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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

Suportar também é amar

Tem um negócio em Colossenses que a gente lê rápido… mas, se parar pra pensar, é pesado:

“Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos.”

A gente foca no perdão. Mas antes vem o “suportar”. E suportar não é bonito.

Sim, suportar é servir de suporte ao outro, mas sob que condições que Paulo precisa falar em perdão?

Logo suportar é… aturar mesmo.

É quando o outro fala uma coisa que irrita.
Faz algo que você já pediu mil vezes pra não fazer.
Tem um jeito que te cansa.

E você pensa:

“de novo isso…”

A gente tem uma ideia meio romantizada de relacionamento.

Que vai fluir.
Que vai ser leve.
Que vai encaixar.

Não vai.

Conviver é difícil. Porque o outro não é você. E mesmo se fosse, já pensou ter que aturar alguém igual a você? Ou você acha que é o ser mais harmonioso e esbelto sobre a face da terra?

o outro não vai ser do jeito que você acha que deveria ser

E aí entra o ponto do texto. Não é só “perdoai-vos”.

É:

suportai-vos… e perdoai-vos

Ou seja, uma coisa segura a outra. Se não tiver perdão… não tem como suportar ninguém por muito tempo.

Porque vai acumulando. Pequenas coisas. Pequenas irritações. Pequenas decepções.

E quando você vê… já não quer mais nem estar perto.

Só que tem um detalhe meio incômodo nisso tudo:

você também é o “outro” na vida de alguém

Você também irrita. Também falha. Também cansa.

Então o jogo não é:

“como eu aguento o outro?”

É:

como a gente continua convivendo sendo imperfeito?

E Paulo responde:

“assim como o Senhor vos perdoou…”

Esse é o padrão. Não é o comportamento do outro. É o que Deus já fez com você. No fim das contas, relacionamento não se sustenta porque dá certo. Se sustenta porque existe perdão o tempo todo.

E às vezes amar não é sentir nada bonito.

É só isso aqui:

“ok… eu vou relevar isso de novo”

E seguir.

Amar não é concordar

Existe uma confusão bem comum quando se fala em “amor”. Muita gente entende que amar o próximo significa aceitar tudo, concordar com tudo e nunca confrontar. Como se amor fosse sinônimo de aprovação.

Mas não foi isso que Jesus ensinou.

Quando ele disse: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”(Mt. 22:39) Ele não está falando de passar pano para o erro. Está falando de responsabilidade.

Ninguém que se ama de verdade deseja permanecer no erro. Logo, amar a si mesmo não é se enganar. Não é justificar o próprio pecado ou terceirizar a responsabilidade. É reconhecer, se arrepender e buscar transformação.

Então, amar o próximo como a si mesmo implica exatamente isso: Não abandonar o outro no erro.

Quando Ele diz:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39)

Ele não está criando uma ideia nova. Ele está citando diretamente:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Levítico 19:18)

E o contexto desse texto é muito claro — e pouco lembrado.

Antes desse versículo, está escrito:

“Não odiarás teu irmão no teu coração; certamente repreenderás o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele.” (Levítico 19:17)

Jesus nunca confundiu amor com permissividade. Ele acolhia, sim. Mas também dizia: “Vai e não peques mais.” (João 8:11) Ou seja, há graça, mas há direção.

O problema é que confrontar em amor exige coragem.

É muito mais fácil ficar em silêncio, evitar o desconforto, manter uma falsa paz.

Mas isso não é amor. Isso é omissão

O verdadeiro amor não humilha, não expõe desnecessariamente, não agride. Mas também não se cala diante do que destrói o outro.

Paulo fala a mesma coisa: “Seguindo a verdade em amor” (Efésios 4:15)

Sem verdade, o amor vira sentimentalismo e a verdade vira dureza.

O equilíbrio é uma jóia rara. Mas é o caminho. Aliás, talvez seja “O” caminho

Amar alguém, de verdade, é querer vê-lo inteiro. E, às vezes, isso passa por dizer o que ele não quer ouvir. Com cuidado, com respeito. Mas com a verdade.

Quando Deus não resolve, mas sustenta.

Têm coisas na vida que a gente, ora, clama, insiste, pede… e não mudam

Isso incomoda. Porque, no fundo, a gente acredita que, se Deus quiser, Ele resolve. E resolve mesmo. Só que nem sempre. E, confie, entre o que você quer e o que Deus quer, o que Deus quer vai ser realizado.

Paulo fala de um “espinho na carne”. Algo que o incomodava profundamente. Ele orou três vezes para que aquilo fosse tirado dele. Não era pouca coisa. Era sofrimento real.

E a resposta de Deus não foi a que ele queria:

“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” 2Cor. 12:9

Deus não removeu. Deus sustentou.

Isso quebra uma expectativa nossa. Porque a gente associa Deus com solução. Mas às vezes Ele se apresenta como sustento. Nem tudo vai ser resolvido no jeito ou no momento que a gente quer. Aliás, algumas coisas permanecem. Não como castigo, mas como terreno para cultivo, ambiente, contexto.

