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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

Jesus e a Inteligência Artificial

Há poucos dias aconteceu uma cena curiosa em nosso trabalho.

Grande parte de nosso fluxo de desenvolvimento já passa pela inteligência artificial. Ela sugere código, revisa trechos, aponta erros, organiza ideias. Então, de repente, acabaram os créditos da plataforma que estávamos usando. A renovação só aconteceria no dia seguinte.

Ficamos olhando um para o outro.

Não porque tivéssemos desaprendido a programar (embora já hajam evidencias de certo raquitismo mental). Mas porque, sem perceber, havíamos deixado de enxergar boa parte do caminho que o código percorria até chegar às nossas mãos. A ferramenta havia se tornado tão presente que já fazia parte da própria maneira como pensávamos.

Suspeito que isso acontecerá com toda a sociedade.


Pode ser que você não esteja ciente, mas a inteligência artificial foi alimentada com tudo o que a humanidade tem produzido de forma escrita ou gráfica ou qualquer outro meio que possa ser digitalizado. Hoje, quando ela responde a uma pergunta, o faz baseado nesse conhecimento. Além disso, ela usa fontes abertas na internet para continuar “aprendendo” e assim poder responder de forma atualizada.

Em 2026 atravessamos um umbral importante: mais do 50% do conteúdo de internet foi produzido pela inteligência artificial. Inevitavelmente isso nos leva a que a própria inteligência artificial vai estar produzindo conteúdo a partir de outro conteúdo que ela mesma produziu ou ajudou a produzir. Com isso a criatividade humana vai sendo deixada de lado pela facilidade do uso de conhecimento acumulado… sem mais produzir conteúdo relevante novo.

Voltemos ao texto


Ninguém hoje para para refletir sobre a eletricidade antes de acender uma lâmpada. Não pensamos na engenharia dos reservatórios, a altitude que devem estar para usar a força da gravidade, e outras coisas parecidas quando abrimos a torneira. Nem compreendemos toda a cadeia que permite um avião cruzar o oceano.

Simplesmente usamos.

Com a inteligência artificial acontecerá o mesmo.

Mas existe uma diferença importante.

A eletricidade não interpreta por nós. Assim como a água encanada não pensa por nós.

A inteligência artificial, de certo modo (e sem ser inteligência, apenas lógica muito rápida), interpreta. Resume. Organiza. Prioriza, Sugere. Ela toca justamente aquilo que consideramos mais humano: nossa capacidade de compreender, que por sua vez conecta com nossa capacidade criativa.

Talvez por isso ela nos obrigue a voltar a uma pergunta muito antiga.

Quando um intérprete da Lei perguntou a Jesus como herdaria a vida eterna, Jesus respondeu com duas perguntas:

“Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas?” (Lucas 10.26, ARA)

Sempre me impressionou que Jesus não perguntasse apenas o que estava escrito. Ele perguntou como aquele homem lia.

O problema nunca foi apenas o texto. O problema é também o leitor.

Isso vale para a Bíblia. Vale para a história. Vale para a política. Vale para a própria inteligência artificial.

Não estamos apenas formando respostas. Estamos formando leitores.

Talvez seja justamente aqui que a igreja precise recuperar algo que foi perdendo ao longo do tempo.

Um amigo me perguntou recentemente se não tenho receio de que um projeto de inteligência artificial voltado para pregadores faça os cristãos pensarem menos.

Minha resposta foi desconfortável até para mim.

Talvez tenhamos desistido do pensamento crítico muito antes da inteligência artificial. Há muito tempo aprendemos a ler a Bíblia através dos comentários. Escolhemos autores que confirmem nossa tradição, nossa escola teológica, nossas preferências. Muitas vezes conhecemos melhor os intérpretes do que o próprio texto.

Calvinistas e arminianos (por não falar dos molinistas e outras correntes), por exemplo, frequentemente acusam um ao outro de forçar as Escrituras. Talvez ambos devessem começar pela mesma pergunta de Jesus:

“Como interpretas?”

Isso não significa desprezar a tradição.

Muito pelo contrário.

Pedro escreve que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação privada (2Pedro 1.20-21, ARA). Paulo afirma que o espírito dos profetas está sujeito aos próprios profetas (1Coríntios 14.32-33, ARA). A interpretação bíblica nunca foi uma experiência isolada, quase mística, entre um individuo e seu texto (de fato as seitas surgem assim). Sempre aconteceu na vida do povo de Deus, onde irmãos corrigem irmãos, gerações dialogam entre si e a própria Escritura julga nossas conclusões.

A revelação foi entregue à igreja, não ao indivíduo. Baste apenas considerar como a igreja resolveu a grande disparidade sobre a inclusão dos gentios no povo de Deus. Os apóstolos e presbíteros reuniram-se, ouviram diferentes testemunhos, examinaram as Escrituras e chegaram juntos a uma conclusão (Atos 15.1-29, ARA). Não foi uma solução de compromisso político, mas de comprometimento comum diante da ação de Deus e da sua Palavra. Sem aquele concílio, provavelmente nem você nem eu teríamos sido alcançados pelo evangelho da mesma forma.

Isso faz toda a diferença.

Recentemente ouvi Luis Felipe Pondé defender a volta da prova oral como elemento mitigador do uso das inteligências artificiais por parte dos alunos. Achei a ideia interessante. Uma prova escrita pode revelar que alguém organizou bem informações. Mas uma conversa revela algo mais profundo. Descobre rapidamente se aquele conhecimento virou carne ou continua sendo apenas repetição.

Talvez seja exatamente por isso que Jesus fazia tantas perguntas.

Ele não estava colecionando respostas.

Ele estava formando pessoas.

E pessoas não amadurecem apenas acumulando informação. Amadurecem quando precisam responder diante de alguém.

É curioso perceber que a própria inteligência artificial nos empurra de volta para essa necessidade. Ela pode resumir bibliotecas inteiras, comparar traduções, encontrar paralelos, organizar argumentos. Tudo isso tem enorme valor. Eu mesmo a utilizo diariamente.

Mas ela não pertence ao Corpo de Cristo (1Coríntios 12:12-27 ARA)

Ela não participa da comunhão dos santos.

Ela não visita um enfermo. Não acompanha um enlutado. Não reparte o pão. Não celebra a Ceia. Não caminha ao lado de alguém cuja fé está desmoronando.

Essas coisas continuam acontecendo entre pessoas.

Talvez seja esse o verdadeiro desafio do nosso tempo.

Não decidir se usaremos inteligência artificial. Lembre o que já aconteceu com a máquina a vapor, a máquina de escrever, o computador, o processador de texto, etc.

Nós a usaremos. De forma consciente ou não.

A pergunta é outra.

Continuaremos permitindo que a Palavra de Deus ocupe o centro (2Tim. 3:16-17; Hebreus 4.12, ARA), ou ela se tornará apenas mais uma voz entre comentários, algoritmos, vídeos, resumos e opiniões?

No fim, a tecnologia foi apenas o ponto de partida.

A pergunta continua sendo a mesma de dois mil anos atrás.]

Como interpretas?

Milagres do cotidiano

Toda passagem conhecida corre um risco

Via de regra, quando lemos uma passagem bíblica pela primeira vez, ou ouvimos uma primeira pregação sobre ela, formamos uma ideia a seu respeito. E, como costuma acontecer, a primeira impressão acaba ficando. Todos nós desenvolvemos um jeito de interpretar determinados textos das Escrituras. Talvez, mais tarde, voltemos a eles para tirar outras lições. Mas, depois que chegamos a uma conclusão, é muito difícil enxergar a mesma passagem de outra forma.

O que, normalmente, muda esse olhar? Às vezes, uma experiência de vida. Às vezes, o tempo. Outras vezes, novos aprendizados. Mas, sobretudo, a disposição de continuar buscando, sem se satisfazer com a primeira leitura. A primeira leitura é apenas a antessala de um banquete muito maior.

