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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

Mais como botequim, menos como o Itamaraty

Em certo canto escondido e sombrio do nosso coração gostamos das coisas regradas e organizadas na igreja. Especialmente se é para os outros. Nisso, gostamos que nossa igreja (e em especial a “dos outros”) se pareça com o Itamaraty.

Porem, do que realmente gostaríamos -mas escondemos- é de ser o que realmente somos. Num botequim cada quem é o que é. A roda de amigos se forma na espontaneidade. Se um dos participantes falar uma burrada, o resto vai dar risada e seguir enfrente.

No botequim a aceitação esta garantida. Já no Itamaraty ela depende do figurino, regras, adequação…

No botequim o que importa são as pessoas ao passo que as instituições são a razão existencial do Itamaraty.

Da próxima vez que pensar a igreja conceitualmente, pense qual modelo sua alma precisa.

Caso esteja difícil, lembre sua última grande crise. Instituições não abraçam, amam, ouvem ou curam. Pessoas fazem isso. Independente de raça, credo, sexo, etc.

Então, meu irmão, meu amigo, meu colega, que a igreja que você constrói, seja mais parecida com um botequim do que com o Itamaraty; mais simples do que bonita; mais acolhedora do que rígida; mais desejada do que obrigada.

Saturnália e o Cristo

Talvez nunca cheguemos a compreender como é que chegamos a celebrar o nascimento de Jesus na data em que o celebramos.  Me refiro não só à data, mas ao jeito em que celebramos e às pessoas que o celebramos.

Natal está mais para um grande evento pirotécnico de marketing ocidental do que a celebração do nascimento do salvador do mundo mas isso, acho, já é moeda bem conhecida.

Para chegar rápido na sua cabeça: O que você acharia de mudarmos a data do natal para logo depois do carnaval?  Serio. Pense um pouco. Todos nós sabemos (e muitos participam) da devassidão que o carnaval propicia. Estamos plenamente cientes de que é o momento em que os papeis se invertem e o que em dias anteriores seria considerado grotesco, de mau gosto, devasso, impuro, inapropriado, etc passa a ser aceitável e quase que figurino obrigatório (mais nesses tempos de sociedade pós-modernista impregnada de imbecilidade pseudo-consciente). Imagine dois dias depois celebrar o nascimento de Jesus.

Bom, sei que talvez haja aqueles que estão pensando que exatamente isso seria uma imagem boa do que Jesus fez. Ou seja, estando o mundo no seu auge de corrupção, Jesus chega e propicia um caminho novo. É por este tipo de coisas que me refiro no inicio de que pode ser que nunca cheguemos a conhecer as razões de celebrarmos o natal nessa data.  Ou seja, quem sabe um monge pensou exatamente assim: “Ora, sendo que o festival de Saturnália continua muitos anos depois de ter sido tirado do calendário oficial e visto que esse povo precisa um sinal claro de que Jesus veio para livrá-los do jugo do pecado, nada melhor do que colocar luz no final do túnel: celebremos o natal logo após a ressaca de Saturnália”

Saturnália era uma importante festa romana que se celebrava entre os dias 17 e 23 de dezembro à luz de velas e tochas em que a ordem social sofria um intenso afrouxamento e em alguns casos uma reversão.  A data era essa por conta do final do inverno no hemisfério norte em que as noites iam se tornando mais longas até o solstício de inverno data na qual o Sol voltaria a reinar tornando os dias mais longos.

A festança começava com um sacrifício ao deus Saturno (encarregado dos assuntos Agrícolas) no lugar mais sagrado de Roma e se estendia pela cidade inteira com banquetes públicos nos quais o povo se misturava muitas vezes invertendo os papeis: Escravos que se comportavam como senhores, homens como mulheres e por ai ia.  Nesses banquetes e esse encontro prolongado de pessoas, havia intercambio de presentes e – obviamente – desejos de boa ventura nas colheitas, ao final de contas era o Sol que se estava levantando vitorioso do seu letargo e Saturno garantiria -mais uma vez- uma boa colheita.

Com o advento da institucionalização do Cristianismo o pessoal tenta cristianizar a festa e é por essa razão que celebramos o nascimento de Jesus – o Cristo – numa data em que com certeza ele não nasceu.  Fora o lance da devassidão social (que transferimos para algumas semanas depois)  mantivemos o banquete, a troca de presentes, os desejos de boa ventura, a universalidade da festa e o culto a uma divindade.

Muito mais adiante, surgiria a ideia de uma árvore (um pinus verde, para ser mais específico que vem a cristianizar a festa ao deus Frey no norte da europa), mais adiante ainda, ornamentos vermelhos (carmim para os puristas) e amarelos (ouro, na realidade).  Não podemos esquecer da estrela, das luzes, dos presentes, enfim… o que já sabemos. Dai até a árvore de natal na Baia da Guanabara com seu investimento de dinheiro público e as alterações no fluxo do transito e sua forte influencia no comercio local foram mais ou menos 380 anos.

Proponho eu mudar a data de natal? Nem matando. Isso ai não é natal nem nada que se pareça remotamente com ele. Proponho o mesmo caminho complicado de sempre: Pense e posicione-se.

Cristianizar uma festa pagã é ruim porque impede ao gentio de ver o conteúdo original da mensagem, do evento, da coisa toda. Se você fosse um alienígena (ou um cristão do primeiro ou segundo século que adormeceu e só agora saiu de sua catatonia) e chegasse de improviso entre os dias 19 e 25 de dezembro, saberia que os cristão estamos celebrando a maior loucura da nossa fé? aliás, saberia que era uma festa cristã?  Obvio que não. Parece mais uma orgia comercial, uma alforria dos cartões de crédito, um endividamento permanente pelos próximos 10 meses (sim, você nem acredita, tem pessoas que compram presentes no cartão de crédito para acabar de pagar quando a outra festa está sendo montada) do que uma celebração ao Deus feito homem.

