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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

Você celebra a páscoa?

Há muitos cristãos que acreditam piamente que o que se encerra hoje é a celebração da páscoa.

É verdade que a comemoração dos judeus é verdadeiramente a páscoa. Está certo em celebrarmos a data deles? Sim, se você conseguisse celebrar o Ramadã morando ou estando sob influencia muçulmana, a resposta é sim. Ou seja, não é uma festa de origem cristã, ela em si mesma não lhe diz à cristandade. Portanto, não é uma festa nossa assim como não o é o Natal que é uma apropriação da festa pagã do “Sol Invictus” do tempo dos romanos. (Mais sobre isso aqui)

Porém, ficando claro que é uma festa que não é da nossa origem, uma segunda análise nos leva exatamente na direção contrária. O que se celebrava na páscoa? A liberação que havia de vir ainda. Ou seja, naqueles dias da primeira páscoa se escolhia e preparava o cordeiro durante os dias anteriores. Por quatro dias, ele era preservado e todos na casa sabiam o que estava se preparando. Imagino que a sensação deveria ser similar à que sentimos perto do Natal no mundo cristão ou do Ramadã no mundo muçulmano. Ou seja, grande e aberta expectativa.

No final do quarto dia, ele era abatido (Ex12:6). Lembro meu vó abatendo um carneiro. Eles morrem em silêncio. Em todas as casas haveria um certo silêncio naquela mesma hora. Talvez um certo murmurio suave e um tanto solene enquanto se explica aos mais novos o que está acontecendo e como isso é uma preparação do que haveria de vir.

Parte desse sangue serviria para marcar o batente da porta. Num claro sinal público de comprometimento pela fé no que haveria de acontecer. (Ex12:7)

Depois começaria a outra parte da celebração. O churrasco (Ex12:8), o jantar. Quem nunca comeu ou comeu e não gostou não tem noção de como é gostoso um churrasco de carne de carneiro (meio adocicada) acompanhada com ervas amargas. É uma delicia ao palato. Quem nunca esteve numa churrascaria gaucha de verdade (não as imitações paulistas) não sabe o como é gostoso comer não apenas a carne, mas também todas as outras partes do animal. Uma verdadeira festa de sabores.

Comento estes detalhes culinários apenas para trazer à tona um fato que geralmente não associamos com as celebrações religiosas judaicas: São uma baita festa. Os povos semíticos são povos expressivos e as celebrações tem música, dança e, claro, por ser uma festa judia iniciada em solo egípcio, tinha cerveja e da boa não das feitas com arroz e/ou cereais não maltados, eles usavam a melhor cevada disponível na região. Ao final das contas a saúde de adultos e infantes dependia disso. (Veja mais aqui)

Assim como a entrega dos dízimos, a festa das colheitas e tantas outras, a celebração da páscoa era exatamente isso, uma grande e ousada festa. Temos o costume infernal de solenizar tudo. Talvez pela herança dos conquistadores, talvez por achar que existe alguma diferença entre o sagrado e o criado, ou talvez por não nos sentirmos relaxados de fato na presença do Criador, quem sabe?

O cheiro do churrasco na brasa no ar, a noite caindo e as sensações se juntando. Havia expectativa, ansiedade, alegria e tristeza. Tudo junto. Mais ou menos como a morte do único parente rico e muito bem querido e respeitado em uma família pobre. Os sentimentos se misturam, não tem jeito.

Havia expectativa por ser a primeira vez que iria a acontecer o que estava por acontecer. Tristeza porque iam deixar tudo o que tinham conhecido como realidade nos últimos quatrocentos e trinta anos. Alegria, porque ao fim seriam libertos e ansiedade porque o que estava por acontecer, se escapava da mão deles.

A festa era de cunho divino no sentido que tinha sido uma idealização de YHWH transmitida a Moisés. A própria celebração era realizada com componentes culturais próprios. A abrangência do sacrifício era para todos os escolhidos e apenas para eles (Ex12:3,45). A participação era -como todas as celebrações do antigo testamento- pela fé já que a pessoa poderia se abster de crer e deixar de pintar o batente da porta, por exemplo. A realização prática era na família e, se ela for pequena, junto com a família do vizinho numa demonstração particular de fé comunitária.

Então a noite foi ficando escura. Algumas músicas foram parando. Algumas risadas diminuindo. Após a meia noite (Ex12:29) os primeiros gritos foram se ouvindo. As primeiras frases de arrependimento ditas em pranto foram sendo ouvidas. Em todas as casas onde a marca de sangue no batente da porta não tinha sido feita, o anjo do Senhor entrou e matou o filho mais velho não apenas das pessoas, mas dos animais. Em todas as casas no Egito havia um filho morto (Ex.12:30)

Nessa mesma madrugada, o Egito manda os judeus – sua grande e barata mão de obra – ao deserto. A liberação que uns poucos esperavam, pela qual muitos clamavam, mas que de fato a maioria não desejava que se concretiza-se estava sendo finalmente realizada. (Ex.12:31-33)

Deus era fiel ao seu próprio plano. Deus não tinha esquecido da sua promessa. Deus não tinha abandonado seu povo como muitos achavam. Deus, continuava sendo O Soberano. A fé não era mais necessária pois estava claro até para o mais obstinado descrente que Deus era quem mandava no pedaço. Não se tratava mais de crer que um dia a salvação chegaria, era obvio e manifesto que o lance estava acontecendo ali e nesse momento.

cruz-vazia

Uns 1400 anos depois um outro cordeiro morreria. Um judeu de origem humilde. Um carpinteiro de profissão. Ele falava que a salvação da qual muitos falavam, poucos acreditavam e menos pessoas ainda esperavam de fato que se concretiza-se, dependia dele. Especificamente da morte dele.

A morte de Jesus o Cristo se dá justamente na celebração da páscoa. Ele morre e aqueles que ouvem hoje sua mensagem e depositam a fé nele (pois pode-se ouvir, entender, concordar mas não se render) são salvos. A ressurreição dele (que celebramos todo domingo) apenas nos lembra de que ele prometeu voltar da morte e também prometeu um dia vir buscar os seus. Logo, se se mostrou poderoso para cumprir a primeira promessa (muito mais difícil de cumprir do que a segunda por se tratar dele mesmo) é capaz de cumprir a segunda.

Então, meu querido, que páscoa você celebra? A dos ovinhos de chocolate e das frases feitas? A de evitar comer certos tipos de comida? A do recolhimento vazio? A do tempo do Êxodo? O apostolo Paulo tem uma frase muito linda sobre este momento.

O orgulho de vocês não é bom. Vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada?
Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado.
Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade.
1 Coríntios 5:6-8

Então não se trata de celebrarmos a festa judaica ou a europeia. Se trata de celebrarmos a morte e ressurreição do amado. Mas não uma celebração como evento isolado da vida. Está mais para uma celebração por causa da nova vida que nele temos.

Que presente dar?

Época natalina se presta para sorrir, desejar uma vida melhor e dar presentes.

É claro que a data não tem como coincidir com o nascimento de Jesus de fato, é o solstício de inverno no hemisfério norte (21/dez) e coincide com a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti  ou o nascimento do sol não conquistado, invicto. Mas isso não interessa agora até porque não vamos mudar a realidade de que no mundo “cristianizado” celebramos natal no 25 de dezembro e ponto.

O fato é que surge a pergunta: Que presente comprar? Que presente dar?

Há aqueles que tem uma tendência de comprar uma coisa cara, como se o valor do presente refletisse – de alguma forma – o valor dado à pessoa numa salada de valores e não-valores capaz de deixar qualquer um louco.

Há os outros que por incapacidade de decidir, não conseguem dar presentes e para piorar criticam e condenam quem assim o faz.

E tem aqueles outros que dão coisas que eles mesmos gostariam de receber numa total prática pseudo amorosa de hedonismo não confessado.

A prova de que não sabemos presentear é o cartão de crédito.

Primeiro, quem amamos não precisa presente (não pare de ler, por favor, não desanime…rs) Ou seja, as pessoas que amamos e que nos amam (pois não há amor em apenas um sentido) não precisam de presente para manter a amizade. Então o cartão de crédito -se usado neste caso- deve ser com mesura de outra forma, meses ao fio lembraremos da inutilidade de ter comprado um presente caro para quem já temos no coração.

Segundo, aquele que não se ama não requer presente. Não é um presente caro ou um elogio que vão conquistar o coração do chefe ou a aprovação do cônjuge.  Isso porque quando damos um presente além das forças, todo mundo sabe que estamos mendigando alguma coisa, de outro jeito há um monte de coisas que requerem da nossa atenção. Então, nada de entrar em dividas para agradar um fulano que não se agrada de você.

Tá, então não damos presentes?

Faça como quiser, seja livre, mas se for dar um presente, dê apenas porque gosta, ama e conhece a pessoa. Nada mais lindo que receber aquele carinho – que pode ou não ser materializado – da pessoa amada. Vale mais tomar café junto com o amigo várias vezes durante o ano do que não ter dinheiro nem para o café por ter dado aquele presente caro completamente à toa.

Presentes apenas mostram o quando conhecemos a pessoa que irá receber-lo e serão completamente inúteis para quem não gosta da gente.

Dê a si próprio. Conce-da-se ao outro. Gaste tempo com quem ama. Perdoe. Viva livre. Ame. Não é esse por acaso o exemplo de Jesus o Rei?

Khristós Voskrés! Cristo ressuscitou!

709d666d-1f48-4519-ab7f-dfce23803448Uma das experiências que mais saudades me deixou foi a de pastorear interinamente uma igreja de origem eslava. Durante dois anos e meio eu fui transportado para uma forma de fé mais singela, rica e profunda. Singela porque por conta da guerra que tinham deixado para trás esta comunidade tinha tido que se despir de certas coisas não essenciais à fé cristã. Rica porque por conta da necessidade imposta pela migração o que poderia ter sobejado de um certo orgulho nacional tinha sido esmagado vendo-se forçados a abrir-se para a realidade da experiência existencial humana em formas que de outra forma talvez levasse muito mais tempo. E profunda, porque nessas escolhas que tiveram que fazer, conseguiram manter sua identidade não apenas eslava mas como eslavos cristãos re-arraigados em terras brasileiras.Talvez apenas um outro migrante para entender porque isso é profundo.

