Todos os posts de Esteban D. Dortta

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

Catástrofes profundamente humanas

Há algo profundamente humano — e profundamente teológico — no desconforto que sentimos diante dos extremos climáticos recentes. Mortes no frio do hemisfério norte, casas arrastadas por lama no Afeganistão, cidades inteiras paradas entre gelo, fogo e água. O problema começa quando esse sofrimento real é imediatamente sequestrado por discursos prontos. Antes mesmo de pensar, já se escolheu um lado. E quando isso acontece, a reflexão morre asfixiada.

Aqui entra o incômodo que vale a pena levar a sério: a politização total do tema climático cria uma forma moderna de heteronomia, no sentido criticado por Paul Tillich. Não se trata mais de responder à realidade com responsabilidade e liberdade, mas de repetir respostas autorizadas por sistemas externos — ideológicos, partidários, identitários. O pensamento deixa de ser autônomo. A consciência terceiriza.

Tillich alertava que a heteronomia surge quando algo finito — uma ideologia, uma estrutura, uma causa — assume o lugar do “fundamento do ser”. O resultado não é engajamento ético, mas submissão ansiosa. No debate climático, isso aparece tanto na negação cínica do sofrimento quanto no moralismo apocalíptico que transforma catástrofes em armas retóricas. Em ambos os casos, o ser humano concreto desaparece.

A Escritura se recusa a jogar esse jogo. Paulo escreve que “a criação geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8.22). Não é slogan, é diagnóstico. O mundo está em tensão, e essa tensão não é apenas ambiental — é espiritual, histórica, relacional. Mas Paulo não entrega esse gemido a partidos ou impérios interpretativos. Ele o coloca dentro da esperança: “na expectativa da revelação dos filhos de Deus” (Rm 8.19). O foco não é o pânico, mas a vocação.

Aqui vale ouvir N. T. Wright, que insiste: a esperança cristã não é fuga da criação, mas compromisso com sua renovação. A igreja não existe para explicar desastres como punições secretas nem para instrumentalizá-los como propaganda moral. Ela existe para antecipar, ainda que de forma frágil, os sinais do Reino — justiça, cuidado, verdade.

O evangelho reforça isso de modo desconcertante. Em Marcos 4.35–41, Jesus não faz um discurso sobre a tempestade. Ele está no barco. Dorme. Acorda. Cala o vento. E depois expõe o medo dos discípulos. A pergunta não é “qual narrativa explica o caos?”, mas “quem está conosco no meio dele?”. A revelação de Deus não está no barulho da tormenta, mas na presença que sustenta.

É aqui que a politização excessiva revela sua pobreza espiritual. Ela promete controle simbólico onde só há vulnerabilidade real. E isso gera medo, não coragem. Tillich falava da coragem de ser como a capacidade de existir apesar do caos, não por negá-lo nem por dominá-lo ideologicamente, mas por estar enraizado em Deus como fundamento último.

Miquéias resume o caminho com sobriedade incômoda: “praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com teu Deus” (Mq 6.8). Humildade aqui inclui reconhecer limites — científicos, políticos, teológicos. Inclui ouvir o sofrimento distante sem transformá-lo em argumento doméstico. Inclui agir localmente sem pretender controlar o sentido último da história.

O horizonte cristão não é o colapso nem a utopia fabricada. É a nova criação: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5). Essa promessa não nos autoriza a pensar menos, mas a pensar melhor. Não nos libera da responsabilidade, mas nos livra da heteronomia (e quem sabe, podemos chegar à teonomia)

Pensar de forma clara, autônoma e cristã, hoje, talvez seja um ato de resistência espiritual. Em meio à tempestade — climática, política ou existencial — isso já é um começo de coragem.

Não se te dá que morramos!?

Salmos 44.23; Marcos 4.38

A fé institucional não sabe lidar com essa pergunta. Ela precisa manter Deus sempre presente, funcional, disponível — quase como um item do estatuto. Por isso, perguntas desse tipo soam perigosas. Subversivas. Já a fé existencial — a que vive no fio da navalha — não tem esse pudor. Ela pergunta porque precisa respirar. Cadê Deus no meio da tempestade? Esqueceu-se de mim? Esqueceu-se do seu povo? Do pacto?

O vale — ou o deserto — não é um acidente na formação cristã. É o caminho. É ali que a imagem de Cristo começa a tomar forma em nós, não como ideia, mas como carne. Sem deserto não existe João Batista. Sem deserto não há Jesus com ministério. Não há atalho espiritual aqui. Se não foi diferente com eles, não será conosco.

O deserto não oferece garantias. Não tem chão conhecido, não tem reservas, não tem atalhos e, muitas vezes, não tem Deus à mão. Pelo menos não o Deus funcional que aprendemos a acionar. A tempestade é parente próxima do deserto. E é nesse contexto que o grito emerge, cru, quase irreverente: “Não se te dá que morramos!?” Ou ainda: “Não te importa a nossa vida?” Ou, sem rodeios piedosos: “Valemos tão pouco assim?”

A Bíblia não foge dessas perguntas. Ela as preserva. Os salmos estão cheios delas. O evangelho não as censura. O problema nunca foi a pergunta — foi a nossa tentativa de domesticá-la.

Pensemos em Portugal. Semana passada, ventos de até 208 km/h castigaram o país. Muito antes disso, em 1755, Lisboa foi devastada por um terremoto que durou cerca de dez minutos. Dez minutos bastaram para desmontar uma cidade inteira, sem aviso prévio, sem liturgia de preparação. No século XVI, o território foi atingido por ao menos três grandes epidemias, entre elas a peste negra. Onde estava Deus nesses momentos? A pergunta não é moderna. É humana.

O Salmo 13 não tenta resolvê-la. Apenas a sustenta: “Até quando, ó Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” Essa é fé que respira. Fé que não foi anestesiada.

No fim, só há uma fé que vale a pena ser vivida: a que atravessa o desastre sem precisar fingir que ele não existe. Todo o resto é performance domingueira — bem ensaiada, bem iluminada, e completamente inútil quando o mar começa a entrar no barco.

Qual é a importância da Escola Bíblica?

A pergunta pode parecer vazia ou inútil. Em especial para quem já valoriza a escola bíblica ou para quem já descartou de todo o seu valor. Ou seja, os extremos.

Todavia, acredito que há uma gritante maioria de pessoas que — se pudessem exprimir suas dúvidas — perguntariam qual a utilidade ou importância da escola bíblica. Em especial são pessoas que não se contentam com a rotina ou que procuram na escola bíblica uma utilidade para além da repetição de assuntos em um ambiente seguro. Afinal, a Escritura nunca associa ensino à mera repetição, mas à transformação do entendimento e da prática (Rm 12.2).