Seja honesto com seus filhos. Se tanto lhe interessa celebrar o natal na forma em que o mundo propõe então ao menos salve seus filhos como Noé fez na arca.

Seja franco com eles. Conte que vivemos num mundo voltado para o Deus dinheiro e que de tempos em tempos precisamos endividar-nos para satisfazê-lo.

Diga a eles que da mesma forma que os gregos com o deus Crono, os Romanos com o deus Saturno, e os nórdicos com o deus Frey fazemos uma orgia gastronômica, intercambiamos presentes e desejamos um melhor período no ano.

Explique que não temos coragem para nos separar da chusma e ao menos celebrar o nascimento de Jesus – o Cristo – de forma diferenciada fazendo como o salmão que nada contra a corrente e morre na tentativa (a maior parte do tempo bem sucedida) de se reproduzir.

O melhor que você pode você desejar para sua cidade é uma mega igreja?

Confessemos; quem não sonhou com una igreja enorme que fosse uma referência na cidade? Já pensou? Você poderia dizer para os outros “Sou da igreja tal. 25, 30% da cidade está lá”.

Imaginou a capacidade de penetração social? Os projetos de grande abrangência que poderiam ser realizados? Conseguiu ver o prefeito da cidade na comunidade? E os dois ou três vereadores da oposição? Seria de inspirar respeito.

Bem sabemos que não dá para analisar todas as razões que nos levam a pensarmos dessa forma mas podemos enumerar algumas que me parecem ser bastante universais.

1) Não gostamos de perder. Somos competitivos por natureza. Queremos ganhar. O primeiro que me diga que concorre em qualquer coisa para chegar em segundo ou terceiro lugar já vou avisando que mente. Concorremos para ganhar: sermos os melhores, os maiores, os mais rápidos, os mais econômicos, os mais inteligentes, os mais bonitos, enfim… AI mais tarde ou mais cedo queremos – não já individualmente mas institucionalmente – sermos os maiores o que por sua vez igualamos com melhores. É isso do que trata o capítulo 18 de Mateus que não por acaso versa sobre a definição de papeis no reino.

2) Amamos o poder. A grande maioria de nós gosta de subjugar o outro seja por força, por ideias, por detração. Gostamos da democracia não porque seja boa para os outros e sim porque ela é boa para mim. Mascaramos esse desejo dizendo para os outros que uma igreja de maior tamanho tem maior capacidade de penetração social e que dessa forma os conceitos do evangelho podem chegar a uma maior quantidade de pessoas. Para mim isso tem outro nome: covardia. Na história inteira um único objeto desestabilizador é muito mais potente que uma grande massa de seres homogeneizados. Pense em como os ditadores (de esquerda e de direita) trataram e tratam com os indivíduos pensantes. Quer penetração social? Deixe que o Cristo mude sua vida por inteiro. A proposta é fazer discípulos (Mt.28:16-20) não montículos de pessoas que não mais pensam por si.

3) Pensamos só nas coisas da terra. O principio do Reino é a necessidade da morte. Ou seja, não há vida sem morte (João 12:24). O mundo no que vivemos está corrompido pelo pecado. Não me refiro aos pecados pontoais que cada um de nós pode cometer ao longo da vida. Me refiro ao pecado como poder soberano sistêmico que controla a forma em que o mundo anda. Não só como os seres humanos andam, mas a criação como um todo. Essa ideia São João a resume na frase “O mundo jaz no maligno” (1João 5). Quando pegamos ideias que funcionam bem neste mundo e as injetamos na construção da igreja local, só estendemos artificialmente o poder sistêmico do pecado para onde achamos que não deveria existir: a Igreja; e acabamos chamando de igreja uma coisa que dista muito da assembleia de seres pensantes que Deus quer construir.

4) Exaltamos a esquizofrenia espiritual. Por um lado dizemos que a manifestação do Reino de Deus é a Igreja em geral e a igreja local em particular. Por outro lado, lhe aplicamos leis que funcionam perfeitamente bem no mundo e esperamos que crie coisas novas. Imagine que houvesse vida em outro planeta e que não fosse baseada no carbono como a nossa. Com certeza a vida seria muito diferente e – principalmente – todos seus conceitos sobre biologia (o estudo da vida) deveriam de mudar, na realidade, deveriam ser reinventados. Assim é com o Reino. Ele trata da vida que havia no projeto original antes da queda e a que está sendo restaurada até a concretização daquilo que chamamos céu (algum outro dia falo sobre isso). Ao não nos desvencilharmos dos conceitos “naturais” sobre-dimensionados e sonharmos com um Reino dos Céus como se fosse apenas um destino vivemos uma divisão maluca que a lugar nenhum nos leva a não ser à auto-exaltação de fazermos parte da mega igreja tal ou qual.

 

Então o que fazer? E eu sei?! Se eu soubesse, se eu tivesse uma receita de bolo para lhe instruir a fazer isto ou aquilo o próprio artigo estaria fadado ao fracasso.  Eu só sei que um dia me apresentarei perante o Senhor. Sei também que ele está querendo construir – a partir das minhas palavras e ações – uma nova realidade que funciona pela fé até a manifestação dele.  Esse dia terei de prestar contas não só de como realizei meu “ministério” (como se de uma coisa separada do resto fosse) mas sim das minhas motivações mais escondidas, das minhas ações e palavras que construíram e destruíram o Reino na vida do meu próximo.