E é nesse contexto que algo mais profundo acontece.

Paulo chega a dizer que se gloria nas fraquezas. Não porque gostasse de sofrer, mas porque entendeu algo: quando ele é fraco, então é que é forte.

A intuição nos levaria para outro lado. A gente preferiria ter força antes do que fraqueza. Deus, porém, muitas vezes trabalha ao contrário.

Talvez maturidade não seja ver todos os problemas resolvidos como criança mimada. Talvez seja permanecer inteiro mesmo quando algumas coisas não mudam.

Isso não é passividade ou desistência. É confiança.

Confiança de que Deus não perdeu o controle só porque a situação não mudou.

E, às vezes, o maior milagre não é a remoção do espinho, mas é você continuar de pé… com Ele.

A linguagem insuficiente

Ankersmit sugere que o encontro direto com o sagrado transcende a linguagem. A experiência precede o conceito. Antes da formulação, há o impacto. Antes da doutrina, há o abalo.

Como explicar a criação senão por meio de poesia? O próprio Gênesis já nasce ritmado, estruturado em cadência, repetição e paralelismo — quase um hino cósmico. E os Salmos ecoam esse mesmo movimento: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 19.1). Não é tratado científico; é canto. A criação não é descrita, é celebrada.

O mesmo ocorre com as experiências fundantes da fé bíblica. Como colocar em palavras o encontro de Moisés com a sarça ardente? O texto não explica o mecanismo do fogo que não consome; ele preserva o espanto. O chão torna-se santo. A voz chama pelo nome. Moisés tira as sandálias. A experiência é maior que o relato. A narrativa é apenas vestígio.

Isaías, no ano da morte do rei Uzias, não descreve Deus em categorias sistemáticas; ele vê serafins, fumaça, tremor, santidade triplicada: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3). A linguagem se fragmenta em repetição, porque a intensidade ultrapassa a sintaxe comum. O profeta não organiza conceitos — ele é desfeito e reconstruído: “Ai de mim!” (Is 6.5).

Paulo, no caminho de Damasco, experimenta luz, queda, cegueira, voz. Depois, anos mais tarde, ainda fala com cautela: “conheço um homem… foi arrebatado ao terceiro céu… ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar” (2Co 12.2–4). A linguagem reconhece seu próprio limite.

Os Salmos são talvez o testemunho mais honesto dessa insuficiência. Eles não tentam domar a experiência de Deus; eles a expõem. Há momentos em que o salmista não explica — ele geme: “Até quando, Senhor?” (Sl 13.1). Em outros, o silêncio é a única resposta adequada: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). E há ocasiões em que a única possibilidade é o assombro: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; é sobremodo elevado, não o posso atingir” (Sl 139.6).

Aqui a tese de Ankersmit encontra eco bíblico: há experiências que falam mais do que palavras. A linguagem não cria o encontro; ela tenta sobreviver a ele. Primeiro vem o abalo, depois a metáfora. Primeiro a presença, depois o salmo.

Contudo, essas experiências não terminam no silêncio absoluto. Elas inauguram missão. Moisés desce do monte para confrontar Faraó. Isaías responde: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6.8). Paulo se levanta do chão para anunciar Cristo entre as nações. O encontro que transcende a linguagem não paralisa — ele reorienta a existência.

É significativo que a Escritura recorra constantemente à linguagem simbólica, profética e poética. A fé bíblica nasce não apenas da explicação, mas do encontro. E porque o encontro é maior que o discurso, a linguagem se expande em imagens: rocha, pastor, refúgio, fogo consumidor, vento impetuoso, água viva. O Salmo 18 não diz apenas que Deus ajuda; diz que “a terra se abalou e tremeu… fumaça subiu de suas narinas” (Sl 18.7–8). A metáfora não é exagero literário; é tentativa de traduzir o indizível.

A insuficiência da linguagem não é fracasso da fé. É sua marca de autenticidade. Uma fé que cabe perfeitamente em definições talvez nunca tenha passado pelo deserto. A Bíblia preserva a tensão entre revelação e mistério. Deus se revela, mas não se reduz.

Talvez por isso o louvor seja a forma mais adequada de teologia. Ele admite que explicar não basta. Ele canta. Ele chora. Ele clama. Ele silencia. Como diz o Salmo 62.1: “Somente em Deus espera silenciosa a minha alma.” Às vezes, o silêncio é a confissão mais verdadeira.

No fim, a linguagem é sempre tentativa. O encontro é sempre maior. E é dessa desproporção — entre o que foi vivido e o que pode ser dito — que nasce a fé bíblica: não como discurso fechado, mas como resposta contínua ao Deus que se deixa encontrar e, ao mesmo tempo, permanece inexprimível.

Entre o sambódromo e o trono: quem é o verdadeiro Senhor?

O Carnaval de 2026 no Rio homenageia um presidente em exercício com desfile completo e um boneco de 22 metros. Ao mesmo tempo, o país amarga novo recorde negativo no índice de corrupção e vê escândalos financeiros bilionários com conexões políticas suspeitas. Festa e frustração. Exaltação e desconfiança. O cenário é perfeito para uma pergunta antiga: quem é o nosso salvador?