A escola bíblica (dominical) surge no final do século XVIII, mais precisamente por volta de 1780, na Inglaterra, como uma resposta prática a um problema concreto: crianças e jovens sem acesso à educação básica, imersos em jornadas de trabalho exaustivas e sem qualquer formação moral ou intelectual. Antes de ser um “programa da igreja”, ela foi um gesto missionário, pedagógico e social — algo bastante coerente com a tradição bíblica, onde o ensino do povo sempre esteve ligado à vida concreta (Dt 6.6–9; Ne 8.1–8). Seu DNA não é entretenimento nem repetição mecânica de conteúdos, mas formação, letramento bíblico e construção de consciência cristã no mundo real. Quando a escola bíblica perde isso, ela não envelhece — ela se descaracteriza.

O que se vê em quase todas as versões da escola bíblica é uma visão apenas endocentrada, isto é, voltada quase exclusivamente para o mundo interno da igreja local. Fala-se muito de eternidade, santidade e salvação individual — temas legítimos — mas com pouco ou nenhum espaço para a missão divina de redimir a criação como um todo, missão esta claramente afirmada nas Escrituras (Gn 12.3; Sl 24.1; Rm 8.19–22).

Observar o mundo apenas pelo filtro do noticiário sensacionalista não comunica outra coisa senão um misto de impotência e indignação. Isso acontece porque o problema nos parece — como de fato é — maior que nossa capacidade individual de intervenção. A Bíblia, porém, não ignora essa tensão: reconhece que “o mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19), mas também insiste que a luz não se retira diante das trevas — ela as confronta (Jo 1.5; Mt 5.14–16).

A escola bíblica, após sua apropriação indevida do âmbito missionário para o puramente doutrinário, precisa recuperar sua vocação original: não apenas conscientizar sobre a condição caída do mundo — algo que a imprensa já faz com eficiência — mas capacitar a igreja a discernir, planejar e agir em situações reais de perigo, desamparo e injustiça que estejam ao alcance da comunidade local. Isso é profundamente bíblico: fé que não se traduz em ação concreta é considerada morta (Tg 2.14–17), e a igreja primitiva entendia ensino, comunhão e cuidado como uma única realidade (At 2.42–47).

A pura repetição de fórmulas que funcionaram nos séculos XVI e XVII não faz mais do que alienar a igreja da realidade em que vive, afastando-a daquilo que a Escritura chama de missão de Deus: a restauração da criação. Como lembra N. T. Wright, trata-se de uma nova criação ex vetere, e não ex nihilo — uma recriação que parte do mundo já existente (2Co 5.17; Ap 21.1–5). A participação da igreja nessa reconstrução — social, cultural, ética, ambiental — não é um apêndice do evangelho, mas parte de sua própria lógica. Quando isso se perde, a escola bíblica deixa de ser formadora de discípulos e passa a ser apenas uma sofisticada forma de escapismo religioso.

Enquanto um seminário forma pastores e professores, a escola bíblica forma garis, psicólogos, mecânicos, enfermeiros, padeiros, advogados … para serem ministros do reino no escopo do reino. Ou seja, este mundo no qual vivemos e não na bolha eclesiástica. Por isso que ela merece ser dinâmica e não estática.

É nela que o método de correlação (invenção de Paul Tillich) acha talvez sua expressão mais condensada já que as perguntas últimas que a sociedade faz, a Bíblia responde à satisfação. Mas sem o treino adequado, é como címbalo que retine.

Como tu lês?

Que presente dar para uma congregação?

Não é todo dia que um grupo de pessoas faz aniversário.

Unidos por uma mesma visão, uma congregação vai se desenvolvendo e os anos vão se acumulando. Assim como na vida pessoal, é de se esperar que essa experiência traga sabedoria e essa sabedoria traga um peso de identidade local para a congregação.

Num tempo de universalidade eletrônica; de uma pretensa sabedoria coletiva manifestada pelas redes sociais, uma igreja local identificada com seu bairro e sua cidade tem fartos motivos para se sentir orgulhosa do caminho andado. Então recebam meu afago: o interesse pela congregação e pelo bairro em que estão são marcas elogiáveis em uma igreja local.

Mas, sendo pregador, preciso intentar elaborar uma reflexão que não apenas afague a congregação, mas que a alavanque para os desafios que ainda lhe esperam. Tem que ser alguma coisa que, lançando mão do mais sagrado de uma congregação batista (isto é, seu conhecimento da Bíblia) também lhe sirva de ponto de apoio para os desafios da sociedade atual.

Não pode ser apenas uma repetição de velhos conceitos ou de registros históricos. Não porque eles sejam inválidos, mas pelo fato de que – por serem muito conhecidos – não mais se pensam como soluções possíveis para a realidade em que vivemos.

Termos como redenção, justificação, santificação com sua precisão e seu conteúdo são deixados de lado não por errôneos, mas porque os possíveis ouvintes desta sociedade não mais almejam por respostas aos problemas que eles atendem. Isso por estarem tão ocupados nos entretenimentos de coisas periféricas da vida.

Na mesma linha, parece-me inútil tentar falar da herança batista e seus princípios. Por exemplo, entendo que arriscaria perder meus ouvintes falando sobre como lutamos na Inglaterra pela liberdade pessoal; ou a centralidade da Bíblia; ou a liberdade de consciência; ou a universalidade do sacerdócio de todo crente; ou a falta de distinção entre ato administrativo e culto; ou a autonomia de cada congregação ou a separação de igreja e estado. Novamente, não porque esses assuntos não sejam importantes ou relevantes, mas porque soam como antigos, ou ultrapassados, ou desnecessários.

Também não é o caso de discorrer sobre a necessidade e a inutilidade da escola bíblica. Inutilidade porque ela passa apenas conhecimento e não é um substituto válido do discipulado. E necessidade porque o conhecimento que ela traz é tremendamente necessário no discipulado. Isto é, no andar diário dos discípulos de Jesus na terceira batista de Prudente.

Então qual caminho escolher? Como preparar uma pregação para uma congregação madura que segue adiante, que se cuida, que tem identidade com seu Senhor e com seu bairro? Que devo dizer para um grupo de pessoas que atenta para uma busca pelo seu Senhor?

Olhemos para Lucas 10 26

Perguntou-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lês tu?

Focaremos apenas nessa pequena frase: “Como lês tu?“. Essas três palavras podem fazer uma diferença na sua vida nesta noite. E por isso é que demando sua atenção apenas nela por alguns minutos.