Quando o símbolo se torna mais importante que a coisa simbolizada

Há uma sensação estranha quando a gente começa a perceber que algo ainda está de pé… mas já não sustenta mais nada.

Tudo continua no lugar. Os gestos são os mesmos. As palavras também. E, ainda assim, parece oco. Como se estivéssemos lidando com uma estrutura preservada… sem o que a fazia viva.

O problema é que símbolos sobrevivem bem ao tempo. Melhor do que a realidade que eles apontam.

E talvez por isso seja tão difícil perceber quando a inversão acontece.

O Antigo Testamento não esconde esse momento. Sacrifícios sendo feitos. Festas acontecendo. Tudo aparentemente certo. E, ainda assim, rejeitado. Não por erro na execução, mas porque aquilo já não correspondia a nada. O símbolo permaneceu. A vida que ele deveria expressar tinha desaparecido.

Isso não ficou lá atrás.

Hoje, por exemplo, é 21 de abril. O país para. O nome é lembrado. Tiradentes volta à superfície por um dia. Mas o que exatamente permanece ali? A memória viva… ou apenas o símbolo que atravessou o tempo? Porque é possível preservar a figura… e perder completamente aquilo que ela representava

A gente ainda sabe repetir formas. Sabe organizar ritos. Sabe manter práticas. O problema começa quando essas coisas passam a funcionar sozinhas. Quando deixam de apontar… e passam a ocupar o lugar.

O dízimo, por exemplo, nasce dentro de um mundo muito específico. Terra, colheita, templo, levitas. Um sistema inteiro que dava sentido àquilo. Fora desse ambiente, ele até pode continuar existindo — mas já não é a mesma coisa. E, ainda assim, há quem se agarre a ele como se fosse suficiente. Como se cumprir um percentual resolvesse algo mais profundo.

A ceia vai por outro caminho. Não pesa. Não exige. Mas também, muitas vezes, já não carrega o que deveria. O gesto está ali. O pão, o cálice. Mas quase sem memória. Quase sem corpo. Uma encenação leve demais para o que um dia foi denso.

E então a gente começa a perceber que o problema não está exatamente nas práticas.

Está no fato de que elas continuam… mesmo quando já não dizem mais nada.

E isso engana.

Porque dá a sensação de continuidade. De fidelidade. De que tudo ainda está no lugar. Quando, na verdade, o símbolo já não está apontando para nada além de si mesmo.

Deus nunca pareceu incomodado com símbolos.

Mas há momentos em que ele simplesmente se recusa a aceitar símbolos vazios.

Talvez porque, nesse ponto, eles deixam de revelar.

E passam a esconder.

E quando isso acontece, o mais perigoso não é perder o símbolo.

É preservá-lo.

O marketing e a Igreja

marketingAlguns, sincera e piamente, acreditam não só que é possível mas necessário usar ferramentas de marketing para disseminar a fé no Senhor.
Acontece que nem sinceridade nem piedade são garantia de idoneidade.


Vivemos em tempos em que o marketing e suas técnicas reinam plenipotenciários. Nada do que se vende, compra ou troca está livre de alguma forma de promover as características do produto.

Obviamente que isso não é novo. Basta imaginar dois beduínos sentados em pleno deserto com suas caravanas em suspenso enquanto negociam, para visualizar claramente um falando para o outro que o rebanho sendo negociado, tinha preço equivalente de tantos metros de seda oriental. Nada novo nisso ai.

O problema é a massificação disto. A escala, por usar uma palavra comum ao meio informático. Quem ganha uma venda? Geralmente quem mais e melhor investiu em marketing. Não é a mesma coisa beber um refrigerante marca “palito” do que um que leve a palavra “cola” e faça lembrar a cocaína no nome. Os exemplos são bem conhecidos.

Bem, como de costume, a igreja institucionalizada entende que precisa ir atras do mundo em lugar de simplesmente existir e permanecer. Logo, que melhor ferramenta do que as que o marketing pode oferecer. Rapidamente passamos de oferecer melhores conteúdos para melhores programas, de melhores programas para mais vigorosos encontros e de encontros vigorosos para um melhor Jesus do que os outros tem para oferecer. Como nesta carreira cada um luta como pode (e não exatamente como deveria) isto atinge não apenas as grandes urbes mas também os povoados mais pequenos, provando-se um problema quase que de ordem existencial.

É claro que se uma igreja decide que vai ter tal ou qual programação, nada mais lícito que promover. É obvio que se o local de reuniões será visitado por alguém que a igreja local julgue relevante, nada mais sensato do que falar para os outros, ao final das contas, isso não acontece toda hora.  Mas é ai que o perigo mora.

Empolgado com os “resultados” o povo e seus líderes (ninguém pode dizer ao certo quem começa) vão querer mais. Aos poucos é gestado um departamento de promoções ou -descaradamente- uma empresa de marketing é alugada. Ao final das contas, se se está na chuva é para se molhar e o fim justifica todo e qualquer meio.

Jesus e sua mensagem são colocados então de molho aguardando uma melhor oportunidade para aparecer. Como tem muito visitante, o pastor “sente” da comunidade, do vento, das estrelas ou sei lá do que mais que não pode trazer uma pregação firme ou de denuncia. Está mais para um bom vinho misturado com água do que agua pura ou vinho puro. Ou seja, é uma coisa repulsiva que agrada apenas quem de fato não deveria ser agradado: a plateia.

