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Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

O Deus Dos Afetos – Resumo

Pensar na existência humana leva — mais tarde ou mais cedo — a pensar em Deus. O homem até tenta escapar disso. Delegamos nossa origem a civilizações perdidas, alienígenas, multiversos, acidentes improváveis e qualquer outra coisa que nos permita adiar a pergunta fundamental: de onde tudo veio? Porque no fim das contas a pergunta continua ali. Persistente. Incômoda. Quase ofensiva. E os gregos antigos perceberam isso muito cedo. Diferente do que às vezes repetimos por aí, eles não chegaram à ideia de um único princípio criador por arrogância racionalista, mas por honestidade intelectual. A multiplicidade dos deuses parecia insuficiente para explicar a unidade do cosmos. Então Tales procura a origem de tudo na água. Heráclito fala do logos. Parmênides insiste que o ser precisa ser uno, eterno e não contraditório. Até que Aristóteles formula a ideia do “motor imóvel”: uma causa primeira não causada, fundamento último de tudo o que existe.

E honestamente? Eles estavam certos em muita coisa. Porque faz sentido imaginar que, se existe um Deus, ele precise ser único, eterno, perfeito e origem de todas as coisas. E justamente por ser perfeito, não poderia mudar. Afinal, se muda para melhor, então antes não era perfeito. Se muda para pior, deixa de ser perfeito. Até aqui a lógica é brilhante. O problema começa quando esse Deus filosófico encontra o Deus revelado nas Escrituras. Porque o Deus bíblico faz coisas muito inconvenientes filosoficamente. Ele se alegra. Se ira. Se entristece. Responde oração. Desce para ver Babel. Chora por Israel através dos profetas. E em Jesus… Deus sofre.

Durante séculos, a teologia cristã tentou lidar com essa tensão. Especialmente depois do encontro entre o cristianismo e o pensamento grego dentro do Império Romano. Agostinho de Hipona encontrou no neoplatonismo ferramentas importantes para defender a transcendência divina diante das heresias do seu tempo. E provavelmente escolheu o melhor caminho disponível. Mas junto com essas ferramentas entrou também uma ideia profundamente grega: a de um Deus absolutamente impassível. Incapaz de sofrer. Incapaz de ser afetado. O curioso é que muita gente hoje defende isso sem sequer perceber de onde veio. Faça um teste simples na sua igreja. Pergunte: “Deus muda?” Quase imediatamente alguém citará Tiago: “nele não há mudança nem sombra de variação”. E então, sem perceber, misturamos a fidelidade moral de Deus com uma espécie de imobilidade emocional absoluta.

Mas o Novo Testamento não parece constrangido em mostrar um Deus afetável. “Jesus chorou.” Talvez essa seja uma das frases mais destruidoras de toda a metafísica impassível clássica. Porque se Jesus é “a imagem exata do ser de Deus”, então seu choro não pode ser apenas teatro antropológico. Não pode ser mera encenação pedagógica para humanos emotivos. É revelação. Talvez tenhamos protegido Deus tanto do sofrimento que acabamos protegendo-o também do amor. Porque amor real inevitavelmente envolve vulnerabilidade relacional. O pai do filho pródigo sofre. O noivo de Oséias sofre. O Espírito pode ser entristecido. Jesus chora diante de Jerusalém. Não porque Deus tenha perdido controle do plano, mas porque o plano sempre foi relacionamento.

Séculos depois, Jonathan Edwards perceberia algo que boa parte da tradição excessivamente racionalizada havia começado a esquecer: os afetos não são inimigos da verdade. E aqui “afetos” não significa sentimentalismo barato. Edwards falava das inclinações profundas do coração. Dos amores que realmente movem a alma humana. O homem faz aquilo que ama. Talvez por isso ninguém se relacione com Deus apenas por conclusão lógica. A fé envolve desejo, encanto, temor, reverência, beleza, amor. Não amamos pouco. Amamos errado.

E talvez seja justamente por isso que a Bíblia insista tanto no coração humano. Porque no fim das contas o homem sempre se move na direção daquilo que ama. E talvez o fato de sermos criaturas tão profundamente afetivas diga mais sobre o Criador do que estivemos dispostos a admitir durante séculos.

O Deus dos afetos.

Pensar na existência humana, leva – mais tarde ou mais cedo – a pensar em Deus. Isso porque em algum momento o ser pensante (que existe e não pode negar estar existindo) é compelido a pensar na sua origem. Como bons delegados de responsabilidade, a mente aparentemente interessada de forma genuina no assunto, mas obstinadamente entregue a negar a existência de um ser criador, delega isso a uma civilização anterior, extinta ou visitantes alheios à bolha azul chamada de “Mundo”.

Isso, só faz atrasar ou dispersar a solução do problema último: de onde surgimos? Não apenas como seres biológicos que ultimamente está fartamente provado que a probabilidade de que as condições para a vida biológica como a conhecemos se dessem é tão remota que ultrapassam o limite não já do possível mas também do plausível. Essa forma de pensar, nos leva sempre a adiar a solução da causa primeira (ou a preocupação última como Tillich bem poderia dizer) colocando-a sempre distante seja no tempo ou no espaço ou numa combinação de ambos.

Justamente o big-bang (ou sua forma mais correta: a grande expansão) nos coloca perante um limite fundamental: o tempo e espaço tiveram um ponto de inicio. Uma singularidade. Algo irrepetível. E justamente por lidarmos com eventos não observáveis diretamente em sua totalidade, continuamos no campo dos modelos e interpretações cosmológicas. Com humildade e respeito, isso se chama de “teoria”.

Dentro das teorias de origem, as mitologias nórdicas, gregas, egípcias, mesopotâmicas, os relatos judaico-cristãos, as cosmogonias indígenas, o hinduísmo, o taoismo e até mesmo os modelos cosmológicos modernos tentam responder a mesma pergunta primordial: de onde tudo veio?

Talvez um dos capítulos mais interessantes esteja nas mitologias gregas – sim, no plural – e no surgimento da filosofia clássica. Sócrates, posteriormente acusado de impiedade e condenado à morte por Atenas, não inaugura sozinho essa ruptura intelectual. Ele é resultado de uma longa tradição de pensadores que começaram a substituir explicações puramente míticas por princípios racionais.

Os gregos não chegaram à ideia de unidade por arrogância racionalista, mas pela tentativa honesta de encontrar coerência no cosmos. A multiplicidade dos deuses não parecia suficiente para explicar a ordem universal. Então Tales procura o princípio de tudo na água. Heráclito fala do logos e do fluxo constante das coisas. Parmênides reage afirmando que o ser precisa ser uno, eterno e não contraditório. Platão transporta essa busca para o mundo das formas perfeitas. Aristóteles formula o conceito do motor imóvel: uma causa primeira, não causada, fundamento último do movimento e da existência.

Sócrates (anterior a Platão) surge dentro dessa tradição de investigação racional, questionando os deuses antropomórficos da religião popular ateniense e deslocando o debate para princípios mais universais da verdade, da ética e do ser.

Então, num sentido bem elástico do conceito “Monoteista” podemos afirmar que Aristoteles era sim monoteista (ou melhor: proto-monoteísta filosófico). E Aristoteles, por sua vez, foi mentor ou tutor intelectual/filosófico durante a adolescência de Alexandre o Grande (uns trezentos anos antes de Jesus). Então – com certas liberdades – poderiamos chegar a cogitar que o encontro do judaismo com o mundo grego (anos antes dos Romanos) foi um confronto com vieses monoteistas. (Não estou dizendo que os gregos eram monoteistas. Estou dizendo que certos pensadores gregos, sem mais ferramental que a observação chegaram à conclusão que a origem de tudo só pode ter origem num único ser que não tem origem. O motor inicial que por nada é movido)


Lembro quando estava no seminário no Uruguai e a pergunta do professor de teologia logo no primeiro semestre (para ser defendida primeiro por escrito e depois de forma oral) era “Quem pode fazer teologia?”

