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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

A paternidade e a pátria

Parece que não faz muito tempo que escolhi ser pai, mas se me ponho a fazer as contas lá se vão 29 anos. Quem quiser uma versão mais leve destas mesmas ideias, dê uma olhada neste outro artigo. A decisão de ser pai é anterior ao chamado ao pastorado e é concomitante com a escolha profissional; deu-se em circunstâncias de plena admiração pelo meu velho.  Lembro que naqueles dias pediram para levar uma foto da personagem que mais admirávamos e, então, levei uma foto 3×4 de meu progenitor. A nossa relação (marcada por um profundo e perpetuo silêncio desde que eu tinha lá meus 8 ou 9 anos), sempre foi no sentido em que eu entendia meu velho, mas sentia como que o contrário não era sempre igual. Faz uns dias liguei para ele por conta do dia do amigo.  Isso porque no âmago da minha definição de gente está a figura do meu pai-amigo, segurando a mão quando eu era um pivete. As minhas primeiras lembranças são com ele. Todas e cada uma das cicatrizes que levo foram feitas estando com ele e de nenhuma delas me arrependo.  As coisas que sei e as que imagino da escritura tem como referencial meu velho que -ao final das contas- soube nos passar bem a teoria da coisa. Todavia, ver as ambiguidades que nele havia, me levaram a tomar a decisão de ser pai. Ou seja, de ser um outro tipo de pai na realidade.  Acessível, compreensivo, presente, interessado, ouvinte, firme, acolhedor.  Me lembro exatamente onde e como estava naquela noite, assim como  o frio invernal uruguaio  batendo no meu rosto. Me lembro da primeira namorada. Ele me apoiou, me bancou, me deixou livre, mas não me aconselhou, não me levou para conversar. Uma única vez me falou sobre o relacionamento marido mulher e falou assim: “quando um homem assume um compromisso com uma mulher, tem que levar esse compromisso até o fim“.  Isso causou um vácuo em mim porque queria dizer -naquela época- que eu não mais podia errar, não podia sequer tentar conhecer uma mulher.  Então decidi beber desse poço de imensa sabedoria ao meu ver, e desse ponto em diante não mais namoraria até que fosse para casar. Casei. Tentei ser e fazer a mulher feliz; tivemos uma filha maravilhosa e um que partiu antes de ver este mundo. Mas esta relação não chegou ao bom termo almejado no inicio. Eu estava, de todo coração, tentando ser um bom filho. Mas nessa relação de paternidade/amizade havia faltado o mais relevante: o diálogo. Hoje eu entendo meu pai. Eu sei que ele não estava falando para mim ou de mim.  Estava falando dele mesmo e de sua frustração particular. Seu poço silencioso e solitário se tornara insuspeitavelmente estreito e, do alto (ou do fundo) da sua meia-idade, observava como se esvaiam os últimos anseios de felicidade elaborados durante a juventude. O mais difícil e perfurante no processo de queda, separação, solidão, divorcio, não foram as noites sem dormir nem a falta de apetite. Não foi também o sentimento de culpa nem os olhares fulminantes dos que tinham formado um ideal além da minha capacidade e, agora, não tinham outra opção a não ser mudar de lado na rua quando me viam andando. O que mais doía era não poder estar com minha filha no final do dia. Abraça-la, faze-la dormir, aconchega-la nas noites de chuva, assistirmos um bom filme juntos, ou andar de mãos dadas. Isso até hoje me faz falta, pois, de ser o homem que transmitia segurança, passei a ser o traidor dos sonhos infantis de uma menina inocente. Continuei então a trabalhar com o que tinha sobejado: acessibilidade, compreensão, diálogo, presença sempre que possível e graça, muita graça. Me expus ao ridículo e à critica pública por passar tempo demais na casa da ex porque era ali que minha filha estava; mas era o preço a ser pago para -de alguma forma- suprir o que eu mesmo tinha tirado. A ninguém, mais do que a mim mesmo, chamo como responsável pelo que aconteceu. E com isto também não assumo culpas que não me pertencem, mas como homem-adulto-cristão, eu mesmo respondo pela minha conduta. Vieram mais dois filhos com a atual esposa. Um já pronto e outro por fazer. Enquanto ando nesta vida, tento com os três, ser o pai que me propus há 29 anos.  Não do cume de uma suposta perfeição imarcescível e inatingível, mas de um simples homem que se reconhece pecador, falho e principalmente carente da graça divina. Aos que já são avós, esqueçam o que para atrás fica. Seja o melhor vó/vô possível. No fim das contas, somos a única espécie que tem chances de ver os filhos dos netos crescerem. Aos que são pais, esqueçam o que para atrás fica. Enquanto seus filhos estão em idade de estar perto de você, esteja você perto deles. Converse, dialogue, ouça, olhe, conheça, espere, mime, anime, exija, alente, motive, se exponha. Aos que ainda não são pais, esqueçam o que para atrás fica. Observe seu velho, veja como ele vive, fique com a melhor parte do bolo. Você pode escolher só reproduzir aquilo que seu pai faz de bem. Seu pai não está por perto? Não se preocupe. A imagem de “pai” está bem guardada no seu inconsciente, o arquétipo do que é um pai e de como deve comportar-se estão lá.  Seja então aquilo que você mesmo não teve para seus filhos que ainda estão por vir. E finalmente, não perca de vista que -como diz o tango- “vinte anos é nada“; ou seja, o tempo passa muito rápido.  Relaxe, curta o fato de ocupar a função mais gritantemente necessária na época que vivemos: Ser pai. Não se acanhe. Não morgue. Não adie. Não envileça. Não tema. Não retroceda. Não suma. Não desanime. Não se envergonhe. Viva, curta, desfrute, ame, compartilhe. E seja pai onde lhe tocar ser pai e do melhor jeito porque ali onde você é pai, fique tranquilo que ali e só ali, será sua pátria.

Uber pater sum, ibi pátria (Aurora, Friedrich Nietzche)

Se existirem alienígenas, eles tem medo da gente?

Meu filho costuma pensar demais em algumas coisas. Nesse pensar tão livre que só as crianças tem me veio com essa o outro dia: Se existirem alienígenas, eles tem medo da gente?