Me explico. O evangelho não tem a ver com democracia. A administração da igreja pode até ser (e apenas para contrabalancear o culto à personalidade ou limitar o poderio dos cowboys do evangelho ou compartilhar o peso da responsabilidade nas decisões comunitárias) mas o evangelho e sua pregação – isto é, a essência da igreja – não o são. O evangelho foi trazido por revelação divina e apenas subsiste por ser de tal natureza. O evangelho é duro e difícil (se não impossível) para os que estão de fora e a única porta de entrada é o arrependimento, isto é, o reconhecimento profundo e pessoal de ter vivido uma vida longe do Senhor e seus interesses. Suavizar isto é não pregar o evangelho. Logo, ao tentar amenizar a palavra para torná-la palatável ao gosto do ouvinte é apenas eludir a plateia pois por esse caminho vá-se a qualquer outro lugar menos para o Reino.

Então, é ou não é para usar técnicas de marketing na igreja? Bom, eu não posso responder essa pergunta para você. Isso é uma questão de liberdade de consciência. Apenas sei que não quero vir a ser encontrado pelo Cristo tentando “vender” um Cristo massificado e não um Cristo ressuscitado.

Preços, custos e valores

O que é mais barato? Uma garrafa de cerveja descartável de 300ml por R$1,19 ou um litro de leite UHT por R$1,38?
Qual vale mais? Qual custa menos?

Estávamos -como de costume- sem dinheiro na fila do supermercado fazendo as contas para ver se a compra tinha sido satisfatória. Fazemos isso porque precisamos chegar no fim do mês comendo mais ou menos bem não por sermos sovinas, tacanhos, seguros, avaros ou coisa parecida;

Aquele dia foi -porém- poético por chama-lo de alguma forma.

Na nossa frente havia umas 10 pessoas no caixa e logo após de chegarmos já se formaram mais seis ou sete pessoas atrás.  O interessante era o conteúdo dos carrinhos.  O nosso carro tinha o comum de uma família de tamanho médio mais uma caixa de leite comprada fora de época, isso porque naquele supermercado o leite é mais barato na primeira semana mas o mês não tinha começado tão empolgado como deveria, então estávamos dando aquela reforçada.

Já os carrinhos de nossos colegas de fila (de algum modo temos que chama-los) estavam repletos, lotados, transbordantes de cerveja.  Falei “Pronto, perdi uma promoção. Onde estava minha cabeça que não fiz a conta direito? Por que não é inicio de mês? cadê a sexta-feira?”

Meio sem graça (e com muito tempo sobrando pela velocidade de decantação da fila) me locomovi até o setor apropriado para ver se eu tinha visto errado. Achei a promoção: Garrafa de cerveja por R$ 1,19. É.. não devia ter visto.  Cheguei perto e vi a causa: Era uma daquelas garrafinhas descartáveis de 300ml com conteúdo pré-choco à temperatura ambiente. Ai pensei “Meu, esse povo tá louco mesmo!”  “Em que cabeça cabe que isso é uma promoção?” Explico: é de se esperar que em uma promoção você -se bem não ganhe- pelo menos sinta que ganha alguma coisa numa “promoção”.

Voltando de mãos vazias e com um sorriso no rosto, fiquei a pensar nessa catarses de confusão coletiva que estava presenciando. Ou seja, não interessa do que fosse a promoção se tratava de uma daquelas propagandas que estava no umbral do engano beirando a pura sacanagem marqueteira de alguém querendo desovar estoque.  Mas tinha dado certo, aliás, muito certo.  Todos os caixas estavam cheias de carrinhos com uma duas e até três caixas do produto.

Minha mente, então, se elevou a coisas mais produtivas como os seguintes parágrafos de reflexão que é -ao final de contas- o que uma história tão bizarra nos pode provocar.

O que é que o povo tem por ‘valor’?.  Qual o ‘custo’ de uma certa coisa? E o que isso tudo tem a ver com ‘preço’?

Há alguns anos o ‘custo’ de alguma coisa seria a somatória de produção, transportes, estocagem, exposição e mão de obra mais uma margem de lucro.  Hoje o ‘custo’ está mais parecido com um chute.  Ou seja, na simplificação da coisa ‘custo’ hoje é o que o mercado está disposto a pagar por uma determinada coisa. Levadas as coisas ao extremo, reduzir os custos é reduzir os escrúpulos.

Já ‘preço’ é o que está na etiqueta e que o consumidor final vai levar.  Ou seja, é a ponta do iceberg, o frangir dos ovos, a remela dos olhos. Deixamos que nos enganem facilmente derrubando o numero que está na etiqueta e chamando o dia de ‘black-friday’ e mesmo que seja um bom engodo, gostamos de acreditar nele.

E finalmente temos o ‘valor’ que seria o que realmente a coisa comprada acrescenta (ou tira) à nossa vida. Um exemplo extremo ilustra melhor isto.  Digamos que uma casa popular (dois quartos, geminada, sem pintar) um carro popular (palio, 1996, pintura desbotada) e a latinha de cerveja estivessem na pratilheira do mercado com uma etiqueta de ‘preço’ idêntica. Qual ‘vale’ mais?  Bom, obviamente a que mais acrescenta à vida de quem compra.  Então se você está em situação similar à minha, optaria pela casa em primeiro lugar. Mas digamos de que quem compra já tem não uma mas duas casas muito boas, e um ou dois carros do ano… para que considerar a casinha brejeira e o carro que a cada seis meses tem que levar a alinhar ou perde os pneus?