No centro da frase encontramos o verbo ler. Trata-se a ação de decifrar o conteúdo de algo escrito por saber reunir as letras e os sinais gráficos. Hoje, quase qualquer pessoa sabe ler. Mas nem sempre foi assim.

Se olhamos para o tempo de Shakespeare que viveu entre 1554 e 1616, vemos que o número de pessoas que conseguia ler era de 1 para 3 nos homens e talvez de 1 para 10 nas mulheres.

Se olhamos a situação do Brasil alguns anos depois – em 1759, quando os padres jesuítas (que entre suas atribuições tiveram a de fundar colégios e promover a educação) foram expulsos do país – apenas 1 em cada 1000 pessoas sabia ler. É para 1890 que o Brasil começa a mudar o método e se preocupa com ensinar a escrever como tal. Ou seja, não apenas com a caligrafia, mas com a coisa escrita. Devemos lembrar que Dom Casmurro, por exemplo, foi escrito em 1899. Isso nos dá uma noção dessa brecha cultural entre a situação inglesa de 1600 e a do Brasil de 1900.

Então repare que, quando falamos em ler, não falamos em entender. Falamos apenas de conseguir reunir com algum sentido os símbolos de uma forma tal que a pessoa pudesse minimamente receber comunicação. Já escrever, como para produzir a mesma, não era tão almejado assim.

Se olhamos para a situação do Brasil hoje, 66% dos alunos terminam o 9º ano sem aprender o mínimo necessárioda lingua portuguesa, segundo algumas pesquisas. Esse problema se estende até o ensino superior, onde estimativas indicam que 50% dos estudantes são analfabetos funcionais. Isso de por si já é um escândalo.

A escola bíblica

Cabe então aqui o lembrete de que a escola bíblica inicia-se na Inglaterra justamente com o propósito de capacitar as pessoas com a grandiosa ferramenta da leitura e sua irmã: a escrita. A origem e propósito original da escola bíblica não é “ESPIRITUAL” e sim “SOCIAL” para surpresa de muitos.

Mas vale dizer que não há forma de separarmos o “ESPIRITUAL” do “SOCIAL”. Perceba como a população que menos tem acesso à leitura – e por conseguinte – ao conhecimento formal, é a mais fácil de manipular. E a manipulação é a antítese do amor. E, sendo Deus amor, logo se segue que Ele não quer deixar sua criação no escuro. De aí que concluímos que aqueles que querem deixar a população sem conhecimento são sim uma manifestação social de uma influência espiritual prejudicial e contrária aos propósitos divinos.

Trazendo, então, para a atualizade essa origem tão prática da escola bíblica, seria então necessário estender-nos a outras necessidades sociais da nossa época para ajudar a sociedade em que vivemos.

Primeiro século

Mas, voltemos ao assunto da leitura. Como era no primeiro século? Como era no tempo em que essa frase esteve nos lábios do nosso Senhor e o seu interlocutor a ouviu? Como o verbo “ler” foi ouvido? E, por quem? Se a capacidade de ler era tão absurdamente baixa 1600 anos depois de Jesus, não é de se pensar que fosse menor no tempo de Jesus?

Acontece que Jesus era judeu e estava falando para outro judeu. Em média, alguns estimam que pelo menos a metade da população judia sabia ler e escrever. Há os que projetam os números da comunidade rural de início do século XX para dizer que talvez apenas 3% da população era alfabetizada. Mas isso se contradiz com registros do ano 64 dC em que havia um professor para cada 25 crianças. Na realidade, o povo judeu levava a sério a alfabetização. Então podemos concordar com os historiadores mais conservadores e afirmar que ao menos 50% da população (sem fazer distinção entre homes e mulheres) era alfabetizada. O próprio Jesus (filho de um carpinteiro/construtor) era alfabetizado. O encontramos lendo a Torá e escrevendo no chão.

Compreendes o que estás lendo?

Então esse “Como lês tu?” não pode ser interpretado como “Ao final de contas, como é possível que você leia?” já que quem falava com Jesus não era uma pessoa comum, mas um mestre da Lei. Devemos interpretar esta frase como sendo: “Como interpretas o que lês?” Ou seja, “Qual é o significado que você dá àquilo que você mesmo lê?“. De fato, é assim que a temos na maior parte das traduções (Almeida Revista e Atualizada; King James Atualizada; e outras)

Em todo o novo testamento, apenas Lucas usa esse verbo (ἀναγινώσκεις anaginōskeis) Em atos 8 30 Lucas nos mostra Felipe correndo ao encontro do oficial de Candace e perguntando: você entende o que está lendo?

Então Filipe correu para a carruagem, ouviu o homem lendo o profeta Isaías e lhe perguntou: “Compreendes o que estás lendo? Atos 8 30

Aqui no evangelho, vemos esse verbo sendo usado por Jesus com carga similar: “Em que forma você entende o que está lendo?

Não temos tempo para alongarmos no contexto. Baste apenas refrescar nossa memória dizendo que este advogado ou erudito da Lei quis pregar uma peça em Jesus

Certa vez, um advogado da Lei levantou-se com o propósito de submeter Jesus à prova e lhe indagou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?

Ao que Jesus lhe propôs: “O que está escrito na Lei? Como tu a interpretas?

E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e com toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”.

Então, Jesus lhe afirmou: “Respondeste corretamente; faze isto e viverás”.

Ele, no entanto, insistindo em justificar-se, questionou a Jesus: “Mas, quem é o meu próximo?

É esse diálogo o que dá pé para a parábola do Bom Samaritano que mesmo sendo muito conhecida, seria bom darmos outra olhada sobre “quem é nosso próximo” já que o próximo – na parábola – não é o que está caído e sim o que ajuda, que, por sinal, é samaritano. O modelo a ser seguido é o de um ser desprezível para este mestre da Lei.

O que fazer com o modelo?

Mas voltando ao “Como lês tu?” o que nosso Senhor está fazendo é – em primeiro lugar – colocando a responsabilidade da interpretação nos ombros do seu interlocutor. Ninguém mais do que a própria pessoa é capaz de nos dizer como ela está interpretando a sua leitura.

A diferença entre o como e o quê

É no como e não no quê que reside o problema.

Por exemplo, alguém poderia ler “Minha Luta” de Adolf Hitler e nunca na vida coincidir com ele em que a raiz de todos os males da humanidade seriam os judeus. O quê – isto é, a coisa lida – nunca é o problema e sim o como.

Um exemplo igual e contrário pode ser visto nesta passagem: o quê esta pessoa estava lendo era a escritura, só não ficava claro o como. O quê (que neste caso é, o equivalente do nosso antigo testamento) não era o problema, e sim o como a pessoa estava lendo.