Para ele o fato de existir ou não vida de um jeito similar à que conhecemos aqui fora do nosso planeta, é um problema secundário de face à possibilidade de serem eles os que tenham medo de nós e não ao contrario.

Bom, de inicio isso arruína certos produtores de Hollywood que tem gasto imensas fortunas (e ganho muito mais ainda) em filmes que evocam o terror no populacho (e em algumas mentes auto-intituladas eruditas), mas abre o leque de opções para os psicólogos siderais de plantão. Que tipo de monstro somos nós os seres humanos que temos a faculdade de arruinar o sono desses alienígenas ainda por conhecer?  Alienígenas por conhecer: somos seu maior pesadelo.

E o pior que se formos ver o jeito em que tratamos a natureza que nos é comum, os nossos vizinhos, o bem público, os nossos filhos; se tirassem uma instantânea dos nossos pensamentos mais solitários e livres; se de alguma forma uma tomografia espiritual da nossa alma pudesse ser feita, causaríamos espanto não só nos supostos alienígenas, mas em nós mesmos.

Um dos versículos que mais resisti na vida adulta é o de Jeremias 17:9

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?

Ou como diz a versão católica: Nada mais ardiloso e irremediavelmente mau que o coração. Quem o poderá compreender?

Digo resisti assim a boca de jarro por ser a melhor e mais simples forma de descrever os malabares de interpretação que tinha que fazer para lidar com um texto tão simples e direto.  A Navalha de Occam me cortava por tudo quanto é lado, mas eu resistia pois havia em mim uma necessidade diabólica de coerência que me impedia aceitar o obvio: Nosso coração (a base das nossas decisões no antigo testamento) está fatalmente enfermo pelo pecado.

É claro que há algo de Agostinhano na minha atual perspectiva mas não está certo?  Não vemos na nossa caminhada que nos pegamos pensando em termos enganosos em incontáveis momentos?  Somos então filhos do inferno?

Minha conclusão é que não.  Mesmo sendo filhos escolhidos de Deus (assim como os Judeus alvo do texto de Jeremias) amamos o pecado.  O cobrimos, acobertamos, e nos auto-enganamos.  Quando expostos, negamos, reclamamos, nos lamentamos e renegamos de tudo. Então qual a diferença? O que distingue o impio do cristão?

Bom, a diferença está em que o ímpio sente paz quando consegue safar-se do castigo (mesmo que seja o terreno, até porque não lhe interessa se há ou não outro).  Já o filho, só sente paz na confissão. Algumas pessoas se confundem dizendo que o perdão só é dado com base no arrependimento.  Se bem é certo que o arrependimento é uma mudança de mente, uma mudança de rumo, uma alteração consciente do sentido que a vida está levando; é certo que o texto bíblico associa o perdão dos pecados (e Do Pecado) à confissão. (1Jn1:9 ou se preferir, NVI)

Por favor, me entenda bem, o arrependimento é necessário, mas a base dessa mudança de conduta é a confissão. Isto é, a concordância com a opinião que o Criador tem ao respeito de nós mesmos e nossas ações.

E eis aqui que temos mais uma coisa: a distinção entre o que fazemos e somos. Modificar o que fazemos não leva a mudanças internas. Uma pessoa pode parar de se prostituir porque é mau para a saúde, ruim para os filhos e péssimo para os negócios mas não porque macula a imagem do Cristo na vida do indivíduo e por consequência na sociedade ou porque é um empecilho no relacionamento com o Deus criador que é santo e não pode compactuar com o pecado.

Já a mudança interna promove uma confissão direta do nosso pacto particular com o pecado como forma de vida, essência e objeto de culto. Por sua vez, é essa confissão a que promove mais mudanças internas que podem abrir o caminho para uma reformulação de caráter em que o Cristo possa aparecer no viver do cristão (mesmo que no inicio seja ocasionalmente) o que por sua vez promove maiores mudanças.

Simplificando: enquanto vivemos sem pensarmos em nós mesmos e na nossa essência, não assustamos ninguém. Assim que pensamos acontece de duas uma: ou nos acomodamos melhor com a própria perdição ou empreendemos uma longa jornada de descoberta do Cristo largamente lastreada no processo de confissão e arrependimento que nos pode levar a uma reformulação do caráter.

Repare na universalidade deste principio.  Não está limitado a idade, sexo, bagagem religiosa, localização geográfica ou grau de instrução. Não interessa se você é o diretor bem sucedido de uma excelente empresa que cumpre seu papel com responsabilidade social e civil, ou se é um presidiário cumprindo uma longa pena. Todos nós partilhamos da mesma essência caída em Adão e a graça de Cristo é abundante para te levar do estagio em que você está ao seguinte que ele queira te levar.

 

Santidade: Seu caráter em jogo

1) Definindo bem as palavras

Quando somos chamados a falar de santidade e santificação, somos levados quase que automaticamente a definir a palavra antes de mais nada. Isso porque é uma daquelas palavras que comumente acabam adquirindo, pelo uso comum, um conteúdo diferente daquele que originalmente tem e quando isso acontece, todo os conceitos e todas as ideias que da palavra dependem, acabam sendo esvaziados de conteúdo.
Uma coisa “santa” nada mais é do que uma coisa separada, destinada, consagrada para um propósito.
Assim, tecnicamente, se você utiliza seu carro só para ir trabalhar, poder-se-ia dizer que ele foi “santificado” para isso. Isso assim dito, nos parece quase que uma blasfêmia, uma profanação, já que a palavra “santo” tem conotações de “perfeito“, “acabado“, “divino” e não com “consagrado” ou “separado” para uma função ou propósito.
Evidentemente que não advogo para o uso da palavra “santo” para qualquer coisa, só quero ressaltar seu conteúdo original.
Todas as línguas tem uma tendencia natural à simplificação, então se santo fosse sinônimo de perfeito ou de divino, já as línguas do mundo todo teriam feito tal simplificação há anos

Com isso em mente, podemos então passar a analisar mais duas coisas que me interessam: a “santidade de” e a “santidade para“.