Talvez seja justamente isso que nos falte. Somos criaturas de hábito. E o hábito, quando chega à Bíblia, pode nos impedir de enxergar novas tonalidades do mesmo texto.

Uma dessas passagens é o início de João 6.

É um texto tão conhecido quanto a parábola do filho pródigo ou a crucificação de Jesus. E, quase sempre, terminamos na mesma conclusão: “Entregue a Jesus o pouco que você tem.”

Essa conclusão não está errada. Pelo contrário, faz justiça ao texto.

O problema é que, quando chegamos rápido demais à conclusão, deixamos de apreciar a paisagem.

Por que acreditar nessa história?

O relato da alimentação da multidão aparece nos quatro Evangelhos. Isso, por si só, já chama a atenção. Afinal, João é bastante diferente dos outros três evangelistas. Mateus, Marcos e Lucas são chamados de sinóticos porque seguem uma estrutura muito semelhante. João escreve de outra maneira.

E ele explica por quê.

No final do seu Evangelho, afirma que Jesus realizou muitos outros sinais que não foram registrados, “mas estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”.

Nada ali é ocasional.

João escolhe cuidadosamente os acontecimentos que narra. E não é por acaso que coloca a multiplicação dos pães antes do grande discurso sobre Jesus como o Pão da Vida.

Além disso, os Evangelhos foram escritos quando ainda havia muitas testemunhas vivas daqueles acontecimentos. Trinta anos haviam se passado desde a morte e ressurreição de Cristo. Era tempo suficiente para que os apóstolos percebessem a necessidade de registrar por escrito aquilo que a Igreja anunciava desde o princípio, mas ainda havia gente capaz de confirmar ou negar aqueles fatos.

Ou essa história aconteceu, ou ela seria uma mentira monumental.

Não existe muito espaço entre uma coisa e outra.

E uma comunidade que estava disposta a morrer por aquilo que anunciava dificilmente construiria sua mensagem sobre uma fábula tão facilmente desmentida.

Partindo, então, do pressuposto de que estamos diante de um fato verdadeiro, vale a pena observar alguns detalhes.

Quem preparou aquele almoço?

Jesus ensinava uma multidão enorme.

Falar ao ar livre para cinco mil pessoas já seria, por si só, um desafio extraordinário. Era preciso manter a atenção, fazer a mensagem chegar aos que estavam mais longe, não perder o fio da conversa.

Mas chega um momento em que surge uma preocupação muito simples.

Quem vai alimentar esse povo?

Jesus chama Filipe e pergunta onde poderiam comprar pão para tanta gente. O próprio texto explica que Jesus fazia isso para experimentá-lo, pois sabia muito bem o que faria.

As provações sempre são mais para nós do que para Deus. Não servem para provar nossa fidelidade a Ele. Servem para revelar a nós mesmos quem realmente somos.

Filipe olha para a situação e responde da maneira mais honesta possível. Nem duzentos denários — praticamente o salário de duzentos dias de trabalho — seriam suficientes para que cada pessoa recebesse um pequeno pedaço de pão.

Então André aparece.

E faz exatamente o que já havia feito no primeiro capítulo do Evangelho. Lá, ele encontra seu irmão Simão e o leva até Jesus. Agora encontra um menino e faz a mesma coisa.

“Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes…”

João é o único evangelista que conta isso.

É o único que diz que os pães eram de cevada.

É o único que menciona o menino.

E isso desperta uma série de perguntas.

Quem preparou aquele lanche?

A mãe?

O próprio menino?

Quem pensou que ele passaria o dia fora e precisaria levar comida?

A cevada era o pão do povo simples. Não da miséria absoluta, mas da mesa cotidiana dos trabalhadores. E aqueles peixes provavelmente eram pequenos peixes salgados, usados mais como acompanhamento do que como alimento principal.

Era uma marmita comum.

Nada extraordinário.

E talvez seja justamente aí que mora o extraordinário.

O Deus que continua criando

Nós costumamos esperar que Deus intervenha suspendendo as leis da natureza.

Mas este sinal começa justamente com a natureza funcionando perfeitamente.

Houve chuva.

Houve terra.

Houve plantio.

Houve colheita.

Alguém moeu a cevada.

Alguém assou o pão.

Alguém pescou aqueles peixes.

Alguém preparou aquele almoço.

E só depois Jesus o tomou em suas mãos.

João chama esses acontecimentos de sinais.

E um sinal sempre aponta para alguma coisa maior.

Talvez este aponte justamente para o fato de que Deus não desistiu da sua criação.

Vivemos cercados por uma espiritualidade que parece desejar escapar do mundo. Como se a criação fosse apenas um lugar provisório do qual a alma precisa fugir.

O Evangelho aponta na direção contrária.

O Verbo se fez carne.

Deus entrou na criação.

E, diante daquela multidão, escolheu realizar um sinal utilizando exatamente aquilo que a própria criação havia produzido e que mãos humanas haviam preparado.

O Reino não começa destruindo o mundo.

Começa restaurando-o.

Por isso, talvez a grande lição desse texto não seja apenas entregar a Jesus o pouco que temos nas mãos.

Talvez seja aprender a olhar para o cotidiano com outros olhos.

Porque Deus continua fazendo o extraordinário a partir do ordinário.

Cinco pães de cevada.

Dois peixes.

Um menino anônimo.

Uma família que jamais imaginou que o almoço preparado naquela manhã faria parte da história da redenção.

Talvez seja justamente assim que Deus continua trabalhando.

E talvez nós estejamos procurando os seus milagres no lugar errado.

Quem a igreja deve julgar?

Há alguns assuntos que, ao longo dos anos, se tornaram praticamente proibidos dentro da igreja. Um deles é o julgamento. Basta alguém citar “não julgueis, para que não sejais julgados”, e parece que toda a conversa termina ali. Como se Jesus tivesse proibido qualquer forma de discernimento, qualquer forma de correção, qualquer forma de disciplina.

O problema é que a igreja acabou absorvendo muito mais da cultura ao seu redor do que imagina. Passamos a chamar de amor aquilo que a Escritura jamais chamou. Um amor que nunca confronta, nunca corrige, nunca chama ao arrependimento. Um amor que apenas acolhe. Mas esse não é o amor bíblico. O amor de Deus jamais é irresponsável. Ele é paciente, misericordioso e cheio de graça. Mas justamente por amar, ele também corrige.

Por isso a pergunta não é se a igreja pode julgar. A pergunta é outra: quem a igreja deve julgar?

Paulo responde de maneira surpreendente. “Pois que me importa julgar os de fora?” E, antes que alguém tire uma conclusão precipitada, ele mesmo explica. Quando escreveu para não se associarem com pessoas devassas, avaras, idólatras, maldizentes, bêbadas ou roubadoras, não estava falando dos que pertencem ao mundo. Porque, se fosse assim, diz ele, “seria necessário sair do mundo”.

Essa observação muda completamente a discussão.

O problema nunca foi conviver com pecadores. Se fosse esse o problema, Jesus jamais teria se sentado à mesa com publicanos e prostitutas. A igreja não foi enviada para fugir do mundo, mas para anunciar Cristo ao mundo.

Então de quem Paulo está falando?

Daquele que se diz irmão.

Daquele que deseja ser reconhecido como membro do corpo de Cristo, participa da comunhão da igreja, mas decidiu permanecer em rebeldia contra Cristo sem qualquer arrependimento.

A diferença não está na gravidade do pecado. Está na verdade da comunhão.

Porque o perdido normalmente sabe que está perdido.

O autoenganado acredita que encontrou a Cristo enquanto continua caminhando na direção oposta.

É justamente esse autoengano que a igreja não pode confirmar.