De todas as práticas que eles tinham a da saudação durante o domingo de ressurreição é a que mais lembro. Nesse dia eles se comprimentam dizendo “Cristo ressucitou!” ao que o interlocutor responde “Em verdade ressuscitou!”. Essa mesma forma poderia ser usada no primeiro culto matutino, ou no almoço do domingo de ressurreição. Lamentavelmente durante minha estância lá eu não soube apreciar a riqueza cultural disso e cometí o mesmo erro dos missionários que se internam nas tribos indígenas e tentam lhe mudar a cultura.

Como na sua cultura local a ressurreição de Jesus o Cristo é lembrada? Qual o impacto disso na sua vida pessoal? Como os da sua casa sabem que esse é o evento mais importante desde a criação do mundo?

Nos tempos que correm está cada vez mais de moda abandonar a congregação, abandonar a forma evangélica recebida, abandonar ritos e por ai vai. Argumentos são utilizados para justificar isso. O mais comum é o de dizer que somos livres para não nos congregar. Ou seja, como se congregar-se fosse um peso, uma carga, uma obrigação. É instigante no meu calo cerebral a pergunta de porque essa mesma liberdade não pode ser usada para o obvio: congregar-se para identificar-se. A única resposta que me aparece é de que se trata nada mais do que um subproduto da anarquia individualista que tem tomado conta da sociedade e – por consequência – dos mais pós-modernos “líderes” que nada mais são do que núvens sem água levadas para lá e para cá sem conteúdo; árvores desarraigadas impedidas de dar frutos dignos do reino.

“Khristós Voskrés!” (Cristo ressucitou) resume um legado eslavo para uma igreja que se adaptou no tempo mas não perdeu a essencia da mensagem. O primeiro dia da semana (que vale a pena lembrar não é a segunda-feira como o mundo rendido ao dinheiro nos quer fazer pensar) é de um especial significado para a igreja. Não que os outros dias não tenham, mas nivelar por baixo não faz mais do que mesmerizar a coisa simplificando – no melhor estilo Hitleriano – em lugar de aprofundar. Tanto se contarmos os dias da semana da criação literalmente ou – como muitos de nós – alegoricamente, vemos que o evento criativo de Deus se inicia num domingo (se este domingo demorou 24h ou se foram longos milénios, tanto faz). A ressurreição de Jesus o Cristo se dá também num domingo. Há um novo começo, uma nova realidade se abrindo para a humanidade.

Talvez não sejamos plenamente cientes de quão profunda é esta verdade nem quão necessário e urgente é o resgate da sua essência cristã. Eu acho que Romanos 5:18 resume bem ao dizer “…por um único ato de justiça…”. Essa tríade de morte-estadia no túmulo-ressurreição é “um único ato de justiça”. Geralmente temos a tendência de comparar este “único ato” com o ato de Adão citado no mesmo versículo. Mas o lance é bem maior pois ele vem argumentando que apenas Deus é justo e que o homem é injusto em sua essência desde o inicio da epistola.

Sente raiva de essa ideia? Acha que ser cristão é tolo? Pensa que deveriamos suavizar isso? A resurreição de Cristo está para você em um nível menos importante do que o Natal, a virada do ano ou seu aniversário? Pensa no mais profundo do seu ser que o homem pode chegar a ser justo se se esforça e ninguem atrapalha? Talvez – e só talvez – ainda não tenha entendido o básico da fé cristã.

Eu estou entre aqueles que acha que a fé cristã está desvirtuada ali mesmo onde deveria ser exaltada. A igreja tem se extraviado nestes ultimos anos com uma celeridade espantosa. A seriedade teológica tem dado lugar à insegurança da crença e à falta de identidade local e isso não porque estejamos indo para uma unificação benéfica da fé cristã, mas porque estamos abandonando a mesma fé que dizemos professar. A geração que está vindo ai, sente na alma que não vale mais nada ter algum tipo de identidade seja esta cultural, filosófica, racial, etc. Isso também se aplica para a fé cristã. Não que seja uma exclusividade da nossa era. Isso já aconteceu durante o oscurantismo e acontece hoje de forma inversa mas igualmente devastadora.

Quem é você? Se é cristão, é cristão mesmo? Ou seja, acredita de fato que Jesus ressurgiu? Se não, não seria o momento de re-avaliar sua vida?

 

http://www.monergismo.com/textos/credos/credoniceno.htm

Cristo, nosso cordeiro pascoal foi crucificado

Pensar na pascoa é, para muitas pessoas, sinónimo de festa, ovos de chocolates, reencontro com a familia. Eu acho que isso tudo tem seu valor e que deve ser feito, mas despe a páscoa do seu verdadeiro significado original. Uma segunda coisa é indagar se é possível para um cristão celebrar a páscoa.

A pascoa como tal nada mais é do que uma festa judia (e judaizante) na que se celebra o Pessach, ou seja, a passagem do anjo da morte na terra do egito pouco antes da liberação do povo judeu. No sentido de liberação, nada mais apropriado do que concordar com o apóstolo Paulo de que “Cristo nosso cordeiro pascoal já foi sacrificado” (1Co.5:7) já que -de fato- Jesus o Cristo é nosso grande libertador. Nada se compara a ele e e nele que o Pessach tem seu significado realizado por completo.

Porém, a sociedade tem gradativamente desvirtuado esta verdade simples. Para falar a verdade a sociedade não está nem ai para o significado da pascoa ou do natal. O problema é que a igreja institucionalizada (grande ou pequena) gosta de se prostituir atras da ideia de que tem que “atrair” as pessoas. Se Jesus fosse um produto, uma coisa a ser vendida, eu até concordaria. Nada mais apropriado e justo do que engabelar seu cliente falando coisas que ele quer ouvir, lhe dando aquilo que ele quer obter, para o seu produto ser mais vendido e com isso engrandecer os lucros de quem vende.

Das dias grandes datas cristãs – o natal e a pascoa- é com certeza a páscoa e não o natal a que celebramos em data mais certa. Porém, tanto uma como outra se presta parta conchavos politico-econômicos. O que atrai para o Cristo tem que ser o próprio Cristo. E – se possível – crucificado. Ao menos era isso o que ele pretendia ao relembrar da serpente erguida por Moises no deserto. Logo, se era isso que ele queria, para que eu me meter com isso?

No se trata de coelhos, se trata de um cordeiro. Não se trata de chocolate e sim de sangue. E não se trata de muita vida e sim de morte. Paulo escrevendo aos corintios faz a mesma menção na ceia (que lembremos: Jesus celebrou a sua última ceia justamente durante a pascoa) ao dizer: “Todas as vezes que beberdes deste calice… a morte do Senhor anunciais até que ele venha”. E ele mesmo quando no inicio da carta diz qual era sua mensagem fala: “anunciar a Cristo, e este crucificado”

Sim, claro que sei que a vitória na cruz é essencial à fé cristã; mas isso é no domingo.  Sexta e sábado celebramos – sim, celebramos – a morte de Jesus. Ao final das contas é por conta desta morte que você e eu não temos que pagar pelos nossos próprios pecados.

Então, para que sujar uma mensagem tão especial com ideias vindas do paganismo? Para que prostituir a mensagem? Para que desvirtuar o que é grandioso? Eu lhe direi: Para não sermos engolidos pela concorrência. Tudo tem se transformado numa luta imbecil por números. Não há mais vida. Apenas os números importam. Pastores jovens são massacrados e trucidados apenas por esta simples e diabólica ideia: Sua igreja precisa ser grande.

Paremos de brincar com fogo. Abandonemos de forma prática essa afronta. Passemos para a minoria, façamos eco da nossa eleição em Cristo. E paremos de ensinar aos nossos filhos e netos que está bem se prostituir nas ideias contanto “mais alguém seja alcançado”. Ninguém alcança ninguém, apenas o Espirito Santo convence de pecado, justiça e juízo. Sem isso, nada feito.

Qual é a importância da Escola Bíblica

Em uma simples palavra: nenhuma

A escola bíblica é um daqueles projetos que são bons na origem mas quando se institucionalizam esmagam os que dele se utilizam.

Ela tem se prestado, por exemplo, para medir o grau de espiritualidade ou maturidade dos membros de uma igreja, tem servido para empoderar fracos e sustentar orgulhosos. Mas não poderíamos falar isso de qualquer outro projeto de uma igreja local?

O projeto em sua origem é bom: ensinar às crianças analfabetas da Inglaterra não apenas  a ler e escrever, mas também a ter uma vida social melhor ajustada (se bem que os desajustados – ao meu ver – era a população adulta que tinha esquecido de zelar pelos menores). Este modelo se estandardizou e se propagou por toda Europa e depois pelos Estados Unidos e foi absorvido pelas igrejas de liturgia livre e as de liturgia rígida. (Ou igrejas históricas ou não históricas, como queira chama-las). Em resumo, virou moda.

Rios de dinheiro tem sidos investidos em manter este projeto funcionando e não são poucas as pessoas que tem dedicado a vida ao mesmo. Então o que está errado?

Bom, achar que isso é igreja. Ou seja, é o mesmo que está errado com os cultos de domingo ou com as reuniões nas casas ou os jantares ou as campanhas de evangelização ou o encaminhamento formal de missionários.  Nada disso vale absolutamente nada quando nos evita de olhar para dentro de nós e ver nossa própria carência do Cristo resurreto no âmago das nossas vidas.

A estas alturas, você deve de se estar perguntando, “então, por que razão você insiste tanto na escola bíblica?. Por que não melhor fecha essa matraca e nos deixa quietos na nossa zona de conforto?”

Bem, meu querido, junte-se a nós para saber a razão. Brincadeira, basicamente é o seguinte: A Escola Bíblica (assim como qualquer outro projeto) carece de importância em si mesma. Ela é importante apenas para conectar vivências disseminando a identidade da igreja local. Sim, você leu certinho, eu assumo formalmente que a identidade de uma igreja local é construida a partir do pensar, sofrer e viver juntos. E tem mais: mais cedo ou mais tarde, se o caminho está sendo bem trilhado, esta identidade local nos deve levar – como grupo e não apenas como soma de indivíduos – à nova identidade que temos em Cristo e isso é responsabilidade de cada geração até que ele volte.

Então, chame seu encontro para ler a Bíblia e descobrir o Cristo (João 5:39-40) por qualquer e faça-o em qualquer dia, mas se não é para conhecer mais Jesus, não faça nada. Estará perdendo seu tempo enganando a si mesmo e tentando enganar aos outros.