Minha resposta (que é a mesma que mantenho hoje) foi: todo mundo faz teologia. Se teologia é o estudo ou discurso sobre o divino, logo, até o ateu está fazendo teologia.


Voltemos ao nosso assunto. Então, era de se esperar que duas teologia tão similares produzissem alguma coisa em conjunto. Nada mais longe da realidade. Como dizem por aí, parecido não é o mesmo. E – se você para para pensar – o encontro dessas duas civilizações é o que dá origem ao que chamamos de “Mundo Ocidental” (Por favor, assista https://youtu.be/NEsgGT2pwEA?si=UT3F0PoKybkX9WQb para maiores esclarescimentos desse grande estuário)

Esses dois monoteísmos compartilham pouco entre si. Fora o nome – por força técnica, poderiamos falar da causa primeira como ponto em comum. Mas aí, logo aí, já começam as divisões. As duas tratam do mesmo assunto, mas as duas chegam ao monoteismo por caminhos diferentes e cada um deles com seu valor.

Talvez, no contexto bíblico, o argumento a favor da teologia natural, ou seja, aquela que se faz apenas pela observação das coisas criadas que acabam – para o observador atento – por levar a uma causa original, tenha seu lugar de destaque com o apóstolo Paulo ao dizer “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas...” Romanos 1:20

Para mim, essa é uma referência direta de reconhecimento de um romano-judeu (Paulo era um judeu que tinha a cidadania romana por nascimento e era fortemente afetado pela cultura Grega) ao que havia de melhor no pensamento grego sobre a divindade. Repare, as coisas de Deus (por exemplo, poder eterno e divindade) são invisíveis a olho nu, mas são claramente vistas pelas coisas criadas. Ou seja, o velho argumento de que o relógio demanda um relojoeiro e não o acaso.

A teologia monoteista grega, como estamos tentando demonstrar, faz toda gala do que hoje chamamos de “Teologia Natural”. Ou seja, a que surge da observação da natureza. E ela tem um rol importantíssimo para quem pare essa loucura que chamamos vida, e contemple um pouco. (Talvez por isso cada vez estamos mais ocupados e enredados com “fazer” em lugar de “contemplar”)

O problema, é que a outra teologia, como trem avassalador, está lastreada em outro tipo de coisa. A teologia hebreia, está baseada num ato de escolha, formação e auto-revelação divina paulatina e crescente. Ou seja, as duas vias se cruzam, mas são de natureza distinta. Certos filósofos gregos, por experimentação chegaram a entender que, de haver um deus, deveria ser único, original, causador de tudo e – principalmente – imutável. Nada o poderia afetar.

Pensemos um momento nisso. Para que uma coisa seja origem do ser, não pode ser coisa. Tem que ser “ser“. Você pode produzir uma pedra no rim, mas essa mesma pedra não pode fazer um bebê. Por outro lado, para esse ser poder ser a causa de tudo, deve ser perfeito. D´outra forma nem sequer a idealização do perfeito poderia existir, já que apenas um ser perfeito pode produzir outras coisas que são mais ou menos perfeitas, mas um ser imperfeito não poderia – por muito que tentasse – produzir um ser perfeito contudo pudesse produzir uma coisa perfeita ou que lembrasse a mesma.

Agora, se esse ser que é causa de todo o restante é perfeito, ele não pode ser alterado do seu estado de perfeição. Se ele é alterado para melhor, então não era perfeito. Já se é alterado para pior, então ele deixa de ser perfeito e alguma outra coisa (que não poderia existir porque teria que ser substancialmente idêntica ao ser perfeito que acaba de não mais ser) deveria ocupar seu lugar.

Logo, os gregos acertaram em cheio de que: se existe um deus deve ser apenas um e apenas ele ser causa de tudo e todos. Mas o que acontece quando esse trem se encontra com o outro trem do monoteísmo ao qual se chega por auto-revelação do divino? Esse ser criador perfeito e causa de todo, pode ter afeto? Pode sequer sentir alguma coisa?

O trem que vem em direção igual e contrária nos fala de um Deus que fica irado, que se alegra, que se arrepende de coisas que fez, que se entristece com as atitudes dos seus seres criados, mas que se alegra com sua companhia. E isso, meu querido leitor, vai necessariamente a bater de frente com as ideias fixistas gregas clássicas.

Para abreviar a história — não porque ela seja pouco importante, mas porque nosso caminho aqui aponta para outro lugar — podemos resumir dizendo que aqueles primeiros séculos foram marcados por tensão constante entre o mundo judaico, o pensamento grego e o poder romano. Então surge Jesus, dentro desse contexto: um judeu do primeiro século que seus discípulos passam a proclamar como o próprio Deus encarnado.

Depois de sua morte e ressurreição, o movimento cristão continua crescendo lentamente apesar das perseguições periódicas. Cerca de trezentos anos mais tarde, já no início do século IV, o cristianismo havia deixado de ser um pequeno grupo marginal e alcançava uma parcela significativa da população do Império Romano — embora os números exatos sejam discutidos pelos historiadores.

Constantino percebe essa mudança. Em 313, juntamente com Licínio, publica o Édito de Milão, garantindo liberdade religiosa aos cristãos e encerrando oficialmente as perseguições imperiais. Mais tarde, já no final do século IV, Teodósio I tornaria o cristianismo niceno a religião oficial do Império Romano através do Édito de Tessalônica.

Nesse contexto surge Agostinho de Hipona — mais tarde conhecido como Santo Agostinho — provavelmente uma das figuras mais influentes de toda a formação intelectual do cristianismo ocidental. Séculos depois seria reconhecido como um dos quatro grandes doutores da Igreja Latina.

Agostinho não escrevia no conforto de uma biblioteca isolada do mundo. Ele escrevia em meio a conflitos reais, tentando responder a problemas teológicos que ameaçavam a própria compreensão cristã de Deus, do homem e da salvação.

Entre essas disputas, duas se destacam especialmente.

De um lado, o maniqueísmo — religião à qual o próprio Agostinho havia aderido antes de sua conversão — ensinava uma espécie de dualismo cósmico, no qual bem e mal existiam como princípios quase equivalentes e eternos em conflito permanente. O universo seria resultado dessa tensão entre duas forças fundamentais.

Do outro lado, o pelagianismo afirmava que o ser humano, mesmo após a queda, preservava capacidade moral suficiente para responder positivamente ao chamado divino por sua própria vontade. O pecado teria ferido o homem, mas não destruído profundamente sua liberdade moral. Pelágio não negava a graça de Deus em absoluto — como às vezes se caricatura — mas entendia essa graça muito mais como auxílio, instrução, exemplo e revelação do que como uma intervenção absolutamente necessária para libertar uma vontade escravizada pelo pecado.

Agostinho reage de forma quase oposta. Para ele, depois da queda, o ser humano não apenas se inclina ao mal: ele está incapacitado de voltar-se verdadeiramente para Deus sem ação prévia da própria graça divina. A vontade continua existindo, mas profundamente adoecida. O homem ainda escolhe — mas escolhe sempre dentro dos limites de uma natureza corrompida. Em outras palavras: o problema não é ausência de vontade, mas incapacidade moral de desejar o bem último.