N. T. Wright insiste que, no século I, declarar “Jesus é Senhor” não era frase devocional privada. Era afirmação pública e politicamente carregada. O título kyrios, Senhor, competia com “César é senhor”. Proclamar Jesus como Rei era subversivo porque relativizava todo poder imperial.

Hoje não temos César. Temos líderes carismáticos, promessas de redenção nacional, discursos de combate à pobreza ou à corrupção. Mudam os nomes, não a dinâmica. Jeremias 17.5 é brutalmente direto: “Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço.” A Bíblia não proíbe ação política. Ela proíbe esperança messiânica mal direcionada.

O problema não é o Carnaval como expressão cultural. O problema é quando a celebração desliza para culto à personalidade. Quando o boneco gigante vira ícone de expectativa salvífica. Quando a narrativa política assume tons de redenção final. Salmo 146.3 corta o excesso: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação.”

Wright lembra que o Reino de Deus não é fuga do mundo. É o projeto de Deus de colocar o mundo nos trilhos por meio de Jesus. Isso inclui justiça econômica, cuidado com os pobres, denúncia da corrupção. Mas o Reino não se identifica plenamente com nenhum partido ou presidente. Confundir governo com Reino é idolatria sofisticada.

João 6.15 mostra Jesus recusando ser feito rei à força. O povo queria um messias útil, funcional, alinhado às expectativas nacionais. Ele se retira. Não aceita o trono moldado pela ansiedade popular. A cruz redefine o que é realeza.

Filipenses 3.20 declara: “Nossa cidadania está nos céus.” Isso não significa alienação política. Significa lealdade última. A igreja vive no Brasil, vota, participa, critica, propõe. Mas sua esperança não depende da curva de popularidade de ninguém.

E há algo ainda mais desconcertante. Apocalipse 5 apresenta o Cordeiro como digno de honra, glória e poder. Não é o leão político, não é o gestor eficiente, não é o líder carismático. É o Cordeiro que foi morto. O centro do poder divino é sacrificial, não espetacular.

Isso julga tanto o culto acrítico quanto o cinismo seletivo. Exaltar um líder como redentor é idolatria. Demonizar todos e lavar as mãos é fuga moral. O Reino confronta ambos. Ele exige justiça concreta e, ao mesmo tempo, impede que absolutizemos qualquer projeto humano.

Entre o sambódromo e o trono de Deus, a igreja precisa de lucidez. Celebrar cultura sem divinizar líderes. Engajar-se politicamente sem perder a consciência de que todo governante é provisório. Lembrar que o verdadeiro Senhor não desfila em carro alegórico, mas reina a partir da cruz e do túmulo vazio.

O Brasil precisa de justiça. Mas precisa, antes de tudo, de uma igreja que saiba quem é o seu Rei.

Quando a criação geme: juízo, amor e esperança

Na última semana, ciclones tropicais atingiram a Austrália e Madagascar. Casas destruídas, mortos, deslocados. No Hemisfério Norte, frio extremo, temperaturas absurdas, vidas interrompidas. A natureza parece fora de si. A pergunta surge quase automática: é juízo de Deus?

Aqui é preciso rigor. Leituras simplistas são teologicamente preguiçosas. Dizer “Deus mandou o ciclone para castigar tal povo” é falar demais onde a Escritura fala com mais sobriedade. O próprio Jesus rejeita essa matemática moral quando confrontado com tragédias (Lc 13.1–5). Nem toda catástrofe é punição direta. Mas também não é neutra.

Romanos 8.22 diz que “toda a criação geme e suporta angústias até agora”. Paulo não descreve um mundo estável que ocasionalmente falha. Ele descreve um mundo submetido à corrupção, afetado pelo pecado humano, aguardando redenção. A criação não é autônoma. Ela participa da história da queda e da promessa.

Anders Nygren ajuda a deslocar a pergunta errada. Em vez de buscar obsessivamente o “porquê” oculto do sofrimento, ele nos conduz ao “como” do amor. Ágape não é reação sentimental; é amor que se move em direção ao necessitado, sem cálculo, sem mérito. O critério não é explicar o ciclone, mas perguntar: onde está a igreja quando o vento leva as casas? Se o amor revelado em Cristo é autodoação, então nossa indiferença ecológica e nosso consumo irresponsável estão sob juízo.

Gênesis 2.15 afirma que o ser humano foi colocado no jardim para “cultivar e guardar”. Dominar não é explorar; é cuidar. Transformamos cuidado em extração predatória, progresso em devastação. Depois nos espantamos com o desequilíbrio. A Bíblia não romantiza a natureza, mas também não a reduz a recurso.

Há também a dimensão existencial. Catástrofes expõem nossa finitude. A temperatura cai a -40 °C e todo nosso aparato tecnológico revela limites. Tillich falaria da angústia diante do não-ser. A criação em convulsão nos lembra que não somos senhores do caos. Marcos 4.39 registra Cristo ordenando ao mar: “Acalma-te, emudece”. O milagre não é propaganda de controle climático; é sinal de quem reina sobre o caos. A autoridade pertence a Ele, não a nós.