Mas para entendermos isso precisamos voltar um pouco.

Em Mateus 18, Jesus apresenta o caminho da disciplina. Se teu irmão pecar contra ti, vai falar com ele. Sozinho. Se ele ouvir, ganhaste teu irmão. Se não ouvir, leve testemunhas. Se ainda assim não ouvir, diga à igreja. Somente depois de percorrido todo esse caminho é que Jesus diz para tratá-lo como gentio e publicano.

Perceba que, desde o início, o objetivo nunca foi expulsar alguém.

O objetivo sempre foi ganhar o irmão.

A disciplina é o último recurso quando todas as tentativas de restauração fracassaram.

À primeira vista, parece um problema pessoal. Um irmão pecou contra outro irmão. Mas apenas à primeira vista.

Porque o Novo Testamento vai revelar que nenhum pecado dentro da igreja é apenas um problema entre duas pessoas.

Quando Saulo perseguia os cristãos, Jesus não perguntou: “Por que persegues a minha igreja?”

Perguntou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”

A agressão contra o corpo foi tratada como uma agressão contra a própria cabeça.

Mais tarde, o próprio Paulo desenvolverá essa verdade. A igreja é o corpo de Cristo. Se um membro sofre, todos sofrem. Se um membro adoece, o corpo inteiro adoece. “Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?” E aos coríntios ele escreve como quem sente “dores de parto” por aqueles irmãos.

Então a disciplina deixa de ser um conflito entre duas pessoas.

Ela passa a ser uma questão do próprio corpo de Cristo.

Quando um membro adoece, o restante do corpo não pode fingir que nada aconteceu. Também não pode amputá-lo por conveniência. O corpo mobiliza tudo o que possui para restaurá-lo.

É exatamente isso que acontece em 1 Coríntios 5.

A igreja estava orgulhosa de uma tolerância que Paulo considera incompatível com o evangelho. Um homem vivia publicamente em pecado, recusava-se ao arrependimento, e a igreja continuava tratando aquilo como se fosse apenas uma expressão da graça.

Paulo reage.

Não porque aquele homem estivesse além da graça.

Mas porque a igreja estava usando a graça para confirmar uma mentira.

Então ele ordena que aquele homem seja afastado da comunhão.

Esse talvez seja um dos textos mais duros do Novo Testamento.

Mas somente até lermos o motivo.

O objetivo não é destruí-lo.

Não é preservar a imagem da igreja.

Não é demonstrar superioridade moral.

É para que ele desperte.

É para que deixe de viver no pior estado espiritual possível: acreditar-se unido a Cristo enquanto rejeita, deliberadamente, o senhorio de Cristo.

A disciplina não rompe a comunhão.

Ela apenas torna visível uma ruptura que já aconteceu no coração.

Mas a história não termina aí.

Anos depois, escrevendo novamente aos coríntios, Paulo manda fazer o movimento inverso. Agora é tempo de consolar. É tempo de confirmar o amor. É tempo de receber novamente aquele irmão, para que não seja consumido por excessiva tristeza.

Independentemente de se tratar exatamente da mesma pessoa ou de outro caso, o princípio permanece idêntico.

O mesmo apóstolo que mandou afastar agora manda restaurar.

Porque o objetivo nunca foi perder alguém.

Foi sempre recuperá-lo.

É por isso que Hebreus afirma que Deus corrige a quem ama.

Não corrige porque deixou de amar.

Corrige justamente porque ama.

Talvez o maior erro da igreja contemporânea seja separar essas duas coisas.

Há igrejas que falam tanto de graça que abandonaram a disciplina.

Há igrejas que falam tanto de disciplina que esqueceram a graça.

O evangelho não permite nenhum desses extremos.

A igreja não disciplina porque se considera melhor.

Disciplina porque entende que um membro doente compromete todo o corpo.

E restaura porque entende que aquele mesmo membro continua sendo alvo do amor de Cristo.

No fim das contas, a marca do cristão nunca foi a perfeição.

Também não é o conhecimento bíblico, os dons espirituais ou a reputação.

A marca do cristão é o arrependimento.

Enquanto existe arrependimento, existe comunhão.

Quando ele desaparece, a igreja ama o suficiente para corrigir.

E, quando ele reaparece, ama o suficiente para restaurar.

É assim que Cristo trata o seu corpo. E é assim que o corpo de Cristo deve aprender a cuidar de si mesmo.

Onde Deus passa 8H por dia?

Talvez você nunca tenha parado para pensar, mas onde é que Deus passa oito horas por dia?

Obvio que sabemos que Deus é fora do tempo e o espaço. As duas coisas são obras dele, logo, ele não está sujeito a essas contingências. Contudo, toda vez que Deus precisa de interagir com o ser humano, ele o faz dentro do tempo e do espaço para e no qual o homem foi criado.

Com isso, a pergunta toma traços mais objetivos. Ao final de contas se seres angelicais têm suas manifestações dentro desse âmbito (como no livro de salmos 34:7 – deO anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra) ou quando Deus desce ao monte em meio ao fogo (Êxodo 19:18) ou quando Deus preenche o templo com sua presença num cenário histórico, geográfico, político real. (Isaías 6) por citar alguns exemplos.

Vale então a pergunta, Onde Deus passa oito horas por dia? Talvez alguns responderiam “na igreja” (supondo que a igreja é um lugar físico, por exemplo). Outros diriam “na igreja” (supondo que a igreja é uma coisa mística do além que não toca o cotidiano). Outros, diriam “em todos os lugares”. Outros, beirando o panteísmo ou manifestando plenamente ele: “em todas as coisas”

Mas a pergunta continua válida. Se olharmos para a vida de Jesus, a resposta é surpreendente.

Jesus trabalhou mais do que pregou

Existe uma diferença brutal no tempo que Jesus trabalhou (alguma coisa como 20 e alguns anos) e o que ele pregou (algo ao redor de três anos. Arredondando: 90% da vida dele a dedicou ao aprendizado e à vida profissional ao passo que pouco mais de 9% investiu no ministério.

Ele acompanhou ao seu padrasto aprendendo o oficio dele, o jeito de lidar com as pessoas, a forma de analisar os materiais, como trabalhar esse material para satisfazer o cliente. Deve ter passado fases boas e ruins. Prazo, Qualidade, Esforço, Cansaço.

Por que Deus decidiu manifestar seu filho dessa forma?

A divisão que inventamos

Sem perceber, aprendemos a dividir a vida em dois territórios: o sacro e o profano.

A “igreja” (que para muitos significa a construção física e não as pessoas como na Bíblia), mas – como vinha dizendo – a “igreja” virou um lugar sagrado. Seria o local de contato entre o terreno e o divino. Um pedaço de terreno santo em que se anda diferente, se fala diferente, se pensa diferente do que “no mundo”. E isso com maior ênfase nos domingos à noite durante 90 minutos num ritual que é repetido até o cansaço.

É verdade que na velha aliança (ou no velho testamento se quiser) havia uma separação rígida bem estabelecida. Em lugar das relações orgásticas que os povos praticavam, a proposta que Deus entregou aos povo hebreu quando o escolheu, incluía uma separação do santo com o sagrado que é nitidamente vista na sarça ardendo, no véu de Moises, na instituição do sacerdócio, na tenda da revelação durante o deserto, no templo de Salomão com toda sua glória e no segundo templo com todo aquele esplendor terreno que Herodes o Grande lhe deu.