Mas isso é farinha de outro saco.

Para que o assunto não fique pendente: o pelagianismo acabava minimizando três coisas importantes para Agostinho e para boa parte da tradição cristã posterior: os efeitos radicais da queda, a escravidão da vontade humana ao pecado e a necessidade absoluta da graça preveniente. Séculos mais tarde, Jacobus Arminius tentaria navegar esse mesmo problema de forma mais equilibrada, preservando a necessidade da graça sem transformar o ser humano num simples objeto passivo da salvação.

Não que para Agostinho não houvessem atos civis bons. O ser humano (mesmo o mais perdido dos pecadores) ainda poderia amar seus filhos, construir cidades, escrever poesia, se sacrificar por alguma causa boa. Mas não consegue mover-se corretamente para Deus si só. Chega de modernismo por enquanto.

Diante disso, o neo-platonismo acabou funcionando para Agostinho quase como uma ferramenta intelectual de emergência. Não porque fosse idêntico ao cristianismo — claramente não era — mas porque oferecia categorias filosóficas mais compatíveis com a ideia de um Deus supremo, transcendente, origem de todo ser e de todo bem. Isso também não torna Agostinho um anti-herói. Mas na luta que lhe tocou travar em defesa da soteriologia, ele precisou escolher. Lembre que ele falava assim sobre Platão: “o mais próximo do cristianismo entre os pagãos”. O neoplatonismo acabou servindo a Agostinho como ponte filosófica para poder conversar com a intelectualidade do império Romano. E ele escolheu bem o lado.

O problema é que, junto com essas ferramentas, certas ideias gregas também entraram silenciosamente pela porta dos fundos. Entre elas, a noção de um Deus absolutamente impassível, incapaz de sofrer, ser afetado ou experimentar qualquer espécie de mudança relacional. E talvez seja justamente aqui que comece uma das tensões mais profundas entre o Deus da metafísica clássica e o Deus revelado nas Escrituras.

Faça um pequeno exercicio na sua comunidade ou com seus conhecidos. Pergunte simplesmente “Deus muda?” ou pior, “Podemos afetar Deus com nossas ações?”

Um texto – aliás talvez o único – que venha na cabeça dos seus interlocutores será o de “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” Tiago 1:17

E – não havendo categorias – se dá por sentado que não qualquer mudança no Criador. Trazendo assim – sem saber – ecos das posturas dos filósofos gregos que mencionávamos antes. Uma forma simples de resolver esse embroglio é que essencial e moralmente Deus não muda. Mas que ele sim tem mudado – e muito – no seu jeito de lidar com o Ser Humano.

Esse é um complicador. Não tanto pelo texto, mas pela herança que a negociação de Agostinho com o neo-platonismo trouxe para dentro da areia da teologia cristã. Lutamos então, não com categorias bíblicas, mas com categorias e definições alheias à escrituras e estranhas à revelação do próprio Deus para com seu povo escolhido ao longo de séculos.

O Deus bíblico faz coisas muito inconvenientes filosoficamente. Sem medo às acusações de antropopatismo em que a Bíblia frequentemente descreve Deus usando linguagem humana, preciso insistir em que a Biblia uma e outra vez insiste em um deus que de fato é Deus. E que tem afetos para além de meras figuras linguisticas. Especialmente ao atribuir-Lhe emoções como alegria, ira ou tristeza, vemos que Deus muda de atitude (se arrepende). Ele se ira. Ele ama. Ele responde oração. Ele desce para ver Babel. Ele chora por Israel por meio dos profetas. E em Jesus… ah… em Jesus, Deus sofre.

Se Jesus era apenas um “faz de conta” então tudo o que cremos do sofrimento (e das alegrias) de Jesus durante sua vida na terra não passam de pantomima. Se ele estava apenas se comportando como um ser humano perfeito, então era apenas um Deus disfarçado e um grande impostor. A grande conclusão à que os discípulos chegaram após a ressurreição era que Jesus é Deus. Ou para dize-lo de forma mais forte: Deus é Jesus.

Jesus não era um corpo adotado durante um período e abandonado para sofrer na cruz. Era ele mesmo, Deus, havendo tomado forma de carne e deixando de lado seus atributos não comunicáveis de lado assumindo plenamente a condição humana sem deixar de ser quem era. Claro, sem pecado pois o pecado não faz parte da figura original do ser humano. Um novo começo. Ou como diria Irineu de Lião na sua teoria da recapitulação: Uma nova cabeça [para uma nova criação].

João recolhe muito bem o anseio de mais de um de nós no seu capítulo 14: “Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” João 14:8 Fala a verdade. Se você pudesse ter acesso direto a Deus. Ao criador. Ao origem de tudo. Ao moto original. Àquele que não tem igual. Àquele que não pode ser substituído…. fala a verdade. Isso não seria suficiente para cair de joelhos e esquecer todo teu orgulho e argumentos vazios que tu precisas para sustentar a narrativa de uma existência sem Deus? Não seria isso que te tiraria do torpor de uma vida vazia e sem sentido para finalmente encontrar a paz?

E qual é a resposta de Jesus à pergunta mais profunda e existencial que qualquer homem poderia fazer em qualquer época? A mais simples e reveladora de todas: “Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14:9

Para desmentir isso, você precisa chamar Jesus de mentiroso. E isso vai contra não apenas a auto-revelação bíblica, mas contra milhares de pessoas que “.. não podiam deixar de falar do que tinham visto e ouvido … ” (paráfrases de Atos 4:20)


O Novo Testamento não tem medo algum de mostrar um Deus que é afetado. E nisso, ele é plena continuidade do Antigo Testamento. Dois Pactos, Duas Alianças o mesmo Deus manifestado de formas bem distintas, mas com um elo comum: Os Afetos.

“Jesus Chorou” talvez seja a frase mais simples e mais profunda da encarnação. É também a frase mais destruidora de toda a metafísica impassível aristotélica. Porque se Jesus, que é “a imagem exata do ser de Deus, chorou. Então o choro não é um acidente antropológico temporário. Uma prosopopeia para colocar bovino para adormecer. É revelação.

Talvez tenhamos protegido Deus tanto do sofrimento que acabamos protegendo-o também do amor.

Talvez o problema nunca tenha sido afirmar que Deus é perfeito. O problema foi imaginar perfeição como incapacidade de ser afetado. Porque o amor verdadeiro necessariamente implica vulnerabilidade relacional. Vejamos alguns exemplos:

O pai do filho pródigo. Sofre.

O noivo no livro de Oséias (e recomendo sua leitura). Sofre.

O Espirito Santo, pode ser entristecido.

Jesus, chora diante de Jerusalém.

Não porque Deus tenha perdido controle do plano, mas porque o plano era justamente “relacionamento” e relacionamento real sempre envolve afeto real.

Aristoteles queria proteger a perfeição; Agostinho queria proteger a transcendência; a tradição quis proteger Deus da mutabilidade; mas talvez, no processo, tenham protegido Deus também da vulnerabilidade do amor.


1) Pulemos Tomas de Aquino. Não porque não seja importante, mas porque o volume dele excede a capacidade de contenção de este pequeno conjunto de linhas e abriríamos mais vertentes. A qual delas mais interessantes.