Isso não nos autoriza à passividade. Romanos 8 não termina no gemido. Termina na esperança. A criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. A ressurreição de Cristo inaugura a nova criação, não a fuga do mundo. Apocalipse 21.5 declara: “Eis que faço novas todas as coisas”. Não “outras” coisas. Estas mesmas, renovadas.

Portanto, crises climáticas não são senha para especulação apocalíptica barata. São convocação. Convocação à justiça concreta, ao cuidado ambiental, à solidariedade com os vulneráveis, à revisão de hábitos econômicos. São também lembrete de que o mundo não é fechado sobre si. Ele geme porque está a caminho.

Juízo, nesse sentido, não é espetáculo punitivo. É revelação. Revela nossa fragilidade. Revela nossos excessos. Revela que a criação não suporta indefinidamente nossa arrogância. E, ao mesmo tempo, revela a graça: Deus não abandona o mundo que criou. Ele o redime a partir de dentro.

Entre o ciclone e o inverno extremo, a igreja é chamada a viver como sinal de ágape. Menos discurso defensivo, mais presença concreta. Menos teorias conspiratórias, mais pão, abrigo e intercessão.

A criação geme. E o gemido não é o último som da história. A última palavra é nova criação.

Catástrofes profundamente humanas

Há algo profundamente humano — e profundamente teológico — no desconforto que sentimos diante dos extremos climáticos recentes. Mortes no frio do hemisfério norte, casas arrastadas por lama no Afeganistão, cidades inteiras paradas entre gelo, fogo e água. O problema começa quando esse sofrimento real é imediatamente sequestrado por discursos prontos. Antes mesmo de pensar, já se escolheu um lado. E quando isso acontece, a reflexão morre asfixiada.

Aqui entra o incômodo que vale a pena levar a sério: a politização total do tema climático cria uma forma moderna de heteronomia, no sentido criticado por Paul Tillich. Não se trata mais de responder à realidade com responsabilidade e liberdade, mas de repetir respostas autorizadas por sistemas externos — ideológicos, partidários, identitários. O pensamento deixa de ser autônomo. A consciência terceiriza.

Tillich alertava que a heteronomia surge quando algo finito — uma ideologia, uma estrutura, uma causa — assume o lugar do “fundamento do ser”. O resultado não é engajamento ético, mas submissão ansiosa. No debate climático, isso aparece tanto na negação cínica do sofrimento quanto no moralismo apocalíptico que transforma catástrofes em armas retóricas. Em ambos os casos, o ser humano concreto desaparece.

A Escritura se recusa a jogar esse jogo. Paulo escreve que “a criação geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8.22). Não é slogan, é diagnóstico. O mundo está em tensão, e essa tensão não é apenas ambiental — é espiritual, histórica, relacional. Mas Paulo não entrega esse gemido a partidos ou impérios interpretativos. Ele o coloca dentro da esperança: “na expectativa da revelação dos filhos de Deus” (Rm 8.19). O foco não é o pânico, mas a vocação.

Aqui vale ouvir N. T. Wright, que insiste: a esperança cristã não é fuga da criação, mas compromisso com sua renovação. A igreja não existe para explicar desastres como punições secretas nem para instrumentalizá-los como propaganda moral. Ela existe para antecipar, ainda que de forma frágil, os sinais do Reino — justiça, cuidado, verdade.

O evangelho reforça isso de modo desconcertante. Em Marcos 4.35–41, Jesus não faz um discurso sobre a tempestade. Ele está no barco. Dorme. Acorda. Cala o vento. E depois expõe o medo dos discípulos. A pergunta não é “qual narrativa explica o caos?”, mas “quem está conosco no meio dele?”. A revelação de Deus não está no barulho da tormenta, mas na presença que sustenta.

É aqui que a politização excessiva revela sua pobreza espiritual. Ela promete controle simbólico onde só há vulnerabilidade real. E isso gera medo, não coragem. Tillich falava da coragem de ser como a capacidade de existir apesar do caos, não por negá-lo nem por dominá-lo ideologicamente, mas por estar enraizado em Deus como fundamento último.

Miquéias resume o caminho com sobriedade incômoda: “praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com teu Deus” (Mq 6.8). Humildade aqui inclui reconhecer limites — científicos, políticos, teológicos. Inclui ouvir o sofrimento distante sem transformá-lo em argumento doméstico. Inclui agir localmente sem pretender controlar o sentido último da história.

O horizonte cristão não é o colapso nem a utopia fabricada. É a nova criação: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5). Essa promessa não nos autoriza a pensar menos, mas a pensar melhor. Não nos libera da responsabilidade, mas nos livra da heteronomia (e quem sabe, podemos chegar à teonomia)

Pensar de forma clara, autônoma e cristã, hoje, talvez seja um ato de resistência espiritual. Em meio à tempestade — climática, política ou existencial — isso já é um começo de coragem.