Beijo grande no coração

Jesus e a Igreja

Evangelho de João

Jesus e a Igreja

João 13:1-17:26

    1. Introdução

A maior parte do tempo confundimos local de reunião com igreja e instituição eclesiâstica com igreja. É claro que não vejo problemas em utilizar os termos de forma intercambiavel quando vamos explicar para um cidadão aonde estamos indo ou o que é que faz esse grupo de pessoas em um local. Ou seja, você não vai dizer para seu vizinho leigo que está indo para o “local de reunião” ou coisa assim. Você está indo para a igreja, oras.

Me refiro ao que realmente acreditamos ser a igreja. Se bem igreja significa simplesmente assemblêia, ou – literalmente – chamados para fora, o relacionamento entre fé e igreja é indisolúvel. A prova mais simples disso é a que encontramos em Mateus 16:13-20. Na confissão de Pedro há várias coisas contidas: 1) é uma revelação dada por Deus. 2) é uma declaração de fé distinta em essência do que o povo pensava sobre o próprio Cristo (“Tu és o Cristo o filho do Deus vivo”). 3) É sobre essa fé que Jesus construiria sua igreja.

Esse resumo, não destoa nem um pouco com o que encontramos em João 13:1-17:26. É uma passagem extensa, mas há uma unicidade no texto inteiro. Ou seja, o trecho tanto como assunto e como evento forma uma unidade que – nas suas nuances – enriquece o panorama geral.

Os dois grandes assuntos que se repetem en cada parte deste extenso bloco podemos ressumi-los assim: Jesus está se preparando para voltar ao Pai, a fé em ser Jesus enviado pelo pai é essencial para fazer parte deste grupo. A palavra “igreja” não aparece no trecho escolhido assim como não aparece a palavra “trindade” em lugar nenhum da Biblia; porém, ao avançarmos pelo texto observamos que é da igreja (e da trindade) que o texto trata.

    1. Estrutura

Diferentemente dos outros blocos, as reações externas são inexistentes neste. Isso se deve ao fato de estarmos nos adentrando a um momento particular na vida de Jesus e unicamente seus discípulos.

Outra coisa distinta é que o bloco é composto quase que unicamente de discursos e orações de Jesus. Por conta disso, os dialogos ficam reduzidos a uns poucos parágrafos mas que são essenciais para o desenvolvimento do texto.

O capítulo 13 é distinto de tudo o que Jesus já fez no resto do evangelho. Faltava uma ilustração clara de que o Mestre e Senhor veio para servir e que era isso que esperava dos seus discípulos. Esta atitude dos primeiros 17 versículos do capítulo 13, tem ecos no restante do bloco, em particular quando pensamos na ideia de identidade. Ou seja, quem é o Cristo? Qual a sua relação com o Criador? O que é que ele espera dos seus discípulos? Por que?

    1. O paradigma da identidade

Não há resposta cabível para todas essas perguntas sem a resposta que o próprio Jesus dá ao dizer “Quem me vê, vê o Pai (14:9)” e “Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (13:34b,35) e “… Se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês lavei-lhes os pés, vocês devem lavar os pés uns dos outros” (13:14) e também “Como o Pai me amou, assim eu os ameu; permaneçam no meu amor. Sevocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como teno obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço” (15:9,10) e não poderia faltar “Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem” (13:17) e “Tenho lhes dito estas palavras para que minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (15:11). Mas há também a identidade com consequências negativas: “Se o mundo os odeia, tanham em mente que antes me odiou. … Se me perseguiram, também perseguirão vocês… Aquele que me odeia, também odeia meu Pai.” (15:18, 20b, 23)

As referências dadas não são exaustivas porém nos permite vislumbrar uma harmonia fantástica no bloco. Mas veja o diálogo entre Jesus e Tomé em 14:5-14 sobre a equivalencia entre Jesue e o Pai ou o 14:15ss em que Jesus fala de enviar o Espirito quando voltar ao Pai, mas diz logo no 18: “Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês” com o que fica claro que há uma identidade entre Pai, Jesus e o Espirito.

Em resumo, há uma relação de identidade entre Deus Pai, Jesus e os seus discípulos. Seguindo a leitura do texto, vemos que essa identidade é extensiva ao Espirito Santo: João 16:14-15. Esta relação de identidade é tão estreita que conhecer um, implica em conhecer os outros e rejeitar um é rejeitar os outros. Não é à toa que Paulo em II Cor.5:17 fala que estar em Cristo é pertencer a uma nova ordem, a uma nova criação que não pertence a este mundo por mais que esteja nele.

E tem mais, estar identificado com Cristo é estar identificado com o Espirito e sua obra como está relatado em 15:26-27. Todavía o texto mais claro quanto à identidade, está em 17:22 “Dei-lhes a glória que me deste, parq que eles sejam um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste”

    1. A essencialidade da fé na encarnação

Veja os seguintes versículos: 13:3, 14:4-5, 17:27, 17:8b, 17:25. O que vincula todos eles? O fato de ser Jesus enviado pelo Pai. Para muitos basta com ter uma fé… qualquer tipo de fé, em praticamente qualquer coisa por mais aberrante que seja para que consideremos aquela pessoa como nosso irmão ou irmã.

Se bem somos irmãos como raça e devemos amor, carinho, respeito, cuidado e genuino interesse por cada ser criado, não devemos misturar as coisas e achar que qualquer um é nosso irmão eterno. Jesus faz uma distinção clara nisto ao dizer “Não estou rogando pelo mundo, mas por aqueles que me deste, pois são teus” (’17:9b) Ou, se fica mais claro, João 1:12-13 “Contudo, aos que o recebera, aos que creram no seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus

Essa fé em que o Cristo é vindo do Pai, cumpre sua missão e volta para o Pai é essencial à igreja. Dito em outras palavras: quando não há fé nesse fato, estamos na presença de outra coisa e não da igreja pois a essência da igreja é a fé no fato do Cristo ser exatamente quem ele disse ser.

Por extensão, qualquer pregação que promova uma imagem de Cristo diferente desta, não é uma pregação cristã, já que para ser cristão, é nescessário justamente a fé no Cristo – isto é – no enviado.

Por se fosse pouco, é impossível ao ser humano natural entender, aceitar e muito menos se identificar com o Cristo sem a intervenção do alto. João 16:7-11 é muito forte para silencia-lo com achismos secundários: “… é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselhieiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juizo. Do pecado, porque os homens não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; e do juizo, porque o principe deste mundo já está condenado

Me interessa enfatizar neste ponto o convencimento do pecado. O pecado aqui é não crer em Cristo. No contexto em que encontramos este trecho, não se trata de uma crença histórica, isto é, não se trata de crer que existiu um homem na galileia chamado Jesus que fez milagres e foi morto. Nem se trata sequer de crer que ele ressucitou já que para os primeiros leitores do evangelho isso não era novidade ne fato assustador. Crer aqui é depositar a fé na encarnação do Cristo. Isso é essencial e não vem por mérito ou esforço humano, mas sim pela intervenção sobrenatural do Espirito Santo na criação.

    1. A oração e seus frutos

A igreja – e não o individuo – é atendida em suas preces. Convenhamos que isso não é muito ortodoxo que digamos. Temos a impressão que a oração é um lance individual. Porém, se observamos a criação, tudo é pareado. Nada há que exista em si mesmo. Até aquelas plantas que portam seus dois gêneros, tem dois gêneros. Os animais que podem mudar de sexo segundo a ocasião fazem exatamente isso: mudam o sexo ou suas funcionalidades.

O individualismo é um subproduto do pecado. A morte social, isto é, a separação do meu irmão de raça acontece não por outra razão básica do que o pecado original. A igreja é uma nova ordem, uma nova criação. Como tal volta ao paradoxo original da criação do ser humano: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou” Gen 1:27

O que encontramos no bloco? Bom várias referências a que a oração será atendida, só que sempre vinculada à fé na encarnação do Cristo: 14:13; 15:16; 16:23-24, 26

É em certo sentido, parecido com Mateus 6:33 “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas

Jesus e a morte

Evangelho de João

Jesus e a Morte

João 11:1-12:50

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Introdução

Enquanto estamos vivos nos achamos grande coisa. Mesmo até quem tem que mexer com cadáveres, se acha grande coisa. Porém, quando a morte bate de pertinho, entendemos nossa própria grande limitação1.

Caminhamos para a morte. É inevitável. Por conta do nosso espírito ser eterno, nos achamos com capacidade de realização eterna. Provar isso é bastante simples: observe os mais idosos, repare que eles tem sonhos como se ainda tivessem 30, 50, 70 anos de vida por diante.

A morte é a última grande consequência nesta terra da entrada do Pecado2 no mundo. A limitação da vida é um corolário das nossas próprias decisões irreversíveis como raça. Escolhemos – como raça – nos parecermos com o Criador e por conta disso nos distinguimos ainda mais. É uma ironia fatal (sem ironias).

Assim como o cego de nascença não tinha escolhido ser cego mas a cegueira era um fruto do Pecado (e o apedrejamento era o curso socio-legal do pecado de adultério mesmo que a adultera não teria escolhido essa consequência) assim também não escolhemos ter vida perecível.

O início de tudo

O que faz o criador? Se respeita plenamente a decisão do Homem3 e o deixa seguir seu próprio rumo sem intervir, ele mesmo se torna irresponsável pela sua própria criação. Se ele intervêm na marra e lhe impõe suas decisões, o Homem o poderia – com justiça – acusar o criador de injusto, intervencionista e por ai vai. Isso por só elencar um par de opções simplificantes.

O pior é que o inimigo da criação (que transformamos, como raça, em príncipe deste mundo pelas nossas decisões livres lá no Éden) ficaria impune. Por mais que o que ele fez foi plenamente legal (pois escolhemos no pleno uso da nossa liberdade), é imoral e por tanto alguma forma de tirá-lo do poder deve de existir. Ao mesmo tempo, Deus é justo, ou seja, ele não poderia enganar a humanidade como o príncipe deste mundo fez.

A solução

A morte de Jesus na cruz tem várias consequências muitas delas imensuráveis desde nossa perspectiva de criaturas sujeitas a este mundo material. A síntese deste assunto está em João 12:31 e 32: Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo; e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim. O ápice da história não é o nascimento do Cristo numa manjedoura e sim a morte do mesmo na cruz. É a morte e não a ressurreição do Cristo o que destrona o príncipe deste mundo. A legalidade da morte foi eliminada por ter morrido o único ser humano justo e com isso o Criador readquire os seus direitos sobre o ser humano e sua existência eterna.

A estrutura do texto

Neste trecho observamos o seguinte fluxo: Cap 11: fato – discurso – ação – reação Cap 12: fato – ação – discurso – reação.