A partir disso é que se pode analisar qual atitude ele teria para consigo mesmo e com seu próximo. Dois seres que – segundo o nosso mestre – não são tão distantes assim, ao final das contas, somos apenas uma única raça: a humana.

Como ensinamos?

Em segundo lugar, a atitude de Jesus nos deveria levar a mudar nosso jeito de ensinar ou partilhar o que sabemos sobre a escritura. Se bem há momentos como estes em que uma pessoa fala e os outros ouvem, também devemos ter momentos em que qualquer um pode dizer o que realmente pensa sobre o que está sendo ensinado. Ao final das contas, e sem querer ser chato com a identidade batista, a liberdade de consciência é um princípio muito caro para nós. É a partir dessa liberdade que pode ser construída a necessidade da liberdade de expressão que acha seu limite no direito alheio de fazer exatamente a mesma coisa. E é no cerne da liberdade de expressão que o “como lês tu?” encontra sua mais profunda aplicação. Não no conceito de dizer qualquer coisa, mas no contexto da aceitação do outro como diferente, mas não tão distinto.

O rencontro com nossa identidade batista.

Então, de forma quase silenciosa, acabamos desembarcando na identidade batista e sua razão. O Como você lê, acaba sendo a mola propulsora das liberdades pessoais e de consciência tão seriamente ameaçadas nos últimos anos no nosso continente. Também é ela o despojo na guerra espiritual que vem sendo travada já que o iluminismo não é nossa luz, mas sim a luz de Cristo e é em Jesus – o Cristo – que encontramos este maravilhoso exemplo de aceitação do diferente. A livre interpretação da realidade em que vivemos não é um fruto dos movimentos humanistas, mas sim o ponto de apoio em que o próprio Jesus aplicava sua maior força: fazer o outro pensar.

É no “Como você lê?” que redescobrimos o princípio da centralidade da bíblia que tão caro nos é como membros de uma comunidade batista, já que é a leitura da Bíblia e sua interpretação comunitária (em contraposição à interpretação padronizada, hierárquica e imposta) que nossos antepassados acharam razão suficiente para lutar até a morte se fosse necessário.

É no “Como você lê?” que se revigora o princípio da autonomia congregacional, já que lemos juntos, interpretamos juntos e comungamos juntos dessa mistura interpretativa e em paz.

É no “Como você lê?” que reunificamos o secular com o sagrado e o administrativo com o cultual. Não pode haver tal distinção. Sou “eu” quem lê e “eu” quem interpreta e a esse “eu” não lhe convêm as divisões. Sou apenas uma pessoa na minha intimidade, na minha vida cultual e na minha vida pública. E aquilo que quero para mim o quero para meu próximo. Isto é, meu irmão de raça.

E é no “Como você lê? que se encontra a chave para a separação entre a igreja e o estado, pois o estado (que tem seus deveres para com todos os cidadãos independente da sua crença) não tem direito nenhum a interferir na minha crença particular e por não querer isso para mim, também não o desejo para meu próximo.

É no “Como você lê?” que o discipulador se coloca em pé de igualdade com seu có-discipulo e podem, juntos, trilhar o caminho da descoberta da vida cristã porque não se trata de uma imposição de um ser superior e sim de uma caminhada e uma descoberta feita em conjunto.

E finalmente, é no “Como você lê?” que encontramos a fórmula básica para a escola bíblica ou qualquer outro esquema de estudo da bíblia. Em que ponto está o outro? Qual é sua interpretação? Quais suas lutas e afetos? Qual seu olhar sobre o mundo? Até que ponto o olhar do Messias invadiu seu mundo íntimo?

Então, meu apelo nesta noite é: imitemos nosso mestre. Perguntemos ao outro como interpreta a escritura.

Cristo não negocia tarifas

A semana passou, os holofotes de Davos se acenderam, e o velho teatro do poder voltou ao palco. Desta vez, com um roteiro pouco sutil: tarifas como arma, alianças como moeda de troca e a Groenlândia tratada como se fosse um ativo disponível em prateleira geopolítica. Não é apenas economia. É liturgia imperial.

Quando nações grandes pressionam nações menores “em nome do interesse nacional”, o que aparece não é força, mas idolatria. Idolatria do mercado, da segurança, da soberania absolutizada. O império sempre fala a língua da necessidade: precisamos disso, é estratégico, é inevitável. Babel nunca sai de moda; só muda o vocabulário.

N. T. Wright insiste que o anúncio central do cristianismo não é um conjunto de valores espirituais, mas uma afirmação pública e perigosamente política: Jesus é Senhor. Isso significa, sem rodeios, que ninguém mais é. Nem presidentes, nem mercados, nem blocos econômicos. Quando Estados agem como se fossem fins últimos, já cruzaram a linha que separa governo de divindade.

O problema não é ter poder econômico. O problema é quando o poder deixa de servir e passa a exigir culto. Tarifas viram castigo moral. Sanções viram instrumento pedagógico. Povos inteiros são reduzidos a peças substituíveis num tabuleiro que nunca é deles. O império sempre se apresenta como racional, mas age com a velha lógica do medo: dominar para não perder.

O Salmo 2 descreve esse cenário com ironia cortante: as nações conspiram, os reis se enfurecem, os poderosos se aconselham. E Deus não entra em pânico. Ele ri. Não por desprezo ao sofrimento humano, mas porque todo projeto que se pretende absoluto já nasce provisório. A história não pertence aos que gritam mais alto, mas àquele que governa sem precisar ameaçar.

A igreja, quando esquece isso, se torna previsível – e, portanto, capturável. Passa a repetir slogans de estabilidade, prosperidade ou “defesa da civilização” sem perceber que trocou o evangelho por uma versão batizada do realismo político. Cristo vira um símbolo decorativo pendurado no salão onde decisões injustas são tomadas.

Daniel fala de um reino que não nasce de mãos humanas e não depende de alianças frágeis. Um reino que não se sustenta por tarifas, exércitos ou chantagem econômica. Esse contraste é o julgamento mais severo sobre o nosso tempo: tudo o que precisa ser imposto à força revela sua própria fragilidade.

Ser igreja, em meio a guerras comerciais e disputas imperiais, não é escolher um lado “mais simpático”. É recusar a lógica inteira. É lembrar – com palavras e com práticas – que o mundo não será salvo por quem acumula poder, mas por quem governa a partir da cruz.

E isso continua sendo profundamente desconfortável. Para os impérios. E, às vezes, para a própria igreja.