Se santo significa separado, então o substantivo santidade denota a qualidade de uma coisa ou pessoa que foi separada. O lance é que pode ser separado de e separado para. Simplificando para não cansar, somos separados das coisas deste mundo e separados para o serviço a Deus. Porém, esta simplificação brutal a faço, só para mostrar o abismo conceitual do outro lado. Ou seja, se entendemos de forma errada a palavra santo, é comum entendermos de forma errada santidade ou santificação. Isto é, geralmente associamos santidade com alienação. Daí que tem muito “crente chato” ou que “se acha” porque na cabecinha dele santidade é a mesma coisa que se tornar um crítico desprezível da sociedade em que vive, sem ao menos melhorar o seu ambiente em qualquer quesito. É o que Jesus chama de “hipócrita” em Mateus 7:5. Voltarei sobre isso no final.

2) Santidade e mais algum adjetivo

A palavra santidade pode ser colocada junto de alguns adjetivos que nos ajudem a enxergar melhor o que realmente pensamos deste assunto. O que segue é como uma ludificação teológica para uma revisão pessoal de critérios e conceitos. Não precisa concordar ou discordar, só relaxar e curtir a viagem. Vamos lá.

Santidade Contingente – É aquela que acontece quando o carinha é pego em algum pecado. O desgraçado sofre, pena, se ajoelha, promete até o impossível com tal de não ser exposto. Não será muito real, mas que ora, ora.

Santidade Aparente – Se dá regularmente em horario de culto ou na presença de outras pessoas que acham que a santidade é uma coisa importante.

Santidade Pós-mortem – É a do fulano que acaba de morrer. “Tão bonzinho que era”.

Santidade Pós-moderna – É a que acontece depois de relativizar palavras como “pecado”, “castigo”, “inferno” e outras de similar cunho. Com o degrau mais baixo é mais fácil fazer de conta que estamos subindo uma escada.

Santidade auto-conquistada – É fruto do esforço próprio do ser humano em conquistar o divino. É a prima da salvação por obras no campo do desenvolvimento espiritual.

Santidade preterida – É aquela que começa na segunda-feira que vêm, junto com a dieta, a poupança para a viagem, etc.

Santidade hipertrófica – É a que mostra um crescimento desproporcional em algumas áreas (bem visíveis) do que comumente é entendido como santidade mas não tem efeitos sobre a existencialidade da pessoa que a carrega.

Santidade bombada – Feita à base de anabolizantes pseudo-espirituais como louvorzão, idas para o monte e tal, produz aparência robusta mas na hora de puxar a vaca do brejo, é melhor chamar os universitários.
Bom, evidentemente que nada disso é santidade. Até porque basicamente a santidade tem raízes internas que se manifestam no caráter do ser humano. Cantar bonito, gritar bem alto, colocar os olhos em branco no culto nada tem a ver com santidade. Também não é ter tal ou qual dom ou talento como se fosse um prêmio à santidade conseguida após longo esforço. Também não é santidade o ser sistemática e pateticamente triste como se a alegria e a felicidade não fizessem parte da experiência cristã. E -obviamente- ter saúde financeira, emocional, ou física não é sinal de santidade.

3) Ao final das contas, o que é santidade?

Bom, quem me acompanhou até aqui já sabe o que quero desconstruir, isto é, o conceito imbecil e triste de que é possível construir uma santidade com efeitos externos enquanto a interioridade desaba contanto ninguém saiba desse desarranjo. Então como definir santidade?
Entendo que santidade é a formação consciente do caráter cristão tendo em vista o Reino de Deus.
Repare na suave cadência que ecoa nesta definição. Primeiro não há imediatismos e segundo, o Reino de Deus é colocado como causa última ou propósito avassalador da santidade.
Ao falar em formação, estamos falando em anos, não em um evento pontual da vida.
Claro, reconheço a validade dos apelos feitos aos domingos como sendo setas no caminho do peregrino, mas não lhe dou a eles (nem às respostas aos mesmos) a transcendência que os pregadores pretendemos lhe dar.
É uma formação consciente porque -mesmo sendo de tendências pronunciadamente calvinistas- entendo que a santidade não é um feito divino e sim um resultado/objetivo (Ef.1:4) do ato intervencionista de Deus na vida do ser humano quando este atinge a base do pensar humano. Ora, não é por acaso o “pensar” o que nos distingue como humanos? Não é necessário o pensar para pecar? Ou por acaso pode haver hamartia sem decisão? Logo, é este pensar, esta essência, a que precisa ser separada para Deus e seu Reino.
Falo de uma formação consciente do caráter porque gosto daquela definição de caráter que diz que caráter é aquilo que você é quando ninguém lhe está vendo. Ou seja, é sua essência que está em jogo. Não estamos falando se você foi bom no vestibular ou se é um ótimo padeiro ou se se sai bem recolhendo o lixo ou é um exímio neurocirurgião, nem sequer se é um bom pai, marido, paga seus impostos e pede nota de tudo o que comprar, estou falando de caráter, aquilo que ninguém mais do que você mesmo conhece porque é só isso que sobra no final das contas.
A palavra cristão parece à toa numa definição de santidade ou talvez uma redundância desnecessária. Contrário a isso, eu acho essencial mencionar a palavra cristão pois sem o Cristo na base da definição, nada pode ser feito. Ou melhor, tudo o que for feito é um defeito. Nada importa se você for presbiteriano, metodista, anglicano, católico, batista, pentecostal, se não é do Cristo, nada feito. Se ele não é teu motivo, alvo, força, sustento e em lugar disso pretendes satisfazer o olho dos teus irmãos de congregação, tudo o feito é defeito.
O tendo em vista coloca a consciência de novo onde tem que estar. Nada nesta definição traz alguma coisa automática ou mágica. Esse tendo em vista visa não só o futuro mas também o estado anterior e o atual do sujeito que está sendo santificado em perspectiva com o Reino de Deus. Há três necessidades humanas: aceitação, aprovação, aprecio. Se a santidade que tu praticas, visa -de alguma forma- ao menos uma destas três necessidade no plano humano ou divino, então não estamos falando de santidade. Ou seja, não existe santidade para inglês ver. Assim como também não existe santidade para sermos aprovados, aceitos ou apreciados por Deus. Ou no estilo claro de Hebreus 10:14 “com uma única oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados”. Você já está completo no Cristo. Isto é, já foi aceito, aprovado e apreciado por ele no Cristo, logo a santidade nada tem a ver com essas coisas.
Finalmente temos o Reino de Deus que é a razão última de existência da santidade. Eu não penso em Reino de Deus só em termos escatológicos e eternos. O faço em termos palatáveis e terrenos também. O Reino foi inaugurado com o Cristo na terra. É a intervenção do próprio Deus na história da humanidade por sua própria e livre vontade o que torna possível o Reino Real que desafia o Reino Usurpado.
Esse Reino tão esperado por muitos, se manifestou de uma forma completamente diferente da almejada e até hoje a sociedade religiosa de plantão continua a tentar encaixar os fatos na fantasia mirabolante deles. O Reino de Deus, então, não é um sonho a ser concretizado no além, e sim aquilo que já desfrutamos e temos na comunhão não só com o parecido religiosamente com a gente e sim com o outro ser humano sem as barreiras religiosas lastreadas na ignorância. É a visão do Reino antes, durante e depois de nossa vida a que deve permear a formação do caráter cristão.