Ou seja, é mais ou menos a mensa estrutura que observamos em cada um dos blocos de João. Não poderia ser de outra forma, já que é a própria estrutura primária do texto a que foi usada para estabelecer os blocos.

Novamente, as duas grandes partes que compõem o bloco mostram certo paralelismo e os assuntos estão entrelaçados. Igual que nos outros blocos, o destaque é para a incredulidade de muitos em contraposição com a credulidade (muitas vezes dubitativa) de poucos.

Lázaro

Quando Jesus trata com Marta sobre a morte do Lazaro, a fé de Marta (muitas vezes criticada por preferir os afazeres da casa do que estar com o mestre) é exposta – assim como sua dor – na frase recolhida em João 11:24 “Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia”. Isso refletia talvez a classe social à que Marta, Maria e Lazaro pertenciam (Bethania significa casa dos pobres) e quase que por conseguinte a linha doutrinaria e politica à que pertenciam: os fariseus4. Isso porque os fariseus eram mais povão que os saduceus e acreditavam na ressurreição. Mas também refletiria algum ensinamento prévio dado por Jesus; mas ai estaríamos especulando ainda mais, já que não há registro específico disso.

Seja como for perante a morte do seu amigo Lazaro, Jesus expõe seus sentimentos e também seu poder. Este homem é o que dizia que podia perdoar pecados e se bem haviam controvérsias sobre se um homem podia ou não perdoar outro homem o que não haviam dúvidas era que ninguém poderia ressuscitar mortos. Em João não temos a frase “Qual é mais fácil? dizer: Os teus pecados te são perdoados; ou dizer: Levanta-te, e anda?” como em Lucas 5:23 porém a proposta é a mesma: Os capítulos 8 e 9 falam do perdão de pecados, o 10 fala de Jesus e seu rebanho e o 11 e 12 falam do poder de Jesus sobre a morte. E da mesma forma que nos evangelhos sinóticos, é esse perdão dos pecados (e a liberação da raiz do pecado) o alicerce sobre o qual pode ser construída a igreja demolindo a construção anterior mas mantendo a mesma base: O criador é Senhor da criatura.

A espera de Jesus antes de ir até Betânia e as três colocações que repetem “Se estivesses aqui ele não teria morrido” levam a pensar que este milagre era mister de acontecer antes de ele mesmo ser morto. Ou seja, todos (Marta v.20, Maria v.32, os amigos da família v.37) achavam que Jesus poderia ter impedido a morte, mas não que poderia vencê-la revertendo seus efeitos. Nem mesmo Marta – que é a que chega mais perto – consegue descifrar o que está por vir.

Quatro dias no túmulo não foram suficientes para deter a vida. Porém, mesmo a vida sendo devolvida a um morto que já cheirava mal, nem por isso a fé dos homens se voltaram para Jesus. O interesse de Jesus em que as pessoas cressem, fica manifesto no v.42. O fato de que era isso que naturalmente se esperava dos que entendiam o propósito de Jesus, fica recolhido no v.45 nas palavras “muitos … vendo o que Jesus fizera, creram nele” E finalmente, que os líderes religiosos do momento sabiam que o povo poderia chegar a crer fica registrado no v.48 “Se o deixarmos, todos crerão nele, e então os romanos virão e tirarão tanto o nosso lugar como a nossa nação

A unção em Betânia

Até hoje o corpo de um judeu é preparado mais ou menos da mesma forma em que eram preparados no tempo de Jesus. De fato, o ritual pelo que os judeus se conduzem hoje é o instituído pelo rabi Gamaliel, o mesmo que ensinou Paulo.

Basicamente ele é um ato religioso judaico e não apenas um mero ritual higiênico por mais que a higiene esteja presente. Um resumo simples deste ritual deveria elencar as seguintes características: 1) Só judeus podem fazer parte da sociedade sagrada que cuida do corpo. 2) O corpo é completamente limpo e envolto em uma mortalha obrigatoriamente simples. 3) O corpo não pode ser embalsamado nem cremado. 4) O corpo deve ser sepultado na terra. 5) Caso seja usado um caixão, este deve ter buracos para que o corpo entre em contato com o solo. 6) Tudo o que não for parte natural do corpo, deve ser retirado e não podem ser enterrados juntos com o corpo. 7) Após a lavagem do corpo, são despejados pouco mais de 12 litros de água para purificá-lo. 8) Após enxugado, o corpo é vestido com as mortalhas. 9) Em caso dos homens, veste-se o Talit (xale de seda) e se possível, o mesmo que era usado quando ele fazia suas prezes em vida. 10) Entre a lavagem do corpo e o enterro não se deve ter uma interrupção de mais de 3 horas.

Seis dias antes da Páscoa5 Jesus e seus discípulos estão em Betânia com Lazaro e suas irmãs. O jantar foi preparado para o mestre. Lazaro, o ressuscitado, era a atração para uma multidão que estava do lado de fora.

Neste cenário, Maria a irmã de Marta e de Lazaro, derrama uma pequena fortuna sobre Jesus. Segundo os cálculos presentes em Marcos e em João, se tratava do equivalente a trezentos dias de um trabalhador braçal. Ou seja, descontados os sábados e feriados para festas religiosas, era o que uma pessoa comum poderia conseguir (se não gastasse nada) em mais de um ano. Se tomamos como exemplo que uma diarista ganha R$120,006 por dia e a dracma e o denário equivaliam ao salário de um dia de trabalho braçal, então estamos falando de alguma coisa como R$ 300*100, ou seja, R$ 36.000 em valores de hoje. Talvez assim possamos sentir a indignação de Judas ao ver que o equivalente a um carro popular estava sendo despejado logo sobre os pés7 de Jesus. Era muuuito dinheiro sendo jogado fora de uma só vez.

A interpretação do fato dada por Jesus é dupla. Por um lado, responde às supostas inquietações levantadas por Judas e talvez algum outro sobre o melhor uso que se faria desse dinheiro se fosse destinado aos pobres dizendo “os pobres vocês sempre terão consigo”. Por outro lado, abre uma linha interpretativa que nenhum dos presentes tinha levantado ainda: “que o guarde para o dia do meu sepultamento

Então o que parece um simples relato de um jantar se transforma em uma alusão gritante ao último inimigo do ser humano. Os traços não são mais os suaves e delicados traços de uma obra renascentista e assumem as cores vibrantes e o alto-contraste de uma obra impressionista.

Na mesma mesa estão um traidor, uma mulher subjugada pela figura do jovem mestre, um homem ressurreto, uma mulher pragmática, os discípulos que poucas semanas depois abalariam Jerusalém, e o criador do mundo que em poucos dias haveria de ser submetido à morte.

Os gregos que visitam Jesus

Se há uma passagem enigmática em João, e essa dos gregos que procuram por Jesus. A reação de Jesus não é a de atendê-los senão a de dizer “Chegou a hora de ser glorificado”.

O que esses gregos fazem aqui?

Bom, desde o ponto de vista da mecânica do relato, a mesma coisa que o oficial romano do 4:43ss. Ou seja, mostrar que o alvo da vinda de Jesus não é só o povo Judeu e sim a criação toda. Isso fica mais evidente quando vemos o versículo que prepara esse caminho neste bloco: 11:51,52: “[Caifás] … sendo o sumo sacerdote aquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação judaica, e não somente por aquela nação, mas também pelos filhos de Deus que estão espalhados, para reuni-los num povo.

Pela segunda vez no relato joanino, uma voz vem do céu para confirmar o propósito divino nesta história toda. A primeira no batismo e agora com a visita dos gregos.

A escolha da figura do trigo no contexto da visita dos gregos nos relembram duas coisas: 1) o trigo junto com a cevada constituíam a base da dieta grega. 2) As terras gregas eram ideais para o plantio de oliveira com o que se formaram colônias gregas fora do seu território para produzir o grão cuja demanda sobrepujava a produção.

Tal era a importância do trigo na cultura helênica que algumas moedas levavam a figura do trigo. Um estudo moderno8 indica que um robô da Grécia do século I era movido a trigo.

Com toda essa informação, não parece fruto do mero acaso que Jesus escolhesse o trigo para ilustrar claramente o que haveria de acontecer com ele para os visitantes gregos (v12:24ss). Mais adiante, ele escolheria uma outra imagem que falaria ao inconsciente coletivo judeu ao dizer “Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” v.32

A incredulidade dos judeus e “o último dia”

O trecho final do nosso bloco se inicia com uma palavra desalentadora “Mesmo depois de que Jesus fez todos aqueles sinais miraculosos, não creram nele” (v37)

A explicação de João é direta e simples mas não simplista. Ele cola duas passagens de Isaías. O capítulo 53 e o 6. A explicação de João é a seguinte: Não criam, porque não podiam. Os olhos lhes tinham sido fechados para não conseguir crer. Ou dito de outra forma, eles não criam para que se cumprisse a profecia de Isaías. Para muitos isso parece injustiça, mas é exatamente o contrário já que desta forma, o verdadeiro soberano recebe glória, ao passo que nossa liberdade, sempre nos leva para longe do Cristo e sua salvação. Ou, usando as palavras de João, Isaías falou isso porque ele viu a glória de Jesus. Esta glória, segundo o próprio Jesus e a voz vinda do céu, estava atrelada à sua morte. Ou seja, se não fosse pelo próprio Jesus ter dito, não veríamos glória na morte. Do mesmo jeito, naturalmente não achamos justiça em exigir uma fé genuína de homens que não podem tê-la. A única perspectiva possível é desde a soberania do Criador.

O trecho final se encerra com uma referência à morte e ao julgamento que na mente dos judeus aconteceria logo após a morte.

Se alguém ouve as minhas palavras, e não lhes obedece, eu não o julgo. Pois não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo. Há um juiz para quem me rejeita e não aceita as minhas palavras; a própria palavra que proferi o condenará no último dia.” (v47-v48)

Costumamos pensar nesse “ultimo dia” como um evento distante no futuro. Deixe-me lhe mostrar o que os judeus (para quem foram escritas em primeiro lugar estas palavras) pensam sobre a morte e o julgamento usando uma referência ao Tahará ou a purificação do corpo do morto:

A tradição judaica reconhece a democracia da morte. Portanto, exige que todos os judeus sejam enterrados com o mesmo tipo de roupa. Ricos ou pobres, todos são iguais perante D’us, e o que determina sua recompensa não é aquilo que vestem, mas aquilo que são.

Há 1900 anos, Rabi Gamaliel instituiu essa prática para que os pobres não se envergonhassem e os ricos não rivalizassem entre si ao exibir roupas dispendiosas ao serem enterrados.