Não se te dá que morramos!?

Salmos 44.23; Marcos 4.38

A fé institucional não sabe lidar com essa pergunta. Ela precisa manter Deus sempre presente, funcional, disponível — quase como um item do estatuto. Por isso, perguntas desse tipo soam perigosas. Subversivas. Já a fé existencial — a que vive no fio da navalha — não tem esse pudor. Ela pergunta porque precisa respirar. Cadê Deus no meio da tempestade? Esqueceu-se de mim? Esqueceu-se do seu povo? Do pacto?

O vale — ou o deserto — não é um acidente na formação cristã. É o caminho. É ali que a imagem de Cristo começa a tomar forma em nós, não como ideia, mas como carne. Sem deserto não existe João Batista. Sem deserto não há Jesus com ministério. Não há atalho espiritual aqui. Se não foi diferente com eles, não será conosco.

O deserto não oferece garantias. Não tem chão conhecido, não tem reservas, não tem atalhos e, muitas vezes, não tem Deus à mão. Pelo menos não o Deus funcional que aprendemos a acionar. A tempestade é parente próxima do deserto. E é nesse contexto que o grito emerge, cru, quase irreverente: “Não se te dá que morramos!?” Ou ainda: “Não te importa a nossa vida?” Ou, sem rodeios piedosos: “Valemos tão pouco assim?”

A Bíblia não foge dessas perguntas. Ela as preserva. Os salmos estão cheios delas. O evangelho não as censura. O problema nunca foi a pergunta — foi a nossa tentativa de domesticá-la.

Pensemos em Portugal. Semana passada, ventos de até 208 km/h castigaram o país. Muito antes disso, em 1755, Lisboa foi devastada por um terremoto que durou cerca de dez minutos. Dez minutos bastaram para desmontar uma cidade inteira, sem aviso prévio, sem liturgia de preparação. No século XVI, o território foi atingido por ao menos três grandes epidemias, entre elas a peste negra. Onde estava Deus nesses momentos? A pergunta não é moderna. É humana.

O Salmo 13 não tenta resolvê-la. Apenas a sustenta: “Até quando, ó Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” Essa é fé que respira. Fé que não foi anestesiada.

No fim, só há uma fé que vale a pena ser vivida: a que atravessa o desastre sem precisar fingir que ele não existe. Todo o resto é performance domingueira — bem ensaiada, bem iluminada, e completamente inútil quando o mar começa a entrar no barco.

Qual é a importância da Escola Bíblica?

A pergunta pode parecer vazia ou inútil. Em especial para quem já valoriza a escola bíblica ou para quem já descartou de todo o seu valor. Ou seja, os extremos.

Todavia, acredito que há uma gritante maioria de pessoas que — se pudessem exprimir suas dúvidas — perguntariam qual a utilidade ou importância da escola bíblica. Em especial são pessoas que não se contentam com a rotina ou que procuram na escola bíblica uma utilidade para além da repetição de assuntos em um ambiente seguro. Afinal, a Escritura nunca associa ensino à mera repetição, mas à transformação do entendimento e da prática (Rm 12.2).

A escola bíblica (dominical) surge no final do século XVIII, mais precisamente por volta de 1780, na Inglaterra, como uma resposta prática a um problema concreto: crianças e jovens sem acesso à educação básica, imersos em jornadas de trabalho exaustivas e sem qualquer formação moral ou intelectual. Antes de ser um “programa da igreja”, ela foi um gesto missionário, pedagógico e social — algo bastante coerente com a tradição bíblica, onde o ensino do povo sempre esteve ligado à vida concreta (Dt 6.6–9; Ne 8.1–8). Seu DNA não é entretenimento nem repetição mecânica de conteúdos, mas formação, letramento bíblico e construção de consciência cristã no mundo real. Quando a escola bíblica perde isso, ela não envelhece — ela se descaracteriza.

O que se vê em quase todas as versões da escola bíblica é uma visão apenas endocentrada, isto é, voltada quase exclusivamente para o mundo interno da igreja local. Fala-se muito de eternidade, santidade e salvação individual — temas legítimos — mas com pouco ou nenhum espaço para a missão divina de redimir a criação como um todo, missão esta claramente afirmada nas Escrituras (Gn 12.3; Sl 24.1; Rm 8.19–22).

Observar o mundo apenas pelo filtro do noticiário sensacionalista não comunica outra coisa senão um misto de impotência e indignação. Isso acontece porque o problema nos parece — como de fato é — maior que nossa capacidade individual de intervenção. A Bíblia, porém, não ignora essa tensão: reconhece que “o mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19), mas também insiste que a luz não se retira diante das trevas — ela as confronta (Jo 1.5; Mt 5.14–16).