2) Durante séculos tentamos proteger Deus da dor. Como se sofrer fosse indigno dele. Mas o evangelho, parece caminhar na direção oposta. A cruz não revela um Deus incapaz de ser afetado. Revela um Deus que ama profundamente demais para permanecer distante


3) Existem duas coisas que a Bíblia parece afirmar ao mesmo tempo. E – segundo minha opinião – não nos compete desmontar ou desfazer essa tensão, mas aplica-la como tal. Uma das coisas é “Deus age segundo um propósito eterno” (devo confessar aqui por pura honestidade intelectual que essa ideia me atrai muito) e a outra coisa é “Deus ama de forma viva, relacional, verdadeira”

O nosso problema começa quando tentamos transformar uma dessas coisas na negação da outra. Se tudo em Deus é apenas a execução fria de um decreto eterno, então o amor corre risco de virar apenas mecanismo. A cruz seria “o plano” apenas isso.

Mas o Novo Testamento não fala assim. Ele diz:

“Deus amou o mundo de tal maneira

E não diz:

“Deus executou consistentemente um protocolo metafísico eterno

Existe afeto ali. Existe desejo. Existe… entrega.


4) Pensamos nestas categorias: ou Deus age racionalmente ou Deus age afetivamente.

Mas talvez Deus não esteja dividido (assim como o homem é uma só coisa mesmo que possamos dividir para estudar)

Então, talvez o amor não seja um impulso irracional posterior ao ser divino. Como coisa adquirida ou monopolizada posteriormente a… sei lá. Fica complicado. Deus é eterno e se adquire alguma coisa “depois” de algo, então onde esse algo estava…

Talez o amor seja precisamente o que Deus eternamente é. João explode com tudo ao dizer “Deus é amor”. Se bem alguns entendem que amor é qualquer coisa parecida com libertinagem, ao passo que outros entendem que “Deus possui amor” … muito amor, mas apenas o possui….. A revelação diz que Deus “É “amor ]


5) A cruz não cria o amor de Deus. Ela o revela de uma forma singular (volte lá no topo no uso da palavra “singularidade”) dentro (isso diz muito mais do que consigo expressar em palavras) da história humana.


Jonathan Edwards entra quase como um eco tardio disso tudo. Um homem profundamente reformado, profundamente racional, mas que percebeu algo que muita teologia posterior a Agostinho tinham anestesiado: os afetos não são inimigos da verdade. São parte da própria maneira como fomos feitos para responder a Deus.

Talvez os afetos não sejam um defeito inferior da existência humana

Assim como quando andamos pela BR-116, todo cuidado aqui é pouco. “Afetos” em Edwards não é sentimentalismo Repare. Do outro lado do oceano, no velho mundo, o movimento era exatamente esse. Também não é “emoção passageira” e muito menos “histeria religiosa” coisas das quais, qualquer pessoa que leve a vida a sério deve fugir.

Para Edwards, “affections” (pobremente traduzida por afetos nas línguas neo-latinas) eram as inclinações profundas do coração. Agora. Para e pensa nisso. Não estamos falando de um Católico ou de um Protestante. Estamos falando de um Reformado. Sério… é um bom momento para ir lá fora espairecer.

Este homem era conhecido por andar muito a cavalo. E ele costumava pensar muito e se perder em suas cavilações. Contam que ele levava papeis e linha de costura. Anotava as ideias e as costurava no sobretudo dele. Era a esposa dela quem organizava isso tudo depois. Haja trabalho.

Fim da pausa.

Para Edwards (1703-1758) afetos são os amores que verdadeiramente movem a alma. Aquilo fundamental que movimenta a vontade. Dito de outra forma, ninguém se movimenta para coisa nenhuma apenas por ter concluído logicamente que aquele é um bom passo. A lógica tem seu papel, mas ele se movimenta porque ama algo.

Minha esposa (que é terapeuta) há alguns anos se referindo ao meu ministério ela disse “Obvio que para você não pesa. Você ama isso tudo”. E essa frase resume o pensamento de Edwards de uma forma brutal.

Séculos depois Freud, seu discípulo Jung, a neuro-ciência a psicologia cognitiva iriam redescobrir isso. Mas o próprio Edwards não é original na sua ideia. A Bíblia fala “a boca fala do que está cheio o coração.” Mateus 12:34 e também “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” Mateus 6:21

O ser humano, raramente é movido pela razão pura. Veja o que rola com grandes líderes políticos mundiais. Sério que você acha que algum deles se movimenta por pura razão? Considere Pondé, Karnal, Mosé, Cortella, Clóvis de Barros Filho. São eles movidos pela razão pura? Não… Há afetos, temores, e toda sorte de mundo subterrâneo oculto neles. A razão acaba fazendo parte do arcabouço comunicacional deles. Mas não é a razão que os move. A causa original é um afeto nem que seja o afeto à própria voz proferida em alto som.

Agora, Edwards não defendia um um Deus mutável emocionalmente. Ele continua dentro da tradição clássica em muitos aspectos. O que ele sim faz é reposicionar os afetos como parte essencial da espiritualidade humana. Friso a palavra “essencial” e “espiritualidade” aqui. Isso faz muita diferença: “Os afetos não são inimigos da verdade”

O homem não é movido apenas por ideias, mas por afetos. Eles se entrelaçam. E não poderia ser de outra forma. Por mais que adotemos um paradigma dicotômico (corpo e espírito) ou tricotômico (corpo, alma e espirito) é inegável que apenas podemos fazer essa divisão aos efeitos do estudo. A morte prova esse ponto. Do mesmo jeito, razão e afeto estão intrinsicamente mesclados mas que geralmente damos mais atenção a um que a outro ou entendemos ser mais importante um do que outro.

Então eis a essencialidade da espiritualidade humana: os afetos fazem parte inseparável dela. Porque ao tentar separar ela, você acaba tendo apenas uma parte oca, morta.

O ser humano faz aquilo que ama. (E o contrario nem sempre é verdadeiro. Viva a ambivalência)

Talvez por isso Edwards tenha percebido algo que muita teologia excessivamente racionalizada começava a esquecer: ninguém se relaciona com Deus apenas por conclusão lógica. A própria fé envolve desejo, encanto, temor, amor, alegria, reverência e beleza.

Ou dito de outra forma: você nunca na vida vai convencer ninguém sobre ser Deus a causa única da existência humana. Ou a pessoa ama a Deus ou o detesta. As duas coisas fará com todas suas forças, com todo seu coração e com toda sua alma. Daí que alguns – se dizendo cristãos – podem fazer rituais pagãos. Porque não há afetos envolvidos na relação com Deus, seu criador, apenas razão, conveniência, sociedade.

O problema do ser humano não seria apenas ignorância intelectual, mas desordem afetiva. Não amamos pouco. Amamos errado.

E talvez seja justamente aqui que a cruz deixa de ser apenas um mecanismo jurídico eterno e passe a revelar algo muito mais profundo: que o próprio fundamento da realidade não é indiferença, mas amor.


E o “Deus dos afetos” do título, onde fica?

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” Efésios 2:10

“E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Gênesis 1:27

Talvez seja justamente por isso que a Bíblia insista tanto no coração humano.

Porque no fim das contas, o homem sempre se move na direção daquilo que ama.

E talvez o fato de sermos criaturas tão profundamente afetivas diga mais sobre o Criador do que estivemos dispostos a admitir durante séculos.

Afinal, o fruto raramente cai longe da árvore.

μιμητής: ensaiando a justiça do Reino

Há uma angústia particular em descobrir que a conversão não nos tornou aquilo que imaginávamos.