As roupas a serem vestidas devem ser apropriadas para alguém que em breve estará em julgamento perante D’us Todo Poderoso, o Mestre do Universo e Criador do homem. Portanto, devem ser simples, feitas à mão, perfeitamente limpas e brancas. Estas mortalhas simbolizam pureza, simplicidade e dignidade. Mortalhas não têm bolsos. Portanto, não podem levar riquezas materiais. Nem um pertence do homem, exceto sua alma, tem importância. 9

1Talvez um livro palatável para o leitor comum seja “O carrasco do amor” de Irvin D.Yalom. O autor mostra com uma linguajem simples diversos encontros (mistura de realidade e ficção) no setting psicológico nos quais os diversos protagonistas demostram sua angustia com a morte. Da introdução (p.13) escolhi a seguinte frase: “À medida que envelhecemos, aprendemos a tirar a morte da mente; desviamos a atenção do tema; nós a transformamos em algo positivo; a negamos com mitos confortadores; lutamos pela imortalidade por meio de obras imortais, lançando nossa semente no futuro por meio de nossos filhos ou abraçando um sistema religioso que ofereça perpetuação espiritual

2Já combinamos anteriormente chamar de Pecado com ‘P’ maiúscula àquele poder que permeia toda a criação desde a escolha de Adão e Eva e chamar de pecado com ‘p’ minuscula às decisões particulares contrarias à vontade divina seja por ação, omissão ou pensamento.

3Novamente Homem (com ‘H’ maiúscula) indica a raça, ao passo que um indivíduo o representaremos com ‘h’ minúscula.

4Os fariseus (que segundo Josefo, um historiador judeu e por sinal fariseu que viveu entre os anos 37 e 100, eram estimados em 6000 à época) eram mais bem quistos pela sociedade comum, pelo homem de a pé, do que os saduceus. Há, pelo menos, dois fariseus importantes que o leitor evangélico conhece bem: Gamaliel (Atos 5:34) e Paulo (Atos 22:3; Fil.3:5). O grande problema de Jesus (e João o Batista) com os fariseus, não era teológico e sim ético; mais especificamente, o divórcio existencial entre o discurso e a prática do discursado.

5Há um sábio desbalanço no jeito em que o autor arranja seus assuntos cronologicamente. Se o capítulo 1 fala da eternidade até o batismo de Jesus, do capítulo 1 até o 11 o relato abrange três anos da vida adulta de Jesus. Na metade do livro e até o final do mesmo, o tempo para em uma semana. Porém, do capítulo 13 até o 19 ele se concentra em uma única noite que é a que Jesus foi traído e morto. Então esta introdução em dois movimentos ao assunto morte é de extrema importância.

6http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/04/pesquisa-aponta-variacao-no-preco-dos-servicos-oferecidos-por-diaristas.html

7Mateus e Marcos vão dizer que é sobre a cabeça

8http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL78601-5603,00.html

9http://www.chabad.org.br/ciclodavida/Falecimento_luto/falecimento/taharah.html

Jesus e as essencialidades

Evangelho de João

Jesus e as essencialidades

João 6:1-7:52

Introdução

O que é essencial para a vida? A comida? A água? O pão? Jesus? As festas?

Há dois elementos que aparecem nas duas partes do bloco: A água e o pão. A personagem em cada um dos blocos é distinta e a mesma em certo sentido: o povo que busca e o povo que rejeita.

É muito interessante a estrutura que João nos propõe: Criação, Pessoas, Perguntas. Claro, como de costume, neste bloco há outros grandes assuntos entremeados. Temos por exemplo a economia do reino, os milagres, a família de Jesus, o povo… enfim, uma riqueza quase infindável. Me parece, porém, que há um fio condutor nesses capítulos seis e sete. A pergunta que junta temas, relatos e ilustrações tão diversas, é o seguinte: O que é essencial para a vida? Se já respondemos que a vida é uma criação de Deus, se já dizemos que as pessoas são realmente mais importantes do que as ideologias, o que é que sobra se tirarmos as antíteses das coisas expostas?

Parece-me que o medo às perguntas mais básicas é o que nos leva a revestir a existência de perguntas aparentemente reais. Com isso, ficamos às voltas com problemas imaginários ao passo que o realmente essencial se nos escapa. João propõe o seguinte: Criação → Pessoas → O Que é essencial?

Este bloco pode por sua vez ser dividido em duas partes: Essencialidade Geral, Essencialidade Particular. Enquanto o capítulo seis fala da multidão e do povo que procura por Jesus, o capítulo sete fala da família terrena de Jesus, do Povo Judeu em sua festa mais importante, da primeira tentativa de prender Jesus e dos líderes judaicos que não creem.

Por sua vez, a proposta de Jesus em qualquer uma das perspectivas é a mesma: Jesus é a essência da Vida. No seis ele é o Pão da Vida e no sete ele é a Água Viva. Dito em outras palavras, não interessa se você é parte da plebe (o problema de quem está na elite) ou parte da elite (o problema de quem é massa) a essência da sua vida se encontra em Jesus e fora dele o que você tem não é vida.

Estrutura do texto

João parte de dois eventos compartilhados com o relato sinótico do evangelho: A multiplicação dos Pães (presente em Mateus1, Marcos2 e Lucas3) e Jesus caminhando sobre as águas (presente em Mateus e Marcos).

Quando comparamos o conjunto estrutural (capítulos 6 e 7 seguidos do 8) vemos que há uma similaridade fantástica com os sinóticos (ou ao menos com Mateus e Marcos). Os três trazem os relatos acomodados na seguinte sequencia: Multiplicação dos Pães, Jesus andando sobre as águas, o problema da tradição judaica, a fé de uma mulher.

Claro que não é foco deste estudo vasculhar nessa macro estrutura, mas a mencionamos no intuito de despertar um interesse maior nessas interações que vez ou outra aparecem e que se tornam especiais, já que João dificilmente se vê compelido a seguir os sinóticos4.

Seja como for, a estrutura continua a ser a mesma que em outros blocos de João: Relatos, Discurso (ou interação), Reação, Repetição do Discurso, Mais reações.

Os sinais miraculosos (pães e água) dão lugar a um discurso de Jesus que provoca uma reação no povo. Jesus se afasta e volta a cena para mais um discurso e mais reações.

Os afastamentos de Jesus

Há uma tendência generalizada que nos leva a pensar que uma pessoa forte não se afasta. Como o ideal é ser forte, o ideal – por extensão – é não se afastar da luta. Parafraseando Freud, somos de carne mas somos obrigados a agir como se fossemos de ferro.

Estes dois capítulos de João estão recheados de momentos em que Jesus se afastou. Retirou-se do local, da multidão, dos eventos do momento seja para pensar, orar, ou preservar a vida.

I) Os relatos de Mateus e Marcos são concordantes em dizer que a primeira multiplicação de pães e peixes aconteceu após a decapitação de João o Batista5. Lucas coloca o evento após o envio dos doze. Seja como for, os quatro relatos iniciam com um breve retiro de Jesus e seus discípulos (Jo 6:3). Se como se diz comumente a voz da maioria não é a voz de Deus, então a voz de uma multidão não necessariamente reflete a vontade do Criador.

II) O segundo afastamento de Jesus (Jo 6:15) acontece logo após alimentar a multidão e esta – aparentemente – se ”converter” em massa. Ao separar-se dessa massa, ele mantêm o foco na vontade divina e recua da tentação de formar um reino terreno. Se há uma prova de que o reino de Deus não é terreno, é este afastamento aqui.

III) O terceiro afastamento (Jo 7:1) busca preservar a vida pois o tempo dele (de morrer) ainda não tinha chegado. Consciente e propositalmente Jesus adia o momento de encontro com os seus captores. Porém, quando a festa chega ao seu ponto mais alto, ele aparece e coloca uma das frases mais formosas de toda a Biblia: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva

Os sinais miraculosos

Existem dois sinais miraculosos que acham ecos com ao menos dois eventos do antigo testamento: A multiplicação dos pães – que ecoa com o maná dos tempos de Moisés – e a caminhada sobre as águas – que nos lembra da travessia do povo hebreu no mar vermelho sob comando de Moisés.

Não é por acaso que João (e os outros relatores do evangelho) colocam Jesus como superior a Moisés. E também não é por acaso que a reação é tão violenta por parte de quem ouvia inicialmente as palavras de Jesus.

Jesus é superior a Moisés

Moisés tinha adquirido tal envergadura na mente coletiva que não conseguiam perceber que se tratava apenas de um tipo6 do Cristo que haveria de vir. Não se tratava de colocar a Moisés em uma posição inferior à que merecia, mas sim em uma posição inferior à que o povo o tinha elevado.

Como tudo em João, é na própria estrutura e propósito do seu livro que encontramos as razões pelas que escreve o que escreve. Esta sessão que estamos analisando resolve um problema existencial levantado no 5:45-477. Veja especialmente o versículo 46: Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim, pois ele escreveu a meu respeito.

As interações que se seguem nos versículos 6:30-32, 48-51, 58; 7:21-24, 37-398 denotam que o grande problema dos judeus era desapegar de Moisés.

Aquele que crê não é o mesmo que Aquele que crer

Como bons evangélicos temos a tendência a achar que crer é mais um ato do que uma essencialidade existencial. Os versículos 6:25ss precisam ser analisados mais detidamente deixando que o texto diga o que tem para dizer. Se concordamos ou não com ele são outros quinhentos.

Para a pergunta de “O que precisamos fazer para realizar as obras que Deus quer?” (v28) Jesus responde com o que chamo de ‘não-ato’. Ele diz: “A bora de Deus é esta: crer naquele que ele enviou” (v29). Ora, esse crer ai tem que ser analisado junto com as outras frases que o próprio Jesus pronuncia sob este assunto; a saber: Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.” (v35) “Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (v40) “Asseguro-lhes que aquele que crê tem a vida eterna” (v47) “Contudo, há alguns de vocês que não crêem.”(v64) “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (v38)

É claro que este assunto requer uma analise mais demorada, mas à guisa de resumo podemos dizer o seguinte: a maior parte do tempo, Jesus trata a fé como uma coisa sendo desenvolvida corriqueiramente e não um ato único irrepetível. Não quero dizer com isso que a vida cristã não tenha (ou não deva ter) um início. Não se trata de ter ou não ter cultos evangelísticos ou de conduzir uma pessoa em uma oração de arrependimento. Sempre há de haver um ponto inicial se possível. Todavia, o que me parece que falta é a noção de que Jesus não insiste tanto no ponto inicial como na vida do dia-a-dia. Veja por você mesmo, é obvio que o seu dia de nascimento é importante mas quero ver você viver todos os dias da sua vida só com aquele primeiro ar que entrou nos seus pulmões ou o primeiro leite bebido.