A escola bíblica, após sua apropriação indevida do âmbito missionário para o puramente doutrinário, precisa recuperar sua vocação original: não apenas conscientizar sobre a condição caída do mundo — algo que a imprensa já faz com eficiência — mas capacitar a igreja a discernir, planejar e agir em situações reais de perigo, desamparo e injustiça que estejam ao alcance da comunidade local. Isso é profundamente bíblico: fé que não se traduz em ação concreta é considerada morta (Tg 2.14–17), e a igreja primitiva entendia ensino, comunhão e cuidado como uma única realidade (At 2.42–47).

A pura repetição de fórmulas que funcionaram nos séculos XVI e XVII não faz mais do que alienar a igreja da realidade em que vive, afastando-a daquilo que a Escritura chama de missão de Deus: a restauração da criação. Como lembra N. T. Wright, trata-se de uma nova criação ex vetere, e não ex nihilo — uma recriação que parte do mundo já existente (2Co 5.17; Ap 21.1–5). A participação da igreja nessa reconstrução — social, cultural, ética, ambiental — não é um apêndice do evangelho, mas parte de sua própria lógica. Quando isso se perde, a escola bíblica deixa de ser formadora de discípulos e passa a ser apenas uma sofisticada forma de escapismo religioso.

Enquanto um seminário forma pastores e professores, a escola bíblica forma garis, psicólogos, mecânicos, enfermeiros, padeiros, advogados … para serem ministros do reino no escopo do reino. Ou seja, este mundo no qual vivemos e não na bolha eclesiástica. Por isso que ela merece ser dinâmica e não estática.

É nela que o método de correlação (invenção de Paul Tillich) acha talvez sua expressão mais condensada já que as perguntas últimas que a sociedade faz, a Bíblia responde à satisfação. Mas sem o treino adequado, é como címbalo que retine.

Como tu lês?

Que presente dar para uma congregação?

Não é todo dia que um grupo de pessoas faz aniversário.

Unidos por uma mesma visão, uma congregação vai se desenvolvendo e os anos vão se acumulando. Assim como na vida pessoal, é de se esperar que essa experiência traga sabedoria e essa sabedoria traga um peso de identidade local para a congregação.

Num tempo de universalidade eletrônica; de uma pretensa sabedoria coletiva manifestada pelas redes sociais, uma igreja local identificada com seu bairro e sua cidade tem fartos motivos para se sentir orgulhosa do caminho andado. Então recebam meu afago: o interesse pela congregação e pelo bairro em que estão são marcas elogiáveis em uma igreja local.

Mas, sendo pregador, preciso intentar elaborar uma reflexão que não apenas afague a congregação, mas que a alavanque para os desafios que ainda lhe esperam. Tem que ser alguma coisa que, lançando mão do mais sagrado de uma congregação batista (isto é, seu conhecimento da Bíblia) também lhe sirva de ponto de apoio para os desafios da sociedade atual.

Não pode ser apenas uma repetição de velhos conceitos ou de registros históricos. Não porque eles sejam inválidos, mas pelo fato de que – por serem muito conhecidos – não mais se pensam como soluções possíveis para a realidade em que vivemos.

Termos como redenção, justificação, santificação com sua precisão e seu conteúdo são deixados de lado não por errôneos, mas porque os possíveis ouvintes desta sociedade não mais almejam por respostas aos problemas que eles atendem. Isso por estarem tão ocupados nos entretenimentos de coisas periféricas da vida.

Na mesma linha, parece-me inútil tentar falar da herança batista e seus princípios. Por exemplo, entendo que arriscaria perder meus ouvintes falando sobre como lutamos na Inglaterra pela liberdade pessoal; ou a centralidade da Bíblia; ou a liberdade de consciência; ou a universalidade do sacerdócio de todo crente; ou a falta de distinção entre ato administrativo e culto; ou a autonomia de cada congregação ou a separação de igreja e estado. Novamente, não porque esses assuntos não sejam importantes ou relevantes, mas porque soam como antigos, ou ultrapassados, ou desnecessários.

Também não é o caso de discorrer sobre a necessidade e a inutilidade da escola bíblica. Inutilidade porque ela passa apenas conhecimento e não é um substituto válido do discipulado. E necessidade porque o conhecimento que ela traz é tremendamente necessário no discipulado. Isto é, no andar diário dos discípulos de Jesus na terceira batista de Prudente.

Então qual caminho escolher? Como preparar uma pregação para uma congregação madura que segue adiante, que se cuida, que tem identidade com seu Senhor e com seu bairro? Que devo dizer para um grupo de pessoas que atenta para uma busca pelo seu Senhor?

Olhemos para Lucas 10 26

Perguntou-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lês tu?

Focaremos apenas nessa pequena frase: “Como lês tu?“. Essas três palavras podem fazer uma diferença na sua vida nesta noite. E por isso é que demando sua atenção apenas nela por alguns minutos.

No centro da frase encontramos o verbo ler. Trata-se a ação de decifrar o conteúdo de algo escrito por saber reunir as letras e os sinais gráficos. Hoje, quase qualquer pessoa sabe ler. Mas nem sempre foi assim.

Se olhamos para o tempo de Shakespeare que viveu entre 1554 e 1616, vemos que o número de pessoas que conseguia ler era de 1 para 3 nos homens e talvez de 1 para 10 nas mulheres.