Concluindo,

Você não atura seu irmão? Seu vizinho? Seus parentes? Você está simulando uma conduta que não lhe é própria só para ser aceito? Vive como se Deus não lhe acompanhasse nas suas horas mais intimas? Está na hora de rever seus conceitos pois isto aqui é só o preludio da eternidade.

Você se preocupa com a santidade alheia? Esqueça. Jesus em Mt.7:5 definiu isso como hipocrisia. Santidade tem a ver com caráter, o meu, seu caráter. Não o dos outros.

Os habitantes deste Reino que já se está manifestando são preparados ao longo da vida para o que ainda há de vir. O que vai sobrar no final das contas? O que é que vamos levar desta vida? Só o caráter reformulado no Cristo. Isso é santidade e por isso é tão vital buscá-la

A insuportável leveza dos pseudo-líderes cristãos

Em tempos de sequidão espiritual, surgem os pseudo-líderes no meio cristão que sem nenhum peso de glória divina eludem os mais indoutos induzindo-os a amar o dinheiro sobre qualquer outra coisa.

Me choca a facilidade com que alguns autodenominados bispos e outras ervas, promovem ideias espúrias ao evangelho e são louvados por isso.  Me espanta como a iniquidade aumenta da mão de quem -supostamente- deveria estar ali para impedir tal coisa.

Veja por exemplo a inauguração de uma replica aumentada do templo de Salomão.  Deslavadamente o construtor do templo acaba sendo o sacerdote que intermédia a vida espiritual do que assiste ao ritual com a divindade.  E esta intermediação acontece por vias puramente materiais em que o fiel investe uma certa quantia que lhe produzirá um retorno que a maior parte das vezes é meramente financeira.

O povo, por sua vez, gosta de ser eludido desta forma pois o ouvido dele tem uma tendencia natural a ouvir pregações do tipo ‘toma-lá-dá-cá’.  Neste povo existe a real necessidade de se sentir seguro seguindo certos ritos, por mais que esse rito nada mais seja do que uma pretensão de barganha material com um ser espiritual inatingível por este meio.

Então para mim, tanto os líderes quanto os liderados são culpados de construir essas coisas.  Como diz Stagg: o homem é responsável de se tornar irresponsável.

Desde quando Deus está interessado com algum bem material?  Desde quando Deus precisa de moedas para agilizar o trâmite espiritual? Claro, alguém me vai dizer que a pessoa precisa se desprender dos bens materiais para atingir benesses espirituais porque é este amor ao dinheiro o que acaba lhe afastando da riqueza espiritual.  Tá, isso é certo, então porque o líder não lhe diz para vender tudo e dar aos pobres?  Se ele é tão espiritual assim, porque ele não propõe a mesma solução que Cristo promoveu? Por que ele se coloca como pedágio entre os homens e Deus?

Quando um líder se coloca na postura de intermediário ele desafia a ação do próprio Jesus que -ao morrer na cruz- eliminou a parede de divisão não só entre judeus e não judeus mas também entre Deus e os homens.

Quando um líder incentiva o seu povo a construir um templo (mega, macro, micro) no qual o ritual de sacrifico pretende ser re-institucionalizado por meio do qual o homem-de-a-pé conseguiria de alguma forma se achegar à divindade, ele desafia o próprio Salomão que na oração inaugural do templo original falou “podem por acaso estas paredes te conter?”

Finalmente, quando o povo se deixa eludir desta forma, ele se torna responsável pelo seu próprio sangue construindo para si mesmo poços secos dos quais é impossível extrair qualquer tipo de água espiritual. O povo decididamente vá atrás destas coisas não como ovelhinhas enganadas mas pelo insuportável que pode ser a liberdade de relacionamento com o Cristo.  Não se engane o leitor pensando que o povo está sendo eludido e enganado sem a intervenção da consciência particular.  Não! O povo vai porque o povo gosta. Ele sente falta de rituais que consiga entender e -em certo sentido- controlar. Só há possibilidade de um ditador surgir quando o povo bate palmas para o mesmo. Então, são dois abismos se encontrando.  Dois buracos negros chamando um ao outro.  Uma destruição convocando uma outra destruição maior.

Não se iluda então o leitor, pois se há leveza no líder é porque há leveza no povo e esse esquema se torna insuportável e com isso a terra perde a bênção que viria de uma liderança sábia. Ou, como diz o proverbio “Os pecados de uma nação fazem mudar sempre os seus governantes, mas a ordem se mantém com um líder sábio e sensato” e também “Ainda que você moa o insensato como trigo no pilão, a insensatez não se afastará dele

O evangelho não tem a ver com rituais na presença de um líder autonomeado.  Se de alguma forma, o leitor está querendo se conectar com a divindade, com o Criador, com o Jeová do antigo testamento o caminho não é o do auto-sacrifício e sim da rendição.  Sua alma está em guerra, em luta contra o Criador.  Renda-se.  Jesus já é o sacrifício perfeito.  Você é aceito, amado, aprovado no Cristo e não no seu esforço pessoal e não no ato de ir no culto ou dizimar ou qualquer coisa assim.