No novo pacto. Na exata consumação do sacrifício sacerdotal perfeito, o véu do templo se rasgou. Mateus 27:51ss o descreve de forma esplêndida, com uns detalhes difíceis de aceitar ou acreditar mas completamente compatíveis com o que estava acontecendo: um novo reino (ocupando exatamente o mesmo tempo e espaço do reino anterior – Romanos 5:21ss) acabava de ser inaugurado e – diferentemente do pensamento popular – a redenção da criação completa tinha dado começo (não apenas da alma de alguns seres humanos)

Então, como dizia, esse novo pacto, ou aliança, ou testamento, ou era, é gradativamente percebido pelos primeiros discípulos e vai tomando vulto e se estendendo. Isso leva, obrigatoriamente, a ter que ler e interpretar de novo um monte de coisas, mas o que fica claro é que aquilo planejado, prometido e aguardado no antigo testamento se cristalizava agora no novo. E o que vemos nas cartas dos apóstolos e do autor do livro aos hebreus e dos discípulos dos apóstolos? Todos eles em suas cartas, tratam da vida comum porque é ali que a fé se torna concreta.

O trabalho revela quem realmente somos

Talvez Deus passe tantas horas conosco no trabalho porque é ali que as máscaras duram menos

Por um momento se imagine naqueles 90 minutos de culto comunitário localizado repetitivo. Não há surpresas, logo, não há renovação de pensamento. Também não há muito lugar para a impaciência, ou a mentira, ou o orgulho. Se eu lhe conheço apenas do domingo à noite, os dois vamos levar a impressão de que somos quase santos (não no sentido de chamados escolhidos, mas o de pessoas de conduta e pensamento ilibado)

Agora, deixe-me acompanhar você ao serviço alguns dias. Sem que você saiba que eu sou pastor evangélico ou seu irmão de fé. Apenas um colega novo de serviço. Ou ao contrário, você me acompanha ao meu serviço. Você que entrou a trabalhar no mesmo ambiente laboral que eu na segunda-feira que passou.

É lá onde vamos conhecer e dar a conhecer a paciência, o orgulho, a ambição, a mentira, a justiça, a generosidade, o perdão. O escritório, a oficina, a sala de aula ou a fábrica funcionam como laboratório da verdadeira santificação.

Não há mais distinção entre um local sagrado e outro profano. O que há é o Reino de Deus (ou o Reino dos Céus, depende de qual evangelista você gosta) avançando e as portas do hades sendo arrombadas pelo movimento dos filhos de Deus.

O trabalho nunca foi uma maldição

O Pecado tornou o trabalho pesado, não que o trabalho é uma invenção do Pecado. (Aviso para os navegantes, a distinção de usus-loquendi entre “pecado” – com minúsculo – e “Pecado” se deve a distinguir o primeiro como as decisões pessoais contra a vontade de Deus a passo que o segundo é o reino do pecado inaugurado com a queda do homem – Rom.5:12..)

O trabalho nunca foi castigo; foi plano original. Desde o princípio, Deus colocou o homem no jardim para o “cultivar e o guardar” (Gn 2:15) e lhe deu propósito para dominar e encher a terra (Gn 1:28). Os dois relatos da criação contêm essa mesma ideia.

O que se tornou castigo foi a frustração e a dor que entraram com a queda: “com sofrimento tirarás … o teu pão … no suor do teu rosto” (Gn.3:17-19), e até as dores de parto apontam para essa realidade da tribulação (Gn. 3:16). Por isso a criação geme “com dores de parto” (Rm 8:19-22) enquanto o próprio Deus não desiste dela: sua restauração continua até a consumação da “nova terra”, quando tudo é feito novo (Ap. 21:1-5). Assim, o reino aqui e agora, é continuação do plano original, e também na manifestação final haverá serviço no mundo renovado – não castigo (Ap 21:3-4; 22:3-5)

Antes da queda, então, já existiam cultivo, cuidado, criatividade, organização, responsabilidade. O mandato cultural vem antes do pecado. O cansaço é consequência da queda; o trabalho não.

E simplificando o último parágrafo grande (mas sem o qual eu estaria deixando em escuro sobre a visão bíblica): Trabalhar faz parte da imagem de Deus. Criamos porque fomos criados por um Criador.

Deus continua trabalhando

Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora. E eu também trabalho” (Jo 5:17) Essa frase não é brincadeira.

Entendemos que a Bíblia é a única regra de fé e prática. E também entendemos que é uma auto-revelação progressiva de deus nas vestes de experiência humana. Logo, se Jesus (manifestação máxima da palavra de Deus) está dizendo que as coisas são de um jeito, podemos descansar que é exatamente desse jeito e de nenhum outro por mais parecido que seja.

Deus não descansou da criação porque perdeu o interesse nela. Ele continua sustentando, governando, reconciliando e conduzindo a história. O trabalho digno é o reflexo desse Deus que permanece ativo.

Uma última olhada sobre a eternidade

Em parágrafos anteriores te cutuquei um pouco com a ideia de que a eternidade é um tempo/espaço de serviço. Deixei de molho porque talvez já era muito com aquilo de que o trabalho não é um castigo divino. Vem comigo agora a darmos uma olhada pela outra ponta da história.

Talvez nossa imaginação sobre o céu (como habitáculo de Deus e de onde a Jerusalem celestial desce) seja pequena demais.

Não é difícil encontrar as caricaturas limitantes de nuvens, anjinhos com asas, harpas, sorrisos tipo propaganda de gelatina ou margarina… enfim.

A Bíblia encerra seu relato com uma cidade, não com um jardim vazio. Há cultura, reis trazendo sua glória, serviço, criatividade, governo e plenitude. Não trabalharemos para sobreviver, mas porque a criação finalmente será aquilo que sempre deveria ter sido. O trabalho deixa de ser sobrevivência para voltar a ser alegria.

Finalmente

Talvez a pergunta nunca tenha sido como servir a Deus no trabalho.

Muitas vezes se ouvem histórias pseudo-gloriosas de pessoas que roubam seus patrões usando as horas de serviço para uma ação evangelista proselitista.

Outros têm entendido que “Levar Cristo para o escritório” é carregar um crucifixo ou ler a Bíblia em público. E outras coisas similares a estas.

É bem provável que não se trate em como Servir a Deus no trabalho, mas descobrir que Ele já está trabalhando ali muito antes de chegarmos e é bem provável que a única Bíblia que as pessoas leiam alguma vez na vida, seja apenas aquelas oito horas que passam junto com a gente no serviço

Como seria uma empresa onde Jesus trabalhasse oito horas por dia?


E, sendo ainda mais desconfortável: Será que ele já trabalha na sua?

Onde o cristão sangra

Onde o cristão sangra

Há dores para as quais a igreja parece não ter liturgia.

Em “007 – O Mundo não é o Bastante” (ou “007 – O Mundo Não Chega” para os lusitanos) há um diálogo que ficou gravado em mim quando assisti:

Q (para Bond):
“Eu sempre tentei te ensinar duas coisas. Primeiro: nunca deixe que eles vejam você sangrar.”
Bond: “E a segunda?”
Q: “Tenha sempre um plano de fuga.”

Sem perceber muitas comunidades cristãs ensinam exatamente isso. Não em seus púlpitos, mas em suas culturas.

Não falamos de casamentos acabando, do filho que morreu, da depressão, da pornografia, da incredulidade, do adultério, do suicídio, da violência intrafamiliar, do adultério, da solidão. Simplesmente colocamos cara de paisagem e continuamos. Uns fazendo de conta que não sabem e outros não deixando perceber que estão sangrando. É uma fórmula para uma tempestade perfeita.

E isso não é porque Cristo não possa lidar com essas questões. Mas porque temos medo de como os irmãos lidarão. E dá para entender. O medo da fofoca institucionalizada (que eu sempre insisto, fica fácil condenar a mulher que fornicou e engravidou, ou os vícios visíveis, mas aquele que pratica fofoca sempre fica de fora. E isso não apenas numa denominação, mas em várias. Logo é estrutural, institucional), como vinha dizendo, o medo da fofoca institucionalizada faz com que a gente, quando enfrenta um problema de gente real, fique de bico calado ou quando abre o bico, encontra um vazio terrível que as igrejas – via de regra – nem consideram a possibilidade de buscar ajuda fora.