Se olhamos a situação do Brasil alguns anos depois – em 1759, quando os padres jesuítas (que entre suas atribuições tiveram a de fundar colégios e promover a educação) foram expulsos do país – apenas 1 em cada 1000 pessoas sabia ler. É para 1890 que o Brasil começa a mudar o método e se preocupa com ensinar a escrever como tal. Ou seja, não apenas com a caligrafia, mas com a coisa escrita. Devemos lembrar que Dom Casmurro, por exemplo, foi escrito em 1899. Isso nos dá uma noção dessa brecha cultural entre a situação inglesa de 1600 e a do Brasil de 1900.

Então repare que, quando falamos em ler, não falamos em entender. Falamos apenas de conseguir reunir com algum sentido os símbolos de uma forma tal que a pessoa pudesse minimamente receber comunicação. Já escrever, como para produzir a mesma, não era tão almejado assim.

Se olhamos para a situação do Brasil hoje, 66% dos alunos terminam o 9º ano sem aprender o mínimo necessárioda lingua portuguesa, segundo algumas pesquisas. Esse problema se estende até o ensino superior, onde estimativas indicam que 50% dos estudantes são analfabetos funcionais. Isso de por si já é um escândalo.

A escola bíblica

Cabe então aqui o lembrete de que a escola bíblica inicia-se na Inglaterra justamente com o propósito de capacitar as pessoas com a grandiosa ferramenta da leitura e sua irmã: a escrita. A origem e propósito original da escola bíblica não é “ESPIRITUAL” e sim “SOCIAL” para surpresa de muitos.

Mas vale dizer que não há forma de separarmos o “ESPIRITUAL” do “SOCIAL”. Perceba como a população que menos tem acesso à leitura – e por conseguinte – ao conhecimento formal, é a mais fácil de manipular. E a manipulação é a antítese do amor. E, sendo Deus amor, logo se segue que Ele não quer deixar sua criação no escuro. De aí que concluímos que aqueles que querem deixar a população sem conhecimento são sim uma manifestação social de uma influência espiritual prejudicial e contrária aos propósitos divinos.

Trazendo, então, para a atualizade essa origem tão prática da escola bíblica, seria então necessário estender-nos a outras necessidades sociais da nossa época para ajudar a sociedade em que vivemos.

Primeiro século

Mas, voltemos ao assunto da leitura. Como era no primeiro século? Como era no tempo em que essa frase esteve nos lábios do nosso Senhor e o seu interlocutor a ouviu? Como o verbo “ler” foi ouvido? E, por quem? Se a capacidade de ler era tão absurdamente baixa 1600 anos depois de Jesus, não é de se pensar que fosse menor no tempo de Jesus?

Acontece que Jesus era judeu e estava falando para outro judeu. Em média, alguns estimam que pelo menos a metade da população judia sabia ler e escrever. Há os que projetam os números da comunidade rural de início do século XX para dizer que talvez apenas 3% da população era alfabetizada. Mas isso se contradiz com registros do ano 64 dC em que havia um professor para cada 25 crianças. Na realidade, o povo judeu levava a sério a alfabetização. Então podemos concordar com os historiadores mais conservadores e afirmar que ao menos 50% da população (sem fazer distinção entre homes e mulheres) era alfabetizada. O próprio Jesus (filho de um carpinteiro/construtor) era alfabetizado. O encontramos lendo a Torá e escrevendo no chão.

Compreendes o que estás lendo?

Então esse “Como lês tu?” não pode ser interpretado como “Ao final de contas, como é possível que você leia?” já que quem falava com Jesus não era uma pessoa comum, mas um mestre da Lei. Devemos interpretar esta frase como sendo: “Como interpretas o que lês?” Ou seja, “Qual é o significado que você dá àquilo que você mesmo lê?“. De fato, é assim que a temos na maior parte das traduções (Almeida Revista e Atualizada; King James Atualizada; e outras)

Em todo o novo testamento, apenas Lucas usa esse verbo (ἀναγινώσκεις anaginōskeis) Em atos 8 30 Lucas nos mostra Felipe correndo ao encontro do oficial de Candace e perguntando: você entende o que está lendo?

Então Filipe correu para a carruagem, ouviu o homem lendo o profeta Isaías e lhe perguntou: “Compreendes o que estás lendo? Atos 8 30

Aqui no evangelho, vemos esse verbo sendo usado por Jesus com carga similar: “Em que forma você entende o que está lendo?

Não temos tempo para alongarmos no contexto. Baste apenas refrescar nossa memória dizendo que este advogado ou erudito da Lei quis pregar uma peça em Jesus

Certa vez, um advogado da Lei levantou-se com o propósito de submeter Jesus à prova e lhe indagou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?

Ao que Jesus lhe propôs: “O que está escrito na Lei? Como tu a interpretas?

E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e com toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”.

Então, Jesus lhe afirmou: “Respondeste corretamente; faze isto e viverás”.