 

Homem cria homem

Somos seres gregários e como tais enfrentamos vários desafios juntos. Concordamos por exemplo que é importante termos as contas em dia, tratar bem o próximo, termos uma alimentação saudável e aparentar -pelo menos isso- estar bem resolvidos. Provamos então que o nosso pequeno quintal nada mais é do que uma reprodução do universo humano e que as coisas que nos acontecem não nos acontecem só no foro privado, mas nos acontecem também gregariamente.

Todavia, uma coisa na qual gostamos de aparentemente nos diferenciar é na criação dos filhos. Na realidade, parece que é ali que discordamos de tudo e de todos. Queremos fazer nossa própria linha, ao final das contas, o nosso rebento nada mais é do que uma extensão de nós mesmos e -em certo sentido- uma perpetuação ou “eternificação” do que somos. Nos tornamos egoicos, autosuficientes e virtualmente intocáveis para aquilo para o que justamente o conselho alheio deveria servir mais: perpetuar a espécie uma cria de cada vez.

Dependendo de em que ocasião histórica tenha nascido e em que canto do planeta, sua visão será mais ou menos sofisticada, mais ou menos sócio-dependente, mais ou menos espiritualizada. Os termos que usamos para falar da educação ou criação dos filhos nos delatam. Por exemplo, são comuns as palavras como ‘investir’, ou ‘construir’ em sociedades mais industrializadas, ao passo que ‘deixar’, ‘liberar’ etc se manifestam mais em sociedades menos exigentes.

Porém -e voltando um pouco à ideia de seres gregários- podemos identificar algumas linhas gerais, algumas abstrações universais que podem nortear esta peça teatral sem ensaio que é a vida. 1) O que é realmente importante para você? 2) Quais parte do seu caráter você acredita firmemente que gostaria de serem vistas no seu rebento quando se torne adulto? 3) Se você tivesse certeza que sua vida acabaria hoje à noite, o que deveria ter feito ontem e por que não o fez?

Já volto sobre esses pontos, deixe eles de molho um pouco. Enquanto isso, permita-me filosofar um pouco. Aceitamos como terreno comum o fato de que se é mais feliz quanto mais liberdade financeira se tem, e se obtêm essa liberdade por meio de profissões em que se ganhe muito fazendo pouco. Ao mesmo tempo, e porque não sabemos qual caminho a criança vai escolher, nos vemos obrigados a disponibilizar para ele aulas de judô, muay-thai, artes, inglês, espanhol, japonês, religião (alguma, uma ao menos), informática básica, culinária, etc. Em um escambo descabido, prendemos então nossos filhos agora e os deformamos o suficiente para que quando lhes chegue a oportunidade de exercer a liberdade, se prendam a dívidas infinitas para fazer a mesma massacre com nossos netos perpetuando uma sociedade cada vez mais fria, mecânica e ataráxica.

Temos sido enganados. A liberdade como absoluto não existe. É quimera. Mas mesmo sabendo, sentindo, apalpando isso, corremos atrás do vento e ensinamos aos nossos descendentes a fazerem a mesma coisa. Por isso pergunto: o que é realmente importante para você pai? Quais elemento do seu caráter são para serem perpetuados? Quais precisam ser abandonados?

Entenda-me bem, aquilo que você realmente acha importante vai vazar por outros cantos que não são a sua boca. No final das contas, o que realmente é importante para você vai chegar para seus filhos na forma de atitudes concretas bem palatáveis que a cria vai entender pelos sentidos e não pela educação formal. O que quero frisar, é que se você pode clarificar sua cabeça sobre o que é realmente importante, correrá menos risco de cair no buraco de pretender ser uma coisa que não é, levando seus filhos a um auto-desprezo por não conseguirem atingir um alvo imaginário e impossível que você mesmo não alcança ou se alcançou, não é seu platô de felicidade.

É o pai que define o filho. Com isso não estou defendendo a velha ideia de que o pai decide cada passo que o filho dá, a profissão, a esposa, etc. Mas me levanto contra essa crendice popular que tem ganho nossos corações de que existe a liberdade absoluta e nossos filhos devem correr atrás dela. Ao dizer que o pai define o filho, o termo em inglês que me vem à cabeça é shape. Ou seja, dar forma, imagem, etc. O que me parece, é que com a pregação na liberdade utópica como realizável numa geração, cria uma carga emocional pesada demais na vida de quem deveria estar livre, leve e solto para curtir a vida, porque é na curtição que o lúdico transcende e ensina de per-si.

Então, deixe esboçar alguns exemplos de como você define (shape) a vida do seu filho: Quando ele é pequeno você troca as fraldas dele, alisa a cabeça dele, lhe diz que o ama. Passa o tempo, ele segura seus braços para andar. Os medos passam, porque o pai acolhe e firmemente segura as mãos do guri. Depois chega o tempo de usar o pinico, lá está você para ajuda-lo. Mais adiante, ele começa ir à escola, você o leva e o traz, ou o espera, ou se encontra com ele, mas pergunta: “Como foi hoje?” “Como foi com seus colegas?” “Do que você brincou meu filho?” E seus olhos olham os seus e você se comunica. Ele se aproxima da puberdade e você fala das coisas da vida. Aquelas que lhe farão falta para ser feliz.

Você lhe ensina a cozinhar, anda com ele de vez em quando, ouve o que ele tem a dizer, ao final de contas, você também gosta de ser ouvido. Chega o tempo das primeiras namoradas. Você acaba concordando com ele que a escola é um saco. Que a grade curricular é exatamente isso, uma grade e o delegado de ensino, bom, é delegado oras, mas as regras do jogo são essas. Você o acompanha, o anima. Vê as asas irem brotando. A testosterona começa a falar mais alto. Ai você o lembra que é natural, que é normal isso tudo ai, assim como foi o aprendizado com o uso do esfincter, agora tem que lidar com a normalidade do desenvolvimento e seus medos. Vai se aproximando o tempo de decidir o que vai “fazer da vida” de fato.

