C.

Não é à toa que Paulo inicia sua reflexão aos Romanos por ai.

A convergência dos tempos

Jesus não é nenhum plano alternativo ou coisa similar.

Todavia, pode se dizer que era necessário que isso ficasse de alguma forma claro além de toda dúvida razoável. 

Se a convocatória no antigo testamento era para o povo ser “luz para as nações” atraindo a si todas as nações, vemos no novo testamento que essa luz é o próprio Deus encarnado e que ele atrai para si todos os povos da terra.

Se no antigo testamento havia por causa de um só homem entrado o pecado no mundo, assim também no novo testamento a vida se manifesta a partir de um único ser humano.

Então, seguindo a ilustração da luz, no antigo testamento temos uma lente convergente apontando para o Messias que haveria de vir ao passo que no novo testamento, podemos imaginar uma lente divergente em que a luz de Deus volta a irradiar para todos os homens numa analogia do que acontecera com o primeiro casal.

Não há ponto mais alto na história do que o da encarnação. Até mesmo o da segunda vinda não será mais alto (ainda que seja mais contundente e inegável) já que é no Cristo que convergem todas as coisas criadas e eternas (Ef.1:10)

Acolhida transformadora

A liberdade com o conteúdo que o seu criador quer

“COMO é possível que ele queira ser policial!?” bradou Ernesto, “Olha só o passado que ele tem”.

Ele se estava referindo ao relato que estava sendo transmitido em que uma policial rodoviária federal contava sobre a vida de alguém chamado Biel. 

Ela tinha conhecido Biel numa abordagem por roubo. Assaltante a mão armada, violento, nada na vida do Biel parecia indicar que havia um bom caráter ou alguma coisa assim que condissesse com a ideia persistente  ” quero ser policial”

Certo dia esta policial chamada Pamela encontra o Biel num carro que – obviamente – tinha sido roubado. – “Não fui eu que roubei” disse Biel  à policial. Ela cumpriu com seu dever e o levou para a delegacia para atua-lo. Não foi pouca a surpresa dela quando reparou que ele era bem conhecido naquela delegacia. O coração dela (ou como ela mesmo disse: “o coração de mãe“) se abalou. Como era possível que alguém de tão curta idade já fosse tão conhecido numa delegacia?

Sob a premissa de “alguma coisa devo fazer por ele” começou a buscar um jeito de ajudar o Biel a se endireitar. Pensou em adoção até ou quem sabe uma interdição. Entrou em contato com vários policiais de diversas guarnições que ela conhecia: civil, militar, federal, rodoviária. Falou com assistentes sociais, promotor, juiz. Ela tinha que fazer alguma coisa.

Havia uma razão muito forte para Biel viver nessa contradição existencial: ele tinha sido estuprado quando pequeno. Quem sofre este tipo de violencia podem reagir de diversas formas: ostracismo, rebeldia, ódio, pavor, e outro sem fim que fogem ao propósito desta análise. Biel tinha ficado cheio de ódio pelo momento de impotência e submissão forçada. Mesmo tendo bons desejos, mesmo sabendo qual era um bom caminho para ele, não encontrara outra forma de expressão do que esse ódio mortal numa forma de devolutiva visceral para a sociedade que não o soube cuidar.

Na busca por proteger o Biel, Pamela junto com o promotor, a assistente social e o juiz chegaram à conclusão de que uma interdição poderia ser o apropriado. Com a papelada pronta para a interdição e em mãos a policial foi à procura do Biel.

Tarde demais. Biel tinha sido morto de forma violentíssima. Tinha apenas onze anos.


A atitude da Pamela é, sem lugar a dúvidas, aquela que mais faz falta na sociedade. A sociedade que nos tocou viver, está rapidamente se degradando para o ódio e a polarização. A incompreensão do outro – em plena época da hiper comunicação assistida por computador – roda solta amparada por um falso anonimato e uma pseudo-impunidade.

A coisa mais simples e legalmente correta a ser feita seria o de deixar o Biel crescer desse jeito entrando e saindo de diversas instituições até que o próprio crime tomasse conta dele ou se tornasse civilmente adulto para responder por algum crime e, então, trancafiar ele pelo maior tempo possível.

Só que Pamela, contrariando a ditadura do ódio, vá ao encontro do desvalido. Consegue perceber atrás dessa couraça de ódio e ressentimento um menininho carente, solitário, machucado com uma ânsia louca pela vida e com bons ideais mas apavorado, em pânico.

A estas alturas, os partidários de “bandido bom é bandido morto” já devem de me estar crucificando pois “uma vez bandido, bandido para sempre”. Vão me dizer que estou vitimizando o agressor mas isso não passa de uma simplificação absurda que apenas serve para alimentar mais a roda do ódio em que vivemos.