Durante muito tempo, eu abracei uma visão quase instantânea da vida cristã. Jesus entrava na vida da pessoa e, a partir dali, as coisas se reorganizavam de modo definitivo. No seminário, estudando Nygren e outros, compreendi que a linguagem bíblica sobre o “velho homem” e o “novo homem” talvez não descreva duas partes coexistindo dentro de nós, como se houvesse um lado mau e outro bom disputando espaço no interior da alma. A ênfase parece recair mais sobre dois mundos, duas ordens de realidade, dois tempos que se sobrepõem. O velho século, ainda marcado pelo pecado, pela Lei e pela morte, continua exercendo sua pressão sobre nós. Mas, na ressurreição de Cristo, um novo tempo já foi inaugurado. A nova criação já começou, ainda que não tenha se manifestado em sua plenitude. A vida cristã é, em grande medida, o aprendizado de viver segundo essa realidade futura enquanto ainda caminhamos num mundo que insiste em operar segundo a lógica antiga.

Logo, o velho homem (a velha criação) ficava para trás em nós, e os pecados perdiam a força, os impulsos desordenados eram vencidos, e a santificação seguia seu curso natural, como se a graça de Deus funcionasse também como uma espécie de reestruturação imediata da alma.

Durante muitos anos eu lia textos como Gálatas 2:20 — “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” — como quem lê a ata de um fato consumado. Na minha compreensão, o velho homem havia sido definitivamente encerrado, e o restante da vida cristã consistia apenas em administrar as consequências dessa realidade. O mesmo acontecia com a afirmação de que “os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências”. Eu tomava o verbo no passado como prova de que a batalha essencial já havia sido vencida. Restava apenas viver à altura daquilo que, em tese, estava resolvido.

Era uma visão coerente. Tinha sua beleza. E, confesso, trazia certo alívio. Se a conversão resolvesse tudo de uma vez, então bastaria entregar-se sinceramente a Cristo e o restante viria quase por acréscimo.

O problema é que a vida não respeitou essa teologia.

E quando a vida decide desmentir uma ideia, ela raramente o faz de forma delicada.

No início do meu ministério, eu cria nisso com convicção. Não se tratava apenas de uma doutrina abstrata. Era também a maneira como eu me compreendia. Se eu havia conhecido a Cristo, então as regiões mais profundas do meu coração deveriam estar devidamente ordenadas. Talvez ainda houvesse pequenos ajustes a serem feitos, mas a estrutura essencial estaria pronta.

Hoje me parece evidente que essa expectativa carregava mais idealização do que realidade.

Em janeiro de 2003, durante o casamento da minha irmã, entrei numa livraria da Mundo Hispano e assisti um filme de Max Lucado, Hermie & Wormie. A história de uma lagarta inquieta por ainda não ser a borboleta que um dia se tornaria me pareceu, naquele momento, apenas uma metáfora bonita. Terminei em lágrimas.

Meses depois, em junho do mesmo ano, cometi adultério.

E aquilo que eu julgava relativamente sólido desmoronou diante dos meus olhos.

Não foi apenas o pecado em si que me abalou. Foi a constatação de que alguém pode conhecer o evangelho, pregar o evangelho, defender o evangelho e, ainda assim, permanecer internamente muito menos transformado do que gostaria de admitir.

Foi doloroso perceber que o problema não era apenas moral. Havia em mim estruturas antigas, mecanismos de defesa, carências profundas, medos, compensações e formas de lidar com a vida que continuavam operando silenciosamente sob uma superfície aparentemente piedosa.

Talvez seja isso que Romanos 5 e 6 descrevem ao falar do Pecado quase como um personagem que entra em cena e passa a exercer domínio sobre a humanidade. Não me parece que Paulo esteja dizendo que o pecado constitui a essência do ser humano, como se fôssemos maus em nossa substância mais profunda. A linguagem bíblica aponta em outra direção. 1 Pedro fala da corrupção “que há no mundo”, e Hebreus descreve “o pecado que tenazmente nos assedia”. A imagem não é a de algo que pertence originalmente a nós, mas de uma força que nos cerca, nos pressiona e, quando baixamos a guarda, acaba nos arrastando exatamente para os lugares aos quais jurávamos jamais retornar.

Demorei anos para aceitar que a vida cristã não é a substituição instantânea de um velho mecanismo por outro mais eficiente, mas um processo lento e, por vezes, humilhante, no qual vamos sendo conformados à imagem de Cristo.

E aqui a palavra “imagem” precisa ser levada a sério.

Não imitamos Deus em sua essência. Rudolf Otto estava certo ao lembrar que Deus é o totalmente outro, o santo que escapa a todas as nossas categorias. Há em Deus uma alteridade que não pode ser reproduzida por esforço humano.

Mas em Jesus, esse Deus se fez visível.

O que antes era inacessível tornou-se concreto. O amor de Deus passou a ter rosto, voz, gestos, lágrimas, silêncio, cansaço, compaixão e obediência.

Por isso o Novo Testamento usa com tanta naturalidade a linguagem da imitação. Paulo pode dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. Não porque a vida cristã seja uma encenação superficial, mas porque a transformação acontece justamente quando passamos a organizar nossa existência em torno daquele que finalmente revela o que significa ser humano.

Durante algum tempo, a ideia de imitar a Cristo me soava artificial, quase como um exercício externo de copiar comportamentos. Algo parecido com a proposta de Em Seus Passos Que Faria Jesus?, que, embora bem-intencionada, pode facilmente reduzir o discipulado a uma espécie de moralismo ilustrado.

Hoje vejo de outro modo.

Hoje continuo crendo em Gálatas 2:20, mas já não o leio como uma fotografia estática de algo plenamente concluído. Vejo ali uma realidade objetiva inaugurada em Cristo, cuja apropriação concreta se estende ao longo de toda a vida. Em alguns momentos, tenho a impressão de que certos pecados que ainda persistem em nós são justamente os pregos e os flagelos desse processo. Eles expõem o quanto ainda resistimos à obra de Deus e, ao mesmo tempo, se tornam os instrumentos dolorosos pelos quais o velho homem vai sendo, de fato, levado à cruz. Cristo morreu de uma vez por todas; nós, ao que parece, vamos aprendendo lentamente o que significa morrer com ele.

Esses pecados (que se você pensa bem nunca são originais e sempre são os mesmos) expõem o quanto ainda somos atraídos pela lógica do mundo antigo e, ao mesmo tempo, se tornam os instrumentos dolorosos pelos quais vamos sendo arrancados, pouco a pouco, da velha ordem de coisas e ensinados a viver segundo a realidade inaugurada em Cristo

Imitar a Cristo não é representar um personagem. É permanecer diante dele tempo suficiente para que sua maneira de existir comece, pouco a pouco, a deslocar a nossa. É continuar voltando ao evangelho quando percebemos, com certo constrangimento, que ainda reagimos mais como Adão do que como Jesus. É aceitar que a graça não opera apenas nos momentos luminosos, mas também no reconhecimento sincero de que ainda há muito em nós que precisa morrer para que algo verdadeiramente novo possa nascer.

Talvez a imagem mais honesta da vida cristã seja mesmo a de uma criança brincando de ser aquilo que ainda não é.

Ela segura um caminhão de plástico, faz curvas imaginárias, troca marchas invisíveis e, por alguns instantes, vive antecipadamente uma realidade que ainda não domina. Ninguém a acusa de falsidade. Ao contrário, entendemos intuitivamente que é justamente assim que o desejo, a imaginação e a identidade vão sendo formados.

A vida cristã guarda algo dessa lógica.