Ele pede água. Está assustado. Você o recolhe, deixa ele descansar, pois você sabe que a vida moderna é uma pedra de moer carne humana. Ele se define por um curso técnico, nada a ver com o PhD em astrofísica que você tinha sonhado ontem para ele. Saem juntos como tem feito na última década em todo segundo sábado do mês só para se curtirem e ele estar com um homem de verdade e saber como este se conduz com os amigos, a profissão, as outras mulheres. Ele se decide. Tem medo. Antes era o andar ereto, agora é usar as asas. Você continua ai. Ele acaba se mudando de cidade, te liga, você fala uns minutos com ele que são caríssimos, mas não há problema, anos de prosa, sustentam um papo rápido.

Ele volta. Barbado, sorridente. Feliz. Você o abraça, sente o coração dele batendo perto do seu. Não há nada neste mundo que se pareça com isso para um homem. O coração do filho batendo junto, perto, parece que no mesmo peito. Ele se vai com os amigos. Vão de passeio para um morro. Coisa de macho. Passam uns dias, te ligam que ele caiu de um penhasco, se machucou, o resgate demorou e ele não resistiu. Chega o caixão. Você o toca. Não há mais olho no olho, nem coração batendo, só resta a satisfação de ter cumprido com seu papel de homem: formar outro homem.

O que é realmente importante para educar um filho: seu tempo.

É o povo a esposa postiça do politico?

Lá na minha terra quando uma mulher muito bonita e vista na companhia de um homem feio, se costuma dizer: o que será que ele falou para ela?
Também por lá é sabido que se um homem não falar exatamente o que a mulher quer ouvir e do jeito que ela quer, o carinha está encrencado.
Pode ser que o discurso nada tenha a ver com a realidade mas se for do jeito que a patroa quer, a sopa está garantida. Convenhamos então que todo relacionamento íntimo depende da lábia e a boa prosa do elemento masculino da relação.

De tempos em tempos estes “garanhões domésticos” por chamá-los de alguma forma, ocupam os palanques de todo o território nacional, ora para solicitar votos para o governo local, ora para o governo estadual e federal.  Acredito eu, que muito deles até que possam ser bem intencionados  e confesso que tenho uma queda especial pelos membros do senado que me transmitem um certo ar de fidalguia e estabilidade.  Ao final das contas, eles são capazes de sobreviver aos outros mandatos e por terem um papel mais pensante na coisa,  seus feitos alcançam às vezes muitas gerações.

Mas, utopias à parte me parece que tanto os bons quanto os maus políticos fazem uso de um mesmo método de aproximação: o do acasalamento licencioso com a coisa pública.  Ou seja, no palanque ou o moço fala o que a moça quer ouvir ou nada de votos na eleição.  Nada importa à moça se o moço vai cumprir ou se tem tido conduta ilibada, o lance é que nessa hora ela quer ser galanteada e se a prosa for boa, as gentilezas (e o cofre) da moça estão garantidos.

Nada me importa neste momento sobre as intenções do moço nem sobre as motivações dele.  Me interessa sim a conduta da moça.  Como se deixa enganar! Como se deixa levar! Como por umas boas e poucas palavras de efeito escolhidas a dedo por algum conselheiro partidário ou pessoal ela deixa de prestar atenção do que realmente lhe deveria ser mais caro: os seus próprios filhos.

Já reparou que nas línguas neo-latinas as palavras República, Democracia e Liberdade são femininas?  Bom, eu acredito que não é por acaso.  Essas três respondem ao  mesmo padrão de resposta do que a moça casada com o rapaz feio: “Que será que o rapaz lhe disse?”

Nestas e nas próximas eleições da sua vida pratique a metamorfose da sua mente. Seja tomado de uma metanoia abrangente: reflita sobre a vida do seu candidato. Utilize todos os meios ao seu alcance para conhecer não só a proposta de palanque mas se há um compromisso com a verdade ao longo da vida do candidato.  Informe-se. Pergunte. Analise. Não espere que um anjo (ou um pastor metido a besta) lhe indique que tem que votar em este ou tal candidato.  Gaste seu tempo e suas energias pois com certeza estes “garanhões domésticos” vão usufruir da nossa riqueza por um bom tempo quando são mau-caráter e os raramente bons dificilmente poderão fazer alguma coisa.

Mais como botequim, menos como o Itamaraty

Em certo canto escondido e sombrio do nosso coração gostamos das coisas regradas e organizadas na igreja. Especialmente se é para os outros. Nisso, gostamos que nossa igreja (e em especial a “dos outros”) se pareça com o Itamaraty.

Porem, do que realmente gostaríamos -mas escondemos- é de ser o que realmente somos. Num botequim cada quem é o que é. A roda de amigos se forma na espontaneidade. Se um dos participantes falar uma burrada, o resto vai dar risada e seguir enfrente.

No botequim a aceitação esta garantida. Já no Itamaraty ela depende do figurino, regras, adequação…

No botequim o que importa são as pessoas ao passo que as instituições são a razão existencial do Itamaraty.

Da próxima vez que pensar a igreja conceitualmente, pense qual modelo sua alma precisa.

Caso esteja difícil, lembre sua última grande crise. Instituições não abraçam, amam, ouvem ou curam. Pessoas fazem isso. Independente de raça, credo, sexo, etc.

Então, meu irmão, meu amigo, meu colega, que a igreja que você constrói, seja mais parecida com um botequim do que com o Itamaraty; mais simples do que bonita; mais acolhedora do que rígida; mais desejada do que obrigada.

Saturnália e o Cristo

Talvez nunca cheguemos a compreender como é que chegamos a celebrar o nascimento de Jesus na data em que o celebramos.  Me refiro não só à data, mas ao jeito em que celebramos e às pessoas que o celebramos.

Natal está mais para um grande evento pirotécnico de marketing ocidental do que a celebração do nascimento do salvador do mundo mas isso, acho, já é moeda bem conhecida.