Por outro lado, a turma do “a culpa é da sociedade” já deve estar achando que eu penso desse jeito e culpo aos pais, à sociedade, ao governo, ao estado a Deus ao diabo por tudo o que de ruim acontece com a humanidade. Não se vista tão rápido que com certeza não vai querer me acompanhar no restante da viagem.


Algumas práticas que anteriormente eram crimes, hoje já não são mais e outras estão indo caminho a deixarem de ser crimes. A sociedade (por ser em maior números que os defensores da lei e da ordem) acaba se impondo mesmo que a escolha dela não seja a melhor ou a mais adequada a longo prazo. 

Veja o caso de uso de Cannabis. O porte para uso pessoal é uma evasão à regra de que todo tráfico de entorpecentes é crime. Há uma suavização perigosa em que se deixam as famílias lutando sozinhas com tão grande flagelo. E não me estou referindo ao uso medicinal ou ao uso recreativo após 24 anos. Me refiro ao uso desenfreado em crianças de todas as idades.

Um outro caso que deixou de ser crime e vá em vias de deixar de ser chamado de pecado é o adultério. Independente das razões que possam impelir uma pessoa a pular a cerca, antes era um crime passível de morte, de cadeia, de multa e agora não é nem sequer infração. Já já vai surgir alguém falando que é uma “virtude libertadora” ou coisa assim.

Ainda conservamos um pouco de decência nos assassinatos. Mas isso é porque pode afetar a qualquer um e a qualquer hora. Não é porque queremos – como sociedade organizada – seguir algum mandamento divino ou sequer porque desejemos construir coisas boas e virtuosas. Trata-se apenas de medo. É fácil descaracterizar o aborto como crime, ou o adultério como crime, ou o uso de entorpecentes como crime pois a chance de que isso passe sob o teto do legislador é bem baixa e se acontece, não é tão grave como a morte, já que ela vem para ficar permanentemente ao passo que os outros sempre cabe a chance esdrúxulamente hipotética de desfazer o mal perpetrado.


Pamela queria acolher o pequeno criminoso. Os atos que ele praticara não se qualificam como atividades extracurriculares do ensino fundamental ou tarefa de casa da escola bíblica da igreja local. Todavia, enxergar alí outra coisa do que um microcosmos da realidade humana é de uma brutalidade e desconhecimento terríveis. 

Há em cada um de nós três necessidades básicas: Aprovação, Aceitação, Apreço. (Coloquei as três com A para facilitar a memorização). Em condições ideais, uma família (e por extensão a sociedade à que pertence) irá entregar essas três coisas para seus participantes em especial os mais novos.

É importante mencionarmos isso, porque a palavra acolhida para muitas pessoas acaba soando como se fosse sinônimo de uma das três ou das três quando se trata de outro termo que precisa ser explorado.

Se bem as três características estão amarradas, não são equivalentes nem uma substitui a outra. Por exemplo, uma filha que sempre foi aprovada por ter notas altas na escola e que é aceita devido às amizades que tem, mas que nunca recebe um sinal de apreço do pai, cresce com uma ideia bem distorcida de si e – por conseguinte – da relação com os outros, em especial os homens. É uma forma complexa de dizer para a menina: “Você serve apenas para produção. Não para ser amada”

Pamela escolheu o caminho difícil: acolher o pequeno apesar e por causa da sua vida de criminoso. A turma do “bandido bom é bandido morto” não consegue enxergar o individuo com suas mazelas. Me parece que é uma opção por medo e não por razão. Já a turma do “a culpa é da sociedade” também não consegue enxergar o individuo com suas responsabilidades. A vergonha da própria incapacidade de decidir pelo certo torna este grupo num alvo fácil do “divide e vencerás” ou de “nivelar pelo mais baixo”.

Pamela escolheu o caminho complicado da acolhida que não tem a ver com aprovação, não tem a ver com aceitação não tem a ver com apreço mas tem muito a ver com o amor sacrificial esperançoso. É uma forma bem prática de reconhecer algumas coisas: 1) Sim, a sociedade na sua forma mais básica (a familia) falhou em te proteger, Biel. 2) Sim, você tem um propósito bom, Biel. 3) Sim, do jeito que você está fazendo vai continuar a se machucar e machucar os outros, Biel. 4) Sim, a vida pode ser terrivelmente dura mas estou aqui para te ajudar, Biel.

Pamela não estava aceitando os crimes do Biel, estava aceitando o Biel.

Pamela não estava aprovando as decisões do Biel, estava aprovando os sonhos e futuras decisões do Biel.

Pamela não estava apreciando esse Biel que machucava os outros mas sim aquele que fora machucado no seu ser mais íntimo e fraco.


A acolhida cristã deve ter esses componentes em que se permita a um individuo fitar os olhos em Cristo – apesar de suas decisões e desejos errados – e o fortaleça nessa caminhada. 