Ou seja, ‘custo’, ‘valor’ e ‘preço’ estão amarrados não intrinsecamente como a propaganda não dita nos pretende adoutrinar e sim com a vida do comprador.  Por isso que cada vez mais as ferramentas sociais que consideram a massa são mais relevantes do que a opinião de um único comprador isolado.  Como se diz comumente: Uma andorinha não faz verão.

A igreja, por estar inserida no mundo, não está isenta de pensar nesse padrão. O que tanto custou na cruz, por ser de graça, achamos que não vale nada. Pronto, é como diz 1Pd.1:9 por ternos esquecido da remissão de pecados não crescemos.  Simples.

Reconstruindo a ideia: nos tornamos frios na fé por não valorizar a origem da mesma. Aquilo ao que não lhe damos valor, achamos que não custa nada e por não custar nada, deve haver coisa melhor.

Tem dois velhos cânticos que nos trazem a ideia que estamos elaborando. Um deles diz “Eu sei que foi pago um alto preço, para que contigo fossemos um meu irmão” e o outro “Eu nunca saberei o preço dos meus pecados lá na cruz”

Tanto um quanto o  outro falam de um preço desconhecido, isto é, um custo que o ‘público’ não conhece, sabe ou entende, mas que está ai. Enquanto o primeiro fala de um ‘alto preço’ sem conseguir precisar o quão alto é o segundo fala dos custos desse produto chamado salvação.

Em qualquer caso, o valor que o ‘consumidor’ cada vez mais frequente no ‘supermercado’ neo-evangélico admite pelo produto ‘salvação’ está cada vez mais inócuo pois o desconhecimento (pensamento e prática) estão cada vez mais longe do original.  Isso torna a igreja morna. E por isso, vomitável.

Não quero saber se você é católico ou pentecostal. Só quero saber de que lado da cruz você está.

Nosso canto é sempre melhor que o canto alheio.

De uma olhada na próxima escola bíblica, encontro de oração, eucaristia, comunhão, enfim, no que quiser.  Repare como nos esforçamos em estabelecer a grande diferença entre “nós” e “eles”.  “Eles” sempre estão errados e “nós” sempre estamos certos.  Como muito, os que dentre “Eles” estão certos é quase com certeza porque tem algum tipo de contato com “nós” ou de alguma forma os influenciamos.

Em linhas gerais, vale mais o rótulo, a tradição, as escrituras e o rito do que a cruz de Cristo.

Lembro sempre do sr. Emidio.  Conheci ele há uns 20 anos quase.  Católico praticante, leitor ávido das cartas paulinas, em especial Romanos e Gálatas.  Lembro até hoje de vários encontros onde a única coisa que eu podia fazer era consentir com a luz quele recebera. Apegando-se à escritura, entendia que era seu lugar naquela comunidade.  Ele entendia com o coração aberto que o único salvador era o que Bíblia propunha.  Aliás, a sua própria Bíblia, uma tradução de “Jerusalém” surradinha, com deuterocanônicos e tudo.

A escritura, fonte inegável de autoridade para grande parte da cristandade, deveria ser a única a nortear o básico: Só Cristo é o caminho para o Pai. O resto é invenção humana.  Os inúmeros pedágios, vias rápidas, atalhos, pontes que criamos, são só toscas emulações do verdadeiro caminho que é Jesus.

Agora pergunto eu, se Cristo em sua maravilhosa soberania, quis se revelar a um Católico, um Pentecostal, um Ortodoxo, um Batista, um Anglicano ou um Presbiteriano, quem sou eu para impedi-lo?  Como? Com que argumentos o convenceríamos a ficar no nosso curral?  Qual seria a maravilhosa sequencia de palavras que emanariam de nossa boca para limitar o Senhor e sua salvação?  Então, porque fazer isso com as ovelhas dele?

Temos que acabar de empurrar para o abismo a separação no mundo cristão que tanto se parece à que havia entre gentios e judeus no primeiro século.

Ou você está sob a salvação obtida por Cristo na cruz, ou está perdido. E isso não tem nada a ver com a etiqueta que penduraram na sua cachola.

 

“Eu declaro” e outros fórmulismos neo-evangelicos

Aqueles que o podem fazer acreditar em absurdos, podem fazê-lo cometer atrocidades. Voltaire

Lembro do tempo em que ser cristão era sinônimo de problemas. Não que tenha saudades disso, não. Só que naquelas épocas quem abraçava Jesus, sabia que corria o risco – ao menos – de ser taxado de besta. E houveram tempos ( que não os vivi e que não gostaria que se repetissem ) em que se declarar seguidor de Jesus era sinônimo da fogueira.

No Brasil temos passado nos últimos vinte anos de uma mera complacência com o povo evangélico a um namorico de segunda categoria entre as partes.  Nessa bajulação sem graça de ambas as partes, vale tudo, principalmente mimetizar-se com o mundo (do lado dos pregadores) e mimetizar-se com os cristãos (do lado dos que vão se achegando)

Já falarei em outro momento sobre a falta da consciência do pecado, a realidade do inferno (tanto presente quanto escatológico) e o completo quilombo caboclo em que a igreja evangélica tem se transformado. Mas por enquanto, vamos aos líderes que – muitas vezes eles mesmos enganados – enganam e eludem o povo.