Ensaiamos o perdão antes que ele nos pareça natural. Ensaiamos a confiança quando tudo em nós continua inclinado ao medo. Ensaiamos a mansidão quando a agressividade ainda parece mais espontânea. E nesse processo, às vezes lento o suficiente para nos humilhar, descobrimos que Cristo não nos pede que aparentemos uma transformação já concluída. Ele nos convida a permanecer nele enquanto, entre quedas e recomeços, a sua vida vai adquirindo forma em nós.

Talvez essa seja uma das lições mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais libertadoras do evangelho: a de que Deus não trabalha conosco a partir da ficção de quem imaginávamos ser, mas a partir da verdade de quem de fato somos. E, ainda assim, com uma paciência que muitas vezes excede a nossa própria capacidade de compreensão, ele continua nos conduzindo na direção daquilo que, em Cristo, um dia seremos.

As ferramentas do pai

Há algo doloroso em perceber que certas ferramentas que nos ajudaram a sobreviver não conseguem mais nos ajudar a viver.

Talvez seja isso que existe por trás daquela fala de Jesus sobre vinho novo e odres velhos. Normalmente lemos o texto pensando em religião, tradição, estruturas espirituais. E tem isso também. Mas talvez exista algo mais íntimo ali. Mais doméstico. Mais silencioso. Porque às vezes os “odres velhos” são maneiras antigas de lidar com a vida. Formas herdadas. Reações aprendidas. Ferramentas emocionais que vieram dos nossos pais.

Nem sempre ruins. Nem sempre malignas. Apenas limitadas.

Sonhei com a caixa de ferramentas do meu pai.

Meu pai já morreu. Durante muito tempo, quando ele aparecia nos meus sonhos, vinha para me destruir. Gritava, perseguia, batia. Era como se dentro de mim ainda existisse um pai não reconciliado. Não exatamente ele, mas aquilo que ficou dele em mim. A sombra. A marca. A dor.

Mas os sonhos mudaram.

Desta vez ele apareceu vivo, colaborando comigo. Estávamos mexendo em um carro lindo, azul celeste, desses carros que parecem liberdade em forma de máquina. O carro era meu, mas o motor tinha problemas. Meu pai conseguiu fazê-lo funcionar usando as ferramentas dele. E isso importa. Porque as ferramentas dele serviram até certo ponto. Funcionaram para colocarem o carro em movimento.

Só que depois vieram problemas mais complexos. Parte elétrica. Alternador. Bateria. Ligações erradas. Eu tinha amigos comigo que entendiam de mecânica. Eu mesmo sabia algumas coisas. Mas não conseguíamos resolver. Faltava ferramenta. E no sonho isso era muito claro: o que tínhamos nas mãos não bastava para aquele carro.

Acho que a vida adulta é, em parte, descobrir isso sem odiar nossos pais.

E talvez exista humildade nisso. Porque algumas ferramentas novas eu não encontrei sozinho. Vieram através de gente que aprendeu a lidar com aquilo que a geração anterior apenas suportava. Parte do que tenho aprendido sobre raiva, dor, silêncio e afeto veio de conversas que meus pais nunca tiveram acesso para fazer. Psicólogos. Psiquiatras. Gente que muitos cristãos ainda olham com desconfiança, como se buscar ajuda fosse falta de fé. Mas talvez graça também seja isso: Deus nos alcançando através de pessoas que nos ajudam a enxergar aquilo que sozinhos não conseguimos.

Eles nos entregaram o que tinham. Ferramentas que talvez tenham servido para sobreviver ao mundo deles. Raiva. Rigidez. Silêncio. Controle. Medo. Defesa constante. E muitas vezes essas ferramentas realmente funcionaram. Mantiveram a família de pé. Colocaram o carro para andar.

Mas chega uma hora em que o motor da nossa própria vida exige outra coisa.

Não porque sejamos melhores que eles. Apenas porque estamos diante de problemas diferentes. Relações diferentes. Dores diferentes.

Há homens que aprenderam com o pai a engolir tudo até explodirem. Outros aprenderam a controlar tudo porque o caos era insuportável. Outros nunca aprenderam a nomear emoções porque ninguém antes deles soube fazê-lo. E então tentam amar usando ferramentas que serviam para guerra.

Talvez por isso tanta ruptura seja necessária.

Não ruptura para desprezar o passado. Nem para transformar os pais em vilões baratos da nossa história. Mas ruptura suficiente para que o vinho novo não arrebente o odre. Porque há coisas novas que Deus tenta formar em nós e que simplesmente não cabem mais nos velhos padrões.

Às vezes honrar os pais também significa parar de repetir certas coisas. Não por rebeldia. Por cura.

Quando acertamos quem ele é — e erramos tudo o resto

Até Marcos 8:27-30, tudo é movimento, milagre, autoridade sendo demonstrada (mas ainda meio “ambígua”), curas, expulsão de demônios, ensino com autoridade. E as pessoas ficam tentando encaixar Jesus em categorias conhecidas: Elias, profeta, João Batista. Ou seja, é uma admiração sem compreensão. Manifestação de poder, mas sem definição clara. Quem é Jesus, ao final das contas?

Não é exagero dizer que o evangelho inteiro de Marcos gira ao redor dessa pergunta que acha sua resposta nas palavras de Pedro.

Depois deste ponto, o evangelho muda completamente. Jesus começa a falar abertamente sobre sofrimento, rejeição e morte. Se antes era “quem é esse?” agora é “o que significa segui-lo?”. A coisa não é mais sobre revelação de poder, mas revelação de propósito. Mas com um claro diferencial: esse propósito (e os caminhos que Jesus iria escolher) desmonta as expectativas de todo mundo. Inclusive a do próprio Pedro a seguir.

Pedro acerta o diagnóstico: “Tu és o Cristo”, mas erra o significado disso. Não há culpa nem intencionalidade nesse erro. Apenas a palavra estava prestes a ser preenchida com o conceito correto e não com o que, a través dos últimos séculos, as pessoas tinham imaginado que seria. Ele ainda pensa pela ótica humana: poder político, vitória visível, glória sem cruz.

Não é em vão que poucos versículos depois, Pedro seja chamado por Jesus de Satanás. Não por irrelevante, mas por ser representativo demais. Ele verbalizou o que todos estavam pensando e não se atreviam a dizer.

Então não, Pedro não é a cabeça da Igreja, mas é o primeiro a confessar corretamente quem é Jesus. Todavia, não entende como isso se desenrola. A Igreja não se sustenta na pessoa de Pedro, mas na realidade que ele declarou e que ele mesmo precisou aprender depois, na prática. E não de forma muito suave que se diga.

Agora voltemos a atenção a Jesus. Estamos justo no momento em que ele deixa de ser personagem para ser o Cristo. Enquanto ele é só personagem você admira, aprende, se emociona. Mas você continua no controle. Ele é referência, não senhor. Ele pode ser mestre, filosofo, amoroso, amigo, firme, confidente, instrutor, conselheiro e um sem número de coisas mais. Todas elas positivas. Mas não seu senhor. E é esse o ponto de virada.

Dá para encaixar Jesus na sua vida. Mas só se for como ele quer.

Quando ele é “o Cristo” todas essas funções que correspondem a uma personagem histórica acabam. Me acompanhe no seguinte pensamento: você pode admirar Napoleão, mas não tenta ajustar sua vida à vontade dele. O mesmo se aplica a Jesus. Se não há o empenho deliberado de ajustar seus pensamentos e condutas aos dele, não é seu senhor. É apenas uma personagem histórica passível de admiração

“Cristo” não é sobrenome – significa “ungido”. É função, identidade messiânica, centralidade histórica. E isso reorganiza tudo. Expectativas, planos, identidade.