O problema da religiosidade

Julgamos comumente que o problema da religiosidade são as ações externas. Achamos que se uma pessoa costuma ir regularmente aos cultos ou se ajoelhar para orar ou se tiver algum relicário, rosário ou coisa semelhante, já é uma pessoa religiosa e por tanto sem vida espiritual.

Se bem isso não é de tudo errado ele condena o próprio Jesus já que ele mesmo tinha o hábito de ir na sinagoga (6:59).

O que vemos nestes dois capítulos de João, é justamente um combate contra a religiosidade mas não necessariamente contra certas rotinas. Religião é re-ligar; voltar a juntar. Nesse sentido, nossa religião é Jesus, o Cristo.

Religiosidade (ou em termos comuns, religião) é um conjunto de passos que devem ser seguidos para atingir um bem espiritual. É a substituição do essencial pelo temporário, o celestial pelo terreno, o Cristo por uma imagem dele.

Os judeus tinham erguido Moisés a uma posição que não lhe pertencia. Ele era o herói nacional, o que levava os louros. Esqueciam assim que o realmente importante era o Messias para o qual o próprio Moisés apontava.

Acreditar na missão de Moisés ou louvá-lo pelos seus feitos não era errado. Lembrar dos atos dele no deserto e de como ele tinha conduzido o povo também não. Tornar ele mais importante do que Jesus sim.

Para a vida eterna (que começa aqui e agora), Jesus é essencial. Todo o resto é supérfluo por melhor que seja.

Então, qual é seu Moisés?

1Mt 14:13-21
2Mc 6:30-44
3Lc 9:10-17
4É claro que cabe a crítica de que o capítulo 8 foi acrescido bem mais tardiamente ao evangelho na versão joanina. Todavia, os outros dois capítulos seguem a mesma orientação nos três evangelhos mencionados.
5Por que é que João não traz o relato da morte da decapitação de João o Batista? Bom, ao meu ver porque isso não modifica em nada a fé de quem lê. João o evangelista tinha como propósito condensar as coisas que Jesus tinha feito para que os leitores cressem. Logo, sendo que a passagem não é essencial a esse propósito, facilmente pode ser descartada. Por esse princípio, o da auto-limitação na escrita para manter o material focado, devem ser analisados todos os textos joaninos.
6A palavra tipo aqui está sendo usada no sentido de modelo prévio. Ou seja, Moisés nada mais era do que um modelo pelo qual o povo poderia identificar o Messias (o Cristo) quando este chegasse. Veja Heb.3:1-6
7A mesma ideia do final do capítulo 5 aparece em 7:19: Moisés não lhes deu a Lei? No entanto, nenhum de vocês lhe obedece
8A ilustração das águas brotando do interior de quem crê em Jesus, me leva a pensar na rocha no deserto que Moisés bateu. Paulo faz uma análise semelhante em 1Cor.10:4

Jesus e as Pessoas

Evangelho de João

Jesus e as Pessoas

João 2:23-5:47

    1. Introdução

Os primeiros dois capítulos de João parecem estarem encharcados de tanta água que se menciona. Se bem a água não se esgota nesses dois primeiros capítulos e continua sendo referenciada abundantemente até o capítulo 7, decidimos por uma questão prática focar a água só nos primeiros dois capítulos e observar que o assunto vai se esvaziando naturalmente no decorrer das páginas desta rica versão do evangelho1.

Tanto no Gênesis como em João a água vem antes do ser humano. Esta antropogenia2 bíblica encontra certos ecos em algumas teorias científicas mas não é da nossa alçada entrar nesses relacionamentos e simplesmente ver que uma coisa vem antes do que a outra.

O foco aqui são as pessoas. João reduz o amplo conjunto de seres humanos a três grandes relatos mas que, uma vez contabilizados os outros menores, dão um total de seis. Os grandes são os que sempre lembramos: Nicodemos, a Mulher junto ao poço e o Paralítico. Os três relatos menores (mas não menos importantes) são o de João Batista, o filho do oficial e os judeus em geral.

As pessoas e não as ideias são a coisa mais prezada para o Criador. Todavia, as ideias – isto é o que as pessoas pensam, imaginam, sonham – delimitam a vida de cada indivíduo, e a inter-relação entre esses indivíduos conforma a sociedade que por sua vez permeia o indivíduo.

As pessoas que João escolhe são variadas. Todas elas têm seu reduto no qual são aceitos e admirados, todas elas carregam o tormento (ou a realização) de não serem aceitas por um certo grupo de pessoas pelas que gostariam (ou odiariam) de serem aceitos, todas tem dúvidas, todas tem certezas e todos são (aparentemente) muito diferentes entre si.

João é um mestre ao propor uma balança não de dois mas sim de três pratos em cada um dos seus relatos. Por exemplo, Nicodemos tem em João o Batista seu contrário em muitos aspectos mas só em Jesus as águas espirituais do novo nascimento e o batismo de arrependimento e introdução ao reino acham sua concretização. Resumindo, ficamos com uma visão muito simplificada se pegamos só um dos relatos ou se consideramos só dois dos seus personagens. Três relatos principais, três relatos secundários, três grandes personagens em cada um deles. Não me parece, então, que seja o acaso ou o descuido. Sendo então que João pinçou e organizou o material no intuito de que os leitores (primeiros e atuais) creiam em Jesus, vale então a pergunta: Que tipo de pessoa está for a do alcance da fé?

Os relatos estão separados no tempo. Se bem nos capítulos 1 e 2 temos o início das coisas e depois o início do ministério do Cristo relatado dia a dia3, no capítulo 2, 3, 4 e 5 pode que haja até um ano de distância entre alguns eventos.

Os últimos versículos do capítulo 2 nos colocam na festa da páscoa. A primeira da que Jesus participa já tendo iniciado seu ministério. Vale mencionar que são justamente as páscoas mencionadas em João que nos levam a estimar o tempo de ministério de Jesus em três anos e meio.

É nessa páscoa que Jesus se levanta e arrebenta com tudo fazendo a profecia sobre a sua ressurreição.

    1. Jesus conhece as pessoas

O texto que é foco de nosso estudo hoje, nos propõe uma coisa bonita: “Enquanto [Jesus] estava em Jerusalém … muitos viram … e creram nele” (João 2:23)

Que coisa magnífica! Jesus age, eles vêm os sinais miraculosos, muitos creem nele. Aleluia!.JesusEAsPessoas

Todavia, João nos indica que “Jesus não se confiava a eles”4 e que essa desconfiança estava baseada no conhecimento que ele tinha das pessoas. Ele frisa que não tinha necessidade de que ninguém viesse com lorotas sobre os outros, já que ele sabia do lance. Uma leitura mais detida, nos revela que não fala de pessoas particulares e sim do ser humano como raça. A Bíblia de Jerusalém vai trazer “e não necessitava que lhe dessem testemunho sobre o homem, porque ele conhecia o que havia no homem” Esse “homem” aqui não é o macho da nossa espécie, é o ser humano como um todo.

Isso nos leva de novo a analisar o v.24. Repare no contraste “Jesus não se confiava a eles [os que creram] porque conhecia a todos [ os homens ]” É esta a introdução para o que João vai começar a tratar aqui e vai se estender pelo resto do seu relato mas que acha sua colocação mais chocante em João 5:41-42. O nosso problema não é particular, é generalizado. Como exemplo ele tratará de três (seis) tipos de pessoas em uma mesma situação: Um encontro com Jesus. O contraste entre estas tres pessoas e notável.

    1. Nicodemos

Logo após João dizer que muitos creram nele e relatar o episódio do chicote no templo durante a celebração da Páscoa, vemos que um fariseu se aproxima de Jesus.

Temos a tendência de colocar fariseus, saduceus e hipócritas numa mesma sacola. Fariseus e Saduceus levavam a Lei a sério e sim, havia muitos que eram hipócritas assim como há hipócritas em qualquer grupo religioso, político, social. Mas a generalização não é saudável. Por outro lado, vale salientar que os saduceus (que costumavam ser a maioria no Sinédrio e mais bem posicionados socialmente) não acreditavam na ressurreição, ao passo que os fariseus (mais bem-aceitos pelo povo de a pé pois não costumavam ser ricos) sim acreditavam nela.

O dialogo entre estes dois pensadores é uma delicia. Cheio de curvas e jogos de palavras ele nos apresenta um panorama rico no que – a meu ver – é um papo tranquilo entre amigos.

Diferentemente do que a mulher junto ao poço do capítulo 4 ou aos judeus do capítulo 5, Jesus não o aperta ou o acusa. Nicodemos está buscando a verdade. De outra forma, Jesus o colocaria em aperto ou lhe declararia o seu pecado. E mais em vista de que os textos que introduzem este papo declaram claramente que Jesus conhecia as pessoas e não se entregava a elas. Talvez, claro, haja uma ponta disso no encerramento do papo, quando Jesus diz “Quem pratica o mal odeia a luz” em contrapartida com “Ele veio a Jesus, à noite” mas me parece mais a utilização circunstancial por parte do mestre de uma situação palpável para conduzir seu discípulo a uma descoberta espiritual maior do que uma repreensão como nos outros dois casos.

Então, numa noite fresca e tranquila de primavera na palestina, um mestre se encontra com outro e conversam sobre a vida. A origem dela e o fim (como propósito e como encerramento) da mesma.

    1. A mulher samaritana

Os samaritanos são (até hoje) um povo rejeitado pelos judeus; em especial os judeus ortodoxos. Uns 500 anos antes de Jesus, este povo construiu um templo no monte Gerizim que rivalizava com o que havia em Jerusalém.

Os samaritanos são judeus sim (De fato, o estado de Israel os reconhece como tais) surgidos das dez tribos do norte que se separaram das outras duas uns 930 anos antes de Jesus.

Então quando João está descrevendo este encontro entre uma mulher samaritana e o Messias, a história de ressentimentos, desprezos e humilhações já estava rolando solta havia um bom tempo.