Tive a oportunidade de estar em um culto esses tempos atrás onde o ápice do encontro era o momento em que o pastor da comunidade pronunciava frases que começavam ou continham a fórmula “Eu declaro..”  Enquanto ele ia declarando a multidão ia ao delírio. Era uma sensação de certeza que ia ganhando o povo. Convicção plena de que agora sim, as coisas iam se encaixar. Alguns até com lagrimas nos olhos se abraçavam enquanto o pastor, suando e muito exaltado ia fazendo suas declarações. Conheço essa comunidade há mais de vinte anos e me resultou muito estranho o fato de eles terem aceitado esse tipo de prática, já que a comunidade era bem conhecida pelo seu apego às escrituras e um culto mais pensado. Alguns me explicaram que essa igreja tinha crescido de alguma coisa como oitenta membros para quase trezentos nos últimos anos e que se viram na necessidade de ter mais de um serviço público por domingo. Também me explicaram como as entradas da igreja tinham aumentado e com isso não havia mais problemas nessa área. Enfim, o céu na terra.

Gosto de igrejas que crescem, mas estou plenamente convicto de que da mesma forma em que o corpo de um ser vivo cresce até seu próprio limite, depois amadurece, se reproduz, cuida das suas crias e morre; assim é com as igrejas locais. Ou seja, não me entusiasma nem um pouco uma igreja que parece que seu único objetivo na vida, é crescer, crescer e crescer. Para mim é sintoma de um mal maior, já que o maior evangelista que pisou esta terra, teve uma igreja de 12 membros, com um corpo de trabalho mais achegado a ele de 3 (25%) e um deles (8,3%) mandou matar o pastor. Digo, o foco de Jesus não foi um grupo multitudinário de pessoas que afetasse a sociedade ou que tivesse templos enormes com mega-orçamentos. O projeto dele era a mudança do coração da pessoa, logo, não há reino terreno, a não ser aquele que se manifesta no íntimo do indivíduo. Para fazer isso, um crente só precisa de duas coisas: conhecer o Senhor e manter relações pessoais.  Sei que estou simplificando as coisas, mas não é disso que se trata?

Então, mesmo não sendo o objetivo criarmos estruturas locais, gosto de igrejas locais que não tem dívidas e mantêm um orçamento sadio com o qual a igreja local vá sendo equipada também nessa área. Todavia, me parece ser esta uma razão muito barata para aceitar qualquer tipo de teologia. Principalmente no púlpito.  Na igreja que visitei, sei que anos ao fio enfrentando problemas financeiros (mesmo que suaves perante algumas outras similares) somado à pressão social por ser uma igreja “saudável” a levaram a abandonar seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

Por já ter visto esse mesmo processo em igrejas similares, sei que o dano feito não tem mais como ser reparado. Sim, sim, creio no poder de Deus, mas contra o abandono da fé não há solução (Rom 11:17-24; Heb 6:4; Heb 12:17) a não ser a tênue possibilidade de voltar a crer. Ou seja, é mais ou menos como uma infecção com uma super bactéria e o paciente já ter recebido vancomicina por mais de 10 dias, ele está por conta.

Para quem está lendo este artigo e está sendo formado em teologia, ou almeja bispado, quero lhe dizer um par de coisas: 1) Se você começar a declarar, interceder, profetizar, ungir com óleo, água, ou qualquer outro líquido, levar o povo para o monte para orar, promover um jejum ou dieta especial, fazer jejum substitutivo ou qualquer outros dos formulismos que estão em voga sua igreja – quase com certeza – vai crescer em número. 2) Qualquer fórmula aceita, por menor que seja, levará o novel pastor a procurar mais algumas pois o povo vai precisar delas para manter o êxtase.

Ou seja, não estou discutindo a eficiência das fórmulas empregadas para arranjar mais pessoas para um evento religioso, nisso temos muito a aprender das muitas religiões  que há no mundo. Exemplos é o que não falta, desde os velhos xamanes indo-americanos, passando pelo tradicional exemplo da Igreja Romana, o novo exemplo da IURD, e chegando às religiões orientais. Se o que interessa é trazer um numero grande de pessoas (talvez até com o nobel propósito final de lhes “ensinar a verdade“)  há uma fórmula bem conhecida que pode funcionar anos ao fio: 1) Estabeleça qualquer ritual simples mas que requeira de uma pessoa oficializada como ministro, intercessor, sacerdote, o que for. 2) Faça generalizações durante a homilia colocando exemplos práticos de como as coisas se deram para você, um membro da sua família, um amigo, algum conhecido,enfim, qualquer um que seguiu (ou não) os passos da receita e como se deram bem (ou mal). 3) Leve a multidão a um estado de animação emocional (não precisa que cheguem às lágrimas) elevando o tom e o volume. Se possível utilize música de fundo. 4) Faça o ritual final e mais importante (seja lá o que tenha escolhido) mas o importante é que as pessoas – de alguma forma – se movimentem. Por exemplo, que passem à frente, que levantem as mãos, que abracem o seu vizinho, que se ajoelhem, não interessa o que, mas que o façam em conjunto. Repita sempre a mesma coisa ou alterne entre vários métodos mas com estrutura similar. 5) Enfatize o conceito de matilha. Reforce a importância do “nós” perante “eles” e se há similares, estão distantes. 6) Finalmente, mas não menos importante, se as coisas não deram certo para a pessoa que participou do ritual considere as seguintes três opções: a) A culpa é a amiga do ritual: Se não deu certo, o fiel não teve fé (ou está escondendo coisas, ou não fez do jeito certo, tanto faz) b) Dependendo do caso, dá para repetir o ritual e ver se dá certo (ou para que serve a missa do sétimo dia ou o batismo pelos mortos) c) Se mesmo assim, o fiel quiser cair fora, não se preocupe,  para cada um que sai nesse sistema, de três a cinco chegam.