Para chegar rápido na sua cabeça: O que você acharia de mudarmos a data do natal para logo depois do carnaval?  Serio. Pense um pouco. Todos nós sabemos (e muitos participam) da devassidão que o carnaval propicia. Estamos plenamente cientes de que é o momento em que os papeis se invertem e o que em dias anteriores seria considerado grotesco, de mau gosto, devasso, impuro, inapropriado, etc passa a ser aceitável e quase que figurino obrigatório (mais nesses tempos de sociedade pós-modernista impregnada de imbecilidade pseudo-consciente). Imagine dois dias depois celebrar o nascimento de Jesus.

Bom, sei que talvez haja aqueles que estão pensando que exatamente isso seria uma imagem boa do que Jesus fez. Ou seja, estando o mundo no seu auge de corrupção, Jesus chega e propicia um caminho novo. É por este tipo de coisas que me refiro no inicio de que pode ser que nunca cheguemos a conhecer as razões de celebrarmos o natal nessa data.  Ou seja, quem sabe um monge pensou exatamente assim: “Ora, sendo que o festival de Saturnália continua muitos anos depois de ter sido tirado do calendário oficial e visto que esse povo precisa um sinal claro de que Jesus veio para livrá-los do jugo do pecado, nada melhor do que colocar luz no final do túnel: celebremos o natal logo após a ressaca de Saturnália”

Saturnália era uma importante festa romana que se celebrava entre os dias 17 e 23 de dezembro à luz de velas e tochas em que a ordem social sofria um intenso afrouxamento e em alguns casos uma reversão.  A data era essa por conta do final do inverno no hemisfério norte em que as noites iam se tornando mais longas até o solstício de inverno data na qual o Sol voltaria a reinar tornando os dias mais longos.

A festança começava com um sacrifício ao deus Saturno (encarregado dos assuntos Agrícolas) no lugar mais sagrado de Roma e se estendia pela cidade inteira com banquetes públicos nos quais o povo se misturava muitas vezes invertendo os papeis: Escravos que se comportavam como senhores, homens como mulheres e por ai ia.  Nesses banquetes e esse encontro prolongado de pessoas, havia intercambio de presentes e – obviamente – desejos de boa ventura nas colheitas, ao final de contas era o Sol que se estava levantando vitorioso do seu letargo e Saturno garantiria -mais uma vez- uma boa colheita.

Com o advento da institucionalização do Cristianismo o pessoal tenta cristianizar a festa e é por essa razão que celebramos o nascimento de Jesus – o Cristo – numa data em que com certeza ele não nasceu.  Fora o lance da devassidão social (que transferimos para algumas semanas depois)  mantivemos o banquete, a troca de presentes, os desejos de boa ventura, a universalidade da festa e o culto a uma divindade.

Muito mais adiante, surgiria a ideia de uma árvore (um pinus verde, para ser mais específico que vem a cristianizar a festa ao deus Frey no norte da europa), mais adiante ainda, ornamentos vermelhos (carmim para os puristas) e amarelos (ouro, na realidade).  Não podemos esquecer da estrela, das luzes, dos presentes, enfim… o que já sabemos. Dai até a árvore de natal na Baia da Guanabara com seu investimento de dinheiro público e as alterações no fluxo do transito e sua forte influencia no comercio local foram mais ou menos 380 anos.

Proponho eu mudar a data de natal? Nem matando. Isso ai não é natal nem nada que se pareça remotamente com ele. Proponho o mesmo caminho complicado de sempre: Pense e posicione-se.

Cristianizar uma festa pagã é ruim porque impede ao gentio de ver o conteúdo original da mensagem, do evento, da coisa toda. Se você fosse um alienígena (ou um cristão do primeiro ou segundo século que adormeceu e só agora saiu de sua catatonia) e chegasse de improviso entre os dias 19 e 25 de dezembro, saberia que os cristão estamos celebrando a maior loucura da nossa fé? aliás, saberia que era uma festa cristã?  Obvio que não. Parece mais uma orgia comercial, uma alforria dos cartões de crédito, um endividamento permanente pelos próximos 10 meses (sim, você nem acredita, tem pessoas que compram presentes no cartão de crédito para acabar de pagar quando a outra festa está sendo montada) do que uma celebração ao Deus feito homem.

Seja honesto com seus filhos. Se tanto lhe interessa celebrar o natal na forma em que o mundo propõe então ao menos salve seus filhos como Noé fez na arca.

Seja franco com eles. Conte que vivemos num mundo voltado para o Deus dinheiro e que de tempos em tempos precisamos endividar-nos para satisfazê-lo.

Diga a eles que da mesma forma que os gregos com o deus Crono, os Romanos com o deus Saturno, e os nórdicos com o deus Frey fazemos uma orgia gastronômica, intercambiamos presentes e desejamos um melhor período no ano.

Explique que não temos coragem para nos separar da chusma e ao menos celebrar o nascimento de Jesus – o Cristo – de forma diferenciada fazendo como o salmão que nada contra a corrente e morre na tentativa (a maior parte do tempo bem sucedida) de se reproduzir.

O melhor que você pode você desejar para sua cidade é uma mega igreja?

Confessemos; quem não sonhou com una igreja enorme que fosse uma referência na cidade? Já pensou? Você poderia dizer para os outros “Sou da igreja tal. 25, 30% da cidade está lá”.

Imaginou a capacidade de penetração social? Os projetos de grande abrangência que poderiam ser realizados? Conseguiu ver o prefeito da cidade na comunidade? E os dois ou três vereadores da oposição? Seria de inspirar respeito.

Bem sabemos que não dá para analisar todas as razões que nos levam a pensarmos dessa forma mas podemos enumerar algumas que me parecem ser bastante universais.

1) Não gostamos de perder. Somos competitivos por natureza. Queremos ganhar. O primeiro que me diga que concorre em qualquer coisa para chegar em segundo ou terceiro lugar já vou avisando que mente. Concorremos para ganhar: sermos os melhores, os maiores, os mais rápidos, os mais econômicos, os mais inteligentes, os mais bonitos, enfim… AI mais tarde ou mais cedo queremos – não já individualmente mas institucionalmente – sermos os maiores o que por sua vez igualamos com melhores. É isso do que trata o capítulo 18 de Mateus que não por acaso versa sobre a definição de papeis no reino.