Ele, no entanto, insistindo em justificar-se, questionou a Jesus: “Mas, quem é o meu próximo?

É esse diálogo o que dá pé para a parábola do Bom Samaritano que mesmo sendo muito conhecida, seria bom darmos outra olhada sobre “quem é nosso próximo” já que o próximo – na parábola – não é o que está caído e sim o que ajuda, que, por sinal, é samaritano. O modelo a ser seguido é o de um ser desprezível para este mestre da Lei.

O que fazer com o modelo?

Mas voltando ao “Como lês tu?” o que nosso Senhor está fazendo é – em primeiro lugar – colocando a responsabilidade da interpretação nos ombros do seu interlocutor. Ninguém mais do que a própria pessoa é capaz de nos dizer como ela está interpretando a sua leitura.

A diferença entre o como e o quê

É no como e não no quê que reside o problema.

Por exemplo, alguém poderia ler “Minha Luta” de Adolf Hitler e nunca na vida coincidir com ele em que a raiz de todos os males da humanidade seriam os judeus. O quê – isto é, a coisa lida – nunca é o problema e sim o como.

Um exemplo igual e contrário pode ser visto nesta passagem: o quê esta pessoa estava lendo era a escritura, só não ficava claro o como. O quê (que neste caso é, o equivalente do nosso antigo testamento) não era o problema, e sim o como a pessoa estava lendo.

A partir disso é que se pode analisar qual atitude ele teria para consigo mesmo e com seu próximo. Dois seres que – segundo o nosso mestre – não são tão distantes assim, ao final das contas, somos apenas uma única raça: a humana.

Como ensinamos?

Em segundo lugar, a atitude de Jesus nos deveria levar a mudar nosso jeito de ensinar ou partilhar o que sabemos sobre a escritura. Se bem há momentos como estes em que uma pessoa fala e os outros ouvem, também devemos ter momentos em que qualquer um pode dizer o que realmente pensa sobre o que está sendo ensinado. Ao final das contas, e sem querer ser chato com a identidade batista, a liberdade de consciência é um princípio muito caro para nós. É a partir dessa liberdade que pode ser construída a necessidade da liberdade de expressão que acha seu limite no direito alheio de fazer exatamente a mesma coisa. E é no cerne da liberdade de expressão que o “como lês tu?” encontra sua mais profunda aplicação. Não no conceito de dizer qualquer coisa, mas no contexto da aceitação do outro como diferente, mas não tão distinto.

O rencontro com nossa identidade batista.

Então, de forma quase silenciosa, acabamos desembarcando na identidade batista e sua razão. O Como você lê, acaba sendo a mola propulsora das liberdades pessoais e de consciência tão seriamente ameaçadas nos últimos anos no nosso continente. Também é ela o despojo na guerra espiritual que vem sendo travada já que o iluminismo não é nossa luz, mas sim a luz de Cristo e é em Jesus – o Cristo – que encontramos este maravilhoso exemplo de aceitação do diferente. A livre interpretação da realidade em que vivemos não é um fruto dos movimentos humanistas, mas sim o ponto de apoio em que o próprio Jesus aplicava sua maior força: fazer o outro pensar.

É no “Como você lê?” que redescobrimos o princípio da centralidade da bíblia que tão caro nos é como membros de uma comunidade batista, já que é a leitura da Bíblia e sua interpretação comunitária (em contraposição à interpretação padronizada, hierárquica e imposta) que nossos antepassados acharam razão suficiente para lutar até a morte se fosse necessário.

É no “Como você lê?” que se revigora o princípio da autonomia congregacional, já que lemos juntos, interpretamos juntos e comungamos juntos dessa mistura interpretativa e em paz.

É no “Como você lê?” que reunificamos o secular com o sagrado e o administrativo com o cultual. Não pode haver tal distinção. Sou “eu” quem lê e “eu” quem interpreta e a esse “eu” não lhe convêm as divisões. Sou apenas uma pessoa na minha intimidade, na minha vida cultual e na minha vida pública. E aquilo que quero para mim o quero para meu próximo. Isto é, meu irmão de raça.

E é no “Como você lê? que se encontra a chave para a separação entre a igreja e o estado, pois o estado (que tem seus deveres para com todos os cidadãos independente da sua crença) não tem direito nenhum a interferir na minha crença particular e por não querer isso para mim, também não o desejo para meu próximo.

É no “Como você lê?” que o discipulador se coloca em pé de igualdade com seu có-discipulo e podem, juntos, trilhar o caminho da descoberta da vida cristã porque não se trata de uma imposição de um ser superior e sim de uma caminhada e uma descoberta feita em conjunto.

E finalmente, é no “Como você lê?” que encontramos a fórmula básica para a escola bíblica ou qualquer outro esquema de estudo da bíblia. Em que ponto está o outro? Qual é sua interpretação? Quais suas lutas e afetos? Qual seu olhar sobre o mundo? Até que ponto o olhar do Messias invadiu seu mundo íntimo?

Então, meu apelo nesta noite é: imitemos nosso mestre. Perguntemos ao outro como interpreta a escritura.