Ao final de contas, se Cristo satisfaz todas nossas necessidades, como é possível que o cristão chegue a cogitar sequer a ideia de lançar mão de um psicólogo? E eu respondo: da mesma forma que quando alguém tem um acidente e quebra uma perna a gente corre para a UPA e não para o templo a orar. Óbvio que se a mente desfalece ou quebra, precisamos de ajuda de outros – que nem os traumatologistas – conseguem enxergar a humanidade de forma transversal e não de forma unilateral ou vertical.

Se você, como cristão, permite que os outros vejam você sangrar, se expõe ao ridículo perante o grupo de pessoas que deveria ser o grupo mais seguro do mundo. Simplesmente porque o perdão, o amor, a solidariedade, o carregar com os fardos dos outros, é matéria “espiritual” como se fosse uma matéria “teórica” apenas.

Quando vemos pastores fracassando (como é o caso do acontecido em nossa cidade nos últimos meses) observamos o vazio que ocorre ao redor. Pessoas simplesmente saindo escandalizadas em lugar de ficarem firmes para curar. Nisso, como me explicava um colega esta semana, as igrejas que têm uma estrutura episcopal (isto é, hierárquica) correm com certa vantagem perante as que tem um governo congregacional (ou mais descentralizado/representativo).

Perante o abismo que nosso irmão enfrenta, nos retraímos como se tivesse lepra.

Se a psicologia a psicanálises e outras correntes de tratamento similares tem cada vez mais presença e usabilidade acontece por duas coisas:

Primeiro porque Deus assim o permitiu porque “as coisas reveladas pertencem aos homens”, logo, nenhum avanço humano pode se dizer que é um avanço meramente humano. Tivemos a permissão e a vontade de Deus colocada naquilo de alguma forma.

Segundo porque parte da igreja acabou desenvolvendo uma espiritualidade que sabe falar sobre a eternidade, mas tem dificuldades para permanecer ao lado de quem está afundando hoje. Ou seja, a “teologia do escapismo”, das coisas apenas espirituais, centradas em si mesmas e vivendo apenas para si – ou seja – a própria instituição e não a sociedade para a qual deve ser luz e sal. Ela deixou de se interessar no ser humano a não ser para fazer número ou assentir “espiritualmente” (novamente no sentido de “teórico” vs “prático”) com um conjunto de ideias que, no melhor dos casos, responde a perguntas que ela fez e respondeu no século XVI

Escrevo isso porque já descobri mais de uma vez o que significa atravessar uma dor profunda quase sozinho. Em momentos diferentes da minha vida, esperei que a igreja soubesse como cuidar. Na maior parte das vezes, ela simplesmente não soube. Não houve perseguição. Houve ausência.

A igreja não falha porque é má. Ela falha porque foi treinada para responder perguntas e não para permanecer ao lado de quem sofre.

Jesus nunca teve medo de tocar em quem sangrava

E ele próprio sangrava (diferente do conselho de Q para Bond)

A mulher do fluxo de sangue. O leproso Lázaro, que já cheirava mal. Pedro, depois da negação. Tomé, depois da dúvida.

Cristo nunca exigiu que alguém escondesse a ferida para então aproximar-se dele.

E todos foram transformados depois do seu toque.

E talvez o título afirmativo de “Onde o cristão sangra” pudesse ser transformado em uma pergunta: “Por que construimos comunidades onde esconder o sangue parece mais seguro do que mostrá-lo, se seguimos justamente um Senhor que decidiu não esconder suas próprias feridas?“

Será que temos aprendido a anunciar um salvador que recebe pecadores enquanto construímos comunidades onde pecadores precisam esconder o próprio sangue?

Estamos discutindo pastores ou sacerdotes?

Recentemente publicaram um artigo sob o título “Batistas do Sul votam a favor de aprovar uma proibição formal de igrejas com pastoras.” A AP diz que os Batistas do Sul votaram para avançar uma proibição formal, não que ela já tenha sido definitivamente incorporada. A emenda ainda precisa de nova aprovação por maioria de dois terços no próximo encontro anual. Isso importa porque, em 2024, uma tentativa semelhante recebeu maioria, mas não alcançou os dois terços necessários.

O título, por si só, já nos leva à bem conhecida discussão de se uma mulher pode ou não ser pastora. O problema com isso é que – assim como o verniz colocado sobre as imagens da Idade Média para protegê-las nos impede de ver suas verdadeiras cores e detalhes – assim essa discussão nos distancia de uma questão de fundo que me parece muitíssimo mais relevante à identidade cristã, evangélica em geral e batista em particular.

Quando eu estava no seminário me perguntaram se eu era favorável ou contrário ao pastorado feminino. Lembro desse dia com grata satisfação. Respondi que o que precisávamos era entender de forma clara o que era ser pastor.

Se pastor é quem prega aos domingos, ministra a ceia, realiza casamentos, apresenta crianças, conduz funerais e batiza convertidos, então talvez estejamos discutindo menos sobre pastores e mais sobre sacerdotes.

E se estamos discutindo sobre sacerdotes, já não estamos mais discutindo o Novo Testamento.

Não pretendo criticar nem defender a posição da Convenção Batista do Sul. Aqueles que pertencem a igrejas episcopais não fazem ideia de como é nossa relação com o aparato convencional. Mas baste apenas dizer que não é de hierarquia. Uma convenção é uma grande concentração de igrejas autônomas que buscam pactuar – de igual para igual – ações e orçamentos coordenados para conseguir atingir alvos maiores do que uma congregação sozinha poderia. A SBC de fato não governa as igrejas locais como uma hierarquia episcopal. Mas ela pode declarar que uma igreja não está mais em “cooperação amigável” e excluí-la da Convenção.

O que sim pretendo, é olhar embaixo do tapete. Num ponto mais escorregadio e até amargo que, ao discutirmos apenas se pode ou não pode, deixamos de olhar … por pura conveniência.

Sendo que os evangélicos em geral e os batistas em particular frisamos que não há mais autoridade em questão de doutrina fé e ordem do que a própria Bíblia, então vamos levantar alguns pontos incômodos:

  1. Jesus nunca ordena um “clero” nos moldes posteriores.
  2. O Novo Testamento fala muito mais de dons do que de cargos.
  3. O pastor (poimén) aparece como cuidador do rebanho.
  4. O episcopado parece mais ligado à supervisão.
  5. O presbítero à maturidade.
  6. Os dons de ensino, profecia, evangelismo e serviço circulam por toda a comunidade.

Então surge uma pergunta: O que distingue um pastor de um discípulo maduro?

E essa pergunta é que nem quando brincamos de colocar peças de dominó em pé… empurra uma e caem as outras. Porque olha só:

  1. Por que o pastor deve ser o único a batizar? (base bíblica para isso… qual?)
  2. Filipe não era apóstolo e batizou o eunuco.
  3. Paulo diz que Cristo não o enviou prioritariamente para batizar.
  4. Por que o discipulador não poderia batizar? É inferior ao pastor?
  5. E batismo não é uma mais uma ordenança e sim um sacramento que só pode ser ministrado por certas pessoas apenas?
  6. E o mesmo se pode dizer da ceia
  7. Mas e sobre o início e o final da vida?

Quantas mulheres ao longo da história não fizeram essas mesmas coisas sem nunca receberem um “título”?

Talvez você queira lembrar de algumas missionárias ou cristãs fiéis que – em situação limite – agiram.

Mas vamos para o contexto bíblico. Entre os exemplos mais incômodos para nossa organização posterior está Priscila (Atos 18; Romanos 16:3-5; 1 Coríntios 16:19) Ela cooperou na missão, recebeu a igreja em casa e , junto com Áquila, explicou com mais precisão o caminho de Deus a Apolo.