Agora, isso que nos parece tão distante, deve nos servir para refletir nossa própria submissão aos poderes deste mundo em pleno ano eleitoral brasileiro. No decorrer dos próximos meses, se acentuará a defesa de um e outro lado como se um ou outro refletisse o senhorio de Cristo e isso é preocupante.

Violência em nome da fé

Image
Image
Image

O que vem acontecendo no Irã desde o fim de 2025 não é um episódio isolado nem um “excesso pontual” de governo. É o tipo de convulsão social que acontece quando um povo já não encontra ar para respirar. Colapso econômico, desemprego, inflação, ausência de perspectivas. E, somado a tudo isso, a sensação corrosiva de que não há canais legítimos para dizer “basta”.

Quando, em janeiro de 2026, os protestos se espalharam pelas 31 províncias, a resposta do regime foi previsível – e brutal. Apagão de internet para interromper a circulação da verdade. Tropas de elite nas ruas. Prisões em massa. Mortes. Relatos de execuções. Quando o poder sente que está perdendo o controle da narrativa, ele tenta controlar o silêncio. O problema é que silêncio imposto não é paz; é compressão. E compressão sempre explode.

Há algo ainda mais perturbador: a repressão não se apresenta apenas como política, mas como sagrada. Protestar vira “guerra contra Deus”. Discordar do regime se torna blasfêmia. A violência ganha verniz teológico. Esse é um dos pecados mais antigos da religião: usar o nome de Deus para blindar estruturas que esmagam gente de carne e osso. Quando isso acontece, não estamos diante de excesso de fé, mas de sua perversão.

Aqui surge a pergunta que atravessa séculos: onde está Deus quando o povo clama por pão, dignidade e liberdade? A Bíblia não responde com abstrações confortáveis. Ela responde com um Deus que ouve, vê e desce. O clamor dos oprimidos nunca é ruído de fundo para o Deus bíblico. Ele não observa de longe, avaliando neutralmente os “dois lados”. Neutralidade diante da opressão é sempre aliança com o opressor.

Por isso a cruz é tão escandalosa. Ela denuncia não apenas a violência política, mas também a violência religiosa que mata em nome de Deus. Um messias executado por um conluio entre poder imperial e zelo religioso desmonta qualquer teologia que sacralize o Estado, o regime ou a ordem vigente. O Deus revelado ali não exige subserviência cega; ele expõe sistemas que se sustentam pelo medo.

Quando pessoas comuns vão às ruas, mesmo sabendo que podem morrer, algo profundamente humano – e espiritualmente significativo – está acontecendo. Não é romantização do sofrimento. É a recusa do desespero total. É a coragem de dizer que a vida vale mais do que a mentira oficial. Há, nisso, um eco da fé mais básica: a confiança de que o não-ser, a morte e o terror não têm a última palavra.

O evangelho não anuncia apenas consolo interior para almas feridas. Ele fala de libertação concreta, de cativos soltos, de estruturas confrontadas. Um reino que começa pequeno, vulnerável, mas que insiste em existir no meio da tirania. A esperança cristã nunca foi ingenuidade política. Ela é, ao contrário, profundamente subversiva: afirma que nenhum império, nenhum regime, nenhuma polícia secreta é eterno.

Os profetas já sabiam disso. Denunciar leis injustas, sistemas que roubam o pobre e decretos que esmagam o fraco sempre foi parte da fé bíblica. E o último livro da Escritura lembra algo incômodo: o clamor dos que morreram injustamente não se perde no vazio. Ele sobe. Ele permanece. Ele aguarda resposta.

O Irã de hoje nos obriga a olhar para além das manchetes. Obriga a perguntar que tipo de Deus estamos anunciando. Um Deus cúmplice da repressão ou o Deus que escuta o grito abafado, mesmo quando a internet cai e as ruas se enchem de sangue. A ressurreição, afinal, não é um detalhe devocional. É a afirmação de que nenhum poder de morte é definitivo – e que toda tirania, cedo ou tarde, será chamada pelo nome.

Migração e Igreja

Vivemos tempos conturbados em que quem tem poder fala forte e quem não o tem é obrigado a se adaptar da melhor forma possível. A igreja, por sua natureza conservadora e sua função de “sal da terra” usualmente confunde isso com nacionalismo ou com alinhamentos políticos mais à direita quando não do lado da extrema-direita. Isso é preocupante. Com isso não estamos dizendo que – necessariamente – a esquerda seja uma opção ou caminho. Mas dizemos que a igreja deve se manter livre e se comportar como cidadãos democráticos exemplares visando sempre a melhor opção para a sociedade em que vive ora movendo a balança para um lado, ora para outro, mas nunca sendo previsível. Ser previsível a torna em fácil refém do palanque politico de um ou outro lado. Isso é, liberdade de pensamento e liberdade de expressão na prática.

Uma das personagens preocupantes no atual cenário é o atual ocupante da Casa Branca assim como o é o ocupante do Kremlin. Há mais, mas fiquemos apenas com o primeiro da lista e sua recente atuação nos casos de imigração. Recentes reportes indicam que a imigração nos Estados Unidos é uma situação de grande envergadura com dados indicando mais de 2.7 milhões de pessoas entrando no ano de 2024. Isso, evidente sobrecarrega o sistema como um todo e enfraquece o país em várias áreas além de – por mais que melhore a vida de quem migra em parâmetros relativos – colocar o migrante em situação vexatória ou como uma classe inferior perante seus pares nacionais.

Com a mudança do habitante da Casa Branca, mudou a política de recepção de imigrantes fazendo com que – por primeira vez em 50 anos – haja uma depressão dos números com uma saída neta de 925.000 pessoas e uma entrada de 185.000 no ano de 2025. Recentemente a secretária de Segurança Nacional (o que seria equivalente a um ministro tupiniquim) afirmou que Estados Unidos tem “arrestado, detido e deportado a seus países de origem” a mais de 650.000 imigrantes indocumentados e que perto de 2 milhões tem se auto deportado. Além disso, se revogaram 100.000 visados estrangeiros em 2025. Para ter uma ideia, apenas em 2025 se revogaram mais do que o dobro em todo o governo Biden. (Ver https://www.telemundo.com/noticias/noticias-telemundo/inmigracion/mas-inmigrantes-salieron-de-los-que-llegaron-a-estados-undios-en-2025-rcna253930)

É obvio que para os Estados Unidos não é nada bom ter imigrantes ilegais. Não apenas pela entrada no país, senão pela sua permanência em situação de semi-residente sem direito a nenhum tipo de assistência a não ser a mais básica e até essa é difícil de obter. Insisto que para quem migra, é – em termos relativos – melhor viver como ilegal lá do que no restante das Américas. Mas ele não percebe que isso mesmo degrada o país ao qual ele se acolhe.