E isso é bem incômodo. Talvez assentimos intelectualmente com a ideia. Talvez consentimos emocionalmente por medo da condenação eterna. Mas quando paramos para ver o que “o Cristo” demanda, a história muda completamente de perspectiva. Reconhecer Jesus como Cristo não traz conforto imediato; traz crise. Porque você percebe que o caminho dele não evita a cruz, mas passa por ela. Seguir a Cristo não é como uma religião na qual se adiciona um conjunto de ritos de crenças à vida. É reinterpretar toda a vida e tudo o que acontece à luz dele e seu conjunto de valores e princípios.

Antes de Marcos 8, as pessoas seguem Jesus porque ele faz sentido. Se encaixa dentro de todas as categorias que o senso comum do momento impõe. Depois de Marcos 8, só continua quem aceita que ele nem sempre vai fazer sentido. Mas ainda assim é “o Cristo”

E agora, vai fazer como?

Autoridade que não reage

Mateus 21:28-32 e Lucas 15:11-32

Tem algo nessas parábolas que, se a gente leva a sério, começa a incomodar de um jeito meio difícil de explicar. Não é um incômodo barulhento, não é uma discordância teológica, dessas que a gente resolve escolhendo um lado. É mais silencioso. Vai ficando ali, como se o texto estivesse mostrando alguma coisa que a gente preferia não ver com tanta clareza.

Porque, no fundo, a gente está acostumado a um certo tipo de lógica. Se há autoridade, então há controle. Se alguém tem razão, então vai corrigir quem está errado. Se existe um pai, espera-se que ele conduza os filhos até o comportamento certo, de um jeito ou de outro.

Só que essas parábolas não seguem essa lógica.

Em Mateus, o pai diz: vai trabalhar hoje na vinha. Um responde que não quer. O outro diz que vai, mas não vai. E o texto não mostra o pai ajustando isso. Não há segunda fala, não há reforço, não há reação visível. A palavra foi dita, e fica ali.

Em Lucas, a coisa se abre ainda mais. Um filho pede a herança e vai embora. E o pai deixa. Não há tentativa de impedir, não há negociação. O outro filho permanece, mas não entra na alegria do pai, e também não é forçado a entrar. O pai se aproxima, conversa, mas não arrasta.

Isso cria uma tensão estranha.

Porque, olhando rápido, parece até falta de autoridade. Como se o pai estivesse abrindo mão de algo que deveria exercer. Mas, ficando um pouco mais, começa a aparecer outra coisa. Não é falta de autoridade. É outro tipo de autoridade.

Uma autoridade que não reage.

E isso é difícil de aceitar, porque o nosso jeito mais natural é justamente o contrário. A gente reage o tempo todo. Reage quando é contrariado, quando o outro não responde como deveria, quando algo sai do controle. E, quase sem perceber, a nossa ideia de autoridade vai sendo construída em cima dessa reação.

A gente corrige para manter ordem.
Pressiona para garantir resultado.
Insiste para evitar o erro do outro.

Existe sempre uma urgência por trás.

O pai das parábolas não parece carregado por essa urgência.

Ele fala com clareza, mas não entra em crise quando não é atendido. Ele sustenta o que é dele – a vinha, a casa – mas não usa isso para forçar o outro a se alinhar. E, ao mesmo tempo, ele não se afasta. Quando há retorno, ele se move. Quando há resistência, ele se aproxima. Mas não invade.

Isso vai desenhando uma coisa que não encaixa bem no nosso padrão.

Porque não é ausência.
Mas também não é controle.

É uma presença que não reage no automático.

E talvez seja isso que mais desestabiliza. Porque, em algum nível, todos nós ocupamos pequenos espaços de autoridade. Às vezes bem pequenos, quase imperceptíveis. Mas estão ali. Em casa, no trabalho, nas relações mais simples.

E nesses lugares, quase sempre, a gente funciona diferente.

A gente mede se está dando certo pela resposta do outro.
A gente se altera quando o outro não corresponde.
A gente tenta ajustar o comportamento alheio para recuperar alguma sensação de ordem.

Sem perceber, a autoridade vai ficando dependente da reação que ela provoca.

O pai das parábolas não depende disso.

Ele continua sendo quem é, mesmo quando o outro diz “não”.
Mesmo quando o outro vai embora.

E isso muda o peso da coisa.

Porque, de repente, não se trata mais de “como fazer o outro responder melhor”, mas de “como permanecer inteiro quando o outro não responde”.

Isso não é natural. Não vem automático. Não dá para transformar em técnica. Mas, uma vez que isso é visto, começa a aparecer de vez em quando.

Um pequeno intervalo antes de reagir.
Uma decisão de não apertar mais.
Uma firmeza que não precisa se provar.

São momentos curtos, quase imperceptíveis. Mas têm uma qualidade diferente.

Talvez seja assim que essas parábolas começam a sair do texto e entrar na vida. Não como algo que a gente aplica, mas como algo que, depois de visto, começa a deslocar o jeito como a gente vive – especialmente quando ninguém está olhando.

E aí a pergunta já não é mais sobre os filhos.

É sobre o tipo de autoridade que a gente exerce sem perceber.

Suportar também é amar

Tem um negócio em Colossenses que a gente lê rápido… mas, se parar pra pensar, é pesado:

“Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos.”

A gente foca no perdão. Mas antes vem o “suportar”. E suportar não é bonito.

Sim, suportar é servir de suporte ao outro, mas sob que condições que Paulo precisa falar em perdão?

Logo suportar é… aturar mesmo.

É quando o outro fala uma coisa que irrita.
Faz algo que você já pediu mil vezes pra não fazer.
Tem um jeito que te cansa.

E você pensa:

“de novo isso…”

A gente tem uma ideia meio romantizada de relacionamento.

Que vai fluir.
Que vai ser leve.
Que vai encaixar.

Não vai.

Conviver é difícil. Porque o outro não é você. E mesmo se fosse, já pensou ter que aturar alguém igual a você? Ou você acha que é o ser mais harmonioso e esbelto sobre a face da terra?

o outro não vai ser do jeito que você acha que deveria ser

E aí entra o ponto do texto. Não é só “perdoai-vos”.

É:

suportai-vos… e perdoai-vos

Ou seja, uma coisa segura a outra. Se não tiver perdão… não tem como suportar ninguém por muito tempo.

Porque vai acumulando. Pequenas coisas. Pequenas irritações. Pequenas decepções.

E quando você vê… já não quer mais nem estar perto.

Só que tem um detalhe meio incômodo nisso tudo:

você também é o “outro” na vida de alguém

Você também irrita. Também falha. Também cansa.

Então o jogo não é:

“como eu aguento o outro?”

É:

como a gente continua convivendo sendo imperfeito?

E Paulo responde:

“assim como o Senhor vos perdoou…”

Esse é o padrão. Não é o comportamento do outro. É o que Deus já fez com você. No fim das contas, relacionamento não se sustenta porque dá certo. Se sustenta porque existe perdão o tempo todo.

E às vezes amar não é sentir nada bonito.

É só isso aqui:

“ok… eu vou relevar isso de novo”

E seguir.

Amar não é concordar

Existe uma confusão bem comum quando se fala em “amor”. Muita gente entende que amar o próximo significa aceitar tudo, concordar com tudo e nunca confrontar. Como se amor fosse sinônimo de aprovação.