Febe, serviu a igreja em Cencreia e apoiou os missionários (Rom. 16:1-2). Foi ela quem provavelmente levou a carta aos Romanos. Isso é muito significativo pois como portadora, pode ter sido também sua primeira leitora, representante e intérprete perante a igreja de Roma.

Júnia, foi cristã antes de Paulo, sofreu prisão por Cristo e é chamada por Paulo de notável entre os apóstolos — expressão que muitos entendem como reconhecimento apostólico, embora haja debate sobre se significa ‘notável entre os apóstolos’ ou ‘bem conhecida pelos apóstolos’. (Rom 16:7)

E as mulheres da ressurreição. Primeiras testemunhas e anunciadoras da ressurreição. Que irônico! Aquelas que num contexto em que o testemunho feminino era frequentemente desvalorizado, foram as escolhidas para anunciar a mensagem mais importante da humanidade.

Então, anunciação das boas novas, testemunho público da ressurreição, ensino bíblico mais preciso, discipulado teológico, cooperação missionária, hospitalidade e abertura da casa para a igreja, sustento financeiro da missão, serviço diaconal, proteção de obreiros, representação de uma carta apostólica, possível interpretação comunitária da mensagem recebida, sofrimento por Cristo, prisão por causa do evangelho e reconhecimento entre os trabalhadores apostólicos — tudo isso aparece nas mãos de mulheres no Novo Testamento.

A pergunta não pode ser apenas: “elas tinham o título?”. A pergunta mais honesta é: “elas exerceram funções ministeriais reais?”. E a resposta bíblica é desconfortavelmente clara: sim. Elas anunciaram, ensinaram, discipularam, serviram, sustentaram, hospedaram igrejas, cooperaram na missão, sofreram pelo evangelho e foram reconhecidas por Paulo e pelos evangelistas como participantes reais da obra de Deus.

E aqui aparece uma pergunta que muitas mulheres missionárias — inclusive entre nós, batistas — poderiam fazer com razão: quantas mulheres já exerceram, na prática, funções ministeriais que depois foram negadas a elas em título?

Quantas ensinaram, discipularam, evangelizaram, abriram suas casas para a igreja, acompanharam novos convertidos, sustentaram a missão, consolaram enlutados, cuidaram de enfermos, formaram líderes e mantiveram comunidades inteiras de pé sem jamais receber o reconhecimento correspondente?

E, saindo do âmbito batista, quantas mulheres, ao longo da história cristã, especialmente em contextos de missão, perseguição, isolamento ou escassez de obreiros, se viram diante de situações limite nas quais a vida espiritual da comunidade não podia simplesmente esperar pela chegada de um ministro homem?

Esse é o ponto incômodo: quando certas práticas são tratadas como se dependessem necessariamente de uma figura clerical autorizada, precisamos perguntar se essa exigência nasce claramente do Novo Testamento ou se nasce de uma organização eclesiástica posterior.

No mínimo, a resposta exige mais humildade. Porque, se o Novo Testamento apresenta mulheres anunciando, ensinando, servindo, hospedando igrejas, sustentando missionários, interpretando a fé e cooperando na expansão do evangelho, então não podemos reduzir a discussão a títulos. Antes de perguntar quem pode receber determinado nome, precisamos perguntar quem, de fato, já foi chamado por Deus para servir — e quem nós decidimos reconhecer.

Talvez o problema não seja apenas que não conseguimos decidir se uma mulher pode ser pastora. Talvez o problema seja que já não sabemos muito bem o que um pastor é.

Enquanto discutimos quem pode ocupar o cargo, esquecemos de perguntar qual era o propósito do dom. E quando os cargos se tornam mais importantes do que os dons, homens e mulheres acabam disputando algo que Cristo talvez nunca tenha pretendido construir daquela maneira.

Essa é a questão que não queremos enfrentar.

EUA consagrado

Dois dias antes da escrita deste artigo, teve lugar uma cerimónia bem interessante nos Estados Unidos da América: A Consagração dos EUA ao Sagrado Coração de Jesus

O ato é especialmente relevante quando se aproximam as celebrações pelos 250 anos da independência desse pais. Óbvio que isso gerou tensões políticas (às vezes esquecemos que Estado e Igreja ocupam o mesmo espaço) em que certos quadros podem ler como idolatria ao Estado e outros um sinal de auto-afirmação nacionalista.

Quando uma nação diz pertencer a Cristo, a primeira pergunta talvez não seja se isso é bonito, solene, ou comovente. O que me vem à mente é “Será que a nação sabe o que está dizendo?”

Não se pode negar que há algo profundamente correto em reconhecer que Cristo é o Senhor das nações. Quando lemos o Salmo 2 nos damos conta que os povos não são vistos como entidades autónomas diante de Deus. Como se cada império pudesse – de alguma forma – escrever sua própria verdade e depois pedir que a divindade carimbe o documento. No Salmo 2, as nações se agitam, os reis conspiram, os poderosos imaginam coisas vãs, mas o Filho (isto é, o Ungido, o Cristo) permanece como aquele a quem foi dado o domínio.

Em Daniel podemos observar algo semelhante: o Filho do Homem recebe autoridade, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o servem. Alguém lembrou de Apocalipse aí?

A Bíblia nunca tratou a política como um território neutro, onde Cristo não entra. O problema é outro. O problema é quando Cristo entra apenas para decorar a sala.

Por isso, uma consagração nacional pode ser oração ou pode ser teatro. Pode ser arrependimento ou pode ser religião civil. Pode ser uma forma de dizer “Senhor, julga-nos, corrige-nos, cura-nos, desmonta nossas mentiras, expõe nossos ídolos”. Mas também pode virar uma forma elegante de dizer “Senhor, confirma o que já somos, abençoa nossas bandeiras, protege nossos interesses e chama de Reino aquilo que é apenas projeto de poder”


Lembro que, nos anos antes de vir para o Brasil, muito se falava de “consagrar a nação para Deus”. “Brasil é do Senhor Jesus!”. “Bendita é a nação cujo deus é o Senhor” e outras frases e versículos repetidos como refrão. Tivemos também os que diziam que Deus tinha tirado o cetro dos EUA e entregue ao Brasil.

Mais de trinta anos se passaram. Somos – pelas estatísticas do IBGE – 26% da população evangélicos e 56,7% católicos. E o pais é um desastre politicamente falando e isso num ambiente democrático livre; ou seja, pura escolha nossa.

Quando o império romano promulgou o Edito de Milão (313 dC pelos imperadores Constantino e Licínio, estabelecendo total tolerância religiosa) o povo cristão era apenas 5% da população do império.

Há alguma coisa que não fecha. Continuemos.


Como vínhamos dizendo, há uma diferença – e não é pequena – entre oração e teatro.

Barth provavelmente desconfiaria de qualquer tentativa de transformar Jesus num símbolo útil para a identidade nacional. Cristo – diria ele – é a Palavra de Deus (em ref a Heb.1:2ss) e não a linguagem religiosa de uma cultura. Ele não vem para legitimar uma nação; vem para submetê-la à sua graça e ao seu juizo e se há uma coisa que o ser humano não gosta é a submissão.

Tillich diria algo parecido por outro caminho: quando a pátria, a segurança nacional, a ideologia ou a identidade coletiva ocupam o lugar de preocupação última, já não estamos diante de patriotismo, mas de idolatria. E idolatria política continua sendo idolatria, mesmo quando aprende a falar com vocabulário cristão.

Paulo, escrevendo aos filipenses, lembra que a nossa cidadania está nos céus. Isso não significava desprezo pela terra, nem fuga da história. Significava que a comunidade cristã vivia dentro do império, mas não pertencia finalmente ao império. Tinha endereço, língua, impostos e responsabilidades públicas, mas sua lealdade última estava em outro Senhor. N.T.Wright insiste muito nisso: o Reino de Deus não é uma espiritualidade privada, mas a soberania de Jesus ressucitado invadindo o mundo real. Justamente por isso, nenhuma nação pode ser absoluta.