2) Amamos o poder. A grande maioria de nós gosta de subjugar o outro seja por força, por ideias, por detração. Gostamos da democracia não porque seja boa para os outros e sim porque ela é boa para mim. Mascaramos esse desejo dizendo para os outros que uma igreja de maior tamanho tem maior capacidade de penetração social e que dessa forma os conceitos do evangelho podem chegar a uma maior quantidade de pessoas. Para mim isso tem outro nome: covardia. Na história inteira um único objeto desestabilizador é muito mais potente que uma grande massa de seres homogeneizados. Pense em como os ditadores (de esquerda e de direita) trataram e tratam com os indivíduos pensantes. Quer penetração social? Deixe que o Cristo mude sua vida por inteiro. A proposta é fazer discípulos (Mt.28:16-20) não montículos de pessoas que não mais pensam por si.

3) Pensamos só nas coisas da terra. O principio do Reino é a necessidade da morte. Ou seja, não há vida sem morte (João 12:24). O mundo no que vivemos está corrompido pelo pecado. Não me refiro aos pecados pontoais que cada um de nós pode cometer ao longo da vida. Me refiro ao pecado como poder soberano sistêmico que controla a forma em que o mundo anda. Não só como os seres humanos andam, mas a criação como um todo. Essa ideia São João a resume na frase “O mundo jaz no maligno” (1João 5). Quando pegamos ideias que funcionam bem neste mundo e as injetamos na construção da igreja local, só estendemos artificialmente o poder sistêmico do pecado para onde achamos que não deveria existir: a Igreja; e acabamos chamando de igreja uma coisa que dista muito da assembleia de seres pensantes que Deus quer construir.

4) Exaltamos a esquizofrenia espiritual. Por um lado dizemos que a manifestação do Reino de Deus é a Igreja em geral e a igreja local em particular. Por outro lado, lhe aplicamos leis que funcionam perfeitamente bem no mundo e esperamos que crie coisas novas. Imagine que houvesse vida em outro planeta e que não fosse baseada no carbono como a nossa. Com certeza a vida seria muito diferente e – principalmente – todos seus conceitos sobre biologia (o estudo da vida) deveriam de mudar, na realidade, deveriam ser reinventados. Assim é com o Reino. Ele trata da vida que havia no projeto original antes da queda e a que está sendo restaurada até a concretização daquilo que chamamos céu (algum outro dia falo sobre isso). Ao não nos desvencilharmos dos conceitos “naturais” sobre-dimensionados e sonharmos com um Reino dos Céus como se fosse apenas um destino vivemos uma divisão maluca que a lugar nenhum nos leva a não ser à auto-exaltação de fazermos parte da mega igreja tal ou qual.

 

Então o que fazer? E eu sei?! Se eu soubesse, se eu tivesse uma receita de bolo para lhe instruir a fazer isto ou aquilo o próprio artigo estaria fadado ao fracasso.  Eu só sei que um dia me apresentarei perante o Senhor. Sei também que ele está querendo construir – a partir das minhas palavras e ações – uma nova realidade que funciona pela fé até a manifestação dele.  Esse dia terei de prestar contas não só de como realizei meu “ministério” (como se de uma coisa separada do resto fosse) mas sim das minhas motivações mais escondidas, das minhas ações e palavras que construíram e destruíram o Reino na vida do meu próximo.

Quando o símbolo se torna mais importante que a coisa simbolizada

Há uma sensação estranha quando a gente começa a perceber que algo ainda está de pé… mas já não sustenta mais nada.

Tudo continua no lugar. Os gestos são os mesmos. As palavras também. E, ainda assim, parece oco. Como se estivéssemos lidando com uma estrutura preservada… sem o que a fazia viva.

O problema é que símbolos sobrevivem bem ao tempo. Melhor do que a realidade que eles apontam.

E talvez por isso seja tão difícil perceber quando a inversão acontece.

O Antigo Testamento não esconde esse momento. Sacrifícios sendo feitos. Festas acontecendo. Tudo aparentemente certo. E, ainda assim, rejeitado. Não por erro na execução, mas porque aquilo já não correspondia a nada. O símbolo permaneceu. A vida que ele deveria expressar tinha desaparecido.

Isso não ficou lá atrás.

Hoje, por exemplo, é 21 de abril. O país para. O nome é lembrado. Tiradentes volta à superfície por um dia. Mas o que exatamente permanece ali? A memória viva… ou apenas o símbolo que atravessou o tempo? Porque é possível preservar a figura… e perder completamente aquilo que ela representava

A gente ainda sabe repetir formas. Sabe organizar ritos. Sabe manter práticas. O problema começa quando essas coisas passam a funcionar sozinhas. Quando deixam de apontar… e passam a ocupar o lugar.

O dízimo, por exemplo, nasce dentro de um mundo muito específico. Terra, colheita, templo, levitas. Um sistema inteiro que dava sentido àquilo. Fora desse ambiente, ele até pode continuar existindo — mas já não é a mesma coisa. E, ainda assim, há quem se agarre a ele como se fosse suficiente. Como se cumprir um percentual resolvesse algo mais profundo.

A ceia vai por outro caminho. Não pesa. Não exige. Mas também, muitas vezes, já não carrega o que deveria. O gesto está ali. O pão, o cálice. Mas quase sem memória. Quase sem corpo. Uma encenação leve demais para o que um dia foi denso.

E então a gente começa a perceber que o problema não está exatamente nas práticas.

Está no fato de que elas continuam… mesmo quando já não dizem mais nada.

E isso engana.

Porque dá a sensação de continuidade. De fidelidade. De que tudo ainda está no lugar. Quando, na verdade, o símbolo já não está apontando para nada além de si mesmo.

Deus nunca pareceu incomodado com símbolos.

Mas há momentos em que ele simplesmente se recusa a aceitar símbolos vazios.

Talvez porque, nesse ponto, eles deixam de revelar.

E passam a esconder.

E quando isso acontece, o mais perigoso não é perder o símbolo.

É preservá-lo.