A acolhida cristã estabelece um padrão elevado e responsável de conduta pessoal sem deixar de observar que “o pecado que tão fortemente nos assedia” faz um estrago tremendo na imagem do ser humano. Há um delicado equilíbrio entre o “fui tentado” e “reconheço que cedi”. Isso é assim desde o Eden e não vai mudar até a finalização do estabelecimento do Reino.

A acolhida cristã não reduz o nível da vara para facilitar a entrada do pecador empedernido. Também não alarga a porta para que o camelo possa passar com toda sua carga. A acolhida cristã transita o estreito caminho que desvia o pecador da larga estrada que ele está levando elevando o nível da sua consciência e levando-o a um patamar até então desconhecido.

A acolhida cristã não se espelha na acolhida mundana em que não se chama mais o pecado de pecado por não ter a sociedade qualquer forma de solução para dito problema. A acolhida cristã passa pelo modelo de Jesus o Messias em que – por amor a esta sua criação – se aproxima dela em forma humana bem definida e de lá resgata os seus para poder levar “cativa o cativeiro” (Ef 4:8)

Finalmente, é necessário lembrar que todo pecado nada mais é do que uma expressão dos desejos mais viscerais do indivíduo. Isso se aplica à prática do adultério, à prática do assassinato, à prática da homossexualidade, à prática do estupro, à prática do roubo, à prática do abandono da congregação mas também se aplica ao que anda no coração do indivíduo sem por isso chegar alguma vez a ser praticado e é ali onde se desmancha toda a ideia de uma acolhida para continuar a prática do pecado sem peso na consciência, pois é lá – no fundo do mais recôndito da nossa identidade – que Jesus, o Cristo quer ser Rei.  Fazer qualquer outra coisa e continuar a chamar de “cristianismo” é um deboche da fé cristã já que na fé cristã o alvo maior é a restauração do plano original e é para lá que nós vamos.

Junte-se a nós: Acolha para transformar.

Dignidade venezuelana

Me perguntaram – teoricamente – como seria desenvolver o engajamento e o envolvimento da congregação local em algum projeto local. Em lugar de responder de forma hipotética, apresentei uma síntese do que está rondando minha cabeça esses dias e que compartilho com vocês:


O desafio que tenho pela frente é o de descobrir e estabelecer qual o rumo que a congregação que pastoreio deveria tomar. Porém, dizer isso em primeira pessoa em um meio congregacionalista pode parecer auto-confiança excessiva.

Seja como for, não me posso subtrair de que são os meus olhos que vêm quase que diariamente os venezuelanos que vão chegando e ficando na nossa cidade. Como estrangeiro em terras tupiniquins, sei que nem sempre é fácil compreender como a sociedade brasileira funciona e muito menos como aproveitar esses ventos do alto-mar da diáspora.

Imagino pontualmente as mães e pais de filhos adolescentes que – havendo tido uma vida financeira avultada – agora se encontram à deriva faltando-lhes a orientação e achando na mendicância a única opção.

Trata-se, então, de mostrar o que meus olhos vêm e o que meu coração sente não apenas à minha congregação, mas a todas aquelas outras que possam participar por não se tratar apenas de levar um prato de comida.

Precisamos de assistentes sociais, professores, contadores e qualquer outro profissional com os quais possamos construir e implementar um plano a longo prazo que não seja só um paliativo mais e sim uma convergência multidisciplinar cristã.

Sobre a vida do líder e o líder na vida.

Observo que frequentemente há uma distância entre aquilo que falamos desde o púlpito e aquilo que o objeto da pregação: a vida de Jesus nas nossas vidas.

Esta não é uma observação apenas nos colegas de ministério, mas sim um olhar constante sobre minha própria caminhada e o cuidado que devo tomar para não ficar tão longe assim do nosso Mestre. De fato, o que mais nos falta não são sermões sobre como deve ser mas sim exemplos de como de fato é. Com suas agruras e desvantagens.

Uma das pessoas que mais me impactou na vida ministerial chama-se Carlos. O jeito calmo de dirigir-se aos membros da sua congregação e como se conduzia na gestão da coisa pública não eram muito diferentes do que ele fazia na vida particular. Era corriqueiro ver ele prestando contas para esposa da mesma forma que o fazia para com a igreja local.

Ele e eu éramos de visões teológicas distintas, mas isso não o impedia de se aproximar e iniciar o diálogo ou de ceder o púlpito, ou inclusive de deixar alguns assuntos sob meu cuidado.

A forma gentil em que conduzia o diálogo em questões candentes impactava por sua firmeza e lisura enquanto manava dele uma doçura ímpar no respeito pelo seu interlocutor.

Certamente nos faltam mais “Carlos” no ministério. Pessoas que vivam o que pregam, preguem o que vivam (com seus lutos e lutas) e se apeguem apenas a Jesus nas questões mais críticas.