Estou sendo irônico? Depende. Você leva a fé a serio? Então estou sendo irônico. Você está estudando teologia por convicção ou porque não serve para mais nada? Então estou sendo sarcástico. Você já perdeu todo senso de divindade e para você uma igreja local não passa do seu meio de vida? Acrescente ao plano anterior uma comissão de 5% sobre o incremento da receita ao seu contrato e você ficará rico. E sim, estou sendo não só irônico e sarcástico, mas estou lhe chamando de besta por mexer com o sagrado como se fosse um negócio.

Então como fazer para a igreja crescer? Não se faz, ora pois. O lance é mais simples de tudo o que você tenha imaginado até agora: A igreja é uma comunidade de separados por Deus para mostrar (agora e no futuro) sua super abundante graça. Ela não depende de templos ou de quaisquer estrutura organizacional. O que temos para mostrar, se mostra na intimidade dos relacionamentos que estabelecemos tanto com aqueles de longa data como com os ocasionais. A igreja se manifesta só quando o caráter do cristão fica exposto. Ou seja, cantar lindos cânticos em um templo caro ou não para depois ouvirmos uma pregação (por melhor e mais sincera, honesta, pura, bíblica e boa seja) não manifesta necessariamente a igreja. Deixa ver se consigo ser mais claro: Por mais bíblica, exegeticamente correta, pensada que a mensagem seja e mais ordeiro seja o culto, não há necessariamente nisso a manifestação da igreja de Cristo. A igreja se manifesta quando estendemos (ou não) uma mão ao que precisa, quando passamos um tempo (ou nos negamos a faze-lo) com nossa família ou nossos amigos, ou quando somos fechados no trânsito, ou quando estamos sozinhos no nosso quarto sem que ninguém mais nos veja. Dito em outras palavras, o que se espera da igreja é um caráter diferente, o que chamamos de um novo homem tudo o que te leva para fora desta analise particular das tuas nuances internas, não passa de balela e – pior que tudo – perca de tempo. Uma comunidade que não busca crescer no âmbito intimo, pessoal de cada um dos seus membros ainda não compreendeu do que se trata e uma comunidade que troca a singeleza desta busca pela vaidade de ter uma igreja numericamente maior ou um templo maior ou mais caro, tem perdido seu foco, e não sei se há muita esperança para esse grupo pois como disse Voltaire na frase citada no inicio, esse grupo está sendo levado a cometer atrocidades, contra si mesmo, contra os outros e contra os próprios filhos pois mais tarde ou mais cedo a balela vai vir à tona.

Já entrou nessa roubada? Arrependa-se meu chapa. Depende disso para sobreviver? Passe a depender do Senhor. Acha que não está enganado? Dobre o joelho, meu amigo, você está piamente enganado. Você está fazendo isso tudo deliberadamente? Confesse isso à sua congregação, arrependa-se e passe a depender do Senhor.

A comunhão como fonte da maior riqueza

Salmos 133

A comunhão com os irmãos está em pé de igualdade com a ordenação de Aarão e a chegada dá primavera. Nessas condições, Deus envia a bênção que ele quer sobre seu povo.

Nem sempre quando lemos apreciamos.  É como quem ouve chover e não dá bola a cada gota que cai.

Muitas vezes passei sobre esta passagem da escritura mas esses dias recebi uma perspectiva diferente e por que não, desafiadora, refrescante.

Sempre insistimos no primeiro versículo, “Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!” (Salmos 133:1 NVI) e fazemos bem.  É uma grande vantagem podermos conviver em união.  Cabe, é claro, a analise que para que haja realmente paz, não é só necessária a irmandade mas também o desejo e o esforço de conviver em união.  Nada mais desafiador!  Mas o texto é uma observação.

Em espanhol fica mais claro, ele começa com um imperativo “Vejam quão bom  e quão delicioso é habitarem os irmãos juntos em harmonia” (Livre tradução nossa de Salmos 133:1 segundo RVA1960).  Menciono o espanhol por ser minha língua mãe e para que sirva também que mesmo tendo uma tradução que nos leva a justamente “observar” nunca tinha reparado tal magnifico detalhe.

Óleo de UnçãoMas o que nos pega de surpresa é o segundo versículo “É como o óleo… sobre … Aarão” (Salmos 133:2, NVI)  E ai que começa a coisa. Esse óleo sobre Aarão está fazendo referência -obviamente-  a Levítico 8:30 em que o primeiro sacerdote de Israel é consagrado junto com suas vestes, seus filhos, sua forma de sobrevivência, etc.

A ordenação de Aarão é um marco na história de Israel, é o momento em que o povo visualizava materialmente a profecia de um único e grande mediador que haveria de vir: Jesus.  Ao mesmo tempo, o povo recebia instrução, possibilidade de materializar sua participação no culto ao único Deus; o seu arrependimento podia tomar forma visível; e por igual modo, podia ver que o pecado era pago com morte de um inocente por elencar só algumas coisas.

A vida civil também mudara, já que tarefas antes centralizadas em uma única pessoa, Moisés, seriam agora formalmente divididas.  Assistimos, então, ao momento de formação da nação como tal.  A identidade nacional estava -em certa forma- completa.

Deixemos isso de molho.  Vamos ao monte Hermom.  Precisamos ir porque o versículo 3 nos leva exatamente para lá.  Começa com a mesma fórmula que o versículo 2, ou seja, comparando: “É como..”