Um titular interessante desses dias diz assim: “Trump ameaça invocar a Lei da Insurreição para reprimir protestos contra abusos de agentes federais“. O artigo contem múltiplas denúncias de violência e mortes em custódia de imigração (ICE), inclusive em Minneapolis e no Texas.
Há relatos de uma “violência sem precedentes” cometida por agentes de imigração e várias mortes de imigrantes sob custódia apenas nos primeiros dias de 2026.

Se colocarmos a lupa sobre os eventos da última semana, veremos que os protestos têm crescido. Se protesta contra abusos de autoridades de imigração dos EUA, incluindo mortes de imigrantes sob custódia e o uso excessivo da força. O governo tem reagido de forma dura, até ameaçando de usar mecanismos legais de exceção para conter manifestações. Tudo isso, evidentemente, expõe tensões profundas em torno da justiça, da dignidade humana e do tratamento dos estrangeiros.

Se perguntarmos para um cristão americano típico do meio oeste ele fervorosamente vai defender a posição do atual presidente. Não que ele não tenha esse direito, mas mostra uma visão oblíqua e estreita do problema como um todo e – ao parabenizar e concordar com o presidente – terceiriza a responsabilidade do que lhe deveria ser mais sagrado por ser isso o que o distingue de outros animais: a capacidade de pensar. O livre pensamento demanda … pensar. E isso, parece que é um bem cada vez mais escasso haja vista a tremenda polarização entre os extremos da vida política mundial.

A Palavra de Deus, em Cristo, – diria Barth – julga tanto as estruturas injustas quanto a própria igreja quando ela se associa a nacionalismo excludentes. A sociedade não tem essa consciência de um Cristo que é o Juiz Justo. A Igreja, sim, tem. Ou ao menos deveria.

Ao longo de toda a Bíblia, o Senhor se lembra dos julgados e marginalizados. E – insisto – por mais que para o imigrante lhe seja uma situação relativamente melhor do que a que vive em seu pais de origem, de fato está ajudando a desconstruir uma nação ao passo que não ajuda a construir a sua.

O imigrante não é apenas uma ameaça ou um recurso econômico (bem mais econômico) a ser administrado ou deportado, ou assimilado. Ele é o próximo a ser amado. E o amor que o Cristo exige dos seus discípulos é o ágape, não o eros ou o fileo. Segundo Nygren, o eros é uma forma de amor interesseiro que “usa” o outro ao passo que o ágape é o amor que se doa. Em se doando, deve denunciar, protestar, levantar a voz pelo oprimido, se posicionar do lado do desvalido.

Mas, talvez você diga, não será que o migrante sabia dessa situação quando saiu do seu país? Claro que sim. Hoje ninguém está desinformado. Mas, assim como a mulher adúltera sabia das consequências dos seus atos, o que importa – ou deve importar – é a situação atual de quem está em subserviência.

Se requer de nós, cristãos, práticas concretas de hospitalidade, justiça para migrantes e denúncia profética de sistemas que negam a imagem de Deus. Sim, um sistema que atropela outras nações, não serve a Deus e sim a seus próprios interesses.


Não se trata, então, de ser de esquerda ou de direita, mas ser do Reino e buscar constantemente sua justiça mantendo um nível de imprevisibilidade que surpreenda sempre.

A justiça que não cabe no tribunal

Antes de mais nada um esclarecimento: não sei grego. Foi uma dessas matérias que tive que deixar de lado no seminário para focar em pedagogia. Todavia, William Barclay escreveu um livro bem bacana que ajuda a entender algumas palavras e dikaiosýnē (justiça) é uma delas.

δικαιοσύνη: justiça que não cabe no tribunal

A gente fala “justiça” e quase sempre imagina um fórum: culpa, pena, sentença, reparação. Mas quando o Novo Testamento usa δικαιοσύνη (dikaiosýnē), ele está falando de algo mais vivo — e mais perigoso. Perigoso porque desmonta o nosso impulso mais automático: estabelecer a própria justiça.

No coração do evangelho, justiça não é só “dar a cada um o que merece”. Justiça é Deus colocar o mundo nos trilhos sem virar refém do nosso ciclo de vingança. É Deus ser fiel à sua aliança, e justamente por isso não abandonar o mundo quebrado. N. T. Wright gosta de dizer que “a justiça de Deus” é a sua fidelidade pactual: Deus cumpre o que prometeu, e por isso ele conserta o que nós estragamos. E William Barclay lembra um ponto que muita gente esquece: para Paulo, justiça não é um carimbo jurídico frio; é relação correta com Deus que transforma a vida e as relações.

Agora, se isso é verdade, a pergunta muda: não é “como eu provo minha inocência?”. É “como eu vivo quando a injustiça me encontra?”

1) Romanos 1.16-17: justiça revelada, não fabricada

Paulo diz: “No evangelho é revelada a justiça de Deus” (Rm 1.16-17). Repara no verbo: revelada. Não é construída por performance moral, nem comprada por boas obras, nem conquistada por superioridade espiritual.

Em chave neo-ortodoxa (e aqui Barth ajuda), o evangelho é o lugar onde Deus se dá a conhecer soberanamente: ele vem, julga e salva — as duas coisas juntas. Deus não passa pano; Deus não negocia com o mal; Deus não terceiriza o acerto de contas. Mas o espanto é este: ele julga salvando, e salva julgando.

Isso tem um efeito prático: se a justiça é revelação, eu paro de tratar justiça como um projeto de autoafirmação. Eu paro de dizer “eu vou mostrar”. E começo a dizer: “Senhor, mostra.”

2) Romanos 3.21-26: o justo e o justificador — no lugar do pecador

Paulo vai mais fundo: “Agora, porém, sem lei, se manifestou a justiça de Deus…” (Rm 3.21-26). Aqui não é teoria; é cruz.

Na cruz, a justiça de Deus aparece como um paradoxo: Deus é justo e ao mesmo tempo justificador. Ele não chama o mal de bem; ele não declara “inocente” por conveniência. Mas ele assume o custo. Barth diria: Deus se coloca no lugar do pecador. Nygren lembraria: isso é ágape, amor que se dá pelos inimigos. Wright insistiria: aqui Deus está cumprindo sua promessa a Israel em Jesus, não para exibir superioridade moral, mas para resgatar o mundo.

E é aqui que a nossa conversa sobre injustiça encosta na ferida de Cristo.

Jesus: a injustiça perfeita e a renúncia ao direito merecido

Se alguém tinha “direito” de estabelecer sua própria justiça, era Jesus. Inocente. Fiel. Sem fraude. E, ainda assim, ele foi tratado como ameaça, como blasfemo, como criminoso. Ele sofreu o tipo de injustiça que não cabe em explicação fácil.