Então, sim, podemos amar nossa pátria. Podemos – e devemos – orar por ela. Podemos pedir justiça, verdade, reconciliação, cuidado com os pobres, proteção dos vulneráveis e cura das ferias sociais. Mas não podemos chamar isso de consagração se o que queremos é apenas um Cristo domesticado, útil, ornamental.

Consagrar uma nação a Cristo, se a frase ainda quiser significar alguma coisa, é reconhecer que ela não pertence a si mesma. E isso vale para os Estados Unidos, para o Brasil, para qualquer povo. Cristo é Senhor das nações. Mas ele não é capelão de nossas vaidades nacionais.

Moral sem religião?

Cristãos e [outros religiosos] não cristãos cometem o mesmo erro: acham que a vida cristã é necessária para uma vida moral. Ou dito de outro modo: sem Deus na vida, o ser humano é um ser imoral.

A prova mais simples de que isso não é verdade é que, na medida em que o tempo passa, você vai conhecendo pessoas que não são cristãs, mas têm uma conduta moral elevada. Aí surge a pergunta, se o evangelho não está relacionado com a boa moral e os bons costumes, para que serve se ajustar ao padrão de vida proposto por ele?

Muita gente entende o evangelho como um mecanismo para produzir pessoas corretas: boas esposas, maridos fiéis, trabalhadores honestos, cidadãos decentes, pessoas educadas e controladas. E isso não está de todo errado. Mas o problema com essa visão é que ser cristão quase se resume a ter uma ética aceitável.

Um pagão, por outro lado, pode amar a família, cumprir contratos, sacrificar-se pelos filhos e viver com integridade. Filosofias humanas conseguem produzir disciplina, domínio próprio e até virtudes impressionantes. O próprio apóstolo Paulo diz que, quanto à justiça da Lei, era irrepreensível ante de conhecer Cristo.

Voltamos na pergunta: se o evangelho não é necessário para produzir moralidade, então para que serve?

O problema humano, segundo o evangelho, não é simplesmente falta de moral. É autonomia. É senhorio. Isto é, o próprio ser humano quer ocupar o centro. Quer definir o bem e o mal a partir de si mesmo. Que viver como referência última da própria existência. Isso pode acontecer tanto num libertino quanto num homem extremamente virtuoso.

Quando pegamos um homem ou mulher com pensamento crítico e esta pessoa começa a enxergar que entre os de dentro e os de fora não há tanta diferença, é plenamente compreensível que a instituição chamada igreja se torne obsoleta, absurda ou um fardo insustentável já que muitas delas não mais vivem o evangelho do reino, mas apenas o da moralidade e o da filosofia de vida.

O evangelho não é – definitivamente – uma filosofia de vida. Repare, Jesus não aparece no Novo Testamento como apenas um mestre moral. Quando a primeira e segunda geração de cristãos muitos anos após a ressurreição e assunção de Jesus precisam pensar nele, a palavra que o descreve é kyrios – senhor. Os evangelhos, escritos pelo menos 30 anos depois da sua ressurreição recolhem exatamente esse olhar: Existe um novo reino e Jesus é o rei legítimo.

O evangelho é o anúncio de que o verdadeiro Rei chegou.

Então a pergunta central deixa de ser: “Você é uma boa pessoa?”. E passa a ser: “Quem reina sobre você?”

Agora. Pare e seja honesto com você mesmo. Ninguém precisa saber. Mas não é verdade que a segunda pergunta é mais incómoda que a primeira? Se você é um ateu ou um cristão nominal ou um praticante de qualquer religião que não esteja alinhada com a proposta do evangelho, não é verdade que dá vontade de jogar tudo fora? Dá raiva, né? Esse é o miolo do assunto: o ser humano quer ser seu próprio rei. Não interessa o ponto geográfico, a situação social, a etnia à que pertence ou as crenças recebidas dos pais: todo ser humano quer ser seu próprio fiel da balança.

Me acompanhe um pouco mais, por favor.

Alguém pode ser moralmente admirável e ainda assim viver completamente fechado em si mesmo, sustentando o próprio ego, a própria glória, a própria autonomia. Um homem pode deixar de ser um pecador escandaloso e virar apenas um rei moralmente elegante.

A moralidade consegue conter impulsos, organizar comportamento e tornar a convivência humana possível. O Reino faz algo muito mais profundo: ele reconcilia o homem com Deus e reinsere a criação sob o governo legítimo de Cristo.

Por isso o evangelho fala tanto em uma nova criação, novo homem, novo aeon (era), estar “em Cristo”. Não se trata apenas de copiar ensinamentos éticos. Mas de participar de uma nova realidade inaugurada nele.

O Reino não vem apenas produzir indivíduos mais comportados. Ele vem restaurar comunhão, pertencimento e direção. O homem não foi criado apenas para viver corretamente, mas para viver reconciliado.

Então o evangelho não anuncia somente: “você pode melhorar”

Ele anuncia “você pode voltar ao verdadeiro Rei”

Talvez por isso que Jesus tenha tido conflitos tão profundos com os homens mais corretos de sua época. Porque a moralidade, embora boa e necessária, pode se tornar também um esconderijo sofisticado para uma independência humana.

Jesus se confia a você?

Esses dias, ouvindo o Pr.Thiago fazendo uma referência a João 2:24 ele fez uma pergunta extremamente interessante que para mim, já seria o título de uma série de três sermões pelo menos: “Jesus, se confia a você?”

Essa simples pergunta envolve muitas coisas concernentes à encarnação, ao conhecimento de Jesus e à natureza humana que – distinto do que muitos pensam – não faz referência no trecho à natureza prejudicada pelo pecado, senão àquela que era em Adão antes da queda. Enfim… Muita coisa. Sem querer abusar do espaço que tenho aqui, vou tentar cutucar essas áreas não para trazer respostas, mas sim para levantar boas perguntas que o façam refletir e se posicionar melhor.

Os últimos três versículos do capítulo 2 do evangelho de João, são bem interessantes. O resumo é simples: muitos viram os milagres que Jesus fazia e passavam a crer nele. Por outro lado, Jesus não se confiava a eles, pois os conhecia bem e ninguém precisava ensinar-lhe o que havia dentro do homem “pois ele bem sabia o que havia no homem”

Sobre confiar/crer

Em nossa língua fazemos distinção entre confiar e crer. E isso é bom, pois as coisas ficam mais claras. Porém, para deixar que a riqueza do texto flua, devemos retroceder um pouco e ver que João apenas tinha pisteo – em grego – para expressar as duas ideias.

Então, quando no 23 ele diz que as pessoas “criam nele”, João está usando o mesmo verbo que quando no 24 diz que Jesus no se “confiava a eles”. A diferença parece pouca, mas é profunda. Crer numa pessoa é bem menos intenso que confiar-se a uma pessoa. Repare, você pode até crer num candidato político, mas não se confiaria a ele. Isso o deixamos para a pessoa com a qual nos casamos.

Algumas traduções, por simplificar, acabam não trazendo essa ideia de “não se confiava a eles” e em seu lugar trazem algo como “não confiava neles”. É parecido, mas não é o mesmo. E é por isso que a pergunta do Thiago é extremamente reveladora.

Para mim, “confiar-se a” tem uma ilustração bem clara naquele que se joga do palco de costas aguardando que o público o segure. Já “crer neles” é mais como um quadro societário. Você confia, mas na realidade confia mais no contrato que há entre as partes que nas partes em si.

Uma pergunta incômoda

É possível crer em Jesus, mas mesmo assim não ser alguém a quem Jesus se confia?