Monte HermonO monte Hermom ficava no limite norte da terra prometida conquistada sob cuidados da tribo de Manassés.  Bem, o lindo aqui é que quando o salmista faz uso da sua licença poética o faz em grande estilo.  O “orvalho” que desce do monte Hermom é bem mais do que umas simples gotículas no amanhecer. O cume dele recebe neves durante a maior parte do ano.  Evidentemente que com a chegada da primavera, parte dessa neve se derrete e a água cristalina acaba irrigando as regiões baixas.  O rio Jordão, por exemplo, tem sua origem nessa montanha que por sua vez acaba abastecendo o mar de Tiberíades e deságua finalmente no mar morto.  Em outras palavras, toda a cadeia de produção de alimentos e por consequência as operações de compra-venda de bens se vê afetada pelo “orvalho” do monte Hermom.  A seca virá no final do verão.  O outono e o inverno vão requerer um recolhimento.  Mas a alegria e a expansão vem na primavera.  O Hermom está ali para garantir esse suprimento.

Bem, juntando as coisas o que temos? Que a união dos irmãos está em pé de igualdade com o evento único de ordenação de Aarão e com a regularidade do derretimento da neve do Hermom.

Claro, não somos judeus por nascimento e não conseguiremos nunca entender todas as nuances de um Salmo do jeito que eles conseguiriam fazer por conhecimento direto de causa, por antiguidade, por prática… sei lá, já pensou isso tudo somado à graça?

Porém, eu posso lhe jogar algumas linhas que me parecem interessantes para poder trançar seu pensamento:  1) O evento sob a graça que é equivalente à ordenação de Aarão é a vinda de Jesus à terra, sua crucificação e em especial sua glorificação.  2) Não temos um monte Hermom para cada povo ou nação, porém podemos reconhecer a graça geral que se manifesta na vida do cristão e garante o sustendo de Deus aos seus filhos.

Mas antes do terceiro ponto, deixa mostrar a estrutura com a que enxergo o Salmo para entender porque chego ao terceiro e a razão pela que vou concluir do jeito que vou concluir.

A estrutura é assim:

Repare que conviver em união é bom. É como:

    1. A instituição do sacerdócio, que nos dá identidade nacional
    2. A regularidade do derretimento das neves do Hermom, que nos assegura a colheita.

É ai que Deus envia a bênção eterna

Por isso, que preciso lhe fazer algumas perguntas:

  1. A comunhão com sua igreja local está em pé de igualdade com o culto de domingo à noite?
  2. Ou -mais fundo- a comunhão com sua igreja local está em pé de igualdade no seu íntimo com a cruz de Cristo?
  3. Levamos tão a serio a comunhão com a Igreja e com a igreja local como levamos o serviço?
  4. Ou -mais fundo- as necessidades de afeto, aprovação e aceitação de nosso irmão, são tão vitais como para tirar um tempinho e ir tomar um café com ele?  regularmente?

Qualquer resposta negativa denota que não estamos prontos para receber a bênção que o Senhor nos quer dar.

O mundo neo-pentecostal (que reflete em muitos casos a situação pre-reforma) ensina a grandes gritos e com o exemplo que o ser humano tem direitos perante Deus e que deve correr atrás desses direitos e exigir de Deus.

A sabedoria da Bíblia -até há pouco tempo única regra de fé e prática no meio evangélico- nos ensina exatamente o contrário: Deus é soberano e quer dar sua bênção eterna para seu povo.  Essa bênção só é possível quando entendemos a dimensão e profundidade da comunhão.

A regra é simples: Sem comunhão nada de bênção de Deus.

Somos a Igreja, não Buzz Lightyear

Buzz Lightyear

Tenho um menino que gosta de assistir alguns desenhos animados.  Porém, vez ou outra me deparo com que os desenhos que tradicionalmente achamos serem para crianças, trazem um foco duplo, levando os adultos a considerarem outras faces da mesma verdade já conhecida.

Toy Story nos apresenta a personagem Buzz Lightyear e seu dilema de não possuir os poderes que tanto ele acha que tem mesmo que os deseje (e em certas ocasiões) os chegue a utilizar.  Porém, o que mais me chama a atenção dele é seu bordão “Ao infinito e além!” que traz lembranças de “2001, Uma odisseia no espaço” em que a frase é “Júpiter e ao infinito” ou coisa assim.

Vez por outra algumas pessoas muito bem intencionadas dentro da comunidade cristã, concluem que é necessário crescer.  Argumentam que todo corpo sadio cresce.  Que se as coisas estiverem bem, então é natural que haja crescimento.  E eu até que concordo com essa ideia, só pergunto, sempre?  A qualquer custo?

Quantos anos tem meu leitor? Se for um homem e estiver com 12, 16 anos, ainda tem alguns anos de crescimento pela frente ao passo que as meninas estão chegando ao fim do esticamento que tanta comida e horas de sono consume.  Se seu corpo for sadio, com certeza ele vai estabilizar e parar de crescer.

A ideia do crescimento ad-infinitum que tantos pastores tem seduzido ao longo das épocas não reflete o projeto original em que um grupo bem organizado cresce até o limite e depois disso se reproduz.  Ao crescer com rumo ao infinito, ela se perde em seu propósito, descuida seu cuidado mútuo e finalmente abandona seu primeiro amor.

É por isso que acho que a frase de Buzz Lightyear reflete a ideia de mais de um marqueteiro de plantão: “Ao infinito e além”.  Já pensou que a sua igreja deve crescer ao infinito? Bom, ainda dá tempo de se arrepender e tentar pegar o bonde do Senhor de novo.

Não confunda hipertrofia emocional com maturidade espiritual. Somos a Igreja de Cristo, não Buzz Lightyear.  Assim como são necessários muitos homens para povoar a terra, são necessárias muitas pequenas igrejas para trazer  luz ao mundo.