E qual foi o movimento dele?

Pedro descreve assim: “quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pe 2.23). Isso é dikaiosýnē encarnada.

Jesus não estava dizendo: “tanto faz”. Ele estava dizendo: “o Pai julga de forma íntegra, e eu não vou competir com o Pai pelo trono do julgamento”. O caminho dele não foi o da autopromoção moral, nem o do acerto de contas na força. Foi entrega — não passividade covarde, mas confiança ativa no Juiz que não erra.

E aqui o evangelho nos pega pela garganta: muitas vezes o que chamamos de “luta por justiça” é, na prática, luta pelo nosso ego ferido. É a necessidade de sair por cima. Jesus tinha todo “direito” de sair por cima — e escolheu descer, por amor.

3) Mateus 6.33: buscar o Reino e a justiça… no chão da vida

Por isso Jesus diz: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6.33). Não é uma justiça abstrata. É justiça prática: como eu trato pessoas, como eu lido com dinheiro, como eu confio no Pai no cotidiano. Justiça que aparece no prato, no bolso, na agenda, na língua.

E aqui vem a conclusão inevitável: a justiça que Deus revela em Cristo não me autoriza a estabelecer minha própria justiça; me chama a ser uma oferta viva. Paulo chama isso de culto verdadeiro: “apresentai o vosso corpo como sacrifício vivo” (Rm 12.1). Oferta viva é gente que não devolve mal por mal, que não faz da dor um altar para o próprio orgulho, que não transforma a vida numa audiência permanente.

A justiça do evangelho não apaga a injustiça sofrida por Jesus — ela a expõe. E, ao mesmo tempo, mostra o caminho: o Crucificado venceu não porque gritou mais alto, mas porque se entregou ao Pai com integridade. E é essa justiça — fiel, restauradora, prática — que o Reino planta em nós.

Fé dogmática ou fé experimental

Há formas e formas de atravessar a vida. Uma delas é pelo empirismo: provar por si mesmo as nuances do caminho, em vez de admitir que a humanidade já atravessou vales parecidos, se não idênticos.

Existe uma dose de orgulho nisso. Mas também há algo de corajoso, de desbravador. O espírito empírico não se satisfaz com “experiências herdadas” em tudo. Se fizesse isso, nem viveria: a experiência humana não cabe em 70, 80, 90 anos de um único indivíduo.

E, ainda assim, ninguém vive só de empirismo. Sem tradição, você repete erros antigos achando que descobriu a pólvora. Sem experiência própria, você vira um catálogo ambulante de frases alheias.


Na espiritualidade acontece algo análogo.

Existe uma forma de viver a fé estática: “tudo já foi dito”, “tudo já foi vivido”, “o que falta dizer já está contido no que foi dito”. Nessa lógica, o novo é suspeito por definição. Se algo diferente do que “a família da fé” já viu aparece, então com certeza está errado. Como se o Espírito Santo tivesse se aposentado e deixado apenas um arquivo morto.

Chamemos isso, aqui, de fé dogmática quando ela vira postura de fechamento (não quando vira fidelidade).

Do outro lado do espectro há os que negam qualquer forma de dogma. Deus é o Deus dos impossíveis; então, compete a nós “descobrir” diariamente uma coisa inédita. As categorias teológicas, nesse ponto de vista, seriam algemas. Nosso Deus seria puro dinamismo: o surpreendente a cada instante — e o passado, no máximo, uma inspiração poética.

O problema é que esse “dinamismo” facilmente vira uma espiritualidade sem freio: hoje Deus disse A, amanhã Deus disse o contrário, e sempre há uma explicação “profética” para justificar a incoerência.

A Bíblia já manda frear isso: “não creiais em todo espírito; provai” (1Jo 4:1). E ainda: “examinai tudo, retende o bem” (1Ts 5:21). O teste não existe para apagar o Espírito, mas para impedir que a nossa ansiedade use o nome dele.


Colocando assim, parece fácil escolher um lado: ou cremos que tudo está pronto, ou cremos que toda geração precisa reinventar o Eterno.

Só que a fé — como a vida — não é tão simples.

Erra o dogmático quando confunde tradição com imobilidade. Erra o experimentalista quando confunde vida com novidade compulsiva. E a saída não é um “pontinho médio” morno, como se equilíbrio fosse ficar em cima do muro.

A natureza espiritual da Igreja — aquela que transcende denominações, idiomas e séculos — nos obriga a duas lealdades ao mesmo tempo:

  1. lealdade ao depósito recebido;
  2. lealdade ao Deus vivo que continua conduzindo seu povo.

A primeira lealdade aparece sem rodeios: “a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A segunda também: o Cristo ressuscitado caminha com a Igreja, corrige, consola, adverte, abre portas e fecha atalhos (Ap 2–3).

Então o problema real não é “dogma vs experiência”. É quem manda: o Cristo vivo ou o nosso temperamento religioso.


Aqui Barth é útil. E Tillich, do seu modo, também.

Em linhas gerais: Cristo é a Palavra viva de Deus (Jo 1:1–14; Hb 1:1–2). E a Escritura é o testemunho autorizado dessa revelação, aquilo que nos ancora para que a “voz de Deus” não vire eco do nosso próprio coração. “Toda Escritura é inspirada por Deus… para que o homem de Deus seja perfeito” (2Tm 3:16–17). E Pedro ainda amarra: nenhuma profecia é de interpretação particular (2Pe 1:20–21). Ou seja: a Bíblia não é massa de modelar.

Isso soa herético para os dois extremos.

  • Para o dogmático fechado, porque ele prefere uma “Palavra” reduzida a fórmulas fixas — e Deus não cabe num catecismo, por melhor que seja.
  • Para o experimentalista sem critério, porque ele alterna literalismo e alegoria conforme convém, sem paciência para ler texto, contexto, gênero, história e comunidade.

E aí nasce a espiritualidade mais perigosa: a do “Cristo que eu sinto”.

Porque, sim: alguém pode dizer “Cristo é a Palavra viva”, e concluir que tudo o que eu sinto vindo dele já é auto-validado. A experiência vira tribunal, e a doutrina vira refém. Isso é receita pronta para abuso espiritual, seita, manipulação e — ironicamente — dogmatismo novo, com cheiro de “revelação fresca”.

O Novo Testamento nunca tratou experiência como soberana. Tratou experiência como discernível, avaliável, submetida à Palavra e à comunidade. “Falando dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14:29). Julguem. Não aplaudam automaticamente.