A razão que João dá para que esse tipo de coisas aconteça é que “conhecia a todos”. E ainda acrescenta “ele bem sabia o que havia no homem”. Aí chegamos num ponto que a cristologia faz purê nossa lógica. Isso, porque enquanto queremos defender -corretamente- a divindade de Jesus, não conseguimos assumir que Jesus era plenamente ser humano.

Ou dito de outra forma, Jesus conhecia o homem porque era Deus ou porque era Homem?

Talvez a resposta cristã seja desconfortavelmente dupla. Jesus conhece o homem porque Deus o conhece. E conhece o homem porque se tornou homem. Não conhece a humanidade apenas de fora, como Criador. A conhece também de dentro, como participante.

Jesus – como Paulo explica, é o último Adão (1Co 15:45). Então, assim como Adão pôde ser tentado, e fracassou em sua fidelidade o Criador e com a criatura, assim também o homem comum e corrente poderia se-lo. E pior agora sob a influência do Pecado (ref.Rom.5:12ss)

E avançando mais nessa ideia, se a humanidade de Jesus não foi real, então suas tentações não foram reais. E se estas não foram reais, Hebreus perde grande parte de sua força assim como os evangelhos.

Jesus conhecia o homem porque ele próprio era homem. Não um homem caído, escravizado pelo pecado, mas um Homem como Deus o havia imaginado desde o princípio. Então ele sabia o que já tinha acontecido e o que poderia acontecer. Isso sem sequer falar da cegueira e escravidão que o Pecado proporciona (da qual o próprio Jesus estava livre). Ou dito de outra forma, Adão não caiu porque havia nele uma natureza pecaminosa. Caiu porque era uma criatura livre e imatura. O pecado entrou quando essa liberdade foi usada contra aquele para quem ela havia sido dada.

Jesus, o Messias, conhece a instabilidade humana não porque a compartilha, mas porque a contempla sem as ilusões produzidas pelo pecado.

Admirar a Jesus ou segui-lo?

Jesus sabia distinguir entre a fé que nasce do encanto momentâneo e a fé que permanece quando os sinais cessam. A gente pode se beneficiar de sua presença sem por isso se render ao seu senhorio. Podemos querer o que ele pode fazer em lugar de desejar o próprio Cristo.

Muitos dos que “creram nele” do versículo 2 desaparecerão ao longo do evangelho. Alguns se escandalizarão e outros o abandonarão. Finalmente por certo que outros pedirão sua morte. O entusiasmo inicial não era garantia de profundidade como na parábola do semeador.

E, se formos honestos, isso nos atinge de perto. E, pelo nosso próprio bem, precisamos ser honesto com as questões eternas.

Podemos nos aproximar de Jesus movidos por interesse, medo, necessidade, fascínio. Podemos frequentar uma igreja, conhecer a Bíblia, e até defender a fé, sem jamais nos tornarmos pessoas seguras para as quais Jesus possa confiar seus caminhos.

Jesus se confia àqueles que já não precisam usar Deus para sustentar a própria imagem. Isso acaba sendo uma vida dupla. Uma coisa na comunidade de fé, outra nos negócios, na intimidade.

Ele se confia àqueles que aprenderam a verdade simples e dolorosa de que o coração humano é mais ambíguo do que a gente gostaria de admitir. Àqueles que, em vez de impressioná-lo com promessas grandiosas, apenas dizem: “Senhor, tu sabes todas as coisas”

Talvez o verdadeiro sinal de maturidade cristã não seja o quanto afirmamos confiar em Jesus ao ponto de nos chamar de “amigos”. Talvez seja o quanto nossa vida se tornou um lugar onde ele possa confiar.

O Deus que responde

Aquele dia tinha sido esgotador depois da caminhada. Estradas empoeiradas, conversas, decisões, gente, calor, cansaço. Paulo foi dormir. Dizem que sonhamos sobre o que vivemos durante o dia. Só que com Paulo foi mais do que um sonho, foi uma visão: um homem da Macedônia lhe rogava: “Passa à Macedônia e ajuda-nos” (Atos 16:9).

É difícil não imaginar o peso daquele pedido. O texto não diz o nome do homem. Não diz sua profissão, idade ou condição. Apenas sua necessidade. “Ajuda-nos.” Mas ajuda em quê? Roma já havia construído estradas. Filipos era uma cidade importante. Havia comércio, exército, estabilidade relativa, influência cultural grega e poder romano. Ainda assim, alguma coisa faltava. Alguma coisa naquele homem continuava clamando apesar da prosperidade do império.

Talvez porque existam necessidades que nenhum império consegue resolver.

E aqui o texto de Atos abre uma pequena fresta histórica quase sem parecer perceber o que está fazendo. Filipos não era uma cidade qualquer. Ali havia memória de guerra, de conquista e de Roma. Décadas antes, a famosa batalha de Filipos ajudou a consolidar o caminho para o Império Romano como o mundo o conheceria. Era colônia romana. Cidade de veteranos militares. Pequena Roma fora de Roma. Homens enviados não para irem a Roma, mas para serem Roma em Filipos.

E talvez seja justamente por isso que o clamor daquele homem seja tão impressionante.

Porque o mundo já havia lhe dado César.
Já havia lhe dado cultura.
Já havia lhe dado espada, estradas e civilização.
Mas ainda lhe faltava alguma coisa.

Há uma angústia silenciosa atravessando o mundo antigo naquele momento. Gente que ouvira rumores sobre o Deus de Israel. Homens e mulheres cansados dos deuses que exigiam rituais mas não ofereciam esperança. Pessoas esperando — mesmo sem saber exatamente o quê — que algum tipo de redenção finalmente irrompesse na história. Como a corça suspira pelas correntes das águas, havia gente sedenta sem conseguir dar nome à própria sede.

Enquanto isso, Paulo tentava seguir outros caminhos. O próprio texto diz que ele desejava ir para certos lugares, mas era impedido. Até que a visão reorganiza tudo. De repente, não havia mais muitos caminhos possíveis. Havia um só. Sair da Ásia. Atravessar o mar. Ir em direção à Macedônia.

E então Lucas escreve quase sem emoção uma frase belíssima: “E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedônia… fomos correndo em caminho direito para a Samotrácia”.

Fomos correndo.

Como se entendessem a urgência daquele clamor.

A primeira discípula mencionada ali não era miserável nem ignorante. Lídia comerciava púrpura, artigo caro no mundo antigo. O evangelho não caminhava apenas entre pobres financeiros ou gente sem instrução. Ele atravessava todo o espectro humano porque a necessidade humana atravessa todo o espectro humano.

E então o parêntese histórico volta a se fechar. Filipos continua romana. César continua no poder. As estradas continuam as mesmas. Mas agora algo novo havia chegado à cidade. Não pelas mãos de generais, mas de homens cansados que atravessaram o mar porque acreditaram ter ouvido o chamado do Espírito.

E talvez seja justamente isso o mais sobrenatural do texto.

Não a visão.
Não o sonho.
Não um raio caindo do céu como na famosa narrativa sobre Lutero.

O mais sobrenatural talvez seja o mover da alma humana.

Homens deixando seus caminhos para responder um chamado.
Gente cansada atravessando mares.
O coração humano sendo convencido a servir algo maior do que si mesmo.

Deus responde orações. Mas frequentemente sua resposta atravessa tempo, geografia, medo, discernimento e gente de carne e osso. Talvez por isso a resposta quase nunca seja imediata.

Talvez porque Deus tenha decidido agir — na maior parte do tempo — pela instrumentalidade dos seus servos.

E talvez seja por isso que exista tanta verdade naquela velha canção: falar com Deus muda alguma coisa em nós. Nem sempre porque os céus se abrem da maneira que esperamos, mas porque, às vezes, em algum lugar do mundo, Deus começa a mover alguém em direção ao nosso clamor.