Para um judeu da época dos acontecimentos, os samaritanos (por melhor que pudessem chegar a estar econômica ou politicamente mente) estavam sob a permanente ira de Deus. Essa perspectiva, torna mais rica o arranjo que João faz com o texto. Repare que o 3:36 finaliza dizendo que a ira de Deus permanece sobre quem não crê em Jesus. Isto de que “a ira de Deus permanece” era um pensamento típico da época. É o mesmo pensamento que o Apostolo Paulo vai revisar na epístola aos Romanos. Para os leitores da época, então, os samaritanos nunca poderiam chegar a se verem livres da condenação divina já que eles tinham nascido nessa condição.

O contraste entre a mulher junto ao poço e Nicodemos é enorme. Jesus transita com liberalidade e liberdade entre estes dois extremos: De um lado um homem bem-visto na sociedade com colocações intelectuais; Do outro, uma mulher, samaritana, quase com certeza pobre e com um passado que a condenava.

Diferente do que com Nicodemos, esta mulher não vem até ele. Jesus é quem tem necessidade de passar por Samaria. Também o diálogo discorre de forma diferente; enquanto Nicodemos é o que tem perguntas e não é reprendido esta mulher parece que tem que entrar na marra. Sarcástica. Ferida. Insensível. Cheia de vergonhas.

Diferente de Nicodemos, esta mulher sai a contar para todo mundo o que aconteceu. Não fica encima do muro. Se bem o papo com Nicodemos foi profundo, durou apenas uma noite. A mulher provoca tal catársis no seu povo, que Jesus e seus discípulos precisam ficar dois dias na cidade.

A mulher, some na história, Nicodemos reaparece na crucificação.

    1. O paralítico

Provavelmente tinha acontecido um ano entre os capítulos 3 e 4 e o capítulo 5.

Uma das nossas personagens chega a Jesus, a outra vem carregando um cântaro. Já nossa terceira personagem não vem nem vai. Ele precisa ser carregado, levado, deixado, buscado, lembrado.

O cenário é único. Não só porque é diferente dos outros dois cenários, mas porque não vemos Jesus em cenário similar no restante do novo testamento. João nos relata um fato com fantásticos detalhes que só podem fazer sentido se é destinado para pessoas que não conheciam o lugar de primeira mão, mas também para aqueles que gostariam de confirmar os fatos. É digno de menção o fato de que o relato não é contestado ou colocado em dúvida. Ou seja, de fato, ali as pessoas eram curadas quando o anjo do Senhor agitava as águas. De outra forma, João colocaria alguma coisa como “pois as pessoas acreditavam que… “ mas não é o caso.

É notável a pergunta que Jesus faz a este homem. “Você quer ser curado?

Ou seja, qualquer um que visse um homem paralítico num lugar em que todos sabiam que aconteciam coisas miraculosas suspeitaria que o homem queria ser curado. Pior, João introduziu este longo bloco (que tem seu ápice em 5:42) dizendo que Jesus conhecia o ser humano. Sejamos honestos, o que realmente Jesus estava querendo quando pergunta ao paralítico se queria ser curado? Lido rapidamente parece uma piada de mau gosto uma ironia ou uma tirada de sarro.

Uma leitura um pouco mais demorada nos leva a uma proposta: O poder está em Jesus mas a decisão no homem. Todavia, isto nos cria mais problemas do que soluções.

E eu tenho uma outra pergunta: De entre todos os doentes e inválidos: cegos, mancos e paralíticos, por que Jesus escolhe apenas este e o cura da forma que o curou? Resistirei à tentação de falar favoravelmente da eleição soberana de Deus e me limitarei a dizer que aqui se manifesta a glória de Deus como no capítulo 9

Parece-me que esta passagem é parecida com o cego de nascença. Em particular por ter sido feito o milagre em um sábado, por pôr as pessoas para fazer alguma coisa e porque acaba em uma discussão com os judeus sobre a autoridade de Jesus que leva à conclusão de que Jesus é a vida assim como na outra passagem ele é a vida.

    1. Um mapa dos relatos

Acho importante mapear os eventos. Isso nos pode dar uma perspectiva um pouco mais condensada do que o texto e nos permite analisar o bloco de forma única.

Nicodemos

Mulher

Paralítico

Característica

Fariseu. Bem-visto

Samaritana. Rejeitada

Pária. Quase Invisível

Local

Desconhecido
Monte das Oliveiras?

O poço de Jacó

O tanque de Betesda

Momento

Noite

Meio dia

Sábado

Iniciativa

Nicodemos

A necessidade

Jesus

Proposta

Nascer de novo

Adorar em espírito e em verdade

Levantar-se e andar

Impossibilidades

Velhice

Imoralidade

Paralisia

Estilo de dialogo

Dialético

Sarcástico

Direto

Pessoas alcançadas

Talvez ele mesmo

O povo de Sicar

Judeus

Duração do encontro

Algumas horas

Dois dias

Alguns minutos

    1. Os relatos paralelos

Há alguns relatos que geralmente os tratamos como se fossem desconectados dos relatos principais que encontramos nos capítulos 3, 4 e 5. Proponho que sejam lidos como o autor os colocou, isto é, um seguido do outro mas tendo em vista o que ele quer construir.

Se Nicodemos, a mulher junto ao poço e o paralítico são os relatos mais conhecidos, dificilmente os tratamos como uma unidade. E mais difícil ainda, consideramos os relatos de João o Batista, o Filho do Oficial e os judeus como relatos relacionados com os primeiros e muito menos como parte de uma grande unidade.

    1. João o Batista

A mais fácil e natural de ver é a unidade do capítulo 3. O assunto é o mesmo só que colocado de ponto de vistas diferentes. Tome por exemplo o texto 3:3 “Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de cima5” e o 13 “Ninguém jamais subiu ao céu, a não ser aquele que veio do céu” e agora repare na resposta de João o Batista no 3:27 “Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado dos céus” e depois no 3:31 “Aquele que vem do alto está acima de todos

Então, o relato de Nicodemos e o de João Batista estão conectados não pela narrativa em si mesma, mas pelo assunto sendo tratado aqui: O Reino de Deus.

Este reino só pode ser percebido (visto) por quem nasce de novo ou do alto, isto é, pela vontade divina e não pelo ser humano comum. João o Batista (que segundo Mateus tinha por pregação “Mudem de cabeça pois o Reino [que vem] dos céus está perto”) aparece aqui como o dirimidor de uma discussão entre um judeu e os seus discípulos sobre a purificação cerimonial (provavelmente uma referência ao batismo que já era praticado antes de João o Batista) mas João o Batista logo leva o assunto para o Reino que nos é dado de cima. Jesus é o noivo que chega para se casar com sua noiva. Esta noiva está sendo preparada pelos servos entre os quais João o Batista tem uma clara visão do seu próprio lugar.

Se o Batista findasse por ai, não conectaríamos com o Reino, mas vemos claramente que é uma ilustração do Reino por ele (ou o Evangelista) continuar com “Aquele que vem dos céus está acima de todos”. Ou seja, é claro que para ele o noivo e a noiva são só ilustrações palatáveis de um Senhor que chega de longe para tomar posse dos seus domínios.

Todavia, como a visão que eles tinham de reino era a de um tirano irresponsável que atropelava tudo o que achava pela frente, João o Batista propõe duas ilustrações agradáveis: O noivo e o pai.

Seja como for, os dois relatos chegam ao mesmo ponto: Quem não aceita Filho (como enviado do alto pelo Criador) continua condenado (compare 3:16-21 com 3:31-36)

    1. O oficial

No capítulo 4, encontramos a mesma coisa que no capítulo 3. O relato não junta os dois eventos, mas os dois eventos se juntam sob um mesmo assunto: O Reino chega aos não judeus.

Igual que na passagem de João o Batista do capítulo 3, esta passagem é muito rica em si mesma e pode e deve ser tratada como uma unidade tanto na escola bíblica como na vida devocional como nas pregações. Porém, ela tem uma riqueza extraordinária ao colocá-la ao lado da mulher samaritana.

Fica difícil dizer o que era que os judeus mais odiavam, se uma mulher samaritana de vida licenciosa ou a bota do soldado romano. Este rei mencionado no 4:46 é bem provável que seja o mesmo que mandaria mais tarde decapitar João o Batista já que ele era tetrarca de Galileia e Cafarnaum fica na Galileia.

O Reino chega aos que estão permanentemente sob a ira divina.

Este sistema de duas partes (a mulher e o oficial), satisfaz dois propósitos e atinge um imensurável número de pessoas: Primeiro, ele atinge aqueles que gostariam de serem inclusos no reino mas não podem por conta da religiosidade em vigor. Segundo, ele ataca a raiz do problema que são os impedimentos artificiais construídos pelos detentores do pedágio. A falta de fé dos que supostamente estavam ai para demarcar o caminho a Deus os tinha (ou nos tem) embrutecido ao ponto de não mais saberem para que estão no mundo.

A mulher junto ao poço e o oficial, encontram o caminho não por conta do esforço pessoal, mas porque o Reino está atingível a eles também. A fé não tem limites, a religião sim.

1Na realidade o assunto ‘água’ não se termina nunca em João e mereceria todo um estudo separado. À guisa de exemplo, vale mencionar que após o 7 ele está presente na cura do cego de nascença, no lavar dos pés dos discípulos, no lado de Jesus traspassado por uma lança e na última pesca maravilhosa.

2Antropogenia é a ciência que estuda as origens dos seres humanos. Estamos usando a palavra aqui num contexto mais restritos cientes da amplitude do que a palavra original pretende significar.

3A contagem dos primeiros dias de Jesus é interessante pois a fórmula “no dia seguinte” não mais aparece no evangelho a não ser em uma ou outra ocasião separada. Porém aqui, temos uma alta concentração de “no dia seguinte”. Já no 2:1 ele utiliza a fórmula “no terceiro dia”. Então, seria um dia relatado em 1:19-28, outro do 1:29-34, outro do 1:35-42, outro do 1:43 ao 1:51. Se a colocação “no terceiro dia” do 2:1 se refere ao terceiro de dois dias não relatados após o 1:50, dão um total de sete dias. Mas ai já é forçar a barra demais…

4Algumas traduções vão trazer “Não confiava neles” mas se bem essa pode ser a primeira ideia, o certo é que o que João está dizendo é que não “se” confiava a eles. Ou seja, não se entregava como a um amigo da alma.

5NVI vai traduzir “de novo” mas há duas coisas a dizer aqui: Primeiro que segundo me dizem, a melhor forma de traduzir ali é “do alto” Segundo, que Nicodemos interpreta ao longo do diálogo como sendo “de novo

Jesus e a Liberdade

Evangelho de João

Jesus e a Liberdade

João 8:1-9:41

    1. O que é a liberdade?

Para muitos tem a ver com poder fazer o que bem entender. Para outros é poder se esconder tanto ao ponto que não pode ser descoberto o dano feito ou planejado. Ou seja, a liberdade é um bem que se tem ou se compra e que cada vez fica mais caro.