O dinamismo cristão não é “cada um com sua revelação”. É um pulsar contínuo: a Igreja interpretando e re-interpretando a Escritura diante de novas perguntas, novas dores, novos desafios — sem trocar o evangelho por modismos.

Foi isso que aconteceu nos grandes marcos históricos.

  • Quando a Igreja afirmou, contra confusões e modas religiosas, que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ela não estava “inventando” Cristo; estava protegendo o evangelho. Por isso Niceia (325) e Calcedônia (451) são tão decisivos. Sem isso, “cruz” vira metáfora e “encarnação” vira poesia.
  • Quando a Reforma (magisterial) insistiu que a Igreja precisa ser constantemente reformada pela Palavra (semper reformanda), ela não estava negando a história, mas chamando a tradição para prestar contas à Escritura.
  • Quando os reformadores radicais lembraram que a fé não é só credal, mas vida concreta, eles cutucaram uma cristandade confortável demais.

Isso não significa que “a tradição manda” nem que “a novidade manda”. Significa que Cristo manda, e ele usa meios: Escritura, comunidade, história, dons, pastores, mestres, e também o sofrimento e a alegria do caminho (Ef 4:11–16).


Milagre, então, entra onde?

Não é questão de “acreditar ou não em milagres no século XXI”. Eu acho pobre a fé que precisa negar o sobrenatural para parecer inteligente — e acho igualmente pobre a fé que precisa chamar tudo de milagre para parecer viva.

A postura madura é outra: docilidade para reconhecer quando Deus age — e humildade para não inventar milagre só porque ignoramos mecanismos naturais. O Deus da Bíblia não tem medo da criação que ele mesmo sustenta.

E mais: a experiência cristã saudável raramente é individual. Ela é comunitária, testada, narrada, examinada, acompanhada. Isolamento espiritual costuma ser incubadora de fantasia.


Agora, duas palavras diretas — uma para cada tribo.

Você, dogmático: continue amando doutrina. Doutrina importa. Mas pare de se esconder atrás de credos como se decorar fórmulas fosse o mesmo que conhecer Cristo. Você pode saber os símbolos e concílios, citar catecismos de cor, e ainda assim nunca ter se rendido ao Cristo vivo. A ortodoxia que não produz arrependimento, amor e cruz não é “fidelidade”: é verniz (Tg 2:17).

Você, experimentalista: continue buscando vida com Deus. O Espírito não é museu. Mas entenda o que você perde quando despreza dois mil anos de oração, martírio, debate, correção e maturidade. Deus não começou a falar com você. A Igreja não nasceu ontem. A sabedoria que te precede não é inimiga da unção — é, muitas vezes, o recipiente que impede a unção de virar delírio.

E um lembrete histórico importante: você é chamado “cristão” não só porque tem uma Bíblia na mão, mas porque confessa o Cristo que a Igreja aprendeu a nomear com precisão ao longo dos séculos — especialmente nos grandes concílios antigos (como Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia). Ignorar isso não é “pureza bíblica”. É amnésia.

No fim, a pergunta não é “dogma ou experiência?”. É outra:

a sua fé te prende a Cristo — ou te prende a você mesmo?

Venezuela, poder e império: quando a “salvação” vem armada

Nos primeiros dias de janeiro, o mundo assistiu a uma cena que parece saída de um roteiro ruim – e por isso mesmo é perigosa: uma operação militar dos EUA na Venezuela culminou na captura de Nicolás Maduro (3 de janeiro de 2026) e, poucos dias depois, na sua apresentação à Justiça em Nova York (5 de janeiro de 2026).

Até aqui, muita gente vai querer torcer a história para caber no próprio bolso moral.

“Foi justiça.”
“Foi sequestro.”
“Foi libertação.”
“Foi invasão.”

E aí vem o tempero que denuncia a alma do negócio: autoridades e declarações públicas passaram a falar em recursos, riquezas, petróleo, “o que agora vai ser redirecionado”, “quem fica com o quê”. Quando a linguagem muda de “direitos” para “ativos”, você já sabe: o altar está montado – e o deus costuma ser o interesse nacional transvestido de virtude.


O problema não é só geopolítica. É liturgia.

Porque impérios não se sustentam apenas com tanques. Impérios se sustentam com narrativas.

E narrativa imperial quase sempre usa um vocabulário religioso: salvar, purificar, libertar, corrigir o mal, trazer ordem. Só que, na prática, essa “salvação” costuma cobrar a conta dos vulneráveis primeiro – os que não têm bunker, nem passaporte, nem rede de proteção.

O risco aqui não é “a Venezuela”. O risco é o modelo: a ideia de que um país pode se investir do papel de juiz, redentor e administrador do destino de outro. E, quando isso acontece, a soberania vira detalhe técnico e a dor humana vira “dano colateral” em rodapé.

Não é coincidência que a legalidade internacional da operação esteja sendo contestada e discutida em organismos e análises públicas: quando você normaliza exceções, você está ensinando o mundo a viver sem chão.


N.T. Wright e a pergunta que corta o assunto no meio

N.T. Wright insiste numa coisa que a igreja esquece quando se embriaga com o noticiário: o evangelho não é um adesivo devocional no para-choque da história; é uma declaração pública de senhorio.

Em termos simples (e explosivos):
Jesus é o Kyrios.
Logo, César não é – nem em versão antiga, nem em versão moderna, nem com bandeira bonita, nem com discurso “humanitário”, nem com promessa de prosperidade.

Quando o evangelho diz “Jesus é Senhor”, ele não está oferecendo um conforto íntimo apenas; ele está desautorizando qualquer império que se apresente como salvador final. O cristão pode até agradecer quando um tirano cai; mas não pode adorar o método, nem santificar a cobiça, nem chamar de “reino” aquilo que cheira a saque.


Como a igreja lê esse tipo de manchete?

Eu faria três perguntas na igreja – sem cinismo, mas com coluna ereta:

  1. Quem está sendo servido de verdade?
    Os pobres? Os presos políticos? As famílias? Ou os interesses estratégicos e os mercados?
  2. Que tipo de “paz” está sendo prometida?
    A paz de Cristo nasce do caminho do Cordeiro; a paz do império nasce da ameaça.
  3. Que tipo de esperança está sendo vendida?
    Porque esperança comprada com propaganda costuma virar desespero quando a conta chega.

E aqui está a disciplina espiritual mais difícil: recusar a idolatria do “meu lado”. O cristão não é obrigado a escolher qual império prefere. O cristão é chamado a confessar que nenhum império é o Reino.

O Reino tem Rei – e ele não usa a linguagem da rapina como se fosse virtude.