Mas não foi isso que Jesus ensinou.

Quando ele disse: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”(Mt. 22:39) Ele não está falando de passar pano para o erro. Está falando de responsabilidade.

Ninguém que se ama de verdade deseja permanecer no erro. Logo, amar a si mesmo não é se enganar. Não é justificar o próprio pecado ou terceirizar a responsabilidade. É reconhecer, se arrepender e buscar transformação.

Então, amar o próximo como a si mesmo implica exatamente isso: Não abandonar o outro no erro.

Quando Ele diz:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39)

Ele não está criando uma ideia nova. Ele está citando diretamente:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Levítico 19:18)

E o contexto desse texto é muito claro — e pouco lembrado.

Antes desse versículo, está escrito:

“Não odiarás teu irmão no teu coração; certamente repreenderás o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele.” (Levítico 19:17)

Jesus nunca confundiu amor com permissividade. Ele acolhia, sim. Mas também dizia: “Vai e não peques mais.” (João 8:11) Ou seja, há graça, mas há direção.

O problema é que confrontar em amor exige coragem.

É muito mais fácil ficar em silêncio, evitar o desconforto, manter uma falsa paz.

Mas isso não é amor. Isso é omissão

O verdadeiro amor não humilha, não expõe desnecessariamente, não agride. Mas também não se cala diante do que destrói o outro.

Paulo fala a mesma coisa: “Seguindo a verdade em amor” (Efésios 4:15)

Sem verdade, o amor vira sentimentalismo e a verdade vira dureza.

O equilíbrio é uma jóia rara. Mas é o caminho. Aliás, talvez seja “O” caminho

Amar alguém, de verdade, é querer vê-lo inteiro. E, às vezes, isso passa por dizer o que ele não quer ouvir. Com cuidado, com respeito. Mas com a verdade.

Quando Deus não resolve, mas sustenta.

Têm coisas na vida que a gente, ora, clama, insiste, pede… e não mudam

Isso incomoda. Porque, no fundo, a gente acredita que, se Deus quiser, Ele resolve. E resolve mesmo. Só que nem sempre. E, confie, entre o que você quer e o que Deus quer, o que Deus quer vai ser realizado.

Paulo fala de um “espinho na carne”. Algo que o incomodava profundamente. Ele orou três vezes para que aquilo fosse tirado dele. Não era pouca coisa. Era sofrimento real.

E a resposta de Deus não foi a que ele queria:

“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” 2Cor. 12:9

Deus não removeu. Deus sustentou.

Isso quebra uma expectativa nossa. Porque a gente associa Deus com solução. Mas às vezes Ele se apresenta como sustento. Nem tudo vai ser resolvido no jeito ou no momento que a gente quer. Aliás, algumas coisas permanecem. Não como castigo, mas como terreno para cultivo, ambiente, contexto.

E é nesse contexto que algo mais profundo acontece.

Paulo chega a dizer que se gloria nas fraquezas. Não porque gostasse de sofrer, mas porque entendeu algo: quando ele é fraco, então é que é forte.

A intuição nos levaria para outro lado. A gente preferiria ter força antes do que fraqueza. Deus, porém, muitas vezes trabalha ao contrário.

Talvez maturidade não seja ver todos os problemas resolvidos como criança mimada. Talvez seja permanecer inteiro mesmo quando algumas coisas não mudam.

Isso não é passividade ou desistência. É confiança.

Confiança de que Deus não perdeu o controle só porque a situação não mudou.

E, às vezes, o maior milagre não é a remoção do espinho, mas é você continuar de pé… com Ele.

A linguagem insuficiente

Ankersmit sugere que o encontro direto com o sagrado transcende a linguagem. A experiência precede o conceito. Antes da formulação, há o impacto. Antes da doutrina, há o abalo.

Como explicar a criação senão por meio de poesia? O próprio Gênesis já nasce ritmado, estruturado em cadência, repetição e paralelismo — quase um hino cósmico. E os Salmos ecoam esse mesmo movimento: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 19.1). Não é tratado científico; é canto. A criação não é descrita, é celebrada.

O mesmo ocorre com as experiências fundantes da fé bíblica. Como colocar em palavras o encontro de Moisés com a sarça ardente? O texto não explica o mecanismo do fogo que não consome; ele preserva o espanto. O chão torna-se santo. A voz chama pelo nome. Moisés tira as sandálias. A experiência é maior que o relato. A narrativa é apenas vestígio.

Isaías, no ano da morte do rei Uzias, não descreve Deus em categorias sistemáticas; ele vê serafins, fumaça, tremor, santidade triplicada: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3). A linguagem se fragmenta em repetição, porque a intensidade ultrapassa a sintaxe comum. O profeta não organiza conceitos — ele é desfeito e reconstruído: “Ai de mim!” (Is 6.5).

Paulo, no caminho de Damasco, experimenta luz, queda, cegueira, voz. Depois, anos mais tarde, ainda fala com cautela: “conheço um homem… foi arrebatado ao terceiro céu… ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar” (2Co 12.2–4). A linguagem reconhece seu próprio limite.

Os Salmos são talvez o testemunho mais honesto dessa insuficiência. Eles não tentam domar a experiência de Deus; eles a expõem. Há momentos em que o salmista não explica — ele geme: “Até quando, Senhor?” (Sl 13.1). Em outros, o silêncio é a única resposta adequada: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). E há ocasiões em que a única possibilidade é o assombro: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; é sobremodo elevado, não o posso atingir” (Sl 139.6).

Aqui a tese de Ankersmit encontra eco bíblico: há experiências que falam mais do que palavras. A linguagem não cria o encontro; ela tenta sobreviver a ele. Primeiro vem o abalo, depois a metáfora. Primeiro a presença, depois o salmo.

Contudo, essas experiências não terminam no silêncio absoluto. Elas inauguram missão. Moisés desce do monte para confrontar Faraó. Isaías responde: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6.8). Paulo se levanta do chão para anunciar Cristo entre as nações. O encontro que transcende a linguagem não paralisa — ele reorienta a existência.

É significativo que a Escritura recorra constantemente à linguagem simbólica, profética e poética. A fé bíblica nasce não apenas da explicação, mas do encontro. E porque o encontro é maior que o discurso, a linguagem se expande em imagens: rocha, pastor, refúgio, fogo consumidor, vento impetuoso, água viva. O Salmo 18 não diz apenas que Deus ajuda; diz que “a terra se abalou e tremeu… fumaça subiu de suas narinas” (Sl 18.7–8). A metáfora não é exagero literário; é tentativa de traduzir o indizível.

A insuficiência da linguagem não é fracasso da fé. É sua marca de autenticidade. Uma fé que cabe perfeitamente em definições talvez nunca tenha passado pelo deserto. A Bíblia preserva a tensão entre revelação e mistério. Deus se revela, mas não se reduz.

Talvez por isso o louvor seja a forma mais adequada de teologia. Ele admite que explicar não basta. Ele canta. Ele chora. Ele clama. Ele silencia. Como diz o Salmo 62.1: “Somente em Deus espera silenciosa a minha alma.” Às vezes, o silêncio é a confissão mais verdadeira.

No fim, a linguagem é sempre tentativa. O encontro é sempre maior. E é dessa desproporção — entre o que foi vivido e o que pode ser dito — que nasce a fé bíblica: não como discurso fechado, mas como resposta contínua ao Deus que se deixa encontrar e, ao mesmo tempo, permanece inexprimível.