Gostemos ou não, liberdade e caráter são duas faces de uma mesma moeda: faltando uma delas a outra perde valor.

Via de regra, no meio evangélico há os que gostam de misturar o conceito de liberdade com o de liberalidade e libertinagem ao passo que há os que – por falta de liberdade – gostam de vigiar a liberdade alheia.

    1. O texto

Somos cientes de que o capítulo 8 de joão (ou seja os versículos que vão do 7:53 ao 8:11) não fazem parte do texto original, mas entendemos que isso não lhe resta valor até porque o que ali está contido está em consonância com o restante do evangelho, em particular com o de João, se bem que o relato tem mais jeitão de sinótico do que joanino.1

Dito isto, precisamos observar a maravilha destas duas passagens. Há duas pessoas que haviam perdido sua liberdade. Uma por conta do pecado e outra…. bom, oras, é claro que alguém havia pecado, ninguém nasce cego porque sim. Bom, ao menos era o que a sociedade da época pensava e por isso tinha relegado este cego de nascença ao abandono e miséria social e espiritual.

Há aqui duas liberdades: 1) A liberdade de um pecado em particular 2) A liberdade dos efeitos do Pecado em geral.

    1. As pessoas sendo libertadas

A mulher cometia com regularidade o adultério. Tinha-se entregado a este prazer como se um vício fosse. As primeiras vezes ninguém sabia. Depois ficou conhecida, marcada, estigmatizada e não deu mais bola ao seu próprio destino. Este pecado, no início prazeroso e motivante, a havia enjaulado. Parecia livre mas não era. Prestes a ser morta, Jesus a liberta.

Já o jovem nascido cego era vítima não de um pecado em particular. Penso eu que os editores posteriores do evangelho se viram meio como que obrigados a incluir o pedaço do capítulo 8 da mulher adúltera porque a imagem de um ser nascido em trevas e que essas trevas fossem consideradas um fruto do pecado (particular mas desconhecido no caso) pareceria repulsivo aos primeiros leitores não judeus. A inclusão da mulher adultera sendo perdoada antes do cego, por mais repulsiva que a atitude pareça à sociedade do momento (judia, grega e romana) era mais palatável do que a retorcida visão de um Deus injusto e carrasco que se comprazia em descontar nos filhos os erros dos pais.

Este jovem, muito inteligente por sinal, era um segregado social por conta de uma posição teológica correta mas parcial. Dito em termos mais longos: é verdade que toda doença e a própria morte é resultado do Pecado na vida do ser humano; mas não é certo pensar que cada doença e cada morte é fruto de um pecado específico da pessoa ou dos seus pais.

    1. O Pecado e os pecados

Fazemos então uma distinção entre aquilo que é um pecado pessoal e o que é o Pecado como força que opera em toda a criação de forma invasiva.

Esta distinção a mostramos neste escrito utilizando a letra ‘P’ – em maiúscula – ao inicio da palavra Pecado para nos referirmos a esse poder que permeia sistemicamente toda a criação de Deus em maior ou menor medida, ao passo que utilizamos a letra ‘p’ – em minusculas – para nos referir às decisões particulares e pessoais que diferem da vontade de Deus.

Então, se bem no primeiro exemplo há uma liberação de um pecado específico (e com isso uma apertura para a vida) no segundo exemplo há uma liberação da condenação improcedente que os lideres judeus mantinham sobre seu irmão. Em qualquer dos dois casos quem perdia a liberdade era a aberração religiosa à que os dois casos estavam sujeitos. Não é por acaso que os dois blocos são antepostos a diálogos e discursos que tem a ver com liberdade, cegueira, etc.

    1. O discurso de Jesus

Não é correto dizer que há um único discurso nessas duas passagens. Há vários e separados no tempo. Todavia, o discurso ou o grande assunto é o mesmo: Jesus é a Luz do Mundo. Encontramos essa afirmação logo depois do relato da mulher adultera (8:12) e no encontro com o cego de nascença (9:5).

Então, não é errado considerar tudo o que Jesus fala a respeito de si mesmo um único pronunciamento sobre o fato de que Ele é a Luz do Mundo. As outras alocuções são colocadas justamente para reafirmar este fato. No capítulo oito vemos que ele está em pé de igualdade com o criador (8:27) e que é maior que Abraão (8:53-59). Já no capítulo nove observamos que ele se coloca como quem traz a abertura dos olhos espirituais ou aquele que faz o ser humano enxergar (9:39)

Todavia, por trás disso tudo está o velho discurso filosófico da descoberta da verdade. Antes de ser tido por blasfemo (9:59 como consequência ao “EU SOU” que ecoa do 8:27 e do Gênesis) a tentativa é de tratá-lo como mentiroso. Observe por exemplo os versículos 8:13; 40; 44b-46 e 55.

É – em síntese – o grande dilema humano: a descoberta da verdade como coisa objetiva e uma vez descoberta, viver por ela. Os grupos que se antepõem a Jesus, os escribas e os fariseus, levavam a serio a vida espiritual deles. Homem nenhum em sã consciência confia sua vida em uma coisa que sabe ser errada. Ele precisa estar plenamente convicto que aquilo que ele acredita é o correto, ou seja, a verdade. De outra forma, ele passaria a tentar descobrir uma outra verdade, seja por humildade, por desconhecimento, ou por descobrir que aquilo que ele pratica não é a verdade.

Jesus se planta como a luz e – por conseguinte – o discurso dele ou é verdade ou mentira. Não há como ser morno ao respeito disso. Estamos em uma época em que as coisas são relativas e antes desta época as coisas já eram relativas mas não levavam esse nome por não ter Einsten elaborado uma teoria com esse nome. Levamos então essa relatividade subjetiva a campos em que não deveria ser levada. Tanto levamos a sério nossa própria perspectiva das coisas que nos esquecemos que somos uma brisa neste mundo e logo logo passamos.

Nesse ponto então, nossa sociedade pouco se distingue dos fariseus e os escribas. Temos plena convicção das nossas próprias verdades e, como a morte única seguida da ressurreição não podem ser comprovadas cientificamente, acreditamos em qualquer coisa contraria a estas porque – ao final das contas – se não pode ser provado, achamos que é mentira.

É fácil julgar os escribas e fariseus. Difícil é encarar que somos tão cegos e guias de cegos quanto eles. Mas cegos do que? O que é que os fariseus, escribas e pessoas comuns não enxergavam? O que é que a sociedade religiosa e o homem de a pé de hoje não conseguem ver?

    1. Falsas Liberdades e Falsas Prisões

Um outro elo que vemos entre os dois relatos é o da ideia de que um ser humano é livre na medida que peca ao passo que outro que se preserva, está aprisionado. A mulher adultera levada uma vida que por muitos poderia ser invejada. Já a cegueira do homem, não era invejada por ninguém. Nada prendia à mulher, tudo era uma limitação para o cego.

Por outro lado, da mulher nada mais sabemos2. Ela simplesmente some após as palavras de Jesus “Vá embora e não peques mais” Já o cego de nascença se mostrou quase que arrogante quando foi interrogado pelos líderes judeus e humilde ao se ajoelhar perante Jesus. Estava o cego na sua aparente prisão aguardando pelo seu libertador? Poderia a mulher em algum momento da sua aparente liberdade ter tido tempo para pensar em algum libertador?

    1. Falsa visão

Dizem que um bom mestre não é aquele que da as respostas mas sim o que é capaz de provocar mais perguntas. Não é à toa que chamamos Jesus de Mestre. Numa das passagens mais lindas e enigmáticas da escritura ele diz assim “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece”

Os fariseus que estavam acompanhando Jesus, se sentem atingidos pela colocação “e os que vêm sejam cegos” pois eles achavam que viam e que podiam conduzir os outros. Todavia, externam a opção contraria para que Jesus os inclua na que eles queriam estar. Ou seja, não queriam estar entre aqueles que viam porque segundo as palavras de Jesus se tornariam cegos por conta do seu juízo.

É claro que eles achavam de si mesmos que eram guias de cegos, luz dos que estavam em trevas3. Talvez o camuflavam se fazendo de humildes, mas, no fundo, no fundo, eles achavam que eram os melhores. A sociedade seria pior sem eles. As pessoas se perderiam sem a luz deles.

Jesus conhecia o que havia no coração deles (2:24-25) e por essa razão não entra no joguinho deles e sintetiza todo o problema com a mesma firmeza que os tinha tratado de mentirosos em versículos anteriores: Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece. Simplesmente fascinante.

    1. Prisão, cegueira, liberdade

A verdadeira prisão do homem é o Pecado. A cegueira é uma consequência do próprio Pecado que se manifesta em aparente liberdade e saber das coisas divinas. Esse sistema de duas partes, torna o homem preso numa ilusão de liberdade que nem ele mesmo consegue enxergar4.

Torna-se, então, necessário um libertador; alguém que puxe o ser humano (cada indivíduo, na realidade) desse calabouço em que ele vive. Mas como?

Se o indivíduo diz que não enxerga, é mentiroso. Se diz que vê o pecado permanece. É o equivalente teológico de se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.

Jesus dá a solução, mas não é um remédio agradável para quem vê de fora. Trata-se de uma rendição incondicional. Diz João 8:31 “Se permanecerem firmes, … serão meus discípulos” e acrescenta “e conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” Há um processo ali que inicia com uma mudança de cabeça ao crer em Jesus (8:30) mas a liberdade só é alcançada por quem permanece firme na palavra passando pelo estágio de ser discípulo.

O caminho de Cristo não se trata de um caminho de autoconhecimento. Nem sequer é o caminho de descoberta de valores, verdades ou práticas ocultas para os não iniciados. Tampouco é um caminho comunitário em que o objetivo da liberdade se consegue em conjunto.

O caminho de Cristo tem a ver com rendição incondicional e morte espiritual.

Quer ser livre? Renda-se.

1A colocação do 7:53 “Jesus foi para o monte das oliveiras. De madrugada ele voltou ao pátio do Templo” parece se encaixar melhor logo após Lucas 21:38

2Algumas tradições cristãs a identificam com Maria Madalena, mas isso é mera conjectura podendo esta ideia tanto ser aceita como rejeitada

3Romanos 2:17-23

4Recomendo assistir o Show de Truman e Matrix para uma melhor compreensão da ideia de prisão maravilhosa.